Os azulejos da Igreja do Convento de Arroios / Convento de Nossa Senhora da Nazaré / Hospital de Arroios

Ideal e vocação da Companhia de Jesus

Educar missionários capazes de irem Além-mar, repartidos pelos quatro cantos do Mundo

Painel que acumula duas cenas, ambas passadas em Paris, também elas clássicas na iconografia inaciana (pormenor)

No sítio de Arroios fundou-se um noviciado, em 1705, da Companhia de Jesus, que tinha como padroeira Nossa Senhora da Nazaré e benfeitora D. Catarina de Bragança (filha de D. João IV), com o intuito de incentivar as vocações sacerdotais para as missões na Índia.

A partir de finais do século XIX e sob administração do Hospital Real de São José, funcionou como unidade hospitalar de isolamento para doentes com peste bubónica, cólera, varíola, lepra e tuberculose. O Hospital de Arroios foi desativado em 1993.

Armas de Portugal e de lnglatera
D. Catarina (viúva de Carlos II) benfeitora do Noviciado de Arroios

• Cartela

  primeiro, Armas de D. Carlos II, Rei de Inglaterra;

  segundo, Armas da Casa Real de Bragança

• Encimado

 Coroa Real

• Ladeando a cartela

Leão e Unicórnio escocês

A igreja data provavelmente do início do século XVIII. Mas tanto a igreja como o edifício conventual tinham a traça das casas da Companhia de Jesus, em polígono, com imagens dos Santos Padroeiros e claustro com lambrins em pedra de lioz.

A partir de 2000, a igreja ficou afeta ao culto ortodoxo (a cargo da Comunidade Ucraniana de Arroios).

Da presença da Companhia de Jesus subsiste na sua igreja um dos raros conjuntos de painéis de azulejo com iconografia jesuíta, alusiva à vida de Santo Inácio de Loyola.

A sala da antiga entrada do edifício, virada a SO., era revestida de painéis de azulejo de composição figurativa, formando silhares, representando episódios da vida de Santo Inácio de Loyola: Conversão de Santo Inácio; Santo Inácio ajoelhado troca as vestes de guerreiro pelas de mendigo; Santo Inácio salva um rapaz de afogamento; Santo Inácio antes de morrer recebe a aparição de São Pedro. O quinto painel desapareceu em data desconhecida. Os outros quatro painéis foram retirados no início do séc.XXI pelo Museu Nacional do Azulejo, foram restaurados e estão expostos na Igreja. 

Painel de azulejos, agora destacado e encostado à parede, inserido na temática CICLO DA VIDA DE SANTO INÁCIO DE LOYOLA

Painel agora destacado e encostado à parede inserido na temática CICLO DA VIDA DE SANTO INÁCIO DE LOYOLA

Convalescença e conversão de Inácio, no Solar de Loyola

Convalescença de Inácio na Casa Solar de Loiola,  deitado no leito com a perna entrapada, após ter sido ferido na Batalha de Pamplona, a 24 de Maio de 1522, com os livros à cabeceira (Vidas de Santos e Imitação de Cristo) recebendo uma visão que o fez melhorar, na véspera da festa de S. Pedro, a 28 de Junho.

Inácio peregrino em Monserrate, dá as suas roupas a um peregrino e veste-se de saco.

Acumula duas cenas, ambas passadas em Paris, também elas clássicas na iconografia inaciana:

Inácio mergulhado na água gelada em Paris (pela conversão de um pecador) – Este episódio refere-se a um encontro passado, em Paris, no período em que frequenta a Universidade de Paris (onde chega a 2 de Fevereiro de 1528, e de onde só parte em Abril de 1535). Sabedor de um homem que vivia em concubinato e dava escândalo público, Inácio esperou-o uma manhã, junto a uma ponte sobre uma lagoa metido na água gelada. Interrogado pelo homem que atravessava a ponte sobre a razão de tal procedimento, respondeu que estava ali a sofrer pelos pecados do seu interlocutor.

Em segundo plano Inácio diante de Diogo de Gouveia na Universidade de Paris (em que este lhe pede perdão pelas calúnias) – O episódio refere-se a uma cena passada em Paris (1528/1535) entre Inácio, que fora acusado injustamente pelo Principal do Colégio de Santa Bárbara, Diogo de Gouveia (1471/1557), que reconhecendo, posteriormente a inocência de Inácio se retracta publicamente, ajoelhando-se diante dele e de toda a academia assiste edificada ao episódio.

Inácio peregrino em Monserrate entrega a espada diante da imagem da Virgem.

A formação de um noviço da Companhia de Jesus no Noviciado da Cotovia (1616-1759)

[Pregação (Martins: Via Spiritus 11, 2004)].

Santo Inácio de Loyola reuniu em dois documentos toda a legislação jesuítica pela qual a Ordem se manteve una (corpo e mente): as Constituições e os Exercícios Espirituais, completando a primeira os segundos. A primeira cuida da vida em grupo, isto é, organiza a Companhia de Jesus e a vida dos seus membros, os segundos cuidam da parte espiritual e individual dos indivíduos.

Para o noviço da Companhia de Jesus a oração vocal e mental, a correcção dos hábitos, a assimilação dos valores da vida espiritual, assistir às instruções sobre a doutrina cristã e sobre a vida religiosa específica do instituto, fazem parte da sua formação de base.

O noviciado vai estruturar-se, basicamente, à volta de seis experiências/provações que se consideram principais (Const. 64-70) e que constituem “tempos fortes” de aprofundamento e confirmação da vocação:

primeira, um mês de Exercícios Espirituais que dão ao jesuíta a base e estrutura que orientará a sua vida espiritual e vão ser uma verdadeira escola de oração, de identificação com Cristo, de busca e acolhimento da vontade de Deus;

a segunda, será servir em hospitais durante outro mês, onde vão ser chamados a ajudar nos trabalhos, a servir e a conviver com os doentes – uma oportunidade para ter contacto com a realidade do sofrimento, bem como desenvolver a capacidade de abertura, de relação e de solidariedade, vão baixar-se e humilhar-se;

a terceira consiste num mês de peregrinação, sem dinheiro e mendigando, a fim de se habituarem a comer e a dormir mal. É um tempo para descobrir o valor do essencial na vida e deixar amadurecer a confiança na providência divina. O colégio de Coimbra ainda mantém o registo dos Avisos para os peregrinos, que são conselhos de vida espiritual destinados aos peregrinos;

as outras três experiências são, exercer ofícios domésticos para se humilhar, ensinar a doutrina cristã e confessar e predicar, consoante os tempos, os lugares ou a sua própria capacidade.

Trata-se, por tanto, de provar com estas experiências se a atitude e disposição do noviço está de acordo com a vida em missão na Companhia de Jesus além de criar no noviço atitudes correspondentes a um apóstolo evangélico.

No fim do noviciado, passadas todas as provações vão entregar-se, de acordo com as suas aptidões e talentos, às várias ocupações que a Companhia de Jesus lhes proporciona: estudo e lides literárias; serviço doméstico; Ministérios sacerdotais[1].

[Ministérios da Companhia de Jesus (Martins: Via Spiritus 11, 2004)].

O Padre António Franco no seu livro Imagem da Virtude em o Noviciado da Companhia de Jesu na Corte de Lisboa, refere o fim dos noviços da Cotovia:

«…o Padre lhe reprezentou esta caza, declarou o fim, pêra que se fundava, o qual era criaremse nella sugeytos, que fossem estudar aos collegios, e depois se repartissem pellas missoens da India, China, Japaõ, e outras da gentilidade, pêra pregar o Evangelho; donde resultava a Deos grande gloria, e augmento à fe Catholica»[2].

Faz referência às missões como «…o seu dia de allivio…»[3].


[1] Rodrigues, Francisco, História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal, Porto : Liv. Apostolado da Imprensa, 1931- ,  T.I, v. I, p. 506.

