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Peças cedidas ao Museu Arqueológico do Carmo pela Escola Politécnica [São Estanislau Kostka e São Luís Gonzaga]

Nas peças cedidas ao Museu Arqueológico do Carmo pela Escola Politécnica[1] encontram-se duas peças do espólio do Noviciado da Cotovia: uma escultura de São Estanislau Kostka (padroeiro dos noviços) e uma de São Luís Gonzaga (padroeiro da juventude).

São Estanislau Kostka e São Luís Gonzaga (Museu Arqueológico do Carmo)

A estatuária religiosa em pedra possui uma função ornamental e identificativa. Trata-se de imaginária integrada em nichos abertos nas fachadas principais dos edifícios religiosos, aludindo ao orago do templo ou ao universo devocional da comunidade religiosa.

Neste caso específico encontramo-nos iconograficamente perante dois santos da Companhia de Jesus. 

São Estanislau Kostka (padroeiro dos noviços) surge-nos, iconograficamente, sustentando um menino nos seus braços, levando-nos ao encontro com sua história onde se conta que, estando doente e durante um sonho, viu a Virgem Maria colocar o Menino Jesus em seus braços. Nossa Senhora, na sua aparição, convidou-o a ingressar na Companhia de Jesus.

A indumentária de ambas as esculturas é semelhante, estando ambos vestidos como membros da Companhia de Jesus, isto é, com sobrepeliz[2].

São Luís Gonzaga (padroeiro da juventude)[3] tem como atributos um lírio, um crânio, uma disciplina ou um crucifixo. Um desses objetos, agora desaparecido da sua mão esquerda era por ele dado a contemplar.

Imagens que física e estilisticamente se aproximam uma da outra, onde a desproporção pode igualmente ser observada e sendo visível ao nível da cabeça, parecendo à vista desarmada um restauro quase desastroso. Cultiva-se o gosto pelo gesto e pela exploração do momento determinante da ação. Mas se olharmos estas figuras num plano mais elevado, esta desproporção ameniza-se. Ambas as peças estão sobre uma base do mesmo material mas também ela provocando alguma dinâmica.


[1] Informação recolhida em José Morais Arnaud (coord.); Carla Varela Fernandes (coord.); Vitória Mesquita (coord.), Construindo a Memória: As Colecções do Museu Arqueológico do Carmo, Lisboa: Associação dos Arqueólogos Portugueses, 2005 (a identificação dos santos encontra-se incorreta).

[2] A Companhia de Jesus ordenou o uso da sobrepeliz durante o sermão e nas lições sagradas, daí surgirem estas duas estátuas com este tipo de indumentária.

[3] São Luís Gonzaga é considerado “Patrono da Juventude”. Seu corpo repousa na Igreja de Santo Inácio, em Roma. São Luís Gonzaga escreveu: “Também os príncipes são pó como os pobres: talvez, cinzas mais fedidas”. Após ter recebido a primeira comunhão das mãos de São Carlos Borromeu, decidiu-se pela vida religiosa, entrando para a Companhia de Jesus.

IGREJA DE GESÚ (Roma) / IGREJA DE S. ROQUE (Lisboa)

A igreja de Gesú, em Roma, tornou-se o modelo arquitectónico a seguir, aquele que traduz as leis e as regras da Companhia de Jesus, onde o altar se encontra no local de acordo com objetivos litúrgicos assumidos no Concílio: uma só nave, larga e desafogada; seis capelas laterais intercomunicantes, de um lado e de outro da nave, erigidas em honra dos Santos e Mártires, permitindo-se a passagem destas ao transepto através de duas câmaras circulares; o transepto é ligeiramente saliente com capelas nos topos; a cúpula sobre o cruzeiro é grande, permitindo iluminar toda a abside; o altar principal fica, geralmente, numa posição bem visível, no topo da capela-mor e o púlpito[1] alto e bem posicionado para dominar sem dificuldade todo o templo e ao mesmo tempo tornar-se o ponto focal, para onde tudo converge.

(9) Altar-mor                                                  (8) Abside

(10) Capela de Madonna della Strada            (7) Capela do Sagrado Coração de Jesus

(11) Capela de Santo Inácio                           (6) Capela de Francisco Saverio

(15) Cúpula                                                     (16) Sacristia

(18) Crucifico maior                                       (17) Ante Sacristia

(12) Capela da Santíssima Trindade               (2) Nave

(13) Capela da Sagrada Família                     (5) Capela dos Anjos

(14) Capela de Francisco Borgia                    (4) Capela da Paixão de Cristo

(1) Fachada                                                     (3) Capela de Santo André

A necessidade de mostrar a grandeza de Deus num espaço amplo, com muita luz, incentiva o povo cristão ao culto mostrando de uma só vez todo o recinto sagrado e o orador a pregar.

Esta igreja corresponde a dois tempos vividos pela Reforma, a sobriedade dos primeiros tempos e a riqueza e ostentação do segundo, onde o maneirismo da estrutura arquitectónica se mistura com barroco da decoração.

No âmbito do Padroado Português, o modelo mais próximo terá sido a igreja de S. Roque, em Lisboa. O projecto da igreja de S. Roque embora inspirado no da igreja de Gesú, apresenta em relação a esta várias diferenças como: a diminuição da largura do transepto que, na igreja de Lisboa, quase se confunde, em planta, com as capelas laterais; enquanto na arquitectura da Gesù há uma cúpula central que depende dos arcos gerados pela abóbada de berço, no padrão português a adopção das traves promove um espaço mais livre e a inexistência de abóbadas recortando o forro da nave central possibilita o uso de padrões decorativos cada vez mais sofisticados nos forros (como a pintura ilusionista); oito capelas laterais intercomunicantes; cabeceira rectangular com capela-mor plana e pouco profunda; a substituição da abside[2] por uma capela-mor muito pequena e inclusão de uma teia com balaústres que delimita o avanço do santuário em relação ao corpo da igreja.

 (9) Capela da Sagrada Família                      (1) Capela da Senhora da Doutrina

(8) Capela de Santo António                          (2) Capela de São Francisco Xavier

(7) Capela da Senhora da Piedade                  (3) Capela de São Roque

(6) Capela de São João Baptista                     (4) Capela do Santíssimo

(13) Altar do Presépio                        (11) Altar da Anunciação

(12) Altar da Santíssima Trindade                 (10) Altares das Relíquias

(10) Altares das Relíquias                              (5) Capela-Mor

 (14) Sacristia 

Segundo o padre Francisco Rodrigues as igrejas jesuíticas lusas da segunda metade do séc. XVI e primeiros quartéis do séc. XVII seguem o modelo da igreja de Gesú. No seu livro História da Companhia de Jesus na assistência de Portugal ele afirma:

“No estilo dessas obras arquitectónicas …seguiu-se geralmente o que prevalecia naquela época de renascimento. Tôdas elas se assemelhavam nas linhas gerais, e distinguiam-se facilmente de outros estilos por certas formas características, de regra observadas na sua construção. Alargavam-se desafogadamente na amplidão de uma só nave, abriam-se lateralmente de um lado e do outro do corpo da igreja em capelas fundas com seu arco de cantaria; o altar principal ostentava-se bem visível no tôpo da capela-mor, e o púlpito suspendia-se em tal altura e posição, que dominasse sem dificuldade tôda a vastidão do templo. Desta sorte se oferecia ao povo cristão uma idéia mais impressionante da grandeza de Deus com a maior largueza do espaço e mais abundância de luz, providenciava-se maravilhosamente à magnificência do culto, abrangendo a multidão dos fiéis com seu olhar tôda a extensão do recinto sagrado, e podiam ainda os maiores concursos ver o orador e escutar-lhe fàcilmente a voz. Assim foi o sentimento religioso e a facilidade imponência das cerimónias cultuais, que traçaram, como era justo, as leis da arquitectura dos santuários.
Veio de Roma a insinuação do estilo, quando se propôs, como norma para as igrejas da Companhia o templo magnífico do Gesú, que por aquêles mesmos anos e com iguais intuitos de prática utilidade se construíu no centro da cidade papal, sob a direcção de arquitectos insignes, como eram VIGNOLA e DELLA PORTA. De feito em 1568 o santo Geral Francisco de Borja aconselhava que as igrejas da sua Ordem fôssem de uma só nave, como a igreja do Gesú. Nesse ano precisamente se abriam osalicerces ao templo farnesiano”[3].


[1] Tribuna, nas igrejas, de onde os oradores sagrados pregam.

[2] Hemiciclo ou meia abóbada que termina as basílicas cristãs, debaixo do qual se encontra o altar-mor.

[3] Francisco Rodrigues S.J., História da Companhia de Jesus na assistência de Portugal, t.II, vol. 1, p. 180.

As primeiras casas dos jesuítas em Lisboa

A Companhia de Jesus nos séculos XVI a XVIII esteve ativa em Portugal ao longo de um período de duzentos e dezanove anos, desde a sua fundação em Roma, em 27 de setembro de 1540, até 3 de setembro de 1759, data do decreto do Marquês de Pombal que promulgou a sua extinção no nosso país.

Foi em 1540 com D. João III (1521-1557), que a Companhia de Jesus entrou em Portugal, sendo o nosso país a primeira Província jesuíta no mundo. Numa época de forte expansão territorial D. João III irá ser o primeiro rei na Europa a contactar Inácio de Loyola devido à necessidade de encontrar missionários, homens letrados, para evangelizar o Oriente, pregando e convertendo à Fé cristã os nativos. D. João concedeu privilégios aos jesuítas, nomeadamente casas gratuitas, liberdade de enviar missionários para todo o mundo e de fundar colégios.

A Companhia de Jesus instalou-se em Portugal continental e Ilhas Atlânticas, durante este período, fundando diversas Casas Professas, Colégios, Noviciados e quintas de recreio. Só em Lisboa, à data da extinção da Companhia havia sete instituições jesuítas: a Casa Professa de S. Roque, o Colégio de Santo Antão, o Seminário de S. Patrício dos irlandeses católicos[1], o Noviciado de Nossa Senhora da Assunção (da Cotovia), o Colégio de S. Francisco de Xavier em Alfama, o Hospício de S. Francisco de Borja e o Noviciado de Nossa Senhora da Nazaré em Arroios (noviciado das Missões).


[1] Em 1611 António Rodrigues Ximenes instalou num edifício antigo da Tutoria da Infância este Seminário que se encontrava sob a direção dos jesuítas. Expulsos os jesuítas por Pombal em 1759, o Colégio de S. Patrício manteve-se em atividade até cerca de 1830, instruindo crianças pobres.

Seminário de S. Patrício dos irlandeses católicos

Noviciado de Nossa Senhora da Assunção (da Cotovia)

Colégio de S. Francisco de Xavier em Alfama

Hospício de S. Francisco de Borja

Noviciado de Nossa Senhora da Nazaré em Arroios (noviciado das Missões)

O Pão e o Peixe Eucarísticos

Pão e Peixe Eucarísticos, arte paleocristã, séc. III (alegoria representando Jesus Cristo).

