ROTA DA COTOVIA

Memórias do noviciado da Cotovia em diversas instituições de Lisboa

Ao espólio do noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus que se encontra no Museu Nacional de História Natural e da Ciência poderíamos adicionar pinturas e esculturas da igreja do antigo noviciado, mas, devido a uma série de incêndios e cataclismos que lavraram este edifício da Rua da Escola Politécnica, perderam-se no fogo ou foram salvas e recuperadas por outras entidades, encontrando-se atualmente a embelezar igrejas ou museus nacionais.

Pelos espaços dos Museus da Politécnica passaram as seguintes instituições de ensino onde lamentavelmente os cataclismos e incêndios foram, como se disse, uma constante:

  • Noviciado da Cotovia (13 de Junho 1619)

1694 – 1º Incêndio

1731 – 2º Incêndio – arde a Capela particular de um dos financiadores do noviciado, Lourenço Lombardo.

1755 – Terramoto

  • Colégio dos Nobres (7 de Março 1761)
  • Escola Politécnica (11 de Janeiro 1837)

1843 (22 de Abril) – 3º incêndio – fica totalmente destruída a igreja.

  • Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) (Março 1911)

1978 – 4º Incêndio

Assim, num percurso que parte do MNHNC, edifício com uma longa história mas com um presente que ainda tem muito por desvendar e para transmitir à população, vamos descobrir o passado da primeira Casa de Provação da Companhia de Jesus na Província Portuguesa, através do seu espólio disperso por diversas instituições que acolheram estas peças e as expuseram ao público como peças de culto ou de interesse artístico. 

Na sacristia da igreja de S. Mamede, na rua da Escola Politécnica, encontra-se uma pintura de Domingos da Cunha. Sendo a temática mariana um dos temas melhor aceites no período pós Concílio de Trento e também aquele que mais suscitou o interesse dos pintores europeus, esta Visitação não foge à regra tridentina. Iconograficamente encontra-se enquadrada ao centro por Maria SSª que cumprimenta a sua prima Isabel. À esquerda do observador, São José faz festas a um cão. Atrás dele apruma-se um retrato seguido de outra figura feminina. Do lado direito Zacarias (sacerdote do Templo de Jerusalém, pai de João Baptista e esposo de Isabel) avança de braços abertos, tendo junto de si outro figurante, com a mão em esquisita posição e desenho. Atrás de si outra figura feminina. A figura do retrato contrasta na comparação visualmente estabelecida com as outras idealizadas. Será o autorretrato de Cabrinha, enroupado de negro, com colarinho típico dobrado sobre a gola, no gosto elegante da época. Pensa-se que Domingos da Cunha se introduziu como personagem nesta pintura devido aos traços fisionómicos algo bexigosos e orientalizantes de uma figura.

Pintura do século XVII (mais ou menos 1630) que, segundo Vítor Serrão e para o jesuíta Costa Lima pertenceu ao “…extinto Colégio jesuítico da Cotovia…”. Joaquim O. Caetano em O púlpito e a imagem: os jesuítas e a arte refere que Domingos da Cunha executou “…algumas pinturas para o Noviciado da Cotovia, entre as quais uma «Visitação» que se encontra na Sacristia da Igreja de S. Mamede…”. Também Costa Lima assegura que “…o quadro fora da Politécnica, antigo Noviciado dos jesuítas, onde o famoso e santo artista reparou a sua vida boémia…”[1].

Visitação (Sacristia da Igreja de S. Mamede)

Datada do século XVIII d.C., encontra-se na nave desta igreja de S. Mamede uma escultura de Nossa Senhora da Conceição, de José de Almeida (1708-1769), também ela pertencente ao antigo noviciado da Cotovia. José de Almeida foi mestre de Machado de Castro na escultura em mármore. Podemos ver peças deste escultor no palácio de Mafra (presépio, conjunto escultórico relativo aos mártires de Marrocos) e na igreja de S. Domingos de Benfica. Discípulo de Carlo Monaldi esculpiu ainda uma Senhora da Vitória e uma Senhora das Virtudes para a igreja de S. Domingos, em Lisboa, e um Cristo e  uns Anjos de Adoração para o Palácio-Convento de Mafra; é-lhe atribuído o trabalho de talha dourada no Coche de D. João V; podemos também ver um Santo Onofre no Museu Nacional de Arte Antiga. Hábil escultor em pedra José de Almeida estudara em Roma, protegido e sustentado por D. João V.

A escultura de Nossa Senhora da Conceição encontra-se iconograficamente presentada com equilíbrio e síntese no tratamento volumétrico, com serenidade expressiva e gestual. Dinâmico contraposto dos membros inferiores. Assenta num esferoide, que tem representadas nuvens e a rodeá-la estão quatro cabeças de anjos.

Nossa Senhora da Conceição (nave da Igreja de S. Mamede)

No largo Trindade Coelho encontramos a igreja de S. Roque, igreja e casa Professa da Companhia de Jesus durante mais de 200 anos, antes de os Jesuítas terem sido expulsos do país no ano de 1759. Primeira igreja em Portugal e uma das primeiras igrejas jesuítas em todo o mundo.  Aqui, na sua sacristia vamos encontrar algumas pinturas de Domingos da Cunha que, segundo alguns historiadores poderiam ter pertencido ao noviciado da Cotovia.

São catorze os quadros que se encontram colocados sobre o arcaz da sacristia da igreja de S. Roque, acima da série xaveriana de André Reinoso, do século XVIII e que descrevem o Ciclo da Vida de Santo Inácio de Loyola. Para Vítor Serrão e Reynaldo dos Santos, esta série da sacristia é de nível inferior à da nave da Igreja, mostrando ser obra de colaborações díspares, como também que estava mal montada sobre o arcaz[2]. Possivelmente foram aí colocados pós terramoto, com a consequente destruição do noviciado da Cotovia, pois o espaço onde foram colocados não parece adaptado à série.

Para pintar estas telas o pintor Domingos da Cunha utilizou as gravuras da Vita Beattii Patris Ignatii Loyolae Religionis Societatis Iesu Fundatoris ad Vivum Expressa ex ea quam, de P. Petrus Ribadeneyra, publicada em 1610 por Cornelis Galle, em Antuérpia, com dezasseis buris de Cornelis e de Theodore Galle, de Adrien e Johann Collaert e de Charles de Mallery[3]. Nota-se outras influências ao nível estético, com alguma modernidade, saídas dos modelos caravagescos. É visível ao nível pictórico um desequilíbrio, mostrando que, possivelmente, um colaborador seu tenha também participado nesta construção[4].

Luís Moura Sobral estudou o ciclo hagiográfico da sacristia de S. Roque e concluiu o seguinte acerca dos painéis da Vida de Santo Inácio: estes não estão dispostos seguindo uma narrativa biográfica; dois dos quadros repetem o mesmo episódio; oito das telas foram feitas cerca de 1619, com legendas na banda inferior em castelhano e com figuras de pequena escala; as restantes seis pinturas que se encontram enquadradas entre os anos de 1640-44 tem figuras monumentais, com efeitos tenebristas e alguns exageros na representação anatómica e estão legendadas na banda inferior em português. Estas, para Moura Sobral e Joaquim Caetano são as verdadeiras obras de Domingos da Cunha, com semelhanças de composição e de fatura (exceto aquela onde Santo Inácio ouvindo um sermão lhe saem raios da cabeça, que se encontra mais perto das telas da nave da igreja, também elas de Domingos da Cunha), executadas para S. Roque ou reaproveitadas do Noviciado da Cotovia[5].

Nas peças cedidas ao Museu Arqueológico do Carmo pela Escola Politécnica[6] encontram-se três peças do espólio da Cotovia: uma escultura de São Estanislau Kostka (padroeiro dos noviços); uma de São Luís Gonzaga (padroeiro da juventude); e uma Inscrição funerária e votiva de Luís Correia.

São Estanislau Kostka e São Luís Gonzaga (Museu de Arqueologia do Carmo)

A estatuária religiosa em pedra possui uma função ornamental e identificativa. Trata-se de imaginária integrada em nichos abertos nas fachadas principais dos edifícios religiosos, aludindo ao orago do templo ou ao universo devocional da comunidade religiosa. Neste caso específico encontramo-nos iconograficamente perante dois santos da Companhia de Jesus.  São Estanislau Kostka (padroeiro dos noviços) surge-nos, iconograficamente, sustentando um menino nos seus braços, levando-nos ao encontro com sua história onde se conta que, estando doente e durante um sonho, viu a Virgem Maria colocar o Menino Jesus em seus braços. Nossa Senhora, na sua aparição, convidou-o a ingressar na Companhia de Jesus. A indumentária de ambas as esculturas é semelhante, estando ambos vestidos como membros da Companhia de Jesus, isto é, com sobrepeliz[7]. São Luís Gonzaga (padroeiro da juventude)[8] tem como atributos um lírio, um crânio, uma disciplina ou um crucifixo. Um desses objetos, agora desaparecido da sua mão esquerda era por ele dado a contemplar. Imagens que física e estilisticamente se aproximam uma da outra, onde a desproporção pode igualmente ser observada e sendo visível ao nível da cabeça, parecendo à vista desarmada um restauro quase desastroso. Cultiva-se o gosto pelo gesto e pela exploração do momento determinante da ação. Mas se olharmos estas figuras num plano mais elevado, esta desproporção ameniza-se. Ambas as peças estão sobre uma base do mesmo material mas também ela provocando alguma dinâmica.

