Magnificat de Johann Sebastian Bach

Johann Sebastian Bach nasceu em 21 de março de 1685, em Eisenach, uma pequena cidade-residência da Turíngia perto de Wartburg, localidade onde Lutero, no ano de 1521, traduziu a Bíblia para a língua alemã.

Eisenach 1685-1695

                                                        

Toda a vida de Bach foi percorrida num espaço geograficamente pequeno:

Lüneburg 1700-1702

Weimar (I) 1703-1703

Arnstadt 1703-1707

Mühlhausen 1707-1708

Weimar (II) 1708-1717

Küthen 1717-1723

Leipzig 1723-1750

Johann Sebastian Bach (1685-1750)

                            

O pai, Ambrosius Bach, era violinista e músico municipal em Eisenach, ensinou-o a tocar os instrumentos de corda, ao passo que o seu tio, Johann Christoph, excelente compositor e organista na mesma cidade, iniciava-o no órgão.

O receio da ruína social e artística levou-o cedo para a sepultura. Numa carta ao pai, Mozart comenta: “O senhor provavelmente já sabe que o Bach inglês morreu. Que pena para o mundo musical!”

Nenhum dos filhos de Bach trilhou o caminho musical preparado pelo pai. O momento era do Rococó, do estilo “galante”, “sentimental”, da melodia repleta de vibrações e acompanhada de harmonias, pontilhada aqui e ali por um prenúncio do Romantismo vindouro.

Ainda houve ocasiões festivas, como a viagem à corte de Potsdam, onde o seu filho Carl Philipp Emanuel era cravista e durante a qual Frederico II dispensou-lhe honrarias. Mas a saúde de Bach piorou. Ficou cego. Um charlatão tentou operá-lo aos olhos, mas sem solução morre em 1750.

 A grandeza da obra de Bach respira força e paz, mas contém ao mesmo tempo, sofrimento e dor, sentidos e superados.

A vida de Bach passou-se em ambientes modestos e sem grandes contactos com o mundo exterior. Quase nada se sabe de sua personalidade; devoção luterana, que combina com apreço aos prazeres do mundo. Foi um bom pai de família (14 filhos, de dois casamentos), funcionário pontual e com uma personalidade forte, sempre discutindo com os seus superiores. Homem culto, mas inteiramente dedicado à sua enorme produção de obras.

 Anna Magdalena, a segunda esposa de Bach, expressou desta forma o seu sentimento sobre a obra criativa do seu marido : “Tal música não existia no mundo antes de ele a ter escrito”.

Entre as suas peças mais conhecidas estão os Concertos de Brandenburgo, o Cravo Bem-Temperado, as Sonatas e Partitas para violino solo, a Missa em Si Menor, a Tocata e Fuga em Ré Menor, a Paixão segundo São Mateus, a Arte da Fuga e várias cantatas como é o caso do coral Jesus Bleibet Meine Freude (tradução livre: Jesus permanece minha alegria).

Contexto histórico

A melodia coral era a música popular vigente na Alemanha luterana dos séculos XVII e XVIII, período em que a atividade cultural se desenvolveu amplamente.

A arte sacra de Bach (Eisenach, 21 de março de 1685 – Leipzig, 28 de julho de 1750) apresenta um carácter profundamente confessional, cantada para a Glória de Deus.

O estilo barroco, que se consolida na obra de Vivaldi, atinge seu apogeu com Bach. Mestre da arte do contraponto, ele experimentou todas as formas de música misturando vozes com instrumentos como o cravo, o violino e o órgão.

Bach trouxe à tona o majestoso estilo polifónico do período do Renascimento. As suas composições falam de ambientes muito particulares como o Natal, a Páscoa, a Quaresma, o Advento, a festa da Reforma ou o Dia de Ação de Graças.

Há semelhança de outros compositores do Barroco Bach empregou a técnica do baixo contínuo – a sua música de câmara e a sua arte vocal envolvem esse tipo de escrita, que liberta a melodia solista e permite ao canto alçar vôos.

Com a morte de Johann Sebastian Bach em 1750, os estudiosos de música marcaram o fim da idade Barroca.

 Sistema de numeração BWV

O registo das obras de Bach foi elaborado por Wolfgang Schmieder e é conhecido pelas siglas “BWV”, que significam Bach Werke Verzeichnis – Catálogo de Obras de Bach. O catálogo foi publicado em 1950 e os números BWV por vezes são chamados como números de Schmieder. Uma variante desse sistema usa S no lugar de BWV, significando Schmieder.

Está organizado tematicamente  da seguinte forma:

BWV 1-222 são as cantatas.

