“Tal música não existia no mundo antes de ele a ter escrito” – palavras de Anna Magdalena, segunda esposa de Bach

Monumento dedicado a Bach, desde 1908, em frente à igreja de St. Thomas, onde Johann Sebastian Bach está enterrado em Leipzig, Alemanha.

Eisenach 1685-1695

Johann Sebastian Bach nasceu em 21 de Março de 1685 em Eisenach, uma pequena cidade-residência da Turíngia, perto de Wartburg, localidade onde Lutero, no ano de 1521, traduziu a Bíblia para a língua alemã.   

Eisenach 1685-1695

O pai, Ambrosius Bach, que era violinista e músico municipal em Eisenach, ensinou-o a tocar os instrumentos de corda, ao passo que o tio Johann Christoph, excelente compositor e organista na mesma cidade, iniciava-o no órgão.

Ainda muito jovem, Johann Sebastian fez parte do coro. Aos nove anos ficou órfão de pai e mãe e foi o seu irmão mais velho, organista em Ohrdruf, que se encarregou de sustentá-lo, ensinando-o a tocar cravo e a compor.

A sua paixão pela música já era bastante visível. Conta-se que, na época pediu um livro emprestado ao seu irmão que continha peças de Fröberger, Kerl e Pachelbel, mas sendo-lhe recusado este pedido apoderou-se dele às escondidas e copiou-o à luz das velas durante seis meses; comenta-se que quando já ia bastante avançado neste trabalho foi descoberto pelo seu irmão, que num momento de ira, pela desobediência de Bach, destruiu o manuscrito deixando-o desolado.


Bach passou toda a sua juventude completamente ligado à música. Esta era tema e conversa quotidiana na casa paterna e quando se reuniam, após as refeições, inventavam cânones e tocavam alegremente os seus instrumentos.

A música era para os Bachs uma profissão saudável, praticada constantemente com o fim de manter bem alto o padrão da profissão de músico, por isso era compreensível que Johann Sebastian tocasse violino e cravo desde a mais tenra idade.
Toda a vida de Bach foi percorrida num espaço geograficamente pequeno.

Johann Sebastian Bach (1685-1750)

Aos quinze anos, já era considerado um músico formado, que dominava notavelmente, além de outros instrumentos, o órgão.

 Um dos maiores músicos de todos os tempos, Bach não mostrava nenhuma das irritantes excentricidades que passam geralmente a fazer parte do “temperamento artístico”. Era sossegado e digno, mas por outro lado bondoso, piedoso, leal aos amigos e dedicadíssimo à sua família.

Lüneburg 1700-1702

Antes de procurar um emprego, Bach percorre a pé inúmeras localidades, como era costume na época. Assim o encontramos em abril de 1700 em Lüneburg, a trezentos quilómetros de distância, aceite na Michae-lisschule (São Miguel de Lüneburg), local onde eram acolhidos jovens pobres com alguma formação musical. Em troca de cantar na igreja que tinha o mesmo nome da escola, o jovem recebeu ali uma sólida educação, com aulas de retórica, latim e grego, lógica, teologia e, naturalmente, música integrando-se no coro da escola.

Lüneburg 1700-1702

Em 1701 visita também Celle, onde se cultiva a música orquestral francesa no palácio barroco, e onde Bach teve contacto com a arte e o modo de vida francesa, graças às figuras que rodeavam a duquesa de Brunswick-Lüneburg, ela própria de origem francesa. Possui uma rica biblioteca musical: Couperin, com quem Bach mantém correspondência (infelizmente perdida); Grigny, de quem copia o livro de órgão; Marchand, que encontrará em Dresde, em 1707, entre outros.

Celle

Weimar (I) 1703-1703

Na corte italianizante de Weimar, copia, totalmente, as fiori musicali de Frescobaldi, reproduz temas de fuga de Corelli, Legrenzi e Albinoni, copia numerosas sonatas e concertos italianos e, sobretudo, tem a “revelação” dos concertos de Vivaldi que representam o estado mais avançado da música instrumental.

