Companhia de Jesus. O Breve Regresso no Reinado de D. Miguel

28 de Abril de 2023

Olá a todos!

Hoje é um dia muito especial para mim, é o dia em que o meu livro ‘Companhia de Jesus. O breve regresso no reinado de D. Miguel é finalmente publicado.

É uma honra poder partilhar a minha pesquisa com o mundo, e que representa anos de muito trabalho e paixão pela história de Portugal. Espero que esta obra possa proporcionar uma experiência de leitura agradável e informativa.

O livro conta com o Prefácio do Prof. Doutor Miguel Corrêa Monteiro, Vice-Presidente da Academia Portuguesa da História, Professor Auxiliar com Agregação no Departamento de História e Coordenador do Mestrado em Didáctica da História, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Disponível em: https://www.amazon.es/Companhia-Jesus-Regresso-Reinado-Miguel

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VEIGA, Francisca Branco (2023), Companhia de Jesus. O Breve Regresso no Reinado de D. Miguel (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [1 de Maio de 2023].

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Nota

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Morte de D. Carlota Joaquina, Rainha Consorte de Portugal (7 JAN. 1830)

Membro da monarquia, filha de D. Carlos IV, rei de Espanha, e de D. Maria Luísa de Parma.

Carlota Joaquina Teresa Cayetana de Bourbon e Bourbon nasceu a 25 de abril de 1775, nos jardins reais de Aranjuez, em Espanha, e faleceu a 7 de janeiro de 1830, no emblemático Palácio de Queluz, em Portugal.

Com apenas 10 anos, em maio de 1785, a jovem infanta espanhola desposou o príncipe D. João, filho da rainha D. Maria I de Portugal. O destino da família alterou-se em 1788, com a morte do irmão mais velho de D. João, D. José: D. João passou a ser o herdeiro do trono, assumindo a regência em 1792 (devido à interdição materna) e, em 1816, tornou-se rei D. João VI.

Deste casamento nasceram nove filhos, entre os quais os futuros reis D. Pedro IV e D. Miguel I — figuras centrais nas guerras liberais —, e a infanta D. Isabel Maria, que exerceria a regência de Portugal. Uma linhagem que definiu o futuro da monarquia portuguesa!

A 7 de Janeiro de 1830 a rainha D. Carlota Joaquina morre no Real Paço de Queluz.

A sua morte representou uma perda de grande relevância para as forças do Absolutismo português, entre as quais a própria Companhia de Jesus, que nela reconhecia uma indómita aliada da causa religiosa e do trono.

Capela do Palácio Nacional de Queluz

As exéquias solenes, celebradas na capela do Palácio de Queluz por Fr. João de S. Boaventura, tornaram-se ocasião para consagrar publicamente a soberana enquanto heroína do Absolutismo, conforme o testemunham os discursos fúnebres então proferidos:

já não existe essa Mulher forte, Ídolo dos verdadeiros Portuguezes, Apoio da Religião, Sustentáculo do Throno. […] Seu Esposo atenuado e combatido por mil vicissitudes políticas e fraudulentas; seu Augusto Filho, caro objecto da sua ternura, perseguido, desterrado e deprimido; a Pátria em fim de Afonso e os Portugueses submersos e sempre agrilhoados por inimigos externos, domésticos e incansáveis, encontrarão sempre nesta Heroica Rainha um baluarte, um apoio, um centro comum de união para destruir e desfazer os iníquos estratagemas do refalsado Liberalismo […] Era justo pois, Augusto Rei, e Senhor Nosso, que se lhe consagrasse esta fúnebre e solene pompa, para honrar sua preciosa e imortal Memória[1]

O discurso beneditino eleva D. Carlota Joaquina a “Mulher forte” e “Ídolo dos verdadeiros Portugueses”, contrapondo-a ao “refalsado Liberalismo” — termo carregado de desprezo miguelista. A linguagem apocalíptica (“submersos e agrilhoados”) invoca imagens bíblicas de resistência, alinhando a rainha com a defesa da Religião e do Trono, num momento em que D. Miguel I buscava legitimidade contra D. Pedro IV.

A cerimónia das exéquias de D. Carlota Joaquina constitui, por isso, um paradigma do modo como a corte e os setores tradicionalistas projetavam sobre a figura régia um modelo de resistência política e religiosa, tornando-a símbolo de união e de defesa contra as ameaças do Liberalismo. As exéquias transcendem o luto: funcionam como ato performativo da corte tradicionalista, projetando Carlota como “baluarte” contra inimigos internos e externos. Tal modelo reflete a parenética franciscana ao serviço da monarquia, transformando a memória régia em ferramenta de coesão ideológica num reino em crise.

Posteriormente, o corpo foi transladado para a Igreja de São Pedro de Penaferrim, em Sintra, onde foi sepultado inicialmente, antes de transferência para o Panteão dos Braganças no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, ao lado de D. João VI.

Ao perderem a proteção ativa da rainha, os missionários Jesuítas, que se encontravam em Portugal desde 1829, tornaram-se ainda mais dependentes do favor real, num ambiente cada vez mais marcado pela incerteza institucional que antecedeu o colapso definitivo do absolutismo em Portugal em 1834.


[1] Oração fúnebre da muito alta e poderosa imperatriz e Rainha de Portugal a Senhora D. Carlota Joaquina de Bourbon, recitada a 14 de Janeiro de 1831, por Fr. João de S. Boaventura. Lisboa: Na Impressão Regia, 1831, p. 7.

Fr. João de São Boaventura (ou Fr. João de S. Boaventura, ca. 1786-?), frade beneditino, foi o autor da Oração fúnebre da muito alta e poderosa imperatriz e Rainha de Portugal a Senhora D. Carlota Joaquina de Bourbon, recitada a 14 de janeiro de 1831 — um ano após a morte da rainha, em cerimónias solenes mandadas celebrar por D. Miguel I na Real Capela do Paço de Queluz.

A oração fúnebre foi proferida nas exéquias anuais ou de trasladação em memória da rainha, exaltando-a como heroína absolutista e mãe de D. Miguel. Impressa em Lisboa (1831), circula em exemplares raros em alfarrabistas e catálogos bibliográficos, com tiragens dedicadas à corte miguelista.

Fr. João de São Boaventura era pregador beneditino, autor de outras orações fúnebres régias, como a de D. João VI (1826), alinhado com o absolutismo português. Participou ativamente em eventos contrarrevolucionários, incluindo apoio aos condenados de Coimbra em 1828.

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VEIGA, Francisca Branco (2023), Morte de D. Carlota Joaquina, Rainha Consorte de Portugal (7 JAN. 1830) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [07 de Janeiro de 2026].


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In Francisca Branco Veiga e José Subtil, Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822-1834). Ed. Autor, 2025.

Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822-1834)

Francisca Branco Veiga ; José Manuel Subtil

Mergulhe no livro de Francisca Branco Veiga e José Manuel Subtil e descubra como uma devoção mariana, entre 1822 e 1834, se tornou peça-chave na teia de poderes que uniu política, Companhia de Jesus e identidade nacional em Portugal.

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Dive into the book by Francisca Branco Veiga and José Manuel Subtil to uncover how a Marian devotion between 1822 and 1834 became a key piece in the web of powers uniting politics, the Society of Jesus, and national identity in Portugal.

