Hoje é um dia muito especial para mim, é o dia em que o meu livro ‘Companhia de Jesus. O breve regresso no reinado de D. Miguel‘ é finalmente publicado.
É uma honra poder partilhar a minha pesquisa com o mundo, e que representa anos de muito trabalho e paixão pela história de Portugal. Espero que esta obra possa proporcionar uma experiência de leitura agradável e informativa.
O livro conta com o Prefácio do Prof. Doutor Miguel Corrêa Monteiro, Vice-Presidente da Academia Portuguesa da História, Professor Auxiliar com Agregação no Departamento de História e Coordenador do Mestrado em Didáctica da História, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
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VEIGA, Francisca Branco (2023), Companhia de Jesus. O Breve Regresso no Reinado de D. Miguel (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [1 de Maio de 2023].
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Evangelho nas selvas Benedito Calixto (1853–1927) São Paulo Museum of Sacred Art
José de Anchieta foi muito mais do que o “apóstolo do Brasil”: foi missionário jesuíta, poeta, gramático, cronista da natureza e uma das primeiras vozes a maravilhar‑se, por escrito, com a Mata Atlântica. Ainda jovem, vindo das Canárias e formado em Coimbra, embarcou para aquilo que muitos europeus viam como o “fim do mundo” e acabou por se tornar fundador de cidades como São Paulo e observador privilegiado de um território em processo de descoberta. Frágil de saúde, encontrou no clima tropical e no contacto com novas gentes e paisagens não apenas cura, mas um horizonte intelectual e espiritual inteiramente novo, que procurou fixar em cartas, poemas e relatos.
José Anchieta Apóstolo do Brasil
Nas cartas trimestrais que enviava aos superiores na Europa, Anchieta surgia como um verdadeiro “repórter de natureza” avant la lettre, descrevendo plantas, bichos e paisagens que os leitores do outro lado do Atlântico não conseguiam sequer imaginar. Numa delas, de 1585, vê o Brasil como “um jardim em frescura e bosque”, onde não há árvore seca e os arvoredos se elevam “às nuvens”, cheios de frutos e de pássaros cuja música não fica atrás dos rouxinóis, pintassilgos ou canários de Portugal. Esta capacidade de traduzir o espanto em palavras dá aos seus textos um tom simultaneamente devocional e sensorial: cada caminho na floresta é ocasião para louvar a Deus, mas também para registar cores, cheiros, sons, texturas, como se quisesse levar os leitores pela mão por dentro daquele mundo novo.
A célebre carta escrita em maio de 1560, em São Vicente, é hoje reconhecida como o primeiro grande documento sobre a Mata Atlântica, um marco fundador na descrição do bioma. Nela, Anchieta regista a presença de grandes mamíferos, como as “panteras” de duas variedades – uma cor de veado, mais pequena e bravia (a onça‑parda), outra malhada e pintada de várias cores (a onça‑pintada) –, descrevendo‑as com o cuidado de quem sabe que fala de animais nunca vistos na Europa. Fala também de antas, veados, porcos‑do‑mato, de peixes que sobem os rios em tal abundância que garantem a subsistência das aldeias e de aves de plumagens exuberantes, papagaios, guarás vermelhos, beija‑flores, aves de rapina, numa espécie de inventário vivo do espanto. Não esquece os insetos, as doenças, os desconfortos; mas mesmo o incómodo dos mosquitos entra no quadro geral de um ambiente intenso, total.
A flora surge igualmente em primeiro plano: raízes comestíveis, como a mandioca, outras plantas de que aprende o nome indígena, frutos variados, ervas medicinais usadas para tratar febres e maleitas, árvores que fornecem madeira, sombra, alimentos e remédios. Anchieta não se limita a enumerar espécies; observa usos, técnicas, modos de cultivo, registando aquilo que vê fazer aos povos indígenas. O resultado é um retrato raro do modo como as comunidades locais se relacionavam com a floresta, retirando dela sustento e cura sem a esgotar, o que hoje dá a estas páginas valor histórico, antropológico e ecológico.
Na “Carta de São Vicente” de 1560, o Padre José de Anchieta apresentou uma das primeiras e mais detalhadas descrições da fauna e flora brasileiras, combinando uma excecional capacidade de observação com a admiração pela biodiversidade da Mata Atlântica. Para Anchieta, o Brasil era como um “jardim em frescura”, onde as árvores atingiam alturas admiráveis e a variedade de espécies era tão vasta que a vista nunca se cansava. Principais elementos descritos por Anchieta:
Fauna (Animais)
Anchieta descreveu uma vasta gama de criaturas, por vezes integrando mitos culturais às suas observações:
• Animais Aquáticos e Anfíbios: Destacou o “boi marinho” (peixe-boi), descrevendo o seu tamanho imenso, a pele dura semelhante à do elefante e a utilidade da sua gordura para temperar comida. Mencionou a sucuryúba (sucuri), relatando com espanto a sua capacidade de engolir veados inteiros, e o jacaré, cujas carnes notou terem cheiro de almíscar. Descreveu também a capivara e as lontras.
• Mamíferos Terrestres: Relatou a extrema ferocidade das panteras (onças), a lentidão da preguiça e as características peculiares do tamanduá, especialmente a sua língua comprida usada para colher formigas. Mencionou ainda a anta (tapiíra), o gambá (sariquéa) com a sua bolsa abdominal para os filhos, diversas espécies de macacos, o tatu e os veados.
• Répteis e Insetos: Listou serpentes venenosas como a jararaca, a cascavel (bóicininga) e a cobra-coral. Sobre os insetos, destacou a organização das formigas (Içâ), que os indígenas costumavam comer torradas, além de diversas espécies de abelhas e mosquitos.
• Aves: Notou que os papagaios eram tão comuns como os corvos na Europa. Descreveu o guará e os beija-flores (guainumbî), mencionando a crença de que estes últimos se geravam a partir de borboletas e se alimentavam apenas de orvalho.
Flora (Plantas e Árvores)
A descrição da flora foca-se tanto na exuberância visual como nas utilidades práticas:
• Mandioca: Explicou que as suas raízes são venenosas e nocivas por natureza se comidas cruas, mas tornam-se um alimento essencial após serem preparadas.
• Árvores de Grande Porte: Descreveu pinheiros de altura estupenda e a sapucaia, cujo fruto comparou a uma panela com tampa trabalhada a torno, contendo no interior inúmeras castanhas.
• Plantas Medicinais e Curiosas: Identificou o bálsamo (copaíba), cujo suco é excelente para curar feridas sem deixar cicatrizes, e a “erva-viva” (sensitiva), que fecha as folhas imediatamente ao ser tocada. Também mencionou diversas raízes medicinais usadas como purgantes.
Esta carta é considerada um documento fundamental por detalhar a biodiversidade e o exotismo da fauna e flora no início da colonização, servindo como um dos registos mais completos sobre a Mata Atlântica da época.
Curiosamente, o mesmo homem que entrava mata adentro, com risco de encontrar onças ou de adoecer, escrevia poesia em latim e português, compunha autos teatrais para catequese e redigia a primeira gramática da língua tupi.