Não se contenta em copiá-los, altera alguns para instrumentos de teclas: pelo menos sete para cravo, um para quatro cravos e cordas (originariamente para quatro violinos), três para órgão. Copia também os mestres de canto de Palestrina a Caldara, e faz longas caminhadas para ouvir os grandes organistas alemães: Reinken; Buxtehude e Böhm.
Bach deixou-nos, no total, vinte e duas transcrições, sendo dezesseis só para cravo, cinco para órgão e o concerto para quatro cravos. Durante muito tempo, os originais foram todos atribuídos a Vivaldi. Mas, vários são do jovem Johann Ernst, sobrinho do duque de Weimar, outros são de Alessandro e de Benedetto Marcello, um de Telemann e outros ainda não foram identificados.

Johann Ernst of Saxony-Weimar (1664-1707)- Weimar (I) 1703-1703

Em Hamburgo, assiste a um recital de órgão do octogenário Jan Adams Reinken e nota, então, que ainda lhe falta muito estudo. O teatro, em voga nessa cidade, não o atrai. Aos dezoito anos dá o seu primeiro passo para entrar na vida profissional. Torna-se violinista da orquestra de um dos príncipes de Weimar, mas no mesmo ano ainda, em 1703, troca esse posto pelo de organista na pequena cidade turíngia de Arnstadt.

Arnstadt 1703-1707

Foi contratado, sem fazer concurso, em 1703, com apenas dezoito anos. Ele parece dotado de uma maturidade superior à de sua idade e que guia as suas escolhas de maneira infalível. E, na Alemanha ele descobre a cultura francesa sem sair da tradição alemã. Começa a esboçar um ritmo de vida que depende, mesmo em períodos irregulares, da troca de um emprego secular por um clerical. Após dois anos de atividade como organista em Arnstadt, Bach pede licença para prosseguir os seus estudos.
               

  Arnstadt 1703-1707

                                      

A Itália chega até ele através  da música de Frescobaldi. E há o apelo dos organistas do Norte, como Georg Böhm, Reinken e Buxtehude. Para ouvir este último, Bach pediu quatro semanas de licença e acabou ausentando-se por quatro meses.

Põe-se novamente a caminho para uma peregrinação musical até a cidade de Lübeck. Nessa cidade, o organista Dietrich Buxtehude reúne uma grande multidão de ouvintes para seus recitais de “música vespertina”. Bach acredita ter entrado num mundo maravilhoso, pois jamais escutara tal mestre, nem tal órgão. Quando ele finalmente reaparece em Arnstadt, as autoridades clericais estavam indispostas com ele.  

Na galeria do órgão ele começa a tocar frequentemente na companhia de uma jovem, sua prima Maria Bárbara, com quem logo viria a casar. Rompeu o seu contrato logo que surgiu outra vaga de organista, desta vez em Mühlhausen, e Bach despediu-se de Arnstadt.

Mühlhausen 1707-1708

Em Abril de 1707, em Mühlhausen (também na Turíngia), admitiram-no depois de uma audição, sem concurso e para onde se mudou alguns meses depois para assumir o cargo de organista local. Entretanto, surgiram divergências com as autoridades religiosas da comunidade.

Mühlhausen 1707-1708

Casou-se aos 22 anos com a sua prima Maria Bárbara Bach. Nesta altura a sua fama já era grande. Compôs obras para órgão neste período, somente interrompido por uma prolongada visita ao venerável Buxtehude, em Lübeck.

Weimar (II) 1708-1717

Em fins de 1708, Bach muda-se para Weimar, desta vez como cravista e violinista, como organista de corte e, finalmente, como spalla do palácio do príncipe-regente. Era, agora, músico “de corte” e não mais músico da cidade ou da igreja – ainda que as suas funções fossem, em parte, ligadas à música religiosa.

      

Weimar (II) 1708-1717


Quando, no ano de 1717, decide ir para Küthen, a fim de assumir o posto de “mestre-de-capela da corte e director de música da Câmara Real” o duque de Weimar recusa o seu pedido de demissão e, ao insistir no pedido, Bach é posto na prisão por um mês por conduta agressiva e insubordinação. Não foi, contudo, um castigo demasiadamente severo, em que pese o agravo moral e a impossibilidade de se reunir imediatamente à sua família, que já se mudara para Küthen. Bach aproveitou o “descanso” forçado de quatro semanas para trabalhar no seu Pequeno Livro de Órgão (Orgelbüchlein). Depois, seguiu para Küthen, capital de um dos principados de Anhalt.