Por fim, vamos encontrar no Museu Arqueológico do Carmo uma Inscrição funerária e votiva que se encontrava na Capela de São Luís Gonzaga, no corpo da igreja, do lado do Evangelho. Esta capela tinha um altar com colunas de madeira dourada e capitéis. No retábulo havia uma pintura em pano com a imagem de São Luís Gonzaga, e uma imagem do mesmo santo de três palmos de altura, com resplendor de prata. Numa mão tinha um ramo de açucenas, em tecido, e à cintura um coração de prata[9]. Comprada ao noviciado, com escritura de 30 de Junho de 1666, por Luís Correia da Paz com intenção de ter aí a sua jazida. O seu filho morreu em 1665 e um ano depois foi aí enterrado.

Inscrição funerária e votiva (MAC)

Encaixada em uma parede da capela existia uma lápide que tinha inscrito o seguinte:

[Á EXALTAÇÃO DE CHRISTO/ DEDICADA ESTA CAPELA AO/ B. LUVIS GONZAGA POR LUIS COR/ REIA Q.DO A COMPRO A ESTE/ COLLEGIO PARA SEV JAZIGO E DE/ TODOS OS DESCENDENTES E AS/ CENDENTES DE SEV PAI FER/ NÃO CORREIA E SVA MAI BRANCA/ DA PAZ E IAZ NELLA SEV FILHO LV/ IS CORREIA DE SOVSA Q. FALECEV A/ 21 DE ABRIL DE 1665][10]

Panorama de Lisboa e Partida de S. Francisco Xavier para a Índia.   -   Autor desconhecido - Séc. XVIII. Noviciado da Cotovia, MNAA.Mais distante deste circuito do espólio perdido do noviciado da Cotovia vamos encontrar no Museu Nacional de Arte Antiga duas pinturas monumentais desta dita casa de provação.

A pintura a óleo sobre tela do Panorama de Lisboa e partida de S. Francisco Xavier para a Índia, atribuída primeiro a Domingos da Cunha, artista jesuíta e noviço da Cotovia cuja atividade se desenvolveu até aos finais da primeira metade do século XVII (1644), depois a Gaspar Simões dos Reis e, mais recentemente ao pintor José Pinhão de Matos (165? – 175?). Esta pintura representa a vista panorâmica de Lisboa na segunda metade do século XVII, abarcando o Terreiro do Trigo a Este, até à Cruz Quebrada (já fora dos limites da cidade) a Oeste, passando pela Rocha do Conde de Óbidos e Belém, onde se destaca o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, enquanto para o interior, ainda se consegue visualizar o Paço da Alcáçova, a Sé e São Vicente de Fora e a Oeste uma conjunto de conventos. São reproduzidos detalhadamente toda a zona ribeirinha e mais precisamente o mercado da Ribeira Velha, a Casa da Índia e o Terreiro do Paço devido à perspetiva vinda do rio Tejo, que se encontra cheio de caravelas e naus nacionais e Estrangeiras. A esta Vista de Lisboa no século XVII, é acrescida a partida para Goa de São Francisco Xavier corrido em Abril de 1541[11]. O pintor pinta os diversos momentos do acontecimento: a saída do Santo para a passarela que dá acesso ao Rio, o embarque na galeota e o trajeto desta que se dirige para a nau da armada da Índia. Na parte superior da composição está representada a cena de despedida de Francisco de Xavier ao rei D. João III, envolta por grinaldas suspensas por dois anjos. Um terceiro anjo, no ângulo superior esquerdo desenrola um pergaminho onde se pode ler: “Acceptis a Joane III / pontificis literis / nuntius apostolicus / in Indiam solvit / Santus Francisco Xavierius. /”. Depois de ter recebido as cartas pontifícias das mãos de D. João III, o Núncio apostólico São Francisco Xavier parte para a Índia.

D. João III e o núncio apostólico da Índia, ou A partida de São Francisco Xavier em 1541,
José Pinhão de Mattos, c. 1730.
MNAA

Outra pintura que se encontra referenciada como pertencente ao noviciado está atualmente em exposição neste Museu. É uma Vista Perspectica de Goa e Terras Próximas no Século XVII[12], atribuída erradamente ao retratista Domingos de Gusmão que “… as pintou na casa de provação dos jesuítas”, como é referido num ofício expedido pelo Diretor da FCUL ao Reitor da Universidade de Lisboa em 23 de Julho de 1947 [13]. Datada do século XVIII (1715 d.C. – 1765 d.C.), esta vista de Goa, tal como o Panorama de Lisboa foram encontrados nas coleções da Escola Politécnica em 1864, onde fazia parte de um conjunto de pinturas evocativas da presença de São Francisco Xavier no Oriente.

Vista Perspectica de Goa e Terras Próximas
José Pinhão de Matos
MNAA

Todas estas peças de arte que pertenceram ao noviciado da Cotovia traduzem bem a forma de sentir dos seus ocupantes e da Ordem que Santo Inácio iniciou, onde cada homem é constituído por um composto corpo e alma, isto é, “uniformização” do indivíduo, com “purificação do corpo” e “disciplina da alma”. Este espólio traduz o universo devocional desta comunidade religiosa, utilizado na prática cultual e devocional ou na estimulação do espírito missionário. No gosto dos jesuítas pela Gesamtkunstwerk ou obra de arte total vislumbra-se os princípios estéticos vigentes no mundo católico dos séculos XVI, XVII e XVIII, isto é, pós reforma católica.


[1] Vítor Serrão, A Pintura Proto-barroca em Portugal, 1612-1657, Coimbra: [s.n.], 1992, p. 133; J. da Costa Lima, “Artistas velhos e novos”, in Brotéria cultural, vol. XXXII, 1941, p.408; Joaquim Oliveira Caetano, O púlpito e a imagem: os jesuítas e a arte, Lisboa: Museu de São Roque, 1996, p.23 e 54; J. da Costa Lima, op. cit., p.408.

[2] Vítor Serrão, A Pintura Proto-barroca em Portugal, 1612-1657, Coimbra: [s.n.], 1992, p. 140. Vítor Serrão observa que Reynaldo dos Santos também já tinha verificado que esta série Inaciana revelava uma série de incongruências. Ver inclusive João Barreira, Arte Portuguesa, Lisboa: [s.n.], 1963.

[3] Luís de Moura Sobral, “Espiritualidade e Propaganda nos programas Iconográficos dos jesuítas portugueses”, In A Companhia de Jesus na Península Ibérica nos sécs. XVI e XVII : Espiritualidade e cultura : actas do Colóquio Internacional, Maio 2004, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Instituto de Cultura Portuguesa; Universidade do Porto, Centro Inter-universitário de História da Espiritualidade, 2004, p.402.

[4] Ibidem., p. 141.

[5]Ibidem, p. 401; Joaquim Oliveira Caetano, Pintura, Colecção de Pintura da Misericórdia de Lisboa, Século XVI ao Século XX, Tomo I, Lisboa : S.C.M., 1998; Ibidem, p. 54.

[6] Informação recolhida em José Morais Arnaud (coord.); Carla Varela Fernandes (coord.); Vitória Mesquita (coord.), Construindo a Memória: As Colecções do Museu Arqueológico do Carmo, Lisboa: Associação dos Arqueólogos Portugueses, 2005.

[7] A Companhia de Jesus ordenou o uso da sobrepeliz durante o sermão e nas lições sagradas, daí surgirem estas duas estátuas com este tipo de indumentária.

[8] São Luís Gonzaga é considerado “Patrono da Juventude”. Seu corpo repousa na Igreja de Santo Inácio, em Roma. São Luís Gonzaga escreveu: “Também os príncipes são pó como os pobres: talvez, cinzas mais fedidas”. Após ter recebido a primeira comunhão das mãos de São Carlos Borromeu, decidiu-se pela vida religiosa, entrando para a Companhia de Jesus.