[2] FRANCO, António, Imagem da Virtude em o Noviciado da Companhia de Jesu na Corte de Lisboa, Coimbra : no Real Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1717,  p.14.

A.N.T.T., Colecção do Colégio dos Nobres, Liv. 187, CAPº 3

[3] FRANCO, António, Ibidem, p.8.

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários Portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China. Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados Mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos, entre eles: Padre Gabriel de Magalhães, Padre Manuel Dias Júnior, Padre Tomás Pereira, Padre João Francisco Cardoso, Padre André Pereira, Padre Domingos Pinheiro, Padre Félix da Rocha, Padre José de Espinha, Padre André Rodrigues. In VEIGA, Francisca M.C. Branco, Astrónomos Portugueses na China, Mestrado em Património Cultural de Matriz Cristã pela Universidade Católica Portuguesa, Cadeira de Museologia, 2006.

Veja-se, inclusive, VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.

Peças cedidas ao Museu Arqueológico do Carmo pela Escola Politécnica [São Estanislau Kostka e São Luís Gonzaga]

Nas peças cedidas ao Museu Arqueológico do Carmo pela Escola Politécnica[1] encontram-se duas peças do espólio do Noviciado da Cotovia: uma escultura de São Estanislau Kostka (padroeiro dos noviços) e uma de São Luís Gonzaga (padroeiro da juventude).

São Estanislau Kostka e São Luís Gonzaga (Museu Arqueológico do Carmo)

A estatuária religiosa em pedra possui uma função ornamental e identificativa. Trata-se de imaginária integrada em nichos abertos nas fachadas principais dos edifícios religiosos, aludindo ao orago do templo ou ao universo devocional da comunidade religiosa.

Neste caso específico encontramo-nos iconograficamente perante dois santos da Companhia de Jesus. 

São Estanislau Kostka (padroeiro dos noviços) surge-nos, iconograficamente, sustentando um menino nos seus braços, levando-nos ao encontro com sua história onde se conta que, estando doente e durante um sonho, viu a Virgem Maria colocar o Menino Jesus em seus braços. Nossa Senhora, na sua aparição, convidou-o a ingressar na Companhia de Jesus.

A indumentária de ambas as esculturas é semelhante, estando ambos vestidos como membros da Companhia de Jesus, isto é, com sobrepeliz[2].

São Luís Gonzaga (padroeiro da juventude)[3] tem como atributos um lírio, um crânio, uma disciplina ou um crucifixo. Um desses objetos, agora desaparecido da sua mão esquerda era por ele dado a contemplar.

Imagens que física e estilisticamente se aproximam uma da outra, onde a desproporção pode igualmente ser observada e sendo visível ao nível da cabeça, parecendo à vista desarmada um restauro quase desastroso. Cultiva-se o gosto pelo gesto e pela exploração do momento determinante da ação. Mas se olharmos estas figuras num plano mais elevado, esta desproporção ameniza-se. Ambas as peças estão sobre uma base do mesmo material mas também ela provocando alguma dinâmica.


[1] Informação recolhida em José Morais Arnaud (coord.); Carla Varela Fernandes (coord.); Vitória Mesquita (coord.), Construindo a Memória: As Colecções do Museu Arqueológico do Carmo, Lisboa: Associação dos Arqueólogos Portugueses, 2005 (a identificação dos santos encontra-se incorreta).

[2] A Companhia de Jesus ordenou o uso da sobrepeliz durante o sermão e nas lições sagradas, daí surgirem estas duas estátuas com este tipo de indumentária.

[3] São Luís Gonzaga é considerado “Patrono da Juventude”. Seu corpo repousa na Igreja de Santo Inácio, em Roma. São Luís Gonzaga escreveu: “Também os príncipes são pó como os pobres: talvez, cinzas mais fedidas”. Após ter recebido a primeira comunhão das mãos de São Carlos Borromeu, decidiu-se pela vida religiosa, entrando para a Companhia de Jesus.

Veja-se, VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.

IGREJA DE GESÚ (Roma) / IGREJA DE S. ROQUE (Lisboa)

A igreja de Gesú, em Roma, tornou-se o modelo arquitectónico a seguir, aquele que traduz as leis e as regras da Companhia de Jesus, onde o altar se encontra no local de acordo com objetivos litúrgicos assumidos no Concílio: uma só nave, larga e desafogada; seis capelas laterais intercomunicantes, de um lado e de outro da nave, erigidas em honra dos Santos e Mártires, permitindo-se a passagem destas ao transepto através de duas câmaras circulares; o transepto é ligeiramente saliente com capelas nos topos; a cúpula sobre o cruzeiro é grande, permitindo iluminar toda a abside; o altar principal fica, geralmente, numa posição bem visível, no topo da capela-mor e o púlpito[1] alto e bem posicionado para dominar sem dificuldade todo o templo e ao mesmo tempo tornar-se o ponto focal, para onde tudo converge.

(9) Altar-mor                                                  (8) Abside

(10) Capela de Madonna della Strada            (7) Capela do Sagrado Coração de Jesus

(11) Capela de Santo Inácio                           (6) Capela de Francisco Saverio

(15) Cúpula                                                     (16) Sacristia

(18) Crucifico maior                                       (17) Ante Sacristia

(12) Capela da Santíssima Trindade               (2) Nave

(13) Capela da Sagrada Família                     (5) Capela dos Anjos

(14) Capela de Francisco Borgia                    (4) Capela da Paixão de Cristo

(1) Fachada                                                     (3) Capela de Santo André

A necessidade de mostrar a grandeza de Deus num espaço amplo, com muita luz, incentiva o povo cristão ao culto mostrando de uma só vez todo o recinto sagrado e o orador a pregar.

Esta igreja corresponde a dois tempos vividos pela Reforma, a sobriedade dos primeiros tempos e a riqueza e ostentação do segundo, onde o maneirismo da estrutura arquitectónica se mistura com barroco da decoração.

No âmbito do Padroado Português, o modelo mais próximo terá sido a igreja de S. Roque, em Lisboa. O projecto da igreja de S. Roque embora inspirado no da igreja de Gesú, apresenta em relação a esta várias diferenças como: a diminuição da largura do transepto que, na igreja de Lisboa, quase se confunde, em planta, com as capelas laterais; enquanto na arquitectura da Gesù há uma cúpula central que depende dos arcos gerados pela abóbada de berço, no padrão português a adopção das traves promove um espaço mais livre e a inexistência de abóbadas recortando o forro da nave central possibilita o uso de padrões decorativos cada vez mais sofisticados nos forros (como a pintura ilusionista); oito capelas laterais intercomunicantes; cabeceira rectangular com capela-mor plana e pouco profunda; a substituição da abside[2] por uma capela-mor muito pequena e inclusão de uma teia com balaústres que delimita o avanço do santuário em relação ao corpo da igreja.