Küthen 1717-1723

                                

Príncipe Leopold von Anhalt- Küthen (1694-1728)

Os cinco anos passados por Bach em Küthen foram provavelmente os mais felizes de sua vida, apesar da perda que sofreu com a morte de Maria Barbara, em 1720. O príncipe Leopold von Anhalt-Küthen era inteligente, aberto, agradável, músico (tocava viola melhor do que um simples amador). Reunira a melhor orquestra da Alemanha (dezassete músicos, muitos dos quais virtuosos famosos).

Küthen 1717-1723

Bach gozava não somente de uma “real” consideração e de um bom salário, mas de uma verdadeira amizade por parte de Leopold e dos que o rodeavam. Essas condições ideais para um artista (ter à sua disposição todos os meios de criar e saber que a sua obra é compreendida e apreciada) iriam permitir a Bach uma produção abundante. Concertos, sonatas (quase toda a sua música de câmara data desta época), o cravo bem temperado, as suites e partitas, as aberturas para orquestra, entre outras.

Brandemburgo era uma potência alemã, cujo prestígio atingia todas as camadas da população. Em seis anos nessa localidade, surgiram os Concertos de Brandemburgo. Foi o “mais profano” dos seus empregos oficiais. É uma época rica em produção de música profana (assim chamados por terem sido escritos para o filho do grão-duque Christian Ludwig von Brandenburg).

Desde 1691 que o organista e teórico de música Andreas Werckmeister (1645-1706) praticava o “temperamento de flutuação idêntica“, ou seja, a divisão da oitava em doze intervalos sonoros perfeitamente idênticos, chamados de semitons ou meios-tons. Com isso, praticava-se alguma violência contra as frequências, prestava-se, porém, um serviço inestimável para a prática da execução musical. Na Europa, desconhecia-se ou já se havia esquecido o facto de que os árabes tinham, há séculos atrás, conhecido e desenvolvido essa teoria e lutado por ela. Bach tentava agora utilizar de uma forma prática essa identidade de todas as tonalidades. À medida que Bach compunha uma peça musical, respetivamente, para cada escala em tom maior e em tom menor, portanto 24 ao todo, ele comprovava a utilidade do conjunto das tonalidades, e além disso, apresentava ainda uma obra-prima inspirada. Produziu, ao lado deste feito teórico-musical, composições magníficas.

Aqui se manifesta a competência especial de Bach, de unir os objetivos pedagógicos às metas artísticas. Isso torna-se também evidente no Pequeno Livro de Teclado (Klavier-Büchlein), escrito em 1720 para seu filho Wilhelm Friedemann, na época com dez anos de idade, e em Pequenos Prelúdios e Fugas (Kleine Prdludien und Fugen), escrito para servir a objetivos de estudo geral.

São muitas peças de música de câmara que surgem em Küthen, pois o jovem príncipe Leopoldo gosta não só de música, como “também a compreende“, conforme as palavras de Bach. A sua obra enriquece-se com uma grande quantidade de peças, certamente tocadas no palácio, peças para violino, violoncelo, flauta, cravo, viola da gamba (bastante apreciada na época) e a viola pomposa, inventada por Bach, uma espécie de fusão entre viola e violoncelo.


Em Küthen, Bach trabalha também na sua primeira versão musical da Paixão, para a qual escolhe como modelo o texto de São João Evangelista. Apenas para o seu instrumento preferido, o órgão, este período em Küthen, não lhe deu poucos resultados. Era já nessa época um organista de renome. Telemann escreveu uma vez: “Ninguém supera a Haendel no órgão, com excepção, talvez, de Bach”.

E quando Bach, em 1717, vai para Dresden aceitando um convite para um duelo musical com o conhecido virtuoso do órgão, o francês Louis Marchand (1669-1732), a tão esperada competição não chega a concretizar-se. Conta-se que Marchand partira discretamente pouco antes da realização do desafio marcado.