Arte de grammática da lingoa mais usada na costa do Brasil
A sua obra vive deste contraste: por um lado, o intelectual formado nas letras europeias; por outro, o missionário que aprende línguas indígenas, experimenta a carne dos animais que descreve e adapta o seu olhar às realidades da terra nova. Quando compara o canto dos pássaros do Brasil com o dos rouxinóis portugueses, ou quando afirma que certos bosques brasileiros deixam os jardins artificiais de Portugal “muito abaixo”, aproxima dois mundos e convida o leitor a rever a hierarquia tácita entre centro e periferia.
Séculos mais tarde, a Carta de São Vicente seria escolhida como referência para o Dia Nacional da Mata Atlântica, celebrado a 27 de maio, transformando um documento missionário do século XVI em bandeira contemporânea de educação ambiental e preservação.
Cadernos da Reserva da Biosfera da Mata Atlantica, 7
O texto de Anchieta funciona hoje como linha de base histórica para perceber o que se perdeu e o que ainda pode ser salvo: ao comparar a floresta abundante que ele descreve com os fragmentos que restam do bioma, ganha‑se consciência da escala da devastação, mas também da necessidade de conservar o que persiste. Ao mesmo tempo, o facto de a carta integrar campanhas, exposições e séries educativas mostra como a escrita de um jesuíta quinhentista continua a gerar imaginários, mobilizar afetos e sustentar argumentos em defesa da natureza.
Da esquerda para a direita: os animais da Terra Santa segundo as “Peregrinationes in Terram Sanctam” de Bernhard von Breydenbach (1486), o “sátiro” da “Historia Animalium” de Conrad Gesner (1551) e o “orang-outang” da “Historiae Naturalis & Medicae Indiae Orientalis” de Jacobus Bontius (in Piso, 1658).
Ler Anchieta, portanto, é muito mais do que revisitar a história da evangelização do Brasil: é entrar num laboratório vivo onde natureza e cultura, teologia e curiosidade científica, medo e fascínio se entrelaçam. O seu olhar, por vezes ingénuo, por vezes agudamente analítico, revela um Brasil em estado nascente e uma Mata Atlântica ainda quase intacta, mas já sujeita a usos intensivos e conflitos. Para quem se interessa por história ambiental, pela circulação de saberes entre Europa e América ou pela própria tradição jesuíta, as cartas de Anchieta constituem uma porta de entrada privilegiada – uma leitura que, quanto mais se explora, mais perguntas suscita sobre o passado e, talvez mais urgentemente, sobre o futuro deste “jardim em frescura e bosque” que ele nos ensinou a imaginar.
Imagem de José Anchieta da biografia de Simão Vasconcellos, Vida do veneravel padre Ioseph de Anchieta da companhia de jesvs,taumaturgo do novo mundo, na província do Brasil. Lisboa: Ioam da Costa, 1672. Acesso online através de http://www.archive.org
“Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se vê em um dia do o ano árvore nem erva seca. Os arvoredos se vão às nuvens de admirável altura e grossura e variedade de espécies. Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos de grande formosura e variedade e em seu canto não dão vantagem aos rouxinóis, pintassilgos, colorinos, e canários de Portugal e fazem uma harmonia quando um homem vai por este caminho, que é para louvar ao Senhor, e os bosques são tão frescos que os lindos e artificiais de Portugal ficam muito abaixo”
escreveu o Padre Jesuíta José Anchieta, em 1585.
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Como referir este artigo:
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VEIGA, Francisca Branco, Um repórter de natureza no século XVI: José de Anchieta e o primeiro retrato da Mata Atlântica (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [23 de Fevereiro de 2026].
Veja, inclusive, sobre o Padre Anchieta José Anchieta (1534-1597): curiosidades acerca do humanista
Gravura: A vitória da morte, 18 de fevereiro de 1546 (gravura de Pardimel a partir de uma pintura de Labouchère).
Martinho Lutero (Eisleben, 10 de novembro de 1483 – Eisleben, 18 de fevereiro de 1546) foi uma das figuras mais marcantes da História do Cristianismo e protagonista da Reforma que alterou, para sempre, o mapa religioso da Europa.
Profundamente crente e movido por uma inquietação espiritual característica do seu tempo, Lutero interrogava-se sobre o mistério da salvação e o destino eterno do ser humano. Convencido de que nem as boas obras nem as indulgências podiam conduzir à salvação, defendia que apenas a fé em Deus justificava e redimia o homem.
Para Lutero, o caminho da salvação era responsabilidade individual de cada cristão, sustentado unicamente pela fé. As indulgências — práticas tão comuns na Igreja da época — surgiam, aos seus olhos, como uma violação da autêntica doutrina evangélica.
No dia 31 de outubro de 1517, Lutero afixou na porta da catedral de Wittenberg as suas célebres 95 Teses contra as Indulgências, gesto que simbolizou a rutura com Roma e marcou o início oficial da Reforma Protestante.
Porta da Igreja do Castelo em Wittenberg, onde Martinho Lutero pregou as suas 95 Teses.
Poucos anos depois, em 1530, o protestantismo afirmava-se doutrinalmente na Confissão de Augsburgo, que sistematizava os princípios fundamentais do luteranismo. Entre as rejeições de Lutero aos dogmas católicos, destacam-se:
– Recusa da autoridade do papa e da hierarquia eclesiástica.
– Supressão do celibato clerical, afirmando a igualdade de todos os crentes pelo Batismo.
– Defesa do sacerdócio universal: todos os fiéis são pastores e servos da Palavra.
– Tradução da Bíblia para as línguas nacionais, tornando-a acessível a todos.
– A Sagrada Escritura como única fonte autêntica de fé e revelação.
– Rejeição do valor das obras na salvação: só a fé em Deus salva.
– Reconhecimento de apenas dois sacramentos: o Batismo e a Eucaristia, praticada sob as duas espécies, o pão e o vinho.
– Recusa do culto à Virgem e aos santos, bem como de determinados ritos considerados inúteis.
– Celebração da missa em língua vulgar, centrada na leitura do Evangelho, no sermão e nos cânticos.
O impacto do movimento luterano foi profundo e imediato, abrindo caminho à rápida expansão do protestantismo e forçando a Igreja Católica a empreender um vigoroso processo de autocrítica e renovação interna — a Reforma Católica ou Contrarreforma.
Martinho Lutero faleceu na sua cidade natal, Eisleben, a 18 de fevereiro de 1546, e encontra-se sepultado na Igreja do Castelo de Wittenberg (Alta Saxónia, Alemanha).
O último escrito preservado de Lutero foi encontrado em cima de uma mesa após a sua morte. O pequeno pedaço de papel continha apenas algumas frases e terminava com estas palavras:
“Somos mendigos. Esta é a verdade.”
Túmulo de Martinho Lutero [Wittenberg,Schlosskirche]
No contexto da Contrarreforma, surgida em resposta ao impacto do protestantismo, a Companhia de Jesus destacou-se como o principal instrumento de renovação e afirmação da Igreja Católica. Fundada por Inácio de Loyola e aprovada pelo Papa em 1540, a ordem jesuíta tornou-se o verdadeiro “braço espiritual do Papa”, dedicada à defesa da fé, à formação intelectual do clero e à evangelização no mundo. O seu dinamismo missionário e disciplina rigorosa fizeram dela um dos pilares do catolicismo reformado, empenhada em reconquistar almas e restaurar a autoridade de Roma.
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VEIGA, Francisca Branco (2026), 18 de fevereiro de 1546: O Último Dia de Martinho Lutero (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [18 de Fevereiro de 2026].