            ÍNDICE

BREVES PALAVRAS AOS LEITORES…………………………………….. 9

INTRODUÇÃO…………………………………………………………………… 15

CAPÍTULO I  

O CONTEXTO DAS CRISES POLÍTICAS………………………………. 21

1. Uma monarquia quase sem rei (1786-1834)………………………. 30

2. A Regência de D. Isabel Maria (1826-1828)……………………… 37

3. As duas Regências no exílio (1829-1834)………………………….. 47

4. Das invasões francesas à revolução (1807-1820)………………… 52

5. A Vila-Francada e a Abrilada (1823-1824)…………………………. 68

6. A turbulência nas elites, mitos e fervores épicos………………. 86

CAPÍTULO II                                                                                          

A POLÍTICA, A RELIGIÃO E A TRADIÇÃO (1822 E 1834)……. 103

1. Nossa Senhora da Rocha: a “Primeira Revolucionária”….. 106

2. D. Maria Teresa, D. Maria Francisca e a causa miguelista 136

3. O Regresso dos Jesuítas: Fé, Política e Aliança Real………. 167

4. Vestes para Nossa Senhora da Rocha……………………………. 189

5. Patriarcas, Jesuítas e Nossa Senhora da Rocha: A Aliança

 Espiritual e Política no Fortalecimento do Trono e do Altar. 195

6. A Companhia de Jesus e o Culto Mariano……………………… 202

CAPÍTULO III                                   

O REINADO DE D. MIGUEL E A COMPANHIA DE JESUS…. 219

1. O Equilíbrio entre Fé e Política no Tempo de Lazer (Oeiras) 224

2. A consagração religiosa (Carnaxide)…………………………….. 232

3. As incumbências da veneração (Laveiras e Barcarena)…… 250

4. O Rei e a devoção à Senhora da Rocha…………………………. 267

5. Forte de São Julião da Barra, refúgio ou prisão?…………….. 277

6. Missão Portuguesa da Companhia de Jesus:

o fim e o princípio de uma nova Era………………………………… 318

CONCLUSÃO……………………………………………………………………. 325

ANEXOS………………………………………………………………………….. 331

1. Cronologia…………………………………………………………………. 333

2. Iconografia………………………………………………………………… 339

3. Um Olhar Fotográfico à Gruta de

Nossa Senhora da Conceição da Rocha……………………………. 357

4. Catálogo dos Padres e Irmãos da MissãoPortuguesa da

Companhia de Jesus, entre 1829 e 1834…………………………….. 359

FONTES E BIBLIOGRAFIA……………………………………………….. 361

ÍNDICE REMISSIVO…………………………………………………………. 393

POSFÁCIO 

Maria Teresa Mónica…………………………………………………………….. 399

NOTAS BIOGRÁFICAS……………………………………………………… 411

INTRODUÇÃO

A história política e institucional de Portugal, entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX (1755–1834), foi marcada por profundas convulsões: o terramoto de 1755, atentado régio, mudanças na condução da Coroa, guerras europeias, invasões, revoluções, contrarrevoluções, violentas disputas ideológicas e uma guerra civil devastadora entre absolutistas e liberais.

Neste contexto, a religião assumiu um papel central, quer como elemento de identidade social e instrumento de legitimação do poder, quer como polo de crítica política, na medida em que resistia e condicionava a transformação do regime.

Este livro propõe-se analisar estas dinâmicas, focando-se na interseção entre política, fé e tradição, com especial destaque para a veneração de Nossa Senhora da Rocha e o papel da Companhia de Jesus no fortalecimento do absolutismo, particularmente durante o reinado de D. Miguel.

A primeira parte do estudo recenseia e examina o período de crise que marcou a transição da monarquia portuguesa entre 1786 e 1834. Trata-se de uma fase marcada pela fragilidade e instabilidade sucessória, desde o afastamento da Rainha D. Maria I até à morte de D. João VI, passando por sucessivas regências e pela complexa conjuntura resultante da transferência da Corte para o Rio de Janeiro e posterior regresso ao Reino, após a revolução que reclamava uma monarquia constitucional.

Se a fugaz regência de D. Isabel Maria (1826-1828), após a morte de D. João VI, procurou gerir este vazio de poder, o certo é que foi incapaz de impedir a radicalização política entre absolutistas e liberais, não evitando o regresso ao poder dos absolutistas com o reinado de D. Miguel (1828-1834).

A reação dos liberais, com a criação de uma regência no exílio (1829-1834), organizaria a contestação ao governo de D. Miguel, sustentando uma resistência que levaria à Guerra civil. E, no contexto europeu, as intervenções das grandes potenciais desencadeariam, também, uma frente diplomática que foi explorada por absolutistas e liberais. 

Como se verá, os episódios da Vila-Francada e da Abrilada (1823-1824) foram centrais por demonstrarem como o regresso ao absolutismo gerou reações imediatas, expondo as divisões nas elites políticas e militares e fomentando mitos e discursos épicos que fortaleceram diferentes fações e alimentaram o fervor político, tornando evidente que as lutas pelo poder não eram apenas militares, mas também políticas, simbólicas e ideológicas.

Neste ambiente político e cultural, a fação miguelista adotou uma forte adesão a convicções religiosas, utilizando a fé para combater os “pedreiros livres”, acusados de paganismo e de ameaçar os valores cristãos e nacionalistas.

Justifica-se, assim, nesta primeira parte do livro, uma inventariação dos fatores que causaram a persistente crise política, militar, religiosa e social para entendermos a real inclusão do fenómeno da devoção a Nossa Senhora da Rocha como recurso religioso na luta antiliberal.

O argumento principal da obra desenvolve-se em torno do papel da religião como fator de legitimação do poder político e de resistência ideológica nos confrontos entre absolutistas e liberais. A devoção a Nossa Senhora da Rocha assume-se como um fenómeno central, sendo interpretada por muitos como uma manifestação do apoio divino à causa miguelista. Por esta razão, Nossa Senhora da Rocha é aqui apresentada como a “Primeira Revolucionária”, uma figura que inspirava lealdade e compromisso num período de profunda incerteza.

Neste âmbito, destacam-se as ações de D. Maria Teresa e D. Maria Francisca, figuras femininas influentes que desempenharam um papel crucial na defesa do trono e do altar. Paralelamente, o regresso dos Jesuítas a Portugal representou não apenas uma reabilitação da Ordem religiosa, mas também uma tentativa de reforçar a aliança entre fé e política, num esforço para consolidar o poder absolutista.

A simbologia religiosa materializou-se ainda na elaboração de vestes para Nossa Senhora da Rocha, um gesto que transcendia o ato de veneração e assumia um significado político. O apoio da hierarquia eclesiástica a D. Miguel reforçou-se através da ação dos patriarcas e Jesuítas, consolidando uma aliança entre o trono e a Igreja que visava restaurar a ordem tradicional. Neste sentido, a Companhia de Jesus e o culto mariano surgiram como pilares fundamentais na construção de uma identidade absolutista sustentada pela fé.

Aborda-se o reinado de D. Miguel e o papel da Companhia de Jesus na sua política religiosa. A devoção régia manifestava-se não só em atos públicos, mas também nos momentos de lazer, como ilustram as atividades do rei em Oeiras, onde fé e política se entrelaçavam no quotidiano da corte.

A consagração religiosa, realizada em Carnaxide, território de Oeiras, representou um momento de reforço da autoridade do rei enquanto defensor da fé. A veneração a Nossa Senhora da Rocha estendeu-se a diferentes localidades, e as incumbências dos missionários Jesuítas em Laveiras e Barcarena ilustram a forma como a religião era incorporada na organização do poder político e na mobilização das populações.

O próprio rei cultivava uma relação direta com a devoção à Senhora da Rocha, utilizando a simbologia religiosa como meio de reforçar a sua posição num contexto de resistência ao liberalismo. No entanto, a sua trajetória política culminou num desfecho dramático, com a derrota do absolutismo e o seu exílio. O Forte de São Julião da Barra, onde os Jesuítas foram, por consequência do seu apoio a D. Miguel, mantidos sob vigilância antes de partir para o exílio, simboliza o fim de uma era e o triunfo do novo regime liberal.

