
O Mensageiro de Fez, de Thomaz Ribeiro, é um poema narrativo de feição patriótica e religiosa que cruza dois núcleos históricos e simbólicos: a memória de Fez, ligada ao cativeiro de D. Fernando, e a devoção à Senhora da Rocha, em Carnaxide. A obra constrói uma ponte entre o drama da expansão portuguesa no Norte de África e uma paisagem devocional profundamente enraizada na religiosidade popular lisboeta.


Fez e o drama do cativeiro

A primeira parte do livro centra-se na missão do “mensageiro de Fez”, isto é, Fernão Lopes Pacheco, enviado para comunicar à corte portuguesa a situação de D. Fernando, preso em território muçulmano. O poema recupera o episódio histórico do Infante Santo, capturado após a desastrosa expedição a Tânger, e transforma-o num quadro de sofrimento, fidelidade e sacrifício. Thomaz Ribeiro dá grande relevo à dimensão moral do cativeiro: D. Fernando surge como figura de martírio cristão e de nobreza espiritual, enquanto Pacheco encarna a lealdade e o dever cumprido até ao limite.
A história de Fez encontra-se profundamente ligada ao cativeiro, martírio e morte do Infante D. Fernando (1402-1443), conhecido como o “Infante Santo“. Esta figura da Ínclita Geração foi refém durante seis anos após a desastrosa expedição a Tânger em 1437, tornando-se um símbolo de sacrifício e fidelidade nacional.
O Cativeiro e a Morte em Fez (1437-1443):
- A Causa: Após a derrota na tentativa de conquista de Tânger, o Infante D. Fernando foi entregue como refém em troca da permissão para o reembarque das tropas portuguesas, ficando acordada a devolução de Ceuta.
- O Impasse: O acordo não foi cumprido pela coroa portuguesa (liderada por D. Duarte e, posteriormente, pela regência), que se recusou a devolver Ceuta. D. Fernando permaneceu, assim, prisioneiro em Fez.
- O Sofrimento: Durante os anos de cativeiro, o Infante sofreu maus-tratos, sendo colocado a ferros e sujeito a trabalhos pesados, mas, segundo relatos, manteve uma conduta exemplar e caridosa.
- A Morte e Exposição: D. Fernando faleceu em Fez a 5 de junho de 1443. Após a morte, o seu corpo foi exposto na Bab Es-Seba (a “Porta do Príncipe Português”) na muralha de Fez, inicialmente pendurado de cabeça para baixo durante quatro dias, antes de ser colocado num ataúde na muralha.
A Memória e o Mito:
- O “Infante Santo”: A sua morte no exílio, recusando a sua libertação à custa de Ceuta (segundo alguns relatos), transformou-o numa figura de veneração popular em Portugal, celebrada como um mártir da fé e da pátria.
- Relíquias: A “Crónica do Infante Santo D. Fernando”, escrita por Frei João Álvares, seu companheiro de cativeiro, contribuiu para a construção da sua imagem hagiográfica.
- Resgate: Mais tarde, os seus restos mortais foram resgatados e sepultados no Mosteiro da Batalha, próximo dos seus irmãos.
- Memória na Literatura: A sua figura é imortalizada na literatura portuguesa, nomeadamente no poema “D. Fernando, Infante de Portugal” da secção As Quinas do livro Mensagem de Fernando Pessoa.
Embora a Igreja nunca tenha oficializado a sua canonização, a devoção popular e a história de Portugal retêm o seu cativeiro em Fez como um dos episódios mais dramáticos e marcantes da expansão no Norte de África
A referência a Fez é, assim, mais do que geográfica: torna-se símbolo de distância, prova e resistência. O poema não descreve apenas um episódio militar; reconstitui uma tragédia nacional em que se cruzam a dor política, a memória dinástica e a leitura providencial da história. O tom é profundamente emotivo, mas também solene, como convém a uma obra que procura elevar o sofrimento de um príncipe cativo ao estatuto de exemplo moral e patriótico.

Tríptico do Infante D. Fernando (Painel central).
c. 1450-1460
Técnica: pintura a têmpera e óleo
Localização: Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
O Tríptico do Infante D. Fernando é uma pintura quinhentista atribuída a um autor português desconhecido, realizada por volta de 1450-1460, em têmpera e óleo sobre madeira de carvalho, e hoje conservada no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.
A obra terá sido encomendada para a Capela do Fundador do Mosteiro da Batalha e está ligada à memória do Infante D. Fernando, o Infante Santo, evocando o seu cativeiro e martírio em Fez. Segundo a tradição referida por Frei Luís de Sousa, teria sido mandada pintar pelo Infante D. Henrique, possivelmente como parte das cerimónias de trasladação dos restos mortais do Infante Santo para a Batalha, em 1451.
Quanto à autoria, o tríptico tem sido associado por diversos estudiosos a vários mestres, embora a proposta mais provável seja a de João Afonso de Leiria. Em termos artísticos, trata-se de uma obra de qualidade regular, importante sobretudo pelo seu valor histórico e simbólico, mais do que por uma atribuição segura ou por um nome consagrado da pintura portuguesa.
A Senhora da Rocha

Fotografia: @franciscabrancoveiga
A segunda dimensão essencial da obra é a da Senhora da Rocha, cuja presença domina a parte inicial e mediana do poema. Thomaz Ribeiro transforma a pequena ermida e a gruta do Jamor num espaço de forte carga simbólica: lugar de devoção, de memória e de recuperação da presença sagrada. A narrativa poética associa a imagem da Virgem ao reencontro de uma fé antiga, quase perdida, mas ainda viva no coração das gentes de Carnaxide e da vizinhança.

