Os azulejos da Igreja do Convento de Arroios / Convento de Nossa Senhora da Nazaré / Hospital de Arroios

Ideal e vocação da Companhia de Jesus

Educar missionários capazes de irem Além-mar, repartidos pelos quatro cantos do Mundo

Painel que acumula duas cenas, ambas passadas em Paris, também elas clássicas na iconografia inaciana (pormenor)

No sítio de Arroios fundou-se um noviciado, em 1705, da Companhia de Jesus, que tinha como padroeira Nossa Senhora da Nazaré e benfeitora D. Catarina de Bragança (filha de D. João IV), com o intuito de incentivar as vocações sacerdotais para as missões na Índia.

A partir de finais do século XIX e sob administração do Hospital Real de São José, funcionou como unidade hospitalar de isolamento para doentes com peste bubónica, cólera, varíola, lepra e tuberculose. O Hospital de Arroios foi desativado em 1993.

Armas de Portugal e de lnglatera
D. Catarina (viúva de Carlos II) benfeitora do Noviciado de Arroios

• Cartela

  primeiro, Armas de D. Carlos II, Rei de Inglaterra;

  segundo, Armas da Casa Real de Bragança

• Encimado

 Coroa Real

• Ladeando a cartela

Leão e Unicórnio escocês

A igreja data provavelmente do início do século XVIII. Mas tanto a igreja como o edifício conventual tinham a traça das casas da Companhia de Jesus, em polígono, com imagens dos Santos Padroeiros e claustro com lambrins em pedra de lioz.

A partir de 2000, a igreja ficou afeta ao culto ortodoxo (a cargo da Comunidade Ucraniana de Arroios).

Da presença da Companhia de Jesus subsiste na sua igreja um dos raros conjuntos de painéis de azulejo com iconografia jesuíta, alusiva à vida de Santo Inácio de Loyola.

A sala da antiga entrada do edifício, virada a SO., era revestida de painéis de azulejo de composição figurativa, formando silhares, representando episódios da vida de Santo Inácio de Loyola: Conversão de Santo Inácio; Santo Inácio ajoelhado troca as vestes de guerreiro pelas de mendigo; Santo Inácio salva um rapaz de afogamento; Santo Inácio antes de morrer recebe a aparição de São Pedro. O quinto painel desapareceu em data desconhecida. Os outros quatro painéis foram retirados no início do séc.XXI pelo Museu Nacional do Azulejo, foram restaurados e estão expostos na Igreja. 

Painel de azulejos, agora destacado e encostado à parede, inserido na temática CICLO DA VIDA DE SANTO INÁCIO DE LOYOLA

Painel agora destacado e encostado à parede inserido na temática CICLO DA VIDA DE SANTO INÁCIO DE LOYOLA

Convalescença e conversão de Inácio, no Solar de Loyola

Convalescença de Inácio na Casa Solar de Loiola,  deitado no leito com a perna entrapada, após ter sido ferido na Batalha de Pamplona, a 24 de Maio de 1522, com os livros à cabeceira (Vidas de Santos e Imitação de Cristo) recebendo uma visão que o fez melhorar, na véspera da festa de S. Pedro, a 28 de Junho.

Inácio peregrino em Monserrate, dá as suas roupas a um peregrino e veste-se de saco.

Acumula duas cenas, ambas passadas em Paris, também elas clássicas na iconografia inaciana:

Inácio mergulhado na água gelada em Paris (pela conversão de um pecador) – Este episódio refere-se a um encontro passado, em Paris, no período em que frequenta a Universidade de Paris (onde chega a 2 de Fevereiro de 1528, e de onde só parte em Abril de 1535). Sabedor de um homem que vivia em concubinato e dava escândalo público, Inácio esperou-o uma manhã, junto a uma ponte sobre uma lagoa metido na água gelada. Interrogado pelo homem que atravessava a ponte sobre a razão de tal procedimento, respondeu que estava ali a sofrer pelos pecados do seu interlocutor.

Em segundo plano Inácio diante de Diogo de Gouveia na Universidade de Paris (em que este lhe pede perdão pelas calúnias) – O episódio refere-se a uma cena passada em Paris (1528/1535) entre Inácio, que fora acusado injustamente pelo Principal do Colégio de Santa Bárbara, Diogo de Gouveia (1471/1557), que reconhecendo, posteriormente a inocência de Inácio se retracta publicamente, ajoelhando-se diante dele e de toda a academia assiste edificada ao episódio.