[9] Raul Lino, Luís Silveira, A. H. de Oliveira Marques, Documentos para a história da arte em Portugal, 4º vol., Lisboa: F.C.G., 1969-1991.

[10] Nobiliário [Manuscrito de Rangel de Macedo: Título de Correias e Pazes]. In PORTUGAL. Biblioteca Nacional de Portugal, Inventário : secção XIII : manuscriptos : collecção pombalina, Lisboa: BN, 1889, nº 272 a 276; ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO, Inventário do Cartório do Colégio dos Nobres, Liv. 71, p. 16, nº 3.

[11] Maria Helena Mendes Pinto, “Panorama de Lisbonne at départ de Saint François Xavier pour l’Inde”, in Via Orientalis (catálogo da exposição), Bruxelles: Europalia, 1991.

[12] Idem, “Panorama de Goa et de ses environs”, in Via Orientalis (catálogo da exposição). Bruxelles: Europalia, 1991.

[13] Arquivo Histórico dos Museus da Universidade de Lisboa – MUHNAC. Cópia de ofício expedido pelo Diretor da FCUL ao Reitor da Universidade de Lisboa em 23 de Julho de 1947. Lv. 718.

São João de Brito, missionário e mártir da Companhia de Jesus

(Lisboa, São Cristóvão e São Lourenço, 1 de março de 1647 — Oriur, Índia, 4 de fevereiro de 1693)

Foi missionário e mártir, frequentemente chamado de «Francisco Xavier» português. Nasceu em Lisboa, na calçada de S. André (Costa do Castelo) em 1647. De ascendência fidalga, diz António Franco que, desde menino que o seu destino era ser pagem na Corte.

João de Brito, já entrado na adolescência, é vítima de uma doença grave. A sua cura marcou uma viragem na sua vida, pois devido a uma promessa de sua mãe, teve de vestir o hábito de São Francisco Xavier.

A 17 de dezembro de 1662, com 16 anos entra para o noviciado da Cotovia (atual espaço do MNHNC), em Lisboa. A 25 de dezembro de 1664, após dois anos de noviciado, é enviado para a Universidade de Évora para continuar os estudos eclesiásticos, seguindo em 1666para Coimbra, para fazer filosofia.

Mais tarde será professor no Colégio de Santo Antão, em Lisboa. No ano de 1668, pede ao Superior Geral que o deixe ser missionário. Partiu a 25 de março de 1673 numa expedição em que vão 27 jesuítas, uns destinam-se à China, outros como João de Brito à Índia.

O martírio chegou em 1693 no alto do monte sobranceiro ao rio Pamparru, à vista de Urgur. Foi decapitado sendo o cadáver amputado de pés e mãos, e os seus despojos dados às feras e aos abutres. Alguns cristãos recolheram o crânio e alguns ossos. O cutelo da execução obteve-se do carrasco mediante grande soma de dinheiro. Dentro de uma bainha de filigrana de prata, foi trazido para Lisboa e oferecido a D. Pedro II, que o confiou à guarda da Companhia de Jesus, no Colégio de Santo Antão.

Foi canonizado em 22 de Junho de 1947, pelo Papa Pio XII.

In VEIGA, Francisca Branco – “Noviciado da Cotovia: O passado dos Museus da Politécnica 1619-1759” [texto policopiado]. Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Património Cultural. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2009.

São João de Brito
Foto: Francisca Branco Veiga
Arca Relicário de S. João de Brito
Museu de S. Roque, Lisboa

Um túmulo no acervo do Museu Nacional da História Natural e da Ciência, Lisboa

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e esposa [séc. XVII]

A primeira pedra do noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus, foi lançada a 23 de abril de 1603, catorze anos depois do primeiro contrato para a construção do edifício. A pedra estava toda ornamentada com ramos de folhagem e flores silvestres. Com seis faces, como foi descrito atrás, tendo na sexta face não uma inscrição, mas uma concavidade onde Fernão Teles de Meneses, seu fundador, colocou um “português de oiro” e medalhas devotas[1]. À cerimónia assistiram os fundadores, o Provincial, o Reitor Padre António Mascarenhas e outros jesuítas vindos dos colégios da Província portuguesa.

Dois anos depois, Fernão Teles de Meneses já não assistiu ao lançamento da primeira pedra da igreja do noviciado, morrendo no dia 26 de janeiro de 1605. D. Maria de Noronha, sua esposa, pediu que as obras da Capela-mor (do lado do Evangelho) terminassem o mais rápido possível, para lá colocar o túmulo do seu marido, pois os ossos tinham ficado num trono do cruzeiro da igreja de S. Roque, à espera do traslado. Mandou fazer um mausoléu que lhe custou 3.000 cruzados, onde foram colocados primeiro, os ossos de Fernão Teles e em 1623 os seus.

Em 1893, Sousa Viterbo referia-se ao mausoléu de mármore como tendo uma forma de pirâmide com mais ou menos seis metros de altura. A arquitetura tumular é muito idêntica à dos túmulos reais que se encontram na capela-mor da igreja de Santa Maria de Belém, no Mosteiro dos Jerónimos[2]. Assentava, o túmulo, sobre dois elefantes de mármore cinzento-escuro[3]. Segundo nos descreve Matos Sequeira,

 «O túmulo dos fundadores que estava, como já disse, na capela-mor, foi removido para um barracão, existente numa das dependências da Escola, depois do incêndio de 1843. Aí se conserva ainda hoje ao abandono, apeado dos elefantes, em cujo dorso se apoia, por não caber em altura no barracão. Fazem-lhe companhia, alguns destroços da igreja, troços de colunas e de capitéis, pedaços de imagens e entulho que farte»[4]

Dia 1 de Novembro ficou pronta a igreja e foi colocado no altar o Santíssimo Sacramento[5].  Oito dias depois foi feito o traslado dos ossos, que se encontravam num trono do Cruzeiro, num cofre de veludo preto com fechadura dourada, na igreja de S. Roque, para a Capela-mor da igreja do noviciado da Cotovia. Saíram em cortejo com velas acesas e entoando cânticos. Chegando à igreja do noviciado, toda coberta com panos de luto e cheia de luzes, fez-se a missa, desceu-se o corpo à sepultura.[6]

A 13 de Junho de 1619, dia de Sto António entraram os primeiros quinze noviços na nova e única Casa de Provação até esta data, sem ainda estar concluído nem o edifício, nem a igreja.

Escultura Tumular

Este tipo de escultura é de grande importância, não apenas pelo seu valor histórico, mas, também, devido ao seu valor artístico, pois eram quase sempre executadas por bons escultores, para servirem de morada “eterna” para gente da nobreza ou religiosos. Na Capela-mor das Igrejas dos Colégios da Companhia de Jesus encontramos sempre o túmulo do fundador do noviciado, conforme impunham as “Constituições”(309-310), além de testemunhar o sentimento de gratidão à figura benemérita do Fundador (312-314). Nenhum colégio jesuítico podia ser fundado sem que existisse uma pessoa que garantisse financeiramente a construção e manutenção dos edifícios em causa. Este túmulo que se encontrava no Altar-mor da Igreja do Noviciado da Cotovia é mais um exemplo que não foge à regra.

Reproduz o modelo régio que se encontra na capela-mor da igreja do mosteiro Jerónimo de Santa Maria de Belém e que se integra numa tipologia de tumularia portuguesa que abrange o final do século XVI até ao início do século XVIII.

Segundo Vítor Serrão[7], o arquiteto régio Pedro Nunes Tinoco (ativo de 1604 a 1641) poderia ter sido o presumível executor da traça deste mausoléu pois encontra-se ativo no tempo em que este foi construído (± 1616).

Desde o incêndio de 1843 que se encontra emparedado numa das dependências dos Museus da Politécnica, tendo-lhe sido retirado os seus dois elementos de suporte (elefantes indianos) devido à sua altura.

Segundo Teresa Vale, que estudou este tipo de tumularia, este tipo de tumularia pós Santa Maria de Belém, era composta por dois tipos de elementos: um corpo do monumento em forma piramidal e outro com elementos de suporte, que na igreja dos Jerónimos são elefantes, tal como no tumulo dos fundadores da casa do Noviciado da Cotovia (igreja). O túmulo está acompanhado de legenda com o objetivo de perpetuar a memória do morto.

Túmulo

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha (cerca de 1616)

Museu/instituição: Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Universidade de Lisboa

Denominação: Túmulo/ Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha

Autor (es): Desconhecido

Datação: Início do século XVII D.C. (± 1616)

Descrição: Monumento fúnebre que reproduz o modelo régio que se encontra na capela-mor da igreja do mosteiro Jerónimo de Santa Maria de Belém e que se integra numa tipologia de tumulária portuguesa que abrange o final do século XVI até ao início do século XVIII.