BWV 225-248 obram corais feitas em larga escala.

BWV 250-524 corais e canções sacras.

BWV 525-748 obras para órgão.

BWV 772-994 obras para instrumentos de teclado.

BWV 1001-1040 música de câmara.

 BWV 995-1000 música para alaúde.

BWV 1041-1071 música orquestral.

BWV 1072-1126 cânones e fugas.

Magnificat


Magnificat
Compositor: Johann Sebastian Bach
Formato: Sacred / Mass
Chave: D Major
Instrumento: Choir and Orchestra

O quadro é referente à história do nascimento de Jesus. Isabel, a antes estéril esposa do sacerdote Zacarias, está no sexto mês de gravidez de João Batista. Maria, que como Zacarias havia igualmente recebido o anjo Gabriel, está grávida de Jesus e resolve ir à Judá visitar Isabel, sua prima, pois o anjo também lhe anunciara sobre a sua gravidez.

Logo que Maria chegou e Isabel ouviu sua saudação, a criança estremeceu de alegria em seu ventre e ela, tomada pelo Espírito Santo, exclamou: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre.”

Foi neste momento que Maria entoou o Magnificat, um cântico que tem grandes semelhanças com o de Ana (1 Sm2, 1 – 10) e com outras passagens do Antigo Testamento. O seu principal tema é a glorificação a Deus e em segundo plano o socorro aos pobres e oprimidos, a eleição de Israel por Deus e a promessa feita a Abraão.

Este é o texto registado pelo evangelista Lucas:

I. “A minha alma engrandece o Senhor

II. e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador,

III. porque olhou para a humilhação de sua serva.

IV. Sim, doravante as gerações todas me chamarão bem-aventurada,

V. pois o Todo-Poderoso fez grandes coisas por mim. O seu nome é santo

VI. e a sua misericórdia perdura de geração em geração para aqueles que o temem

VII. Agiu com a força de seu braço, dispersou os homens de coração orgulhoso

VIII. Depôs os poderosos de seus tronos e a humildes exaltou.

IX. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.

X. Socorreu Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia

XI. conforme prometera a nossos pais – em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre!”.

BWV 243 a (versão em Mi bemol maior)

Foi estreado na celebração de Vésperas do Natal (Festa da Visitação) a 2 de junho de 1723, o primeiro Natal que Bach passou em Leipzig, e constituiu, de certa forma, uma prova de aptidão musical do novo chantre da Igreja de S. Tomás e diretor musical da cidade, então uma cidade comercial próspera com uma intensa vida no plano cultural. Mas o evento marcou também, nesse contexto, a confissão pública de um cristão que viria a pôr todo o seu conhecimento da arte musical ao serviço da fé. É deste período um impressionante acervo de cantatas e de obras para órgão que chegou ao nosso conhecimento, compostas ao ritmo semanal para o culto luterano, e que fundamentam o reconhecimento generalizado de Bach como um teólogo em música.

Magnificat em E-flat Major – Mi bemol maior (1723)

1. Coro (S1, S2, A, T, B)

A minha alma glorifica o Senhor

2. Ária (S2)

e o meu espírito se alegra em Deus,
meu Salvador.

3. Ária (S1)

Porque pôs os olhos na humildade da  sua serva:                                                                                                          de hoje em diante me chamarão bem-aventurada

4. Coro (S1, S2, A, T, B)

 todas as gerações

5. Ária (B)

O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas: Santo é o seu nome

6. Ária (A, T)

A sua misericórdia se estende de geração em
geração sobre aqueles que O temem

7. Coro (S1, S2, A, T, B)

Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos.

8. Ária (T)

Derrubou os poderosos de seus tronos e
exaltou os humildes.

9. Ária (A)

Aos famintos encheu de bens e aos ricos
despediu de mãos vazias.

10. Ária (S1, S2, A)

Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da
misericórdia,

11. Coro (S1, S2, A, T, B)

12. Coro (S1, S2, A, T, B)

Glória ao Pai e ao Filho
ao Espírito Santo.

Como era no princípio, agora e sempre.                                                                                      Ámen.

Continha 4 interpolações cantadas por semi-coros separados e provavelmente acompanhados por ação dramática:

Após 2: Coro (S1, S2, A, T, B)

A 1ª das interpolações é um coro “Vom Himmel hoch” idêntico em estilo ao “Suscepit Israel” e conta a visita dos anjos aos pastores (anunciação do nascimento de Jesus aos pastores).

Após 5: Coro (S1, S2, A, T, B)

A 2ª das interpolações “Freut euch und jubiliert” similares em ideia ao”Sicut locutus est”, proclama a mensagem do anjo (continuação do tema anterior).

