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Constituição Portuguesa (23 de setembro de 1822)

Bicentenário

Gravura: Reprodução da pintura “O juramento politico de El-Rei D. João VI ao chegar a Lisboa de regresso do Brasil, em 1822”, de Columbano Bordalo Pinheiro, AHP.

A 23 de setembro de 1822 foi promulgada a Constituição Portuguesa que se afastava frontalmente do regime absoluto ao criar um sistema de poderes tripartido, com a independência dos três poderes políticos separados (legislativo, executivo e judicial), o que contrariava os princípios básicos do absolutismo que concentrava os três poderes na figura do rei[1].

Ao poder executivo exercido pelo Rei, competia à chefia do Governo a execução das leis e a nomeação e demissão dos funcionários do Estado. Todavia, o Rei tinha apenas veto suspensivo sobre as Cortes podendo impedir a promulgação das leis de que discordava, mas sendo obrigado a promulgá-las desde que as Cortes assim o voltassem a deliberar. Deste modo, não tinha nas suas mãos o poder de suspender ou dissolver as Cortes.

Documento das Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, em 1821, finalizando a regência em Portugal e mencionando que o rei ratifica o juramento à Constituição.

Em novembro, a rainha Carlota Joaquina não jura a Constituição, encontrando-se à frente da contrarrevolução. Alberto Pimentel conta que,

“Em fevereiro de 1821, quando D. João VI teve de aceitar em principio, no Rio de Janeiro, a constituição que as cortes de Lisboa approvassem, D. Carlota Joaquina exclamou da varanda do palácio: «Eu sempre fui constitucional.» Os mesmos sentimentos simulou durante a viagem do Brazil para Lisboa, emquanto não viu D. João VI jurar a constituição, contra a sua espectativa”[2].

Como consequência, no dia 4 de dezembro D. Carlota Joaquina perdia a qualidade de cidadã portuguesa e a dignidade de rainha. Nos termos da lei geral devia ser expulsa do reino, tal como o Patriarca de Lisboa que também se recusou a jurar a mesma. Contudo, dez médicos declararam unanimemente que a saída para o estrangeiro lhe acarretaria perigo de vida fixando a sua residência na quinta do Ramalhão, em Sintra, onde estaria acompanhada somente das pessoas indispensáveis ao seu serviço pessoal e sujeita à vigilância da polícia.

Esta recusa foi debatida e posta em causa nas colunas da imprensa da época, como foi o caso do semanário politico O Campeaõ Portuguez em Lisboa, que questionava:

“Em virtude da Constituiçaõ no artigo 149 e seguintes devia a Senhora D. Carlota Joaquina como Rainha ser considerada como uma das grandes auctoridades públicas do Estado porque a mesma Constituiçao lhe garantia o direito futuro de poder vir a ter a presidencia da Regencia provisional. Assim, pergunto eu agora: era possivel que a mesma Senhora podesse gozar deste direito futuro, que a Constituiçao politica lhe dá, naõ querendo ella jurar essa mesma Lei que lhe affiança os direitos?”[3]

Em dezembro desse ano, as Cortes Gerais do Reino levaram a debate este tema tendo a comissão parlamentar considerado a lei cumprida. Apenas o deputado José Acúrcio das Neves, político conservador, defensor acérrimo do miguelismo, e um dos principais inimigos das ideias do liberalismo nas Cortes, levantou a questão da constitucionalidade do procedimento havido para com a rainha, pois no seu parecer a Constituição havia sido violada. Diz ele:

“Sem preceder processo nem sentença do poder judiciário, diz a indicação despojarão-na dos seus direitos civis, e políticos, dos rendimentos da sua casa, e até da sua liberdade, não lhe permittindo nem levar comsigo as Senhoras Infantas suas filhas, para a quinta do Ramalhão, para onde foi mandada retirar e com expressa, e notável ordem de ser acompanhada unicamente pelas pessoas indispensáveis para o seu serviço pessoal que mais lhe farião se fosse convencida de grandes crimes. Não he tudo isto o que consta do relatório, e documentos que o Governo enviou á Cortes, e o que todos nós sabemos? Haverá alguma couza contra isto?”[4] 

O debate parlamentar sobre a recusa do juramento da Constituição tornou evidente a existência de duas fações, liberais e absolutistas e, certamente serviu as aspirações dos contrarrevolucionários que se reuniram em torno da figura da rainha exilada catapultando-a para a frente do grupo de descontentes[5].

António Barros Cardoso refere que, “… muitos começaram a abandonar os ideais liberais quando sentiram que não se tratava de reformar as velhas instituições nacionais, mas antes se procurava produzir uma ruptura profunda com o passado”[6], e achavam mesmo intolerável o papel redutor em que o rei se encontrava.

Para António Ventura, neste primeiro liberalismo português,

“O juramento da Constituição de 1822 pelo rei não inaugurou, como tantos esperavam, uma época de paz e concórdia que possibilitasse a construção de uma monarquia liberal. […] a Constituição fora elaborada por uma minoria ilustrada de deputados, assaz distante da grande maioria do povo, naturalmente conservador, católico e aferrado à tradição”[7].

A Constituição de 22 veio, deste modo, a revelar-se gradualmente adversa às relações entre o Estado e a Igreja, sendo reguladas por um regalismo parlamentar, no qual o poder político contratual considerava ter legitimidade para intervir no foro religioso, dando origem ao surgimento progressivo de um certo conservadorismo.

O Vintismo proclamava a Religião Católica Romana a religião oficial do Estado e, serviu-se dos seus bispos para a divulgação da sua mensagem junto das populações através de Pastorais e juramentos de obediência[8].

No período de 1820-23 foram alguns os eclesiásticos que participaram ativamente na política pró liberal. Até à chegada de D. João VI encontrava-se a governar o país Frei Francisco de São Luís, o futuro cardeal Saraiva e nas Cortes Constituintes encontravam-se como deputados, por exemplo, os bispos de Coimbra (Frei Francisco de São Luís), de Beja (D. Luís da Cunha de Abreu e Melo) ou o arcebispo da Baía (D. Frei Vicente da Soledade e Castro). Fernando Piteira Santos refere que a percentagem de eclesiásticos na nova câmara era de 16%[9].

Alegoria à Constituição de 1822
Domingos Sequeira
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Mas, no juramento das bases da Constituição de 1822, alguns prelados recusaram-se a fazê-lo baseados no facto de o poder político não ter legitimidade para intervir no foro religioso e para legislar sobre matéria religiosa. Entre eles destacou-se o cardeal Patriarca de Lisboa, D. Carlos da Cunha Meneses, o Bispo de Angra, D. Frei Manuel Nicolau de Almeida e o Bispo de Olba, D. Vasco José de Nossa Senhora da Boa Morte Lobo. Todos foram punidos, sendo o primeiro exilado para Bayona e os outros dois presos[10].

Esta Constituição era acusada de radical pela maior parte da nobreza e do alto clero, pois foi elaborada pelos representantes da Nação e imposta ao rei. Para além disso, no conjunto dos 240 artigos, segundo estes, procurava institucionalizar na vida portuguesa os princípios do liberalismo progressista dos revolucionários de 1820.

Já no juramento da Constituição a unanimidade é quase plena, a exceção foi diminuta – três conventos de Lisboa (ex.  a cartuxa de Laveiras) ou três sacerdotes ligados ao Bispo de Bragança[11].

 «Na Constituição de 1822 ficaram consagrados os princípios ligados aos ideais liberais da época: princípio democrático, representativo, da separação de poderes e da igualdade jurídica e respeito pelos direitos pessoais»[12], transferindo a soberania do monarca para a nação e transformando os súbditos em cidadãos. Porém, o catolicismo era imposto como religião do Estado, apenas concedendo liberdade de culto aos cidadãos estrangeiros residentes em Portugal.

D. João VI durante a viagem do Brasil para Portugal, lendo o artigo da nova Constituição relativo à religião católica como religião do estado comentou o seguinte: “…. Eis um absurdo; eu sou catholico e tão aferrado como outro qualquer à minha religião, mas quizera que no codigo politico fundamental de qualquer paiz, se não tratasse de religião. Que tem pois com ella a politica?”[13].

 D. João VI referia-se aos artigos 19º e 25º onde se denota o cuidado e respeito revelados pelos legisladores perante a Igreja e a Religião[14]. Marcada pelo modelo da Constituição Espanhola de Cádis (aprovada a 18 de Março de 1812) e pelas Constituições Francesas de 1791 e 1795, sendo amplamente liberal, põe fim a um conjunto de velhos privilégios feudais característicos do regime absolutista, não reconhecendo qualquer prerrogativa ao clero e à nobreza mas, consagrando direitos e deveres individuais a todos os cidadãos portugueses, privilegiando os direitos humanos relativos à liberdade, à igualdade perante a lei, à segurança, e à propriedade e consagrando a Nação como base da soberania nacional, a ser exercida pelos representantes da mesma legalmente eleitos pelos cidadãos[15].

Nesta pretendida “regeneração nacional”, a religião católica era reconhecida, assumindo uma função legitimadora. Contudo, no debate sobre a Constituição e na Legislação posterior vão aparecer posições que divergem sobre a função da religião, sobre as reformas internas necessárias à Igreja e sobre a relação desta com o Estado e com o rei enquanto magistrado supremo.

A interferência do Estado liberal sobre a vida da Igreja, encarando-a essencialmente como uma “realidade espiritual”, levará nos anos seguintes a uma diferenciação entre os defensores do Antigo Regime e do Regime liberal. Os defensores do absolutismo claramente hostis às conceções e pretensões liberais oponham-se a uma conceção de soberania residindo na nação, expressa pela votação dos cidadãos, legislando e intervindo na vida interna da Igreja, aproximando-se politicamente de um catolicismo ultramontano, defensor do Tono e do Altar[16].

Pretendendo a Igreja ser um dos pilares do regime que deveria contribuir para a união e harmonia social, vê-se com o governo liberal e as suas políticas regalistas em tensão permanente.

Capa e primeira página da Constituição de 1822
Art. 12.º – Todos os portugueses podem ser admitidos aos cargos públicos, sem outra distinção que não seja a dos seus talentos e das suas virtudes.


[1] CANOTILHO, J. Joaquim Gomes“As Constituições”. In MATTOSO, José (dir.) – História de Portugal, vol. 5. Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, pp. 150-153.

[2] PIMENTEL, Alberto – A ultima côrte do Absolutismo em Portugal. Lisboa: Livraria Ferin, 1893, p. 119. Veja-se, inclusive, VARGUES, Isabel Nobre; TORGAL, Luís Reis – “Da revolução à contra-revolução: vintismo, cartismo, absolutismo. O exílio político”. In MATTOSO, José (dir.) – ibidem, pp. 65-66.

[3] O Campeaõ Portuguez em Lisboa, ou O Amigo do Povo e do Rei Constitucional: semanario politico…, nº XLI, vol. 2º, 11 de janeiro de 1823, p. 230.

[4] Diario das Cortes da Nação Portugueza, 24 dezembro de 1822. In PORTUGAL/Cortes – Diario das Cortes da Nação Portugueza: … anno da legislatura, vol. 8, pp. 240-261.

[5] Em dezembro de 1822 abrem as primeiras Cortes Legislativas, contando já com deputados que vão constituir um sector claramente absolutista, liderados por Acúrsio das Neves. Veja-se Diário das Cortes da Nação Portuguesa, segunda legislatura, Tomo I, Lisboa, 1822, sessões de 24 e 27 de dezembro de 1822, pp. 241-285.

[6] CARDOSO, António Barros – “Liberais e Absolutistas no Porto (1823-1829)”. In Estudos em homenagem ao professor doutor José Marques, vol. I. Porto, FLUP, 2006, p. 261; DIAS, A. Pedro – Subsídios para a História Política do Porto. Porto: Typographia Central, 1896, p. 8.

[7] VENTURA, António – ibidem, pp. 125-126. Vítor Neto também menciona o fato da Constituição ter sido elaborada por uma «minoria ilustrada de deputados», proferindo o seguinte no seu artigo intitulado O Estado e a Igreja : “O liberalismo adquiriu (desde os seus inícios) os contornos de um projecto iluminista, assumido por uma vanguarda numericamente reduzida e que vivia um tempo histórico distanciado dos velhos ritmos da sociedade…”. NETO, Vítor – “O Estado e a Igreja”. In MATTOSO, José (dir.) – História de Portugal, 5º vol.. Lisboa: Círculo de Letores, 1993, p. 265.

[8] Veja-se sobre este assunto FARIA, Ana Mouta – “A hierarquia episcopal e o vintismo”. In Análise Social, 2ª série, vol. XXVIII, nº 16-17. Lisboa, 2º-3º trimestre1992, pp. 285-328.

[9] SANTOS, Fernando Piteira – Geografia e Economia da Revolução de 1820. Lisboa: Publicações Europa-América, 1975, p. 51.  