A Divina Comédia de Dante: O Inferno. In Ilustração Portugueza de 6 de setembro de 1909
O artigo sobre A Divina Comédia de Dante publicado na Ilustração Portugueza em 6 de Setembro de 1909 é um excelente pretexto para pensar como, no início do século XX, a cultura portuguesa relia os grandes clássicos através da mediação da imagem, da imprensa ilustrada e de uma sensibilidade romântico-simbolista ainda muito viva.
Dante exilado: o poeta em busca de paz
O texto abre com uma pequena narrativa de sabor quase hagiográfico: um monge de Santa Croce conta o episódio em que Dante, já exilado e desconhecido, bate à porta de um convento, vindo “a caminho dos países que ficam para além dos nossos montes”, e apenas pede “paz”. A revista sublinha o cansaço do poeta, esgotado pelas lutas entre guelfos e gibelinos e pelas rivalidades internas do seu próprio partido, traçando o retrato de um Dante desencantado, afastado do sonho de pacificar Florença, a cidade que o havia primeiro banido e depois condenado.
Esta moldura biográfica reforça a ideia de que a Divina Comédia nasce precisamente dessa experiência de dor, nostalgia e errância – é “durante esse período doloroso” que Dante escreve a obra, concluindo os últimos cantos em Ravenna pouco antes da morte.
O Inferno como arquitetura moral
O artigo dedica especial atenção ao Inferno, apresentado como a parte mais celebrada da trilogia (Inferno, Purgatório, Paraíso) e descrito em termos quase cartográficos. O espaço infernal surge organizado em nove círculos concêntricos, divididos em vales e recintos, onde as almas são distribuídas de acordo com a natureza e a gravidade dos seus crimes, numa espécie de topografia moral rigorosa. A imaginação de Dante é caracterizada como “macabra” e “tenebrosa”, capaz de conceber castigos que levam o sofrimento ao limite do cruel e do horrível – um catálogo de suplícios que o articulista afirma serem difíceis de reproduzir sem recorrer às próprias palavras do poeta.
Os exemplos escolhidos são emblemáticos: Paolo e Francesca, condenados a girar eternamente num turbilhão de vento, simbolizando uma paixão que não encontrou forma justa; o conde Ugolino, que devora para sempre o crânio do inimigo que o fizera morrer à fome; e a celebérrima inscrição à entrada do Inferno, “Per me si va nella città dolente…”, apresentada como verdadeira chave de acesso à “cidade dolorosa”.
Ao convocar estes episódios, o artigo cria pontos de ancoragem para leitores que, mesmo sem conhecerem o poema na íntegra, reconhecem as suas figuras mais trágicas.
Gustavo Doré: um comentador em imagens
Um dos aspectos mais interessantes do texto é a forma como consagra Gustavo Doré como o grande “comentador” visual de Dante. As gravuras são descritas como interpretações “exactas e perfeitas” das visões do poeta florentino: os diabos de formas estranhas e ameaçadoras, os condenados de rostos contorcidos pela “sobrehumana dor” e o fundo abrupto, seco e estéril compõem um Inferno que parece prolongar, em traços e sombras, a violência imagética do poema.
A Ilustração Portugueza reivindica particular cuidado na reprodução dessas imagens, sublinhando que as estampas publicadas foram retiradas diretamente da edição portuguesa, em madeira, e destacando a série como uma das partes mais valiosas da obra de Doré. A selecção é pensada como percurso visual: Dante perdido na selva escura, o encontro com Virgílio, os diversos aspetos dessa “mansão pavorosa de trevas e horrores” e alguns dos episódios mais célebres, oferecendo ao leitor um roteiro condensado do Inferno em forma de álbum.
Auto‑imagem de elite culta
No início do século XX, ao olhar para Dante, a cultura portuguesa via sobretudo um espelho elevado de si própria: aspirava à alta cultura europeia, mas filtrava-a pela sensibilidade de uma burguesia urbana que consumia clássicos em versão ilustrada, narrativa e emocionalmente carregada.
Ao assumir que “todos conhecem a trilogia” e ao citar em italiano os versos de abertura e a inscrição do Canto III, o artigo pressupõe um leitor ideal culto, poliglota, capaz de reconhecer referências e de se emocionar com elas. Esta construção de leitor funciona como auto‑retrato: a cultura portuguesa que publica este texto quer ver‑se como pertença de uma elite europeia, familiarizada com Dante, com Doré e com a tradição literária continental. Ao mesmo tempo, o gesto de “oferecer” ao público português uma selecção de estampas reforça uma missão civilizadora: educar o gosto, aproximar o leitor comum de um património que é apresentado como universal.
Dante, o anticlericalismo e o “tribunal” moral de 1909
A publicação deste artigo em 1909 sobre Dante e o Inferno acontece num momento em que o anticlericalismo em Portugal está no auge, sobretudo nos meios republicanos urbanos, e isso torna a escolha do tema particularmente significativa. Embora o texto da Ilustração Portugueza não seja abertamente político, a forma como apropria Dante e a sua visão do pecado e do castigo dialoga, de modo subtil, com o clima de contestação ao poder da Igreja.
Em 1909 o anticlericalismo já é uma bandeira forte do republicanismo, alimentado por décadas de conflito Estado–Igreja e por campanhas de mobilização que apresentam a Igreja como obstáculo à modernização do país. Ler e divulgar Dante – um leigo, poeta, crítico das corrupções do seu tempo – encaixa bem num imaginário que valoriza a denúncia dos abusos de poder, incluindo os eclesiásticos.
Esse enquadramento torna‑se ainda mais expressivo se trouxermos para cena episódios concretos como a manifestação anticlerical de 2 de agosto, que expõe nas ruas uma hostilidade aberta ao poder e à visibilidade pública da Igreja. Nessa atmosfera carregada, a escolha de Dante pela Ilustração Portugueza deixa de ser apenas literária ou estética: adquire uma ressonância simbólica que dialoga com o conflito Estado–Igreja e com a retórica republicana de regeneração moral e política.
A receção de Dante torna‑se particularmente eloquente num país onde, quase ao mesmo tempo que se marcha contra o clero nas ruas – como na manifestação anticlerical de 2 de agosto – se lê, comenta e ilustra com entusiasmo o poeta medieval que põe príncipes, prelados e poderosos no banco dos réus; ao circular em revistas como a Ilustração Portugueza, o Inferno oferece ao público urbano um tribunal simbólico em que os abusos de poder – também os que vestem batina – são julgados em nome de uma ordem moral superior, permitindo a uma cultura em acelerada laicização reconhecer‑se discretamente nas condenações dantescas sem precisar de as enunciar em chave panfletária.
Em jeito de conclusão
Em 1909, num Portugal marcado por forte anticlericalismo e por manifestações nas ruas contra o clero, a publicação, na Ilustração Portugueza, de um artigo sobre o Inferno de Dante, ilustrado por Gustavo Doré, revela muito da auto‑imagem cultural da época: recupera-se a figura do poeta exilado, cansado das fações e das alianças entre poder político e religioso, como modelo de intelectual crítico; apresenta-se o Inferno como arquitetura moral rigorosa, onde príncipes, prelados e poderosos são julgados por uma ordem superior à das instituições; e oferece-se ao público urbano um acesso moderno, visual e prestigiante a um clássico europeu que permite, de forma discreta, ressoar com um imaginário de denúncia de abusos de poder – também os que vestem batina – sem recorrer ao tom panfletário, conciliando, assim, ambição de alta cultura, vontade de laicização e fascínio pelo macabro organizado num “tribunal” simbólico de justiça poética.