Na base do túmulo encontra-se uma inscrição gravada em sete linhas, que diz o seguinte:

«Aqui jaz Fernão Teles de Meneses filho de Bras Teles de Meneses, Camareyro mor e Guarda mor e Capitão dos Ginetes, q foi do Iffãte D. Luis, e de D. Catarina de Brito sua molher, o qual foy do Cõselho do Estado D`El Rey nosso Sõr. E governou os Estados da India e o Reyno do Algarve e foy Regedor da justiça da casa da suplicação e Presidente do Conselho da India e partes ultramarinas. E a sua molher D. Maria de Noronha filha de D. Frãcisco de Faro Vedor da fazenda dos Reys D. Sebastião e D. Anrique, e de D. Mesia de Albuquerque sua primeyra molher: os quais fundaram e dotarão esta casa da Provação da Compª de Jesu, e tomarão esta Capella mor pêra seu iazigo. Falleceo Fernão Teles de Mñs a XXVI. De Novº de M.D.C.V. e de Mª de Nr. A VII de Março de MDCXXIII».

O padre António Franco refere-se ao túmulo da seguinte maneira:

«Mandou esta Senhora fabricar hum magestozo mausoleo de mármores, assentado sobre dous elefantes em hũ vão no lado do Evangelho da Capella mor. He a obra neste género grandioza, fez de curto três mil cruzados»[8]

Para Matos Sequeira, «O sumptuoso túmulo era de mármore liso, assente sobre dois elefantes, tendo na face do caixão um extensíssimo epitáfio»[9].

Num manuscrito intitulado História de Lisboa a referência a este túmulo é feita da seguinte maneira:

 « Na Capella se vê da parte do Evangelho hum arco de pedraria com bastante fundo sobre dous elefantes de mármore com cor que nam deixa de ter semelhança com a natural dos elefantes, e sobre elles um bem laurado tumulo…»[10].

Depois do incêndio de 1843, este túmulo que estava na Capela-mor da igreja do Noviciado da Cotovia, foi removido para uma dependência do edifício, apeado dos seus elefantes e emparedado, e aí se encontra até hoje, embora tenham sido feitas algumas tentativas para lhe dar um lugar mais digno, juntamente com outros destroços da igreja, restos de imagens, colunas e capitéis[11].

  O túmulo era composto por essas e suporte. Essas com uma sucessão de volumes em forma piramidal, lembrando monumentos fúnebres do antigo Egipto, da Suméria e da Índia hindu ou, em Portugal, faz lembrarem as cerimónias fúnebres onde utilizando um catafalco[12], que se cobria com tecidos ricos, como por exemplo, brocados e veludos, se colocava o caixão com o defunto.

 Em relação ao suporte, pensa-se que o motivo que levou à escolha da representação de elefantes tenha a ver com a época histórica e heroica que estávamos a passar, ligada ao descobrimento pelos portugueses de novas terras “Além-mar”, em parte porque se trata de elefantes indianos.

Ao longo dos tempos o elefante esteve sempre associado a grandes cerimónias. Na Ásia simbolizava o poder real. No Ocidente simbolizava eternidade, temperança, piedade, associadas à soberania, ao poder e à riqueza. Em Roma, por exemplo, fazia parte das monumentais exéquias e cortejos fúnebres dos imperadores. Na arte oriental o elefante como elemento de suporte é simbólico de animal-suporte-do-mundo: o universo repousa sobre o lombo de um elefante[13]. Em Portugal, acompanhava os cortejos de D. Manuel, serviu como presente oferecido por D. João III ao arquiduque Maximiliano de Áustria e até o papa Pio IV solicitou a D. Sebastião um par de elefantes. Além de todas estas justificações a nível formal e simbólico podemos também referir que a nível técnico este modelo tumular não implicava grandes recursos manuais e de especialidade. A obra exigia apenas um trabalho de canteiro e não de um escultor. O que cativou a realeza e a nobreza por este tipo de sepultura terá sido o seu aspeto em pirâmide e o material utilizado (mármores).[14]

Segundo Vítor Serrão[15], o arquiteto régio Pedro Nunes Tinoco (activo de 1604 a 1641) poderia ter sido o presumível executor da traça deste mausoléu pois encontra-se ativo no tempo em que este foi construído (± 1616) e além disso, projetou vários túmulos idênticos, baseados na mesma traça do encomendado por D. Maria de Noronha, como por exemplo, o que se encontra no Mosteiro de Santo António da Lourinhã (1618-1619, da sepultura de D. Brites Brandoa (as essas são idênticas mas sem os suportes).

Proveniência/incorporação: Noviciado da Cotovia      

In  VEIGA, Francisca Branco – “Noviciado da Cotovia: O passado dos Museus da Politécnica 1619-1759” [texto policopiado]. Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Património Cultural. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2009.    

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha (cerca de 1616)
Vista Superior

                            


[1] FRANCO, António, Imagem da Virtude…em Lisboa, p.10.

BNP, cód. 429, s.p..

ANTT, Liv.187, Cap. VII.

[2] Veja-se Visita Guiada, Episódio 3 – de 21 Mar 2016 – RTP Play – RTP

[3] FRANCO, António, Imagem…, Lisboa, p.12.

[4] Sequeira, Gustavo de Matos, ibid., p. 245.

[5] ANTT, Liv. 187, Cap. VIII.

[6] «…e no dia seguinte pella manha nove de Novembro foram os Religiosos de Sam Francisco fazerlhe hum officio muy solemne de nove Lições com sua Missa, cantandolhe no fim della hum Responso, disendose pellos Religiosos de Sam Francisco, e da Companhia pella alma do defunto, muytas Missas…»

BNP, cód. 429, 2º, De como por um meyo naõ esperado se adiantou muyto a casa do Noviciado

[7] SERRÃO, Vítor Manuel, O Arquitecto Maneirista Pedro Nunes Tinoco. Novos Documentos e Obras (1616-1636), pp. 30-31.

[8] FRANCO, António, Imagem da Virtude… em Lisboa, p.12.

[9] SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Depois do terremoto, p. 217, 218.

[10] BNP, cód. 145 e 429, Capítulo XV, Da Casa do Noviciado da Companhia de Iesus, códices para o estudo dos monumentos sacros da capital, com 476 fl, e foi escrito nos annos de 1704 a 1708, s.p.

[11] SEQUEIRA, Gustavo de Matos, ibid., p. 245

[12] Catafalto – uma série de caixas sobrepostas que vão diminuindo de dimensão.

[13] CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain, Dicionário dos símbolos, p.279.

[14] VALE, Teresa Leonor M., Exotismo e Poder Político. As Representações de Elefantes na Tumulária Régia de Santa Maria de Belém, p. 97-109.

[15] SERRÃO, Vítor Manuel, O Arquitecto Maneirista Pedro Nunes Tinoco. Novos Documentos e Obras (1616-1636), pp. 30-31.

D. Miguel entrega à Companhia de Jesus, por decreto de 9 de janeiro de 1832, o Real Collegio das Artes.

D. João III (1502-1557) foi um rei que herdou um vasto império ultramarino que se estendia por três continentes e com imensos problemas de administração à distância. As fortes relações com a Santa Sé levam a que os bispos portugueses adiram ao espírito da Contrarreforma, conseguindo também estabelecer o Tribunal da Inquisição em Portugal.

Em 1540, com D. João III, a Companhia de Jesus entra em Portugal, sendo o nosso país a primeira Província jesuíta no mundo. Numa época de forte expansão territorial D. João irá ser o primeiro rei na Europa a contactar Inácio de Loyola devido à necessidade de encontrar missionários, homens letrados, para evangelizar o Oriente, pregando e convertendo à Fé cristã os nativos. D. João concedeu privilégios aos jesuítas, nomeadamente casas gratuitas, liberdade de enviar missionários para todo o mundo e de fundar colégios. A Companhia de Jesus instalou-se em Portugal continental e Ilhas Atlânticas, e até 1959 funda diversas casas professas, colégios, noviciados e quintas de recreio.

A proteção à cultura foi muito dominante neste reinado. D. João pôs em prática uma reforma do ensino e pode-se afirmar que «…pela honra que, depois reinou, soube fazer às letras e a todas as boas artes»[1]. Deu subsídios a muitos jovens para irem estudar em universidades estrangeiras, principalmente para o Colégio de Santa Bárbara, em Paris, onde era reitor o português Diogo de Gouveia. Mas ao mesmo tempo trouxe para Portugal muitos homens instruídos que foram ensinar letras e ciências na Universidade que, em 1537 tinha sido transferida de Lisboa para Coimbra. A reforma do ensino ficou concluída com a fundação e entrega à Companhia de Jesus do Colégio das Artes (1548), local onde se faziam os estudos de preparação para o ingresso na universidade. A afluência às aulas dos novos mestres, vindos de Paris, levou a que D. João III ordenasse a Frei Brás de Barros que instituísse escolas fora do claustro do mosteiro[2].