[10] FERREIRA, António Matos – “Desarticulação do Antigo Regime e guerra civil”. In AZEVEDO, Carlos Moreira (Dir.) – História Religiosa de Portugal, vol. 3: Religião e Secularização. Lisboa: Círculo de Leitores, 2002, p. 24.

[11] Referido em MARQUES, A. H. Oliveira (coord.) – Portugal e a Instauração do Liberalismo. In SERRÃO, Joel; MARQUES, A. H. Oliveira – Nova História de Portugal, vol. IX.  Lisboa: Presença, 2002, pp. 309-310; FARIA, Ana Mouta – “A hierarquia episcopal e o vintismo”. In Análise Social, 2ª série, vol. XXVIII, nº 16-17. Lisboa, 2º-3º trimestre1992, pp. 301-302.

[12]A Monarquia Constitucional (1820-1910). In Assembleia da República. [Consultado 17  nov.  2011]. Disponível na internet em: <http://www.parlamento.pt/Parlamento/Paginas/AMonarquiaConstitucional.aspx&gt; ; Constituição de 23 de setembro de 1822 <http://www.parlamento.pt/Parlamento/Documents/CRP-1822.pdf&gt;

[13] S. L. – História de El-Rei D. João VI: primeiro rei constitucional de Portugal e do Brasil em que se refere os principais actos e occorrencias do seu governo bem como algumas particularidades da sua vida privada. Lisboa: Typ. Universal, 1866, p.126.

[14] O artigo 25º da Constituição de 1822 era uma reelaboração do artigo 17º das Bases da Constituição, aprovadas em março de 1821, no qual se podia ler: “A sua religião (da Nação Portuguesa) é Católica Apostólica Romana”.

A rainha Carlota Joaquina recusou-se formalmente a reconhecer a Constituição e não fez o juramento em 1822. In GRAINHA, M. Borges – Histoire de la Compagnie de Jésus en Portugal: 1540-1910, Première Époque. Lisboa: Imprensa Nacional, 1915, p. 51.

[15] Segundo o filósofo Friedrich Schlegel (1772-1829), o conceito de nação exige que todos os seus membros devem formar-se como se fossem apenas um único indivíduo.

[16] FERREIRA, António Matos– “Desarticulação do Antigo Regime e guerra civil”. In AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.) – História Religiosa…, pp. 21-35.

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China

Nos séculos XV e XVI desenvolveram-se em Portugal os meios técnicos necessários que possibilitaram as grandes navegações, as quais, por sua vez, vieram a permitir progressos científicos notáveis nos mais variados domínios, com destaque para a Náutica, a Cartografia, a Construção Naval, a Medicina e a Botânica.

As viagens dos Descobrimentos obrigaram os portugueses a considerar o regime dos ventos e das correntes no Atlântico e a desenvolver a náutica astronómica, isto é, a capacidade de conhecer a posição aproximada dos navios em alto mar.

Para esse feito utilizaram-se instrumentos de observação astronómica como o quadrante e o astrolábio náuticos ou ainda a balestilha, que permitiam determinar a altura de um astro sobre o horizonte e dessa forma calcular a latitude do lugar onde se realizava a observação.

Lisboa tornou-se no centro de intercâmbio cientifico entre os Colégios Europeus e as missões orientais.

No Colégio (jesuíta) de Santo Antão, em Lisboa, funcionou desde finais do século XVI até ao século XVIII uma “Aula de Esfera”, pública (“Aula de Esfera” por se tratar de textos sobre Tratados «da esfera», dedicados à exposição dos princípios de cosmografia).

Programas seguidos nesta aula:

Arte de Navegar

Estudo da Geografia/Hidrografia

Cosmografia, construção e uso de globos

Astrologia Judiciária / astrologia prática

Geometria (ingresso na carreira militar)

A «aula de esfera» do Colégio de Santo Antão foi muito importante na cultura portuguesa do século XVII por ser o único curso onde se professavam as ciências tão intimamente ligadas à Matemática.

Aqui estudaram muitos dos homens que retratámos em outras publicações e que se distinguiram em cargos que dependiam destas ciências.

Jesuítas Matemáticos Portugueses no Império da China (século XVI-XVIII).

Astrónomos jesuítas Portugueses na China (1)

TOMÁS PEREIRA S.J. [Nome chinês: Xu Risheng, cuja tradução é “Sol que nasce aos poucos”].

S. Martinho do Vale (Braga)

Missionário jesuíta, músico, matemático.

Nasceu a 1 de novembro de 1645, e S. Martinho do Vale, perto de Braga e morreu a 24 dezembro de 1708 em Beijing (Pequim).

Descende de uma família nobre portuguesa Costa Pereira estudou no Colégio de S. Paulo, em Braga.

Integrou durante 35 anos a corte do imperador chinês Kangxi (1654 – 1722), cuja governação marca o início de uma era áurea da civilização chinesa.

Zarpou de Lisboa em 15 de abril de 1666 e acabou a sua formação na Índia.

Saiu de Macau em 1672 e chegou a Pequim em 1673. Foi convidado do Imperador Xangxi devido aos seus dotes naturais e musicais. Ensinou o Imperador a tocar o “clavicórdio”.

No ano de 1688 foi encarregue de traçar as fronteiras da Sibéria com a China.

Vice-Presidente do Tribunal das Matemáticas, em Pequim. Depois da morte de Verbiest (1688) Xangxi nomeou Tomás Pereira presidente da Comissão de Astronomia, mas Pereira declinou, ficando como Presidente substituto com António Pereira de 1688 a 1694.

Tomás Pereira fabricou um relógio para a torre de uma igreja, em Pequim.

Introduziu no interior da torre um tambor com espigões, semelhantes aos das caixas de música, que acionavam arames ligados aos badalos de um carrilhão o qual, a todas as horas, tocava músicas tradicionais chinesas.

Astrónomos jesuítas Portugueses na China (2)

ANDRÉ PEREIRA S.J. (1689-1743) [Nome chinês: XU Moude, Zhouxian].

Missionário, sinólogo, astrónomo, matemático.

Nasceu em 1689, no Porto e morreu em 1742, em Beijing (Pequim)

Em 1710 estudava Filosofia na Universidade de Évora, onde tirou o grau de Mestre em Artes.

A 13 de Março de 1716, embarcou em Lisboa na nau Sant’Ana rumo a Macau, onde chegou a 30 de Agosto do mesmo ano.

Concluiu os estudos no Colégio Macaense.

Em 1724 foi chamado para a corte de Pequim como astrónomo e matemático e três anos depois recebia do Imperador a promoção a vice-presidente do Tribunal astronómico.

Deixou várias observações astronómicas, entre elas, aos satélites de Júpiter, em Pequim.

Período de grande intercâmbio científico entre os astrónomos portugueses, em Pequim, e a Academia das Ciências de S. Petersburgo, na Rússia (com o médico português Ribeiro Sanches).

Foi nomeado pelo Imperador ao grau de Mandarim.

Entre 1583 e 1805, portugueses presidiram, em Pequim, ao célebre Tribunal das Matemáticas – uma espécie de Ministério do Interior encarregue de elaborar o Calendário Imperial e que empregava 150 a 200 funcionários. André Pereira foi vice-presidente deste Tribunal de 1728 a 1742 .

Sobre a atividade científica de alguns portugueses em Pequim escreve Francisco Rodrigues:

“Matheus Ricci, auxiliado pela dedicação de tantos portugueses como Duarte Sande, António de Almeida, Francisco Cabral, João Soeiro, João da Rocha, Gaspar Ferreira e Manuel Dias, sénior, chegou a gozar de tamanha reputação pela sua ciência que julgava a sua permanência segura no Celeste Império.”

China: Encontro de Culturas

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.

Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos. Entre eles destacamos: Padre Gabriel de Magalhães; Padre Manuel Dias Júnior; Padre Tomás Pereira; Padre João Francisco Cardoso; Padre André Pereira; Padre Domingos Pinheiro; Padre Félix da Rocha; Padre José de Espinha; Padre André Rodrigues.

Astrónomos jesuítas Portugueses na China (3)

GABRIEL DE MAGALHÃES S.J. [Nome chinês: An Wensi, Jingming].

Missionário, sinólogo e escritor.

Nasceu em 1610 em Pedrogão Grande, Leiria e morreu a 6 de maio de 1677, em Beijing (Pequim).

Descendente do grande navegador Fernão de Magalhães.

Estudou Filosofia no Colégio das Artes, em Coimbra.

A 21 de março de 1634 zarpou de Lisboa para Goa. Em Macau ensinou Filosofia e obteve o grau de Mestre em Artes.

Possuía um talento extraordinário para idealizar máquinas com que divertia o Imperador Xangxi.

Ao serviço dos imperadores Shunzhi e Kangxi,e ganhando a sua simpatia e afeição, Magalhães construiu uma série de dispositivos mecânicos:

– Construiu um robot com uma figura humana, que quando se dava corda podia caminhar por 15 minutos, levava um escudo numa mão e na outra tinha uma espada desembainhada.

– Construiu um relógio de carrilhão e torre que tocava uma música chinesa de hora a hora.

– Construiu outro relógio onde o Imperador podia ver as horas à luz das estrelas.

Foi auxiliar de Adam Schall no Tribunal de Astronomia.

O Imperador Xangxi escreveu o seu epitáfio.

Escreveu “Nova relação da China”.

Imagens:

  • Igreja de São José, Pequim大聖 若瑟 堂 (em chinês)
  • MAGALHÃES, Gabriel de, Nova relação da China : contendo a descrição das particularidades mais notáveis deste grande império.
  • Hong Taiji, whose five-year-old son, Fulin, became the Shunzhi Emperor in 1643.
  • The Kangxi Emperor at the age of 45, painted in 1699
  • Modern striking turret clock movement mounted in a clock tower

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (4)

FÉLIX DA ROCHA S.J. – Lisboa (1713-1781)[Nome chinês: Fu zoulin, Lisi].

Missionário, cartógrafo, astrónomo, escritor.

Nasceu a 30 de Agosto de 1713, em Lisboa e morreu a 22 de Maio de 1781 em Beijing (Pequim).

Saiu de Lisboa a 13 de Abril de 1735 e chegou em 1737 a Macau continuando os seus estudos de Teologia no Seminário.

Em Pequim, em 1753, o Imperador Quianlong nomeou Assessor do Tribunal das Matemáticas.

Após o falecimento do seu diretor, August von Hallerstein, passou a dirigir o Observatório Astronómico de Pequim. A partir de 1774 o cargo de presidente deste departamento foi sempre ocupado por jesuítas portugueses, sendo o primeiro Félix da Rocha e o último D. Caetano Pires.

O seu superior, Ignacio Koegler, descreve-o como «um jovem de génio vivo e penetrante e ávido de saber».

Desempenhava tarefas matemáticas intervaladas com demoradas excursões de Cartógrafo.

Em 1755, depois de ter feito os mapas de Sungaria, Turquistão e partes da Bujara, onde viviam os mongóis ocidentais, Quianlong elevou-o a Mandarim de 2° grau.

Entre agosto de 1774 e março de 1777 fez os mapas do Tibete.

Duas das suas obras mais importantes feitas na China:

O atlas da China – “Huangzhao Zhungwai Yihong Yotu”

O pequeno Tibete – “Weicang Tushi”

Em 1770, Cibot S.J. escrevia o seguinte: «Acabam de ser publicadas mapas e notícias sobre regiões recentemente conquistadas, sem que sejam mencionados os nomes dos nossos padres portugueses que, por ordem imperial, recolheram os dados e as coordenadas desses mesmos locais».

O jesuíta Félix da Rocha enviou para a famosa e prestigiada Academia de São Petersburgo 64 tomos das obras escritas pelos jesuítas de Pequim.

Morreu dois meses antes de completar 68 anos.

I – Mandarim, em finais da Dinastia Qing

II – Retrato do Imperador Qianlong (乾隆 Qiánlóng) (Hongli (弘历), 25 de setembro de 1711 – 7 de fevereiro de 1799)

III – Vista geral do Observatório de Pequim, após adaptações executadas pelo Padre Verbiest, entre 1669-1673.

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (5)

JOSÉ DE ESPINHA S.J. (1722-1788),

[Nome chinês: GAO Shensi, Ruose]. Lamego

Missionário, cartógrafo, astrónomo.

O padre José de Espinha nasceu em Vilar de Torpim, Lamego, em 1722 e faleceu em Pequim em 10 de Junho de 1788.

Embarcou para Goa em 1749 e aí terá sido ordenado. Estava em Macau em 1751 e a 22 de Agosto do mesmo ano entrou em Pequim.

Acompanhou Félix da Rocha nos trabalhos de cartografia em 1756. Foi vice-diretor do Tribunal das Matemáticas e director, a partir de 1781, como mandarim de grau quatro, concedida por ocasião da sua viagem à Tartária.

José Espinha e os seus companheiros jesuítas, André Pereira e Félix da Rocha alcançaram grande notoriedade no Departamento de Astronomia. O Eclipse do Sol ocorrido em julho de 1730, consagrou o prestígio destes religiosos cientistas, cuja previsão superou em rigor a dos académicos chineses.