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Como referir este texto:
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VEIGA, Francisca Branco (2026), Dante na Ilustração Portugueza de 1909: Inferno, imagens e anticlericalismo na cultura portuguesa(blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [04 de Fevereiro de 2026].
Assassinato do Rei Carlos I, Rei de Portugal, ilustração da capa do &39;Le Petit Parisien&39;, suplemento literário ilustre, 16 de fevereiro de 1908.
O regicídio de 1 de fevereiro de 1908 foi o atentado em que o rei D. Carlos I e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe foram assassinados na Praça do Comércio (Terreiro do Paço), em Lisboa, quando regressavam de Vila Viçosa e entravam na cidade num landau descoberto.
O atentado no Terreiro do Paço
Na tarde de sábado, 1 de fevereiro de 1908, a família real vinha de comboio até ao Cais do Sodré e seguiu em carruagem aberta em direção ao Palácio das Necessidades, passando pelo Terreiro do Paço. Foi aí que vários atiradores, identificados em geral como ligados a meios republicanos e à Carbonária, abriram fogo sobre o coche. D. Carlos morreu quase de imediato, D. Luís Filipe foi mortalmente ferido e ainda terá reagido, enquanto o infante D. Manuel foi atingido num braço, mas sobreviveu.
Autores materiais e enquadramento político
Os atiradores são tradicionalmente associados à Carbonária e a círculos revolucionários republicanos, num clima de forte contestação ao rei e ao governo de João Franco. As fontes evocam nomes como Manuel Buiça e Alfredo Costa entre os executantes, embora a discussão sobre os “autores morais” e o grau de envolvimento de dirigentes republicanos se tenha prolongado ao longo de décadas. O atentado surge no contexto de grande tensão política, crise financeira, contestação ao rotativismo e perceção de autoritarismo reforçado sob João Franco, num regime ainda liberal mas socialmente muito restritivo.
Consequências imediatas
Logo após o regicídio, caiu o governo de João Franco e foram libertados numerosos presos políticos, incluindo muitos republicanos. D. Manuel II, sobrevivente do atentado, foi reconhecido como novo rei, sendo aclamado chefe de Estado em 1908, mas o seu reinado seria muito breve. O choque do regicídio fragilizou decisivamente a monarquia; dois anos depois, a 5 de outubro de 1910, a República foi proclamada e D. Manuel II partiu para o exílio.
Memória histórica
O episódio ficou conhecido como “os três tiros que abalaram a monarquia”, sublinhando o seu peso simbólico na rutura do regime constitucional oitocentista. Na memória pública, D. Carlos I acabou por ser frequentemente lembrado como “o Martirizado”, acentuando o caráter trágico de um reinado interrompido por violência política. Ao nível local e regional, a chegada da notícia (por exemplo, ao Algarve) foi vivida com enorme comoção, amplamente registada pela imprensa da época como “O Século” e o “Diário de Notícias”
Reconstituição de Alfredo Moraes para o “Supplemento humorístico d’O Século” de 13 de Fevereiro. In : Ilustração Portugueza. – Lisboa. – S. 2, vol. 5, n° 106 (1908).
A capa ilustrada de Le Petit Journal fixa um dos momentos mais pungentes da história contemporânea portuguesa: a despedida silenciosa de D. Amélia, entre os corpos do marido, o rei D. Carlos I, e do filho primogénito, o príncipe real D. Luís Filipe, assassinados no Terreiro do Paço a 1 de fevereiro de 1908. A rainha surge de luto, ajoelhada entre os dois leitos, numa composição que transforma o drama político do regicídio numa cena quase sacra, marcada pela dor íntima, pela maternidade ferida e pela solidão do poder derrotado. As velas acesas, os estandartes e os tecidos cuidadosamente dispostos reforçam a ideia de ritual fúnebre de Estado, mas o centro emocional da imagem não está na pompa, está no corpo inclinado da rainha, no gesto de quem vela e chora os seus mortos.
Esta representação, publicada na imprensa ilustrada francesa, revela também como a Europa viu o regicídio português: menos como um episódio interno de crise de regime, e mais como uma tragédia familiar que abala a própria ideia de monarquia. Ao destacar a dor da esposa e da mãe, o jornal convida o leitor a empatizar com a figura de D. Amélia, humanizando uma casa real que, em Portugal, era alvo de duríssimos ataques políticos e de feroz contestação republicana. A imagem é, por isso, simultaneamente crónica visual de um acontecimento e construção de uma narrativa: a monarquia portuguesa aparece aqui como vítima sacrificada, envolta num cenário de luto, num momento em que o seu fim político se aproximava inexoravelmente.
Em 1908, três tiros não abateram apenas um rei e um príncipe: sepultaram uma era e acenderam o fio que levaria à República.
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VEIGA, Francisca Branco (2026), Os três tiros que derrubaram a Monarquia Portuguesa: 1 de Fevereiro de 1908 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [01 de Fevereiro de 2026].
Nossa Senhora da Atalaia (Igreja Matriz de Oeiras) Fotografia: @franciscabrancoveiga
O culto a Nossa Senhora da Atalaia remonta a uma antiga tradição mariana cujas origens se ligam a uma alegada aparição da Virgem sobre uma aroeira, junto a uma fonte tida como sagrada. Nesse local surgiu um templo que acolheu a primeira imagem da Senhora, transformando-o em centro de peregrinação e devoção.
Já no início do século XVI a fama do santuário era significativa: em 1505, durante uma peste em Lisboa, oficiais da alfândega dirigiram-se em procissão à Atalaia para pedir proteção divina. Cientes do milagre que atribuíam à intercessão da Virgem, fundaram uma confraria que passou a organizar peregrinações anuais — um gesto que consolidou o culto como expressão duradoura da religiosidade popular e da solidariedade entre comunidades.
Santuário de Nossa Senhora de Atalaia (Montijo)Imagem de Nossa Senhora da Atalaia sobre uma nuvem, segura o menino com o braço direito e na mão esquerda um ramo de flores. Na parte inferior várias casa, um rio com barcos (VASCONCELOS, p.49)
A devoção a Nossa Senhora da Atalaia reflete uma profunda ligação entre fé, natureza e vida comunitária. A aroeira e a fonte sagrada evocam a dimensão natural e simbólica do sagrado, enquanto as procissões e círios unem as populações em torno da imagem da Mãe protetora. Entre as manifestações mais marcantes destacou-se o Círio de Oeiras, que durante cerca de quatro séculos levou os fiéis pelo Tejo até à Atalaia, numa romaria fluvial organizada pela extinta Confraria de Oeiras.
Ladeando o retábulo‑mor do Santuário de Nossa Senhora da Atalaia, a cerca de dois metros de altura, do lado da Epístola, encontra‑se a inscrição: “O ALTAR DE N. SNRA. DA ATALAIA / HE PREVILIGIADO TODOS OS DI / AS DO ANNO MERCE Q.UE CON / CEDEV O SS. P. PIO C A INSTACI / AS DOS DEVOTOS. DE OEIRAS / ANNO DE MDCCXCII”.