«Só temos cinco pães e dois peixes; a não ser que vamos nós mesmos comprar comida para todo este povo!»
(Lc 9, 12-13).  
«E, tendo mandado que a multidão se assentasse sobre a erva, tomou os cinco pães e os dois peixes, e, erguendo os olhos ao céu, os abençoou, e, partindo os pães, deu-os aos discípulos, e os discípulos à multidão.
E comeram todos, e saciaram-se; e levantaram dos pedaços, que sobejaram, doze alcofas cheias.
 E os que comeram foram quase cinco mil homens, além das mulheres e crianças».

(Mt 14,19-21)

Homilia Do Cardeal Patriarca. Lisboa, Praça do Município, 26 de Maio de 2005

“Eucaristia, memória do Coração de Cristo”

SOLENIDADE do Corpo de deus

           “ … A bênção de Deus é eficaz, realiza maravilhas. Sentir-se abençoado é sentir-se enviado, capaz de percorrer caminhos novos, que só o amor revela e torna possíveis. Cristo eleva os olhos ao Céu e pronuncia a bênção sobre o pão e o peixe, e eles multiplicam-se na medida justa do Seu amor por aquela multidão. Se o pão é um sinal de bênção, este tem de chegar a todos e para todos. “Isto é o meu Corpo, que é para vós”. E se era para todos, ele tinha de chegar a todos e para todos, para que cada um sentisse e acolhesse o dom de amor do próprio Cristo…”. In http://www.patriarcado-lisboa.pt/vidacatolica/

 

O Peixe

Além de código para se reconhecerem nos tempos de clandestinidade, o anagrama era uma proclamação de fé

Símbolo ambivalente de benção e maldição, como tudo o que é originário das profundezas marinhas, o peixe é para Jonas o instrumento da sua expiação: fugindo da ordem divina, foi engolido por um grande peixe, no ventre do qual passou três dias e três noites até ser, por fim, cuspido à beira- mar, são e salvo (Jn2,1-11). Na tradição cristã, a estadia de Jonas na barriga do peixe tem sido comparada à habitação dos mortos, de onde Cristo saiu vencedor através da Ressurreição (Mt12,40; Lc11,30). Para Tobias, o peixe foi a origem de numerosas benesses: graças ao fígado do animal, o jovem Tobias conseguiu expulsar os demónios de Sara, que ele havia desposado; e devolveu a vista ao seu pai cego.

No Novo Testamento, os peixes representam a alma dos homens chamados a serem salvos nas redes de Deus e de seus servidores (Mt13,48-49; Lc5,1-11; Jo21,1-13). Ligado ao pão (Mt14,13-21,15,23-29; Mc6,30-44, 8,1-10;Lc9,12-17;Jo6,1-15) e, geralmente, à refeição (Jo21,13), o peixe foi durante muito tempo associado à eucaristia; S. Pedro, por instrução de Jesus, encontrou, miraculosamente, a moeda necessária para pagar o imposto (Mt17, 24-27).

Devido a essas referências evangélicas, o peixe tornou- se para os primeiros Cristãos num símbolo de Cristo: um navio sustentado ou puxado por um peixe é a imagem da Igreja guiada pelo Senhor. O simples desenho de um peixe era, inicialmente, uma forma de afirmar a Fé em Cristo: a palavra IX0YE significa peixe em grego, o que na transcrição latina deu ICHTUS sendo também as iniciais de Iêsou Christos Theou Uios Sôtêr com o significado de Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. Um símbolo mas, no entanto, com o verdadeiro sentido do Credo.

O Pão e o Peixe

Relatam os católicos que Jesus por duas vezes multiplicou pães e peixes para atender à multidão que o seguira até uma região “deserta” (longe de cidades) e ali ficara ouvindo-O e recebendo curas mas, por não se terem munido de alimentos, estavam a ponto de passar fome.

A primeira multiplicação é relatada

 por Mt14,13/23

13 Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu, e foi de barca para um lugar deserto e afastado. Mas, quando as multidões ficaram sabendo disso, saíram das cidades, e o seguiram a pé.

14 Ao sair da barca, Jesus viu grande multidão. Teve compaixão deles, e curou os que estavam doentes.
15 Ao entardecer, os discípulos chegaram perto de Jesus, e disseram:

“Este lugar é deserto, e a hora já vai adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar alguma coisa para comer.”

Sacrário Peixe e Pão

16 Mas Jesus lhes disse:

“Eles não precisam ir embora. Vocês é que têm de lhes dar de comer.”

17 Os discípulos responderam:

“Só temos aqui cinco pães e dois peixes.”

18 Jesus disse:

“Tragam isso aqui.”                                                                     

19 Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Depois pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu, pronunciou a bênção, partiu os pães, e os deu aos discípulos; os discípulos distribuíram às multidões.

20 Todos comeram, ficaram satisfeitos, e ainda recolheram doze cestos cheios de pedaços que sobraram.

21 O número dos que comeram era mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.

22 Logo em seguida, Jesus obrigou os discípulos a entrar na barca, e ir na frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despedia as multidões.

23 Logo depois de despedir as multidões, Jesus subiu sozinho ao monte, para rezar. Ao anoitecer, Jesus continuava aí sozinho.

por Mc6,30/44,

 30 Os apóstolos se reuniram com Jesus e contaram tudo o que haviam feito e ensinado.

 31 Havia aí tanta gente que chegava e saía, a tal ponto que Jesus e os discípulos não tinham tempo nem para comer. Então Jesus disse para eles: “Vamos sozinhos para algum lugar deserto, para que vocês descansem um pouco.

32 Então foram sozinhos, de barca, para um lugar deserto e afastado.

 33 Muitas pessoas, porém, os viram partir. Sabendo que eram eles, saíram de todas as cidades, correram na frente, a pé, e chegaram lá antes deles.

 34 Quando saiu da barca, Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão, porque eles estavam como ovelhas sem pastor. Então começou a ensinar muitas coisas para eles.

 35 Quando estava ficando tarde, os discípulos chegaram perto de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e já é tarde. 36 Despede o povo, para que possa ir aos campos e povoados vizinhos comprar alguma coisa para comer.”

37 Mas Jesus respondeu: “Vocês é que têm de lhes dar de comer.”Os discípulos perguntaram: “Devemos gastar meio ano de salário e comprar pão para dar-lhes de comer?”

38 Jesus perguntou:”Quantos pães vocês têm? Vão ver.”Eles foram e responderam: “Cinco pães e dois peixes.” 

39 Então Jesus mandou que todos se sentassem na grama verde, formando grupos. 40 E todos se sentaram, formando grupos de cem e de cinquenta pessoas.

41 Depois Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e ia dando aos discípulos, para que os distribuíssem. Dividiu entre todos também os dois peixes.

42 Todos comeram, ficaram satisfeitos,

43 e recolheram doze cestos cheios de pedaços de pão e também dos peixes.

44 O número dos que comeram os pães era de cinco mil homens.

 por Lc9,10/17

10 Os apóstolos voltaram, e contaram a Jesus tudo o que haviam feito. Jesus os levou consigo, e se retirou para um lugar afastado na direcção de uma cidade chamada Betsaida.

11 No entanto, as multidões souberam disso, e o seguiram. Jesus acolheu-as, e falava a elas sobre o Reino de Deus, e restituía a saúde a todos os que precisavam de cura.
12 A tarde vinha chegando. Os doze apóstolos se aproximaram de Jesus, e disseram:

“Despede a multidão. Assim eles podem ir aos povoados e campos vizinhos para procurar alojamento e comida, porque estamos num lugar deserto.”

13 Mas Jesus disse:

“Vocês é que têm de lhes dar de comer.”

Eles responderam:

“Só temos cinco pães e dois peixes… A não ser que vamos comprar comida para toda esse gente!”

14 De fato, estavam aí mais ou menos cinco mil homens. Mas Jesus disse aos discípulos:

“Mandem o povo sentar-se em grupos de cinquenta.”

15 Os discípulos assim fizeram, e todos se sentaram.

16 Então Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu, pronunciou sobre eles a bênção e os partiu, e ia dando aos discípulos a fim de que distribuíssem para a multidão.

17 Todos comeram, ficaram satisfeitos, e ainda foram recolhidos doze cestos de pedaços que sobraram.

e por Jo6,l/15

 1 Depois disso, Jesus foi para a outra margem do mar da Galileia, também chamado Tiberíades.

2 Uma grande multidão seguia Jesus porque as pessoas viram os sinais que ele fazia, curando os doentes.

3 Jesus subiu a montanha e sentou-se aí com seus discípulos.

4 Estava próxima a Páscoa, festa dos judeus.

5 Jesus ergueu os olhos e viu uma grande multidão que vinha ao seu encontro. Então Jesus disse a Filipe:

“Onde vamos comprar pão para eles comerem?”

6 Jesus falou assim para testar Filipe, pois sabia muito bem o que ia fazer.

7 Filipe respondeu:

“Nem meio ano de salário bastaria para dar um pedaço para cada um.”

8 Um discípulo de Jesus, André, o irmão de Simão Pedro, disse:

9 “Aqui há um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas, o que é isso para tanta gente?”

10 Então Jesus disse:

“Falem para o povo sentar.”

Havia muita grama nesse lugar e todos sentaram. Estavam aí cinco mil pessoas, mais ou menos.

11 Jesus pegou os pães, agradeceu a Deus e distribuiu aos que estavam sentados. Fez a mesma coisa com os peixes. E todos comeram o quanto queriam.

12 Quando ficaram satisfeitos, Jesus disse aos discípulos:

“Recolham os pedaços que sobraram, para não se desperdiçar nada.”

13 Eles recolheram os pedaços e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães que haviam comido.

14 As pessoas viram o sinal que Jesus tinha realizado e disseram:

“Este é mesmo o Profeta que devia vir ao mundo.”

15 Mas Jesus percebeu que iam pegá-lo para fazê-lo rei. Então ele se retirou sozinho, de novo, para a montanha.

A segunda somente,

 por Mt15,32/39

32 Jesus chamou seus discípulos, e disse:

“Tenho compaixão dessa multidão, porque já faz três dias que está comigo, e não tem nada para comer. Não quero mandá-los embora sem comer, para que não desmaiem pelo caminho.”

33 Os discípulos disseram:

“Onde vamos buscar, nesse deserto, tantos pães para matar a fome de tão grande multidão?”

34 Jesus perguntou:

“Quantos pães vocês têm?”

Eles responderam:

“Sete, e alguns peixinhos.”

35 Jesus mandou que a multidão se sentasse no chão.

36 Depois pegou os sete pães e os peixes, agradeceu, partiu-os, e ia dando aos discípulos, e os discípulos para as multidões.

37 Todos comeram, e ficaram satisfeitos. E encheram sete cestos com os pedaços que sobraram.

38 Os que tinham comido eram quatro mil homens, sem contar mulheres e crianças.

39 Tendo despedido as multidões, Jesus subiu na barca, e foi para o território de Magadã.

e por Mc8,1/10

1 Naqueles dias, havia de novo uma grande multidão e não tinham o que comer. Jesus chamou os discípulos e disse:

2 “Tenho compaixão dessa multidão, porque já faz três dias que está comigo e não têm nada para comer. 3 Se eu os mandar para casa sem comer, vão desmaiar pelo caminho, porque muitos deles vieram de longe.”