Em 1775, D. Alexandre Guimarães, o bispo de Macau, nomeou o padre José de Espinha para vigário apostólico da diocese de Pequim.

Os «padres da corte», como eram conhecidos entre os portugueses, alcançaram grande influência política, de tal modo que foram várias vezes decisivos na defesa das posições portuguesas. Como nos relata Francisco Rodrigues, na sua obra “Jesuítas Portugueses Astrónomos na China”, é possível que Macau tenha sobrevivido graças aos jesuítas de Pequim.

Imagens:

I – Estela tumular do “ilustre Dao”, jesuíta José D’espinha (1722-1788), no cemitério de Chala em Pequim.

II – Francisco Rodrigues, “Jesuítas Portugueses Astrónomos na China”. Instituto Cultural de Macau, 1990.

III – Traje do Astrónomo chinês em 1675

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (6)

MANUEL DIAS JÚNIOR S.J. (1574-1659)

[Nome chinês: YANG Manuo, Yenxi].

Missionário, astrónomo, escritor.

Nasceu em 1574 em Castelo Branco e morreu a 1 ou 4 de março de 1659 em Hangzhou (Zeijiang), China.

De 1596 a 1600 estudou Filosofia no Colégio das Artes em Coimbra, seguindo o curso de Matemática de Grienberger (sucessor de Clavius no Colégio Romano).

É considerado pela historiografia como um dos mais reputados jesuítas portugueses da missão da China.

Saiu de Portugal a 11 de Abril de 1601 para a Índia a bordo da nave “Santiago”, e provavelmente chegou a Goa no mesmo ano. Terminou aí os seus estudos de Teologia.

Chegou a Macau por volta de 1605 e ensinou teologia seis anos.

Em 1613/14 chega a Pequim com a ordem de «ensinar matemática aos chineses».

Em 1623, Dias foi nomeado vice-provincial da recém criada vice-província da China, e permaneceu nesta posição até 1635.

Em 1627, esteve em Hangzhou, onde construiu uma igreja e estabeleceu um Seminário. Morreu em Hangzhou, sendo enterrado fora da muralha da cidade, num local conhecido como Dafang jing 大方井.

Nas suas publicações afirmava a existência de esferas celestes sólidas. Esta doutrina estranha à cosmologia chinesa, estimulou reacções muito vivas entre os mandarins, referidas na Europa por Cristóvão Borri.

Em 1614, Manuel Dias escreve na China o compêndio Tianwen lue 天問略 (Tratado de Questões sobre os Céus), em mandarim.

É um pequeno compêndio de cosmografia e astronomia. No fim desta obra incluí a descrição, com figuras, da nova observação telescópica, feita por Galileu em 1609, sobre os “braços” de Saturno.

Galileu tinha descoberto duas saliências na altura do equador de Saturno. Como o telescópio não era suficientemente poderoso para que ele pudesse perceber os anéis do planeta, atribuiu as saliências a duas pequenas luas, bem próximas à superfície de Saturno. Quando as notícias chegaram a Pequim, Manuel Dias fez este desenho no seu manual de astronomia Tianwen lue 天問略.

O primeiro globo terrestre da China é feito por Manuel Dias e pelo italiano Nicolau Longobardo. É do ano de 1623, quando ainda não havia noção na China de que a Terra era esférica.

Imagens:

– Assinatura de Manuel Dias

– Tianwen lue 天問略de Manuel Dias Júnior (Pequim, 1615).

In https://www.loc.gov/item/2021666323/

– Globo chinês, feito em 1623 na China, por Manuel Dias Júnior.

– Tianwen lue, vol.1, p.3 e 4. In https://www.loc.gov/item/2021666323/

-A primeira descrição das observações telescópicas de Galileu na China, pelo jesuíta Manuel Dias júnior. A figura representa o planeta Saturno, tal como Galileu o viu.

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários Portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.

Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados  Mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos.

Do pronunciamento de agosto de 1820 à crise dinástica de 1826 (breve cronologia)

Do pronunciamento de agosto de 1820 ao Golpe da Vilafrancada, de 1823

Retratos de José Ferreira de Moura, Agostinho José Freire e Manuel Borges Carneiro
Museu da Assembleia da República
José Maria Veloso Salgado (Pintor)
1920

1820

Janeiro, 1 – Revolução liberal em Espanha. O general Riego revolta-se em Cádis, sendo acompanhado por levantamentos na Corunha, Saragoça e Barcelona. A Constituição espanhola de 1812 é restabelecida.

Fevereiro, 5 – Morte do P. Tadeusz Brzozowski , 19º Geral da Companhia de Jesus, em Polotsk, na Bielorússia. Era polaco, nascido na Prússia e fôra eleito Superior Geral da Companhia na Rússia em 1805.

Julho, 2 – Revolução liberal no Reino das Duas Sicílias, devido à sublevação do general Pepe.

Agosto, 13 – Beresford embarca para Inglaterra.

Agosto, 24 – Pronunciamento militar no Porto. Forma-se uma Junta Provisória do Governo Supremo do Reino, presidida pelo brigadeiro António da Silveira Pinto da Fonseca.

Setembro, 6 – O Rei Fernando VII suprime a Companhia de Jesus em Espanha.

Setembro, 15 – Pronunciamento militar em Lisboa. A regência é destituída nomeando-se um Governo interino.

Setembro, 27 – A Junta Provisória e o Governo interino, chegam a acordo sobre a junção dos dois órgãos de governo. Cria-se uma «Junta Provisional do Governo Supremo do Reino», presidida pelo principal Freire, decano da Igreja de Lisboa, tendo como vice-presidente António da Silveira Pinto da Fonseca, e uma «Junta Provisional Preparatória das Cortes», presidida pelo conde de Sampaio, e tendo como vice-presidente o conde de Resende.

Outubro, 9 – Abre a Congregação Geral XX, a primeira da Companhia de Jesus restaurada. É eleito 20º geral Luigi Fortis, italiano, de Verona.

Outubro, 10 – Beresford, chega a Lisboa, mas é impedido de desembarcar.

Outubro, 14 – O Papa confirma todas as profissões feitas pela Companhia de Jesus desde a sua extinção até ao presente, incluindo a recente Congregação Geral e a eleição do Geral.

Outubro, 17 – Chega ao Rio de Janeiro a notícia da revolução do Porto.

Novembro, 11 – Eclosão de um conflito no dia de São Martinho (a Martinhada), que opôs uma fação composta de todo o tipo de grupos políticos e sociais, mas dominada sobretudo pelos grupos mais conservadores do exército e da sociedade, a outra composta de liberais moderados. O brigadeiro António Silveira Pinto da Fonseca e outros membros conservadores são afastados dos órgãos de governo.

– Chega ao Rio de Janeiro a notícia da adesão de Lisboa à revolução do Porto.

Novembro, 19 – No Congresso de Troppau (outubro a dezembro) é formulado explicitamente a política de intervenção e de reação contra todo o movimento liberal.

1821

Janeiro, 26 – Reunião das Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, escolhida em eleições por sufrágio indireto. As sessões realizam-se no Convento das Necessidades.

Janeiro, 30 – As Cortes decretam a formação de um Conselho de Regência, para exercer o poder executivo em nome de D. João VI.

Fevereiro, 10 – Na Baía, Brasil, a guarnição militar cria uma junta governativa que jura fidelidade a D. João VI e à futura Constituição a promulgar em Portugal.

Fevereiro, 12 – Decreto amnistiando todos os cidadãos que tinham sido perseguidos desde 1807, pelas suas ideias políticas.

Fevereiro, 18 – D. João VI decreta que o príncipe D. Pedro irá para Lisboa.

Fevereiro, 26 – Golpe de estado no Rio de Janeiro.

Março – Revolução liberal no Piemonte, no Reino da Sardenha.

Março – O Exército austríaco entra no Reino das Duas Sicílias e restabelece o regime absolutista.

Março, 9 – São aprovadas as bases da nova Constituição Política Portuguesa.

Abril, 22 – D. João VI nomeia D. Pedro regente e seu lugar-tenente no Brasil.

Abril, 26 – Partida da Corte do Brasil para Portugal.

Março, 20 – Extinção do Tribunal do Santo Ofício – a Inquisição.

Junho, 5 – D. Pedro jura as bases da Constituição.

Julho, 3 – Entrada no Tejo das naus com D. João VI e a Corte.

Julho, 4 – D. João VI, após desembarcar na Praça do Comércio, e participar num Te Deum em sua honra na Sé, dirige-se às Cortes onde jura novamente as bases da Constituição.

Setembro, 29 – As Cortes decretam o regresso imediato do príncipe D. Pedro a Portugal, para realizar uma viagem de estudo, por Espanha, França e Inglaterra.

Dezembro, 24 – A Junta de Governo de São Paulo pede a D. Pedro para não regressar a Portugal.

1822

Setembro, 7 – «O grito do Ipiranga», independência do Brasil. D. Pedro I, o imperador, convida José Bonifácio de Andrade e Silva para organizar o primeiro ministério do novo Estado. 

Setembro, 23 – Promulgação da Constituição Portuguesa. A Constituição Política da Monarquia Portuguesa de 1822, apesar de ter vigorado por períodos curtos, transformou-se num documento inspirador do liberalismo português, com reflexos que percorreram todo o período da Monarquia Constitucional Portuguesa.

Outubro, 1 – D. João VI jura a Constituição. A rainha, D. Carlota Joaquina recusa-se a jurá-la, sendo transferida do Paço da Bemposta para a Quinta do Ramalhão.

Outubro, 13 – D. Pedro é aclamado imperador do Brasil e seu defensor perpétuo, com o título de D. Pedro I.

Pormenor da alegoria à Constituição representando Gomes Freire, empenhado defensor dos ideais da Revolução Francesa (AHM)

1823-1826: A Promessa de uma nova Constituição

– As dificuldades de D. João VI entre Liberais e Absolutistas, de 1823 até à sua morte em 1826.

1823

Fevereiro, 23 – Revolta antiliberal do 2.º Conde de Amarante e de outros oficiais, em Trás-os-Montes.

Abril, 7 – Invasão francesa da Espanha. Os «30.000 filhos de São Luís» vão repor o regime absolutista em Espanha.

Maio, 27 a 31 – Sublevação do infante D. Miguel, em Vila Franca de Xira (Vilafrancada). A Constituição é abolida e o regime absoluto é restabelecido. D. Miguel é nomeado comandante-chefe do Exército, com o tíitulo de generalíssimo.

Maio, 31 – D. João VI, na «Proclamação aos habitantes de Lisboa», escrita em Vila Franca, afirma rejeitar o poder absoluto, prometendo respeitar as liberdades individuais.

Junho, 18 – Nomeação de uma Junta para preparar a nova Constituição, presidida pelo marquês de Palmela. Integrava 14 membros todos representantes do tradicionalismo reformista. A Junta terminará a sua tarefa em dezembro seguinte, sem resultados.

Junho, 19 – Nomeação de uma Junta para examinar as leis das Cortes vintistas.

Setembro, 28 – Eleito Annibale Sermattei della Genga em conclave, tomando o nome de Papa Leão XII pelos cardeais conservadores («zelanti»). Mostrou sempre nostalgia dos tempos passados participando das ideias conservadoras dos soberanos restauradores, que tentavam voltar aos tempos e condições do Antigo Regime.

Outubro, 26 – Projeto de conjuração falhado, envolvendo D. Miguel e sua mãe D. Carlota Joaquina, para afastamento de D. João VI, que deveria ser preso em Vila Viçosa e substituído no trono por D. Miguel.

Dezembro, 18 – A Junta de exame do trabalho legislativo das Cortes vintistas termina os seus trabalhos. Publica-se uma Carta de Lei que revogava os decretos das Cortes.

1824

Janeiro, 4 – Carta de Lei declarando em vigor as leis tradicionais, pondo assim fim à vigência da Constituição de 1822.

Janeiro – O rei decide convocar em junho as Cortes tradicionais.

Fevereiro, 28 – O marquês de Loulé, conselheiro de D. João VI, é assassinado no Paço Real de Salvaterra de Magos.

Abril, 30 – Novo golpe de D. Miguel, contra os moderados (Abrilada). Os opositores de D. João VI prendem os principais conselheiros do rei e sequestram-no no Palácio da Bemposta. O corpo diplomático obriga à libertação do rei, que se refugia num barco no Tejo. D. Miguel é destituído do comando do Exército, e exilado, e D. Carlota Joaquina é intimada a sair de Portugal.

Maio, 13 – D. Miguel parte para o exílio, em Viena de Áustria.

Maio, 17 – Através da bulaCum multa in Urbe,o Papa Leão XII restitui à Companhia de Jesus o Colégio Romano, a Congregação Mariana e confia-lhe um Colégio dos Nobres.

Junho – Convocação das Cortes à moda antiga, que acabam por não se reunir. Revogação da Lei dos Forais.

Julho, 12 – Iniciam-se em Londres as negociações entre Portugal e o Brasil sob mediação britânica e com a participação de um representante austríaco.