A investigação que sustenta este livro assenta numa seleção criteriosa de fontes manuscritas e impressas, provenientes de arquivos nacionais e internacionais, que permitem uma abordagem rigorosa e multifacetada do período entre 1822 e 1834. Destacam-se, entre outros, os fundos do Arquivo Nacional Torre do Tombo, do Arquivo Municipal de Lisboa, do Arquivo Histórico Militar, do Arquivo Histórico Parlamentar, da Biblioteca Nacional de Portugal, do Museu Imperial de Petrópolis, bem como acervos da Companhia de Jesus em Portugal e no estrangeiro. A estes somam-se legislação, periódicos da época, dicionários biográficos e históricos, e obras de referência sobre a história política, religiosa e social de Portugal e do Brasil no século XIX. Esta diversidade documental permite não só reconstruir os acontecimentos e as mentalidades do tempo, como também situar o culto de Nossa Senhora da Rocha no contexto das dinâmicas políticas, religiosas e institucionais do período, conferindo à presente obra um carácter original e solidamente fundamentado, em sintonia com o “estado da arte” da investigação histórica.

Em suma, este estudo analisou como as crises políticas e sociais do século XIX moldaram a relação entre o Estado e a Igreja, evidenciando a instrumentalização da religião como meio de legitimação e sustentação de projetos de poder. A devoção a Nossa Senhora da Rocha e o papel da Companhia de Jesus emergem como elementos centrais na confrontação entre absolutistas e liberais, ilustrando a complexa interdependência entre fé, política e tradição.

Aristóteles já afirmava: «A introdução é aquilo que não pede nada antes, mas que exige algo depois». Por isso, o presente trabalho visa aprofundar a compreensão do papel da religião nas dinâmicas políticas portuguesas do início do século XIX, demonstrando que a fé ultrapassou a mera manifestação espiritual para se tornar um instrumento decisivo na disputa pelo poder e na construção da identidade nacional num período especialmente conturbado da história de Portugal.

Podemos concluir que, nas primeiras décadas do século XIX, a tríade composta por Nossa Senhora da Rocha, fé e poder assumiu um papel fulcral na definição da identidade política e religiosa da época — cabendo agora ao leitor, após a leitura, ponderar sobre as complexas interações entre estes elementos e o seu impacto na história nacional.

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Francisca Branco Veiga e José Manuel Subtil, Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822–1834) Introdução. Ed. Autor, 2025.

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Religião, Tradicionalismo, Liberalismo Português, Carlota Joaquina, Conservadorismo Religioso, Conservadorismo político, D. Miguel, rei de Portugal

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Quando os Elefantes Sustentam a Eternidade: Dos Jerónimos à Cotovia

D. Sebastião e Fernão Teles de Meneses partilham a mesma gramática simbólica nos seus túmulos: um corpo piramidal assente sobre elefantes, onde a pedra se converte em memória e a morte em narrativa de glória.

O rei que não voltou

  • D. Sebastião morreu na batalha de Alcácer Quibir, em agosto de 1578, tendo o seu corpo sido reconhecido no campo de batalha por fidalgos portugueses que juraram novamente sobre o cadáver já em Lisboa, no Convento do Carmo.
  • Entregue por Mulei Ahmed em Ceuta, em dezembro desse mesmo ano, o corpo foi depositado na Capela de Santiago, na Igreja da Trindade, antes de Filipe I ordenar, em 1582, a trasladação para a Igreja de Santa Maria de Belém, onde ainda hoje repousa numa das capelas laterais do cruzeiro.

A pirâmide de um rei

  • O túmulo de D. Sebastião, mandado executar por D. Pedro II em 1682 e atribuído a Mateus do Couto, ergue-se como uma pirâmide de mármore, rematada pela coroa e pela cruz, apoiada em dois elefantes que parecem sustentar o peso do reino perdido em África.
  • Estes elefantes, eco dos animais exóticos trazidos do Oriente, simbolizavam poder, memória e o alargamento do mundo português, levando o jovem rei “nos ombros” até à eternidade e alimentando a lenda daquele que, morto de forma tão concreta, continuou a ser esperado como Encoberto.

Túmulo de D. Sebastião (pormenor)

O fundador da Cotovia

  • Quase quarenta anos depois da morte de D. Sebastião, outro português sonhador, Fernão Teles de Meneses, investia a sua fortuna na fundação do noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus, cuja primeira pedra foi lançada em 23 de abril de 1603, ricamente ornamentada e com moedas devotas no interior.
  • Morreu a 26 de janeiro de 1605, e a sua viúva, D. Maria de Noronha, mandou erguer um mausoléu de grande aparato para a capela‑mor da nova igreja, pagando 3 000 cruzados para que os ossos do marido, guardados provisoriamente em S. Roque, tivessem morada definitiva junto ao altar.

A “cópia” jesuíta do modelo régio

  • O túmulo de Fernão Teles e de sua esposa, hoje no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, retoma quase literalmente o modelo régio de Santa Maria de Belém: uma arca lisa, de mármore rosado, encimada por estrutura piramidal e assentando em dois elefantes de mármore cinzento‑escuro, provavelmente segundo traça de Pedro Nunes Tinoco.
  • Tal como nos Jerónimos, os elefantes indianos funcionam como pedestais exóticos da santidade social do fundador, traduzindo nas regras da Companhia de Jesus – que exigiam a presença do túmulo do benfeitor na capela‑mor – a mesma gramática visual de poder, gratidão e eternidade reservada aos reis.

Túmulo de Fernão Teles de Meneses (pormenor)

Duas vidas, um mesmo pedestal

  • O rei guerreiro que morreu em Alcácer Quibir e o fidalgo que preferiu “construir” noviços para o futuro partilham assim a mesma arquitetura de eternidade: ambos sobem, em mármore, por uma escadaria piramidal para a coroa ou para o brasão, erguidos sobre elefantes que evocam os mundos descobertos e o peso da História.
  • Na capela‑mor dos Jerónimos e na antiga igreja do noviciado da Cotovia (hoje MNHNC), estes túmulos contam uma narrativa silenciosa: em Portugal, tanto a realeza como o grande fundador e mecenas da Casa de Provação jesuíta caminhavam para Deus pelos mesmos degraus de pedra, sustentados pelos mesmos animais fabulosos, como se o Império e a fé partilhassem o mesmo chão e a mesma promessa de memória sem fim.

Faz este mês de dezembro de 2025, 443 anos sobre a trasladação solene que fixou em Belém o lugar definitivo de memória de D. Sebastião, por decisão de Filipe I, rei que então unia na sua pessoa as coroas de Portugal e de Espanha.

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VEIGA, Francisca Branco (2025), Quando os Elefantes Sustentam a Eternidade: Dos Jerónimos à Cotovia (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [22 de dezembro de 2025].

In VEIGA, Francisca Branco, Noviciado da Cotovia 1619-1759 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [22 de dezembro de 2025].

O livro encontra-se disponível para aquisição em formato físico na Amazon, e convido todos a conhecerem esta parte fascinante da nossa história.

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Diogo e Luís: Um Presépio para Todos,… Todos,… Todos…

Presépio de Estremoz (Alentejo)
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Introdução

Todos os anos, quando montamos o presépio, repetimos um gesto antigo, cheio de história e significado. Mais do que figuras numa manjedoura, o presépio conta a história do Natal de uma forma simples e bonita. A sua origem remonta ao século XIII, a São Francisco de Assis, que acreditava que as coisas mais importantes se compreendem com o coração. Para conhecer esta tradição, convido-vos a ouvir a conversa de duas crianças, Diogo e Luís, que nos mostram como é fácil perceber o essencial.

(Diálogo para leitura em sala de aula ou celebração de Natal)

Narrador:
Diogo e Luís são irmãos. Estão sentados no chão, em frente ao presépio que está montado na sala da sua casa.