4 Os discípulos disseram:

“Onde alguém poderia saciar essa gente de pão, aqui no deserto?”

5 Jesus perguntou:

“Quantos pães vocês têm?”

Eles responderam:

“Sete.”

6 Jesus mandou que a multidão se sentasse no chão. Depois pegou os sete pães, agradeceu, partiu-os e ia dando aos discípulos, para que os distribuíssem.

7 Tinham também alguns peixinhos. Depois de pronunciar a bênção sobre eles, mandou que os distribuíssem também.

8 Comeram e ficaram satisfeitos, e recolheram sete cestos dos pedaços que sobraram.

9 Eram mais ou menos quatro mil. E Jesus os despediu.

10 Jesus entrou na barca com seus discípulos e foi para a região de Dalmanuta.

As diferenças entre as duas são pequenas, pois em ambas Jesus:

  • aproveitou do que dispunham (alguns pães e peixes);
  • mandou que o povo se sentasse em grupos (ordenou a multidão);
  • orou (tomando os pães e peixes, ergueu os olhos aos céus e abençoou- os);
  • depois fez a repartição entre os discípulos e destes para o povo;
  • todos comeram à vontade (milhares de homens, além das mulheres e crianças);
  • e ainda sobraram muitos cestos com pedaços de pão e de peixe, que Jesus mandou recolher para nada se perder.

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 Existem várias interpretações sobre o texto da Multiplicação dos Pães e Peixes, escrita na Bíblia. Quero destacar uma que relaciona esta passagem bíblica com a metodologia VER – JULGAR – AGIR – AVALIAR – CELEBRAR.

 Segundo o Evangelho de S. João, capítulo 6, versículo 1 a 15 passou-se o seguinte:

Quando as pessoas que ouviam Jesus resolveram acompanhá-lo para um lugar fora da cidade, certamente alguns deles levaram consigo alguma provisão de comida, já que dificilmente alguém sai para um lugar deserto totalmente desprevenido, sem levar um pouco de água e algum lanche. No momento da refeição, as pessoas provavelmente ficaram inseguras na hora de mostrar o que tinham, pois poderia ser pouco se no caso o vizinho estivesse sem nada. Jesus procurou fazer com os discípulos um levantamento do que existia: cada um tinha um pouco (VER). As pessoas da multidão, possivelmente estavam próximas de pessoas conhecidas umas das outras, e isto contribuiu para saber quem levou algo para comer ou não. Jesus propôs a organização em pequenos grupos como estratégia para as pessoas conversarem sobre a questão (JULGAR). A partilha do alimento é expressa por Jesus com a simplicidade de um menino com cinco pães e dois peixes – primeiro passo é simples e concreto (AGIR). Depois da partilha, as pessoas recolheram doze cestos de comida – sinal que sobrou (AVALIAR). Vendo este milagre da partilha, a multidão festejou a descoberta de que Jesus era verdadeiramente o salvador.

PELICANO EUCARÍSTICO

 

«Senhor Jesus, Pelicano bom, /
Limpa-me com teu Sangue, /
Do qual uma só gota pode libertar /
De todos os crimes o mundo inteiro».

PELICANO EUCARÍSTICO. Séc. XVIII. Portugal. Museu de São Roque, Lisboa.

Presente do Papa Bento XVI aos Bispos do Sínodo

Segundo anunciou Dom Nikola Eterović, Secretário Geral do Sínodo dos Bispos, o Santo Padre Bento XVI decidiu que a todos os Bispos participantes do Sínodo se desse um presente especial: um anel apresentando a figura de um pelicano, que é um símbolo eucarístico tradicional.

 O pelicano, que vive nas margens de lagos e rios nas regiões cálidas, dá de comer aos seus filhotes com o alimento que extrai da bolsa de pele que tem no peito. Segundo explicou a Sala de Imprensa da Santa Sé, tomando este fato como ponto de partida, antigas lendas imaginaram que o pelicano, em caso de necessidade, nutre os seus filhotes com a sua própria carne. A tradição cristã, por isso, a partir da Idade Média, começou a utilizar o pelicano como símbolo eucarístico, vendo nesse dar a própria carne como alimento uma figura de Cristo que entrega seu o Corpo e Sangue aos homens na Eucaristia. Com efeito, o conhecido hino de adoração eucarística, “Adoro te devote”, atribuído a São Tomás de Aquino, chama a Cristo Sacramentado “Pie pellicane”. Também poetas como Dante, pintores como Giotto e a sua escola, reproduzem o pelicano entre os símbolos eucarísticos.

O anel, que tem estampado na parte exterior o pelicano, tem na parte interna o escudo pontifício de Bento XVI.

Tendo por base a lenda antiga de que o pelicano alimenta os filhos com o sangue que faz jorrar do peito, esta ave tornou-se símbolo de Jesus Cristo e da Eucaristia, passando a ser muito representada artisticamente, sobretudo a partir do séc. XV.

In: http://www.eclesales.org/portugues/

O significado de pelicano

Uma das aves imundas (Lv 11,18; Dt 14,17) pertence à ordem dos steganopodes. O pelicano, ordinariamente branco, é muito vulgar na Síria, embora o pelicano dalmaciano se ache também ali. A expressão ‘pelicano no deserto’, tem sido combatida, pois trata-se de uma ave marítima. Mas é costume desta ave dirigir-se de manhã cedo ao seu lugar de pesca, voltando antes do meio-dia regularmente ao seu favorito banco de areia ou aos pântanos do interior, a fim de fazer a digestão do peixe comido e alimentar os seus filhos – e de tarde repete a operação. A aparência da ave na ocasião em que está digerindo o seu alimento, com a cabeça abatida sobre os ombros, com o bico descansando sobre o peito, manifesta desolação. As asas do pelicano são de grande poder, alcançando a sua extensão até 3,50 metros. O nome hebraico do pelicano significa ‘vomitar’, e refere-se ao hábito que tem aquela ave de armazenar alimento no largo saco, preso à mandíbula inferior, com o fim de alimentar os seus filhos. E lança a comida, apertando seu bico contra o peito.

Outrora fez-se do pelicano, ave aquática, um símbolo do amor paternal, sob o falso pretexto de que ele alimentava as suas crias com a sua própria carne e com o seu próprio sangue. Por esta razão, a iconografia cristã fez dele um símbolo de Cristo; mas existe uma razão mais profunda. Símbolo da natureza húmida que, segundo a física antiga, desaparecia sob o efeito do calor solar e renascia no inverno, o pelicano foi tomado como representação do sacrifício de Cristo e da sua ressurreição, bem como da de Lázaro. Por isso a sua imagem esteve algumas vezes ligada à da fénix. O simbolismo ligado a Cristo funda-se também na chaga do coração de onde jorra sangue e água, bebidas da vida: «Desperta-te, cristão morto, escreve Silesius, e vê, o nosso Pelicano banha-te com o teu sangue e com a água do seu coração. Se a receberes bem… num instante estarás vivo e salvo».

O Pelicano, derramando o seu sangue pelos seus filhos, é um símbolo que foi adoptado pela igreja eucarística pois, ele era considerado emblema do Salvador que derramou seu sangue pela humanidade.

O Pelicano é sempre lembrado no momento em que abre as suas entranhas para alimentar os seus filhos, em números considerados sagrados: 3, 5 e 7. O Pelicano é, também, o emblema mais significativo da caridade. E, como tira de suas entranhas o alimento de seus filhos, muitos vêem nele o mais lindo símbolo do amor materno.

Este símbolo – o pelicano- introduz o tema do Sangue de Cristo na sexta estrofe do hino eucarístico: «Senhor Jesus, Pelicano bom, / Limpa-me com teu Sangue, / Do qual uma só gota pode libertar / De todos os crimes o mundo inteiro».
O conteúdo teológico desta estrofe é um solene acto de fé no valor universal do sangue de Cristo, do qual uma só gota basta para salvar o mundo inteiro.

Hino Eucarístico

Adoro te devote

Adoro te devote, latens Deitas,
Quae sub his figuris vere latitas;
Tibi se cor meum totum subiicit,
Quia te contemplans, totum deficit.

Visus, tactus, gustus in te fallitur,
Sed auditu solo tuto creditur;
Credo quidquid dixit Dei Filius,
Nil hoc verbo veritatis verius.

In Cruce latebat sola Deitas.
At hic latet simul et humanitas:
Ambo tamen credens, atgue confitens,
Peto quod petivit latro paenitens.

Plagas, sicut Thomas, non intueor,
Deum tamen meum te confiteor:
Fac me tibi semper magis credere,
In te spem habere, te diligere.

O memoriale mortis Domini,
Panis vivus vitam praestans homini:
Praesta meae menti de te vivere,
Et te illi semper dulce sapere.

Pie pellicane Iesu Domine,
Me immundum munda tuo Sanguine:
Cuius una stilla salvum facere
Totum mundum quit ab omni scelere.

Iesu, quem velatum nunc aspicio,
Oro, fiat illud, quod tam sitio,
Ut te revelata cernens facie,
Visu sim beatus tuae gloriae.
Amen.

O CRUCIFIXO DE GIOTTO NO MUSEU DO LOUVRE

O crucifixo pintado em têmpera e ouro sobre painel de madeira, realizado em 1315 aproximadamente; atribuído a Giotto (1266–1337). Dimensões: 277 × 225 cm.
  • Cristo na cruz está na posição dolens (sofrendo), o corpo caindo, a barriga projetando-se em seu perizonium , a cabeça inclinada para a frente tocando o ombro, as costelas projetando-se, as feridas com sangue, os pés sobrepostos.
  • o crucifixo está em tabelone (pequenos painéis com cenas nas extremidades da cruz: A Virgem Maria à esquerda, São João o apóstolo à direita, presença do titulus no topo sob o painel da “alegoria do pelicano” sacrificando-se para alimentar seus filhos, mas ausência abaixo, talvez perdida, do painel da tumba de Adão com seu crânio).
  • Parte traseira ornamentada da caixa com padrões gravados em um fundo dourado, atrás do corpo de Cristo,

Constituição Portuguesa (23 de setembro de 1822)

Bicentenário

Gravura: Reprodução da pintura “O juramento politico de El-Rei D. João VI ao chegar a Lisboa de regresso do Brasil, em 1822”, de Columbano Bordalo Pinheiro, AHP.

A 23 de setembro de 1822 foi promulgada a Constituição Portuguesa que se afastava frontalmente do regime absoluto ao criar um sistema de poderes tripartido, com a independência dos três poderes políticos separados (legislativo, executivo e judicial), o que contrariava os princípios básicos do absolutismo que concentrava os três poderes na figura do rei[1].