Outubro, 26 – Nova tentativa de revolta militar miguelista tentando forçar a abdicação do rei e estabelecer uma regência a favor da rainha D. Carlota Joaquina.

Novembro, 15 – Reconhecimento da independência do Brasil, devido à ratificação por D. João VI do Tratado de Paz e Aliança com o Brasil.

1825

Agosto, 29 – Portugal reconhece a independência do Brasil.

Dezembro, 1 – Nicolau I sob ao trono como Imperador da Rússia e Grão-Duque da Finlândia.

1826-1832: A crise Dinástica – Da outorga da Carta Constitucional, em 1826, ao desembarque em Povolide, em 1832.

1826

Março, 6 – D. João VI nomeia um conselho de regência presidido pela infanta D. Isabel Maria. Esta decisão é intencional pois tem como pretensão impedir a subida ao poder de D. Carlota Joaquina.

Março, 10 – D. João VI morre, dando-se início ao governo da regência.

Março, 20 – O governo da regência reconhece D. Pedro, como legítimo rei de Portugal.

Abril, 26 – D. Pedro IV, no Rio de Janeiro, confirma os poderes da Regência.

Abril, 29 – Outorgada pelo rei D. Pedro IV a Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa.

Maio, 2 – D. Pedro IV abdica em favor da filha, D. Maria da Glória, sob condição de esta jurar a Carta e casar com o tio D. Miguel.

S. M. I. O Senhor D. Pedro restituindo Sua Augusta Filha a Senhora D. Maria Segunda, e a Carta Constitucional aos Portugueses.
Litografia de Nicolas-Eustache Maurin. 1832. Pormenor.
Museu Nacional Soares dos Reis

«Louvar os ornamentos e edifícios das igrejas. Do mesmo modo as imagens. Venerá-las segundo o que representam» (Inácio de Loyola)

Assiste-se a partir de meados do século XVI a um aumento da produção de imagens sacras. O conjunto escultórico do Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus ( espaços ocupados atualmente pelo Museu Nacional de História Natural e da Ciência, de Lisboa), que chegou aos nossos dias (e de nosso conhecimento), é bem representativo das novas exigências do culto tridentino, que deu especial relevo à imagem de Nossa Senhora sob as variadas invocações, à imagem de Cristo, dos Apóstolos e dos Santos mártires[1].

A escultura da Virgem com o Menino Salvador do Mundo é uma imagem de vulto, em madeira de carvalho setentrional, estofada e policromada, apresentando grande delicadeza na sua postura. Exibe um estofo muito desgastado e alguns vestígios de policromia.    

Virgem com o Menino Salvador do Mundo

Data: séc. XVII d.C.                                                                                                                                         
Dimensões:
– Altura: 130 cm
– Largura: 26 cm
– Comprimento: 51 cm  
Materiais:
 – Madeira
Técnicas:
– Dourado
– Estofado
– Policromado
– Escultura

 A outra escultura de vulto é um S. Paulo, e que apresenta os mesmos problemas na conservação. O estofo encontra-se muito desgastado, em tons vermelho e verde e com alguns vestígios de policromia, provavelmente floral e geométrica, com desenho de linha a dourado. Esta imagem parece ter sido repintada, pelo menos nas zonas sem estofo.

São Paulo
 
Autor: Desconhecido, trabalho português                 
Datação: séc. XVII d.C.                        
Dimensões:
– Altura: 115 cm
– Largura: 33 cm
– Profundidade: 40 cm
Materiais:
 – Madeira
Técnicas:
– Dourado
– Estofado
– Policromado
– Escultura

A terceira e última escultura do espólio do Noviciado da Cotovia é um Cristo que estaria na sua origem atado a uma coluna. Escultura em muito mau estado de conservação, com ténues vestígios de pintura. Esta imagem está associada à flagelação de Cristo. A cena da Flagelação, tal como os outros episódios da Paixão é, a partir do século XVI, representada com grande dramatismo, com Cristo atado a uma coluna e ladeada dos verdugos. Quando a cena se encontra despida de todo e qualquer elemento (verdugos, açoites) transforma-se numa imagem de grande devoção, como o caso deste exemplar do Noviciado da Cotovia. Com estas imagens os escultores praticavam a criação do nu, proibido pela igreja pois era considerado indecoroso e desonesto.[2]

Cristo preso à coluna
 
Autor (es): Desconhecido
Datação: séc. XVII d.C. 
Dimensões:
– Altura: 187 cm
– Largura: 32 cm
– Profundidade: 52 cm 
Materiais:
 – Madeira
Técnicas:
– Dourado
– Estofado
– Policromado
– Escultura

Não existem referências quanto aos seu autores, mas sabe-se o local para o qual a escultura de S. Paulo foi criada dado que em 1759, quando os bens da Companhia de Jesus foram sequestrados, foi elaborado um inventário onde era referido que na sacristia se encontrava «…em cima do caixão três imagens de vulto, uma de S. Pedro, outra de S. Paulo, ambas de cinco palmos com resplendores de folha prateada,…»[3]tendo em atenção que seguiam uma representação “tipo” seguindo as normas tridentinas.

Encontrámos referências bibliográficas a outra imagem escultórica, do século XVIII, pertencente ao Noviciado e que se encontra atualmente na igreja de S. Mamede, vizinha dos Museus da Politécnica, sendo lá colocada após um dos últimos incêndios que houve na antiga escola Politécnica. Esta escultura encontra-se em muito bom estado de conservação. José de Almeida foi o escultor desta imagem de vulto, em madeira policromada e estofada. 

Nª Sª da Conceição
Autor: José de Almeida 
Data: séc. XVIII

As esculturas do Noviciado da Cotovia são maneiristas, do início do século XVII, fidelizadas a parâmetros de imaginária sacra portuguesa, tipo esculturas de Gonçalo Rodrigues. Vitor Serrão num artigo publicado na revista Museu afirma que, este escultor trabalhou para uma clientela muito vasta, como por exemplo, a Misericórdia do Porto, os padres jesuítas de Braga e possivelmente para «…os inacianos de Lisboa»[4]. As esculturas maneiristas em madeira estofada e policromada, de que são exemplo as quatro referidas atrás, dão-nos a ideia do tipo de técnica usada neste período, tal como a postura da imagem e os tons e as cores utilizados.

As normas saídas do Concílio de Trento foram adotadas pela Companhia de Jesus a todos os níveis, incluindo as relativas à Invocação e Veneração das Relíquias dos Santos e das Sagradas Imagens. Inácio de Loyola afirmava que: «Louvar os ornamentos e edifícios das igrejas. Do mesmo modo as imagens. Venerá-las segundo o que representam».[a]


[a] INÁCIO DE LOYOLA, Exercícios Espirituais (360).


[1] CAETANO, Joaquim Oliveira; SILVA, Nuno Vassalo e, [e tal.], O púlpito e a imagem : os jesuítas e a arte, p. 25.  

[2] DIAS, Pedro, A escultura maneirista portuguesa: subsídio para uma síntese, p. 135.

[3] LINO, Raúl, SILVEIRA, Luís; MARQUES, A. H. de Oliveira, Documentos para a história da arte em Portugal,  p. 8.

[4] SERRÃO, Vítor, O escultor maneirista Gonçalo Rodrigues e a sua actividade no Norte de Portugal. Museu, IV série, nº7, 1998, p.148.

O Espólio do Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus (1619-1759)

Épocas representadas: séculos XVII-XVIII.
Tipo de coleções: Paramentaria, Pintura, Escultura, Ourivesaria, Espólio Documental.

 O Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MNHNC) que desde o primeiro quartel do século XVII até ao presente serviu de sede a respeitáveis instituições de ensino e de cultura, alberga um espólio variado de obras de arte e instrumentos científico-didácticos, onde se encontra inserido o espólio relativo ao Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus.    

O espólio do Noviciado é composto por sessenta peças, essencialmente, objetos que serviram ao culto na Igreja de Nossa Senhora da Assunção, enriquecido com alguns paramentos que vieram da China e relicários de Itália.

Quadro indicativo do número de peças pertencentes ao espólio do Noviciado da Cotovia.

Esta coleção de Arte possui uma pintura a óleo, do século XVII, com o retrato do fundador do noviciado, importante personagem que foi Governador da Índia. São bastante numerosas as peças de paramentaria, incluindo estolas, manípulos, palas, bolsas de Corporal, véus de cálice e um frontal de altar que se destacam pela diversidade de cores e pelos emblemas bordados com o símbolo dos jesuítas (IHS). Da ourivesaria destaca-se um relicário, com as suas relíquias de antigos mártires jesuítas, um relicário-palmeta e um resplendor, os primeiros de prata e o segundo de latão, dos séculos XVII e XVIII. Existem três exemplares de escultura sacra que apesar do mau estado de conservação, permitem percecionar a sua qualidade e a experiência do artista que as criou, correspondendo a um S. Paulo, a uma Virgem com o Menino Salvador do Mundo e um Cristo atado à Coluna, datadas do século XVII. Esta coleção conta, também, com um conjunto de três missais, dois de uso comum e outro de cerimónia, pertencentes aos jesuítas da Cotovia, com identificações escritas e artísticas relativas a membros desta Companhia.

Ao espólio do noviciado da Cotovia que se encontra no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, poderíamos adicionar pinturas e esculturas da igreja do antigo noviciado mas que devido a uma série de incêndios e cataclismos que lavraram este edifício da Rua da Escola Politécnica, se perderam no fogo ou foram salvas e recuperadas por outras entidades, encontrando-se atualmente a embelezar igrejas ou museus nacionais.

GRANDE INCÊNDIO DO MUSEU NACIONAL DE HISTORIA NATURAL.
Diário Popular, 18 de março de 1978

História do Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus: Cronologia

Excerto do Panorama de Lisboa. In Academia Nacional de Belas Artes

1540 – A 27 de Setembro, o papa Paulo III aprova a criação da Companhia de Jesus, pela bula “Regimini Militantis Ecclesiae”.

 Sto. Inácio de Loyola acedeu ao convite do rei português e enviou para Portugal dois dos seus primeiros companheiros: Francisco Xavier e  Simão Rodrigues.

1545-1563 – Concílio de Trento – Os Decretos Tridentinos produziram uma genuína reforma da Igreja Católica Romana, e reafirmaram as bases fundamentais do seu dogma.

1546 – É criada a Província Portuguesa da Companhia de Jesus, a primeira província de toda a Ordem no mundo.

– Fernão Telles de Menezes (Governador da Índia e 1º Governador do Algarve, Regedor das Justiças e Provedor da Misericórdia de Lisboa) e sua esposa, D. Maria de Noronha, acordam com os jesuítas serem os fundadores da Casa Do Noviciado.

1597 – Fernão Teles de Menezes oferece de dote à C. J. 20. 000 Cruzados (mais de 100.000 contos de hoje).

1598 – Celebra-se a dedicação da Casa a Nossa Senhora da Assunção (18 de Dezembro).

1603 – Lançamento da 1ª pedra para a construção do edifício (23 de Abril).

1605 – Morte de Fernão Telles de Menezes (26 de Novembro).

1607 – O arquitecto real Baltazar Álvares passa a dirigir a construção da obra.

1613 – Lourenço Lombardo, flamengo natural de Anvers, 2º financiador da Casa do Noviciado, dota a Casa com 30.000 cruzados (mais de 150.000 mil contos).

1616 – Foi feita a 1ª missa na Igreja do Noviciado (1 de Novembro).

Transladação dos ossos do fundador Fernão Telles de S. Roque para a igreja da Cotovia (9 de Novembro).

1619 – Inauguração do edifício do noviciado do Monte Olivete.

1634 – Morre Lourenço Lombardo. Foi sepultado na Sacristia em campa rasa com epitáfio.

1694 – Incêndio na Casa do Noviciado da Cotovia

1705 – É criado o Noviciado de Arroios (Lisboa), para as missões da Índia, dedicado a S. Francisco Xavier, e do qual aceitou ser fundadora D. Catarina rainha de Inglaterra.

1755 – Terramoto em Lisboa afecta parte do edifício.

1758 – Os jesuítas são suspensos do exercício de confessar e     pregar (Junho).

1759 – Sai o alvará de sequestro dos seus bens (Janeiro).

                  São reclusos e com guarda à porta (Fevereiro).

                  São proscritos e banidos do reino (3 de Setembro).

                  Noviciado da Cotovia foi confiscado para a Fazenda Real.

1773 – O Papa Clemente XIV, pressionado pelas cortes portuguesa e bourbónicas, promulga a 21 de Julho, o breve “Dominus ac Redemptor”, que decretava a extinção da Companhia de Jesus no mundo inteiro.

Foram 143 anos de existência e de prestação de serviços na formação missionária dos Padres da Companhia neste edifício do Monte Olivete.

