O Missal Romano Pós Tridentino

O Concílio de Trento serviu-se da paramentaria, da pintura, da escultura e da ourivesaria, para assegurar a unidade de fé e a disciplina eclesiástica, emanando dele decretos e diplomas onde transpareceu uma nova forma de ver a imagem sagrada. Neste Concílio, também se sentiu a necessidade de normalizar a liturgia da missa para eliminar os abusos cometidos na sua celebração, procedendo-se à reforma dos livros litúrgicos. No entanto, como o Concílio se arrastava há já longos anos, os padres conciliares decidiram, na última sessão, incumbir o Papa Pio IV dessa função. Contudo, foi Pio V que realizou tal incumbência, promulgando, em 14 de julho de 1570, através da bula Quo primum tempore,[1]o novo Missal Romano[2]. Foi, durante quatro séculos, considerado pelos sacerdotes do rito latino como norma para a celebração do sacrifício eucarístico. É o livro  litúrgico oficial da Igreja. Contém normas gerais  sobre o cerimonial litúrgico, bem como as leituras e orações apropriadas para a Missa diária e  das festas do ano litúrgico. O Missal Romano é obrigatório para toda a Igreja Latina.

No período anterior ao Concílio de Trento (1545-1563) pou­co significado se deu à liturgia. Foi neste Concílio e com os Papas que o executaram (Papa Paulo III, Júlio III, Marcelo II e Pio IV) que se pôs fim aos abusos e se estabeleceram os fundamentos teológicos das ações litúrgicas, uniformizando a liturgia e centralizando toda a legislação na Cúria Romana. 

No início da Igreja Católica Romana, a Bíblia era o único livro usado na celebração da missa, podendo o sacerdote impro­visar nas orações. Mas, nos séculos V e VI foram surgindo um conjunto de textos escritos ao qual deram o nome de “Sacramentários”[3] e segundo os quais o sacerdote se orientava. Nos séculos XII e XIII, o sacerdote celebrante criou os seus próprios textos, os “Missais Plenários”, que incluíam o livro das leituras e o das orações. Em 1570, após Concílio de Trento, o Papa Pio V publica o Missal ao qual se chamou, desde então, “Missal de S. Pio V”.[4] Com o Concílio Vaticano II, em 1970, deu-se a separação dos livros: missal, lecionários, evangeliário e livros dos cânticos.[5]

Para que houvesse um culto divino digno muitos pontífices romanos, entre eles, Clemente VIII (1592-1605), Urbano VIII (1623-1644), São Pio X (1903-1914), Bento XV (1914-1922), Pio XII (1939-1958) e o Beato João XXIII (1958-1963), mostraram particular atenção à Sagrada Liturgia, para que esta se manifestasse de forma mais eficaz, definindo-a e conservando-a tanto em relação ao Sacrifício da Missa como ao Ofício Divino.

São Pio V (1566-1672), utilizando o Concílio como espaço próprio de renovação e criação de normas, renovou o culto de toda a Igreja, cuidou da correção dos livros litúrgicos e da sua edição segundo “as normas instituídas pelos Padres”.

No Missal Romano, lê-se: as missas de acordo com o tempo litúrgico (Advento, Natal, Quaresma, Tríduo Pascal, Tempo Pascal e Tempo Comum); o Rito da Missa (Ritos Iniciais, Liturgia da Palavra, Liturgia Eucarística (ofertório e prefácios), o Rito da Comunhão e os Ritos Finais); apêndice do Rito da Missa (Bênçãos Solenes e Orações sobre o povo[6]

O missal distinguia-se no decorrer do calendário litúrgico pelo uso prático, isto é, um missal de serviço comum e serventia diária e pela aparência, num missal com capa de veludos, guarnições e fechos de prata. Estantes especiais e panos ricamente bordados envolviam os missais, valorizando-os e criando aparato, pois os missais estão destinados a figurar em cerimónias litúrgicas onde, em parceria com os paramentos, contribuíam para o brilho da liturgia.

Relativamente às gravuras que compunham e abrilhantavam as páginas dos missais, podemos afirmar que, por exemplo, na Architipographia Plantiniana, de Balthasaris Moreti, à qual pertence o exemplar que se encontram no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, e que é objeto deste estudo, emprega-se um leque bastante limitado de gravuras para cada uma das dez passagens bíblicas, ou seja, as mesmas gravuras eram usadas em várias edições dos missais da tipografia.

Depois desta abordagem sobre a Arte e a Companhia de Jesus seguimos a opinião de Pedro Dias:

«Foi com os Padres da Milícia que se iniciaram todas as correntes artísticas, da Renascença tardia ao fim do Barroco, e em todas as disciplinas, devido aos contactos constantes que tinham com os grandes centros artísticos da Europa, de onde vinham obras, artistas e projectos. Foram invariavelmente, até à sua extinção, os pioneiros na introdução das novidades estéticas».[7]


[1] BULA PONTIFÍCIA: O termo refere -se não ao conteúdo e à solenidade de um documento pontifício, como tal, mas à apresentação, à forma externa do documento, a saber, lacrado com pequena bola (em latim, “bulla”) de cera ou metal, em geral, chumbo (sub plumbo). Assim, existem Litterae Apostolicae (v. Carta Apostólica) em forma ou não de bula e também Constituição Apostólica em forma de bula.

[2] Documento pontifício que apresenta grande vigor, clareza e determinação, criado para proteger a Santa Missa dos ataques dos inimigos.

[3] Livro antigo que descrevia certas cerimónias religiosas, especialmente as relativas aos sacramentos. Com textos eucológicos ou orações.