A figura da Tia Ignez é decisiva nesta secção. É ela quem conserva a lembrança do milagre, do esconderijo da imagem e da relação afectiva com a Senhora. A sua voz dá ao poema uma espessura popular e testemunhal, ligando a grande história à memória humilde de quem viveu perto do santuário. A Senhora da Rocha aparece, por isso, não apenas como objecto de culto, mas como centro de uma comunidade espiritual que resiste à ruína, ao esquecimento e às transformações políticas.
A ligação entre os dois temas

O vínculo entre Fez e a Senhora da Rocha faz-se pela própria arquitectura do livro. Thomaz Ribeiro reúne num mesmo poema a epopeia do resgate, o sofrimento do cativo, a fidelidade do mensageiro e a devoção mariana de uma localidade portuguesa. Fez representa a prova histórica, o exílio e a violência; a Senhora da Rocha representa o consolo, a permanência e a esperança. Entre ambos, o poema ergue uma visão do mundo em que a história de Portugal só se compreende plenamente quando lida à luz da fé e da memória.
Há também uma dimensão pessoal e afectiva muito marcada. O autor escreve com evidente proximidade emocional à devoção da Senhora da Rocha, e isso confere ao texto um tom entre a elegia, a confissão e a celebração. Ao mesmo tempo, a evocação de Fez e de D. Fernando inscreve a obra na tradição romântica e pós-romântica da exaltação dos heróis nacionais, onde o passado é revivido não como simples crónica, mas como experiência moral e espiritual.
Sentido da obra
No conjunto, O Mensageiro de Fez é um poema que une história, memória e devoção. A parte de Fez dá-lhe grandeza épica e trágica; a parte da Senhora da Rocha oferece-lhe intimidade religiosa e enraizamento local. O resultado é uma obra em que o patriotismo se cruza com a piedade, e em que a paisagem de Carnaxide dialoga com o drama do Norte de África, como se ambos pertencessem a uma mesma narrativa da alma portuguesa.
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Biblioteca Al-Qarawiyyin (ou Khizanat al-Qarawiyyin), situada na Medina de Fez, em Marrocos, dentro do complexo da Mesquita Al-Qarawiyyin.
Fundação: Foi fundada em 859 d.C. por Fatima al-Fihriya, sendo reconhecida como a biblioteca mais antiga do mundo ainda em funcionamento.
O Corão e Espólio: A biblioteca alberga mais de 4000 manuscritos raros, incluindo um exemplar do Alcorão do século IX escrito em pele de camelo com caligrafia Cúfica, frequentemente citado como um dos mais antigos do mundo.
A Entrada: A entrada da biblioteca é conhecida por ser modesta e, por vezes, difícil de encontrar nas ruelas da medina, localizada frequentemente perto da Praça Seffarine e do Mausoléu de Moulay Idriss. A entrada principal do complexo, que foi restaurada recentemente (reaberta em 2016), apresenta azulejos verdes e azuis típicos da arquitetura marroquina.
Acesso: O acesso à biblioteca e à mesquita é estritamente reservado a muçulmanos, embora a área restaurada inclua uma sala de manuscritos, laboratório de conservação e uma sala de leitura que pode ser visitada sob autorização especial.
Após uma renovação profunda entre 2012 e 2016, liderada pela arquiteta Aziza Chaouni, o edifício foi reforçado para proteger os seus tesouros da humidade, incluindo uma porta de ferro com quatro fechaduras que guarda os manuscritos mais valiosos.
@franciscabrancoveiga


Thomaz Ribeiro (1831-1901)
Tomás António Ribeiro Ferreira, mais conhecido por Thomaz Ribeiro (1831-1901), foi um poeta, escritor, publicista e político português, figura marcante do ultra-romantismo e da vida pública do seu tempo. Em Carnaxide, a sua presença tornou-se especialmente relevante pela ligação ao culto de Nossa Senhora da Rocha, que apoiou e promoveu com influência política e devoção pessoal.
Relação com Carnaxide
A relação de Thomaz Ribeiro com Carnaxide passa прежде de tudo pela Senhora da Rocha, em Linda-a-Pastora, onde foi um dos principais impulsionadores do santuário e do regresso da imagem de Nossa Senhora ao culto local. Segundo a informação reunida em fontes locais, ele tomou conhecimento da devoção popular durante estadias em Carnaxide e usou a sua influência para apoiar a construção do templo e a consolidação do culto mariano.
Além disso, a própria obra O Mensageiro de Fez revela essa proximidade: a primeira parte, “A Rocha”, é dedicada a esse universo devocional e integra a gruta do Jamor e a memória religiosa de Carnaxide no centro do poema. Por isso, Thomaz Ribeiro não é apenas uma figura literária associada a Carnaxide; é também um nome ligado à identidade histórica e religiosa do lugar.
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Como referir este artigo:
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VEIGA, Francisca Branco, O Mensageiro de Fez (Thomaz Ribeiro) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [05 de Maio de 2026].
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