1761 – Decreto-lei de 7 de Março institui o Colégio dos Nobres

1837 – Decreto-lei de 4 de Janeiro abole o Colégio dos Nobres

Decreto-Lei de 21 de Janeiro é criada a Escola Politécnica

1843 – Novo incêndio na agora Escola Politécnica

1911 – Pólo da Universidade de Lisboa: Faculdade de Ciências

1978 – Novo incêndio no edifício do antigo Noviciado.

Atualmente – Alberga dois Museus de referência em Portugal e no estrangeiro, o Museu da Ciência e o Museu de História Natural, e o Jardim Botânico de Lisboa, jardim científico, projetado em meados do século XIX para complemento do ensino e investigação da botânica na Escola Politécnica.

https://www.museus.ulisboa.pt/pt-pt

Acontecimentos relevantes que promoveram o regresso a Portugal da Corte no dia 3 de julho de 1821

Desembarque d’El Rei Dom João VI. Acompanhado por uma Deputação das Cortes, Na Magnifica Praça do Terreiro do Paço em 4 de Julho de 1821, regressando do Brasil.
Gravura, pormenor. Constantino Fontes.
Museu da Cidade de Lisboa

Breve cronologia (1821)

22 de abril D. João VI nomeia D. Pedro príncipe regente do Brasil.

25 de abril D. João VI regressa a Portugal após permanecer 13 anos no Brasil.

5 de maio Os bens da Coroa são declarados bens nacionais e incorporados à Fazenda Nacional (Brasil).

3 de julho A esquadra que trouxe D. João VI e a Corte de regresso a Portugal entra na barra do rio Tejo.

Partida da rainha D. Carlota Joaquina para Portugal, em litografia incluída no livro Viagem pitoresca, publicado em 1839, de Jean-Baptiste Debret (1768-1848).

Jean Baptiste Debret. Voyage pittoresque et historique au Brésil, ou Séjour d’un Artiste Français au Brésil, depuis 1816 jusqu’en 1831 inclusivement, epoques de l‘avénement et de I‘abdication de S.M. D. Pedro 1er,. Paris: Firmind Didot Frères, 1834-1839. Arquivo Nacional,

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A Revolução de 1820, que já vinha imbuída deste conjunto de antecedentes[1], aos quais podemos adicionar outros eventos como a fundação do chamado “Sinédrio”, integrado por alguns maçons, e que tinha como finalidade a consolidação do Exército Português no país, e a Revolução de 1820 na Espanha que restaura, em março, a Constituição liberal de Cádis (1812), evidenciava uma viragem na mentalidade das elites portuguesas, só quebrada no período de 1829-1834, período do absolutismo miguelista.

Flávio José Gomes Cabral menciona que,

“No dia 22 de outubro de 1820 atracava no porto recifense o paquete inglês Cresterfiel, trazendo as recentes notícias sobre uma revolução iniciada na cidade do Porto no dia 24 de agosto, a qual havia dado início a um movimento de caráter constitucionalista que exigia, entre outras medidas, a convocação de cortes, o que de certa forma punha em xeque a monarquia absoluta”[2].

A ação panfletária e outras manifestações como, por exemplo, modinhas e gestos que iam afligindo o governador de Pernambuco, levou a que no espaço colonial se tenha desenvolvido uma certa repressão e criado condições para que se excedessem os limites que, para a Coroa, eram a sua própria salvaguarda.

Em Pernambuco, existia um alerta quanto à propagação das doutrinas constitucionais uma vez que se ia tomando consciência de uma possível mudança do sistema, da Constituição e das Cortes[3]. Acusavam-se os ingleses de espalhar jornais europeus com novidades acerca desses acontecimentos, cujas matérias eram escritas com grande entusiasmo ajudando a aumentar e a espalhar estes ideais revolucionários por diversas províncias[4].

D. João VI tenta proteger o Reino da entrada dos novos ideais procurando manter um enquadramento ideológico pró Viena. Segundo António Ventura,

“D. João VI reagiu com dureza e determinação perante o ocorrido em Portugal e no Brasil [o processo de Gomes Freire de Andrade e a revolta de Pernanbuco], na linha, aliás, do que já fora solicitado pelo principal Sousa. A portaria de 17 de julho de 1817 proibia a circulação do Correio Brasiliense e de O Português. Em 30 de maio de 1818, um alvará régio de D. João VI secundava a condenação do papa Clemente XII, proibindo as sociedades secretas, incorrendo os seus membros no crime de lesa-majestade, com severas penas que podiam ir até à condenação à morte e ao arresto de bens”[5]

Assim, o regresso de D. João à Portugal ocorreu como consequência direta da Revolução do Porto de 1820 e da convocação das Cortes, que idealizavam o retorno da família real e da Corte portuguesa. Estes acontecimentos foram relevantes e determinantes no juramento da primeira Constituição Portuguesa, em 23 de setembro de 1822[6].

A solenidade da chegada é retratada na iconografia e o regresso do rei é visto como um novo ânimo à nação, como se pode verificar no título da obra publicada na época em Lisboa, por José Daniel Rodrigues da Costa: “Portugal convalescido pelo prazer que presentemente disfruta na desejada, e feliz vinda do seu amabilíssimo monarcha o Sr. D. João VI. e da sua augusta família“.

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4 de Julho de

D. João VI desembarca em Lisboa e jura as bases da Constituição

Notícia da chegada da Família Real a Lisboa é dada no nº 156 do Diário da Regência, 4 de Julho de 1821, edição de 4ª feira:

NOTICIAS NACIONAES.

Lisboa 3 de Julho

Repetidas Salvas das Fortalezas, do Castello, e Embarcações de guerra, annunciarão aos heróicos habitantes desta Capital a feliz chegada do nosso Rei Constitucional. S. M. entrou neste porto a bordo da Náo D. Joã VI seguida de outras embarcações de guerra e mercantes: tendo todos fundeado defronte da Cordoaria; transportou-se imediatamente a bordo a Deputação da Regencia do reino…

(Hemeroteca Municipal de Lisboa)

Notícia que faz referência ao Juramento da Constituição por D. João VI e consequente extinção da Regência do Reino é dada no Suplemento ao nº 157 do Diário da Regência, 5 de Julho de 1821, edição de 5ª feira:

LISBOA, 4 de Julho.

Artigos D’Officio.

AVISO.

As Cortes Gerais, Extraordinarias, e Constituintes da Nação Portugueza Declarão, e Decretão que, Tendo ElRei ratificado o seu juramento ás Bases da Constituição Politica que as mesmas Cortes fizerem (…) e fica  por tanto desde já extincta a Regencia do Reino, creada por Decreto de trinta de Janeiro do presente anno.

(Hemeroteca Municipal de Lisboa)


[1] Teve como antecedentes: a invasão de Portugal pelas tropas napoleónicas, em 1807; a transferência da corte portuguesa para o Brasil (1808-1821); a assinatura do Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, no dia 28 de janeiro de 1808 e o posterior Tratado de Comércio e Navegação assinado entre Portugal e a Grã-Bretanha em 19 de fevereiro de 1810; situação de miséria económica em Portugal, com fábricas em declínio, a agricultura em decadência, que levou a um colapso das rendas públicas e a miséria social.  Mas também contribuíram para esta Revolução Liberal do Porto, uma oposição à influência inglesa nos assuntos internos do Estado; a Conspiração de Lisboa de 1817; a fundação do chamado “Sinédrio”, integrado por alguns maçons, e que tinha como finalidade a consolidação do Exército Português no país; e a Revolução de 1820 na Espanha que restaura, em março, a Constituição de Cádis (1812), e que servia de exemplo para Portugal instalar os ideias do liberalismo. Veja-se VARGUES, Isabel Nobre – “O processo de formação do primeiro movimento liberal: a Revolução de 1820”. In MATTOSO, José (dir.) – História de Portugal, 5º vol.: O Liberalismo. Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, pp. 45-63.

[2] CABRAL, Flávio José Gomes – “Vozes Públicas: as ruas e os embates políticos em Pernambuco na crise do Antigo Regime português (1820-1821)”. In SÆCULUM: Revista de História, nº13, (jul./ dez. 2005), pp. 63-64.

[3] BARRETO, Luiz do Rego – Memória justificativa sobre a conducta do marechal de campo Luiz do Rego Barreto durante o tempo em que foi governador de Pernambuco e presidente do governo da mesma província. Lisboa: Typ. de Desidério Marques Leão, 1822, p. 25.

[4] Carta do governador ao Ministério do Reino, 19 de dezembro de 1820. In BARRETO, Luís do Rego – Cartas Pernambucanas, vol. LII. Recife, 1979, pp. 156-157; BERNARDES, Denis – O patriotismo constitucional: Pernambuco, 1820-1822. Ed. Universitária UFPE, 2006, pp. 361-366.

[5] VENTURA, António – Uma História da Maçonaria em Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 2013, p. 98.

Veja-se, inclusive, o Aviso dos Governadores do Reino em nome d’El Rei ao Presidente e Deputados da Real Junta do Commercio para “… mandar immediatamente bloquear o porto, e costas de Pernambuco e enviar um corpo das mesmas tropas, […] castigando os pérfidos, que se arrojáraõ a tramar taõ detestável traiçaõ”. In O Investigador Português em Inglaterra …, vol. XIX, nº LXXIII, julho de 1817, pp. 86-87 e, Conspiração Portugueza (artigo copiado do Times de 21 de junho de 1817). Ibidem, pp.108-109.

[6] MANIQUE, António Pedro – Portugal e as Potências Europeias (1807-1847). Lisboa: Liv. Horizonte, 1988, pp. 41-44.

 Entre 1820 e 1834 Portugal vai passar por um conjunto de mudanças de regime político e de governo, umas da responsabilidade dos liberais, outras dos absolutistas.

“Tal música não existia no mundo antes de ele a ter escrito” – palavras de Anna Magdalena, segunda esposa de Bach

Monumento dedicado a Bach, desde 1908, em frente à igreja de St. Thomas, onde Johann Sebastian Bach está enterrado em Leipzig, Alemanha.

Eisenach 1685-1695

Johann Sebastian Bach nasceu em 21 de Março de 1685 em Eisenach, uma pequena cidade-residência da Turíngia, perto de Wartburg, localidade onde Lutero, no ano de 1521, traduziu a Bíblia para a língua alemã.   

Eisenach 1685-1695

O pai, Ambrosius Bach, que era violinista e músico municipal em Eisenach, ensinou-o a tocar os instrumentos de corda, ao passo que o tio Johann Christoph, excelente compositor e organista na mesma cidade, iniciava-o no órgão.

Ainda muito jovem, Johann Sebastian fez parte do coro. Aos nove anos ficou órfão de pai e mãe e foi o seu irmão mais velho, organista em Ohrdruf, que se encarregou de sustentá-lo, ensinando-o a tocar cravo e a compor.

A sua paixão pela música já era bastante visível. Conta-se que, na época pediu um livro emprestado ao seu irmão que continha peças de Fröberger, Kerl e Pachelbel, mas sendo-lhe recusado este pedido apoderou-se dele às escondidas e copiou-o à luz das velas durante seis meses; comenta-se que quando já ia bastante avançado neste trabalho foi descoberto pelo seu irmão, que num momento de ira, pela desobediência de Bach, destruiu o manuscrito deixando-o desolado.


Bach passou toda a sua juventude completamente ligado à música. Esta era tema e conversa quotidiana na casa paterna e quando se reuniam, após as refeições, inventavam cânones e tocavam alegremente os seus instrumentos.

A música era para os Bachs uma profissão saudável, praticada constantemente com o fim de manter bem alto o padrão da profissão de músico, por isso era compreensível que Johann Sebastian tocasse violino e cravo desde a mais tenra idade.
Toda a vida de Bach foi percorrida num espaço geograficamente pequeno.

Johann Sebastian Bach (1685-1750)

Aos quinze anos, já era considerado um músico formado, que dominava notavelmente, além de outros instrumentos, o órgão.

 Um dos maiores músicos de todos os tempos, Bach não mostrava nenhuma das irritantes excentricidades que passam geralmente a fazer parte do “temperamento artístico”. Era sossegado e digno, mas por outro lado bondoso, piedoso, leal aos amigos e dedicadíssimo à sua família.

Lüneburg 1700-1702

Antes de procurar um emprego, Bach percorre a pé inúmeras localidades, como era costume na época. Assim o encontramos em abril de 1700 em Lüneburg, a trezentos quilómetros de distância, aceite na Michae-lisschule (São Miguel de Lüneburg), local onde eram acolhidos jovens pobres com alguma formação musical. Em troca de cantar na igreja que tinha o mesmo nome da escola, o jovem recebeu ali uma sólida educação, com aulas de retórica, latim e grego, lógica, teologia e, naturalmente, música integrando-se no coro da escola.

Lüneburg 1700-1702

Em 1701 visita também Celle, onde se cultiva a música orquestral francesa no palácio barroco, e onde Bach teve contacto com a arte e o modo de vida francesa, graças às figuras que rodeavam a duquesa de Brunswick-Lüneburg, ela própria de origem francesa. Possui uma rica biblioteca musical: Couperin, com quem Bach mantém correspondência (infelizmente perdida); Grigny, de quem copia o livro de órgão; Marchand, que encontrará em Dresde, em 1707, entre outros.