 (9) Capela da Sagrada Família                      (1) Capela da Senhora da Doutrina

(8) Capela de Santo António                          (2) Capela de São Francisco Xavier

(7) Capela da Senhora da Piedade                  (3) Capela de São Roque

(6) Capela de São João Baptista                     (4) Capela do Santíssimo

(13) Altar do Presépio                        (11) Altar da Anunciação

(12) Altar da Santíssima Trindade                 (10) Altares das Relíquias

(10) Altares das Relíquias                              (5) Capela-Mor

 (14) Sacristia 

Segundo o padre Francisco Rodrigues as igrejas jesuíticas lusas da segunda metade do séc. XVI e primeiros quartéis do séc. XVII seguem o modelo da igreja de Gesú. No seu livro História da Companhia de Jesus na assistência de Portugal ele afirma:

“No estilo dessas obras arquitectónicas …seguiu-se geralmente o que prevalecia naquela época de renascimento. Tôdas elas se assemelhavam nas linhas gerais, e distinguiam-se facilmente de outros estilos por certas formas características, de regra observadas na sua construção. Alargavam-se desafogadamente na amplidão de uma só nave, abriam-se lateralmente de um lado e do outro do corpo da igreja em capelas fundas com seu arco de cantaria; o altar principal ostentava-se bem visível no tôpo da capela-mor, e o púlpito suspendia-se em tal altura e posição, que dominasse sem dificuldade tôda a vastidão do templo. Desta sorte se oferecia ao povo cristão uma idéia mais impressionante da grandeza de Deus com a maior largueza do espaço e mais abundância de luz, providenciava-se maravilhosamente à magnificência do culto, abrangendo a multidão dos fiéis com seu olhar tôda a extensão do recinto sagrado, e podiam ainda os maiores concursos ver o orador e escutar-lhe fàcilmente a voz. Assim foi o sentimento religioso e a facilidade imponência das cerimónias cultuais, que traçaram, como era justo, as leis da arquitectura dos santuários.
Veio de Roma a insinuação do estilo, quando se propôs, como norma para as igrejas da Companhia o templo magnífico do Gesú, que por aquêles mesmos anos e com iguais intuitos de prática utilidade se construíu no centro da cidade papal, sob a direcção de arquitectos insignes, como eram VIGNOLA e DELLA PORTA. De feito em 1568 o santo Geral Francisco de Borja aconselhava que as igrejas da sua Ordem fôssem de uma só nave, como a igreja do Gesú. Nesse ano precisamente se abriam osalicerces ao templo farnesiano”[3].


[1] Tribuna, nas igrejas, de onde os oradores sagrados pregam.

[2] Hemiciclo ou meia abóbada que termina as basílicas cristãs, debaixo do qual se encontra o altar-mor.

[3] Francisco Rodrigues S.J., História da Companhia de Jesus na assistência de Portugal, t.II, vol. 1, p. 180.

Veja-se, VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.

As primeiras casas dos jesuítas em Lisboa

A Companhia de Jesus nos séculos XVI a XVIII esteve ativa em Portugal ao longo de um período de duzentos e dezanove anos, desde a sua fundação em Roma, em 27 de setembro de 1540, até 3 de setembro de 1759, data do decreto do Marquês de Pombal que promulgou a sua extinção no nosso país.

Foi em 1540 com D. João III (1521-1557), que a Companhia de Jesus entrou em Portugal, sendo o nosso país a primeira Província jesuíta no mundo. Numa época de forte expansão territorial D. João III irá ser o primeiro rei na Europa a contactar Inácio de Loyola devido à necessidade de encontrar missionários, homens letrados, para evangelizar o Oriente, pregando e convertendo à Fé cristã os nativos. D. João concedeu privilégios aos jesuítas, nomeadamente casas gratuitas, liberdade de enviar missionários para todo o mundo e de fundar colégios.

A Companhia de Jesus instalou-se em Portugal continental e Ilhas Atlânticas, durante este período, fundando diversas Casas Professas, Colégios, Noviciados e quintas de recreio. Só em Lisboa, à data da extinção da Companhia havia sete instituições jesuítas: a Casa Professa de S. Roque, o Colégio de Santo Antão, o Seminário de S. Patrício dos irlandeses católicos[1], o Noviciado de Nossa Senhora da Assunção (da Cotovia), o Colégio de S. Francisco de Xavier em Alfama, o Hospício de S. Francisco de Borja e o Noviciado de Nossa Senhora da Nazaré em Arroios (noviciado das Missões).


[1] Em 1611 António Rodrigues Ximenes instalou num edifício antigo da Tutoria da Infância este Seminário que se encontrava sob a direção dos jesuítas. Expulsos os jesuítas por Pombal em 1759, o Colégio de S. Patrício manteve-se em atividade até cerca de 1830, instruindo crianças pobres.

Seminário de S. Patrício dos irlandeses católicos

Noviciado de Nossa Senhora da Assunção (da Cotovia)

Colégio de S. Francisco de Xavier em Alfama

Hospício de S. Francisco de Borja

Noviciado de Nossa Senhora da Nazaré em Arroios (noviciado das Missões)

Veja-se, inclusive, VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China

Nos séculos XV e XVI desenvolveram-se em Portugal os meios técnicos necessários que possibilitaram as grandes navegações, as quais, por sua vez, vieram a permitir progressos científicos notáveis nos mais variados domínios, com destaque para a Náutica, a Cartografia, a Construção Naval, a Medicina e a Botânica.

As viagens dos Descobrimentos obrigaram os portugueses a considerar o regime dos ventos e das correntes no Atlântico e a desenvolver a náutica astronómica, isto é, a capacidade de conhecer a posição aproximada dos navios em alto mar.

Para esse feito utilizaram-se instrumentos de observação astronómica como o quadrante e o astrolábio náuticos ou ainda a balestilha, que permitiam determinar a altura de um astro sobre o horizonte e dessa forma calcular a latitude do lugar onde se realizava a observação.

Lisboa tornou-se no centro de intercâmbio cientifico entre os Colégios Europeus e as missões orientais.

No Colégio (jesuíta) de Santo Antão, em Lisboa, funcionou desde finais do século XVI até ao século XVIII uma “Aula de Esfera”, pública (“Aula de Esfera” por se tratar de textos sobre Tratados «da esfera», dedicados à exposição dos princípios de cosmografia).

Programas seguidos nesta aula:

Arte de Navegar

Estudo da Geografia/Hidrografia

Cosmografia, construção e uso de globos

Astrologia Judiciária / astrologia prática

Geometria (ingresso na carreira militar)

A «aula de esfera» do Colégio de Santo Antão foi muito importante na cultura portuguesa do século XVII por ser o único curso onde se professavam as ciências tão intimamente ligadas à Matemática.

Aqui estudaram muitos dos homens que retratámos em outras publicações e que se distinguiram em cargos que dependiam destas ciências.

Jesuítas Matemáticos Portugueses no Império da China (século XVI-XVIII).

Astrónomos jesuítas Portugueses na China (1)

TOMÁS PEREIRA S.J. [Nome chinês: Xu Risheng, cuja tradução é “Sol que nasce aos poucos”].

S. Martinho do Vale (Braga)

Missionário jesuíta, músico, matemático.

Nasceu a 1 de novembro de 1645, e S. Martinho do Vale, perto de Braga e morreu a 24 dezembro de 1708 em Beijing (Pequim).

Descende de uma família nobre portuguesa Costa Pereira estudou no Colégio de S. Paulo, em Braga.

Integrou durante 35 anos a corte do imperador chinês Kangxi (1654 – 1722), cuja governação marca o início de uma era áurea da civilização chinesa.

Zarpou de Lisboa em 15 de abril de 1666 e acabou a sua formação na Índia.

Saiu de Macau em 1672 e chegou a Pequim em 1673. Foi convidado do Imperador Xangxi devido aos seus dotes naturais e musicais. Ensinou o Imperador a tocar o “clavicórdio”.

No ano de 1688 foi encarregue de traçar as fronteiras da Sibéria com a China.

Vice-Presidente do Tribunal das Matemáticas, em Pequim. Depois da morte de Verbiest (1688) Xangxi nomeou Tomás Pereira presidente da Comissão de Astronomia, mas Pereira declinou, ficando como Presidente substituto com António Pereira de 1688 a 1694.

Tomás Pereira fabricou um relógio para a torre de uma igreja, em Pequim.

Introduziu no interior da torre um tambor com espigões, semelhantes aos das caixas de música, que acionavam arames ligados aos badalos de um carrilhão o qual, a todas as horas, tocava músicas tradicionais chinesas.

Astrónomos jesuítas Portugueses na China (2)

ANDRÉ PEREIRA S.J. (1689-1743) [Nome chinês: XU Moude, Zhouxian].

Missionário, sinólogo, astrónomo, matemático.