Após 7: Coro (S1, S2, A, T, B)

A 3ª das interpolações representa um conjunto de anjos a cantar “ Gloria in excelsis Deo” em modo festivo como a maior parte dos outros coros (canto dos anjos).

Após 9: Ária (S1, B)

Por fim, Maria e José cantam no nascimento do Salvador “Virga Jesse floruit” com similar tom de felicidade do “Et Exultavit” (canção de embalar na gruta de Belém).

Os textos foram anteriormente usados numa cantata de Natal por Johann Kuhnau durante o seu período como cantor na igreja de St. Thomas (Leipzig).

BWV 243 (versão em Ré Maior)

Foi feita uma primeira revisão da BWV 243ª em Leipzig, entre 1728-1731 e uma 2ª alteração entre 1732-1735.

As 4 interpolações de Natal foram omitidas nesta versão porque lhe foi imposto um tempo limite de 30 minutos para ser ouvida.

O texto do Magnificat foi extraído do 1º capítulo do Evangelho de S. Lucas, versículos 46 a 55. Estamos em presença de uma obra para coro a cinco vozes e orquestra, com três conjuntos ária-coro que o primeiro e o último andamento, os coros mais jubilosos, emolduram transmitindo-nos uma dimensão equilibrada e uma clareza na mensagem, que se desenvolve em crescendo.

A versão BWV 243 mudou a tonalidade original para ré maior, muito mais adequada aos trompetes. O cantus firmus, “Minha alma engrandece o Senhor”, é ouvido mais facilmente quando tocado num trompete. As violas adicionam mais força ao obbligato em “Derrubou os poderosos de seus tronos”. Em “Acolheu a Israel,”, os violinos e violas em uníssono criam uma textura muito mais limpa.

Com os 10 versos bíblicos, Bach criou 12 secções musicais:

  • O centro encontra-se em “Fecit potentiam” – Manifestou o poder…
  • 2 secções exteriores em “Magnificat anima mea” e “Gloria Patri” – A minha alma glorifica o Senhor e Glória ao Pai…-  para coros completos de 5 partes com um grande grupo orquestral que inclui trompete.
  • Movimentos internos alternam entre árias a solo (um para cada alto, tenor e baixo e 2 para soprano) com secções de coro e dueto.
J.S. Bach – Magnificat (BWV 243).
No. 1 “Magnificat anima mea”
La Capilla Real de Madrid

O azulejista português Policarpo de Oliveira Bernardes e a capela de Nª Sª de Porto Salvo, em Oeiras

Porto Salvo (N.ª S.ª do Porto Salvo)

Concelho                               Oeiras

  Área                                  7,10 km²

População                             15 157 hab. (2011)  

A freguesia de Porto Salvo foi oficialmente criada em 11 de Junho de 1993, por desmembramento das freguesias de Barcarena, Oeiras e São Julião da Barra. Foi elevada a vila em 12 de Julho de 2001.

Tem por orago Nossa Senhora de Porto Salvo.

Porto Salvo deve o seu nome à ermida construída no século XVI no Outeiro de Caspolima.
A construção da ermida, por volta de 1530, resulta em cumprimento de uma promessa de mareantes da carreira das Índias que, ao regressarem, se viram em grande perigo e prometeram a Nossa Senhora que se chegassem sãos e salvos a Portugal lhe dedicariam um lugar de culto, no primeiro lugar alto que avistassem ao chegarem. A súplica foi ouvida e a bonança permaneceu até à vista do estuário do Tejo, com feliz sucesso.


O rei D. João III cedeu-lhes a baldio identificado no reguengo de Oeiras, para construção da Ermida, que desde logo se tornou lugar de devoção e de romaria na grande festa da Senhora de Porto Salvo que durava dois dias, e foi celebrada desde sempre a 25 e 26 de julho, dias do Apóstolo São Tiago e Santa Ana.

Em 1670 foi demolida a antiga e «pequenina» ermida e iniciada a atual capela, que terá ficado concluída em 1694.

Até ao século XIX era saudada com salvas de 21 tiros pelos barcos que chegavam ao Tejo.

Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, Oeiras
Fotografia: Francisca Branco Veiga

Os Azulejos da Capela de Porto Salvo

O último quartel do século XVII até cerca de 1750 é a época do apogeu do azulejo português, a do Ciclo dos Mestres e da Grande Produção, rica em grandes cenas sagradas e profanas, apresentadas com grandes molduras cenográficas desenhadas especificamente para os espaços, e executadas exclusivamente em pintura a azul e branco.