No verão de 1720, morreu a esposa de Bach, mãe dos seus sete filhos. A perda da esposa provavelmente contribuiu para que Bach pensasse em deixar a cidade. Ele sentia saudades sobretudo do seu órgão. Mas as negociações com Hamburgo não tiveram êxito, e o seu desejo foi adiado por mais alguns anos.

Em dezembro de 1721, casa-se com Anna Magdalena Wilcken, cantora da corte e filha de músicos de Weissenfels. Trata-se novamente de um casamento feliz. Bach encontra em Anna uma companheira amável e compreensiva, além de entendida em questões musicais. E a quantidade de crianças que alegraram a casa de Bach e a encheram de música aumenta agora com mais treze.

Neste período surge uma inquietude devido, talvez, ao retomar a consciência da sua tradição familiar. O príncipe Leopold era calvinista e, em Küthen, a música religiosa não tinha qualquer participação no culto. O papel de Bach era, portanto, exclusivamente profano. Ao que parece, Bach teria sentido fortemente – talvez pela perda de Maria Barbara – a necessidade de voltar a trabalhar para a igreja, como sempre o haviam feito o seu pai e os seus antepassados. Tentou, de início, conseguir um lugar como organista em Hamburgo, até que apareceu a ocasião, como cantor, na Escola de Santo Tomás, em Leipzig.

                                                                      

Leipzig 1723-1750

Leipzig 1723-1750

Bach mudou o curso de sua vida e renunciou a todas as vantagens adquiridas. Por um salário menor, escolheu o posto de Leipzig, repleto de inconveniências que não demoraram muito a tornar-se insuportáveis. Em 26 de Março de 1723 Bach entra em contacto com a cidade musical de Leipzig, seu futuro e mais duradouro local de trabalho.

A Escola de São Tomás de Leipzig era uma dessas antigas instituições como tantas criadas pela Idade Média, na Alemanha, pela Reforma. Meio orfanato, meio conservatório, estava estreitamente inserida na vida da igreja e na cidade.

A função de cantor havia sido honrosa e importante – era-o, ainda, no início do século, ao tempo de Johann Kuhnau, o predecessor de Bach, simultaneamente professor de letras (o ensino do latim fazia parte de suas prerrogativas) e de teologia, professor de música e director das actividades musicais da igreja, regente do coro, regente da orquestra e compositor.

Johann Kuhnau

Mas, em 1730, essa função compósita começava a tornar-se anacrónica, tal como toda a estrutura da escola. O Iluminismo estava a provocar alterações nas relações e nas estruturas sociais. A Escola de Santo Tomás, com sua organização antiquada, já não correspondia às aspirações intelectuais do século XVIII. Homens inteligentes como o reitor Ernesti, desejavam fazer da Escola de São Tomás uma escola moderna.

E a função de Bach constituía o principal factor de imobilismo. Bach pedia mais recursos para sua música, uma disponibilidade maior dos alunos, uma selecção orientada no sentido das suas respectivas capacidades musicais. O reitor gostaria de vê-los, de preferência, estudar latim ou grego, a gastar horas e horas com ensaios no coro. O impasse era total, e Bach revelou-se pouco hábil, pouco político. Ele negligenciava os seus cursos de latim e transferia-os a inspectores que, por outro lado, não eram bons músicos. A acrescentar a isto, a estreiteza de espírito, a pouca inteligência e a mesquinharia dos membros do Consistório, a mediocridade dos membros da assembleia comunitária – e pode-se ter uma ideia das dificuldades, das preocupações que afligiram os últimos anos de Bach.

Esta amarga deceção vinha precisamente daqueles para quem havia escolhido trabalhar e consagrar a sua vida. Foi por esta estrutura paroquial e comunitária que ele renunciara à vida fácil da corte e à segurança de Küthen. Ao procurar o modelo social, cultural e religioso que foi o da família de Bach antes dele e à sua volta, J.S. Bach escolheu um caminho que era social e culturalmente – se não religiosamente – anacrónico.