Inácio peregrino em Monserrate entrega a espada diante da imagem da Virgem.

O azulejista português Policarpo de Oliveira Bernardes e a capela de Nª Sª de Porto Salvo, em Oeiras

Porto Salvo (N.ª S.ª do Porto Salvo)

Concelho                               Oeiras

  Área                                  7,10 km²

População                             15 157 hab. (2011)  

A freguesia de Porto Salvo foi oficialmente criada em 11 de Junho de 1993, por desmembramento das freguesias de Barcarena, Oeiras e São Julião da Barra. Foi elevada a vila em 12 de Julho de 2001.

Tem por orago Nossa Senhora de Porto Salvo.

Porto Salvo deve o seu nome à ermida construída no século XVI no Outeiro de Caspolima.
A construção da ermida, por volta de 1530, resulta em cumprimento de uma promessa de mareantes da carreira das Índias que, ao regressarem, se viram em grande perigo e prometeram a Nossa Senhora que se chegassem sãos e salvos a Portugal lhe dedicariam um lugar de culto, no primeiro lugar alto que avistassem ao chegarem. A súplica foi ouvida e a bonança permaneceu até à vista do estuário do Tejo, com feliz sucesso.


O rei D. João III cedeu-lhes a baldio identificado no reguengo de Oeiras, para construção da Ermida, que desde logo se tornou lugar de devoção e de romaria na grande festa da Senhora de Porto Salvo que durava dois dias, e foi celebrada desde sempre a 25 e 26 de julho, dias do Apóstolo São Tiago e Santa Ana.

Em 1670 foi demolida a antiga e «pequenina» ermida e iniciada a atual capela, que terá ficado concluída em 1694.

Até ao século XIX era saudada com salvas de 21 tiros pelos barcos que chegavam ao Tejo.

Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, Oeiras
Fotografia: Francisca Branco Veiga

Os Azulejos da Capela de Porto Salvo

O último quartel do século XVII até cerca de 1750 é a época do apogeu do azulejo português, a do Ciclo dos Mestres e da Grande Produção, rica em grandes cenas sagradas e profanas, apresentadas com grandes molduras cenográficas desenhadas especificamente para os espaços, e executadas exclusivamente em pintura a azul e branco.

Segundo José Meco, no seu livro Azulejaria Portuguesa,

«Bastante expressiva no seu ingénuo encanto, estas obras apresentam uma pintura pouco contrastada, de grande eficácia na mobilidade do desenho e na economia dos meios utilizados na sugestão de sombras e volumes… À simplificação das partes historiadas correspondeu uma acentuação decorativa na concepção dos conjuntos e dos enquadramentos, através da crescente extroversão e popularização dos elementos, com o recorte interno do emolduramento e o remate superior dos painéis a abandonarem a linearidade, adquirindo concepção teatral e tornando-se progressivamente a parte fulcral das composições. A evolução destas características acentuou-se na chamada «grande produção joanina», realizadas por artistas formados na escola de António de Oliveira Bernardes…» [1]

Os azulejos da capela de Nossa Senhora de Porto Salvo têm merecido mais atenção que os restantes valores artísticos da igreja. Existem duas campanhas azulejar, bem distintas: a de 1734, nos silhares da capela-mor. Esta obra de azulejo foi feita pelos devotos de Lisboa, com notáveis composições barrocas a enquadrarem Ladainhas da Virgem, realizadas pela oficina de Bartolomeu Antunes e de Nicolau de Freitas, e a de 1740, na frontaria da ermida, também esta obra mandada fazer pelos devotos de Lisboa a Policarpo de Oliveira Bernardes, que compreende a decoração desta frontaria, com dois Milagres de Nossa Senhora de Porto Salvo, legendados, estando a parte historiada de um deles há muito perdida e o conjunto de painéis da nave, com Cenas da vida de Cristo, bem como a composição por baixo do púlpito feita pelo mestre azulejador João Guilherme Roiz.