[4] ALDAZÁBAL, José, Dicionário elementar de Liturgia, Lisboa, 2007, p.182,183.

[5] Disponível em: http://www.agencia.ecclesia.pt/catolicopedia/artigo.

[6] Toda a informação sobre a história da Liturgia e Livros Litúrgicos retirada de, BEJA. BISPO D. MANUEL FRANCO FALCÃO, Enciclopédia católica popular : espiritualidade : sagrada escritura : teologia : pastoral : liturgia : direito : moral, Lisboa, 2004.   

No estudo sobre o livro antigo foi utilizado o livro de SANTOS, Maria Lucinda Tavares dos, PEREIRA, Isabel, PERICÃO, Maria da Graça, Livro Antigo, Museu de Aveiro, Aveiro, 1999.  

[7] DIAS, Pedro, O espaço do Atlântico. In  História da arte portuguesa no mundo 1415-1822, , p. 377.

Missal Romano

Museu/Instituição: Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Lisboa.

Super categoria: Artes Plásticas e Artes Decorativas

Categoria: Espólio Documental

Denominação: Livro Antigo

Título: [MISSALE, / ROMANUM / EX DECRETO SACROSANCTI, / CONCILI TRIDENTINI RESTITUTUM, /  PII V. PONT. MAX. JUSSU EDITUM , /  ET  /  CLEMENTIS VIII, PRIMUM, NUNCI DENUO  /  URBANI PAPǢ OCTAVI  /  AUCTORITARI RECOGNITUM  /…]

Datação: Primeira metade do séc. XVIII (1732)

Centro de Fabrico: Antuérpia

Autor(es):   Architipographia Plantiniana

Proveniência/incorporação: Noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus

Dimensões: 25 cm × 37 cm  

Matéria: Prata [aplicações]; Madeira [encadernação da capa]; Seda [forro da capa];  Papel

Suporte: Veludo [Tecido]; Gravado [aplicações de prata]; Recortado [aplicações de prata]; Cinzelado [aplicações de prata]

 Descrição: Missal com capa de madeira forrada a veludo verde com aplicações em prata; lombada de cinco nervos igualmente de veludo verde. Com friso de prata e ornamentos interiores envolventes em filigrana, com cabeças de anjos também em prata. A capa é centrada pela imagem do fundador da Companhia de Jesus, Santo Inácio de Loyola segurando com as mãos o livro da “Regra” da Companhia em que está inscrita a divisa AD MAIO DEI GLO REG SOC IESV, encimado por uma coroa e anjo, tudo em prata. Na contracapa a ornamentação é idêntica mas tendo ao centro a imagem de São Francisco Xavier com lírios, atributo alusivo à pureza.

Na primeira página o título encontra-se impresso em caracteres redondos de vários corpos a vermelho e preto, com gravura a preto e branco alusiva à Adoração do Santíssimo. Com identificação do centro de fabrico, autor e data de emissão. O texto do missal encontra-se impresso em caracteres redondos a vermelho e preto, disposto a duas colunas com iniciais capitais de desenho de fantasia e vinhetas ornamentais; várias gravuras a buril ornamentam o texto: a Anunciação, o Nascimento do Menino Jesus, o Calvário e a Ressurreição.

Podemos afirmar que este livro foi fabricado para a Companhia de Jesus devido à iconografia da sua capa. Além disso, a riqueza dos materiais usados revela ter sido um missal para ser usado em ocasiões especiais ou apenas para estar exposto.

Proveniência/incorporação: Noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus, Lisboa                                                        

O Concílio de Trento e a Arte

«… explica-lhes como o Templo está feito: o seu traçado, as entradas e saídas, a forma, a disposição de tudo e os regulamentos. Escreve tudo para que possam ler e vejam como tudo está delineado …»

Livro de Ezequiel 43, 11-12

A Contrarreforma caracterizou-se por um movimento de reafirmação dos princípios da doutrina e da estrutura da Igreja Católica, diante do movimento de Reforma Protestante na Europa do século XVI. O Papa Paulo III convocou um concílio ecuménico, em Trento, para assegurar a unidade de fé e a disciplina eclesiástica. O Concílio de Trento (1545 – 1563), ou o chamado Concílio da Contrarreforma veio definir de uma forma explícita e intencional que a arte deve estar ao serviço dos ritos da igreja católica.

O Concílio de Trento em 1545 e 1563
Fresco por Pasquale Cati (1550-1620)
1588-1589
Igreja de Santa Maria em Trastevere, Roma

As profundas modificações surgidas na Igreja Católica foram, sem dúvida, provocadas pelo surgimento e expansão do protestantismo tendo a reação católica sido encabeçada pelo Papa Paulo III, Júlio III, Paulo IV, Pio V, Gregório XIII e Sisto V. O Concílio de Trento foi convocado pelo Papa Paulo III, a fim de estreitar a união da Igreja e reprimir os abusos, isto em 1546, na cidade de Trento, no Tirol italiano. No Concílio tridentino os teólogos mais famosos da época elaboraram os decretos, que foram depois discutidos pelos bispos em sessões privadas.

 Além da reorganização de muitas comunidades religiosas, novas ordens foram fundadas, entre elas, a Companhia de Jesus, cujo fundador Santo Inácio de Loyola, foi um lutador da causa católica, num dos momentos mais críticos da Igreja. Foi reconhecida em 27 de Setembro de 1540 pelo Paulo III, através da Bula Regimini militantis Ecclesiae.