Ao poder executivo exercido pelo Rei, competia à chefia do Governo a execução das leis e a nomeação e demissão dos funcionários do Estado. Todavia, o Rei tinha apenas veto suspensivo sobre as Cortes podendo impedir a promulgação das leis de que discordava, mas sendo obrigado a promulgá-las desde que as Cortes assim o voltassem a deliberar. Deste modo, não tinha nas suas mãos o poder de suspender ou dissolver as Cortes.

Documento das Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, em 1821, finalizando a regência em Portugal e mencionando que o rei ratifica o juramento à Constituição.

Em novembro, a rainha Carlota Joaquina não jura a Constituição, encontrando-se à frente da contrarrevolução. Alberto Pimentel conta que,

“Em fevereiro de 1821, quando D. João VI teve de aceitar em principio, no Rio de Janeiro, a constituição que as cortes de Lisboa approvassem, D. Carlota Joaquina exclamou da varanda do palácio: «Eu sempre fui constitucional.» Os mesmos sentimentos simulou durante a viagem do Brazil para Lisboa, emquanto não viu D. João VI jurar a constituição, contra a sua espectativa”[2].

Como consequência, no dia 4 de dezembro D. Carlota Joaquina perdia a qualidade de cidadã portuguesa e a dignidade de rainha. Nos termos da lei geral devia ser expulsa do reino, tal como o Patriarca de Lisboa que também se recusou a jurar a mesma. Contudo, dez médicos declararam unanimemente que a saída para o estrangeiro lhe acarretaria perigo de vida fixando a sua residência na quinta do Ramalhão, em Sintra, onde estaria acompanhada somente das pessoas indispensáveis ao seu serviço pessoal e sujeita à vigilância da polícia.

Esta recusa foi debatida e posta em causa nas colunas da imprensa da época, como foi o caso do semanário politico O Campeaõ Portuguez em Lisboa, que questionava:

“Em virtude da Constituiçaõ no artigo 149 e seguintes devia a Senhora D. Carlota Joaquina como Rainha ser considerada como uma das grandes auctoridades públicas do Estado porque a mesma Constituiçao lhe garantia o direito futuro de poder vir a ter a presidencia da Regencia provisional. Assim, pergunto eu agora: era possivel que a mesma Senhora podesse gozar deste direito futuro, que a Constituiçao politica lhe dá, naõ querendo ella jurar essa mesma Lei que lhe affiança os direitos?”[3]

Em dezembro desse ano, as Cortes Gerais do Reino levaram a debate este tema tendo a comissão parlamentar considerado a lei cumprida. Apenas o deputado José Acúrcio das Neves, político conservador, defensor acérrimo do miguelismo, e um dos principais inimigos das ideias do liberalismo nas Cortes, levantou a questão da constitucionalidade do procedimento havido para com a rainha, pois no seu parecer a Constituição havia sido violada. Diz ele:

“Sem preceder processo nem sentença do poder judiciário, diz a indicação despojarão-na dos seus direitos civis, e políticos, dos rendimentos da sua casa, e até da sua liberdade, não lhe permittindo nem levar comsigo as Senhoras Infantas suas filhas, para a quinta do Ramalhão, para onde foi mandada retirar e com expressa, e notável ordem de ser acompanhada unicamente pelas pessoas indispensáveis para o seu serviço pessoal que mais lhe farião se fosse convencida de grandes crimes. Não he tudo isto o que consta do relatório, e documentos que o Governo enviou á Cortes, e o que todos nós sabemos? Haverá alguma couza contra isto?”[4] 

O debate parlamentar sobre a recusa do juramento da Constituição tornou evidente a existência de duas fações, liberais e absolutistas e, certamente serviu as aspirações dos contrarrevolucionários que se reuniram em torno da figura da rainha exilada catapultando-a para a frente do grupo de descontentes[5].

António Barros Cardoso refere que, “… muitos começaram a abandonar os ideais liberais quando sentiram que não se tratava de reformar as velhas instituições nacionais, mas antes se procurava produzir uma ruptura profunda com o passado”[6], e achavam mesmo intolerável o papel redutor em que o rei se encontrava.

Para António Ventura, neste primeiro liberalismo português,

“O juramento da Constituição de 1822 pelo rei não inaugurou, como tantos esperavam, uma época de paz e concórdia que possibilitasse a construção de uma monarquia liberal. […] a Constituição fora elaborada por uma minoria ilustrada de deputados, assaz distante da grande maioria do povo, naturalmente conservador, católico e aferrado à tradição”[7].

A Constituição de 22 veio, deste modo, a revelar-se gradualmente adversa às relações entre o Estado e a Igreja, sendo reguladas por um regalismo parlamentar, no qual o poder político contratual considerava ter legitimidade para intervir no foro religioso, dando origem ao surgimento progressivo de um certo conservadorismo.

O Vintismo proclamava a Religião Católica Romana a religião oficial do Estado e, serviu-se dos seus bispos para a divulgação da sua mensagem junto das populações através de Pastorais e juramentos de obediência[8].

No período de 1820-23 foram alguns os eclesiásticos que participaram ativamente na política pró liberal. Até à chegada de D. João VI encontrava-se a governar o país Frei Francisco de São Luís, o futuro cardeal Saraiva e nas Cortes Constituintes encontravam-se como deputados, por exemplo, os bispos de Coimbra (Frei Francisco de São Luís), de Beja (D. Luís da Cunha de Abreu e Melo) ou o arcebispo da Baía (D. Frei Vicente da Soledade e Castro). Fernando Piteira Santos refere que a percentagem de eclesiásticos na nova câmara era de 16%[9].

Alegoria à Constituição de 1822
Domingos Sequeira
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Mas, no juramento das bases da Constituição de 1822, alguns prelados recusaram-se a fazê-lo baseados no facto de o poder político não ter legitimidade para intervir no foro religioso e para legislar sobre matéria religiosa. Entre eles destacou-se o cardeal Patriarca de Lisboa, D. Carlos da Cunha Meneses, o Bispo de Angra, D. Frei Manuel Nicolau de Almeida e o Bispo de Olba, D. Vasco José de Nossa Senhora da Boa Morte Lobo. Todos foram punidos, sendo o primeiro exilado para Bayona e os outros dois presos[10].

Esta Constituição era acusada de radical pela maior parte da nobreza e do alto clero, pois foi elaborada pelos representantes da Nação e imposta ao rei. Para além disso, no conjunto dos 240 artigos, segundo estes, procurava institucionalizar na vida portuguesa os princípios do liberalismo progressista dos revolucionários de 1820.

Já no juramento da Constituição a unanimidade é quase plena, a exceção foi diminuta – três conventos de Lisboa (ex.  a cartuxa de Laveiras) ou três sacerdotes ligados ao Bispo de Bragança[11].

 «Na Constituição de 1822 ficaram consagrados os princípios ligados aos ideais liberais da época: princípio democrático, representativo, da separação de poderes e da igualdade jurídica e respeito pelos direitos pessoais»[12], transferindo a soberania do monarca para a nação e transformando os súbditos em cidadãos. Porém, o catolicismo era imposto como religião do Estado, apenas concedendo liberdade de culto aos cidadãos estrangeiros residentes em Portugal.

D. João VI durante a viagem do Brasil para Portugal, lendo o artigo da nova Constituição relativo à religião católica como religião do estado comentou o seguinte: “…. Eis um absurdo; eu sou catholico e tão aferrado como outro qualquer à minha religião, mas quizera que no codigo politico fundamental de qualquer paiz, se não tratasse de religião. Que tem pois com ella a politica?”[13].

 D. João VI referia-se aos artigos 19º e 25º onde se denota o cuidado e respeito revelados pelos legisladores perante a Igreja e a Religião[14]. Marcada pelo modelo da Constituição Espanhola de Cádis (aprovada a 18 de Março de 1812) e pelas Constituições Francesas de 1791 e 1795, sendo amplamente liberal, põe fim a um conjunto de velhos privilégios feudais característicos do regime absolutista, não reconhecendo qualquer prerrogativa ao clero e à nobreza mas, consagrando direitos e deveres individuais a todos os cidadãos portugueses, privilegiando os direitos humanos relativos à liberdade, à igualdade perante a lei, à segurança, e à propriedade e consagrando a Nação como base da soberania nacional, a ser exercida pelos representantes da mesma legalmente eleitos pelos cidadãos[15].

Nesta pretendida “regeneração nacional”, a religião católica era reconhecida, assumindo uma função legitimadora. Contudo, no debate sobre a Constituição e na Legislação posterior vão aparecer posições que divergem sobre a função da religião, sobre as reformas internas necessárias à Igreja e sobre a relação desta com o Estado e com o rei enquanto magistrado supremo.

A interferência do Estado liberal sobre a vida da Igreja, encarando-a essencialmente como uma “realidade espiritual”, levará nos anos seguintes a uma diferenciação entre os defensores do Antigo Regime e do Regime liberal. Os defensores do absolutismo claramente hostis às conceções e pretensões liberais oponham-se a uma conceção de soberania residindo na nação, expressa pela votação dos cidadãos, legislando e intervindo na vida interna da Igreja, aproximando-se politicamente de um catolicismo ultramontano, defensor do Tono e do Altar[16].

Pretendendo a Igreja ser um dos pilares do regime que deveria contribuir para a união e harmonia social, vê-se com o governo liberal e as suas políticas regalistas em tensão permanente.

Capa e primeira página da Constituição de 1822
Art. 12.º – Todos os portugueses podem ser admitidos aos cargos públicos, sem outra distinção que não seja a dos seus talentos e das suas virtudes.


[1] CANOTILHO, J. Joaquim Gomes“As Constituições”. In MATTOSO, José (dir.) – História de Portugal, vol. 5. Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, pp. 150-153.

[2] PIMENTEL, Alberto – A ultima côrte do Absolutismo em Portugal. Lisboa: Livraria Ferin, 1893, p. 119. Veja-se, inclusive, VARGUES, Isabel Nobre; TORGAL, Luís Reis – “Da revolução à contra-revolução: vintismo, cartismo, absolutismo. O exílio político”. In MATTOSO, José (dir.) – ibidem, pp. 65-66.

[3] O Campeaõ Portuguez em Lisboa, ou O Amigo do Povo e do Rei Constitucional: semanario politico…, nº XLI, vol. 2º, 11 de janeiro de 1823, p. 230.

[4] Diario das Cortes da Nação Portugueza, 24 dezembro de 1822. In PORTUGAL/Cortes – Diario das Cortes da Nação Portugueza: … anno da legislatura, vol. 8, pp. 240-261.

[5] Em dezembro de 1822 abrem as primeiras Cortes Legislativas, contando já com deputados que vão constituir um sector claramente absolutista, liderados por Acúrsio das Neves. Veja-se Diário das Cortes da Nação Portuguesa, segunda legislatura, Tomo I, Lisboa, 1822, sessões de 24 e 27 de dezembro de 1822, pp. 241-285.

[6] CARDOSO, António Barros – “Liberais e Absolutistas no Porto (1823-1829)”. In Estudos em homenagem ao professor doutor José Marques, vol. I. Porto, FLUP, 2006, p. 261; DIAS, A. Pedro – Subsídios para a História Política do Porto. Porto: Typographia Central, 1896, p. 8.