Nasceu em 1689, no Porto e morreu em 1742, em Beijing (Pequim)

Em 1710 estudava Filosofia na Universidade de Évora, onde tirou o grau de Mestre em Artes.

A 13 de Março de 1716, embarcou em Lisboa na nau Sant’Ana rumo a Macau, onde chegou a 30 de Agosto do mesmo ano.

Concluiu os estudos no Colégio Macaense.

Em 1724 foi chamado para a corte de Pequim como astrónomo e matemático e três anos depois recebia do Imperador a promoção a vice-presidente do Tribunal astronómico.

Deixou várias observações astronómicas, entre elas, aos satélites de Júpiter, em Pequim.

Período de grande intercâmbio científico entre os astrónomos portugueses, em Pequim, e a Academia das Ciências de S. Petersburgo, na Rússia (com o médico português Ribeiro Sanches).

Foi nomeado pelo Imperador ao grau de Mandarim.

Entre 1583 e 1805, portugueses presidiram, em Pequim, ao célebre Tribunal das Matemáticas – uma espécie de Ministério do Interior encarregue de elaborar o Calendário Imperial e que empregava 150 a 200 funcionários. André Pereira foi vice-presidente deste Tribunal de 1728 a 1742 .

Sobre a atividade científica de alguns portugueses em Pequim escreve Francisco Rodrigues:

“Matheus Ricci, auxiliado pela dedicação de tantos portugueses como Duarte Sande, António de Almeida, Francisco Cabral, João Soeiro, João da Rocha, Gaspar Ferreira e Manuel Dias, sénior, chegou a gozar de tamanha reputação pela sua ciência que julgava a sua permanência segura no Celeste Império.”

China: Encontro de Culturas

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.

Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos. Entre eles destacamos: Padre Gabriel de Magalhães; Padre Manuel Dias Júnior; Padre Tomás Pereira; Padre João Francisco Cardoso; Padre André Pereira; Padre Domingos Pinheiro; Padre Félix da Rocha; Padre José de Espinha; Padre André Rodrigues.

Astrónomos jesuítas Portugueses na China (3)

GABRIEL DE MAGALHÃES S.J. [Nome chinês: An Wensi, Jingming].

Missionário, sinólogo e escritor.

Nasceu em 1610 em Pedrogão Grande, Leiria e morreu a 6 de maio de 1677, em Beijing (Pequim).

Descendente do grande navegador Fernão de Magalhães.

Estudou Filosofia no Colégio das Artes, em Coimbra.

A 21 de março de 1634 zarpou de Lisboa para Goa. Em Macau ensinou Filosofia e obteve o grau de Mestre em Artes.

Possuía um talento extraordinário para idealizar máquinas com que divertia o Imperador Xangxi.

Ao serviço dos imperadores Shunzhi e Kangxi,e ganhando a sua simpatia e afeição, Magalhães construiu uma série de dispositivos mecânicos:

– Construiu um robot com uma figura humana, que quando se dava corda podia caminhar por 15 minutos, levava um escudo numa mão e na outra tinha uma espada desembainhada.

– Construiu um relógio de carrilhão e torre que tocava uma música chinesa de hora a hora.

– Construiu outro relógio onde o Imperador podia ver as horas à luz das estrelas.

Foi auxiliar de Adam Schall no Tribunal de Astronomia.

O Imperador Xangxi escreveu o seu epitáfio.

Escreveu “Nova relação da China”.

Imagens:

  • Igreja de São José, Pequim大聖 若瑟 堂 (em chinês)
  • MAGALHÃES, Gabriel de, Nova relação da China : contendo a descrição das particularidades mais notáveis deste grande império.
  • Hong Taiji, whose five-year-old son, Fulin, became the Shunzhi Emperor in 1643.
  • The Kangxi Emperor at the age of 45, painted in 1699
  • Modern striking turret clock movement mounted in a clock tower

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (4)

FÉLIX DA ROCHA S.J. – Lisboa (1713-1781)[Nome chinês: Fu zoulin, Lisi].

Missionário, cartógrafo, astrónomo, escritor.

Nasceu a 30 de Agosto de 1713, em Lisboa e morreu a 22 de Maio de 1781 em Beijing (Pequim).

Saiu de Lisboa a 13 de Abril de 1735 e chegou em 1737 a Macau continuando os seus estudos de Teologia no Seminário.

Em Pequim, em 1753, o Imperador Quianlong nomeou Assessor do Tribunal das Matemáticas.

Após o falecimento do seu diretor, August von Hallerstein, passou a dirigir o Observatório Astronómico de Pequim. A partir de 1774 o cargo de presidente deste departamento foi sempre ocupado por jesuítas portugueses, sendo o primeiro Félix da Rocha e o último D. Caetano Pires.

O seu superior, Ignacio Koegler, descreve-o como «um jovem de génio vivo e penetrante e ávido de saber».

Desempenhava tarefas matemáticas intervaladas com demoradas excursões de Cartógrafo.

Em 1755, depois de ter feito os mapas de Sungaria, Turquistão e partes da Bujara, onde viviam os mongóis ocidentais, Quianlong elevou-o a Mandarim de 2° grau.

Entre agosto de 1774 e março de 1777 fez os mapas do Tibete.

Duas das suas obras mais importantes feitas na China:

O atlas da China – “Huangzhao Zhungwai Yihong Yotu”

O pequeno Tibete – “Weicang Tushi”

Em 1770, Cibot S.J. escrevia o seguinte: «Acabam de ser publicadas mapas e notícias sobre regiões recentemente conquistadas, sem que sejam mencionados os nomes dos nossos padres portugueses que, por ordem imperial, recolheram os dados e as coordenadas desses mesmos locais».

O jesuíta Félix da Rocha enviou para a famosa e prestigiada Academia de São Petersburgo 64 tomos das obras escritas pelos jesuítas de Pequim.

Morreu dois meses antes de completar 68 anos.

I – Mandarim, em finais da Dinastia Qing

II – Retrato do Imperador Qianlong (乾隆 Qiánlóng) (Hongli (弘历), 25 de setembro de 1711 – 7 de fevereiro de 1799)

III – Vista geral do Observatório de Pequim, após adaptações executadas pelo Padre Verbiest, entre 1669-1673.

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (5)

JOSÉ DE ESPINHA S.J. (1722-1788),

[Nome chinês: GAO Shensi, Ruose, 高慎思]. Lamego

Missionário, cartógrafo, astrónomo.

O padre José de Espinha nasceu em Vilar de Torpim, Lamego, em 1722 e faleceu em Pequim em 10 de Junho de 1788.

Embarcou para Goa em 1749 e aí terá sido ordenado. Estava em Macau em 1751 e a 22 de Agosto do mesmo ano entrou em Pequim.

Acompanhou Félix da Rocha nos trabalhos de cartografia em 1756. Foi vice-diretor do Tribunal das Matemáticas e director, a partir de 1781, como mandarim de grau quatro, concedida por ocasião da sua viagem à Tartária.

José Espinha e os seus companheiros jesuítas, André Pereira e Félix da Rocha alcançaram grande notoriedade no Departamento de Astronomia. O Eclipse do Sol ocorrido em julho de 1730, consagrou o prestígio destes religiosos cientistas, cuja previsão superou em rigor a dos académicos chineses.

Em 1775, D. Alexandre Guimarães, o bispo de Macau, nomeou o padre José de Espinha para vigário apostólico da diocese de Pequim.

Os «padres da corte», como eram conhecidos entre os portugueses, alcançaram grande influência política, de tal modo que foram várias vezes decisivos na defesa das posições portuguesas. Como nos relata Francisco Rodrigues, na sua obra “Jesuítas Portugueses Astrónomos na China”, é possível que Macau tenha sobrevivido graças aos jesuítas de Pequim.