Contudo, em janeiro de 1759, por alvará régio, foram sequestrados os bens da Companhia de Jesus. A 3 de setembro do mesmo ano foi abolida, todos os padres expulsos do reino e os seus bens confiscados.

Após a restauração universal da Companhia de Jesus em 1814, esta irá regressar a Portugal em 1829, no reinado de D. Miguel. Como rei absolutista necessitava do apoio legitimador da Santa Sé e da Companhia de Jesus, que se encontrava ligada ao ideário tradicionalista.

Na opinião de Daurignac, o rei D. Miguel, para consolidar o seu trono e como forma de erradicar as ideias revolucionárias, solicita ajuda ao Papa pedindo-lhe o regresso dos jesuítas para Portugal:

 “En 1829, ce prince fait demander par le marquis de Lavradio, son ambassadeur à Rome, quelques Pères de la Compagnie. Il sent d’ailleurs que le moyen le plus sûr de consolider son trône déjà menacé est de l’ appuyer sur les principes que les Jésuites ont toujours enseignés, et son cœur lui dit que cette réparation est due à l’ Ordre de Saint Ignace, dont un ministre portugais fut le premier et le plus acharné persécuteur”[3].

Assim, em 1829 D. Miguel ordenou ao Duque de Cadaval que permitisse o regresso desta Ordem a fim de restaurar o ensino em Portugal[4].

E é com este fim que D. Miguel entrega à Companhia de Jesus, por decreto do dia 9 de janeiro de 1832, «o Real Collegio das Artes», para aí exercerem o ministério principal do seu Instituto, que é a educação da mocidade.

Assim, este decreto reintegrava os Jesuítas em todas as graças e privilégios dos reis antecessores, seguindo-se a legislação de D. João III, dando-lhe a posse do que usufruíram durante dois séculos.

A entrega do Colégio das Artes aos Jesuítas era considerada como uma restituição, colocando novamente a Universidade tributaria da Companhia de Jesus.

A este decreto outorgado aos religiosos de Santo Inácio chamou Lino de Assunção a «Carta reparadora»[5].

Domingo,12 de janeiro, D. Miguel dirigiu-se ao Colégio de Santo Antão-o-Velho, «sans être inattendu, ni annoncé, ni accompagné», para despedir-se destes religiosos, prometendo-lhes que no dia 22, dia do aniversário do seu regresso a Portugal, seria publicado o decreto do restabelecimento da Companhia. Esta visita deixa os missionários jesuítas muito tranquilos.

O rei entre outros assuntos informa-os do seu amor para com a Companhia de Jesus, «dando-lhes assim nova prova da Sua Augusta benevolência», dizendo-lhes que o Colégio das Artes foi criado pelo seu Instituto e com a maior independência e por isso mesmo o que ele queria era o mesmo colégio da Companhia[6].

VEIGA, Francisca Branco – Noviciado da Cotovia: O passado dos Museus da Politécnica 1619-1759 [texto policopiado]. Dissertação elaborada para a obtenção do Grau de Mestre em Património Cultural. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2009.

Idem – A Restauração da Companhia de Jesus em Portugal 1828-1834: O breve regresso no reinado de D. Miguel. Dissertação elaborada para obtenção do grau de Doutor em História, na especialidade de História Contemporânea, 2019.


[1] Frei Luís de Sousa, Anais de D. João III, Colecção de Clássicos Sá da Costa, Lisboa, 1938, I, p.8 e 9.

[2] RIBEIRO, José Silvestre, Historia dos estabilicimentos scientificos litterarios e artisticos de Portugal nos successsivos reinados da monarchia , 1871-1914, p.65 a 78.

[3] DAURIGNAC, J.M.S. –  Histoire de la Compagnie de Jésus depuis sa fondation jusqu’a nos jours. 2ª ed., Paris: Librairie Catholique de Périsse Frères, 1863, Tomo II, p. 232.

[4] LLORCA, Bernardino, S.J. – Historia de la Iglesia Catolica: en sus cinco grandes edades: Antiqua, Media, Nueva, Moderna y Contemporanea, vol. IV.  Madrid: La Editorial Catolica, 1963, p. 641.

[5] ASSUNÇÃO, Tomás Lino da – História Geral Dos Jesuítas, p. 618.

[6] Carta do Padre Delvaux para o Padre Druilhet, em Paris. Coimbra, 10 de março de 1832. In CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus, vol. XIX, p. 329.

Colégio das Artes, Coimbra
Johann Nepomuk Ender
Viena, Áustria, 1827
Óleo sobre tela
256×180 cm
Assinado e datadp: “Giovanni Ender pinx, Vienne 1827”
D. Miguel nasceu no Palácio de Queluz, a 26 de Maio de 1802, recebendo o nome de Miguel Maria do Patrocínio João Carlos Francisco de Assis Xavier de Paula Pedro de Alcântara António Rafael Gabriel Joaquim José Gonzaga Evaristo, e faleceu em Carlsruhe, na Alemanha, a 14 de Novembro de 1866.
São Francisco Xavier na Corte de Dom João III antes da viagem para a Índia.
Pintura de André Reinoso, 1619.
Igreja de São Roque, em Lisboa.

A chegada de jesuítas ao colégio de Santo Antão-o-Velho passados setenta e um anos

1759 – 1830

Outras denominações: Coleginho; Mosteiro da Anunciada; Residência de Santo Antão; Hospício dos Padres de São Francisco; Colégio dos Religiosos Eremitas Calçados de Santo Agostinho de Lisboa.

No dia 27 de dezembro de 1830 D. Miguel entregava aos jesuítas o Colégio de Santo Antão-o-Velho, denominado Coleginho, local onde no século XVI se estabeleceram os primeiros jesuítas[1] e aí abriram um noviciado:

“El Rei meu Senhor Foi Servido Mandar declarar ao Prior Provincial dos Ermitas de Santo Agostinho, que era da Sua Real vontade que se prestasse toda a Casa, e Igreja do Colleginho […] para os Padres da Companhia de Jesus” [2]

O Padre Delvaux descreve do seguinte modo como os padres agostinhos receberam a notícia:

“Je reçus le lendemain, par le duc, l’aviso de Sa Majesté qui ordonnait aux Pères ermites de Saint-Augustin de nous abandonner cette église et cette maison pour y continuer maintenant nos ministères. On dit que cela a donné quelque déplaisir à ces Pères; mais j’aime à croire que la sainte Vierge adoucira la contrariété qu’un déménagement forcé entraîne toujours avec soi. Les Pères nous ont três-bien reçus et, tout en se plaignant un peu de n’avoir que si peu de jours pour ce déplacement, surtout en hiver, ils s’exécutent et nous ont assuré qu’ils se félicitaient de trouver cette occasion de concourir au rétablissement de la Compagnie. Notez au reste, que cet Ordre a quatre maisons à Lisbonne même; deux sont immenses, une surtout et telle que l’on en a pu prendre la moitié pour faire une caserne, sans incommoder beaucoup les religieux. Notez encore que, dans le colleginho en question, il n’y avait actuellement que deux Pères pour veiller seulement à sa garde. Notre adresse est donc maintenant: Petit collége de Saint-Antoine-le-Vieux rue Saint-André; mais ici elle serait mieux comprise ainsi: No colleginho de Santo-Antâo, calçada de Santo André”

 No periódico A Contra-Mina, Fortunato de São Boaventura escreve o seguinte acerca da entrega aos jesuítas do Coleginho:

“O certo he, que depois de vaguearem por muitos domicílios, conseguem, e não foi sem mysterio, hum Colleginho, onde existem retirados, e ainda como feridos da antiga maldição, e sem ousarem dizer, ou proferir, o que são actualmente nestes Reinos …”[3]

Crétineau-Joly refere que foi após a chegada destes missionários ao seu antigo Colégio de Lisboa que estes despertaram para a criação de um verdadeiro projeto de construção da futura Província jesuíta.

 “… ils commencèrent à donner à leurs travaux une direction plus uniforme. Les uns, comme le Père Pouly, s’efforcèrent, par le secours religieux, d’alléger les chaînes des prisonniers; les autres cherchèrent à réveiller dans les âmes des sentiments de vertu et de piété. Témoin des succès de ces quelques Jésuites, le Cardinal Patriarche de Lisbonne ne veut plus demeurer indifférent au bien qui s’opère par leur intermédiaire”[4]

Em correspondência emitida de Roma (?) para o P. Delvaux, o sentimento era de esperança: “Sans doute, qu’il seroit fort de mon goût, si on vous accordoit l’ancienne maison de nos premiers Péres – Tout nous prêche, nous edifie, nous anime dans cette sorte de maisons. Mais laissons agir la Providence… [5].