Diogo:
Luís, estás a ver o presépio?

Luís:
Estou. O Menino Jesus é mesmo pequenino.

Diogo:
Sabes quem fez o primeiro presépio?

Luís:
Não. Quem foi?

Diogo:
Foi São Francisco de Assis. Ele viveu há muitos anos.

Luís:
E porque é que ele fez o presépio?

Diogo:
Para mostrar às pessoas como Jesus nasceu.

Luís:
Assim era mais fácil de perceber.

Diogo:
Sim. Em vez de só ouvir, as pessoas podiam ver.

Luís:
Jesus nasceu num sítio simples.

Diogo:
Num estábulo, com a mãe, o pai e os animais.

Luís:
Sabes como o presépio foi para o Brasil?

Diogo:
Não. Como foi?

Luís:
Há muito, muito tempo, um padre jesuíta chamado José Anchieta levou o presépio e mostrou-o às crianças e aos povos que lá viviam.

Diogo:
Assim todos aprendiam a história de Jesus.

Luís:
Sim. A olhar e a ouvir.

Diogo:
Gosto disso. O presépio ajuda a aprender.

Luís:
E junta as pessoas.

Diogo:
Então o presépio é para todos.

Luís:
É. Para todos.

Narrador:
Os dois irmãos ficam a olhar para o presépio. Ali, naquela história simples, começa o Natal.

Reflexão

Olhar para o presépio não é só ver bonecos. É perceber que o Natal é feito de coisas simples, de partilha e de amor. Cada figura conta uma história e lembra-nos que há sempre lugar para todos. E quando estamos juntos, como os manos Diogo e Luís, tudo fica ainda mais bonito: aprendemos, ajudamo-nos e sentimos a alegria de estarmos unidos, tal como o presépio nos ensina.

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VEIGA, Francisca Branco (2025), Diogo e Luís: Um Presépio para Todos,… Todos,… Todos… (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [16 de dezembro de 2025].

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Apresentação do livro “Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822–1834)”

O Palácio Nacional de Queluz recebe Francisca Branco Veiga e José Manuel Subtil para o lançamento do livro Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822–1834)

No próximo dia 27 de novembro, pelas 19h00, o Palácio Nacional de Queluz acolhe a sessão de lançamento do livro Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822–1834), de Francisca Branco Veiga e José Subtil.

O livro conta ainda com um excelente posfácio da historiadora Teresa Mónica, que enriquece e aprofunda a reflexão sobre este período singular da história de Portugal.

A obra apresenta uma análise aprofundada das complexas tensões políticas e religiosas que marcaram Portugal no início do século XIX. No primeiro capítulo, o Doutor José Manuel Subtil contextualiza essas crises, desde as invasões francesas até às regências e revoluções que moldaram o panorama político da época. Já nos segundo e terceiro capítulos, da autoria da Doutora Francisca Branco Veiga, é explorado o papel central do culto mariano de Nossa Senhora da Rocha, evidenciando-o como símbolo de poder político e espiritual, associado ao miguelismo e à influência da Companhia de Jesus.

Baseado em documentação inédita, este livro convida o leitor a revisitar um período crucial da história portuguesa, revelando como fé, política e tradição se entrelaçaram durante o reinado de D. Miguel. A devoção a Nossa Senhora da Rocha surge, assim, como expressão de resistência e afirmação da identidade nacional, com ecos que perduram até aos nossos dias.

🌿 Uma oportunidade única para descobrir como devoção e identidade nacional se entrelaçaram na construção da história de Portugal, num cenário inspirador como o Palácio Nacional de Queluz.

A sessão contará com a abertura e boas-vindas do Doutor António Nunes Pereira, Diretor dos Palácios de Sintra, e com a participação dos autores, a Doutora Francisca Branco Veiga e o Doutor José Manuel Subtil.

Um agradecimento especial ao Doutor Hugo Xavier, Conservador do Palácio Nacional de Queluz, pelo acolhimento deste evento.

Detalhe artístico

A capa do livro e os separadores dos capítulos são da autoria da ilustradora e designer Rita Machado (https://ameliemoncherie.com/) , cuja criação reflete a sensibilidade histórica e simbólica da obra.

🤍 Esperamos por si nesta celebração da história, fé e cultura!

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Sobre o Palácio Nacional de Queluz

O Palácio Nacional de Queluz, atualmente sob a gestão da Parques de Sintra – Monte da Lua desde 2012, integra-se no conjunto dos mais relevantes monumentos históricos da esfera nacional. A sua construção teve início em 1747, inicialmente concebido como retiro de verão para o então futuro D. Pedro III. Posteriormente, o palácio transformou-se em residência habitual da família real portuguesa, sendo palco de significativos acontecimentos políticos e culturais.

Destaca-se, neste contexto, a permanência de D. João VI e do seu núcleo familiar antes da emigração para o Brasil, tendo a residência igualmente acolhido figuras de relevo, nomeadamente a rainha Carlota Joaquina e seu filho, D. Miguel. O edifício é reconhecido como um dos melhores exemplares da arquitetura rococó em Portugal e na Europa, integrando também elementos devidamente tipificados como barrocos e neoclássicos.

O Palácio Nacional de Queluz mantém-se, atualmente, como referência incontornável na preservação, estudo e divulgação do património histórico português. Foi classificado como Monumento Nacional em 1910 e, após ter sofrido um severo incêndio em 1934, foi exaustivamente restaurado, tendo sido aberto ao público como museu em 1940.

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Francisca Branco Veiga e José Manuel Subtil, Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822–1834). Ed. Autor, 2025.

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Joseph de Maistre e a Defesa dos Jesuítas na Rússia

Joseph de Maistre (1753-1821), pensador contrarrevolucionário e ultramontanista

Conde Joseph-Marie de Maistre (Saboia, 1 de abril de 1753 – Turim, 26 de fevereiro de 1821)
Carl Christian Vogel; 26 June 1788 – 4 March 1868)
1810

No domínio da religião, Joseph de Maistre foi um dos proponentes mais influentes do pensamento contrarrevolucionário ultramontanista no período imediatamente seguinte à Revolução Francesa. Este pensador francês é autor da célebre frase «Toute nation a le gouvernement qu’elle mérite» (“Toda a nação tem o governo que merece”), com a qual defendia a autoridade estabelecida anterior à Revolução francesa em todos os domínios: no Estado, enaltecendo a monarquia; na Igreja, enaltecendo os privilégios do papado; e no mundo, glorificando a providência divina.

A reflexão: «Toute nation a le gouvernement qu’elle mérite» (“Toda a nação tem o governo que merece”), ideia que exprimiu numa carta de 1811, reflete de forma sintética o seu pensamento filosófico e político. Apesar da sua dureza, o axioma transcende rótulos e épocas: pode ser assumido por qualquer corrente, já que põe em causa a responsabilidade coletiva de um povo pelo regime sob o qual vive, seja ele justo ou injusto, em qualquer tempo e lugar.

A sua reação à Revolução e ao Iluminismo encontra-se caracterizada, segundo o historiador José Miguel Nanni Soares, “por uma excêntrica interação entre ‘jesuitismo’, iluminismo e filosofia das Luzes”. Esta aparente contradição revela a complexidade do pensamento de Maistre e a forma como conjugou diferentes correntes intelectuais para fundamentar as suas posições políticas e religiosas.

Joseph de Maistre era igualmente um vigoroso defensor da restauração do Reino da França, que considerava uma instituição legitimada por uma inspiração divina, intrinsecamente ligada à ordem natural do mundo. Sustentava que só o retorno à velha monarquia, sustentada por valores históricos e religiosos, poderia devolver estabilidade à nação após o abalo provocado pela Revolução Francesa.