O Concílio de Trento definiu o pecado original (Sessão V – Decreto do Pecado Original) e declarou como texto bíblico autêntico, a tradução de São Jerónimo, denominada “Vulgata” (Sessão IV – Decreto das Escrituras),  manteve os sete sacramentos (Sessão VII – Decreto dos Sacramentos), o celibato clerical e a indissolubilidade do matrimónio (Sessão XXIV – Doutrina do Sacramento do Matrimónio), o culto dos santos e das relíquias, a doutrina do purgatório e as indulgências (Sessão XXV – Decreto do Purgatório) e recomendou a criação de escolas para a preparação dos que quisessem ingressar no clero. Regulou também as obrigações dos bispos e confirmou a presença de Cristo na Eucaristia através de imagens. Definiu de uma forma explícita que a arte deve estar ao serviço dos ritos da igreja católica. São criticados pelos protestantes pelo uso excessivo das imagens sagradas, pois estes tinham uma postura iconoclasta (para o catolicismo, as imagens são elementos mediadores entre a humanidade e Deus). Definiram-se as autoridades eclesiásticas: as Escrituras (Antigo e Novo Testamentos e os reconhecidos livros apócrifos) têm idêntico valor à tradição, competindo à Igreja a sua interpretação. No que concerne à doutrina da salvação, foi proclamado o princípio da necessidade dos sacramentos. Reafirma-se a doutrina da transubstanciação e dá-se ênfase ao poder sacerdotal do ministro ordenado. Ao contrário da teologia protestante, a pregação é de valor secundário. A missa, considerado um santosacrifício do corpo de Cristo, ocupa lugar central na expressão da vida cristã.

A Reforma Católica deu especial atenção à eficácia litúrgica e simplicidade dos templos, traduzidas fundamentalmente por preocupações ao nível do desenho da nave vista do altar principal – centro espiritual do templo; controle do excesso; visibilidade da Eucaristia; cerimónia, que se centra na consagração da hóstia, como prova da transmutação do corpo e sangue de Cristo; espaço interno, que se alterou para abraçar o final da procissão do Corpus Domini; interiores espaçosos; clareza estrutural e equilíbrio visual; abolição do tramezzo[1], para que o ponto focal passasse para o altar; colocação do coro atrás da Capela-mor, para separar os frades, mas pouco importante para os jesuítas que no início não cantavam; exercício de culto como ato público de piedade implicando, por vezes, sacrifícios de monges e civis; acessibilidade das massas às imagens sacras; capelas, que permitissem devoções privadas (fonte de rendimento) e visibilidade para os monumentos funerários.

Dos decretos tridentinos e diplomas emanados do concílio transparece uma nova forma de ver a imagem sagrada, onde o “ver” uma coisa com desejo e com intenção equivalia a possuí-la. Na sessão XXV, celebrada em Outubro de 1563, aconselhava-se que os dogmas sancionados e as verdades da fé se expressem através da arte, como por exemplo, da pintura e da escultura. Através das representações artísticas os fiéis eram “instruídos” com mais facilidade do que através de enunciados teóricos. A obra de arte nasce, neste contexto, ligada ao movimento contrarreformista, com novos valores expressivos, novos cânones e com uma iconografia muito ligada e ao serviço da fé.

Na última sessão, em 1563, o Concílio de Trento, num período de quase vinte anos, codificou a função das artes na igreja reformada. Uma disciplina rígida articulará as relações do clero com os artistas.

Os primeiros países que aceitaram, incondicionalmente, as resoluções tridentinas foram Portugal, Espanha, Polónia e os Estados italianos.

A Companhia de Jesus surge como um instrumento na definição do ideal de uma Igreja reformada. Pelas virtudes dos seus atos e pela suas Constituições (nas Constituições, Inácio de Loyola aspirava não deixar nada ao acaso ou improvisado, prescrevendo, formalizando e institucionalizando ao mínimo detalhe –Tudo pela Maior Glória de Deus) rapidamente respondem a esta igreja reformada. Os seus membros estão ligados por exigentes votos e um grande zelo missionário. A sua disciplina e a hierarquização do seu sistema de relações predispõem esta Ordem para a aceitação de esquemas rígidos. Ao nível religioso a Companhia de Jesus vem defender a participação humana no convívio divino, influenciando o momento artístico.

É importante para conhecermos a arte resultante de uma Ordem religiosa, saber os princípios de identificação dessa mesma Ordem. São três os documentos básicos da Companhia de Jesus, que justificam a sua identidade: a Formula Instituti (1539, 1540, 1550), as Constituições e a Autobiografia de Santo Inácio (1553 – 1555), sendo os três obra do seu fundador, Inácio de Loyola.

Assim, baseado nestes três documentos e nas normas saídas do Concílio de Trento surgiu um programa cultual e de doutrinação que teve como consequência a criação de uma arte religiosa muito própria desta Ordem ao nível da arquitetura, da pintura, da escultura, da ourivesaria.

Les Miracles de saint Ignace de Loyola
Pierre Paul Rubens
1618-1619
Composée pour l’église de la maison professe des Jésuites d’Anvers (aujourd’hui église Saint-Charles-Borromée), en Belgique. La toile se trouve depuis 1776 au Musée d’histoire de l’art, à Vienne (Autriche).

[1] Na arquitetura eclesiástica corresponde à parte que divide a igreja aberta ao público da que está reservada apenas aos religiosos.

No dia 3 de dezembro de 1552, morre São Francisco Xavier (1506-1552)

Ficou conhecido como o “Apóstolo” do Oriente.

Os milagres de S. Francisco Xavier
|Peter Paul Rubens,1617-18
Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria

A convite de D. João III, a Companhia de Jesus estabeleceu-se em Portugal em 1540, logo a seguir à sua criação (a 27 de Setembro de 1540, o Papa Paulo III aprova a criação da Companhia de Jesus, pela bula ―Regimini Militantis Ecclesiae.