Celle

Weimar (I) 1703-1703

Na corte italianizante de Weimar, copia, totalmente, as fiori musicali de Frescobaldi, reproduz temas de fuga de Corelli, Legrenzi e Albinoni, copia numerosas sonatas e concertos italianos e, sobretudo, tem a “revelação” dos concertos de Vivaldi que representam o estado mais avançado da música instrumental.

Não se contenta em copiá-los, altera alguns para instrumentos de teclas: pelo menos sete para cravo, um para quatro cravos e cordas (originariamente para quatro violinos), três para órgão. Copia também os mestres de canto de Palestrina a Caldara, e faz longas caminhadas para ouvir os grandes organistas alemães: Reinken; Buxtehude e Böhm.
Bach deixou-nos, no total, vinte e duas transcrições, sendo dezesseis só para cravo, cinco para órgão e o concerto para quatro cravos. Durante muito tempo, os originais foram todos atribuídos a Vivaldi. Mas, vários são do jovem Johann Ernst, sobrinho do duque de Weimar, outros são de Alessandro e de Benedetto Marcello, um de Telemann e outros ainda não foram identificados.

Johann Ernst of Saxony-Weimar (1664-1707)- Weimar (I) 1703-1703

Em Hamburgo, assiste a um recital de órgão do octogenário Jan Adams Reinken e nota, então, que ainda lhe falta muito estudo. O teatro, em voga nessa cidade, não o atrai. Aos dezoito anos dá o seu primeiro passo para entrar na vida profissional. Torna-se violinista da orquestra de um dos príncipes de Weimar, mas no mesmo ano ainda, em 1703, troca esse posto pelo de organista na pequena cidade turíngia de Arnstadt.

Arnstadt 1703-1707

Foi contratado, sem fazer concurso, em 1703, com apenas dezoito anos. Ele parece dotado de uma maturidade superior à de sua idade e que guia as suas escolhas de maneira infalível. E, na Alemanha ele descobre a cultura francesa sem sair da tradição alemã. Começa a esboçar um ritmo de vida que depende, mesmo em períodos irregulares, da troca de um emprego secular por um clerical. Após dois anos de atividade como organista em Arnstadt, Bach pede licença para prosseguir os seus estudos.
               

  Arnstadt 1703-1707

                                      

A Itália chega até ele através  da música de Frescobaldi. E há o apelo dos organistas do Norte, como Georg Böhm, Reinken e Buxtehude. Para ouvir este último, Bach pediu quatro semanas de licença e acabou ausentando-se por quatro meses.

Põe-se novamente a caminho para uma peregrinação musical até a cidade de Lübeck. Nessa cidade, o organista Dietrich Buxtehude reúne uma grande multidão de ouvintes para seus recitais de “música vespertina”. Bach acredita ter entrado num mundo maravilhoso, pois jamais escutara tal mestre, nem tal órgão. Quando ele finalmente reaparece em Arnstadt, as autoridades clericais estavam indispostas com ele.  

Na galeria do órgão ele começa a tocar frequentemente na companhia de uma jovem, sua prima Maria Bárbara, com quem logo viria a casar. Rompeu o seu contrato logo que surgiu outra vaga de organista, desta vez em Mühlhausen, e Bach despediu-se de Arnstadt.

Mühlhausen 1707-1708

Em Abril de 1707, em Mühlhausen (também na Turíngia), admitiram-no depois de uma audição, sem concurso e para onde se mudou alguns meses depois para assumir o cargo de organista local. Entretanto, surgiram divergências com as autoridades religiosas da comunidade.

Mühlhausen 1707-1708

Casou-se aos 22 anos com a sua prima Maria Bárbara Bach. Nesta altura a sua fama já era grande. Compôs obras para órgão neste período, somente interrompido por uma prolongada visita ao venerável Buxtehude, em Lübeck.

Weimar (II) 1708-1717

Em fins de 1708, Bach muda-se para Weimar, desta vez como cravista e violinista, como organista de corte e, finalmente, como spalla do palácio do príncipe-regente. Era, agora, músico “de corte” e não mais músico da cidade ou da igreja – ainda que as suas funções fossem, em parte, ligadas à música religiosa.

      

Weimar (II) 1708-1717


Quando, no ano de 1717, decide ir para Küthen, a fim de assumir o posto de “mestre-de-capela da corte e director de música da Câmara Real” o duque de Weimar recusa o seu pedido de demissão e, ao insistir no pedido, Bach é posto na prisão por um mês por conduta agressiva e insubordinação. Não foi, contudo, um castigo demasiadamente severo, em que pese o agravo moral e a impossibilidade de se reunir imediatamente à sua família, que já se mudara para Küthen. Bach aproveitou o “descanso” forçado de quatro semanas para trabalhar no seu Pequeno Livro de Órgão (Orgelbüchlein). Depois, seguiu para Küthen, capital de um dos principados de Anhalt.

Küthen 1717-1723

                                

Príncipe Leopold von Anhalt- Küthen (1694-1728)

Os cinco anos passados por Bach em Küthen foram provavelmente os mais felizes de sua vida, apesar da perda que sofreu com a morte de Maria Barbara, em 1720. O príncipe Leopold von Anhalt-Küthen era inteligente, aberto, agradável, músico (tocava viola melhor do que um simples amador). Reunira a melhor orquestra da Alemanha (dezassete músicos, muitos dos quais virtuosos famosos).

Küthen 1717-1723

Bach gozava não somente de uma “real” consideração e de um bom salário, mas de uma verdadeira amizade por parte de Leopold e dos que o rodeavam. Essas condições ideais para um artista (ter à sua disposição todos os meios de criar e saber que a sua obra é compreendida e apreciada) iriam permitir a Bach uma produção abundante. Concertos, sonatas (quase toda a sua música de câmara data desta época), o cravo bem temperado, as suites e partitas, as aberturas para orquestra, entre outras.

Brandemburgo era uma potência alemã, cujo prestígio atingia todas as camadas da população. Em seis anos nessa localidade, surgiram os Concertos de Brandemburgo. Foi o “mais profano” dos seus empregos oficiais. É uma época rica em produção de música profana (assim chamados por terem sido escritos para o filho do grão-duque Christian Ludwig von Brandenburg).

Desde 1691 que o organista e teórico de música Andreas Werckmeister (1645-1706) praticava o “temperamento de flutuação idêntica“, ou seja, a divisão da oitava em doze intervalos sonoros perfeitamente idênticos, chamados de semitons ou meios-tons. Com isso, praticava-se alguma violência contra as frequências, prestava-se, porém, um serviço inestimável para a prática da execução musical. Na Europa, desconhecia-se ou já se havia esquecido o facto de que os árabes tinham, há séculos atrás, conhecido e desenvolvido essa teoria e lutado por ela. Bach tentava agora utilizar de uma forma prática essa identidade de todas as tonalidades. À medida que Bach compunha uma peça musical, respetivamente, para cada escala em tom maior e em tom menor, portanto 24 ao todo, ele comprovava a utilidade do conjunto das tonalidades, e além disso, apresentava ainda uma obra-prima inspirada. Produziu, ao lado deste feito teórico-musical, composições magníficas.

Aqui se manifesta a competência especial de Bach, de unir os objetivos pedagógicos às metas artísticas. Isso torna-se também evidente no Pequeno Livro de Teclado (Klavier-Büchlein), escrito em 1720 para seu filho Wilhelm Friedemann, na época com dez anos de idade, e em Pequenos Prelúdios e Fugas (Kleine Prdludien und Fugen), escrito para servir a objetivos de estudo geral.

São muitas peças de música de câmara que surgem em Küthen, pois o jovem príncipe Leopoldo gosta não só de música, como “também a compreende“, conforme as palavras de Bach. A sua obra enriquece-se com uma grande quantidade de peças, certamente tocadas no palácio, peças para violino, violoncelo, flauta, cravo, viola da gamba (bastante apreciada na época) e a viola pomposa, inventada por Bach, uma espécie de fusão entre viola e violoncelo.


Em Küthen, Bach trabalha também na sua primeira versão musical da Paixão, para a qual escolhe como modelo o texto de São João Evangelista. Apenas para o seu instrumento preferido, o órgão, este período em Küthen, não lhe deu poucos resultados. Era já nessa época um organista de renome. Telemann escreveu uma vez: “Ninguém supera a Haendel no órgão, com excepção, talvez, de Bach”.

E quando Bach, em 1717, vai para Dresden aceitando um convite para um duelo musical com o conhecido virtuoso do órgão, o francês Louis Marchand (1669-1732), a tão esperada competição não chega a concretizar-se. Conta-se que Marchand partira discretamente pouco antes da realização do desafio marcado.

No verão de 1720, morreu a esposa de Bach, mãe dos seus sete filhos. A perda da esposa provavelmente contribuiu para que Bach pensasse em deixar a cidade. Ele sentia saudades sobretudo do seu órgão. Mas as negociações com Hamburgo não tiveram êxito, e o seu desejo foi adiado por mais alguns anos.

Em dezembro de 1721, casa-se com Anna Magdalena Wilcken, cantora da corte e filha de músicos de Weissenfels. Trata-se novamente de um casamento feliz. Bach encontra em Anna uma companheira amável e compreensiva, além de entendida em questões musicais. E a quantidade de crianças que alegraram a casa de Bach e a encheram de música aumenta agora com mais treze.

Neste período surge uma inquietude devido, talvez, ao retomar a consciência da sua tradição familiar. O príncipe Leopold era calvinista e, em Küthen, a música religiosa não tinha qualquer participação no culto. O papel de Bach era, portanto, exclusivamente profano. Ao que parece, Bach teria sentido fortemente – talvez pela perda de Maria Barbara – a necessidade de voltar a trabalhar para a igreja, como sempre o haviam feito o seu pai e os seus antepassados. Tentou, de início, conseguir um lugar como organista em Hamburgo, até que apareceu a ocasião, como cantor, na Escola de Santo Tomás, em Leipzig.

                                                                      

Leipzig 1723-1750

Leipzig 1723-1750

Bach mudou o curso de sua vida e renunciou a todas as vantagens adquiridas. Por um salário menor, escolheu o posto de Leipzig, repleto de inconveniências que não demoraram muito a tornar-se insuportáveis. Em 26 de Março de 1723 Bach entra em contacto com a cidade musical de Leipzig, seu futuro e mais duradouro local de trabalho.

A Escola de São Tomás de Leipzig era uma dessas antigas instituições como tantas criadas pela Idade Média, na Alemanha, pela Reforma. Meio orfanato, meio conservatório, estava estreitamente inserida na vida da igreja e na cidade.

A função de cantor havia sido honrosa e importante – era-o, ainda, no início do século, ao tempo de Johann Kuhnau, o predecessor de Bach, simultaneamente professor de letras (o ensino do latim fazia parte de suas prerrogativas) e de teologia, professor de música e director das actividades musicais da igreja, regente do coro, regente da orquestra e compositor.

Johann Kuhnau

Mas, em 1730, essa função compósita começava a tornar-se anacrónica, tal como toda a estrutura da escola. O Iluminismo estava a provocar alterações nas relações e nas estruturas sociais. A Escola de Santo Tomás, com sua organização antiquada, já não correspondia às aspirações intelectuais do século XVIII. Homens inteligentes como o reitor Ernesti, desejavam fazer da Escola de São Tomás uma escola moderna.

E a função de Bach constituía o principal factor de imobilismo. Bach pedia mais recursos para sua música, uma disponibilidade maior dos alunos, uma selecção orientada no sentido das suas respectivas capacidades musicais. O reitor gostaria de vê-los, de preferência, estudar latim ou grego, a gastar horas e horas com ensaios no coro. O impasse era total, e Bach revelou-se pouco hábil, pouco político. Ele negligenciava os seus cursos de latim e transferia-os a inspectores que, por outro lado, não eram bons músicos. A acrescentar a isto, a estreiteza de espírito, a pouca inteligência e a mesquinharia dos membros do Consistório, a mediocridade dos membros da assembleia comunitária – e pode-se ter uma ideia das dificuldades, das preocupações que afligiram os últimos anos de Bach.

Esta amarga deceção vinha precisamente daqueles para quem havia escolhido trabalhar e consagrar a sua vida. Foi por esta estrutura paroquial e comunitária que ele renunciara à vida fácil da corte e à segurança de Küthen. Ao procurar o modelo social, cultural e religioso que foi o da família de Bach antes dele e à sua volta, J.S. Bach escolheu um caminho que era social e culturalmente – se não religiosamente – anacrónico.

Os primeiros anos de Bach em Leipzig dão testemunho da felicidade que, no início, a situação lhe proporcionou, o que se pode medir pela sua vitalidade criadora: 48 cantatas só durante o ano de 1723, quase uma por semana. Aqui dirige A Paixão Segundo São João e A Paixão Segundo São Mateus, tocada cinco anos mais tarde no mesmo local.