Para além do seu ultramontanismo, Maistre argumentava de modo enfático a favor da supremacia do Papa não apenas em assuntos religiosos, mas também no campo político, advogando que a autoridade pontifícia representava um último baluarte contra o caos revolucionário. Segundo o seu entendimento, apenas regimes fundados na constituição cristã — enraizada nos costumes, instituições e tradições das principais sociedades europeias, especialmente nas monarquias católicas — seriam capazes de evitar as convulsões e violências que acompanham a implementação de projetos racionalistas.

A defesa entusiasta da autoridade estabelecida, que a revolução procurava destruir, expressava-se de modo abrangente: no Estado, ao promover a monarquia; na Igreja, ao valorizar os privilégios do papado; e, em última análise, no mundo, ao exaltar a providência divina como estrutural à ordem social e política

O apoio aos jesuítas na Rússia

Durante o período da supressão da Companhia de Jesus na Europa, os jesuítas encontraram na Rússia um raro refúgio, graças à proteção concedida inicialmente pela imperatriz Catarina II e, mais tarde, pelos seus sucessores. Nesta época, foram autorizados a manter as suas obras educativas e espirituais, chegando a transformar o Colégio de Polotsk em Academia pela autorização do czar Alexandre I em 1812. 

Tadeusz Brzozowski, (21 de outubro de 1749 – 5 de fevereiro de 1820) 

O envolvimento de Maistre com a Companhia de Jesus tornou-se particularmente evidente durante a sua permanência em São Petersburgo como embaixador do Reino da Sardenha. Em outubro de 1811, o padre Tadeusz Brzozowski, novo Superior da Ordem na Rússia, solicitou ao conde Razumovsky e ao príncipe Alexander Golitsyn (superprocurador do Santo Sínodo) autorização para que a escola de Polotsk adquirisse o estatuto de universidade autónoma, tornando-se assim o centro administrativo das instituições de ensino jesuíticas.

Academia de Polotsk (Colégio Jesuíta de Polotsk). Diário de guerra, 24 de julho de 1812, aquando da passagem do exército napoleónico por Polotsk. In 1: “Vom Ausmarsch bis Moskau”. Propriedade de Christian von Martens (1793-1882).  

Para reforçar a petição dos jesuítas, Maistre endereçou em 19 de outubro uma Mémoire sur la liberté de l’enseignement public (Memória sobre a liberdade do ensino público) a Golitsyn. Neste documento, o pensador defendia a utilidade político-pedagógica dos padres jesuítas – ferrenhos opositores daqueles que pretendiam derrubar os tronos e a cristandade – e criticava o monopólio estatal do ensino público.

Este episódio ilustra bem o compromisso de Joseph de Maistre com a causa jesuítica num momento em que a Companhia de Jesus se encontrava suprimida na maior parte da Europa. A Rússia constituía então um dos poucos refúgios onde a ordem podia continuar a existir legalmente, situação que se manteria até à restauração universal da Companhia em 1814.


Referências:

MAISTRE, Joseph de – Lettre à Monsieur le Chevalier de… 15 août 1811. In Lettres et opuscules inédits : précédés d’une notice biographique, par son fils, Rodolphe de Maistre, volume I, 1851.

MAISTRE, Joseph Marie, Conde de; BLANC, Alberto, Barão (ed.) – Correspondance diplomatique, tome 2. Paris: Michel Lévy frères, 1860, p.196.

PINHO, Arnaldo – “Portugal no contexto Eclesial Europeu, por alturas de 1820 a 1850”. In Catolicismo e liberalismo em Portugal: (1820-1850). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2009, p. 619.

SOARES, José Miguel Nanni – Considérations sur la France de Joseph de Maistre, Revisão (historiográfica) e Tradução, Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009, pp. 5 e 79-80.

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VEIGA, Francisca Branco (2025), Joseph de Maistre e a Defesa dos Jesuítas na Rússia (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [26 de outubro de 2025].

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O 5 de Outubro de 1910 e as Reações Contra as Ordens Religiosas

Litografia colorida, da autoria de Cândido da Silva (?) alusiva à revolução que deflagrou na noite de 3 de Outubro de 1910, em Lisboa, e que conduziu à proclamação da República Portuguesa 

A monarquia portuguesa manteve-se em vigor até Outubro de 1910, tendo como último soberano D. Manuel II, que subira ao trono em 1908, na sequência do regicídio que vitimou o seu pai, D. Carlos I, e o seu irmão, o Príncipe Real D. Luís Filipe.

No dia 4 de Outubro de 1910, perante as movimentações militares e populares que indicavam a iminente implantação da República, e num contexto de forte instabilidade política e social em Lisboa, o monarca decidiu afastar-se da capital. Partiu inicialmente para Mafra, onde se encontrava parte da guarnição real, seguindo depois para a Ericeira, de onde embarcou rumo a Gibraltar. Pouco tempo depois, fixou residência em Inglaterra, país que o acolheu até ao fim da sua vida.

A partida de D. Manuel II simbolizou o término de mais de sete séculos de monarquia em Portugal e marcou o início de uma nova etapa na história nacional — a Primeira República.

“Expulsão dos jesuítas em 10 de Outubro de 1910”. Bilhete postal com ilustração satírica alusiva às políticas anti-clericais de Afonso Costa.

O gesto do retratado e a composição espacial são apropriados do óleo de Louis-Michel van Loo que retrata o Marquês de Pombal – traçando com este um paralelo nas políticas anti-clericais. Data:  1910.

A Implantação da República, a 5 de Outubro de 1910, é um dos marcos mais importantes da história contemporânea portuguesa. Porém, além da mudança de regime político, esse dia e os seguintes foram também palco de episódios de tensão entre o novo poder republicano e as instituições religiosas. Este artigo revisita esses acontecimentos e analisa o impacto das medidas que viriam a definir as novas relações entre o Estado e a Igreja em Portugal.

O contexto e os acontecimentos

Na manhã de 5 de Outubro de 1910, registaram-se vários episódios de hostilidade dirigidos a instituições religiosas, em particular à Companhia de Jesus. O colégio dos jesuítas de Campolide foi invadido, tendo sido detidos o reitor, Padre Alexandre de Faria Barros, vários professores religiosos e alguns empregados. Os detidos foram conduzidos ao quartel de Artilharia 1, onde foram identificados e posteriormente enviados para o Limoeiro. Por razões de segurança, acabaram transferidos para Caxias, acompanhados por uma multidão que assistiu ao percurso.

Em Torres Vedras, o colégio do Barro foi alvo de uma busca com o objetivo de encontrar documentos considerados comprometedores. O episódio ficou marcado por atos de desordem e vandalismo. Em Setúbal e em Vale de Rosal ocorreram igualmente invasões a residências pertencentes a religiosos, conduzidas por grupos armados. Na época, os jesuítas eram frequentemente identificados como opositores à nova ordem republicana, sendo acusados de dificultar a difusão dos ideais democráticos.

As ações prolongaram-se nos dias seguintes. O convento dos Quelhas foi revistado por populares e por elementos da cavalaria, que procuravam armas e explosivos. O convento das Trinas também foi alvo de uma invasão, tendo sido evitados incidentes de maior gravidade. Estes acontecimentos decorreram num contexto de forte tensão política e social, marcado pela transição do regime monárquico para o republicano e por um acentuado anticlericalismo em alguns setores da sociedade.

A Lei da Separação

Afonso Costa assina a Lei de Separação da Igreja e do Estado, a 20 de Abril de 1911.

A 20 de Abril de 1911, o Governo Provisório da República aprovou a Lei de Separação do Estado das Igrejas, redigida por Afonso Costa, então ministro da Justiça e dos Cultos. Publicada no Diário do Governo nº 92 do dia seguinte, a lei consolidou juridicamente a separação entre as instituições religiosas e o Estado português. Inspirada pelos princípios do laicismo e da liberdade de consciência, visava limitar a influência clerical nas esferas política, social e educativa, tanto no território continental como no ultramarino.