S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III
André Reinoso, cerca de 1619
Igreja de S. Roque, Lisboa, Portugal (3)


Francisco de Xavier na sua estadia em Portugal e antes de partir para o Oriente escreveu uma carta a Inácio de Loyola e a Coduri onde refere o seguinte: «D´acá os hago saber como el Rey, paresciéndole bien nuestro modo de proceder, así por la experiencia que tiene del fruto espiritual que se hace, como esperando mayor cuantos mas fueren, está deliberado de hacer un colegio y una casa de los nuestros, es a saber, de la Compañia de Jesus…».
Afirmava que:
«…Este verano en la Universidad de Coimbra edificará el colégio, y la casa pienso en la cidad de Ébora» (1).
Em pouco tempo constroem-se três importantes estabelecimentos em Lisboa, entre muitos outros espalhados pelo país de Norte a Sul.
Francisco Xavier, já missionário em Goa, alertava para a preparação de “soldados de Deus”. Não importava que fossem letrados, mas tinham que ser bem exercitados (2). Noviciados, colégios e universidades unidos num projecto comum onde a qualidade de acção, a preparação adequada e contínua e uma ocupação constante para o atendimento das almas eram requisitos obrigatórios para educar os futuros ―soldados de Deus.

S. Francisco Xavier Ressuscitando um Chefe de Casta no Ceilão
André Reinoso, cerca de 1619
Igreja de S. Roque (Sacristia)


Está sepultado na Basílica do Bom Jesus em Velha Goa (Índia) onde é venerado como homem santo.

O papa Paulo V beatificou-o a 21 de outubro de 1619 e Gregório XV declarou-o santo a 12 de março de 1622.

Túmulo de São Francisco Xavier na Basílica do Bom Jesus de Goa
São Francisco de Xavier no Padrão dos Descobrimentos
Viagens de S.F.X. na Ásia

(1)Monumenta Historica Societatis Iesu, Cartas de San Ignacio, pp. 443-447;

LOPES, António, D. Pedro Mascarenhas: Introdutor da Companhia de Jesus em Portugal, 2003, p.168.

(2) GOMES, Manuel Pereira, Santo Inácio e a fundação de Colégios, p. 41.

(3) S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III antes da viagem para a Índia. O rei está ao centro, tomando as mãos do santo e, ao lado, encontra-se o Padre Simão Rodrigues, introdutor da Companhia de Jesus em Portugal. A receção decorre no Paço da Ribeira, vendo-se o Tejo ao fundo, e a corte é composta por membros do clero e da nobreza, incluindo membros das três ordens militares, identificadas pelas respetivas cruzes: Cristo, Santiago e Avis.

Miguelismo e Jesuitismo: descontinuidade no processo político para o Liberalismo

A revolução de 1820 previa uma viragem na política portuguesa, mas o liberalismo constitucional foi interrompido pelo absolutismo miguelista em 1828, baseado na aliança entre o Trono e o Altar, onde os Jesuítas voltam a ter um papel de relevo no reforço do Legitimismo.

 Em 1828 D. Miguel regressa a Portugal e, contrariamente ao prometido a seu irmão, em 23 de junho de 1828 foi proclamado rei pelas Cortes Gerais do Reino, anulando a vigência da Carta Constitucional e repondo as Leis Constitucionais tradicionais, perante a passividade europeia e contando com a intolerância política do Sumo Pontífice para com os ideais liberais e maçónicos.

Para assegurar essa imagem unanimista de legitimidade dinástico-política foi necessário o apoio da Igreja Católica Romana e a restauração da Companhia de Jesus em Portugal. D. Miguel necessitava dos jesuítas como “bons formadores” e “educadores das mentes e das consciências” da juventude, baseados nos ideais que a tradicional monarquia ambicionava, isto é, uma sociedade legitimadora do status quo, com princípios sociopolíticos estáticos e que não contrariasse os princípios da fé que a Igreja Católica Romana estatuíra.

Os jesuítas vão atuar fundamentalmente em duas vertentes principais: nas missões junto da população (uma catequese adequada, tornava mais eficiente a ligação do povo à Igreja Católica (Altar) e ao próprio rei (Trono) e reforçava o ultramontanismo), e na atividade educativa da juventude. Para D. Miguel, tal como para os jesuítas, as missões, a catequese, o confessionário e a educação eram a base principal da manutenção da ordem social.

Contudo, a alteração da conjuntura na Europa dos anos trinta é marcada pela subida ao trono de um «rei burguês» na França, pela mudança do ministério inglês para tendências liberais, e pela subida ao trono da regente D. Maria Cristina, de Espanha.

A 3 de março de 1832, D. Pedro reassume a regência que se encontrava na ilha Terceira (Açores).  Com D. Pedro, a convicção de que a existência das ordens regulares era necessária à religião e útil ao Estado tinha terminado.

No dia 26 de maio de 1834, em Évora Monte, sucumbe o governo absolutista de D. Miguel. Um dia depois, D. Pedro, em nome de sua filha a rainha D. Maria II, punha fim à missão jesuíta em Portugal, pois estes encontravam-se alinhados com todo um passado miguelista, enquanto representantes do fixismo, do ultramontanismo, e, por conseguinte, também causadores da decadência do reino.  

Em 1834, D. Pedro, apoiado por uma elite liberal que se encontrava no exílio e pelo suporte externo da Quádrupla Aliança, retomava os ideais de 1820 e dava início a um Governo Constitucional e a um Estado liberal.