[7] VENTURA, António – ibidem, pp. 125-126. Vítor Neto também menciona o fato da Constituição ter sido elaborada por uma «minoria ilustrada de deputados», proferindo o seguinte no seu artigo intitulado O Estado e a Igreja : “O liberalismo adquiriu (desde os seus inícios) os contornos de um projecto iluminista, assumido por uma vanguarda numericamente reduzida e que vivia um tempo histórico distanciado dos velhos ritmos da sociedade…”. NETO, Vítor – “O Estado e a Igreja”. In MATTOSO, José (dir.) – História de Portugal, 5º vol.. Lisboa: Círculo de Letores, 1993, p. 265.

[8] Veja-se sobre este assunto FARIA, Ana Mouta – “A hierarquia episcopal e o vintismo”. In Análise Social, 2ª série, vol. XXVIII, nº 16-17. Lisboa, 2º-3º trimestre1992, pp. 285-328.

[9] SANTOS, Fernando Piteira – Geografia e Economia da Revolução de 1820. Lisboa: Publicações Europa-América, 1975, p. 51.  

[10] FERREIRA, António Matos – “Desarticulação do Antigo Regime e guerra civil”. In AZEVEDO, Carlos Moreira (Dir.) – História Religiosa de Portugal, vol. 3: Religião e Secularização. Lisboa: Círculo de Leitores, 2002, p. 24.

[11] Referido em MARQUES, A. H. Oliveira (coord.) – Portugal e a Instauração do Liberalismo. In SERRÃO, Joel; MARQUES, A. H. Oliveira – Nova História de Portugal, vol. IX.  Lisboa: Presença, 2002, pp. 309-310; FARIA, Ana Mouta – “A hierarquia episcopal e o vintismo”. In Análise Social, 2ª série, vol. XXVIII, nº 16-17. Lisboa, 2º-3º trimestre1992, pp. 301-302.

[12]A Monarquia Constitucional (1820-1910). In Assembleia da República. [Consultado 17  nov.  2011]. Disponível na internet em: <http://www.parlamento.pt/Parlamento/Paginas/AMonarquiaConstitucional.aspx&gt; ; Constituição de 23 de setembro de 1822 <http://www.parlamento.pt/Parlamento/Documents/CRP-1822.pdf&gt;

[13] S. L. – História de El-Rei D. João VI: primeiro rei constitucional de Portugal e do Brasil em que se refere os principais actos e occorrencias do seu governo bem como algumas particularidades da sua vida privada. Lisboa: Typ. Universal, 1866, p.126.

[14] O artigo 25º da Constituição de 1822 era uma reelaboração do artigo 17º das Bases da Constituição, aprovadas em março de 1821, no qual se podia ler: “A sua religião (da Nação Portuguesa) é Católica Apostólica Romana”.

A rainha Carlota Joaquina recusou-se formalmente a reconhecer a Constituição e não fez o juramento em 1822. In GRAINHA, M. Borges – Histoire de la Compagnie de Jésus en Portugal: 1540-1910, Première Époque. Lisboa: Imprensa Nacional, 1915, p. 51.

[15] Segundo o filósofo Friedrich Schlegel (1772-1829), o conceito de nação exige que todos os seus membros devem formar-se como se fossem apenas um único indivíduo.

[16] FERREIRA, António Matos– “Desarticulação do Antigo Regime e guerra civil”. In AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.) – História Religiosa…, pp. 21-35.

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China

Nos séculos XV e XVI desenvolveram-se em Portugal os meios técnicos necessários que possibilitaram as grandes navegações, as quais, por sua vez, vieram a permitir progressos científicos notáveis nos mais variados domínios, com destaque para a Náutica, a Cartografia, a Construção Naval, a Medicina e a Botânica.

As viagens dos Descobrimentos obrigaram os portugueses a considerar o regime dos ventos e das correntes no Atlântico e a desenvolver a náutica astronómica, isto é, a capacidade de conhecer a posição aproximada dos navios em alto mar.

Para esse feito utilizaram-se instrumentos de observação astronómica como o quadrante e o astrolábio náuticos ou ainda a balestilha, que permitiam determinar a altura de um astro sobre o horizonte e dessa forma calcular a latitude do lugar onde se realizava a observação.

Lisboa tornou-se no centro de intercâmbio cientifico entre os Colégios Europeus e as missões orientais.

No Colégio (jesuíta) de Santo Antão, em Lisboa, funcionou desde finais do século XVI até ao século XVIII uma “Aula de Esfera”, pública (“Aula de Esfera” por se tratar de textos sobre Tratados «da esfera», dedicados à exposição dos princípios de cosmografia).

Programas seguidos nesta aula:

Arte de Navegar

Estudo da Geografia/Hidrografia

Cosmografia, construção e uso de globos

Astrologia Judiciária / astrologia prática

Geometria (ingresso na carreira militar)

A «aula de esfera» do Colégio de Santo Antão foi muito importante na cultura portuguesa do século XVII por ser o único curso onde se professavam as ciências tão intimamente ligadas à Matemática.

Aqui estudaram muitos dos homens que retratámos em outras publicações e que se distinguiram em cargos que dependiam destas ciências.

Jesuítas Matemáticos Portugueses no Império da China (século XVI-XVIII).

Astrónomos jesuítas Portugueses na China (1)

TOMÁS PEREIRA S.J. [Nome chinês: Xu Risheng, cuja tradução é “Sol que nasce aos poucos”].

S. Martinho do Vale (Braga)

Missionário jesuíta, músico, matemático.

Nasceu a 1 de novembro de 1645, e S. Martinho do Vale, perto de Braga e morreu a 24 dezembro de 1708 em Beijing (Pequim).

Descende de uma família nobre portuguesa Costa Pereira estudou no Colégio de S. Paulo, em Braga.

Integrou durante 35 anos a corte do imperador chinês Kangxi (1654 – 1722), cuja governação marca o início de uma era áurea da civilização chinesa.

Zarpou de Lisboa em 15 de abril de 1666 e acabou a sua formação na Índia.

Saiu de Macau em 1672 e chegou a Pequim em 1673. Foi convidado do Imperador Xangxi devido aos seus dotes naturais e musicais. Ensinou o Imperador a tocar o “clavicórdio”.

No ano de 1688 foi encarregue de traçar as fronteiras da Sibéria com a China.

Vice-Presidente do Tribunal das Matemáticas, em Pequim. Depois da morte de Verbiest (1688) Xangxi nomeou Tomás Pereira presidente da Comissão de Astronomia, mas Pereira declinou, ficando como Presidente substituto com António Pereira de 1688 a 1694.

Tomás Pereira fabricou um relógio para a torre de uma igreja, em Pequim.

Introduziu no interior da torre um tambor com espigões, semelhantes aos das caixas de música, que acionavam arames ligados aos badalos de um carrilhão o qual, a todas as horas, tocava músicas tradicionais chinesas.

Astrónomos jesuítas Portugueses na China (2)

ANDRÉ PEREIRA S.J. (1689-1743) [Nome chinês: XU Moude, Zhouxian].

Missionário, sinólogo, astrónomo, matemático.

Nasceu em 1689, no Porto e morreu em 1742, em Beijing (Pequim)

Em 1710 estudava Filosofia na Universidade de Évora, onde tirou o grau de Mestre em Artes.

A 13 de Março de 1716, embarcou em Lisboa na nau Sant’Ana rumo a Macau, onde chegou a 30 de Agosto do mesmo ano.

Concluiu os estudos no Colégio Macaense.

Em 1724 foi chamado para a corte de Pequim como astrónomo e matemático e três anos depois recebia do Imperador a promoção a vice-presidente do Tribunal astronómico.

Deixou várias observações astronómicas, entre elas, aos satélites de Júpiter, em Pequim.

Período de grande intercâmbio científico entre os astrónomos portugueses, em Pequim, e a Academia das Ciências de S. Petersburgo, na Rússia (com o médico português Ribeiro Sanches).

Foi nomeado pelo Imperador ao grau de Mandarim.

Entre 1583 e 1805, portugueses presidiram, em Pequim, ao célebre Tribunal das Matemáticas – uma espécie de Ministério do Interior encarregue de elaborar o Calendário Imperial e que empregava 150 a 200 funcionários. André Pereira foi vice-presidente deste Tribunal de 1728 a 1742 .

Sobre a atividade científica de alguns portugueses em Pequim escreve Francisco Rodrigues:

“Matheus Ricci, auxiliado pela dedicação de tantos portugueses como Duarte Sande, António de Almeida, Francisco Cabral, João Soeiro, João da Rocha, Gaspar Ferreira e Manuel Dias, sénior, chegou a gozar de tamanha reputação pela sua ciência que julgava a sua permanência segura no Celeste Império.”

China: Encontro de Culturas

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.

Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos. Entre eles destacamos: Padre Gabriel de Magalhães; Padre Manuel Dias Júnior; Padre Tomás Pereira; Padre João Francisco Cardoso; Padre André Pereira; Padre Domingos Pinheiro; Padre Félix da Rocha; Padre José de Espinha; Padre André Rodrigues.

Astrónomos jesuítas Portugueses na China (3)

GABRIEL DE MAGALHÃES S.J. [Nome chinês: An Wensi, Jingming].

Missionário, sinólogo e escritor.

Nasceu em 1610 em Pedrogão Grande, Leiria e morreu a 6 de maio de 1677, em Beijing (Pequim).

Descendente do grande navegador Fernão de Magalhães.

Estudou Filosofia no Colégio das Artes, em Coimbra.

A 21 de março de 1634 zarpou de Lisboa para Goa. Em Macau ensinou Filosofia e obteve o grau de Mestre em Artes.

Possuía um talento extraordinário para idealizar máquinas com que divertia o Imperador Xangxi.

Ao serviço dos imperadores Shunzhi e Kangxi,e ganhando a sua simpatia e afeição, Magalhães construiu uma série de dispositivos mecânicos:

– Construiu um robot com uma figura humana, que quando se dava corda podia caminhar por 15 minutos, levava um escudo numa mão e na outra tinha uma espada desembainhada.

– Construiu um relógio de carrilhão e torre que tocava uma música chinesa de hora a hora.

– Construiu outro relógio onde o Imperador podia ver as horas à luz das estrelas.

Foi auxiliar de Adam Schall no Tribunal de Astronomia.

O Imperador Xangxi escreveu o seu epitáfio.

Escreveu “Nova relação da China”.

Imagens:

  • Igreja de São José, Pequim大聖 若瑟 堂 (em chinês)
  • MAGALHÃES, Gabriel de, Nova relação da China : contendo a descrição das particularidades mais notáveis deste grande império.
  • Hong Taiji, whose five-year-old son, Fulin, became the Shunzhi Emperor in 1643.
  • The Kangxi Emperor at the age of 45, painted in 1699
  • Modern striking turret clock movement mounted in a clock tower

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (4)

FÉLIX DA ROCHA S.J. – Lisboa (1713-1781)[Nome chinês: Fu zoulin, Lisi].