“O ALTAR DE N. SNRA. DA ATALAIA / HE PREVILIGIADO TODOS OS DIAS DO ANNO” indica que aquele altar é “privilegiado”, isto é, associado a graças espirituais especiais (indulgências, benefícios litúrgicos) válidas em qualquer dia do ano.
“MERCE Q.UE CONCEDEV O SS. P. PIO” refere-se a uma mercê (graça, favor) concedida pelo “Santíssimo Padre Pio” – um dos papas de nome Pio – que outorga esse privilégio ao altar.
“A INSTACIAS DOS DEVOTOS. DE OEIRAS” significa que esse privilégio foi obtido “a instâncias”, isto é, por solicitação insistente dos devotos de Oeiras, sublinhando a ligação histórica e espiritual entre o santuário e essa comunidade.
“ANNO DE MDCCXCII” corresponde ao ano de 1792, data em que o privilégio foi formalmente reconhecido e mandado inscrever.
Em síntese, a inscrição funciona quase como um “documento em pedra”: regista que, desde 1792, o altar-mor de Nossa Senhora da Atalaia é um altar privilegiado todos os dias do ano, por graça do papa Pio, obtida graças à intervenção dos devotos de Oeiras.
1753 – data do ex-voto mais antigo que se conhece dedicado à Senhora da Atalaia, sendo oferta dos quinze romeiros do círio de Oeiras que foram apanhados por um forte temporal; 1792 – mercê de altar privilegiado de Nossa Senhora da Atalaia concedida aos devotos de Oeiras pelo papa Pio VI; 1903 – venda das casas do Círio de Oeiras, em hasta pública, devido ao declínio do mesmo, a um morador de aldeia Galega;
Em 2023, celebrando os 275 anos da Igreja Matriz de Oeiras, esta antiga tradição foi recuperada, mobilizando as paróquias sucessoras da Confraria — Porto Salvo, Paço de Arcos, São Julião, Nova Oeiras e Oeiras — num gesto de reencontro com a memória espiritual e marítima do concelho.
Na própria Igreja Matriz, guarda-se um testemunho notável desta devoção: uma pintura representando Nossa Senhora da Atalaia, visivelmente inspirada na tradição iconográfica mariana e nas paisagens devocionais da região. A obra, exposta em local de destaque, convida o visitante a descobrir não só a riqueza artística da composição, mas também a história viva que ela transporta — feita de fé, promessa e comunhão.
Na Igreja Matriz de Oeiras, a devoção a Nossa Senhora da Atalaia ganha forma visível na pintura a óleo sobre tela, datada de 1745 e atribuída ao pintor lisboeta Jerónimo da Silva. Integrada num dos altares laterais da nave, emoldurada por mármore e talha de gosto barroco, esta obra inscreve-se no ciclo mariano que percorre o interior do templo, dialogando com outras representações da Virgem.
Para o visitante atento, a tela funciona como um verdadeiro “sinal” da antiga romaria fluvial de Oeiras à Atalaia: mais do que simples quadro devocional, é uma peça que condensa séculos de fé, memória e ligação ao Tejo, convidando quem entra na igreja a procurar a sua localização, a observar os detalhes da composição e a redescobrir, através da imagem, a história viva do círio e da comunidade que o manteve ao longo do tempo.
Visitar a Igreja Matriz de Oeiras é, assim, entrar em contacto com um património que ultrapassa a arte religiosa: é reencontrar uma narrativa de crença partilhada, de ligação ao Tejo e de continuidade entre o passado e o presente. A pintura de Nossa Senhora da Atalaia torna-se, nesse contexto, tanto memória como convite — um apelo silencioso à contemplação e à redescoberta de uma devoção que, mais do que preservar o sagrado, mantém viva a alma de uma comunidade.
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VEIGA, Francisca Branco (2026), Entre o Tejo e a Devoção: O Legado de Nossa Senhora da Atalaia em Oeiras (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [30 de Janeiro de 2026].
D. Luís Filipe e D. Manuel de Bragança em visita ao Colégio de Campolide, por ocasião da sessão solene da academia científica, 16 de março de 1905. Arquivo Português da Companhia de jesus.
A fotografia regista a visita dos príncipes D. Luís Filipe e D. Manuel ao Colégio Jesuíta de Campolide, em Lisboa, para presidirem a uma sessão solene da academia científica do colégio em 16 de março de 1905.
Contexto da sessão de 1905
A sessão integrou as atividades da Academia Científica e Literária de Maria Santíssima Imaculada, formada pelos melhores alunos para debates e experiências científicas avançadas.
Tratou‑se de uma sessão de física experimental com demonstrações públicas que tiveram grande impacto, justamente pela presença dos príncipes e pela visibilidade dada ao ensino científico jesuíta.
Conteúdo científico apresentado
Na sessão foram expostas e demonstradas várias teses, incluindo experiências de eletricidade, magnetismo e telegrafia sem fios, área em que os jesuítas de Campolide já realizavam ensaios desde 1902.
Esta ênfase em trabalho experimental distinguia o colégio da prática habitual em Portugal, ainda muito teórica, e servia para contrariar o estereótipo de “obscurantismo” atribuído à Companhia de Jesus.
In Proscritos, 1911.Reitoria da Universidade Nova de Lisboa. Campus De Campolide .
Num país ainda preso a práticas pedagógicas teóricas, o Colégio de Campolide funcionou como vitrina estratégica de um ensino experimental de elite, integrando ciência, devoção mariana e prestígio régio, o que reforça a capacidade jesuíta de adaptação cultural e penetração nas elites sociais e políticas, mesmo após supressões históricas. Este episódio sublinha a estabilidade e relevância perdurável da Companhia em Portugal, transformando potenciais críticas em demonstrações de excelência que atraíam apoio institucional e público.
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VEIGA, Francisca Branco (2026), D. Luís Filipe e D. Manuel de Bragança em visita ao Colégio de Campolide (Março 1905)(blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [26 de Janeiro de 2026].
Membro da monarquia, filha de D. Carlos IV, rei de Espanha, e de D. Maria Luísa de Parma.
Carlota Joaquina Teresa Cayetana de Bourbon e Bourbon nasceu a 25 de abril de 1775, nos jardins reais de Aranjuez, em Espanha, e faleceu a 7 de janeiro de 1830, no emblemático Palácio de Queluz, em Portugal.
Com apenas 10 anos, em maio de 1785, a jovem infanta espanhola desposou o príncipe D. João, filho da rainha D. Maria I de Portugal. O destino da família alterou-se em 1788, com a morte do irmão mais velho de D. João, D. José: D. João passou a ser o herdeiro do trono, assumindo a regência em 1792 (devido à interdição materna) e, em 1816, tornou-se rei D. João VI.
Deste casamento nasceram nove filhos, entre os quais os futuros reis D. Pedro IV e D. Miguel I — figuras centrais nas guerras liberais —, e a infanta D. Isabel Maria, que exerceria a regência de Portugal. Uma linhagem que definiu o futuro da monarquia portuguesa!
A 7 de Janeiro de 1830 a rainha D. Carlota Joaquina morre no Real Paço de Queluz.
A sua morte representou uma perda de grande relevância para as forças do Absolutismo português, entre as quais a própria Companhia de Jesus, que nela reconhecia uma indómita aliada da causa religiosa e do trono.