Palavras-chave: miguelismo-jesuitismo- absolutismo-liberalismo

(Resumo da comunicação proferida no dia 12 de outubro de 2021, no Congresso Internacional do Bicentenário da Revolução de 1820 (Fundação Calouste Gulbenkien)).

Link de acesso às comunicações deste dia,

ESTADO, IGREJA E RELIGIÃO

Coord. Ana Mouta Faria, Sérgio Ribeiro Pinto e Daniel Alves

https://youtu.be/uuE8IQQ9I3Q?t=2357

Veneração aos Santos e Mártires: o relicário e as relíquias dos jesuítas João Soan (de Goto) e Diogo Kisai, martirizados em Nagasaki

O Museu Nacional de História Natural e da Ciência que desde o primeiro quartel do século XVII até ao presente serviu de sede a respeitáveis instituições de ensino e de cultura, alberga um espólio variado de obras de arte e instrumentos científico-didáticos, onde se encontra inserido o espólio relativo ao noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus.

Enquadramento religioso e artístico

O Concílio de Trento, realizado de 1545 a 1563, foi o 19º concílio ecuménico, convocado pelo Papa Paulo III para assegurar a unidade de fé e a disciplina eclesiástica. Dos decretos tridentinos e diplomas emanados do concílio transparece uma nova forma de ver a imagem sagrada, onde o “ver” uma coisa com desejo e com intenção equivalia a possuí-la. Na sessão XXV, celebrada em Outubro de 1563, aconselha-se que os dogmas sancionados e as verdades da fé se expressem através da arte, como por exemplo, da pintura e da escultura. Através das representações artísticas os fiéis eram “instruídos” com mais facilidade do que através de enunciados teóricos. A obra de arte nasce, neste contexto, ligada ao movimento contra reformista, com novos valores expressivos, novos cânones e com uma iconografia muito ligada e ao serviço da fé.

Sai do Concílio de Trento uma nova Ordem religiosa, a Companhia de Jesus, reconhecida em 27 de Setembro de 1540 pelo Papa Paulo III, através da Bula “Regimini militantis Ecclesiae”. Inácio de Loyola, fundador da Companhia, escreveu as “Constituições” jesuítas, adoptadas em 1554 e que deram origem a uma organização rigidamente disciplinada, enfatizando a absoluta auto-abnegação e a obediência ao Papa e os superiores hierárquicos.

As normas saídas do Concílio de Trento foram adoptadas pela Companhia a todos os níveis, incluindo as relativas à Invocação e Veneração das Relíquias dos Santos e das Sagradas Imagens. Inácio de Loyola afirmava que: «Louvar os ornamentos e edifícios das igrejas. Do mesmo modo as imagens. Venerá-las segundo o que representam».[1]

Da igreja do noviciado chega-nos aos nossos dias um relicário em prata que é testemunho da veneração que se prestava aos Santos e aos Mártires.

Em forma de custódia, realizado com folha de prata aplicada sobre estrutura de madeira e assente sobre base de madeira dourada, de secção triangular, mistilínea e moldurada, com relíquias correspondentes aos dois irmãos coadjutores João Soan (de Goto) e Diogo Kisai, martirizados em Nagasaki. Este relicário é de origem italiana com as marcas da Contrastaria de Roma (chaves cruzadas e umbela) e a do ourives: leão rampante (esta marca apresenta-se defeituosa, dificultando a sua leitura e justifica a interrogação da autoria). Tem ainda junto com a peça o selo de autenticidade das relíquias.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/38/The_Three_Maryrs_of_Nagasaki_-_Johann_Heinrich_Sch%C3%B6nfeld_-_Castel_Nuovo_-_Italy_2015.jpg
Crucificação dos mártires de Nagasaki (5 de fevereiro de 1597)
Johann Heinrich Schönfeld

[1] INÁCIO DE LOYOLA, Exercícios Espirituais (360).


Relicário

 Museu/instituição: Museu Nacional de História Natural e Ciência da Universidade de Lisboa

Super categoria: Artes Plásticas e Artes Decorativas

Categoria: Ourivesaria

Denominação: Relicário

Autor(es): Antonio GIGLI (c. 1704-1761?), Itália

Datação: séc. XVII d.C.

Matéria/suporte/técnica: Prata / madeira

Marcas: Contrastaria de Roma (chaves cruzadas e umbela)

Marca do ourives: leão rampante (?)                                                                                

Dimensões: 435mm (alt. com base) / 375mm (alt. sem base) x 165mm (larg.) x 90mm (prof.)        

Descrição:

Relicário em forma de custódia realizado com folha de prata aplicada sobre estrutura de madeira e assente sobre base de madeira dourada, de secção triangular, mistilínea e moldurada. Sobre a base elevam-se dois apoios em voluta que sustentam a base da peça, reconhecendo-se ainda, ao centro, uma cartela rematada por concha. O fuste apresenta-se constituído exclusivamente pelo nó, abalaustrado e ladeado por duas volutas, ostentando decoração de carácter vegetalista. O receptáculo, envidraçado, possui forma mistilínea. A restante decoração envolvente apresenta como motivos principais grinaldas e volutas.

A peça é superiormente rematada por motivos contracurvados sobre os quais se reconhece ainda uma cruz apical de avelã dotada de auréola de raios lanceolados.

Inscrição: S. JOAN. GOTTO. M. / S. JACOBI. KIS. M., correspondente aos dois irmãos coadjutores João Soan (de Goto) e Diogo Kisai, martirizados em Nagasaki a 5 de Fevereiro de 1597; canonizados apenas em 8 de Junho de 1862 por Pio IX mas já anteriormente venerados no contexto da Companhia de Jesus.