O 5 de Outubro de 1910 marcou, assim, não apenas a mudança de regime político em Portugal, mas também o início de uma nova fase nas relações entre o Estado e a Igreja. A partir desse momento, consolidou-se uma política laica que procurou redefinir o papel da religião na sociedade portuguesa, estabelecendo as bases de um Estado moderno e secular.

A Lei é constituída por sete capítulos:

I – Da Liberdade de consciência e de culto;

II – Das corporações e entidades encarregadas do culto;

III – Da fiscalização do culto público;

IV – Da propriedade e encargos dos edifícios;

V – Do destino dos edifícios e bens;

VI – Das pensões aos ministros da religião catholicos;

VII – Disposições geraes e transitorias

“O Século: suplemento humorístico”, 8 de dezembro de 1910.

O Decreto de 8 de Outubro de 1910 e a Expulsão das Congregações Religiosas

Poucos dias após a Implantação da República, o novo governo português iniciou um conjunto de medidas destinadas a reorganizar as relações entre o Estado e a Igreja. Entre as primeiras decisões destacou-se o decreto de 8 de Outubro de 1910, que retomou antigas leis relativas à expulsão das ordens religiosas e determinou a incorporação dos seus bens na posse do Estado.

Contexto e conteúdo do decreto

O decreto com força de lei, datado de 8 de Outubro de 1910 e emitido pelo Ministério da Justiça, estabelecia a continuação em vigor de três diplomas históricos: as leis de 3 de Setembro de 1759 e de 28 de Agosto de 1767, referentes à expulsão dos jesuítas, e a lei de 28 de Maio de 1834, que determinava o encerramento dos conventos. Ao mesmo tempo, o novo decreto revogava o de 18 de Abril de 1901, que tinha autorizado a constituição de congregações religiosas durante a Monarquia Constitucional.

Com esta medida, o governo republicano procurava reforçar a política de laicização do Estado e a separação entre as instituições religiosas e a esfera pública. Nas semanas seguintes, foram publicados vários decretos e portarias complementares que designaram comissões responsáveis por proceder ao arrolamento dos bens das congregações, à aposição de selos e à sua integração progressiva no património do Estado.

Destino dos bens e impacto imediato

O processo de arrolamento visava garantir que os bens das congregações passassem legalmente para a posse pública. No entanto, na prática, parte desse património acabou por não permanecer sob administração estatal. Alguns imóveis e propriedades foram alienados, vendidos ou transferidos para particulares, nem sempre de forma centralizada ou regulamentada.

O decreto de 8 de Outubro de 1910 representou, assim, uma das primeiras medidas estruturais do novo regime republicano, ao reafirmar a separação entre o poder civil e o religioso e ao retomar legislação de séculos anteriores, adaptando-a ao contexto político do início do século XX.

1910-10-10 – Expulsão dos jesuítas, encerramento dos conventos, congregações religiosas, colégios, etc., e os todos os seus bens declarados pertença do Estado, etc – in Diário do Governo (Decreto de 8 de Outubro de 1910)
https://www.estudosportugueses.com/uploads/1/1/3/4/113423301/1910-10-10_-_dg_-_expulsao_dos_jesu%C3%ADtas_e_encerramento_dos_conventos_etc.pdf

Conclusão

A aprovação deste decreto consolidou juridicamente a posição da República face às ordens religiosas, antecipando a Lei de Separação do Estado das Igrejas, promulgada em 1911. As medidas tomadas a partir de Outubro de 1910 definiram o rumo das políticas religiosas da Primeira República e tiveram um impacto duradouro na organização social, política e patrimonial do país.

VER, INCLUSIVE, Outono de 1910 a Companhia de Jesus foi pela terceira vez expulsa de Portugal. In https://franciscabrancoveiga.com/2024/08/06/outono-de-1910-a-companhia-de-jesus-foi-pela-terceira-vez-expulsa-de-portugal/

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Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco (2024), O 5 de Outubro de 1910 e as Reações Contra as Ordens Religiosas (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [6 de Agosto de 2024].

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Catolicismo Liberal: o papel do jornal “L’Avenir” no século XIX

O jornal L’Avenir foi fundado em 1830 por Hugues Félicité Robert de Lamennais, juntamente com Henri-Dominique Lacordaire e Charles de Montalembert.

Surgiu na França pós-revolucionária, numa época em que a Igreja Católica procurava redefinir o seu papel na sociedade, perante as mudanças políticas e sociais do período.

O jornal defendia o chamado Catolicismo Liberal, que promovia:

  • Liberdade de consciência e de imprensa;
  • Separação gradual do Estado e da Igreja;
  • Direitos civis iguais para todos os cidadãos, incluindo protestantes;
  • Uma Igreja mais aberta às ideias modernas, mantendo a fé.

L’Avenir combinava religião e política, defendendo que a fé poderia conviver com as liberdades modernas – algo muito polémico para a época.

N°100 – Lundi 24 janvier 1831.

O primeiro número do jornal, que recebeu o subtítulo Dieu et la liberté (“Deus e a liberdade”), foi publicado a 16 de outubro de 1830.

Félicité de La Mennais, sacerdote francês do século XIX, foi uma figura central do Catolicismo Liberal. Inicialmente defensor do absolutismo monárquico e da autoridade papal (ultramontanismo), acabou por se afastar do tradicional galicanismo da monarquia francesa e abraçar ideias liberais e sociais.

Após a Revolução de 1830, fundou o jornal L’Avenir, um espaço que defendia a reconciliação entre Igreja e democracia, a liberdade de ensino e a separação entre Igreja e Estado. La Mennais era conhecido pelo seu carisma, inteligência e talento literário, atraindo à sua volta discípulos, sacerdotes e leigos, incluindo Philippe Gerbet e Henri Lacordaire.

Embora fosse o diretor do jornal, La Mennais não se ocupava da gestão quotidiana, preferindo orientar os colaboradores e escrever artigos que expressavam a sua visão de uma Igreja capaz de desempenhar um papel central na construção de uma sociedade mais democrática e fraterna.

Lacordaire, vestido de dominicano, no jornal L’Avenir da jovem França

Há muito convencido da necessidade de separar o catolicismo das compromissos políticos, Charles de Montalembert sentiu-se atraído pelo programa de L’Avenir enquanto viajava pela Irlanda. Escreveu então a um amigo:

“Finalmente, abrem-se agora belos destinos para o catolicismo. Libertado para sempre da aliança com o poder, irá recuperar a sua força, liberdade e energia originais. Quanto a mim, despojado de um futuro político, decido dedicar o meu tempo e os meus estudos à defesa desta nobre causa. Se me quiserem no L’Avenir, abandono tudo.”[0]

Henri Lacordaire, defensor de uma forte aliança entre o cristianismo e a liberdade civil e religiosa, sentia-se desapontado com o clero conservador que o rodeava. Próximo do abade Gerbet, conheceu Lamennais e ficou entusiasmado com as ideias do novo jornal L’Avenir. Inicialmente planeava partir para os Estados Unidos, onde a Igreja vivia em liberdade, mas a Revolução de 1830 atrasou a sua viagem.

Ao colaborar com L’Avenir, assumiu a maioria das funções de redação durante os primeiros dois meses. Nos seus artigos, destacou-se pelo tom firme e incisivo, criticando frequentemente o governo e os bispos nomeados pelo Estado. Muitas das expressões mais marcantes do jornal eram da sua autoria.