Segundo José Meco, no seu livro Azulejaria Portuguesa,

«Bastante expressiva no seu ingénuo encanto, estas obras apresentam uma pintura pouco contrastada, de grande eficácia na mobilidade do desenho e na economia dos meios utilizados na sugestão de sombras e volumes… À simplificação das partes historiadas correspondeu uma acentuação decorativa na concepção dos conjuntos e dos enquadramentos, através da crescente extroversão e popularização dos elementos, com o recorte interno do emolduramento e o remate superior dos painéis a abandonarem a linearidade, adquirindo concepção teatral e tornando-se progressivamente a parte fulcral das composições. A evolução destas características acentuou-se na chamada «grande produção joanina», realizadas por artistas formados na escola de António de Oliveira Bernardes…» [1]

Os azulejos da capela de Nossa Senhora de Porto Salvo têm merecido mais atenção que os restantes valores artísticos da igreja. Existem duas campanhas azulejar, bem distintas: a de 1734, nos silhares da capela-mor. Esta obra de azulejo foi feita pelos devotos de Lisboa, com notáveis composições barrocas a enquadrarem Ladainhas da Virgem, realizadas pela oficina de Bartolomeu Antunes e de Nicolau de Freitas, e a de 1740, na frontaria da ermida, também esta obra mandada fazer pelos devotos de Lisboa a Policarpo de Oliveira Bernardes, que compreende a decoração desta frontaria, com dois Milagres de Nossa Senhora de Porto Salvo, legendados, estando a parte historiada de um deles há muito perdida e o conjunto de painéis da nave, com Cenas da vida de Cristo, bem como a composição por baixo do púlpito feita pelo mestre azulejador João Guilherme Roiz.

Assim a Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo tem:

  • Na fachada, dois painéis de azulejos de Policarpo de Oliveira Bernardes, datados de 1740, muito danificados, estando um deles praticamente destruído; estão sobre as janelas que ladeiam a porta, debaixo do alpendre. Compõem-se de sete fiadas de treze azulejos pintados a azul-cobalto a aguadas, sobre esmalte estanífero, representando milagres atribuídos a Nossa Senhora;
  • Na nave da mesma capela e revestindo as paredes até meia altura, são de autoria de Policarpo de Oliveira Bernardes, de grande qualidade e representando cenas da infância de Jesus, formando, de cada lado, um painel único. O do lado do evangelho, o esquerdo, vai da parede fundeira até ao púlpito, num total de 54 azulejos. O do lado da epístola, o direito, termina numa porta que, segundo a legenda, foi inutilizada em 1874.
  •  Na capela-mor, azulejos datados de 1734, da oficina de Bartolomeu Antunes, fortemente ornamentados, sem figuração, com diversos símbolos marianos e adaptados a diferentes solicitações;
  • E ainda na mesma capela existem dois azulejos de finais do século XVIII, muito danificados, formando um registo, classificado de “gracioso”, aplicado sobre uma caixa de esmolas, embutida numa parede exterior.
Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, Oeiras (interior)
Fotografia: Francisca Branco Veiga


O azulejista português Policarpo de Oliveira Bernardes

Assinatura de Policarpo de Oliveira Bernardes

Policarpo de Oliveira Bernardes, filho e discípulo de António de Oliveira Bernardes, pertenceu ao chamado ciclo dos mestres da produção azulejar portuguesa.

Nascido em 1695, Policarpo faleceu em 1778, o seu último trabalho documentado foi a decoração da frontaria e do corpo da nave da ermida de Porto Salvo. Evidenciou-se bastante cedo como pintor autónomo. As suas obras assinadas não vão além de 1740, mas a sua reputação e importância têm levado a considerá-lo um dos mais importantes mestres da segunda metade do Reinado de D. João V. Talvez, baseando-se nisso, muitas obras essenciais da época lhe têm sido atribuídas.

Embora sem a eloquência da pintura do pai, que Policarpo absorveu com inteligência, a sua obra revela uma formação muito cuidada e uma personalidade bastante vincada e criativa, associada a uma notável capacidade como pintor. Esta capacidade está bem patente nos painéis historiados, cujo espaço se encontra magnificamente construído, assim como nas figuras, de volumetria acentuada pelas pinceladas cruzadas, que Policarpo favoreceu, e representadas com agudeza psicológica.

As obras fundamentais de Policarpo são a decoração de uma capela da igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, o monumental e deslumbrante revestimento integral da igreja de São Lourenço, em Almansil (Loulé), de 1730, o da capela do Forte de São Filipe, em Setúbal, de 1736, e o de Porto Salvo, de 1740, já referido.