NOTA: a marca do ourives foi efectuada em dois locais diferentes da peça (à semelhança do que se verifica com a marca da contrastaria de Roma) mas em qualquer dos casos apresenta-se defeituosa, facto que dificulta a sua leitura e justifica a interrogação da autoria.

 Proveniência/incorporação: Noviciado da Cotovia

13 AGOSTO 1829: REGRESSO DA COMPANHIA DE JESUS A PORTUGAL

Após 70 anos da sua expulsão pelo marquês de Pombal, D. Miguel dá ordem para o regresso da Companhia de Jesus a Portugal, para a propagação da Fé, para o serviço do Rei, e utilidade de seus Estados e Vassalos.

No dia 20 de janeiro de 1828 o conde Portalis, ministro de Justiça francês, comentava com o rei sobre a necessidade de assegurar em todas as escolas eclesiásticas secundárias a execução das leis do reino – “…les mesures que cette nécessité commande ont besoin d’être complètes et efficaces; elle doivent se coordonner avec notre législation politique et les maximes du droit public français”[1].

Foi criada uma Junta para examinar as escolas eclesiásticas. Contudo, as medidas daí saídas não foram adotadas, declarando o ministério de Villèle que, os sacerdotes aos quais os Bispos, conforme a disposição regulamentar de 5 de outubro de 1814, haviam confiado a direção e o ensino dos seus pequenos Seminários, haviam sido eleitos por eles e submetidos como todos os outros sacerdotes de cada diocese à sua autoridade e jurisdição espiritual e à sua administração temporal[2].

Haviam os Bourbon aceitado dar o privilégio aos bispos de estabelecer pequenos Seminários fora da sua jurisdição. Foram confiados nesta altura aos jesuítas oito destes seminários.

Mas a Universidade começou a protestar contra os Seminários, pois estes recebiam um certo número de discípulos que não se dedicavam ao sacerdócio. As queixas da Universidade foram aceites e dias depois o Ministério, tendo em conta o seu compromisso com os liberais, publicava o despacho de 16 de junho de 1828. Ordenava o despacho que a partir de 1 de outubro todas as casas de educação dirigidas pelos jesuítas estariam sujeitas ao regime da Universidade, e ninguém poderia ensinar se não fosse creditado por escrito que não pertencia a nenhuma congregação que não estivesse legalmente estabelecida em França[3].

Desde 1827 que os liberais pediam a separação do Ministério da Instrução Pública do dos Negócios Eclesiásticos. Assim, pelo decreto de 21 de abril de 1828, uma inspeção conferia o direito de controlar e vigiar as escolas primárias a uma comissão, retirando essa incumbência das mãos dos eclesiásticos.  Vatimesnil, ministro da Instrução Pública pôs, deste modo, fim ao direito dos Bispos de supervisionar as escolas primárias, apesar de esse direito lhe ter sido entregue por decreto em 8 de abril de 1824. 

Muitos Religiosos se opuseram à execução deste decreto, como foi o caso do cardeal Clermont-Tonnerre que anunciou a sua oposição por meio de uma carta ao ministro de Instrução Pública, Mr. Vatimesnil[4].

O Bispo de Hermópolis recusou-se a participar nas ações do Ministério e demitiu-se do seu cargo. Foi eleito seu sucessor para os assuntos da Igreja Feutrier Abbot, Bispo de Beauvais, um homem virtuoso, mas muito benevolente relativamente aos direitos do episcopado. Mesmo sendo íntimo dos jesuítas, quando o ministro da justiça, Mr. Portalis os sacrificou, ele sacrificou também parte do ensino clerical.

Foi limitado em cada Diocese o número de escolas, não ultrapassando as mesmas mais de vinte mil alunos e nenhum aluno externo foi admitido sem que fosse obrigado ao fim de dois anos a vestir o hábito sacerdotal. Em troca pedia o Bispo de Beauvais às Câmaras uma pensão anual de duzentos mil francos para atender às necessidades da educação, tão “injustamente” reprimida[5].

O liberalismo triunfava, e Carlos X tremia no poder. Este Ministério acabava por esmagar os jesuítas sob o peso destes decretos.

Os alunos dos jesuítas quiseram juntar-se à adversidade dos seus professores. Queriam, através do nome da sua família, partilhar o sofrimento dos padres jesuítas que lhes haviam ensinado o valor da virtude. Pela primeira vez foi publicado a lista de tantas famílias que consentiram em se tornar visíveis neste momento de perseguição[6].

Foi deste modo que saíram os Jesuítas dos estabelecimentos que os Bispos lhes haviam confiado sob a proteção das leis.

Para Auguste Carayon, “Le bon Charles X, fatigué d’une lutte sans fin ni trêve, croyant acheter le repos de la France et le sien, prit une plume et signa les Ordonnances de 1828! Cette plume, on la lui conserva sans doute, pour signer, deux ans après, sur la route de l’exil, son acte d’abdication?”[7]

A Revolução de Julho de 1830 voltava a dispersar os jesuítas da França, sendo novamente proibidos de ensinar.

Na opinião de Daurignac, D. Miguel, para consolidar o seu trono e como forma de erradicar as ideias revolucionárias, solicita ajuda ao Papa pedindo-lhe o regresso dos jesuítas para Portugal:

 “En 1829, ce prince fait demander par le marquis de Lavradio, son ambassadeur à Rome, quelques Pères de la Compagnie. Il sent d’ailleurs que le moyen le plus sûr de consolider son trône déjà menacé est de l’ appuyer sur les principes que les Jésuites ont toujours enseignés, et son cœur lui dit que cette réparation est due à l’ Ordre de Saint Ignace, dont un ministre portugais fut le premier et le plus acharné persécuteur”[8].