O jornal enfrentou forte resistência dentro da Igreja Católica tradicional. As ideias ousadas e o tom vigoroso do jornal, que incluíam críticas aos bispos, geraram oposição por parte de alguns membros do clero e causaram divisões no seio dos católicos franceses. Em resposta, o episcopado francês publicou várias cartas pastorais dirigidas ao público sobre o jornal, enquanto o governo confiscou dois números apenas cinco semanas após o seu lançamento, levando Lamennais e Lacordaire a julgamento por delitos de imprensa, sendo depois ambos absolvidos.

A publicação do jornal foi suspensa a 15 de novembro de 1831, sendo definitivamente encerrada a 15 de agosto de 1832, após a publicação da encíclica do Papa Gregório XVI, Mirari vos, acerca dos Males da separação da Igreja e do Estado.

“16. Mais grato não é também à religião e ao principado civil o que se pode esperar do desejo dos que procuram separar a Igreja e o Estado, e romper a mútua concórdia do sacerdócio e do império. Sabe-se, com efeito, que os amadores da falsa liberdade temeram ante a concórdia, que sempre produziu resultados magníficos, nas coisas sagradas e civis.”[1]

Devido às imensas criticas feitas por toda a Europa, dois anos mais tarde o papa achou necessário editar outra encíclica, a Singulari Nos, criticando a resposta de Lamennais à Mirari Vos:

“Cegos, na verdade, a conduzirem outros cegos, são esses homens que inchados de orgulhosa ciência, deliram a ponto de perverter o conceito de verdade e o genuíno conceito religioso, divulgando um novo sistema, com o qual, arrastados por desenfreada mania de novidades, não procuram a verdade onde certamente se acha; e, desprezando as santas e apostólicas tradições, apegam-se a doutrinas ocas, fúteis, incertas, reprovadas pela Igreja, com as quais homens estultíssimos julgam fortalecer e sustentar  a verdade (Gregório XVI, Encíclica Singulari Nos 7 Jul. 1834)”[2].

 Segundo Lamennais, assinar uma declaração de submissão ao Papa equivaleria a reconhecer a infalibilidade individual do Papa e a considera-lo como Deus[3]. Após ter deixado a Igreja, escreve a obra Paroles d’un Croyant (1834) criando grande tumulto no seio do catolicismo, sendo condenada por Roma na Encíclica Singulari Nos, com o subtítulo Sobre os erros de Lamennais, em julho de 1834.

L’Avenir de Lamennais não era apenas um periódico: foi um instrumento simbólico do debate entre tradição e modernidade dentro do Catolicismo no século XIX.

XXXXX

[0] Lettre de Charles de Montalembert à Gustave Lemarcis,  10 septembre 1830, in Lecanuet, R.P. E., Charles de Montalembert: Journal intime inédit, vol. I, Paris, de Gigord, 1895-1901, p. 133.

[1] Gregório XVI – Carta Encíclica MIRARI VOS, 14 de agosto de 1832, sobre os principais erros, ponto 16: Males da separação da Igreja e do Estado. PAPAL ENCYCLICALS, [Consultado 26 jul. 2012]. Disponível na internet em: <http://www.papalencyclicals.net/Greg16/g16mirar.htm&gt;.

[2] Carta Encíclica Pascendi Dominici Gregis, do Sumo Pontífice Pio X Aos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e Outros Ordinários em Paz e Comunhão com a Sé Apostólica sobre as Doutrinas Modernistas. [Consultado 18 set. 2011]. Disponível na internet em: http://www.vatican.va/holy_father/pius_x/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_19070908_pascendi-dominici-gregis_po.html

[3] CONSTANTIN, C. – “Libéralisme Catholique”. In VACANT, A.; MANGENOT, E.; AMANN, E. – Dictionnaire de Théologie Catholique, vol. IX. Paris: Letouzey et Ané, 1926, pp. 2495-2497. Sobre a ideia geral, origens e história do liberalismo católico na Europa, veja-se inclusive, VACANT, A.; MANGENOT, E.; AMANN, E. – Dictionnaire de théologie catholique: contenant l’exposé des doctrines de la théologie catholique leurs preuves et leur histoire, vol I. Paris: Letouzey et Ané, 1903, pp. 506-630.

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, L’Avenir: O Jornal do Catolicismo Liberal no Século XIX (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [30 de agosto de 2025].

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VEIGA, Francisca Branco, A Restauração da Companhia de Jesus em Portugal 1828-1834. O breve regresso no reinado de D. Miguel. Tese especialmente elaborada para obtenção do grau de Doutor em História, na especialidade de História Contemporânea, FLUL, 2019.

Tradição e Resistência: A Força do Tradicionalismo Contrarrevolucionário Pós-Revolução Francesa

Não surgimos, pois, de improviso,

desbaratando os ídolos com a intrepidez da nossa convicção.

Para trás, ao longo das caminhadas ásperas de Portugal,

bastantes espíritos nos anunciaram,

numa anciã dolorida de perscrutarem as incertezas do futuro.”

António Sardinha, Na Feira dos Mitos[1]

Foi após a Revolução Francesa que se começou a estruturar o movimento tradicionalista e contrarrevolucionário, como resposta firme às ideias liberais e maçónicas que então ganhavam terreno. No Congresso de Viena, procurou-se o retorno à velha ordem, e Friedrich Carl von Savigny destacou-se como um dos principais responsáveis pela afirmação da Tradição e da sacralidade do passado.

Luís Reis Torgal define este movimento como um conservadorismo absoluto que visa preservar uma ordem política historicamente estabelecida, contra o impulso inovador do liberalismo, defendendo o absolutismo régio, a hierarquia social tradicional, o catolicismo integral e uma cultura ortodoxa alinhada com os princípios da Igreja [2].

Para os contrarrevolucionários, havia uma clara distinção entre as sociedades naturalmente formadas e estabilizadas pela História e aquelas implantadas abruptamente por “artifícios”. Na viragem para o século XIX, surgem pensadores que reagem às doutrinas iluministas – o cientificismo, o racionalismo, o ateísmo e o progressismo –, as quais procuravam derrubar as instituições tradicionais do Antigo Regime. Em contraponto, exalavam a tradição e o passado como garantias da conservação política e social, com a religião e a Igreja tradicionais no centro dessa promessa de estabilidade.

O historiador Eric Hobsbawm sintetiza esta visão afirmando que a crítica contrarrevolucionária ao liberalismo se baseava na defesa da ordem social contra o que consideravam uma anarquia competitiva destruidora das comunidades essenciais à vida humana[3] .

Um dos expoentes desta corrente foi Edmund Burke (1729-1797), considerado o fundador do conservadorismo moderno. Parlamentar pelo Partido Whig na Grã-Bretanha, Burke criticou severamente os excessos da Revolução Francesa na obra Reflections on the Revolution in France (1790). Para ele, a história representa um património acumulado de tradições, moral e prudência, e não meras construções intelectuais abstratas. Burke preferia a ordem sustentada pela paixão humana e pelo costume, rejeitando o racionalismo iluminista como fundamento da política [4].

Na defesa do binómio Trono e Altar, destacou-se ainda o padre jesuíta Augustin Barruel (1741-1820), que denunciou a Maçonaria como conspiradora da Revolução Francesa e dos seus desígnios anticlericais e contrários ao absolutismo tradicional. A Revolução Francesa levou-o a procurar refugiu na Grã-Bretanha. Aí, ele escreveu, como contrarrevolucionário, crítico do jacobinismo e da Maçonaria, Histoire du clergé pendant la Révolution française (1793), dedicando o trabalho à nação inglesa, como reconhecimento da hospitalidade que ela havia mostrado para com os eclesiásticos franceses.

Escreveu também Mémoires pour servir à l’Histoire du Jacobinisme, em5 volumes (1800), denunciando a Maçonaria como responsável pela Revolução. O Abade de Barruel está, deste modo, ligado à política absolutista, identificando a estrutura das sociedades secretas como uma afronta aos princípios políticos do Antigo Regime.