A sua obra de uma naturalidade, de uma força expressiva e de uma perfeição encantadora em todos os seus aspetos faz-se evidenciar na riqueza iconográfica dos azulejos da Capela de Porto Salvo.

O tipo de temática pertence ao grupo dos Painéis historiados (painéis descritivos representando um determinado acontecimento ou cena histórica, religiosa, mitológica ou do quotidiano), onde as pinturas dos azulejos narram cenas religiosas da vida de Jesus Cristo.

A obra azulejar na ermida de Porto Salvo, em Oeiras, é a última datada deste grande pintor de azulejo, sendo também, talvez até por isso, uma das mais perfeitas e inigualáveis produções saídas de suas mãos.

Os dois frisos do corpo da ermida

Policarpo de Oliveira Bernardes

Cenas da vida de Cristo

Mosaico azul e branco

Assinado Policarpo de Oliveira Bernardes

Datado de 1740

13,5 cm * 13,5 cm (cada azulejo

Do lado esquerdo da nave

A fuga para o Egito
Fotografia:Francisca Branco Veiga
Repouso durante a viagem para o Egito
Fotografia:Francisca Branco Veiga

Do lado direito da nave

A Virgem Maria trabalha, com a meada na dobadeira, enquanto o menino descansa Fotografia:Francisca Branco Veiga
São José a carpinteirar
Fotografia:Francisca Branco Veiga
Passeio da Sagrada Família (José, Maria e o Menino)
Fotografia:Francisca Branco Veiga

[1] MECO, José – Azulejaria portuguesa, Amadora: Bertrand, 1985.

Jesuítas Matemáticos Portugueses no Império da China (século XVI-XVIII)

Post comemorativo das 50 publicações do blogue

Nos séculos XV e XVI desenvolveram-se em Portugal os meios técnicos necessários que possibilitaram as grandes navegações, as quais, por sua vez, vieram a permitir progressos científicos notáveis nos mais variados domínios, com destaque para a Náutica, a Cartografia, a Construção Naval, a Medicina e a Botânica.

As viagens dos Descobrimentos obrigaram os portugueses a considerar o regime dos ventos e das correntes no Atlântico e a desenvolver a náutica astronómica, isto é, a capacidade de conhecer a posição aproximada dos navios em alto mar.

Para esse feito utilizaram-se instrumentos de observação astronómica como o quadrante e o astrolábio náuticos ou ainda a balestilha, que permitiam determinar a altura de um astro sobre o horizonte e dessa forma calcular a latitude do lugar onde se realizava a observação.

Lisboa tornou-se no centro de intercâmbio científico entre os Colégios Europeus e as missões orientais.

Quase todos os professores que passaram por Lisboa estudaram no Colégio Romano, acompanhando de perto as grandes descobertas e as grandes polémicas científicas da época.

Os mais preparados davam aulas no Colégio de Santo Antão e traziam as novidades científicas mais recentes.

Conteúdos ensinados no Colégio Santo Antão-o-Novo
Fotografia: Francisca Branco Veiga

Entrada dos Matemáticos no Império da China

Três dos Imperadores da Dinastia Qing
Imperador Kangxi
Imperador Yongzheng
Imperador Qianlong
Palácio Imperial da Dinastia Qing em Shenyang, com  114 edifícios, construídos entre 1625-26 e 1783. 

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento desse intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.

Na China, todos os nobres, incluindo os imperadores, se espantavam com as novas ideias ocidentais. Mais importante, a explicação exata da regularidade astronómica e do calendário foram algumas das eficazes ferramentas simbólicas que ajudaram o governo Qing a estabelecer o poder no país.

No dia 1 de agosto do 1º ano do reinado de Shun Zhi (1644 AD), o calendário tradicional chinês (Calendário Dai Tong) foi declarado inexato.

Adam Schall (1591 – 1666) astrónomo e matemático, fez a sugestão ao Imperador de que calculasse o calendário usando os novos instrumentos astronómicos ocidentais que foram logo feitos entrar no Palácio Qing pelo portão principal.

Retrato do jesuíta alemão Johann Adam Schall von Bell (1592–1666),
missionário na China (dinastias Ming e Qing) de 1622 até sua morte em 1666.

No ano seguinte, o governo Qing revelou ao público o “Calendário Shi Xian” que tinha sido estabelecido por Adam Schall, a quem foi atribuído o título de “Tou Xuan” (Mestre) pelo Imperador Shun Zhi.

Ferdinand Verbiest (1623 – 1688) recorreu a um quadrante, um sextante, um altazímute, um nível equatorial e outros instrumentos ocidentais, reproduzidos das ideias de Kepler, para calcular com exatidão o primeiro dia da Primavera. 