«Ils commencèrent à donner à leurs travaux une direction plus uniforme» dedicando-se à pastoral, dispensando o seu tempo à catequese, à pregação em algumas paróquias da capital e arredores, em algumas missões populares, à administração dos sacramentos, à assistência material e espiritual dos presos e feridos da guerra civil e em poucos meses ligados à educação no Colégio das Artes (1833-1834)[6], funções primordiais da Companhia de Jesus.

Mas, a Europa dos anos trinta encontra-se em mudança. A Santa Aliança estava a perder força face aos ideais liberais que se opunham ao conservadorismo tradicional e procuravam substituir o absolutismo no governo pelo Estado de direito. Nesse sentido o Padre Delvaux sentia-se privilegiado por se encontrar em Portugal e afirmava que «la tranquillité dont nous jouissons ici au milieu du bruit général de guerres et de révolutions qui retentit de toutes parts est jusqu’à présent admirable»[7].

Carayon refere que no dia 31 de dezembro os jesuítas “… on put ouvrir l’église [do Coleginho] consacrée sous le titre da la Conversion de Saint-Augustin”[8].

Nesta igreja criaram um altar dedicado a Nossa Senhora da Rocha contribuindo para ele o próprio rei: “Nous établirons à un autre autel une dévotion particulière à Notre Dame da Rocha et déjà le roi a bien voulu se charger de la dépense que son petit trône exigera. je la lui évaluais approximativement à la somme de trois mille francs, voilà une nouvelle preuve de sa grande dévotion pour cette bonne Mère et tout à la fois de son affection pour la Compagnie”[9].

Reitera-se a ideia de que a Senhora Aparecida tinha vindo como castigo aos liberais para, em nome de Deus, livrar Portugal da sua obra “monstruosa”, a Constituição.  A Senhora da Rocha era considerada a bandeira da nova cruzada.


[1] “A Companhia de Jesus, nos séculos XVI a XVIII, esteve ativa em Portugal ao longo de um período de duzentos e dezanove anos, desde a sua fundação em Roma, em 27 de Setembro de 1540, até 3 de Setembro de 1759, data do decreto do Marquês de Pombal que promulgou a sua extinção no nosso país. Foi em 1540 com D. João III (1521-1557), que a Companhia de Jesus entrou em Portugal, sendo o nosso país a primeira Província jesuíta no mundo. Numa época de forte expansão territorial D. João irá ser o primeiro rei na Europa a contactar Inácio de Loyola devido à necessidade de encontrar missionários, homens letrados, para evangelizar o Oriente, pregando e convertendo à Fé cristã os nativos. D. João concedeu privilégios aos jesuítas, nomeadamente casas gratuitas, liberdade de enviar missionários para todo o mundo e de fundar colégios. […] Começaram por se instalar em Lisboa, no Colégio de Santo Antão-o-Velho, edifício sobre o terreno de uma antiga mesquita”. In VEIGA, Francisca M. C. Branco – Noviciado da Cotovia: O passado dos Museus da Politécnica 1619-1759 [Texto policopiado], Dissertação para obtenção do Grau de Mestre, Universidade Católica Portuguesa. Lisboa, fev. 2009, p.19; CLÁUDIO DA CONCEIÇÃO, Frei – Gabinete Histórico: Que A Sua Majestade Fidelissima O Senhor Rei D. João VI, Em O Dia De Seus Felicissimos Annos… Offerece, Tomo XVII. Lisboa: Impr. Nacional, 1820, pp. 95-97.      

[2] Aviso do Duque de Cadaval ão Prior Provincial dos Ermitas de S. Agostinho. Palácio de Queluz, 18 de dezembro de 1830. In APPCJ, Companhia de Jesus 1829-1834, 1833-34 Delvaux, 1 fl.

Veja-se sobre o tema, AZEVEDO, Carlos A. Moreira – Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho em Portugal (1256-1834). Edição da Colecção de Memórias de Fr. Domingos Vieira, OESA. Lisboa: Centro de Estudos de História Religiosa, UCP, vol. 8, 2011, pp. 226-227. Veja-se, inclusive, SEIXAS, Miguel Beirão de Almeida Metelo de – História do Coleginho ou Colégio e mosteiro de Santo-Antão-o-Velho. Lisboa: Direcção de Documentação e história militar, 1998.

[3] A Contra-Mina, nº40, de 13 de dezembro de 1831, p.7. Artigo intitulado A Estatua da Fé e escrito por Fortunato de São Boaventura.

[4] CRÉTINEAU-JOLY, Jacques – Histoire religiosa, politica y literária de la Compañía de Jesús, p. 362.

[5] Carta emitida de Roma (?) para o P. Delvaux, em Lisboa. Dia 15 de julho de 1830. APPCJ, Companhia de Jesus 1829-1834, Correspondência para o Padre António Pinto SJ, 2 fls.

[6] CASIMIRO, Acácio, S.J. – 1829-1930: Factos Da Companhia De Jesus, Restaurada Em Portugal. Porto: Tip. Porto Médico, 1930, pp. 9-10.

[7] Carta do Padre Delvaux Ao Padre Gury, em Lyon. Lisboa, 24 dezembro de 1830. CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus, vol. XIX, p. 276.

[8] CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus: Notes historiques, vol. X, 1863, p.9.

[9] Carta do Padre Delvaux a Madame Delvaux, Religiosa do Sagrado Coração. Lisboa, 3 janeiro de 1831. CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus, vol. XIX, p. 285.

Colégio de Santo Antão-o-Velho | Colégio de Santo Agostinho | Exterior | Fachada poente.
© CML | DMC | Arquivo Municipal de Lisboa.
Colégio de Santo Antão-o-Velho | Colégio de Santo Agostinho | Museu de Lisboa | Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755 | Pormenor.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2013.
Infante D. Miguel de Bragança. Retrato pintado durante o seu exílio na Corte de Viena.
Óleo sobre tela, pormenor.
Johann (Giovanni) Nepomuk Ender. 1827.
Palácio Nacional de Queluz
Jean-Philippe Roothaan (1785-1853), S.J.
Superior Geral da Companhia de Jesus de 1829 a 1853

Apoio dado por António Ribeiro Saraiva e pelo Duque de Cadaval ao regresso da Companhia de Jesus a Portugal, em 1829

Em 1829 houve a intenção de trazer de volta a Portugal os missionários da Companhia de Jesus, como agentes da colonização e evangelizadores das colónias portuguesas.

A missionação jesuítica iria ser considerada como uma colonização “salvífica”, isto é, como uma ferramenta política, de reforço do Trono de D. Miguel na recuperação de muitas colónias ultramarinas que se encontravam abandonadas após a expulsão dos jesuítas em 1759.

António Ribeiro Saraiva procurou apoio para a  causa na pessoa do duque de Cadaval, expressando-lhe:

“Nós somos nada ou pouquíssimos, sem o mar e as colonias, que foi o que nos faz grandes; as de africa principalmente, por onde começaram nossas gloriosas empresas, e onde temos um campo imenso que nos pode compensar pela tola separação do Brasil. Mas os territórios, por mui ricos que sejam, sem gente, sem braços, sem população útil, de nada servem; portanto, precisamos formar em nossa Africa gente que nos sirva e que faça valer essas possessões. De Portugal não podemos fornecel-a; é preciso, pois, achal-a lá mesmo, e lá a temos em abundancia; somente o que precisa, é ser polida e educada – istruida ou civilizada. Para isso a experiencia incontestável tem mostrado, que não há operários como os jesuítas; a eles devemos principalmente o christianismo e a civilização da India, do Brasil […] devemos fazer vir os jesuítas, incimbil-os dessa obra sem tardança”

O duque do Cadaval era da mesma opinião e a sua resposta foi de apoio total:

“Olhe senhor N., quando a gente é rapaz, por esta ou aquella causa, concebe certos desejos favoritos. Eu desde mui jovem tive dois desses appetites, que sempre muito me captivaram. – Um d’elles era, o ver convocadas, e funcionando as nossas côrtes e verdadeira representação nacional; o outro era de ver os jesuítas restabelecidos e restituídos a Portugal. […] o segundo muito desejava eu se verificasse igualmente, mas onde estão os jesuítas?”

In VEIGA, Francisca – A Restauração da Companhia de Jesus em Portugal 1828-1834: O breve regresso no reinado de D. Miguel. In Tese elaborada para obtenção do grau de Doutor em História, na especialidade de História Contemporânea, 2019.