Os primeiros anos de Bach em Leipzig dão testemunho da felicidade que, no início, a situação lhe proporcionou, o que se pode medir pela sua vitalidade criadora: 48 cantatas só durante o ano de 1723, quase uma por semana. Aqui dirige A Paixão Segundo São João e A Paixão Segundo São Mateus, tocada cinco anos mais tarde no mesmo local.

Dois meses depois, a 1 de Junho de 1723, Bach assume definitivamente o último cargo musical de sua vida: apresentado em cerimónia solene, torna-se organista da Igreja de São Tomás, em Leipzig. Este título afirma que ele é, a partir de agora, o director musical da Igreja de São Tomás, uma casa de Deus de renomeada tradição.

Tinha também a seu cargo o ensino de música na escola de jovens anexa, cujo coral era solicitado a colaborar na igreja. Ele vai permanecer neste cargo durante 27 anos. Nem tudo corre de acordo com seus desejos. Neste contexto, poder-se-ia mencionar a carta que escreveu em 1728 a Georg Erdmann, companheiro da sua juventude, que se tornara uma personalidade de considerável influência.

Bach confia-lhe a sua insatisfação com as autoridades burocráticas, que lhe pareciam frequentemente injustas. Em Março de 1729, dirige a cerimónia de luto em homenagem ao príncipe Leopoldo em Küthen, lugar com o qual sempre manteve laços de amizade. No mesmo ano, comparece à cerimónia de outorga do título de mestre-de-capela da corte do Principado em Weissenfels. Não lhe faltaram honrarias. Chega Sexta-Feira da Paixão do ano de 1729. A Paixão Segundo São Mateus ressoa pela primeira vez na Igreja de São Tomás.

Vão passar-se quase cem anos até que Mendelssohn a volte a descobrir. A saga dos sofrimentos de Cristo foi um dos temas mais importantes do teatro sacro medieval. Não poderia deixar de entrar no círculo do Oratório que agora surgia. Neste contexto, foi sobretudo a Igreja protestante que a tornou uma obra completa, na qual poesia e música iriam colaborar nesta grande experiência.
Nas Paixões de Bach, o género alcança a harmonia perfeita e definitiva, entre a transfiguração, a contemplação mais profunda e o impressionante realismo. Uma compensação oferece-se a Bach ao assumir, em 1729, a direção do Collegium Musicum estudantil, fundado por Telemann. Para esta orquestra de câmara, Bach produz muitas obras, como os Concertos para cravo, cujos temas retoma dos seus colegas italianos, sobretudo Vivaldi.

Transforma os concertos para violino em peças instrumentais para teclado. É fascinado pelos concertos duplos e triplos. O Concerto para Quatro Violinos de Vivaldi é transformado num Concerto para Quatro Cravos.

Os seus filhos tornam-se músicos notáveis. Wilhelm Friedemann convida o pai várias vezes para visitar Dresden, onde ele é organista da Igreja de Nossa Senhora.

Carl Philipp Emanuel tem o cargo de músico da corte a serviço de Frederico II, o Grande, fiel amante da música. Carl Philipp consegue para o seu pai um honroso convite para tocar em Berlim e Potsdam. Diante do monarca, Bach improvisa no órgão e no cravo, provocando a entusiástica admiração de todos os presentes.

O rei sugere-lhe um tema próprio que Bach, após retornar a Leipzig, transforma na importante obra instrumental – A Oferenda Musical.

 Em fins de maio de 1749, Bach sofre um derrame e a visão começa a enfraquecer rapidamente. Mas continua a trabalhar durante horas seguidas numa imensa composição: A Arte da Fuga. Muito já se especulou sobre esta obra incompleta onde Bach atingiu todo o conhecimento acerca da perfeição contrapontística, registando-se aqui toda uma sabedoria musical.

Bach possuía a firme convicção de que tudo vinha de Deus. A música de Bach é realmente inspirada por Deus. Ouvindo as suas paixões, a de S. Mateus e a de S. João, apercebemo-nos que para além de um inimaginável esforço e trabalho está uma inspiração fora do comum, e que nas obras religiosas adquire uma expressão mais emotiva e liberta. Ocupava também, com a trajetória das estrelas, com as inter-relações “secretas” dos números, talvez por influência da perda de Maria Bárbara.