Missionário, cartógrafo, astrónomo, escritor.

Nasceu a 30 de Agosto de 1713, em Lisboa e morreu a 22 de Maio de 1781 em Beijing (Pequim).

Saiu de Lisboa a 13 de Abril de 1735 e chegou em 1737 a Macau continuando os seus estudos de Teologia no Seminário.

Em Pequim, em 1753, o Imperador Quianlong nomeou Assessor do Tribunal das Matemáticas.

Após o falecimento do seu diretor, August von Hallerstein, passou a dirigir o Observatório Astronómico de Pequim. A partir de 1774 o cargo de presidente deste departamento foi sempre ocupado por jesuítas portugueses, sendo o primeiro Félix da Rocha e o último D. Caetano Pires.

O seu superior, Ignacio Koegler, descreve-o como «um jovem de génio vivo e penetrante e ávido de saber».

Desempenhava tarefas matemáticas intervaladas com demoradas excursões de Cartógrafo.

Em 1755, depois de ter feito os mapas de Sungaria, Turquistão e partes da Bujara, onde viviam os mongóis ocidentais, Quianlong elevou-o a Mandarim de 2° grau.

Entre agosto de 1774 e março de 1777 fez os mapas do Tibete.

Duas das suas obras mais importantes feitas na China:

O atlas da China – “Huangzhao Zhungwai Yihong Yotu”

O pequeno Tibete – “Weicang Tushi”

Em 1770, Cibot S.J. escrevia o seguinte: «Acabam de ser publicadas mapas e notícias sobre regiões recentemente conquistadas, sem que sejam mencionados os nomes dos nossos padres portugueses que, por ordem imperial, recolheram os dados e as coordenadas desses mesmos locais».

O jesuíta Félix da Rocha enviou para a famosa e prestigiada Academia de São Petersburgo 64 tomos das obras escritas pelos jesuítas de Pequim.

Morreu dois meses antes de completar 68 anos.

I – Mandarim, em finais da Dinastia Qing

II – Retrato do Imperador Qianlong (乾隆 Qiánlóng) (Hongli (弘历), 25 de setembro de 1711 – 7 de fevereiro de 1799)

III – Vista geral do Observatório de Pequim, após adaptações executadas pelo Padre Verbiest, entre 1669-1673.

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (5)

JOSÉ DE ESPINHA S.J. (1722-1788),

[Nome chinês: GAO Shensi, Ruose, 高慎思]. Lamego

Missionário, cartógrafo, astrónomo.

O padre José de Espinha nasceu em Vilar de Torpim, Lamego, em 1722 e faleceu em Pequim em 10 de Junho de 1788.

Embarcou para Goa em 1749 e aí terá sido ordenado. Estava em Macau em 1751 e a 22 de Agosto do mesmo ano entrou em Pequim.

Acompanhou Félix da Rocha nos trabalhos de cartografia em 1756. Foi vice-diretor do Tribunal das Matemáticas e director, a partir de 1781, como mandarim de grau quatro, concedida por ocasião da sua viagem à Tartária.

José Espinha e os seus companheiros jesuítas, André Pereira e Félix da Rocha alcançaram grande notoriedade no Departamento de Astronomia. O Eclipse do Sol ocorrido em julho de 1730, consagrou o prestígio destes religiosos cientistas, cuja previsão superou em rigor a dos académicos chineses.

Em 1775, D. Alexandre Guimarães, o bispo de Macau, nomeou o padre José de Espinha para vigário apostólico da diocese de Pequim.

Os «padres da corte», como eram conhecidos entre os portugueses, alcançaram grande influência política, de tal modo que foram várias vezes decisivos na defesa das posições portuguesas. Como nos relata Francisco Rodrigues, na sua obra “Jesuítas Portugueses Astrónomos na China”, é possível que Macau tenha sobrevivido graças aos jesuítas de Pequim.

Imagens:

I – Estela tumular do “ilustre Dao”, jesuíta José D’espinha (1722-1788), no cemitério de Chala em Pequim.

II – Francisco Rodrigues, “Jesuítas Portugueses Astrónomos na China”. Instituto Cultural de Macau, 1990.

III – Traje do Astrónomo chinês em 1675

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (6)

MANUEL DIAS JÚNIOR S.J. (1574-1659)

[Nome chinês: YANG Manuo, Yenxi].

Missionário, astrónomo, escritor.

Nasceu em 1574 em Castelo Branco e morreu a 1 ou 4 de março de 1659 em Hangzhou (Zeijiang), China.

De 1596 a 1600 estudou Filosofia no Colégio das Artes em Coimbra, seguindo o curso de Matemática de Grienberger (sucessor de Clavius no Colégio Romano).

É considerado pela historiografia como um dos mais reputados jesuítas portugueses da missão da China.

Saiu de Portugal a 11 de Abril de 1601 para a Índia a bordo da nave “Santiago”, e provavelmente chegou a Goa no mesmo ano. Terminou aí os seus estudos de Teologia.

Chegou a Macau por volta de 1605 e ensinou teologia seis anos.

Em 1613/14 chega a Pequim com a ordem de «ensinar matemática aos chineses».

Em 1623, Dias foi nomeado vice-provincial da recém criada vice-província da China, e permaneceu nesta posição até 1635.

Em 1627, esteve em Hangzhou, onde construiu uma igreja e estabeleceu um Seminário. Morreu em Hangzhou, sendo enterrado fora da muralha da cidade, num local conhecido como Dafang jing 大方井.

Nas suas publicações afirmava a existência de esferas celestes sólidas. Esta doutrina estranha à cosmologia chinesa, estimulou reacções muito vivas entre os mandarins, referidas na Europa por Cristóvão Borri.

Em 1614, Manuel Dias escreve na China o compêndio Tianwen lue 天問略 (Tratado de Questões sobre os Céus), em mandarim.

É um pequeno compêndio de cosmografia e astronomia. No fim desta obra incluí a descrição, com figuras, da nova observação telescópica, feita por Galileu em 1609, sobre os “braços” de Saturno.

Galileu tinha descoberto duas saliências na altura do equador de Saturno. Como o telescópio não era suficientemente poderoso para que ele pudesse perceber os anéis do planeta, atribuiu as saliências a duas pequenas luas, bem próximas à superfície de Saturno. Quando as notícias chegaram a Pequim, Manuel Dias fez este desenho no seu manual de astronomia Tianwen lue 天問略.

O primeiro globo terrestre da China é feito por Manuel Dias e pelo italiano Nicolau Longobardo. É do ano de 1623, quando ainda não havia noção na China de que a Terra era esférica.

Imagens:

– Assinatura de Manuel Dias

– Tianwen lue 天問略de Manuel Dias Júnior (Pequim, 1615).

In https://www.loc.gov/item/2021666323/

– Globo chinês, feito em 1623 na China, por Manuel Dias Júnior.

– Tianwen lue, vol.1, p.3 e 4. In https://www.loc.gov/item/2021666323/

-A primeira descrição das observações telescópicas de Galileu na China, pelo jesuíta Manuel Dias júnior. A figura representa o planeta Saturno, tal como Galileu o viu.

JOÃO FRANCISCO CARDOSO SJ. (1677- 1723)

[Nome chinês: MAl Dacheng, Erzhang].

Missionário e Cartógrafo

Nasceu a 13 de junho de 1677 perto de Leiria, e morreu a 14 de agosto de 1723 em Beijing (Pequim).

Estudou no Colégio de Santo Antão, em Lisboa.

Zarpou de Lisboa em março de 1708, chegou a Macau em outubro e à China, no mesmo ano, entrando em Pequim em julho de 1711.

Levou consigo os presentes do rei de Portugal para o Imperador Kangxi, entre eles vinho espanhol.

A célebre “Querela dos Ritos Chineses”, atiçada após a chegada das Ordens mendicantes à China, no princípio da década de 1630, questionou a acomodação do Cristianismo à cultura clássica chinesa prevalecente entre os missionários da Companhia de Jesus desde o tempo de Matteo Ricci.

O cardeal Carlo Tommaso Maillard de Tournon, Patriarca de Antioquia e legado apostólico enviado à China em 1703, fora incumbido pelo papa Clemente XI da missão de minar tanto a actividade dos jesuítas, como o monopólio do padroado concedido ao rei de Portugal nas dioceses chinesas. D. João V reagirá, nomeando seu “enviado extraordinário” a Pequim o matemático jesuíta João Francisco Cardoso, naquela que foi uma das respostas mais visíveis à crise dos Ritos.

O Imperador mandou os jesuítas Pierre-Vincent de Tartre (1669-1724) e João Francisco Cardoso preparar os mapas das províncias de Jiangxi, Guangdong e Guangxi. J. F. Cardoso enviou cópias dos mapas para Portugal.

Du Halde descreve estes mapas como tendo “cada um dez pés quadrados” (DU HALDE, Jean-Baptiste, S. J. — A description of the empire of China and Chinese Tartary, London, 1738-1741, vol. l, pp. VII).

Cardoso vai substituir Tomás Pereira na presidência do Tribunal das Matemáticas.

Foi nomeado mandarim pelo Imperador como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos.

No dia 14 de agosto de 1723, morreu em Pequim o Pe. João Francisco Cardoso, grande sábio e artista jesuíta, autor de um altar que o Imperador lhe encomendou.Morre cedo, com quarenta e seis anos, um ano depois de Kangxi.

ANDRÉ RODRIGUES S.J. (1729-1796)

[Nome chinês: AN Guoning, Yongkang, 安國寧].

Missionário, astrónomo.

N. 3 fevereiro 1729, Mortagoa (Viseu), Portugal.

M. 2 dezembro, 1796, Beijing/Pekín, China.

Especializado em astronomia, partiu para a China em 1754 chegando a Pequim a 13 de Maio de 1759.

Em 1773, pelo breve Dominus ac Redemptor o papa Clemente XIV extinguiu a Companhia de Jesus. Nesse ano viviam em Pequim seis jesuítas portugueses, João Seixas (1710-1785), Félix da Rocha (1713-1781), José de Espinha (1722-1788), Inácio Francisco (1725-1792), José Bernardo de Almeida (1728-1805) e André Rodrigues (1729-1796). André Rodrigues vivia na Igreja de Dongtang (王府井 天主堂), ou de S. José com mais dois missionários portugueses, João de Seixas, Prefeito da Cristandade que conta uns mil e seiscentos cristãos de confissão anual e Inacio Francisco, ex-procurador e interino ecónomo.

Igreja de São José dos Portugueses em Pequim

– Gravura do último quartel do séc XVIII.

Arquivo Histórico Ultramarino. Lisboa

Em 1775, dois anos após a supressão da Companhia de Jesus, foi nomeado vice-diretor e, posteriormente, diretor de
Tribunal de Astronomia.