Capela do Palácio Nacional de Queluz
As exéquias solenes, celebradas na capela do Palácio de Queluz por Fr. João de S. Boaventura, tornaram-se ocasião para consagrar publicamente a soberana enquanto heroína do Absolutismo, conforme o testemunham os discursos fúnebres então proferidos:
já não existe essa Mulher forte, Ídolo dos verdadeiros Portuguezes, Apoio da Religião, Sustentáculo do Throno. […] Seu Esposo atenuado e combatido por mil vicissitudes políticas e fraudulentas; seu Augusto Filho, caro objecto da sua ternura, perseguido, desterrado e deprimido; a Pátria em fim de Afonso e os Portugueses submersos e sempre agrilhoados por inimigos externos, domésticos e incansáveis, encontrarão sempre nesta Heroica Rainha um baluarte, um apoio, um centro comum de união para destruir e desfazer os iníquos estratagemas do refalsado Liberalismo […] Era justo pois, Augusto Rei, e Senhor Nosso, que se lhe consagrasse esta fúnebre e solene pompa, para honrar sua preciosa e imortal Memória[1]
O discurso beneditino eleva D. Carlota Joaquina a “Mulher forte” e “Ídolo dos verdadeiros Portugueses”, contrapondo-a ao “refalsado Liberalismo” — termo carregado de desprezo miguelista. A linguagem apocalíptica (“submersos e agrilhoados”) invoca imagens bíblicas de resistência, alinhando a rainha com a defesa da Religião e do Trono, num momento em que D. Miguel I buscava legitimidade contra D. Pedro IV.
A cerimónia das exéquias de D. Carlota Joaquina constitui, por isso, um paradigma do modo como a corte e os setores tradicionalistas projetavam sobre a figura régia um modelo de resistência política e religiosa, tornando-a símbolo de união e de defesa contra as ameaças do Liberalismo. As exéquias transcendem o luto: funcionam como ato performativo da corte tradicionalista, projetando Carlota como “baluarte” contra inimigos internos e externos. Tal modelo reflete a parenética franciscana ao serviço da monarquia, transformando a memória régia em ferramenta de coesão ideológica num reino em crise.
Posteriormente, o corpo foi transladado para a Igreja de São Pedro de Penaferrim, em Sintra, onde foi sepultado inicialmente, antes de transferência para o Panteão dos Braganças no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, ao lado de D. João VI.
Ao perderem a proteção ativa da rainha, os missionários Jesuítas, que se encontravam em Portugal desde 1829, tornaram-se ainda mais dependentes do favor real, num ambiente cada vez mais marcado pela incerteza institucional que antecedeu o colapso definitivo do absolutismo em Portugal em 1834.
[1]Oração fúnebre da muito alta e poderosa imperatriz e Rainha de Portugal a Senhora D. Carlota Joaquina de Bourbon, recitada a 14 de Janeiro de 1831, por Fr. João de S. Boaventura. Lisboa: Na Impressão Regia, 1831, p. 7.
Fr. João de São Boaventura (ou Fr. João de S. Boaventura, ca. 1786-?), frade beneditino, foi o autor da Oração fúnebre da muito alta e poderosa imperatriz e Rainha de Portugal a Senhora D. Carlota Joaquina de Bourbon, recitada a 14 de janeiro de 1831 — um ano após a morte da rainha, em cerimónias solenes mandadas celebrar por D. Miguel I na Real Capela do Paço de Queluz.
A oração fúnebre foi proferida nas exéquias anuais ou de trasladação em memória da rainha, exaltando-a como heroína absolutista e mãe de D. Miguel. Impressa em Lisboa (1831), circula em exemplares raros em alfarrabistas e catálogos bibliográficos, com tiragens dedicadas à corte miguelista.
Fr. João de São Boaventura era pregador beneditino, autor de outras orações fúnebres régias, como a de D. João VI (1826), alinhado com o absolutismo português. Participou ativamente em eventos contrarrevolucionários, incluindo apoio aos condenados de Coimbra em 1828.
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VEIGA, Francisca Branco (2023), Morte de D. Carlota Joaquina, Rainha Consorte de Portugal (7 JAN. 1830) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [07 de Janeiro de 2026].
#franciscabrancoveiga #historia4all #franciscaveiga #rainhacarlotajoaquina #7deJaneiro #cultura In Francisca Branco Veiga e José Subtil, Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822-1834). Ed. Autor, 2025.
Mergulhe no livro de Francisca Branco Veiga e José Manuel Subtil e descubra como uma devoção mariana, entre 1822 e 1834, se tornou peça-chave na teia de poderes que uniu política, Companhia de Jesus e identidade nacional em Portugal.
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Dive into the book by Francisca Branco Veiga and José Manuel Subtil to uncover how a Marian devotion between 1822 and 1834 became a key piece in the web of powers uniting politics, the Society of Jesus, and national identity in Portugal.
ÍNDICE
BREVES PALAVRAS AOS LEITORES…………………………………….. 9
INTRODUÇÃO…………………………………………………………………… 15
CAPÍTULO I
O CONTEXTO DAS CRISES POLÍTICAS………………………………. 21
1. Uma monarquia quase sem rei (1786-1834)………………………. 30
2. A Regência de D. Isabel Maria (1826-1828)……………………… 37
3. As duas Regências no exílio (1829-1834)………………………….. 47
4. Das invasões francesas à revolução (1807-1820)………………… 52
5. A Vila-Francada e a Abrilada (1823-1824)…………………………. 68
6. A turbulência nas elites, mitos e fervores épicos………………. 86
CAPÍTULO II
A POLÍTICA, A RELIGIÃO E A TRADIÇÃO (1822 E 1834)……. 103
1. Nossa Senhora da Rocha: a “Primeira Revolucionária”….. 106
2. D. Maria Teresa, D. Maria Francisca e a causa miguelista 136
3. O Regresso dos Jesuítas: Fé, Política e Aliança Real………. 167
4. Vestes para Nossa Senhora da Rocha……………………………. 189
5. Patriarcas, Jesuítas e Nossa Senhora da Rocha: A Aliança
Espiritual e Política no Fortalecimento do Trono e do Altar. 195
6. A Companhia de Jesus e o Culto Mariano……………………… 202
CAPÍTULO III
O REINADO DE D. MIGUEL E A COMPANHIA DE JESUS…. 219
1. O Equilíbrio entre Fé e Política no Tempo de Lazer (Oeiras) 224
2. A consagração religiosa (Carnaxide)…………………………….. 232
3. As incumbências da veneração (Laveiras e Barcarena)…… 250
4. O Rei e a devoção à Senhora da Rocha…………………………. 267
5. Forte de São Julião da Barra, refúgio ou prisão?…………….. 277
6. Missão Portuguesa da Companhia de Jesus:
o fim e o princípio de uma nova Era………………………………… 318
CONCLUSÃO……………………………………………………………………. 325
ANEXOS………………………………………………………………………….. 331
1. Cronologia…………………………………………………………………. 333
2. Iconografia………………………………………………………………… 339
3. Um Olhar Fotográfico à Gruta de
Nossa Senhora da Conceição da Rocha……………………………. 357
4. Catálogo dos Padres e Irmãos da MissãoPortuguesa da
Companhia de Jesus, entre 1829 e 1834…………………………….. 359
A história política e institucional de Portugal, entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX (1755–1834), foi marcada por profundas convulsões: o terramoto de 1755, atentado régio, mudanças na condução da Coroa, guerras europeias, invasões, revoluções, contrarrevoluções, violentas disputas ideológicas e uma guerra civil devastadora entre absolutistas e liberais.
