Colégio da Companhia de Jesus

Fotografias: @franciscabrancoveiga
No Colégio de Santo Antão-o-Novo, em Lisboa, funcionou desde finais do século XVI até ao século XVIII uma Aula de Esfera pública, uma das mais relevantes instituições de ensino científico da época em Portugal.
Esta designação derivava dos tratados sobre “a esfera”, que tratavam dos princípios da cosmografia, fundamentais para a formação dos navegadores e estudiosos da época. A Aula de Esfera fazia parte do currículo jesuíta, que desempenhava um papel central na educação científica e na formação de elites portuguesas, em especial nos domínios da matemática aplicada à navegação, cartografia e astronomia.
Disciplinas ensinadas na Aula da Esfera
Arte de Navegar – Domínio dos métodos e técnicas de navegação marítima, com recurso a instrumentos náuticos como o astrolábio, o quadrante e a balestilha, essenciais para a determinação da posição em alto mar.
Geografia e Hidrografia – Estudo e descrição dos continentes, oceanos e rotas marítimas, com particular enfoque nas possessões ultramarinas portuguesas e nas suas vias de acesso.
Cosmografia, construção e uso de globos – Conhecimentos sobre a forma e estrutura da Terra, a representação cartográfica do mundo conhecido e a construção de instrumentos globulares de apoio à navegação.
Astrologia Judiciária e Prática – Análise da influência dos astros sobre os fenómenos terrestres e sua aplicação ao planeamento de expedições e à navegação.
Geometria – Base indispensável para os alunos com vocação militar, permitindo o domínio da engenharia, da arquitetura defensiva e da balística.
Astronomia – Estudo sistemático do movimento dos corpos celestes e da sua aplicação à navegação astronómica e à determinação de coordenadas geográficas.
Matemática aplicada – Cálculo de latitudes, longitudes e projeções cartográficas, com aplicação direta à cartografia e à navegação de longo curso.
Física e Mecânica – Princípios fundamentais para a compreensão da balística, do funcionamento de máquinas e da conceção de instrumentos científicos.
Os alunos da Aula de Esfera pertenciam a três grandes grupos:
A Aula da Esfera não se destinava a um público homogéneo. Os seus alunos eram recrutados em função de objetivos distintos, mas convergentes no quadro do projeto expansionista português, e podiam ser agrupados em três grandes perfis.
Especialistas em navegação e cartografia
O primeiro grupo era constituído por jovens com vocação técnica, destinados a servir a Coroa portuguesa na exploração e administração das possessões ultramarinas. A estes futuros pilotos, cartógrafos e cosmógrafos exigia-se um domínio rigoroso da astronomia, da matemática aplicada e da arte de navegar. Eram eles que, munidos de astrolábios e quadrantes, garantiam a segurança das rotas marítimas e a precisão dos mapas que iam desenhando o mundo conhecido.
Jovens nobres com aspirações militares
O segundo grupo era composto por filhos de famílias nobres com ambições na carreira militar e nas conquistas coloniais. Para estes, a Aula da Esfera oferecia uma formação sólida em geometria, balística e engenharia militar — saberes indispensáveis a quem aspirava comandar fortalezas, dirigir operações militares ou administrar territórios em nome da Coroa. A ciência era, para eles, um instrumento de poder.
Missionários jesuítas
O terceiro grupo distinguia-se dos anteriores pela natureza da sua missão. Os missionários que partiam para os territórios ultramarinos — do Brasil ao Japão, de Angola à Índia — necessitavam de uma formação científica sólida para estabelecer contacto com civilizações estrangeiras, muitas delas com tradições astronómicas e matemáticas próprias e sofisticadas. Conhecer o céu era, para estes homens, não apenas uma ferramenta de navegação, mas também uma ponte de diálogo com os povos que encontravam.
A Aula de Esfera do Colégio de Santo Antão desempenhou um papel central na cultura científica portuguesa do século XVII. Era a única instituição em Portugal onde se ensinavam ciências ligadas à Matemática com um caráter tão prático e aplicado. O seu ensino estava diretamente relacionado com os interesses expansionistas da Coroa e com a necessidade de manter a liderança portuguesa na navegação e na exploração marítima.
Muitos dos homens que se distinguiram na cartografia, na astronomia e na administração dos territórios ultramarinos passaram por esta instituição. Lisboa era, à época, um ponto de encontro para intelectuais e cientistas europeus a caminho da Ásia e das Américas, e os mais preparados entre eles contribuíam para o ensino na Aula de Esfera, introduzindo os mais recentes avanços científicos.
Professores notáveis da Aula de Esfera:
A qualidade do ensino ministrado na Aula da Esfera ficou em grande medida a dever-se ao perfil excecional dos seus docentes. Muitos eram jesuítas de projeção europeia, atraídos a Lisboa pela centralidade de Portugal nas rotas científicas e comerciais do mundo quinhentista e seiscentista.
Giovanni Paolo Lembo – Astrónomo jesuíta italiano de reconhecido mérito, Lembo distinguiu-se não apenas pelo ensino teórico mas pelo contributo prático na conceção e construção de instrumentos de observação astronómica, aproximando os alunos da ciência experimental.
Cristóvão Galo – Matemático de formação rigorosa, dedicou o seu trabalho ao estudo da cartografia e da navegação, domínios em que a precisão matemática era condição de sobrevivência em alto mar.
Simão Fallónio – Especialista em astronomia e geografia, contribuiu para a articulação entre o conhecimento celeste e a descrição do mundo terrestre, essencial à formação dos navegadores.
Valentim Estancel – Professor de matemática e cosmografia, Estancel representava a tradição jesuíta de unir o rigor científico à missão pedagógica, formando alunos capazes de compreender a estrutura do universo e a sua aplicação prática.
Inácio Vieira – Destacado estudioso da astronomia e dos seus usos na navegação, Vieira foi uma figura de referência na transmissão dos conhecimentos astronómicos aplicados às grandes viagens marítimas.
Francisco da Costa – Mestre em astrologia e cosmografia, Costa integrava no seu ensino tanto a dimensão científica como a tradição interpretativa dos astros, num tempo em que as fronteiras entre astronomia e astrologia ainda não estavam claramente definidas.
João Delgado – Professor de geometria e balística, Delgado respondia à necessidade crescente de formar militares tecnicamente preparados, capazes de aplicar os princípios matemáticos à guerra e à engenharia.
Cristóvão Griemberger – Astrónomo e matemático de reputação europeia, Griemberger trouxe à Aula da Esfera os mais recentes debates científicos do continente, contribuindo para manter Lisboa ligada à vanguarda do pensamento astronómico da época.
Francisco Machado – Cartógrafo e especialista na construção de globos, Machado dominava a arte de traduzir o mundo em objeto — transformando o conhecimento geográfico em instrumentos tangíveis de navegação e ensino.
Sebastião Dias Cristóvão Galo – Matemático e estudioso da arte de navegar, a sua formação combinava o rigor do cálculo com o conhecimento prático das rotas e técnicas de navegação marítima.
Inácio Stafford – Especialista em astrologia prática e judiciária, Stafford ensinava a leitura e interpretação dos astros com aplicação direta ao planeamento de expedições e à tomada de decisões em contexto marítimo e militar.
Luís Gonzaga – Professor de física e mecânica aplicada à navegação, Gonzaga introduzia os alunos nos princípios do funcionamento das máquinas e instrumentos científicos, saberes indispensáveis a bordo dos navios portugueses.
A Sala das Esferas — memória viva de uma aula extraordinária
O atual Salão Nobre do Hospital de São José, em Lisboa, guarda nas suas paredes muito mais do que decoração. Conhecido como Sala das Esferas, este espaço foi a antiga aula magna do Colégio de Santo Antão-o-Novo — o coração intelectual e científico da instituição jesuíta que durante dois séculos formou os homens que navegaram, cartografaram e administraram o império português.
A sala mantém hoje uma decoração notável: oito painéis de azulejos em azul e branco, executados com invulgar qualidade artística, representando cenas alegóricas das disciplinas que ali se ensinavam. Cada painel é, em si mesmo, um documento histórico — uma síntese visual do programa científico da Aula da Esfera e do universo intelectual que a animava.
As disciplinas representadas — Óptica, Geografia, Geometria, Balística, Astronomia, Mecânica, Navegação e Cartografia — não foram escolhidas ao acaso. Formam um retrato coerente de uma instituição que unia a contemplação do céu à conquista do mar, o rigor matemático à utilidade prática, a ciência pura ao serviço do império.
Hoje, neste mesmo espaço por onde médicos e enfermeiros passam diariamente, as figuras dos azulejos continuam a olhar em silêncio para quem cruza a sala — astrónomos com os seus instrumentos, geógrafos com os seus mapas, navegadores com os seus globos. São a memória persistente de um tempo em que Lisboa era, verdadeiramente, o centro do mundo conhecido.
A Sala das Esferas é, por isso, muito mais do que um salão nobre. É um arquivo em azulejo. Um monumento à curiosidade humana. E uma homenagem silenciosa a todos os que, entre estas paredes, aprenderam a perguntar, a medir e a descobrir.