Em 1775, André Rodrigues e o vice-provincial José Espinha notificaram o Imperador Qianlong que a sua igreja, conhecida como a Nantang (Igreja do Sul), tinha sido destruída num incêndio (13 de fevereiro). Qianiong doou 10.000 taeies de prata para a sua reconstrução.

Rodrigues deixou descritas em, “Memórias da Real Academia das Ciências de Lisboa”, numerosas observações de eclipses do sol e da lua, feitas em Pequim, para além de algumas cartas.

A memória de Rodrigues – “Observationes Atronomicae Habitae”, publicada no tomo II (1799)(*2) inclui registos de observações feitas em Pequim, por ele ou por outros padres, entre 1753 e 1795. Para além do trânsito de Mercúrio ocorrido a 16 de maio de
1753 e registado pelo padre Augustin Hallerstein (1703 – 1774), de vários eclipses do Sol e da Lua registados por Rodrigues, a memória contém ainda uma espécie de adenda com os registos de observações do eclipse do Sol de 15 de Julho de 1730 feitos pelos padres jesuítas Inácio Kögler (1680 – 1746) e André Pereira (1689 – 1743).

Foi promovido a Mandarim de 3º grau a 19 de agosto de 1793 (quase o topo da hierarquia do mandarinato), para que servisse de interprete na embaixada britânica. Christoph Gottlieb von Murr publicou a sua “Tradução Fidelis Litterarum, Lusitanicè scriptarum à P. Andrea Rodriguez, Tribunalis Mathematici Praeside tertio, Pekini in Residentia S. Josephi 15 Augusti 1777″*. Murr também mencionou que enviou cartas à delegação de Macartney (a primeira missão diplomática britânica na China), datadas de 7 de maio e 6 de agosto de 1793 (Murr, Litterae patentes, p. 26).

Os jesuítas esforçaram-se por adoptar os hábitos chineses. Na China, o jesuíta Matteo Ricci adaptou a metodologia de inculturação ao contexto chinês, numa necessária adaptação dos costumes cristãos às sociedades asiáticas. Os jesuítas começaram a vestir-se como monges budistas, mas acabaram por adotar as vestes mais prestigiantes de seda dos letrados confucianos.

Matteo Ricci, missionário jesuíta na China, vestido como um letrado chinês.

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários Portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.

Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados  Mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos.

Gabriel de Magalhães, Félix Rocha, André Pereira, Francisco Cardoso, todos jesuítas portugueses, todos indispensáveis, (todos sepultados no cemitério de Zhalan (em chinês: 栅栏墓地) ) foram passando pelas diferentes disciplinas do saber e levaram o imperador a requisitar de Portugal outros mais, por tanto apreciar estes.

Portal do Cemitério Zhalan com a lápide de Matteo Ricci ao fundo.

Cemitério Zhalan, lápides de Jesuítas.

*André Rodrigues, “Fidelis translatio Litterarum, Lusitanicè scriptarum à P. Andrea Rodriguez, Tribunalis Mathematici Praeside tertio, Pekini in Residentia S. Josephi 15 Augusti 1777“, in Murr, Journal zur Kunstgeschichte VII (1779), pp. 264–67.

*2 Andrea Rodrigues, “Observationes Atronomicae Habitae”, Memorias de Mathematica e Phisica da Academia R. das Sciencias, II (1799).

Do pronunciamento de agosto de 1820 à crise dinástica de 1826 (breve cronologia)

Do pronunciamento de agosto de 1820 ao Golpe da Vilafrancada, de 1823

Retratos de José Ferreira de Moura, Agostinho José Freire e Manuel Borges Carneiro
Museu da Assembleia da República
José Maria Veloso Salgado (Pintor)
1920

1820

Janeiro, 1 – Revolução liberal em Espanha. O general Riego revolta-se em Cádis, sendo acompanhado por levantamentos na Corunha, Saragoça e Barcelona. A Constituição espanhola de 1812 é restabelecida.

Fevereiro, 5 – Morte do P. Tadeusz Brzozowski , 19º Geral da Companhia de Jesus, em Polotsk, na Bielorússia. Era polaco, nascido na Prússia e fôra eleito Superior Geral da Companhia na Rússia em 1805.

Julho, 2 – Revolução liberal no Reino das Duas Sicílias, devido à sublevação do general Pepe.

Agosto, 13 – Beresford embarca para Inglaterra.

Agosto, 24 – Pronunciamento militar no Porto. Forma-se uma Junta Provisória do Governo Supremo do Reino, presidida pelo brigadeiro António da Silveira Pinto da Fonseca.

Setembro, 6 – O Rei Fernando VII suprime a Companhia de Jesus em Espanha.

Setembro, 15 – Pronunciamento militar em Lisboa. A regência é destituída nomeando-se um Governo interino.

Setembro, 27 – A Junta Provisória e o Governo interino, chegam a acordo sobre a junção dos dois órgãos de governo. Cria-se uma «Junta Provisional do Governo Supremo do Reino», presidida pelo principal Freire, decano da Igreja de Lisboa, tendo como vice-presidente António da Silveira Pinto da Fonseca, e uma «Junta Provisional Preparatória das Cortes», presidida pelo conde de Sampaio, e tendo como vice-presidente o conde de Resende.

Outubro, 9 – Abre a Congregação Geral XX, a primeira da Companhia de Jesus restaurada. É eleito 20º geral Luigi Fortis, italiano, de Verona.

Outubro, 10 – Beresford, chega a Lisboa, mas é impedido de desembarcar.

Outubro, 14 – O Papa confirma todas as profissões feitas pela Companhia de Jesus desde a sua extinção até ao presente, incluindo a recente Congregação Geral e a eleição do Geral.

Outubro, 17 – Chega ao Rio de Janeiro a notícia da revolução do Porto.

Novembro, 11 – Eclosão de um conflito no dia de São Martinho (a Martinhada), que opôs uma fação composta de todo o tipo de grupos políticos e sociais, mas dominada sobretudo pelos grupos mais conservadores do exército e da sociedade, a outra composta de liberais moderados. O brigadeiro António Silveira Pinto da Fonseca e outros membros conservadores são afastados dos órgãos de governo.

– Chega ao Rio de Janeiro a notícia da adesão de Lisboa à revolução do Porto.

Novembro, 19 – No Congresso de Troppau (outubro a dezembro) é formulado explicitamente a política de intervenção e de reação contra todo o movimento liberal.

1821

Janeiro, 26 – Reunião das Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, escolhida em eleições por sufrágio indireto. As sessões realizam-se no Convento das Necessidades.

Janeiro, 30 – As Cortes decretam a formação de um Conselho de Regência, para exercer o poder executivo em nome de D. João VI.

Fevereiro, 10 – Na Baía, Brasil, a guarnição militar cria uma junta governativa que jura fidelidade a D. João VI e à futura Constituição a promulgar em Portugal.

Fevereiro, 12 – Decreto amnistiando todos os cidadãos que tinham sido perseguidos desde 1807, pelas suas ideias políticas.

Fevereiro, 18 – D. João VI decreta que o príncipe D. Pedro irá para Lisboa.

Fevereiro, 26 – Golpe de estado no Rio de Janeiro.

Março – Revolução liberal no Piemonte, no Reino da Sardenha.

Março – O Exército austríaco entra no Reino das Duas Sicílias e restabelece o regime absolutista.

Março, 9 – São aprovadas as bases da nova Constituição Política Portuguesa.

Abril, 22 – D. João VI nomeia D. Pedro regente e seu lugar-tenente no Brasil.

Abril, 26 – Partida da Corte do Brasil para Portugal.

Março, 20 – Extinção do Tribunal do Santo Ofício – a Inquisição.

Junho, 5 – D. Pedro jura as bases da Constituição.

Julho, 3 – Entrada no Tejo das naus com D. João VI e a Corte.

Julho, 4 – D. João VI, após desembarcar na Praça do Comércio, e participar num Te Deum em sua honra na Sé, dirige-se às Cortes onde jura novamente as bases da Constituição.

Setembro, 29 – As Cortes decretam o regresso imediato do príncipe D. Pedro a Portugal, para realizar uma viagem de estudo, por Espanha, França e Inglaterra.

Dezembro, 24 – A Junta de Governo de São Paulo pede a D. Pedro para não regressar a Portugal.

1822

Setembro, 7 – «O grito do Ipiranga», independência do Brasil. D. Pedro I, o imperador, convida José Bonifácio de Andrade e Silva para organizar o primeiro ministério do novo Estado. 

Setembro, 23 – Promulgação da Constituição Portuguesa. A Constituição Política da Monarquia Portuguesa de 1822, apesar de ter vigorado por períodos curtos, transformou-se num documento inspirador do liberalismo português, com reflexos que percorreram todo o período da Monarquia Constitucional Portuguesa.

Outubro, 1 – D. João VI jura a Constituição. A rainha, D. Carlota Joaquina recusa-se a jurá-la, sendo transferida do Paço da Bemposta para a Quinta do Ramalhão.

Outubro, 13 – D. Pedro é aclamado imperador do Brasil e seu defensor perpétuo, com o título de D. Pedro I.

Pormenor da alegoria à Constituição representando Gomes Freire, empenhado defensor dos ideais da Revolução Francesa (AHM)

1823-1826: A Promessa de uma nova Constituição

– As dificuldades de D. João VI entre Liberais e Absolutistas, de 1823 até à sua morte em 1826.

1823

Fevereiro, 23 – Revolta antiliberal do 2.º Conde de Amarante e de outros oficiais, em Trás-os-Montes.

Abril, 7 – Invasão francesa da Espanha. Os «30.000 filhos de São Luís» vão repor o regime absolutista em Espanha.

Maio, 27 a 31 – Sublevação do infante D. Miguel, em Vila Franca de Xira (Vilafrancada). A Constituição é abolida e o regime absoluto é restabelecido. D. Miguel é nomeado comandante-chefe do Exército, com o tíitulo de generalíssimo.

Maio, 31 – D. João VI, na «Proclamação aos habitantes de Lisboa», escrita em Vila Franca, afirma rejeitar o poder absoluto, prometendo respeitar as liberdades individuais.

Junho, 18 – Nomeação de uma Junta para preparar a nova Constituição, presidida pelo marquês de Palmela. Integrava 14 membros todos representantes do tradicionalismo reformista. A Junta terminará a sua tarefa em dezembro seguinte, sem resultados.

Junho, 19 – Nomeação de uma Junta para examinar as leis das Cortes vintistas.

Setembro, 28 – Eleito Annibale Sermattei della Genga em conclave, tomando o nome de Papa Leão XII pelos cardeais conservadores («zelanti»). Mostrou sempre nostalgia dos tempos passados participando das ideias conservadoras dos soberanos restauradores, que tentavam voltar aos tempos e condições do Antigo Regime.

Outubro, 26 – Projeto de conjuração falhado, envolvendo D. Miguel e sua mãe D. Carlota Joaquina, para afastamento de D. João VI, que deveria ser preso em Vila Viçosa e substituído no trono por D. Miguel.

Dezembro, 18 – A Junta de exame do trabalho legislativo das Cortes vintistas termina os seus trabalhos. Publica-se uma Carta de Lei que revogava os decretos das Cortes.