Assim, em 1829 D. Miguel ordenou ao Duque de Cadaval que permitisse o regresso da Companhia de Jesus a fim de restaurar o ensino em Portugal[9].

No dia 28 de julho o padre Delvaux escreve ao padre Godinot, em Roma, participando a sua breve partida para Portugal e revelando o grande apoio e devoção das infantas portuguesas à causa jesuíta:

“…nous avons été accueillis avec une extreme bonté. Les deux princeses, soeurs du roi de Portugal, nous on remis de lettres pour ler roi et et la reine-mére. La princeses de Beira en a ajouté d’autres pour le premier ministre, pour l’évêque de Viseu, pour les capitaines-généraux de Badajoz et d’Elvas […] Cette bonne princeses a cru aussi convenable que nous saluassions le roi d’Espagne avant de quitter la capitale”[10]

No dia 13 de agosto de 1829 chegavam a Lisboa seis missionários jesuítas. Contudo, vão encontrar-se «dans une situation três difficile», onde «la législation du pays et les actes du Marquis du Pombal ne laissaient pas de rendre leur position extrêmement délicate».

Os jesuítas vieram encontrar um Portugal ainda repleto de ódios criados pelo marquês de Pombal, acrescidos de uma grande influência das sociedades secretas na política e na sociedade, que haviam ganhado terreno com os ideais revolucionários e jacobinistas. Contudo, esta propaganda anti jesuíta produzida e alimentada nos meios liberais e maçónicos seria praticamente abafada pelo regime de D. Miguel que criou no país uma estrutura de repressão àqueles que eram críticos da sua política[11].


[1] L’Ami de la religion, vol.54, de 26 de janeiro de 1828, p. 351.

[2] O decreto de 8 de abril de 1824 reconhece aos bispos o direito de controlar e vigiar as escolas primárias.

[3] Os Prelados, cujas escolas eclesiásticas os jesuítas serviam, declararam que estes religiosos, chamados por eles, estavam como os demais sacerdotes colocados debaixo da sua inspeção e submetidos às suas ordens, e que no seu interior seguiam uma regra particular, mas nem por isso deixavam de depender do Bispo para o ensino e para o exercício do ministério. In L’Ami de la religion, vol.56, de 14 de maio de 1828, p.6.

[4] L’Ami de la religion, vol.57, de 13 de outubro de 1828, pp. 2-6.

[5] BERAULT-BERCASTEL, Antoine-Henri – Historia general de la Iglesia desde la predicación de los apóstoles, hasta el pontificado de Gregorio XVI, Tomo VIII. Madrid: Imp. de Ancos, 1854, p.481.

[6] BERAULT-BERCASTEL, Antoine-Henri – ibidem, p. 486.

[7] CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus: Notes historiques sur le rétablissement de la Compagnie de Jésus en Portuga, vol. X. Poitiers: Henri Oudin, 1863,p. IX.

[8] DAURIGNAC, J.M.S. –  Histoire de la Compagnie de Jésus depuis sa fondation jusqu’a nos jours. 2ª ed., Paris: Librairie Catholique de Périsse Frères, 1863, Tomo II, p. 232.

[9] LLORCA, Bernardino, S.J. – Historia de la Iglesia Catolica: en sus cinco grandes edades: Antiqua, Media, Nueva, Moderna y Contemporanea, vol. IV.  Madrid: La Editorial Catolica, 1963, p. 641.

[10] Carta do Padre Delvaux ao R. P. Godinot, em Roma. Madrid, 28 de julho de 1829. CARAYON, Auguste – op. cit., pp.121-126.

[11] Para Maria Carlos Radich, “Em 1828 o espírito público já estava morto e aniquilado, os partidos liberais desarmados e perseguidos, a imprensa amordaçada e o parlamento sem importância e valimento. Terá de supor-se, portanto, que se quebrou, mais ou menos profundamente, entre 1823 e 1834, o impulso que havia levado à constituição das sociedades patrióticas. O movimento será relançado depois de 1834”. RADICH, Maria Carlos – “Formas de organização política: Sociedades Patróticas e Clubes Políticos 1820-1836”. In PEREIRA, Miriam Halpern; FERREIRA, Maria de Fátima Sá e; SERRA, João B., (coord.) – O Liberalismo na Península Ibérica na primeira metade do século XIX: comunicações, 1º vol. Lisboa: Sá da Costa, 1982, p. 133.

In VEIGA, Francisca – A Restauração da Companhia de Jesus em Portugal 1828-1834: O breve regresso no reinado de D. Miguel. In Tese elaborada para obtenção do grau de Doutor em História, na especialidade de História Contemporânea, 2019.

Gravura satírica, Le Portugal et l’Europe en 1829,
Palácio Nacional de Queluz
Nesta gravura Portugal está representado, na parte superior do estrado, pela rainha D. Carlota Joaquina e por D. Miguel I que, sendo ajudados por religiosos, garroteiam indivíduos de diversos estratos sociais, afetos à causa liberal. Na parte inferior do estrado está representada a conjuntura política europeia.

24 DE JULHO DE 1833 – ENTRADA EM LISBOA DAS FORÇAS LIBERAIS

Na Europa de 1830, devido à propagação do liberalismo e nacionalismo como ideologias, renovam-se os conceitos de liberdade e de revolução.