Neste contexto, a religião assumiu um papel central, quer como elemento de identidade social e instrumento de legitimação do poder, quer como polo de crítica política, na medida em que resistia e condicionava a transformação do regime.
Este livro propõe-se analisar estas dinâmicas, focando-se na interseção entre política, fé e tradição, com especial destaque para a veneração de Nossa Senhora da Rocha e o papel da Companhia de Jesus no fortalecimento do absolutismo, particularmente durante o reinado de D. Miguel.
A primeira parte do estudo recenseia e examina o período de crise que marcou a transição da monarquia portuguesa entre 1786 e 1834. Trata-se de uma fase marcada pela fragilidade e instabilidade sucessória, desde o afastamento da Rainha D. Maria I até à morte de D. João VI, passando por sucessivas regências e pela complexa conjuntura resultante da transferência da Corte para o Rio de Janeiro e posterior regresso ao Reino, após a revolução que reclamava uma monarquia constitucional.
Se a fugaz regência de D. Isabel Maria (1826-1828), após a morte de D. João VI, procurou gerir este vazio de poder, o certo é que foi incapaz de impedir a radicalização política entre absolutistas e liberais, não evitando o regresso ao poder dos absolutistas com o reinado de D. Miguel (1828-1834).
A reação dos liberais, com a criação de uma regência no exílio (1829-1834), organizaria a contestação ao governo de D. Miguel, sustentando uma resistência que levaria à Guerra civil. E, no contexto europeu, as intervenções das grandes potenciais desencadeariam, também, uma frente diplomática que foi explorada por absolutistas e liberais.
Como se verá, os episódios da Vila-Francada e da Abrilada (1823-1824) foram centrais por demonstrarem como o regresso ao absolutismo gerou reações imediatas, expondo as divisões nas elites políticas e militares e fomentando mitos e discursos épicos que fortaleceram diferentes fações e alimentaram o fervor político, tornando evidente que as lutas pelo poder não eram apenas militares, mas também políticas, simbólicas e ideológicas.
Neste ambiente político e cultural, a fação miguelista adotou uma forte adesão a convicções religiosas, utilizando a fé para combater os “pedreiros livres”, acusados de paganismo e de ameaçar os valores cristãos e nacionalistas.
Justifica-se, assim, nesta primeira parte do livro, uma inventariação dos fatores que causaram a persistente crise política, militar, religiosa e social para entendermos a real inclusão do fenómeno da devoção a Nossa Senhora da Rocha como recurso religioso na luta antiliberal.
O argumento principal da obra desenvolve-se em torno do papel da religião como fator de legitimação do poder político e de resistência ideológica nos confrontos entre absolutistas e liberais. A devoção a Nossa Senhora da Rocha assume-se como um fenómeno central, sendo interpretada por muitos como uma manifestação do apoio divino à causa miguelista. Por esta razão, Nossa Senhora da Rocha é aqui apresentada como a “Primeira Revolucionária”, uma figura que inspirava lealdade e compromisso num período de profunda incerteza.
Neste âmbito, destacam-se as ações de D. Maria Teresa e D. Maria Francisca, figuras femininas influentes que desempenharam um papel crucial na defesa do trono e do altar. Paralelamente, o regresso dos Jesuítas a Portugal representou não apenas uma reabilitação da Ordem religiosa, mas também uma tentativa de reforçar a aliança entre fé e política, num esforço para consolidar o poder absolutista.
A simbologia religiosa materializou-se ainda na elaboração de vestes para Nossa Senhora da Rocha, um gesto que transcendia o ato de veneração e assumia um significado político. O apoio da hierarquia eclesiástica a D. Miguel reforçou-se através da ação dos patriarcas e Jesuítas, consolidando uma aliança entre o trono e a Igreja que visava restaurar a ordem tradicional. Neste sentido, a Companhia de Jesus e o culto mariano surgiram como pilares fundamentais na construção de uma identidade absolutista sustentada pela fé.
Aborda-se o reinado de D. Miguel e o papel da Companhia de Jesus na sua política religiosa. A devoção régia manifestava-se não só em atos públicos, mas também nos momentos de lazer, como ilustram as atividades do rei em Oeiras, onde fé e política se entrelaçavam no quotidiano da corte.
A consagração religiosa, realizada em Carnaxide, território de Oeiras, representou um momento de reforço da autoridade do rei enquanto defensor da fé. A veneração a Nossa Senhora da Rocha estendeu-se a diferentes localidades, e as incumbências dos missionários Jesuítas em Laveiras e Barcarena ilustram a forma como a religião era incorporada na organização do poder político e na mobilização das populações.
O próprio rei cultivava uma relação direta com a devoção à Senhora da Rocha, utilizando a simbologia religiosa como meio de reforçar a sua posição num contexto de resistência ao liberalismo. No entanto, a sua trajetória política culminou num desfecho dramático, com a derrota do absolutismo e o seu exílio. O Forte de São Julião da Barra, onde os Jesuítas foram, por consequência do seu apoio a D. Miguel, mantidos sob vigilância antes de partir para o exílio, simboliza o fim de uma era e o triunfo do novo regime liberal.
A investigação que sustenta este livro assenta numa seleção criteriosa de fontes manuscritas e impressas, provenientes de arquivos nacionais e internacionais, que permitem uma abordagem rigorosa e multifacetada do período entre 1822 e 1834. Destacam-se, entre outros, os fundos do Arquivo Nacional Torre do Tombo, do Arquivo Municipal de Lisboa, do Arquivo Histórico Militar, do Arquivo Histórico Parlamentar, da Biblioteca Nacional de Portugal, do Museu Imperial de Petrópolis, bem como acervos da Companhia de Jesus em Portugal e no estrangeiro. A estes somam-se legislação, periódicos da época, dicionários biográficos e históricos, e obras de referência sobre a história política, religiosa e social de Portugal e do Brasil no século XIX. Esta diversidade documental permite não só reconstruir os acontecimentos e as mentalidades do tempo, como também situar o culto de Nossa Senhora da Rocha no contexto das dinâmicas políticas, religiosas e institucionais do período, conferindo à presente obra um carácter original e solidamente fundamentado, em sintonia com o “estado da arte” da investigação histórica.
Em suma, este estudo analisou como as crises políticas e sociais do século XIX moldaram a relação entre o Estado e a Igreja, evidenciando a instrumentalização da religião como meio de legitimação e sustentação de projetos de poder. A devoção a Nossa Senhora da Rocha e o papel da Companhia de Jesus emergem como elementos centrais na confrontação entre absolutistas e liberais, ilustrando a complexa interdependência entre fé, política e tradição.
Aristóteles já afirmava: «A introdução é aquilo que não pede nada antes, mas que exige algo depois». Por isso, o presente trabalho visa aprofundar a compreensão do papel da religião nas dinâmicas políticas portuguesas do início do século XIX, demonstrando que a fé ultrapassou a mera manifestação espiritual para se tornar um instrumento decisivo na disputa pelo poder e na construção da identidade nacional num período especialmente conturbado da história de Portugal.