Barruel exerceu grande influência em Portugal, onde as suas obras serviram de arma intelectual contra as ideias liberais e maçonas até 1834, como foi o caso do Arcebispo de Évora, Fr. Fortunato de São Boaventura e do galego Padre Buela[5].

Paralelamente, figuras como Joseph de Maistre (1753-1821) e Louis de Bonald (1754-1840), afirmaram uma conceção política estruturalmente religiosa, defendendo a indissociabilidade entre fé católica, autoridade régia e ordem social hierárquica. Maistre, com a sua célebre frase “Toute nation a le gouvernement qu’elle mérite”, reafirmou o papel sagrado do papado e a providência divina como sustentáculos da ordem europeia restaurada[6] .

Outros nomes como Lamennais (1782-1854) no domínio da filosofia, Ferdinand Eckstein (1790-1861) na história, ou o teorético conde de Ferrand (1751-1825), defensor do retorno à constituição tradicional da França, e o visconde de Chateaubriand (1768-1848), autor de Le Génie du Christianisme (1802), compuseram o coro ideológico do conservadorismo católico, legitimando a resistência contra as forças revolucionárias com uma argumentação que misturava valores morais, religiosos e sócio-políticos estáticos.

Armando Malheiro da Silva lembra que,  “… o que está em jogo é o discurso ideológico (um misto complexo de valores morais e religiosos, de princípios sócio-políticos estáticos, de representações legitimadoras do ‘status quo’, de conhecimentos empíricos, etc.) fabricado para o combate imediatista e sem tréguas contra as ‘noções destrutivas’ do filosofismo, do maçonismo, do revolucionarismo…”[7].

Este vasto conjunto de pensadores e movimentos serviu de alicerce intelectual ao tradicionalismo contrarrevolucionário que moldou a Europa pós-Revolução Francesa, sustentando a defesa da monarquia católica, da autoridade pontifícia e dos privilégios da aristocracia e da Igreja.

XXXX

[1] SARDINHA, António – Na feira dos mitos: ideias & factos, p. 30.

[2] TORGAL, Luís Reis – “O Tradicionalismo Absolutista e Contra-Revolucionário e o Movimento Católico”, p. 228.

[3] HOBSBAWM, Eric J. – A Era das Revoluções, p. 248.

[4] BURKE, Edmund; MOREIRA, Ivone (trad.) – Reflexões sobre a Revolução em França, 2015.

[5] LOUSADA, Maria Alexandre; FERREIRA, M. de Fátima Sá e Mello – D. Miguel, p. 170.

[6] MAISTRE, Joseph Marie, Conde de; BLANC, Alberto, Barão (ed.) – Correspondance diplomatique, tome 2. Paris: Michel Lévy frères, 1860, p.196.

[7] SILVA, Armando Barreiros Malheiro da – Miguelismo: ideologia e mito, p. 7.

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, Tradição e Resistência: A Força do Tradicionalismo Contrarrevolucionário Pós-Revolução Francesa (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [20 de agosto de 2025].

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VEIGA, Francisca Branco, Companhia de Jesus. O Breve Regresso no Reinado de D. Miguel. Ed. Autor, 2023, 437 p. (Livro disponível na Amazon.es)

As pinturas relativas ao ciclo da vida de Santo Inácio que ligam o Noviciado da Cotovia à Igreja de São Roque

Em Lisboa, no Largo Trindade Coelho, ergue-se a Igreja de São Roque, antiga Casa Professa da Companhia de Jesus, onde os Jesuítas exerceram a sua missão durante mais de dois séculos, até à sua expulsão de Portugal, em 1759. Esta foi a primeira igreja jesuíta em território português e uma das primeiras em todo o mundo.

No ambiente singular da sacristia da Igreja de São Roque, encontram-se catorze pinturas que narram a envolvente história do Ciclo da Vida de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus.

Estas obras têm por base as gravuras da obra Vita Beattii Patris Ignatii Loyolae Religionis Societatis Iesu Fundatoris ad Vivum Expressa ex ea quam, da autoria do padre jesuíta Pedro de Ribadeneira, publicada em 1610, em Antuérpia, por Cornelis Galle. A edição inclui dezasseis buris produzidos por Cornelis e Theodore Galle, bem como por Adrien e Johann Collaert e Charles de Mallery.

De acordo com diversos historiadores de arte, seis destas pinturas poderão ser atribuídas a Domingos da Cunha, conhecido como o Cabrinha, artista jesuíta com obra reconhecida. Apresentam semelhanças compositivas e técnicas que sugerem terem sido reaproveitadas para São Roque, ou então executadas especificamente do antigo Noviciado da Cotovia. Apesar das dúvidas e críticas que persistem quanto à montagem e autoria, estas telas mantêm-se como peças centrais para a compreensão da história do Noviciado e do valioso espólio jesuíta que chegou até nós — mas também da própria história da arte sacra em Portugal.

As seis obras atribuídas a Domingos da Cunha são:

  • Quadro nº 3: Santo Inácio entrega as roupas a um pobre
  • Quadro nº 4: Santo Inácio no Monte Olivete, Jerusalém
  • Quadro nº 5: O senador Trevisano descobre Santo Inácio adormecido sob as arcadas de S. Marcos, em Veneza
  • Quadro nº 9: O O Papa Paulo III aprova a Companhia de Jesus
  • Quadro nº 13: O rapto de Santo Inácio em Manresa
  • Quadro nº 14: Ao ouvir um sermão, saem raios da cabeça de Santo Inácio

Este conjunto artístico constitui um dos mais expressivos testemunhos do legado jesuíta em Portugal, unindo espiritualidade, pedagogia visual e arte barroca numa narrativa que continua a fascinar os visitantes e investigadores.

Planta da Sacristia da Igreja de São Roque. Esquema de @franciscabrancoveiga

Quadro nº3: Santo Inácio entrega as roupas a um pobre

Fotografia @franciscabrancoveiga

Quadro nº 4: Santo Inácio no Monte Olivete, Jerusalem

Fotografia @franciscabrancoveiga

Quadro n°5: O Senador Trevisano descobre Santo Inácio adormecido debaixo das arcadas de S. Marcos em Veneza.

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Quadro n°9: Paulo III aprova a Companhia de Jesus.

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Quadro n°13: O Rapto de Santo Inácio em Manresa.

Fotografia @franciscabrancoveiga

Quadro n°14: Ao ouvir um sermão, saem raios da cabeça de Santo Inácio

Fotografia @franciscabrancoveiga

Quadro: O Senador Marco António Trevisani encontra Inácio de Loyola sob as arcadas de São Marcos em Veneza

Num recente leilão de antiguidades e obras de arte moderna e contemporânea realizado em Lisboa pela Cabral Moncada Leilões, em 3 de dezembro de 2019, foi leiloado um quadro que representa O Senador Marco António Trevisani encontra Santo Inácio de Loyola a dormir sob as arcadas de São Marcos, em Veneza. De acordo com Vítor Serrão, esta obra é atribuída a Domingos da Cunha, pintor da Companhia de Jesus. Segundo Vítor Serrão, a pintura foi executada para a série destinada ao noviciado da Companhia de Jesus, por volta de 1635.

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VEIGA, Francisca Branco, O Ciclo da Vida de Santo Inácio de Loyola na Sacristia da Igreja de São Roque (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [23 de julho de 2025].

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In VEIGA, Francisca Branco, Noviciado da Cotovia 1619-1759. Ed. Autor, 2025.

Disponível em : https://www.amazon.com/Noviciado-Cotovia-1619-1759-Portuguesa-Portuguese/dp/B0F26LJL35