Dois meses depois, a 1 de Junho de 1723, Bach assume definitivamente o último cargo musical de sua vida: apresentado em cerimónia solene, torna-se organista da Igreja de São Tomás, em Leipzig. Este título afirma que ele é, a partir de agora, o director musical da Igreja de São Tomás, uma casa de Deus de renomeada tradição.

Tinha também a seu cargo o ensino de música na escola de jovens anexa, cujo coral era solicitado a colaborar na igreja. Ele vai permanecer neste cargo durante 27 anos. Nem tudo corre de acordo com seus desejos. Neste contexto, poder-se-ia mencionar a carta que escreveu em 1728 a Georg Erdmann, companheiro da sua juventude, que se tornara uma personalidade de considerável influência.

Bach confia-lhe a sua insatisfação com as autoridades burocráticas, que lhe pareciam frequentemente injustas. Em Março de 1729, dirige a cerimónia de luto em homenagem ao príncipe Leopoldo em Küthen, lugar com o qual sempre manteve laços de amizade. No mesmo ano, comparece à cerimónia de outorga do título de mestre-de-capela da corte do Principado em Weissenfels. Não lhe faltaram honrarias. Chega Sexta-Feira da Paixão do ano de 1729. A Paixão Segundo São Mateus ressoa pela primeira vez na Igreja de São Tomás.

Vão passar-se quase cem anos até que Mendelssohn a volte a descobrir. A saga dos sofrimentos de Cristo foi um dos temas mais importantes do teatro sacro medieval. Não poderia deixar de entrar no círculo do Oratório que agora surgia. Neste contexto, foi sobretudo a Igreja protestante que a tornou uma obra completa, na qual poesia e música iriam colaborar nesta grande experiência.
Nas Paixões de Bach, o género alcança a harmonia perfeita e definitiva, entre a transfiguração, a contemplação mais profunda e o impressionante realismo. Uma compensação oferece-se a Bach ao assumir, em 1729, a direção do Collegium Musicum estudantil, fundado por Telemann. Para esta orquestra de câmara, Bach produz muitas obras, como os Concertos para cravo, cujos temas retoma dos seus colegas italianos, sobretudo Vivaldi.

Transforma os concertos para violino em peças instrumentais para teclado. É fascinado pelos concertos duplos e triplos. O Concerto para Quatro Violinos de Vivaldi é transformado num Concerto para Quatro Cravos.

Os seus filhos tornam-se músicos notáveis. Wilhelm Friedemann convida o pai várias vezes para visitar Dresden, onde ele é organista da Igreja de Nossa Senhora.

Carl Philipp Emanuel tem o cargo de músico da corte a serviço de Frederico II, o Grande, fiel amante da música. Carl Philipp consegue para o seu pai um honroso convite para tocar em Berlim e Potsdam. Diante do monarca, Bach improvisa no órgão e no cravo, provocando a entusiástica admiração de todos os presentes.

O rei sugere-lhe um tema próprio que Bach, após retornar a Leipzig, transforma na importante obra instrumental – A Oferenda Musical.

 Em fins de maio de 1749, Bach sofre um derrame e a visão começa a enfraquecer rapidamente. Mas continua a trabalhar durante horas seguidas numa imensa composição: A Arte da Fuga. Muito já se especulou sobre esta obra incompleta onde Bach atingiu todo o conhecimento acerca da perfeição contrapontística, registando-se aqui toda uma sabedoria musical.

Bach possuía a firme convicção de que tudo vinha de Deus. A música de Bach é realmente inspirada por Deus. Ouvindo as suas paixões, a de S. Mateus e a de S. João, apercebemo-nos que para além de um inimaginável esforço e trabalho está uma inspiração fora do comum, e que nas obras religiosas adquire uma expressão mais emotiva e liberta. Ocupava também, com a trajetória das estrelas, com as inter-relações “secretas” dos números, talvez por influência da perda de Maria Bárbara.

Sabia “que o seu Salvador vive”, como consta na cantata n° 160, das 190 que foram conservadas. No início de 1750, Bach sofre duas operações feitas pelo oftalmologista inglês John Taylor, residente em Leipzig. Não houve uma melhoria imediata, mas surpreendentemente, a 18 de Julho, recuperou a visão.

Retomou pessoalmente A Arte da Fuga que começara a ditar. Trabalhava no contratema, no qual entrelaçou o seu próprio nome: as quatro notas musicais alemãs B-A-C-H (si bemol-lá-dó-si) – que, a partir de então, foram usadas por inúmeros compositores em sua homenagem -quando, na tarde de 28 de Julho de 1750, sofreu um segundo derrame, desta vez fatal.

Nesta ocasião, os seus filhos mais velhos já estavam colocados em altos cargos, e ele pôde despedir-se do mundo tranquilo quanto aos caminhos, à competência e à consideração dos seus descendentes. Eles compunham naturalmente de maneira “diferente” da do próprio pai, mas, isto é natural de geração para geração. O mais velho, Wilhelm Friedemann Bach (1710-1784), foi organista em Dresden e depois em Halle, de 1747 até 1764.

Wilhelm Friedemann (nasceu em 1710)

O pai não chegou a assistir ao melancólico fim do seu filho predileto, que se afundou na mais triste solidão e arruinou-se cruelmente.

Depois de deixar Halle e de terem fracassado os seus contactos com Darmstadt para se candidatar a um novo emprego, a vida de Wilhelm Friedemann tornou-se mais caótica, intranquila e certamente também mais infeliz. Após realizar um exame impecável em Braunschweig, a sua expetativa de obter o posto de organista da Igreja de Santa Catarina não se concretiza. As expetativas em relação a Berlim, onde passou a viver, também resultaram negativas, sem que ninguém saiba o motivo.

Poucas foram as pessoas que o acolheram em Berlim: Johann Nikolaus Forkel, que nele reconheceu o génio do pai e escreveu a primeira biografia sobre ele em 1803; a princesa Amália da Prússia, irmã de Frederico, o Grande. A pessoa que efectivamente o ajudou foi talvez a tia-avó de Mendelssohn, Sara Levi, que foi sua discípula até o fim.

A situação de penúria fez com que o filho vendesse parte da herança musical paterna que lhe coube, chegando, inclusive, a publicar como suas algumas obras do pai. As suas próprias composições, hoje altamente apreciadas, passaram quase despercebidas enquanto viveu. A placa necrológica que o Magazin der Musik lhe dedicou dizia que o “filho do imortal Sebastian morrera de debilidade generalizada aos 74 anos de idade. Com ele a Alemanha fica sem o seu primeiro organista, e o mundo, sem um homem cuja perda é írreparável..:”

Wilhelm Friedemann jamais conseguiu superar o facto de permanecer sempre à sombra de seu pai. Foi, assim, uma figura verdadeiramente trágica.

O destino de Carl Philipp Emanuel (1714-1788) correu, ao contrário do irmão, com bastante serenidade. O afilhado de Telemann alcançou, ainda jovem, um posto conceituado como cravista da corte do rei da Prússia. As suas composições, claramente influenciadas pelo Rococó francês eram bastante apreciadas. A visita do pai a Berlim, por ele intermediada, significou também para si próprio um valioso acréscimo em termos de prestígio.

Carl Philipp Emanuel (nasceu em 1714) 

                         

No ano de 1767, foi para Hamburgo, onde se tornou diretor de música sacra como sucessor de Telemann e regeu numerosos concertos. O facto de também ele, que escapou às agruras da vida, ter dissipado a herança paterna, continua sendo algo incompreensível.

Os outros dois filhos músicos de Bach nasceram do seu segundo casamento. Johann Christoph Friedrich (1732-1795) levou uma vida discreta. A história da música designa-o frequentemente com o nome que já usava em vida, para distingui-lo de seus irmãos e meios-irmãos, como “Bach de Bückeburg” (Carl Philipp Emanuel é chamado frequentemente de “berlinense” ou também de “Bach hamburguês”; Johann Christian, de “milanês”; ou melhor, de “Bach londrino”).

Johann Christoph Friedrich (nasceu em 1732)

Com menos de vinte anos de idade, Johann Christoph Friedrich foi para a pequena cidade-residência de Bückeburg a serviço da corte do duque de Lippe. De simples músico passou a mestre-de-capela, trabalhou com honradez e morreu juntamente com o notável poeta Johann Gottfried Herder (1744-1803). Estabelecido na corte desde 1771, compôs oratórios (A Ressurreição de Lázaro, O Estranho do Gólgota), cantatas (Música da Ascensão) e a ópera Brutus, cuja partitura se perdeu.

O destino mais agitado foi o do filho mais jovem Johann Christian Bach (1735-1782), cuja ascensão meteórica não pôde mais ser acompanhada pelo pai. Johann Christian venceu uma série de barreiras que até então tinham-se erguido de modo intransponível diante dos Bachs: foi para a Itália, converteu-se ao Catolicismo, tornou-se organista da Catedral de Milão e escreveu óperas italianas.

                         

Johann Christian (irmão mais novo, nasceu em 1735)

Depois, aceitou os serviços do rei da Inglaterra, organizou com um parceiro, os brilhantes Concertos Abel-Bach em Londres, colheu triunfos memoráveis como cravista. Mozart, que aos oito anos o visitou na capital inglesa, encontrou nele o seu ideal materializado: um músico brilhante, cosmopolita, com o qual se podia aprender muito. Quando se encontraram novamente, alguns anos mais tarde, desta vez em Paris, já havia começado a sua fase de decadência.
Também neste ponto ele viveu contra os princípios paternos: amava o luxo e acumulava dívidas despreocupadamente. Num concerto que Johann Christian promoveu em Londres em seu próprio favor, o público expôs a sua inconstância: em lugar da multidão de outrora, apenas algumas pessoas compareceram ao espectáculo.

O receio da ruína social e artística levou-o cedo para a sepultura. Numa carta ao pai, Mozart comenta: “O senhor provavelmente já sabe que o Bach inglês morreu. Que pena para o mundo musical!”

Nenhum dos filhos de Bach trilhou o caminho musical preparado pelo pai. O momento era do Rococó, do estilo “galante“, “sentimental“, da melodia repleta de vibrações e acompanhada de harmonias, pontilhada aqui e ali por um prenúncio do Romantismo vindouro.

Ainda houve ocasiões festivas, como a viagem à corte de Potsdam, onde o seu filho Carl Philipp Emanuel era cravista e durante a qual Frederico II dispensou-lhe honrarias. Mas a saúde de Bach piorou. Ficou cego. Um charlatão tentou operá-lo aos olhos e arruinou a sua vida, morrendo em 1750.

 Bach parece ter sido sempre adulto, dir-se-ia que jamais foi criança. Solucionou todos os seus problemas psicológicos, sociais e familiares com uma segurança de instinto que poucos artistas parecem ter possuído, e de tal maneira que sua paz interior jamais saiu diminuída desses embates, e sim reforçada.

A grandeza da sua obra respira força e paz, mas “contém” ao mesmo tempo, sofrimento e dor, sentidos e superados.

Assim, a vida de Bach passou-se em ambientes modestos e sem grandes contactos com o mundo exterior. Quase nada se sabe de sua personalidade, devoção luterana, que combina com apreço aos prazeres do mundo, bom pai de família (14 filhos, de dois casamentos), funcionário pontual, mas homem de personalidade forte, sempre discutindo com os seus superiores, homem culto, mas inteiramente dedicado à sua enorme produção de obras.

 “Em todo o acto de criação existe algo de milagroso. Algo novo surge no mundo”. Anna Magdalena, a segunda esposa de Bach, expressou esse facto em palavras singelas: “Tal música não existia no mundo antes de ele a ter escrito”.

A reação do infante D. Miguel ao vintismo Vilafrancada (27 maio 1823)

Dom Miguel, [Lisboa, na Impressão de Alcobia, 1823], gravura, BNP

A 15 de fevereiro de 1823, dias antes da primeira tentativa armada contra o regime constitucional, D. Carlota Joaquina escrevia uma carta do Ramalhão, onde se encontrava reclusa após ter recusado jurar a Constituição[1], a João Gonçalves Marques agradecendo-lhe “…o generoso oferecimento de seiscentos mil reis por mêz, […] para suprimento das [suas] despezas, em atenção ás urgentes circunstâncias em que [se] acha para poder subsistir”[2]. Para além da sua subsistência tem de se atender à necessidade de auxílio financeiro à causa contrarrevolucionária e ao apoio a dar ao seu filho D. Miguel na preparação da Vilafrancada.

Um conjunto de acontecimentos animou o «partido da rainha» a revoltar-se abertamente. Uma das causas que provocava estas revoltas era o modelo constitucional instituído, no qual os três poderes políticos – legislativo, executivo e judicial – são rigorosamente independentes e o poder legislativo é atribuído às Cortes em exclusivo, embora sujeito à sanção Real. Naturalmente que este primado do parlamentarismo não agradava aos «partidários» do absolutismo.

O discurso de Luís XVIII na abertura do parlamento francês, de 28 de janeiro de 1823 constituiu outro motivo de mobilização. 