Podemos concluir que, nas primeiras décadas do século XIX, a tríade composta por Nossa Senhora da Rocha, fé e poder assumiu um papel fulcral na definição da identidade política e religiosa da época — cabendo agora ao leitor, após a leitura, ponderar sobre as complexas interações entre estes elementos e o seu impacto na história nacional.
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Francisca Branco Veiga e José Manuel Subtil, Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822–1834) Introdução. Ed. Autor, 2025.
D. Sebastião e Fernão Teles de Meneses partilham a mesma gramática simbólica nos seus túmulos: um corpo piramidal assente sobre elefantes, onde a pedra se converte em memória e a morte em narrativa de glória.
O rei que não voltou
D. Sebastião morreu na batalha de Alcácer Quibir, em agosto de 1578, tendo o seu corpo sido reconhecido no campo de batalha por fidalgos portugueses que juraram novamente sobre o cadáver já em Lisboa, no Convento do Carmo.
Entregue por Mulei Ahmed em Ceuta, em dezembro desse mesmo ano, o corpo foi depositado na Capela de Santiago, na Igreja da Trindade, antes de Filipe I ordenar, em 1582, a trasladação para a Igreja de Santa Maria de Belém, onde ainda hoje repousa numa das capelas laterais do cruzeiro.
A pirâmide de um rei
O túmulo de D. Sebastião, mandado executar por D. Pedro II em 1682 e atribuído a Mateus do Couto, ergue-se como uma pirâmide de mármore, rematada pela coroa e pela cruz, apoiada em dois elefantes que parecem sustentar o peso do reino perdido em África.
Estes elefantes, eco dos animais exóticos trazidos do Oriente, simbolizavam poder, memória e o alargamento do mundo português, levando o jovem rei “nos ombros” até à eternidade e alimentando a lenda daquele que, morto de forma tão concreta, continuou a ser esperado como Encoberto.
Túmulo de D. Sebastião (pormenor)
O fundador da Cotovia
Quase quarenta anos depois da morte de D. Sebastião, outro português sonhador, Fernão Teles de Meneses, investia a sua fortuna na fundação do noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus, cuja primeira pedra foi lançada em 23 de abril de 1603, ricamente ornamentada e com moedas devotas no interior.
Morreu a 26 de janeiro de 1605, e a sua viúva, D. Maria de Noronha, mandou erguer um mausoléu de grande aparato para a capela‑mor da nova igreja, pagando 3 000 cruzados para que os ossos do marido, guardados provisoriamente em S. Roque, tivessem morada definitiva junto ao altar.
A “cópia” jesuíta do modelo régio
O túmulo de Fernão Teles e de sua esposa, hoje no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, retoma quase literalmente o modelo régio de Santa Maria de Belém: uma arca lisa, de mármore rosado, encimada por estrutura piramidal e assentando em dois elefantes de mármore cinzento‑escuro, provavelmente segundo traça de Pedro Nunes Tinoco.
Tal como nos Jerónimos, os elefantes indianos funcionam como pedestais exóticos da santidade social do fundador, traduzindo nas regras da Companhia de Jesus – que exigiam a presença do túmulo do benfeitor na capela‑mor – a mesma gramática visual de poder, gratidão e eternidade reservada aos reis.
Túmulo de Fernão Teles de Meneses (pormenor)
Duas vidas, um mesmo pedestal
O rei guerreiro que morreu em Alcácer Quibir e o fidalgo que preferiu “construir” noviços para o futuro partilham assim a mesma arquitetura de eternidade: ambos sobem, em mármore, por uma escadaria piramidal para a coroa ou para o brasão, erguidos sobre elefantes que evocam os mundos descobertos e o peso da História.
Na capela‑mor dos Jerónimos e na antiga igreja do noviciado da Cotovia (hoje MNHNC), estes túmulos contam uma narrativa silenciosa: em Portugal, tanto a realeza como o grande fundador e mecenas da Casa de Provação jesuíta caminhavam para Deus pelos mesmos degraus de pedra, sustentados pelos mesmos animais fabulosos, como se o Império e a fé partilhassem o mesmo chão e a mesma promessa de memória sem fim.
Faz este mês de dezembro de 2025, 443 anos sobre a trasladação solene que fixou em Belém o lugar definitivo de memória de D. Sebastião, por decisão de Filipe I, rei que então unia na sua pessoa as coroas de Portugal e de Espanha.
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Como referir este texto:
Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!
VEIGA, Francisca Branco (2025), Quando os Elefantes Sustentam a Eternidade: Dos Jerónimos à Cotovia (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [22 de dezembro de 2025].
In VEIGA, Francisca Branco, Noviciado da Cotovia 1619-1759 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [22 de dezembro de 2025].
O livro encontra-se disponível para aquisição em formato físico na Amazon, e convido todos a conhecerem esta parte fascinante da nossa história.
Todos os anos, quando montamos o presépio, repetimos um gesto antigo, cheio de história e significado. Mais do que figuras numa manjedoura, o presépio conta a história do Natal de uma forma simples e bonita. A sua origem remonta ao século XIII, a São Francisco de Assis, que acreditava que as coisas mais importantes se compreendem com o coração. Para conhecer esta tradição, convido-vos a ouvir a conversa de duas crianças, Diogo e Luís, que nos mostram como é fácil perceber o essencial.
(Diálogo para leitura em sala de aula ou celebração de Natal)
Narrador: Diogo e Luís são irmãos. Estão sentados no chão, em frente ao presépio que está montado na sala da sua casa.
Diogo: Luís, estás a ver o presépio?
Luís: Estou. O Menino Jesus é mesmo pequenino.
Diogo: Sabes quem fez o primeiro presépio?
Luís: Não. Quem foi?
Diogo: Foi São Francisco de Assis. Ele viveu há muitos anos.
Luís: E porque é que ele fez o presépio?
Diogo: Para mostrar às pessoas como Jesus nasceu.
Luís: Assim era mais fácil de perceber.
Diogo: Sim. Em vez de só ouvir, as pessoas podiam ver.
Luís: Jesus nasceu num sítio simples.
Diogo: Num estábulo, com a mãe, o pai e os animais.
Luís: Sabes como o presépio foi para o Brasil?
Diogo: Não. Como foi?
Luís: Há muito, muito tempo, um padre jesuíta chamado José Anchieta levou o presépio e mostrou-o às crianças e aos povos que lá viviam.
Diogo: Assim todos aprendiam a história de Jesus.
Luís: Sim. A olhar e a ouvir.
Diogo: Gosto disso. O presépio ajuda a aprender.
Luís: E junta as pessoas.
Diogo: Então o presépio é para todos.
Luís: É. Para todos.
Narrador: Os dois irmãos ficam a olhar para o presépio. Ali, naquela história simples, começa o Natal.
Reflexão
Olhar para o presépio não é só ver bonecos. É perceber que o Natal é feito de coisas simples, de partilha e de amor. Cada figura conta uma história e lembra-nos que há sempre lugar para todos. E quando estamos juntos, como os manos Diogo e Luís, tudo fica ainda mais bonito: aprendemos, ajudamo-nos e sentimos a alegria de estarmos unidos, tal como o presépio nos ensina.
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VEIGA, Francisca Branco (2025), Diogo e Luís: Um Presépio para Todos,… Todos,… Todos… (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [16 de dezembro de 2025].