Imagens:

I – Estela tumular do “ilustre Dao”, jesuíta José D’espinha (1722-1788), no cemitério de Chala em Pequim.

II – Francisco Rodrigues, “Jesuítas Portugueses Astrónomos na China”. Instituto Cultural de Macau, 1990.

III – Traje do Astrónomo chinês em 1675

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (6)

MANUEL DIAS JÚNIOR S.J. (1574-1659)

[Nome chinês: YANG Manuo, Yenxi].

Missionário, astrónomo, escritor.

Nasceu em 1574 em Castelo Branco e morreu a 1 ou 4 de março de 1659 em Hangzhou (Zeijiang), China.

De 1596 a 1600 estudou Filosofia no Colégio das Artes em Coimbra, seguindo o curso de Matemática de Grienberger (sucessor de Clavius no Colégio Romano).

É considerado pela historiografia como um dos mais reputados jesuítas portugueses da missão da China.

Saiu de Portugal a 11 de Abril de 1601 para a Índia a bordo da nave “Santiago”, e provavelmente chegou a Goa no mesmo ano. Terminou aí os seus estudos de Teologia.

Chegou a Macau por volta de 1605 e ensinou teologia seis anos.

Em 1613/14 chega a Pequim com a ordem de «ensinar matemática aos chineses».

Em 1623, Dias foi nomeado vice-provincial da recém criada vice-província da China, e permaneceu nesta posição até 1635.

Em 1627, esteve em Hangzhou, onde construiu uma igreja e estabeleceu um Seminário. Morreu em Hangzhou, sendo enterrado fora da muralha da cidade, num local conhecido como Dafang jing 大方井.

Nas suas publicações afirmava a existência de esferas celestes sólidas. Esta doutrina estranha à cosmologia chinesa, estimulou reacções muito vivas entre os mandarins, referidas na Europa por Cristóvão Borri.

Em 1614, Manuel Dias escreve na China o compêndio Tianwen lue 天問略 (Tratado de Questões sobre os Céus), em mandarim.

É um pequeno compêndio de cosmografia e astronomia. No fim desta obra incluí a descrição, com figuras, da nova observação telescópica, feita por Galileu em 1609, sobre os “braços” de Saturno.

Galileu tinha descoberto duas saliências na altura do equador de Saturno. Como o telescópio não era suficientemente poderoso para que ele pudesse perceber os anéis do planeta, atribuiu as saliências a duas pequenas luas, bem próximas à superfície de Saturno. Quando as notícias chegaram a Pequim, Manuel Dias fez este desenho no seu manual de astronomia Tianwen lue 天問略.

O primeiro globo terrestre da China é feito por Manuel Dias e pelo italiano Nicolau Longobardo. É do ano de 1623, quando ainda não havia noção na China de que a Terra era esférica.

Imagens:

– Assinatura de Manuel Dias

– Tianwen lue 天問略de Manuel Dias Júnior (Pequim, 1615).

In https://www.loc.gov/item/2021666323/

– Globo chinês, feito em 1623 na China, por Manuel Dias Júnior.

– Tianwen lue, vol.1, p.3 e 4. In https://www.loc.gov/item/2021666323/

-A primeira descrição das observações telescópicas de Galileu na China, pelo jesuíta Manuel Dias júnior. A figura representa o planeta Saturno, tal como Galileu o viu.

JOÃO FRANCISCO CARDOSO SJ. (1677- 1723)

[Nome chinês: MAl Dacheng, Erzhang].

Missionário e Cartógrafo

Nasceu a 13 de junho de 1677 perto de Leiria, e morreu a 14 de agosto de 1723 em Beijing (Pequim).

Estudou no Colégio de Santo Antão, em Lisboa.

Zarpou de Lisboa em março de 1708, chegou a Macau em outubro e à China, no mesmo ano, entrando em Pequim em julho de 1711.

Levou consigo os presentes do rei de Portugal para o Imperador Kangxi, entre eles vinho espanhol.

A célebre “Querela dos Ritos Chineses”, atiçada após a chegada das Ordens mendicantes à China, no princípio da década de 1630, questionou a acomodação do Cristianismo à cultura clássica chinesa prevalecente entre os missionários da Companhia de Jesus desde o tempo de Matteo Ricci.

O cardeal Carlo Tommaso Maillard de Tournon, Patriarca de Antioquia e legado apostólico enviado à China em 1703, fora incumbido pelo papa Clemente XI da missão de minar tanto a actividade dos jesuítas, como o monopólio do padroado concedido ao rei de Portugal nas dioceses chinesas. D. João V reagirá, nomeando seu “enviado extraordinário” a Pequim o matemático jesuíta João Francisco Cardoso, naquela que foi uma das respostas mais visíveis à crise dos Ritos.

O Imperador mandou os jesuítas Pierre-Vincent de Tartre (1669-1724) e João Francisco Cardoso preparar os mapas das províncias de Jiangxi, Guangdong e Guangxi. J. F. Cardoso enviou cópias dos mapas para Portugal.

Du Halde descreve estes mapas como tendo “cada um dez pés quadrados” (DU HALDE, Jean-Baptiste, S. J. — A description of the empire of China and Chinese Tartary, London, 1738-1741, vol. l, pp. VII).

Cardoso vai substituir Tomás Pereira na presidência do Tribunal das Matemáticas.

Foi nomeado mandarim pelo Imperador como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos.

No dia 14 de agosto de 1723, morreu em Pequim o Pe. João Francisco Cardoso, grande sábio e artista jesuíta, autor de um altar que o Imperador lhe encomendou.Morre cedo, com quarenta e seis anos, um ano depois de Kangxi.

ANDRÉ RODRIGUES S.J. (1729-1796)

[Nome chinês: AN Guoning, Yongkang, 安國寧].

Missionário, astrónomo.

N. 3 fevereiro 1729, Mortagoa (Viseu), Portugal.

M. 2 dezembro, 1796, Beijing/Pekín, China.

Especializado em astronomia, partiu para a China em 1754 chegando a Pequim a 13 de Maio de 1759.

Em 1773, pelo breve Dominus ac Redemptor o papa Clemente XIV extinguiu a Companhia de Jesus. Nesse ano viviam em Pequim seis jesuítas portugueses, João Seixas (1710-1785), Félix da Rocha (1713-1781), José de Espinha (1722-1788), Inácio Francisco (1725-1792), José Bernardo de Almeida (1728-1805) e André Rodrigues (1729-1796). André Rodrigues vivia na Igreja de Dongtang (王府井 天主堂), ou de S. José com mais dois missionários portugueses, João de Seixas, Prefeito da Cristandade que conta uns mil e seiscentos cristãos de confissão anual e Inacio Francisco, ex-procurador e interino ecónomo.

Igreja de São José dos Portugueses em Pequim

– Gravura do último quartel do séc XVIII.

Arquivo Histórico Ultramarino. Lisboa

Em 1775, dois anos após a supressão da Companhia de Jesus, foi nomeado vice-diretor e, posteriormente, diretor de
Tribunal de Astronomia.

Em 1775, André Rodrigues e o vice-provincial José Espinha notificaram o Imperador Qianlong que a sua igreja, conhecida como a Nantang (Igreja do Sul), tinha sido destruída num incêndio (13 de fevereiro). Qianiong doou 10.000 taeies de prata para a sua reconstrução.

Rodrigues deixou descritas em, “Memórias da Real Academia das Ciências de Lisboa”, numerosas observações de eclipses do sol e da lua, feitas em Pequim, para além de algumas cartas.

A memória de Rodrigues – “Observationes Atronomicae Habitae”, publicada no tomo II (1799)(*2) inclui registos de observações feitas em Pequim, por ele ou por outros padres, entre 1753 e 1795. Para além do trânsito de Mercúrio ocorrido a 16 de maio de
1753 e registado pelo padre Augustin Hallerstein (1703 – 1774), de vários eclipses do Sol e da Lua registados por Rodrigues, a memória contém ainda uma espécie de adenda com os registos de observações do eclipse do Sol de 15 de Julho de 1730 feitos pelos padres jesuítas Inácio Kögler (1680 – 1746) e André Pereira (1689 – 1743).