Restauração da Companhia de Jesus pelo Papa Pio VII, 1814

D. João III e a Companhia de Jesus: consolidação da presença portuguesa em territórios além- mar

D. João III (1502-1557) foi um rei que herdou um vasto império ultramarino que se estendia por três continentes e com imensos problemas de administração à distância. As fortes relações com a Santa Sé levam a que os Bispos portugueses adiram ao espírito da Contra-Reforma, conseguindo também estabelecer o Tribunal da Inquisição em Portugal. A protecção à cultura foi muito dominante no seu reinado. Pôs em prática uma reforma do ensino e pode-se afirmar que «…pela honra que, depois reinou, soube fazer às letras e a todas as boas artes»[1]. Deu subsídios a muitos jovens para irem estudar em universidades estrangeiras, principalmente para o Colégio de Santa Bárbara, em Paris, onde era reitor o português Diogo de Gouveia. Mas ao mesmo tempo trouxe para Portugal muitos homens instruídos que foram ensinar letras e ciências na Universidade que, em 1537 tinha sido transferida de Lisboa para Coimbra. A reforma do ensino ficou concluída com a fundação, também em Coimbra, do Colégio das Artes (1548), local onde se faziam os estudos de preparação para o ingresso na universidade. A afluência às aulas dos novos mestres, vindos de Paris, levou a que D. João III ordenasse a Frei Brás de Barros que instituísse escolas fora do claustro do mosteiro[2].

Numa época onde o protestantismo se expandia na Europa e as descobertas de portugueses e espanhóis de novas terras necessitavam de “homens de Deus” para as evangelizar nasce a Companhia de Jesus com o objectivo de trabalhar para a salvação do mundo, através da salvação das almas. Um dos seus meios para combater o protestantismo e defender a fé católica era a divulgação da instrução. A especialização de eclesiásticos dedicados à tarefa da evangelização foi muito bem visto pela coroa portuguesa de D. João III, pois o avanço dos missionários significava a consolidação da presença portuguesa em territórios além- mar[3]. Além disso, «Lisboa foi a maior rampa de lançamento que teve Inácio de Loyola para realizar o seu sonho de levar a todos os povos da Terra a Boa Nova de Jesus de Nazaré»[4]. A convite de D. João III, a Companhia de Jesus estabeleceu-se em Portugal em 1540, logo a seguir à sua criação (a 27 de Setembro de 1540, o Papa Paulo III aprova a criação da Companhia de Jesus, pela bula “Regimini Militantis Ecclesiae”[5]). Francisco de Xavier na sua estadia em Portugal e antes de partir para o Oriente escreveu uma carta a Inácio de Loyola e a Coduri onde refere o seguinte:

«D´acá os hago saber como el Rey, paresciéndole bien nuestro modo de proceder, así por la experiencia que tiene del fruto espiritual que se hace, como esperando mayor cuantos mas fueren, está deliberado de hacer un colegio y una casa de los nuestros, es a saber, de la Compañia de Jesus…».

Afirmava que:

«…Este verano en la Universidad de Coimbra edificará el colégio, y la casa pienso en la cidad de Ébora»[6].

Em pouco tempo constrói três importantes estabelecimentos em Lisboa, entre muitos outros espalhados pelo país de Norte a Sul: O Colégio de Sto Antão (actual Hospital de S. José), que foi o grande centro de aprendizagem de muitos que partiam para o Oriente, uma Casa Professa, onde na hierarquia da Companhia de Jesus está reservada aos padres professos (era a residência mais importante da Companhia) e o Noviciado da Cotovia, para a formação dos futuros jovens jesuítas.

Francisco Xavier, já missionário em Goa, alertava para a preparação de “soldados de Deus”. Não importava que fossem letrados, mas tinham que ser bem exercitados[7]. Noviciados, colégios e universidades unidos num projecto comum onde a qualidade de acção, a preparação adequada e contínua e uma ocupação constante para o atendimento das almas eram requisitos obrigatórios para educar os futuros “soldados de Deus”.


[1] Frei Luís de Sousa, Anais de D. João III, Colecção de Clássicos Sá da Costa, Lisboa, 1938, I, p.8 e 9.

[2] RIBEIRO, José Silvestre, Historia dos estabilicimentos scientificos litterarios e artisticos de Portugal nos successsivos reinados da monarchia, 1871-1914, p.65 a 78.

[3] PACHECO, José Carlos Monteiro, Simão Rodrigues, O Iniciador da Companhia de Jesus em Portugal, p. 73-75.

[4] LOPES, António, Roteiro Histórico dos jesuítas em Lisboa, p.7.

[5] Na Carta Apostólica do Papa Paulo III de 1540, onde este aprova a Companhia de Jesus, ele refere o seguinte: «Esta (Companhia de Jesus) foi instuída principalmente para o aperfeiçoamento das almas na vida e na doutrina cristã, e para a propagação da fé, por meio de pregações públicas, do ministério da palavra de Deus, dos Exercícios Espirituais e obras de caridade, e nomeadamente pela formação cristã das crianças e dos rudes, bem como por meio de Confissões, buscando principalmente a consolação espiritual dos fiéis cristãos». In INÁCIO DE LOYOLA, Santo, Constituições da Companhia de Jesus, Tradução de Joaquim Mendes Abranches, S.J., p.19-20.

[6] Monumenta Historica Societatis Iesu, Cartas de San Ignacio, p. 443-447.

LOPES, António, D. Pedro Mascarenhas: Introdutor da Companhia de Jesus em Portugal, 2003, p.168.

[7] GOMES, Manuel Pereira, Santo Inácio e a fundação de Colégios, p. 41.

Retrato de D. João III de Portugal, no Museu de São Roque.
 É uma réplica dum quadro pelo Mestre Flamengo Anthonis Moro, pintado em 1522 (Museu do Prado, Madrid).
Este quadro é atribuído a Cristóvão Lopes, filho de Gregório Lopes e seu sucessor enquanto pintor da corte em 1550.
Sto Inácio de Loyola
Pieter Paul Rubens
Francisco Xavier. Retrato japonês do período Nanban.
Autor desconhecido

O “modo nostro” Jesuíta

Il Gesú, de Roma (protótipo), S. Roque, de Lisboa e Colégio de Jesus, de Coimbra (Sé Nova)

Mantendo o respeito pelas normas da II Congregação Geral, a Companhia de Jesus segue a linha de que, todas as edificações deviam respeitar os critérios de utilidade, funcionalidade e adaptação aos Ministérios da Companhia, constituindo, deste modo, a essência do modo nostro jesuíta.

A linha arquitetónica definida pela Companhia irá também ser seguida em Portugal. Vão surgir igrejas amplas com ou sem capelas laterais, onde o transepto é curto. Igrejas com uma só nave, compacta, que se desenvolve em andares com tribunas e galerias sobre as capelas ou sobre os altares. O seu espaço interno apoia-se em esquemas rítmicos simples e de grande largueza de conceção. Esta vasta área adapta-se perfeitamente à função missionária da Companhia, mais dedicada à pregação, às confissões, ao estudo, ao ensino, sempre em missão.

Com este tipo de planta aumenta o número de cristãos no seu interior, tal como a celebração de várias missas em simultâneo nas várias capelas, pois as naves laterais transformaram-se em capelas para Santos, para servirem de intercetoras entre o homem e Deus. Trata-se de recuperar, a partir desta planta, os fiéis perdidos com a reforma protestante e voltar à clara tradição cristã. Para os jesuítas, a igreja é agora símbolo do todo um processo que leva a humanidade à salvação, instrumento espiritual de mediação entre a terra (matéria) e o céu (espírito). Segundo o padre jesuíta Francisco Rodrigues, as igrejas jesuíticas lusas da segunda metade do séc. XVI e primeiro quartel do séc. XVII seguem o modelo da igreja de Gesú.

Deste modo, o protótipo de igreja jesuítica é a igreja do Gesú, de Roma, a primeira igreja construída para a Companhia de Jesus e aquela em que transparece os objectivos da Contra-Reforma, que mais tarde vão ser utilizados em toda a arquitectura religiosa barroca. Em 1568, foi iniciado o templo pelo arquiteto Giacomo Barozzi (Vignola). Igreja onde o altar se encontra no local de acordo com objetivos litúrgicos assumidos no Concílio – a disposição interior reúne as vantagens do plano alongado, em cruz latina, onde todas as vistas convergem para o alvo principal, disposto em situação predominante, o altar.