Mouraria, Lisboa

Considerações Finais
A Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão-o-Novo representa um dos episódios mais significativos — e porventura mais subvalorizados — da história da ciência e da educação em Portugal. Nascida no contexto da expansão marítima e sustentada pelo projeto pedagógico jesuíta, esta instituição soube responder, com notável lucidez, às exigências de um país que governava um império disperso por quatro continentes.
O que a distinguia das restantes instituições de ensino da época não era apenas o conteúdo do seu currículo, mas a sua filosofia de fundo: a convicção de que o conhecimento científico devia ser rigoroso, prático e útil. Numa Europa ainda dominada pelo escolasticismo, a Aula da Esfera ensinava a observar, a calcular e a questionar — antecipando, em muitos aspectos, os princípios que viriam a definir a ciência moderna.
O seu corpo docente, recrutado entre os mais destacados astrónomos, matemáticos e cartógrafos da Europa, assegurou que Lisboa permanecesse ligada às principais correntes do pensamento científico continental, num período em que o conhecimento circulava, sobretudo, através das redes da Companhia de Jesus.
O legado desta instituição não se esgota, porém, nos tratados publicados ou nas rotas traçadas pelos seus alunos. Sobrevive, de forma tangível e serena, nos oito painéis de azulejos da Sala das Esferas do Hospital de São José — um testemunho iconográfico de rara beleza e valor histórico, que continua a recordar, a todos os que por ali passam, que naquele lugar se aprendeu a medir o mundo.
Estudar a Aula da Esfera é, em última análise, compreender melhor o Portugal que foi ao mundo — e perceber que por detrás das grandes viagens e das grandes descobertas esteve sempre, em silêncio, o trabalho paciente de quem ensinou e de quem aprendeu.
Por detrás de cada navio que partiu, havia um homem que aprendeu a ler o céu.
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Como referir este texto:
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VEIGA, Francisca Branco, Sala «das esferas» do Colégio de Santo Antão-o-Novo (atual Hospital de S. José) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [17 de Fevereiro de 2025].
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