Assim a Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo tem:

  • Na fachada, dois painéis de azulejos de Policarpo de Oliveira Bernardes, datados de 1740, muito danificados, estando um deles praticamente destruído; estão sobre as janelas que ladeiam a porta, debaixo do alpendre. Compõem-se de sete fiadas de treze azulejos pintados a azul-cobalto a aguadas, sobre esmalte estanífero, representando milagres atribuídos a Nossa Senhora;
  • Na nave da mesma capela e revestindo as paredes até meia altura, são de autoria de Policarpo de Oliveira Bernardes, de grande qualidade e representando cenas da infância de Jesus, formando, de cada lado, um painel único. O do lado do evangelho, o esquerdo, vai da parede fundeira até ao púlpito, num total de 54 azulejos. O do lado da epístola, o direito, termina numa porta que, segundo a legenda, foi inutilizada em 1874.
  •  Na capela-mor, azulejos datados de 1734, da oficina de Bartolomeu Antunes, fortemente ornamentados, sem figuração, com diversos símbolos marianos e adaptados a diferentes solicitações;
  • E ainda na mesma capela existem dois azulejos de finais do século XVIII, muito danificados, formando um registo, classificado de “gracioso”, aplicado sobre uma caixa de esmolas, embutida numa parede exterior.
Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, Oeiras (interior)
Fotografia: Francisca Branco Veiga


O azulejista português Policarpo de Oliveira Bernardes

Assinatura de Policarpo de Oliveira Bernardes

Policarpo de Oliveira Bernardes, filho e discípulo de António de Oliveira Bernardes, pertenceu ao chamado ciclo dos mestres da produção azulejar portuguesa.

Nascido em 1695, Policarpo faleceu em 1778, o seu último trabalho documentado foi a decoração da frontaria e do corpo da nave da ermida de Porto Salvo. Evidenciou-se bastante cedo como pintor autónomo. As suas obras assinadas não vão além de 1740, mas a sua reputação e importância têm levado a considerá-lo um dos mais importantes mestres da segunda metade do Reinado de D. João V. Talvez, baseando-se nisso, muitas obras essenciais da época lhe têm sido atribuídas.

Embora sem a eloquência da pintura do pai, que Policarpo absorveu com inteligência, a sua obra revela uma formação muito cuidada e uma personalidade bastante vincada e criativa, associada a uma notável capacidade como pintor. Esta capacidade está bem patente nos painéis historiados, cujo espaço se encontra magnificamente construído, assim como nas figuras, de volumetria acentuada pelas pinceladas cruzadas, que Policarpo favoreceu, e representadas com agudeza psicológica.

As obras fundamentais de Policarpo são a decoração de uma capela da igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, o monumental e deslumbrante revestimento integral da igreja de São Lourenço, em Almansil (Loulé), de 1730, o da capela do Forte de São Filipe, em Setúbal, de 1736, e o de Porto Salvo, de 1740, já referido.

A sua obra de uma naturalidade, de uma força expressiva e de uma perfeição encantadora em todos os seus aspetos faz-se evidenciar na riqueza iconográfica dos azulejos da Capela de Porto Salvo.

O tipo de temática pertence ao grupo dos Painéis historiados (painéis descritivos representando um determinado acontecimento ou cena histórica, religiosa, mitológica ou do quotidiano), onde as pinturas dos azulejos narram cenas religiosas da vida de Jesus Cristo.

A obra azulejar na ermida de Porto Salvo, em Oeiras, é a última datada deste grande pintor de azulejo, sendo também, talvez até por isso, uma das mais perfeitas e inigualáveis produções saídas de suas mãos.

Os dois frisos do corpo da ermida

Policarpo de Oliveira Bernardes

Cenas da vida de Cristo

Mosaico azul e branco

Assinado Policarpo de Oliveira Bernardes

Datado de 1740

13,5 cm * 13,5 cm (cada azulejo

Do lado esquerdo da nave

A fuga para o Egito
Fotografia:Francisca Branco Veiga
Repouso durante a viagem para o Egito
Fotografia:Francisca Branco Veiga

Do lado direito da nave

A Virgem Maria trabalha, com a meada na dobadeira, enquanto o menino descansa Fotografia:Francisca Branco Veiga
São José a carpinteirar
Fotografia:Francisca Branco Veiga
Passeio da Sagrada Família (José, Maria e o Menino)
Fotografia:Francisca Branco Veiga

[1] MECO, José – Azulejaria portuguesa, Amadora: Bertrand, 1985.