Sabia “que o seu Salvador vive”, como consta na cantata n° 160, das 190 que foram conservadas. No início de 1750, Bach sofre duas operações feitas pelo oftalmologista inglês John Taylor, residente em Leipzig. Não houve uma melhoria imediata, mas surpreendentemente, a 18 de Julho, recuperou a visão.

Retomou pessoalmente A Arte da Fuga que começara a ditar. Trabalhava no contratema, no qual entrelaçou o seu próprio nome: as quatro notas musicais alemãs B-A-C-H (si bemol-lá-dó-si) – que, a partir de então, foram usadas por inúmeros compositores em sua homenagem -quando, na tarde de 28 de Julho de 1750, sofreu um segundo derrame, desta vez fatal.

Nesta ocasião, os seus filhos mais velhos já estavam colocados em altos cargos, e ele pôde despedir-se do mundo tranquilo quanto aos caminhos, à competência e à consideração dos seus descendentes. Eles compunham naturalmente de maneira “diferente” da do próprio pai, mas, isto é natural de geração para geração. O mais velho, Wilhelm Friedemann Bach (1710-1784), foi organista em Dresden e depois em Halle, de 1747 até 1764.

Wilhelm Friedemann (nasceu em 1710)

O pai não chegou a assistir ao melancólico fim do seu filho predileto, que se afundou na mais triste solidão e arruinou-se cruelmente.

Depois de deixar Halle e de terem fracassado os seus contactos com Darmstadt para se candidatar a um novo emprego, a vida de Wilhelm Friedemann tornou-se mais caótica, intranquila e certamente também mais infeliz. Após realizar um exame impecável em Braunschweig, a sua expetativa de obter o posto de organista da Igreja de Santa Catarina não se concretiza. As expetativas em relação a Berlim, onde passou a viver, também resultaram negativas, sem que ninguém saiba o motivo.

Poucas foram as pessoas que o acolheram em Berlim: Johann Nikolaus Forkel, que nele reconheceu o génio do pai e escreveu a primeira biografia sobre ele em 1803; a princesa Amália da Prússia, irmã de Frederico, o Grande. A pessoa que efectivamente o ajudou foi talvez a tia-avó de Mendelssohn, Sara Levi, que foi sua discípula até o fim.

A situação de penúria fez com que o filho vendesse parte da herança musical paterna que lhe coube, chegando, inclusive, a publicar como suas algumas obras do pai. As suas próprias composições, hoje altamente apreciadas, passaram quase despercebidas enquanto viveu. A placa necrológica que o Magazin der Musik lhe dedicou dizia que o “filho do imortal Sebastian morrera de debilidade generalizada aos 74 anos de idade. Com ele a Alemanha fica sem o seu primeiro organista, e o mundo, sem um homem cuja perda é írreparável..:”

Wilhelm Friedemann jamais conseguiu superar o facto de permanecer sempre à sombra de seu pai. Foi, assim, uma figura verdadeiramente trágica.

O destino de Carl Philipp Emanuel (1714-1788) correu, ao contrário do irmão, com bastante serenidade. O afilhado de Telemann alcançou, ainda jovem, um posto conceituado como cravista da corte do rei da Prússia. As suas composições, claramente influenciadas pelo Rococó francês eram bastante apreciadas. A visita do pai a Berlim, por ele intermediada, significou também para si próprio um valioso acréscimo em termos de prestígio.

Carl Philipp Emanuel (nasceu em 1714) 

                         

No ano de 1767, foi para Hamburgo, onde se tornou diretor de música sacra como sucessor de Telemann e regeu numerosos concertos. O facto de também ele, que escapou às agruras da vida, ter dissipado a herança paterna, continua sendo algo incompreensível.