1824

Janeiro, 4 – Carta de Lei declarando em vigor as leis tradicionais, pondo assim fim à vigência da Constituição de 1822.

Janeiro – O rei decide convocar em junho as Cortes tradicionais.

Fevereiro, 28 – O marquês de Loulé, conselheiro de D. João VI, é assassinado no Paço Real de Salvaterra de Magos.

Abril, 30 – Novo golpe de D. Miguel, contra os moderados (Abrilada). Os opositores de D. João VI prendem os principais conselheiros do rei e sequestram-no no Palácio da Bemposta. O corpo diplomático obriga à libertação do rei, que se refugia num barco no Tejo. D. Miguel é destituído do comando do Exército, e exilado, e D. Carlota Joaquina é intimada a sair de Portugal.

Maio, 13 – D. Miguel parte para o exílio, em Viena de Áustria.

Maio, 17 – Através da bulaCum multa in Urbe,o Papa Leão XII restitui à Companhia de Jesus o Colégio Romano, a Congregação Mariana e confia-lhe um Colégio dos Nobres.

Junho – Convocação das Cortes à moda antiga, que acabam por não se reunir. Revogação da Lei dos Forais.

Julho, 12 – Iniciam-se em Londres as negociações entre Portugal e o Brasil sob mediação britânica e com a participação de um representante austríaco.

Outubro, 26 – Nova tentativa de revolta militar miguelista tentando forçar a abdicação do rei e estabelecer uma regência a favor da rainha D. Carlota Joaquina.

Novembro, 15 – Reconhecimento da independência do Brasil, devido à ratificação por D. João VI do Tratado de Paz e Aliança com o Brasil.

1825

Agosto, 29 – Portugal reconhece a independência do Brasil.

Dezembro, 1 – Nicolau I sob ao trono como Imperador da Rússia e Grão-Duque da Finlândia.

1826-1832: A crise Dinástica – Da outorga da Carta Constitucional, em 1826, ao desembarque em Povolide, em 1832.

1826

Março, 6 – D. João VI nomeia um conselho de regência presidido pela infanta D. Isabel Maria. Esta decisão é intencional pois tem como pretensão impedir a subida ao poder de D. Carlota Joaquina.

Março, 10 – D. João VI morre, dando-se início ao governo da regência.

Março, 20 – O governo da regência reconhece D. Pedro, como legítimo rei de Portugal.

Abril, 26 – D. Pedro IV, no Rio de Janeiro, confirma os poderes da Regência.

Abril, 29 – Outorgada pelo rei D. Pedro IV a Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa.

Maio, 2 – D. Pedro IV abdica em favor da filha, D. Maria da Glória, sob condição de esta jurar a Carta e casar com o tio D. Miguel.

S. M. I. O Senhor D. Pedro restituindo Sua Augusta Filha a Senhora D. Maria Segunda, e a Carta Constitucional aos Portugueses.
Litografia de Nicolas-Eustache Maurin. 1832. Pormenor.
Museu Nacional Soares dos Reis

«Louvar os ornamentos e edifícios das igrejas. Do mesmo modo as imagens. Venerá-las segundo o que representam» (Inácio de Loyola)

Assiste-se a partir de meados do século XVI a um aumento da produção de imagens sacras. O conjunto escultórico do Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus ( espaços ocupados atualmente pelo Museu Nacional de História Natural e da Ciência, de Lisboa), que chegou aos nossos dias (e de nosso conhecimento), é bem representativo das novas exigências do culto tridentino, que deu especial relevo à imagem de Nossa Senhora sob as variadas invocações, à imagem de Cristo, dos Apóstolos e dos Santos mártires[1].

A escultura da Virgem com o Menino Salvador do Mundo é uma imagem de vulto, em madeira de carvalho setentrional, estofada e policromada, apresentando grande delicadeza na sua postura. Exibe um estofo muito desgastado e alguns vestígios de policromia.    

Virgem com o Menino Salvador do Mundo

Data: séc. XVII d.C.                                                                                                                                         
Dimensões:
– Altura: 130 cm
– Largura: 26 cm
– Comprimento: 51 cm  
Materiais:
 – Madeira
Técnicas:
– Dourado
– Estofado
– Policromado
– Escultura

 A outra escultura de vulto é um S. Paulo, e que apresenta os mesmos problemas na conservação. O estofo encontra-se muito desgastado, em tons vermelho e verde e com alguns vestígios de policromia, provavelmente floral e geométrica, com desenho de linha a dourado. Esta imagem parece ter sido repintada, pelo menos nas zonas sem estofo.

São Paulo
 
Autor: Desconhecido, trabalho português                 
Datação: séc. XVII d.C.                        
Dimensões:
– Altura: 115 cm
– Largura: 33 cm
– Profundidade: 40 cm
Materiais:
 – Madeira
Técnicas:
– Dourado
– Estofado
– Policromado
– Escultura

A terceira e última escultura do espólio do Noviciado da Cotovia é um Cristo que estaria na sua origem atado a uma coluna. Escultura em muito mau estado de conservação, com ténues vestígios de pintura. Esta imagem está associada à flagelação de Cristo. A cena da Flagelação, tal como os outros episódios da Paixão é, a partir do século XVI, representada com grande dramatismo, com Cristo atado a uma coluna e ladeada dos verdugos. Quando a cena se encontra despida de todo e qualquer elemento (verdugos, açoites) transforma-se numa imagem de grande devoção, como o caso deste exemplar do Noviciado da Cotovia. Com estas imagens os escultores praticavam a criação do nu, proibido pela igreja pois era considerado indecoroso e desonesto.[2]

Cristo preso à coluna
 
Autor (es): Desconhecido
Datação: séc. XVII d.C. 
Dimensões:
– Altura: 187 cm
– Largura: 32 cm
– Profundidade: 52 cm 
Materiais:
 – Madeira
Técnicas:
– Dourado
– Estofado
– Policromado
– Escultura

Não existem referências quanto aos seu autores, mas sabe-se o local para o qual a escultura de S. Paulo foi criada dado que em 1759, quando os bens da Companhia de Jesus foram sequestrados, foi elaborado um inventário onde era referido que na sacristia se encontrava «…em cima do caixão três imagens de vulto, uma de S. Pedro, outra de S. Paulo, ambas de cinco palmos com resplendores de folha prateada,…»[3]tendo em atenção que seguiam uma representação “tipo” seguindo as normas tridentinas.

Encontrámos referências bibliográficas a outra imagem escultórica, do século XVIII, pertencente ao Noviciado e que se encontra atualmente na igreja de S. Mamede, vizinha dos Museus da Politécnica, sendo lá colocada após um dos últimos incêndios que houve na antiga escola Politécnica. Esta escultura encontra-se em muito bom estado de conservação. José de Almeida foi o escultor desta imagem de vulto, em madeira policromada e estofada. 

Nª Sª da Conceição
Autor: José de Almeida 
Data: séc. XVIII

As esculturas do Noviciado da Cotovia são maneiristas, do início do século XVII, fidelizadas a parâmetros de imaginária sacra portuguesa, tipo esculturas de Gonçalo Rodrigues. Vitor Serrão num artigo publicado na revista Museu afirma que, este escultor trabalhou para uma clientela muito vasta, como por exemplo, a Misericórdia do Porto, os padres jesuítas de Braga e possivelmente para «…os inacianos de Lisboa»[4]. As esculturas maneiristas em madeira estofada e policromada, de que são exemplo as quatro referidas atrás, dão-nos a ideia do tipo de técnica usada neste período, tal como a postura da imagem e os tons e as cores utilizados.

As normas saídas do Concílio de Trento foram adotadas pela Companhia de Jesus a todos os níveis, incluindo as relativas à Invocação e Veneração das Relíquias dos Santos e das Sagradas Imagens. Inácio de Loyola afirmava que: «Louvar os ornamentos e edifícios das igrejas. Do mesmo modo as imagens. Venerá-las segundo o que representam».[a]


[a] INÁCIO DE LOYOLA, Exercícios Espirituais (360).


[1] CAETANO, Joaquim Oliveira; SILVA, Nuno Vassalo e, [e tal.], O púlpito e a imagem : os jesuítas e a arte, p. 25.  

[2] DIAS, Pedro, A escultura maneirista portuguesa: subsídio para uma síntese, p. 135.

[3] LINO, Raúl, SILVEIRA, Luís; MARQUES, A. H. de Oliveira, Documentos para a história da arte em Portugal,  p. 8.

[4] SERRÃO, Vítor, O escultor maneirista Gonçalo Rodrigues e a sua actividade no Norte de Portugal. Museu, IV série, nº7, 1998, p.148.

O Espólio do Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus (1619-1759)

Épocas representadas: séculos XVII-XVIII.
Tipo de coleções: Paramentaria, Pintura, Escultura, Ourivesaria, Espólio Documental.

 O Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MNHNC) que desde o primeiro quartel do século XVII até ao presente serviu de sede a respeitáveis instituições de ensino e de cultura, alberga um espólio variado de obras de arte e instrumentos científico-didácticos, onde se encontra inserido o espólio relativo ao Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus.    

O espólio do Noviciado é composto por sessenta peças, essencialmente, objetos que serviram ao culto na Igreja de Nossa Senhora da Assunção, enriquecido com alguns paramentos que vieram da China e relicários de Itália.

Quadro indicativo do número de peças pertencentes ao espólio do Noviciado da Cotovia.

Esta coleção de Arte possui uma pintura a óleo, do século XVII, com o retrato do fundador do noviciado, importante personagem que foi Governador da Índia. São bastante numerosas as peças de paramentaria, incluindo estolas, manípulos, palas, bolsas de Corporal, véus de cálice e um frontal de altar que se destacam pela diversidade de cores e pelos emblemas bordados com o símbolo dos jesuítas (IHS). Da ourivesaria destaca-se um relicário, com as suas relíquias de antigos mártires jesuítas, um relicário-palmeta e um resplendor, os primeiros de prata e o segundo de latão, dos séculos XVII e XVIII. Existem três exemplares de escultura sacra que apesar do mau estado de conservação, permitem percecionar a sua qualidade e a experiência do artista que as criou, correspondendo a um S. Paulo, a uma Virgem com o Menino Salvador do Mundo e um Cristo atado à Coluna, datadas do século XVII. Esta coleção conta, também, com um conjunto de três missais, dois de uso comum e outro de cerimónia, pertencentes aos jesuítas da Cotovia, com identificações escritas e artísticas relativas a membros desta Companhia.

Ao espólio do noviciado da Cotovia que se encontra no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, poderíamos adicionar pinturas e esculturas da igreja do antigo noviciado mas que devido a uma série de incêndios e cataclismos que lavraram este edifício da Rua da Escola Politécnica, se perderam no fogo ou foram salvas e recuperadas por outras entidades, encontrando-se atualmente a embelezar igrejas ou museus nacionais.

GRANDE INCÊNDIO DO MUSEU NACIONAL DE HISTORIA NATURAL.
Diário Popular, 18 de março de 1978