O rei francês anunciava a invasão da Espanha para expulsar os liberais da Assembleia das Cortes, restaurando, deste modo, o absolutismo ao abrigo dos acordos da Santa Aliança e colocando no trono de Espanha um “neto” de Henrique IV (primeiro monarca francês da Casa de Bourbon).

No começo de abril invade a Espanha com o apoio internacional, entrando em Madrid em 24 de maio de 1823, resultando no restabelecimento do absolutismo. O principal objetivo da intervenção francesa era pôr fim ao governo do triénio liberal espanhol.

Seguiu-se a consolidação da corrente ultrarrealista, apoiada pelas infantas portuguesas naquela corte[3], que incitam também os absolutistas em Portugal contra o governo, dominado pelo Conde de Subserra e pelo Marquês de Palmela.

Este acontecimento alarmou os políticos liberais em Portugal pois podia originar no país uma guerra civil ou uma nova invasão francesa. Nesse sentido, o governo reforçou um exército de observação na província da Beira para vigiar quaisquer incursões do Conde de Amarante. A elevada concentração militar deu origem a ocasiões de traições e deserções, sendo considerado uma das causas próximas da Vilafrancada[4]. António Viana afirma que foi nesta ocasião que se começou a formar em Lisboa “… nos quartéis um partido médio, entre a revolução e o absolutismo. A liga deste partido com os conspiradores do Ramalhão [os partidários da rainha] tornou fácil o aniquilamento do regime de 1822”[5]

Um dos descontentes, o brigadeiro Sampaio que fora afastado do comando do regimento de infantaria 23, que recebeu ordens para marchar para Almeida a reforçar a fronteira contra as investidas dos revoltosos nortenhos, onde se encontrava o exército de observação, não aceitando a sua demissão põe-se à frente do seu regimento e marcha com ele para Vila Franca, deslocando-se no mesmo sentido o infante D. Miguel. Segundo o abade António dos Santos Leal, o plano de D. Miguel já se desenvolvia há algum tempo pois enviara a Espanha um emissário que contactou a divisão de Silveira, pedindo que esta se aproximasse da fronteira portuguesa, pois tencionava sair da capital com tropas para acabar com o regime constitucional[6]. Em Vila Franca foram dados vivas à monarquia absoluta, conjeturando o infante e a rainha a possível abdicação de D. João VI que se mantinha fiel à Constituição que jurara[7].

D. Miguel saúda os soldados ao chegar a Vila Franca.

No discurso D. Miguel apelou ao apoio à sua causa baseada na união entre monarquia, nobreza, tradicionalismo e Deus, pilares sagrados que permitiam a elevação para uma sociedade equilibrada e ordenada segundo princípios divinos[8]. Na Proclamação aos portugueses, como justificação para o seu ato, o infante D. Miguel invocou que a honra não lhe permitia ver por mais tempo «em vergonhosa inercia a magestade real, ultrajada e feita ludibrio dos facciosos, o abatimento da magistratura e da nobreza, despojada do lustre que outrora obtivera do reconhecimento real», enquanto a religião e os seus ministros eram «objecto de mofa e escarneo»[9].

Porém, D. João VI decidiu tomar a direção da revolta encorajado pelo levantamento do Regimento de Infantaria 18 que viera ao Palácio da Bemposta dar-lhe vivas como rei absoluto. Partindo para Vila Franca obrigou o infante a submeter-se-lhe e regressou a Lisboa em triunfo.

 A 2 de Junho de 1823 reúnem-se pela última vez as Cortes do vintismo. Dois dias depois, é assinada por D. João uma Carta de lei defendendo a necessidade de reforma da Constituição e convoca os três estados do Reino (clero, nobreza e povo), para se reunirem em cortes nos moldes do Antigo Regime[10]. Com esta conjuntura política vários políticos liberais partiram para o exílio.

Deste modo, D. João VI conseguiu impedir a ascensão ao poder do grupo político ultrarreacionário e manteve a sua posição determinante no quadro político, nomeando um novo governo, investindo D. Miguel no cargo de comandante-em-chefe do Exército, restituindo à rainha as prerrogativas de que fora privada, abolindo a Constituição, entre outras medidas que provocaram o regresso ao Antigo Regime[11]. D. João compreendera que o triunfo desta rebelião teria implicado o seu destronamento e a entrega total do poder à sua esposa e ao seu filho.

Em 2 de junho de 1823 reúnem-se pela última vez as Cortes do vintismo autossuspendendo os seus trabalhos e aprovando no dia seguinte uma «Declaração e Protesto contra qualquer alteração ou modificação que se faça na Constituição do anno de 1822»[12].


[1] “A mulher de D. João VI, Carlota Joaquina, transformara-se em heroína da imprensa contra-revolucionária em finais de 1822, pela sua recusa firme em jurar a Constituição e em abandonar o país, corporizando a oposição às Cortes e ao governo liberais”. LOUSADA, Maria Alexandre – “A contra-revolução e os lugares da luta política. Lisboa em 1828.”. In FERREIRA, Mª de Fátima de Sá e Melo (coord.) – Contra-revolução, espírito público e opinião no sul da Europa (séculos XVIII e XIX). Lisboa: CEHCP, ISCTE, IUL, 2009, p. 83.

[2] MARQUES, Teresa Martins – “Uma carta inédita de Dona Carlota Joaquina”. In Navegações, v. 2, nº 1, (jan./jun.) 2009, p.1.

[3] As infantas envolveram-se diretamente nos acontecimentos do Brasil, Portugal e Espanha. Destaca-se pela sua atividade pró-absolutista Maria Teresa (1793-1874), princesa da Beira, viúva do infante Pedro Carlos (1786-1812), neto da rainha portuguesa D. Maria I e mãe do Infante Sebastião (1811-1875). Ficando viúva dois anos após o matrimónio (1810-1812), volta em 1821 para Portugal com a corte. Porém o seu tempo de permanência e de seu filho em Lisboa foi curto, uma vez que a princesa conseguiu autorização para ir viver na corte espanhola com o fim de garantir os direitos do seu filho como herdeiro dos Bourbon.

Na mesma corte residia sua irmã Maria Francisca (1800-1834), que casara em 1816 com o infante Carlos Maria Isidro (1788-1855), irmão do rei Fernando VII de Espanha, o qual após a morte desta se casará em 1838 com a cunhada Maria Teresa. Juntas, as infantas passaram a exercer grande influência sobre o rei, tio e cunhado, D. Fernando VII. Envolveram-se nos acontecimentos políticos da Península Ibérica, tendo sido defensoras do movimento carlista, e apoiado vigorosamente as ações de D. Miguel contra seu irmão D. Pedro.

Veja-se sobre este assunto PEREIRA, Ângelo – As senhoras Infantas filhas de El-Rei D. João VI. Lisboa: Editorial Labor, 1938; PEREIRA, Ângelo – Os filhos de El Rei D. João VI, Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, 1946.

[4] O exército de observação é caracterizado como estando “… corroído pelas intrigas e ambições dos oficiais, indisciplinado, mal pago, descontente com o governo das Cortes, não só pelos vícios orgânicos do regime que elas representavam e defendiam a todo o transe, mas também pelas supostas culpas que a má-fé e as paixões injustamente lhes atribuíam, ao exército português, afeito ao realismo pelas tradições de sete séculos, submisso ao prestígio da nobreza, obediente aos representantes do velho regime, que ocupavam a maior parte dos postos superiores”. In PERES, Damião; CERDEIRA, Eleutério – História de Portugal. Ed. monumental comemorativa do 8.⁰ centenário da fundação da nacionalidade …, vol. VII, pt. 1.Barcelos: Ed. Portucalense, 1935, p. 122.

[5] VIANNA, António – A Revolução de 1820 e o Congresso de Verona. Lisboa: Livraria Ferin, 1901, pp. 341-342.

[6] LEAL,António dos Santos, abade –  Testemunho Imparcial ou Recordações Históricas e Críticas sobre os princípios, progressos e fins da Empreza começada em Traz-os-Montes em 23 de Fevereiro…, pp. 223-227.

Este manuscrito pertencia ao abade de Miragaia, António dos Santos Leal, que o copiou, entregando uma cópia à Biblioteca Pública Municipal do Porto. Fernando de Sousa transcreveu-o, em anexo à sua tese de licenciatura Trás-os-Montes. Subsídios para a sua História em Fins do Século XVIII, Princípios do Século XIX, apresentada à Faculdade de Letras do Porto em 1973.

[7] A notícia do golpe de estado absolutista é dada pelo Diário do Governo, no dia 30 de maio de 1823:

“LISBOA 28 de Maio

Apezar das paternaes exhortações do nosso amado Monarca Constitucional, o iludido Infante D. Miguel, persiste no seu inconsiderado projecto, e prossegue na sua marcha á testa dos alucinados …”. In Diário do Governo, nº 127, de 30 de maio de 1823.

[8] Apoiando D. Miguel encontrava-se o Duque de Cadaval, o de Lafões, o Marquês de Angeja e o de Abrantes, e alguns criados armados, ostentando as «librés de suas casas». In Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861, II. Coimbra: Impr. da Universidade, 1928, pp. 340-353.

[9] Proclamação de D. Miguel em Vila Franca, 27 de maio de 1823. In Documentos para a História das Cortes Gerais da Nação Portuguesa, Tomo I (1820-1825), pp. 698-699.

[10] Como refere António Pedro Manique “… a Santa Aliança promoveu por outros meios a derrota da experiência liberal vintista. […] em consequência do mandato que recebera em Verona, a França invadiu a Espanha em Abril de 1823, e pouco mais de um mês depois acontecia em Portugal a Vilafrancada e o restabelecimento do absolutismo”. In MANIQUE, António Pedro – Portugal e as Potências Europeias (1807-1847). Lisboa: Liv. Horizonte, 1988, p. 57.

[11] Em 1916, o Cónego J. Augusto Ferreira, correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e da Real Academia Galega da Corunha, afirmava o seguinte sobre estas alterações políticas: “A obra da restauração absolutista concluia-se em 31 de maio de 1823, e de Villa Franca de Xira D. João VI aboliu a Constituição, enviando-a para o mesmo logar, que as Cortes haviam antes destinado á Inquisição, o lixo”. FERREIRA, J. Augusto, Cónego – Memórias para a Historia d’um Scisma (1832-1842). Braga: Cruz & C.ª, 1916, p. 396.

Veja-se sobre o tema SERRÃO, Joel – “Vila-Francada”. In SERRÃO, Joel (dir.) – Dicionário de História de Portugal, 1ª ed., vol. IV. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1968, pp. 306-309; VARGUES, Isabel Nobre – Insurreições e Revoltas (1801-1851). Subsídios para uma cronologia e bibliografia, Coimbra [s.n.], 1985, pp. 533-534.

Sobre a Contrarrevolução no poder e o Legitimismo veja-se, TORGAL, Luís Reis – “O Tradicionalismo Absolutista e Contra-Revolucionário e o Movimento Católico”. In MATTOSO, José (dir.) – História de Portugal, 5º vol.: O Liberalismo (1807-1890). Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, p. 230.

[12] Diário do Governo, n.º 130, 3 de junho de 1823, pp. 1037-1038.

Hallelujah de Handel

Sábado de Páscoa

Por ocasião da Páscoa de 1742 foi tocado pela primeira vez o famoso Hallelujah de Handel . George Frideric Handel compositor do período Barroco, nasceu em Halle-Saale em 23 de fevereiro de 1685, e morreu em Londres em 14 de abril de 1759.

Alegoria publicada no centenário de seu nascimento em 1784 mostrando Händel sendo coroado de louros por anjos. In Francesco Bartolozzi (1727-1815) after Giovanni Battista Cipriani (1727-1785) – National Gallery.

O Hallelujah (Aleluia) faz parte do oratório Messiah (Messias), que é a obra mais famosa do compositor alemão. É um oratório sobre a vida de Jesus Cristo, o Messias. Com 51 movimentos, que se encontram divididos em três partes:

A primeira relata as Profecias sobre o nascimento de Jesus;

A segunda relata episódios da Paixão culminando no famoso coral “Aleluia”;

A terceira parte descreve o tema da Redenção (Ressurreição).

PARTITURA. O Aleluia é a parte mais famosa d’O Messias de Händel

O Hallelujah é o 42° movimento, no final da segunda parte, e aí é demonstrado toda a alegria pela vitória do Messias sobre a morte e o pecado.

Tradução do Hallelujah de Handel:

“Aleluia!

Pois o Senhor Deus onipotente reina.

O reino deste mundo se tornou

O reino do nosso Senhor e do seu Filho

E Ele reinará para sempre e sempre.

Ao Rei dos reis eternamente e sempre

Senhor dos senhores eternamente e sempre

Rei dos reis, Senhor dos senhores

Aleluia!”

Gravura mostrando o Festival Händel no Crystal Palace, Londres, 1857

Royal Choral Society: ‘Hallelujah Chorus’ from Handel’s Messiah –