Fachada e Planta da Igreja de Il Gesú (Roma, Itália)

Uma só nave, larga e desafogada, seis capelas laterais intercomunicantes, de um lado e de outro da nave, erigidas em honra dos Santos e Mártires, permitindo-se a passagem destas ao transepto através de duas câmaras circulares; o transepto é ligeiramente saliente com capelas nos topos, a cúpula sobre o cruzeiro é grande, permitindo iluminar toda a abside; o altar principal fica, geralmente, numa posição bem visível, no topo da capela-mor e o púlpito[1] alto e bem posicionado para dominar sem dificuldade todo o templo e ao mesmo tempo tornar-se o ponto focal, para onde tudo converge. A necessidade de mostrar a grandeza de Deus num espaço amplo, com muita luz incentivando o povo cristão ao culto e mostrando de uma só vez todo o recinto sagrado e o orador a pregar. Esta igreja corresponde a dois tempos vividos pela Reforma, a sobriedade dos primeiros tempos e a riqueza e ostentação do segundo, onde o maneirismo da estrutura arquitetónica se mistura com barroco da decoração. [2]


[1] Tribuna, nas igrejas, de onde os oradores sagrados pregam;

[2] CHIESA DEL GESÚ DI ROMA Disponível na Internet em: <http://www.chiesadelgesu.org/>. [Referência de: 25 agosto de 2020]; Paulo F. Santos., O Barroco e o jesuítico na arquitectura do Brasil, Rio de Janeiro: Kosmos, 1951, pp. 92 e ss.

Fachada e Planta da Igreja de S. Roque (Lisboa, Portugal)

No âmbito do Padroado Português, o modelo mais próximo terá sido a igreja de S. Roque, em Lisboa. Entre 1566 e 1575 a construção de S. Roque irá subir até a cornija interior com a intervenção de Afonso Álvares. Com a morte deste, surge um segundo arquiteto, Baltasar Álvares, seu sobrinho e colaborador.

O projeto da igreja de S. Roque embora inspirado no da igreja de Gesú, apresenta em relação a esta várias diferenças como: a diminuição da largura do transepto que, na igreja de Lisboa, quase se confunde, em planta, com as capelas laterais; enquanto na arquitetura da Gesù há uma cúpula central que depende dos arcos gerados pela abóbada de berço, no padrão português a adoção das traves promove um espaço mais livre e a inexistência de abóbadas recortando o forro da nave central possibilita o uso de padrões decorativos cada vez mais sofisticados nos forros (como a pintura ilusionista); oito capelas laterais intercomunicantes; cabeceira retangular com capela-mor plana e pouco profunda; a substituição da abside[1] por uma capela-mor muito pequena e inclusão de uma teia com balaústres que delimita o avanço do santuário em relação ao corpo da igreja[2].


[1] Hemiciclo ou meia abóbada que termina as basílicas cristãs, debaixo do qual se contém o altar-mor;

[2] Oceanos. António Mega Ferreira (dir.), nº 12 (nov. 1992), Lisboa: C.N.C.D.P., pp.105-106; Maria João Madeira Rodrigues, A igreja de S. Roque, Lisboa: Santa Casa da Misericórdia, 1980.

Fachada e Planta da Igreja do Colégio de Jesus (Sé Nova, Coimbra, Portugal)

A construção do Colégio de Jesus, foi iniciada em 1547 por Afonso Álvares, mas em1560 a planta original foi modificada para se adaptar ao elevado número de religiosos que o iriam habitar. Construído depois da Igreja de São Roque, a igreja do Colégio de Jesus iniciou-se em 1598 e Baltazar Álvares, “arquiteto oficial” da Companhia de Jesus em Portugal, será o seu autor, apresentando uma evolução ao modelo lisboeta.

A fachada está inserida no modelo maneirista de Il Gesú e é composta por dois corpos sobrepostos separados por uma cornija, tendo na parte inferior cinco tramos divididos por pilastras toscanas. O frontispício de volumes robustos e estrutura de grande verticalidade é decorado com janelas simétricas e nichos com imagens de santos jesuítas. No final do século XVII foram acrescentadas duas torres recuadas em relação ao alçado principal, marcando a diferenciação em relação ao protótipo jesuíta de Roma.[1]

A planta segue o esquema em cruz latina, de abóbada tal como Il Gesú de Roma, apresentando um espaço interior de nave única, com transepto e capelas laterais intercomunicantes, e cruzeiro coberto por cúpula semiesférica com lanternim[2].


[1] Rui Pedro Lobo, Os Colégios de Jesus, das Artes e de São Jerónimo: Evolução e transformação no espaço urbano, Coimbra: [Ed. do A.], 1994 pp.30-31.

[2] Fresta para dar ar e luz.

Ciclo iconográfico da vida de Santo Inácio de Loyola – Um programa cultual e de doutrinação (1609)

Em 1609, no ano de beatificação de Santo Inácio de Loiola, fundador da Companhia de Jesus, publicou-se em Roma a sua vida «figurada», baseada na biografia do Padre Pedro Ribadeneyra, Vita beati patris Ignatii Loyolae religionis Societatis Iesu fundatoris ad viuum expressa ex ea quam..

Composta de setenta e nove gravuras mais um frontispício, obras de Rubens e de Jean Baptiste Barbé. É considerada a primeira grande sistematização iconográfica da vida do santo fundador, após as Vitae em folhas avulsas de Thomas de Leu (Paris, 1590) e de Francisco Villamena (Roma, 1600) e depois da série de doze gravuras de Hieronymos Wiex (Antuérpia, cerca de 1609).

Esta obra foi muito importante para a arte jesuíta, pois veio a servir de modelo para outras representações feitas um pouco por todo o mundo católico.

O gosto dos jesuítas pela Gesamtkunstwerk ou obra de arte total, mostra que, associando-se a artistas nacionais e estrangeiros, estes “homens de Deus” conseguiram interpretar os princípios estéticos vigentes no mundo católico pós reforma católica.

Um programa cultual e de doutrinação teve como consequência a criação de uma arte religiosa muito própria desta Ordem nos diversos níveis artístico, como, a arquitetura, a pintura, a escultura ou a ourivesaria.

VEIGA, Francisca Branco – Noviciado da Cotovia: O passado dos Museus da Politécnica 1619-1759 [texto policopiado]. Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Património Cultural. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2009.

Convalescença e conversão de Inácio, no Solar de Loyola
Sacristia da Igreja de S. Roque, Lisboa
autor desconhecido
Cerca de 1619
Com legenda coeva, subdividida em três:

“A – ESTANDO IGNACIO GRAVEMENTE HERIDO EL APARECE PEDRO Y EL DA SALUD /
B- VENCIDAS LAS TENTACIONES SE OFERECE POR SOLDADO AL SENOR /
 C- ORANDO DE NOCHE SE EL APARECE NUESTRA SENORA Y DALE EL DON DE LA CASTIDAD”
Vita Beati P. Ignatii Loiolae Societatis Iesu Fundatoris, 1609,
Incisões da autoria de Peter Paul Rubens
As temáticas, Convalescença e conversão de Inácio, no Solar de Loyola,
são tratadas em duas imagens distintas

30 agosto 1832

D. MIGUEL DÁ O BENEPLÁCITO RÉGIO À CIRCULAÇÃO DA BULA DE PIO VII, DE 7 DE AGOSTO DE 1814, QUE RESTABELECIA OFICIALMENTE A COMPANHIA DE JESUS.

No dia 30 de agosto de 1832, passados três anos da entrada em Portugal destes missionários franceses, D. Miguel deu o beneplácito régio à circulação da bula de Pio VII, de 7 de agosto de 1814, que restabelecida oficialmente a Companhia de Jesus.

Este decreto termina deste modo:

“… Sou Servido Acordar o Meu Real Beneplácito, e Régio Auxilio á sobredita Bulla do Sancto Padre Pio VII., que principia – Soliciludo omnium Ecclesiarum – datada em Sancta Maria Maior aos 21 de Agosto do anno de 1814, XV. do seu Pontificado; e Mando que tenha cumprimento, e execução nos Meus Reinos, e Domínios, como nella se contém, sem embargo de qualquer Legislação em contrario, que Revogo para este effeito sòmente; e entendendo-se que por esta Minha Soberana Resolução se não restituem aos ditos Padres da Companhia de Jesus os Bens, Propriedades, Isenções, Privilégios, e Prerogafivas, que anteriormente lhes houvessem pertencido, nem se lhes dá direito algum para pedirem a sua restituição. As Authoridades, a quem competir, o tenhão assim entendido, e executem. Palacio de Cachias em 30 de Agosto de 1832.”

Retrato do Papa Pio VII e de D. Miguel
Retrato de El-Rei D. Miguel vestindo uniforme de gala; condecorações; manto de arminho e mesa com coroa e ceptro real
Fonte: Palácio do Correio Velho