Ferdinand Verbiest foi nomeado para tratar dos assuntos do “Qin Tian Jian” (Tribunal das Matemáticas) e encarregou-se prontamente de desmantelar o Observatório Astronómico de Pequim, que incluía equipamento das anteriores dinastias Yuan e Ming, substituindo tudo por avançados instrumentos produzidos sob a sua direção.

Um retrato de Ferdinand Verbiest (9 de outubro de 1623 – 28 de janeiro de 1688),
missionário jesuíta flamengo na China durante a dinastia Qing.

Portugueses no Tribunal das Matemáticas

Observatório Astronómico de Pequim,
gravura do século XVIII

Entre 1583 e 1805, portugueses presidiram, em Pequim, ao célebre Tribunal das Matemáticas – uma espécie de Ministério do Interior encarregue de elaborar o Calendário Imperial e que empregava 150 a 200 funcionários.

Sobre a atividade científica dos portugueses em Pequim escreve Francisco Rodrigues:

“Matheus Ricci, auxiliado pela dedicação de tantos portugueses como Duarte Sande, António de Almeida, Francisco Cabral, João Soeiro, João da Rocha, Gaspar Ferreira e Manuel Dias, sénior, chegou a gozar de tamanha reputação pela sua ciência que julgava a sua permanência segura no Celeste Império.”

Menos de dois anos antes da sua morte (1610), escrevia com satisfação neste sentido:

“Sobretudo pelos mapas e livros que estampámos, da nossa Matemática e pelas muitas novidades nesta matéria, até hoje desconhecidas da China e por nós ensinadas, nos dão o maior crédito em assuntos matemáticos e nos guardam respeito extraordinário, O que porém mais os impressiona, por ser cousa nunca ouvida entre eles desde que há memória, é o terem vindo à China estrangeiros, que lhes possam ser mestres em todas as ciências com tão grande superioridade.”

Alguns portugueses Presidentes do Tribunal das Matemáticas

Gabriel de Magalhães – An Wensi, Jingming

Manuel Dias Júnior – Yang Manuo, Yenxi

Tomás Pereira – Xu Risheng, Yingong

João Francisco Cardoso – Mai Dacheng, Ershang

Félix da Rocha – Fu zoulin, Lisi

André Rodrigues – An Guoning, YongKang

O jesuíta Tomás Pereira jaz agora nos jardins da embaixada portuguesa em Pequim.
Trata-se de um desenho do relógio que Tomás Pereira fabricou para a torre de uma igreja, em Pequim.
Introduziu no interior da torre um tambor com espigões, semelhantes aos das caixas de música, que acionavam arames ligados aos badalos de um carrilhão o qual, a todas as horas, tocava músicas tradicionais chinesas.

Vários mandarins chineses aconselharam os astrónomos portugueses a adotarem o traje dos letrados chineses, pois passariam a usufruir do estatuto dos Letrados, o que reforçaria grandemente a sua posição e credibilidade tanto junto dos mandarins como junto das populações.

Traje do Astrónomo chinês em 1675

Portugal – China: Encontro de Culturas

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.

Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos. Entre eles destacamos: Padre Gabriel de Magalhães; Padre Manuel Dias Júnior; Padre Tomás Pereira; Padre João Francisco Cardoso; Padre André Pereira; Padre Domingos Pinheiro; Padre Félix da Rocha; Padre José de Espinha; Padre André Rodrigues.

Convenção de Évora Monte (26 de maio de 1834)

Na Europa dos anos 30, devido à expansão do liberalismo e nacionalismo como ideologias, renovavam-se os conceitos de liberdade e de revolução, opondo-se totalmente à restauração da Santa Aliança idealizada por Metternich e pelo czar Alexandre I, e à política representada por D. Miguel em Portugal.

Esta viragem na política europeia, iniciada com as revoluções de julho de 1830 em Paris, é consumada quatro anos depois com o Tratado da Quádrupla Aliança, assinado em Londres no dia 22 de abril de 1834.

À conjuntura política cada vez mais fortalecida por agentes externos, que pretendiam instalar no país instituições parlamentares, junta-se a ação da Maçonaria e da Imprensa escrita, ligada aos intelectuais e burgueses emigrados, no sentido da capitulação do regime miguelista.

Associado às alterações políticas externas e à falta de apoio interno, encontrámos referências à falta de competência de muitos que se encontravam junto deste rei, tornando-se um handicap em diversas questões políticas e militares. O próprio D. Miguel, no protesto de 1 de janeiro de 1836, esclarecia que, a Convenção de Évora Monte tinha sido, acima de tudo, uma capitulação militar imposta pela lei dos mais fortes.