Foi promovido a Mandarim de 3º grau a 19 de agosto de 1793 (quase o topo da hierarquia do mandarinato), para que servisse de interprete na embaixada britânica. Christoph Gottlieb von Murr publicou a sua “Tradução Fidelis Litterarum, Lusitanicè scriptarum à P. Andrea Rodriguez, Tribunalis Mathematici Praeside tertio, Pekini in Residentia S. Josephi 15 Augusti 1777″*. Murr também mencionou que enviou cartas à delegação de Macartney (a primeira missão diplomática britânica na China), datadas de 7 de maio e 6 de agosto de 1793 (Murr, Litterae patentes, p. 26).

Os jesuítas esforçaram-se por adoptar os hábitos chineses. Na China, o jesuíta Matteo Ricci adaptou a metodologia de inculturação ao contexto chinês, numa necessária adaptação dos costumes cristãos às sociedades asiáticas. Os jesuítas começaram a vestir-se como monges budistas, mas acabaram por adotar as vestes mais prestigiantes de seda dos letrados confucianos.

Matteo Ricci, missionário jesuíta na China, vestido como um letrado chinês.

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários Portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.

Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados  Mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos.

Gabriel de Magalhães, Félix Rocha, André Pereira, Francisco Cardoso, todos jesuítas portugueses, todos indispensáveis, (todos sepultados no cemitério de Zhalan (em chinês: 栅栏墓地) ) foram passando pelas diferentes disciplinas do saber e levaram o imperador a requisitar de Portugal outros mais, por tanto apreciar estes.

Portal do Cemitério Zhalan com a lápide de Matteo Ricci ao fundo.

Cemitério Zhalan, lápides de Jesuítas.

*André Rodrigues, “Fidelis translatio Litterarum, Lusitanicè scriptarum à P. Andrea Rodriguez, Tribunalis Mathematici Praeside tertio, Pekini in Residentia S. Josephi 15 Augusti 1777“, in Murr, Journal zur Kunstgeschichte VII (1779), pp. 264–67.

*2 Andrea Rodrigues, “Observationes Atronomicae Habitae”, Memorias de Mathematica e Phisica da Academia R. das Sciencias, II (1799).

«Louvar os ornamentos e edifícios das igrejas. Do mesmo modo as imagens. Venerá-las segundo o que representam» (Inácio de Loyola)

Assiste-se a partir de meados do século XVI a um aumento da produção de imagens sacras. O conjunto escultórico do Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus ( espaços ocupados atualmente pelo Museu Nacional de História Natural e da Ciência, de Lisboa), que chegou aos nossos dias (e de nosso conhecimento), é bem representativo das novas exigências do culto tridentino, que deu especial relevo à imagem de Nossa Senhora sob as variadas invocações, à imagem de Cristo, dos Apóstolos e dos Santos mártires[1].

A escultura da Virgem com o Menino Salvador do Mundo é uma imagem de vulto, em madeira de carvalho setentrional, estofada e policromada, apresentando grande delicadeza na sua postura. Exibe um estofo muito desgastado e alguns vestígios de policromia.    

Virgem com o Menino Salvador do Mundo

Data: séc. XVII d.C.                                                                                                                                         
Dimensões:
– Altura: 130 cm
– Largura: 26 cm
– Comprimento: 51 cm  
Materiais:
 – Madeira
Técnicas:
– Dourado
– Estofado
– Policromado
– Escultura

 A outra escultura de vulto é um S. Paulo, e que apresenta os mesmos problemas na conservação. O estofo encontra-se muito desgastado, em tons vermelho e verde e com alguns vestígios de policromia, provavelmente floral e geométrica, com desenho de linha a dourado. Esta imagem parece ter sido repintada, pelo menos nas zonas sem estofo.

São Paulo
 
Autor: Desconhecido, trabalho português                 
Datação: séc. XVII d.C.                        
Dimensões:
– Altura: 115 cm
– Largura: 33 cm
– Profundidade: 40 cm
Materiais:
 – Madeira
Técnicas:
– Dourado
– Estofado
– Policromado
– Escultura

A terceira e última escultura do espólio do Noviciado da Cotovia é um Cristo que estaria na sua origem atado a uma coluna. Escultura em muito mau estado de conservação, com ténues vestígios de pintura. Esta imagem está associada à flagelação de Cristo. A cena da Flagelação, tal como os outros episódios da Paixão é, a partir do século XVI, representada com grande dramatismo, com Cristo atado a uma coluna e ladeada dos verdugos. Quando a cena se encontra despida de todo e qualquer elemento (verdugos, açoites) transforma-se numa imagem de grande devoção, como o caso deste exemplar do Noviciado da Cotovia. Com estas imagens os escultores praticavam a criação do nu, proibido pela igreja pois era considerado indecoroso e desonesto.[2]

Cristo preso à coluna
 
Autor (es): Desconhecido
Datação: séc. XVII d.C. 
Dimensões:
– Altura: 187 cm
– Largura: 32 cm
– Profundidade: 52 cm 
Materiais:
 – Madeira
Técnicas:
– Dourado
– Estofado
– Policromado
– Escultura

Não existem referências quanto aos seu autores, mas sabe-se o local para o qual a escultura de S. Paulo foi criada dado que em 1759, quando os bens da Companhia de Jesus foram sequestrados, foi elaborado um inventário onde era referido que na sacristia se encontrava «…em cima do caixão três imagens de vulto, uma de S. Pedro, outra de S. Paulo, ambas de cinco palmos com resplendores de folha prateada,…»[3]tendo em atenção que seguiam uma representação “tipo” seguindo as normas tridentinas.

Encontrámos referências bibliográficas a outra imagem escultórica, do século XVIII, pertencente ao Noviciado e que se encontra atualmente na igreja de S. Mamede, vizinha dos Museus da Politécnica, sendo lá colocada após um dos últimos incêndios que houve na antiga escola Politécnica. Esta escultura encontra-se em muito bom estado de conservação. José de Almeida foi o escultor desta imagem de vulto, em madeira policromada e estofada. 

Nª Sª da Conceição
Autor: José de Almeida 
Data: séc. XVIII

As esculturas do Noviciado da Cotovia são maneiristas, do início do século XVII, fidelizadas a parâmetros de imaginária sacra portuguesa, tipo esculturas de Gonçalo Rodrigues. Vitor Serrão num artigo publicado na revista Museu afirma que, este escultor trabalhou para uma clientela muito vasta, como por exemplo, a Misericórdia do Porto, os padres jesuítas de Braga e possivelmente para «…os inacianos de Lisboa»[4]. As esculturas maneiristas em madeira estofada e policromada, de que são exemplo as quatro referidas atrás, dão-nos a ideia do tipo de técnica usada neste período, tal como a postura da imagem e os tons e as cores utilizados.

As normas saídas do Concílio de Trento foram adotadas pela Companhia de Jesus a todos os níveis, incluindo as relativas à Invocação e Veneração das Relíquias dos Santos e das Sagradas Imagens. Inácio de Loyola afirmava que: «Louvar os ornamentos e edifícios das igrejas. Do mesmo modo as imagens. Venerá-las segundo o que representam».[a]


[a] INÁCIO DE LOYOLA, Exercícios Espirituais (360).


[1] CAETANO, Joaquim Oliveira; SILVA, Nuno Vassalo e, [e tal.], O púlpito e a imagem : os jesuítas e a arte, p. 25.  

[2] DIAS, Pedro, A escultura maneirista portuguesa: subsídio para uma síntese, p. 135.

[3] LINO, Raúl, SILVEIRA, Luís; MARQUES, A. H. de Oliveira, Documentos para a história da arte em Portugal,  p. 8.