Os outros dois filhos músicos de Bach nasceram do seu segundo casamento. Johann Christoph Friedrich (1732-1795) levou uma vida discreta. A história da música designa-o frequentemente com o nome que já usava em vida, para distingui-lo de seus irmãos e meios-irmãos, como “Bach de Bückeburg” (Carl Philipp Emanuel é chamado frequentemente de “berlinense” ou também de “Bach hamburguês”; Johann Christian, de “milanês”; ou melhor, de “Bach londrino”).

Johann Christoph Friedrich (nasceu em 1732)

Com menos de vinte anos de idade, Johann Christoph Friedrich foi para a pequena cidade-residência de Bückeburg a serviço da corte do duque de Lippe. De simples músico passou a mestre-de-capela, trabalhou com honradez e morreu juntamente com o notável poeta Johann Gottfried Herder (1744-1803). Estabelecido na corte desde 1771, compôs oratórios (A Ressurreição de Lázaro, O Estranho do Gólgota), cantatas (Música da Ascensão) e a ópera Brutus, cuja partitura se perdeu.

O destino mais agitado foi o do filho mais jovem Johann Christian Bach (1735-1782), cuja ascensão meteórica não pôde mais ser acompanhada pelo pai. Johann Christian venceu uma série de barreiras que até então tinham-se erguido de modo intransponível diante dos Bachs: foi para a Itália, converteu-se ao Catolicismo, tornou-se organista da Catedral de Milão e escreveu óperas italianas.

                         

Johann Christian (irmão mais novo, nasceu em 1735)

Depois, aceitou os serviços do rei da Inglaterra, organizou com um parceiro, os brilhantes Concertos Abel-Bach em Londres, colheu triunfos memoráveis como cravista. Mozart, que aos oito anos o visitou na capital inglesa, encontrou nele o seu ideal materializado: um músico brilhante, cosmopolita, com o qual se podia aprender muito. Quando se encontraram novamente, alguns anos mais tarde, desta vez em Paris, já havia começado a sua fase de decadência.
Também neste ponto ele viveu contra os princípios paternos: amava o luxo e acumulava dívidas despreocupadamente. Num concerto que Johann Christian promoveu em Londres em seu próprio favor, o público expôs a sua inconstância: em lugar da multidão de outrora, apenas algumas pessoas compareceram ao espectáculo.

O receio da ruína social e artística levou-o cedo para a sepultura. Numa carta ao pai, Mozart comenta: “O senhor provavelmente já sabe que o Bach inglês morreu. Que pena para o mundo musical!”

Nenhum dos filhos de Bach trilhou o caminho musical preparado pelo pai. O momento era do Rococó, do estilo “galante“, “sentimental“, da melodia repleta de vibrações e acompanhada de harmonias, pontilhada aqui e ali por um prenúncio do Romantismo vindouro.

Ainda houve ocasiões festivas, como a viagem à corte de Potsdam, onde o seu filho Carl Philipp Emanuel era cravista e durante a qual Frederico II dispensou-lhe honrarias. Mas a saúde de Bach piorou. Ficou cego. Um charlatão tentou operá-lo aos olhos e arruinou a sua vida, morrendo em 1750.

 Bach parece ter sido sempre adulto, dir-se-ia que jamais foi criança. Solucionou todos os seus problemas psicológicos, sociais e familiares com uma segurança de instinto que poucos artistas parecem ter possuído, e de tal maneira que sua paz interior jamais saiu diminuída desses embates, e sim reforçada.

A grandeza da sua obra respira força e paz, mas “contém” ao mesmo tempo, sofrimento e dor, sentidos e superados.

Assim, a vida de Bach passou-se em ambientes modestos e sem grandes contactos com o mundo exterior. Quase nada se sabe de sua personalidade, devoção luterana, que combina com apreço aos prazeres do mundo, bom pai de família (14 filhos, de dois casamentos), funcionário pontual, mas homem de personalidade forte, sempre discutindo com os seus superiores, homem culto, mas inteiramente dedicado à sua enorme produção de obras.

 “Em todo o acto de criação existe algo de milagroso. Algo novo surge no mundo”. Anna Magdalena, a segunda esposa de Bach, expressou esse facto em palavras singelas: “Tal música não existia no mundo antes de ele a ter escrito”.