Publicava-se no periódico Chronica Constitucional de Lisboa do dia 29 de novembro de 1833 que,

“O General Bourmont dirigiu aos seus amigos uma memoria, datada de Alcantara, onde se acha detido pelas Authoridades Hespanholas, na qual justifica a sua conducta Militar em Portugal, attribuindo todos os desastres que occorreram durante a Campanha, á inexperiencia ou desafeição dos Generaes Portuguezes (Le Temps)”[1]

Como refere António Ventura, talvez por falta de fidelidade ao rei,

 “… alguns chefes militares miguelistas contactaram em segredo os seus congéneres liberais. A 22 de Maio, o general Azevedo Lemos escreveu ao duque da Terceira, que marchava sobre Estremoz, e ao marechal Saldanha, que avançava em direcção a Évora, propondo-lhes um cessar-fogo e uma conferência, o que foi aceite. As negociações tiveram lugar em Évora Monte entre os três generais. A 26 de Maio foi assinado o documento que ficou conhecido com o nome de «Convenção de Évora Monte», que pôs fim à Guerra Civil, mas que ao qual os liberais sempre chamaram «concessão»”[2].

O testemunho do carlista Auget de St. Sylvan, barão de los Valles reflete essa mesma falta de apoio imparcial a D. Miguel, referindo que o rei se rodeava de «conselheiros pérfidos e pusilânimes». Nas suas palavras:

“O general Lemos, na qualidade de comandante em chefe do exército miguelista, recebeu o encargo de ajustar as condições daquela capitulação, e para esse fim passou ao quartel general do Duque da Terceira. O referido mandatado cedeu em tudo quanto se lhe indicou, até o despojar o seu dono do título de infante de Portugal”[3]

No periódico O Conimbricense, Joaquim Martins de Carvalho, escreve um artigo intitulado Coimbra, Reflexões Politicas, onde reflete sobre o tipo de homens que rodeavam D. Miguel. No seu ponto de vista, D. Miguel rodeava-se em geral de «homens violentos de caracter, atrabiliarios e vingativos».  Martins de Carvalho refere que,

“… D. Miguel, em vez de dar ao seu partido e ao seu exercito um caracter puramente nacional; mostrando que as capacidades do paiz estavam em grande maioria pelo seu lado, em quanto que o partido liberal precisava de recrutar regimentos no estrangeiro e fazer commandar o seu exercito por um estrangeiro; não quis deixar de praticar idêntico desatino. Para isso fez vir de França o marechal Bourmont, os generaes Clouet, Almer, Larochejaquelein, […]. Em particular Bourmont era um caracter infamado pela ignóbil traição que tinha feito a Napoleão, desertando cobardemente na véspera da batalha de Waterloo para o exercito inglez. […] e de 1832 a 1834 era uma guerra civil, em que D. Miguel devia mostrar, que só por si podia vencer o partido liberal, que havia desembarcado no Mindello apenas com 7:500 homens”[4]

A derrota miguelista na batalha da Asseiceira (16 de maio de 1834) teria desmotivado muitos oficiais levando-os ao abandono da causa absolutista. O próprio coronel dos dragões de Chaves[5], que era compadre de D. Miguel, e lhe devia muitos favores, desertou com quase todo o regimento, indo apresentar-se ao marechal Saldanha.

No dia 26 de maio de 1834, em Évora Monte, sucumbe o governo absolutista de D. Miguel.

A Convenção contém nove artigos: 1.º concede amnistia a todos os delitos políticos cometidos desde 31 de julho de 1826; 2.º permite a livre saída de Portugal a todos os amnistiados; 3.º garante aos militares os postos legalmente adquiridos; 4.º dispõe que com os funcionários civis e eclesiásticos haja a consideração que merecerem por seus serviços e qualidades; 5.º estabelece a dotação anual de 60.000$000 réis ao infante D. Miguel; 6.º permite que o infante embarque no porto que escolher com a devida segurança para a sua pessoa e comitiva; 7.º presume a obrigação de D. Miguel sair do reino no prazo de quinze dias com a declaração de não voltar mais à península; 8.º estabelece que as tropas miguelistas entregarão as armas no depósito que for indicado; 9.º dispõe que os regimentos e corpos de serviço de D. Miguel se dissolvam pacificamente.

A estes artigos foram aditados mais quatro: o1.º e 2.º direcionados às autoridades que ainda reconhecessem a autoridade do infante, para que fosse dada imediata ordem para se submeterem ao governo da rainha D. Maria II; o 3.º marcando o dia 30 para D. Miguel sair de Évora para o porto de Sines, onde devia embarcar, e por fim, o 4.º fixando o dia 31 para a entrega das armas no seminário de Évora.