[4] SERRÃO, Vítor, O escultor maneirista Gonçalo Rodrigues e a sua actividade no Norte de Portugal. Museu, IV série, nº7, 1998, p.148.

Veja-se, VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.

O Espólio do Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus (1619-1759)

Épocas representadas: séculos XVII-XVIII.
Tipo de coleções: Paramentaria, Pintura, Escultura, Ourivesaria, Espólio Documental.

 O Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MNHNC) que desde o primeiro quartel do século XVII até ao presente serviu de sede a respeitáveis instituições de ensino e de cultura, alberga um espólio variado de obras de arte e instrumentos científico-didácticos, onde se encontra inserido o espólio relativo ao Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus.    

O espólio do Noviciado é composto por sessenta peças, essencialmente, objetos que serviram ao culto na Igreja de Nossa Senhora da Assunção, enriquecido com alguns paramentos que vieram da China e relicários de Itália.

Quadro indicativo do número de peças pertencentes ao espólio do Noviciado da Cotovia.

Esta coleção de Arte possui uma pintura a óleo, do século XVII, com o retrato do fundador do noviciado, importante personagem que foi Governador da Índia. São bastante numerosas as peças de paramentaria, incluindo estolas, manípulos, palas, bolsas de Corporal, véus de cálice e um frontal de altar que se destacam pela diversidade de cores e pelos emblemas bordados com o símbolo dos jesuítas (IHS). Da ourivesaria destaca-se um relicário, com as suas relíquias de antigos mártires jesuítas, um relicário-palmeta e um resplendor, os primeiros de prata e o segundo de latão, dos séculos XVII e XVIII. Existem três exemplares de escultura sacra que apesar do mau estado de conservação, permitem percecionar a sua qualidade e a experiência do artista que as criou, correspondendo a um S. Paulo, a uma Virgem com o Menino Salvador do Mundo e um Cristo atado à Coluna, datadas do século XVII. Esta coleção conta, também, com um conjunto de três missais, dois de uso comum e outro de cerimónia, pertencentes aos jesuítas da Cotovia, com identificações escritas e artísticas relativas a membros desta Companhia.

Ao espólio do noviciado da Cotovia que se encontra no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, poderíamos adicionar pinturas e esculturas da igreja do antigo noviciado mas que devido a uma série de incêndios e cataclismos que lavraram este edifício da Rua da Escola Politécnica, se perderam no fogo ou foram salvas e recuperadas por outras entidades, encontrando-se atualmente a embelezar igrejas ou museus nacionais.

GRANDE INCÊNDIO DO MUSEU NACIONAL DE HISTORIA NATURAL.
Diário Popular, 18 de março de 1978

Veja-se, VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.

História do Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus: Cronologia

Excerto do Panorama de Lisboa. In Academia Nacional de Belas Artes

1540 – A 27 de Setembro, o papa Paulo III aprova a criação da Companhia de Jesus, pela bula “Regimini Militantis Ecclesiae”.

 Sto. Inácio de Loyola acedeu ao convite do rei português e enviou para Portugal dois dos seus primeiros companheiros: Francisco Xavier e  Simão Rodrigues.

1545-1563 – Concílio de Trento – Os Decretos Tridentinos produziram uma genuína reforma da Igreja Católica Romana, e reafirmaram as bases fundamentais do seu dogma.

1546 – É criada a Província Portuguesa da Companhia de Jesus, a primeira província de toda a Ordem no mundo.

– Fernão Telles de Menezes (Governador da Índia e 1º Governador do Algarve, Regedor das Justiças e Provedor da Misericórdia de Lisboa) e sua esposa, D. Maria de Noronha, acordam com os jesuítas serem os fundadores da Casa Do Noviciado.

1597 – Fernão Teles de Menezes oferece de dote à C. J. 20. 000 Cruzados (mais de 100.000 contos de hoje).

1598 – Celebra-se a dedicação da Casa a Nossa Senhora da Assunção (18 de Dezembro).

1603 – Lançamento da 1ª pedra para a construção do edifício (23 de Abril).

1605 – Morte de Fernão Telles de Menezes (26 de Novembro).

1607 – O arquitecto real Baltazar Álvares passa a dirigir a construção da obra.

1613 – Lourenço Lombardo, flamengo natural de Anvers, 2º financiador da Casa do Noviciado, dota a Casa com 30.000 cruzados (mais de 150.000 mil contos).

1616 – Foi feita a 1ª missa na Igreja do Noviciado (1 de Novembro).

Transladação dos ossos do fundador Fernão Telles de S. Roque para a igreja da Cotovia (9 de Novembro).

1619 – Inauguração do edifício do noviciado do Monte Olivete.

1634 – Morre Lourenço Lombardo. Foi sepultado na Sacristia em campa rasa com epitáfio.

1694 – Incêndio na Casa do Noviciado da Cotovia

1705 – É criado o Noviciado de Arroios (Lisboa), para as missões da Índia, dedicado a S. Francisco Xavier, e do qual aceitou ser fundadora D. Catarina rainha de Inglaterra.

1755 – Terramoto em Lisboa afecta parte do edifício.

1758 – Os jesuítas são suspensos do exercício de confessar e     pregar (Junho).

1759 – Sai o alvará de sequestro dos seus bens (Janeiro).

                  São reclusos e com guarda à porta (Fevereiro).

                  São proscritos e banidos do reino (3 de Setembro).

                  Noviciado da Cotovia foi confiscado para a Fazenda Real.

1773 – O Papa Clemente XIV, pressionado pelas cortes portuguesa e bourbónicas, promulga a 21 de Julho, o breve “Dominus ac Redemptor”, que decretava a extinção da Companhia de Jesus no mundo inteiro.

Foram 143 anos de existência e de prestação de serviços na formação missionária dos Padres da Companhia neste edifício do Monte Olivete.

1761 – Decreto-lei de 7 de Março institui o Colégio dos Nobres

1837 – Decreto-lei de 4 de Janeiro abole o Colégio dos Nobres

Decreto-Lei de 21 de Janeiro é criada a Escola Politécnica

1843 – Novo incêndio na agora Escola Politécnica

1911 – Pólo da Universidade de Lisboa: Faculdade de Ciências

1978 – Novo incêndio no edifício do antigo Noviciado.

Atualmente – Alberga dois Museus de referência em Portugal e no estrangeiro, o Museu da Ciência e o Museu de História Natural, e o Jardim Botânico de Lisboa, jardim científico, projetado em meados do século XIX para complemento do ensino e investigação da botânica na Escola Politécnica.

https://www.museus.ulisboa.pt/pt-pt

In VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.

O Missal Romano Pós Tridentino

O Concílio de Trento serviu-se da paramentaria, da pintura, da escultura e da ourivesaria, para assegurar a unidade de fé e a disciplina eclesiástica, emanando dele decretos e diplomas onde transpareceu uma nova forma de ver a imagem sagrada. Neste Concílio, também se sentiu a necessidade de normalizar a liturgia da missa para eliminar os abusos cometidos na sua celebração, procedendo-se à reforma dos livros litúrgicos. No entanto, como o Concílio se arrastava há já longos anos, os padres conciliares decidiram, na última sessão, incumbir o Papa Pio IV dessa função. Contudo, foi Pio V que realizou tal incumbência, promulgando, em 14 de julho de 1570, através da bula Quo primum tempore,[1]o novo Missal Romano[2]. Foi, durante quatro séculos, considerado pelos sacerdotes do rito latino como norma para a celebração do sacrifício eucarístico. É o livro  litúrgico oficial da Igreja. Contém normas gerais  sobre o cerimonial litúrgico, bem como as leituras e orações apropriadas para a Missa diária e  das festas do ano litúrgico. O Missal Romano é obrigatório para toda a Igreja Latina.

No período anterior ao Concílio de Trento (1545-1563) pou­co significado se deu à liturgia. Foi neste Concílio e com os Papas que o executaram (Papa Paulo III, Júlio III, Marcelo II e Pio IV) que se pôs fim aos abusos e se estabeleceram os fundamentos teológicos das ações litúrgicas, uniformizando a liturgia e centralizando toda a legislação na Cúria Romana. 

No início da Igreja Católica Romana, a Bíblia era o único livro usado na celebração da missa, podendo o sacerdote impro­visar nas orações. Mas, nos séculos V e VI foram surgindo um conjunto de textos escritos ao qual deram o nome de “Sacramentários”[3] e segundo os quais o sacerdote se orientava. Nos séculos XII e XIII, o sacerdote celebrante criou os seus próprios textos, os “Missais Plenários”, que incluíam o livro das leituras e o das orações. Em 1570, após Concílio de Trento, o Papa Pio V publica o Missal ao qual se chamou, desde então, “Missal de S. Pio V”.[4] Com o Concílio Vaticano II, em 1970, deu-se a separação dos livros: missal, lecionários, evangeliário e livros dos cânticos.[5]

Para que houvesse um culto divino digno muitos pontífices romanos, entre eles, Clemente VIII (1592-1605), Urbano VIII (1623-1644), São Pio X (1903-1914), Bento XV (1914-1922), Pio XII (1939-1958) e o Beato João XXIII (1958-1963), mostraram particular atenção à Sagrada Liturgia, para que esta se manifestasse de forma mais eficaz, definindo-a e conservando-a tanto em relação ao Sacrifício da Missa como ao Ofício Divino.

São Pio V (1566-1672), utilizando o Concílio como espaço próprio de renovação e criação de normas, renovou o culto de toda a Igreja, cuidou da correção dos livros litúrgicos e da sua edição segundo “as normas instituídas pelos Padres”.

No Missal Romano, lê-se: as missas de acordo com o tempo litúrgico (Advento, Natal, Quaresma, Tríduo Pascal, Tempo Pascal e Tempo Comum); o Rito da Missa (Ritos Iniciais, Liturgia da Palavra, Liturgia Eucarística (ofertório e prefácios), o Rito da Comunhão e os Ritos Finais); apêndice do Rito da Missa (Bênçãos Solenes e Orações sobre o povo[6]

O missal distinguia-se no decorrer do calendário litúrgico pelo uso prático, isto é, um missal de serviço comum e serventia diária e pela aparência, num missal com capa de veludos, guarnições e fechos de prata. Estantes especiais e panos ricamente bordados envolviam os missais, valorizando-os e criando aparato, pois os missais estão destinados a figurar em cerimónias litúrgicas onde, em parceria com os paramentos, contribuíam para o brilho da liturgia.

Relativamente às gravuras que compunham e abrilhantavam as páginas dos missais, podemos afirmar que, por exemplo, na Architipographia Plantiniana, de Balthasaris Moreti, à qual pertence o exemplar que se encontram no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, e que é objeto deste estudo, emprega-se um leque bastante limitado de gravuras para cada uma das dez passagens bíblicas, ou seja, as mesmas gravuras eram usadas em várias edições dos missais da tipografia.

Depois desta abordagem sobre a Arte e a Companhia de Jesus seguimos a opinião de Pedro Dias:

«Foi com os Padres da Milícia que se iniciaram todas as correntes artísticas, da Renascença tardia ao fim do Barroco, e em todas as disciplinas, devido aos contactos constantes que tinham com os grandes centros artísticos da Europa, de onde vinham obras, artistas e projectos. Foram invariavelmente, até à sua extinção, os pioneiros na introdução das novidades estéticas».[7]


[1] BULA PONTIFÍCIA: O termo refere -se não ao conteúdo e à solenidade de um documento pontifício, como tal, mas à apresentação, à forma externa do documento, a saber, lacrado com pequena bola (em latim, “bulla”) de cera ou metal, em geral, chumbo (sub plumbo). Assim, existem Litterae Apostolicae (v. Carta Apostólica) em forma ou não de bula e também Constituição Apostólica em forma de bula.

[2] Documento pontifício que apresenta grande vigor, clareza e determinação, criado para proteger a Santa Missa dos ataques dos inimigos.

[3] Livro antigo que descrevia certas cerimónias religiosas, especialmente as relativas aos sacramentos. Com textos eucológicos ou orações.

[4] ALDAZÁBAL, José, Dicionário elementar de Liturgia, Lisboa, 2007, p.182,183.

[5] Disponível em: http://www.agencia.ecclesia.pt/catolicopedia/artigo.

[6] Toda a informação sobre a história da Liturgia e Livros Litúrgicos retirada de, BEJA. BISPO D. MANUEL FRANCO FALCÃO, Enciclopédia católica popular : espiritualidade : sagrada escritura : teologia : pastoral : liturgia : direito : moral, Lisboa, 2004.   

No estudo sobre o livro antigo foi utilizado o livro de SANTOS, Maria Lucinda Tavares dos, PEREIRA, Isabel, PERICÃO, Maria da Graça, Livro Antigo, Museu de Aveiro, Aveiro, 1999.  

[7] DIAS, Pedro, O espaço do Atlântico. In  História da arte portuguesa no mundo 1415-1822, , p. 377.

Missal Romano

Museu/Instituição: Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Lisboa.

Super categoria: Artes Plásticas e Artes Decorativas

Categoria: Espólio Documental

Denominação: Livro Antigo

Título: [MISSALE, / ROMANUM / EX DECRETO SACROSANCTI, / CONCILI TRIDENTINI RESTITUTUM, /  PII V. PONT. MAX. JUSSU EDITUM , /  ET  /  CLEMENTIS VIII, PRIMUM, NUNCI DENUO  /  URBANI PAPǢ OCTAVI  /  AUCTORITARI RECOGNITUM  /…]

Datação: Primeira metade do séc. XVIII (1732)

Centro de Fabrico: Antuérpia

Autor(es):   Architipographia Plantiniana

Proveniência/incorporação: Noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus

Dimensões: 25 cm × 37 cm  

Matéria: Prata [aplicações]; Madeira [encadernação da capa]; Seda [forro da capa];  Papel

Suporte: Veludo [Tecido]; Gravado [aplicações de prata]; Recortado [aplicações de prata]; Cinzelado [aplicações de prata]

 Descrição: Missal com capa de madeira forrada a veludo verde com aplicações em prata; lombada de cinco nervos igualmente de veludo verde. Com friso de prata e ornamentos interiores envolventes em filigrana, com cabeças de anjos também em prata. A capa é centrada pela imagem do fundador da Companhia de Jesus, Santo Inácio de Loyola segurando com as mãos o livro da “Regra” da Companhia em que está inscrita a divisa AD MAIO DEI GLO REG SOC IESV, encimado por uma coroa e anjo, tudo em prata. Na contracapa a ornamentação é idêntica mas tendo ao centro a imagem de São Francisco Xavier com lírios, atributo alusivo à pureza.

Na primeira página o título encontra-se impresso em caracteres redondos de vários corpos a vermelho e preto, com gravura a preto e branco alusiva à Adoração do Santíssimo. Com identificação do centro de fabrico, autor e data de emissão. O texto do missal encontra-se impresso em caracteres redondos a vermelho e preto, disposto a duas colunas com iniciais capitais de desenho de fantasia e vinhetas ornamentais; várias gravuras a buril ornamentam o texto: a Anunciação, o Nascimento do Menino Jesus, o Calvário e a Ressurreição.

Podemos afirmar que este livro foi fabricado para a Companhia de Jesus devido à iconografia da sua capa. Além disso, a riqueza dos materiais usados revela ter sido um missal para ser usado em ocasiões especiais ou apenas para estar exposto.

Proveniência/incorporação: Noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus, Lisboa                                                        

In VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.