Intervenientes na Convenção de Évora Monte:

António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha (1792 – 1860), 7.º Conde de Juro e Herdade, 1.º Marquês de Vila Flor e ainda 1.º Duque da Terceira; Francisco Vaz Pereira Pinto Guedes (1814 – 1835), 3.º visconde de Monte Alegre, Capitão do exército miguelista; João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun (1790 – 1876), 1.º conde, 1.º marquês e 1.º duque de Saldanha, Marechal de Campo do exército pedrista e deputado na Câmara dos Deputados;  José de Sousa Pereira de Sampaio Vaía (1790 – 1847), 2.º visconde de Santa Marta, Marechal de Campo do exército miguelista até fevereiro de 1833; D. Pedro de Sousa Holstein, 1.º Duque de Palmela, (1781 – 1850), Ministro do Reino e Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo de Regência, e Presidente do Conselho de Ministros de Portugal no I Governo da Monarquia Constitucional; Martinho Correia de Morais e Castro (1771 – 1833), 1.º visconde de Azenha, Marechal de Campo do exército miguelista até janeiro de 1832.

D. Miguel morre no exílio, em Bronnbach (Alemanha), no ano 1866, sem poder voltar a Portugal (pela Carta de Lei de 19 de dezembro de 1834, foi proibido de regressar a Portugal).

A 5 de abril de 1967, chegam a Lisboa em aviões da Força Aérea Portuguesa, os restos mortais do rei D. Miguel I e de sua esposa, a Princesa Adelaide de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg. Os despojos reais foram acolhidos em São Vicente de Fora, no Panteão da Dinastia de Bragança[1]. No 6 de abril de 1967, o periódico Diário da Manhã publicava um artigo, cujo título era Chegaram a Terra Portuguesa os Restos Mortais de D. Miguel, e que começava do seguinte modo: “DIA histórico o de ontem, em que D. Miguel 1, o mais português dos nossos Reis, regressou à Pátria que o banira, entre o respeito do povo que o vtu passar, enternecido, a caminho da sua Jazida de S. Vicente, aquela que já agora será a sua última morada até ao dia da Ressurreição dos mortos”.

Após a leitura do Evangelho, subiu ao púlpito o Padre jesuíta Domingos Maurício, que prestou uma sentida homenagem à memória de D. Miguel:  “No desterro imposto pelas contingências políticas obscureceu-se a lembrança das vossas benemerências nacionais […]. Surgiu, enfim, o momento redentor, a hora da reparação sincera, que vos reintegra no lugar que vos compete na tessitura histórica de Portugal”[a]

Fica uma breve curiosidade em relação aos restos mortais de D. Pedro.  Em março de 1972, os seus restos mortais, por decisão do Governo Português e a conselho de D. Filipa de Bragança (1905–1990), deixaram o Panteão da Dinastia de Bragança, e atravessando o Atlântico foram repousar no Monumento do Ipiranga, em São Paulo, Brasil.


[a] CUNHA, José Correia da, (P.) – “Sono Final, No Solo Pátrio… Bem Merecido Pelo Homem Rei, Como Cristão E Como Português…”. [Consultado 10 janeiro 2017]. Disponível na internet em: <http://realbeiralitoral.blogspot.pt/2012/11/ > .


[1] Chronica Constitucional de Lisboa, nº 109,de 29 de novembro de 1833, p. 4.

[2] VENTURA, António – As Guerras Liberais 1820-1834. Lisboa: QuidNovi, 2008, p. 119.

[3] VENTURA, António (selec. textos, pról. e introd.); FERREIRA, Filipe Moura (ed. lit.). – D. Miguel e o fim da guerra civil: testemunhos, p. 112 (Capítulo II – O testemunho do carlista Auget de St. Sylvan, barão de los Valles).

[4] Coimbra, Reflexões Politicas, artigo de Joaquim Martins de Carvalho. In O Conimbricense, nº 3373, de 29 de novembro de 1879, pp. 1-2.

[5] A designação de Regimento de “Dragões de Chaves” remonta a 1754, simultaneamente com a criação do Regimento de Cavalaria Ligeira de Bragança. Veja-se DRAGÕES D´ENTRE DOURO E MINHO [Consultado 12 setembro de 2016]. Disponível na Internet em: <https://www.exercito.pt/pt/quem-somos/organizacao/ceme/cft/brigint/rc6&gt;

Casa da Convenção de Évora Monte (PLACA)
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