  No dia 23 de julho começaram a ouvir-se os canhões e mosquetes em Almada o que levou, segundo Auguste Carayon, à resolução de na madrugada de 24 saírem de Lisboa os noviços e padres para casa da Condessa de Oliveira.

No dia 24 de julho de 1833, «au plus fort de la chaleur», as forças militares lideradas pelo duque da Terceira dirigem-se para Lisboa onde entram sem encontrar oposição.

Os miguelistas retiram-se de Lisboa, a exemplo do próprio duque de Cadaval. Escreve Carayon que durante a noite saíram, inclusive, os ministros, o Tesouro, o exército e a nobreza[1]. Joaquim Martins de Carvalho publica um artigo intitulado Libertação de Lisboa, 24 de julho de 1833, onde menciona que “… o ministro do reino de D. Miguel, conde de Basto, que á mesma hora se retirava com o resto do exercito miguelista, comandado pelo duque de Cadaval, na direcção de Coimbra…”[2]. Refere o Marquês de Fronteira que o Duque de Cadaval fugiu da capital “… com seis mil homens de infantaria, seiscentos cavallos e duas baterias, …”, estando do outro lado do Tejo, preparados para entrar em Lisboa apenas mil e duzentos militares[3]. Na opinião De Saturio Pires e Carlos Passos, o duque de Cadaval terá tentado resistir à saída de Lisboa, “… mas as opiniões dos oficiais do conselho (entre eles Gaspar Teixeira) eram «desaminadoras e cheias de terror pânico», pelo que se decidiu abandonar a cidade com o fundamento «na falta de confiança nas tropas, na facilidade com que Napier podia entrar no Tejo e nas dificuldades de uma eficaz resistência»”[4].

António Ribeiro Saraiva sobre o facto consumado das entrada das tropas liberias em Lisboa[5], escreve no seu Diário o seguinte: “Neste momento, eu e todos os que estavam demos inteiramente por perdido tudo para nós …”[6].

Com a entrada do exército em Lisboa, os monges da Cartuxa de Laveiras, que ajudaram os missionários jesuítas no contacto com o povo, decidem abandonar o mosteiro e juntar-se ao Cortejo do Tesouro Real de Queluz, aos «Paisanos, Mulheres, Crianças, Frades»[7], e rumaram a Coimbra onde se encontrava a Corte. Segundo Auguste Carayon, «Toutes les familles exilées de Lisbonne vinrent également se réfugier» em Coimbra, tornando-se esta cidade o centro e estada da família real, com oito “cabeças coroadas” e o asilo de outros tantos. Em Relation écrite par les Pères exilés de Coïmbre et du Portugal , os missionários jesuítas descrevem o momento do seguinte modo:

“Représentez-vous une grande partie de la population de la capitale, surtout des premières familles du royaume, une arrivée de douze à quinze mille hommes, qui fuient comme frappés d’une sorte de stupeur, sans aucune provision, sans argent sans rien se retirant en désordre sur une route la plupart du temps déserte et dépourvue partout de moyens de subsistance. Ils arrivent ainsi subitement à Coïmbre, harassés, fatigues, épuisés de chaleur, de privations et de frayeur. Coïmbre se vit tout-à-coup encombré de ces infortunés fugitifs, de chevaux, de voitures, et dans toutes les maisons on réclame et on donne l’hospitalité”[8]

Segundo Pinharanda Gomes, pelo caminho encontraram já em debandada os franciscanos do Varatojo, os cistercienses de Alcobaça e os arrábidos de Mafra[9].

Um ano depois, a 22 de abril de 1834, a Quádrupla Aliança decide-se pela intervenção militar contra as forças do rei D. Miguel I visando impor regimes liberais nas monarquias ibéricas e em 16 de maio, na batalha de Asseiceira, D. Pedro derrota as forças absolutistas de D. Miguel, assegurando os direitos de sua filha D. Maria da Glória e garantindo a vigência de uma Constituição liberal.

Pelo decreto de 28 de maio de 1834 D. Pedro, em nome de sua filha, extingue todas as Ordens Religiosas masculinas. As Congregações religiosas foram o alvo principal da atuação dos liberais, começando por expulsar novamente os jesuítas que, organizados segundo o estatuto canónico da Missão Portuguesa da Companhia de Jesus, eram considerados “o braço armado” do Papa.

Em 16 de abril de 1848, António Ribeiro Saraiva consternado, escrevia ao P. Nicolau dando-lhe conhecimento do estado em que se encontrava a Europa. Afirmava ele:

“É, todavia, um facto, que não há quase um canto da Europa em que se esteja ao abrigo da borrasca revolucionária e republicana, as únicas excepções por ora parecem ser aqui a Rússia. É triste não se ver apoio aos princípios monárquicos quase em parte alguma”[10].


[1] CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus: Notes historiques sur le rétablissement de la Compagnie de Jésus en Portuga, vol. X. Poitiers: Henri Oudin, 1863,, p. 53.

[2] O Conimbricense, nº4164, de 23 de julho de 1887, p. 1.

[3] FRONTEIRA, 7º Marquês de – Memorias do Marquês de Fronteira e de Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861, Parte 5ª: 1833 a 1834. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1929, pp. 33-34.

[4] PIRES, Saturio – Os Caçadores no Exercito de D. Miguel (1828-34). Um século de glória. Porto: Companhia Portugueza Editora, 1918, p. 32 (primeira referência); PASSOS, Carlos de – D. Pedro IV e D. Miguel I: 1826-1834. Porto: Livraria Simões Lopes, 1936, p. 346 (segunda referência). Apud LOUSADA, Maria Alexandre; SÁ, Maria de Fátima – D. Miguel. Lisboa: Temas e Debates, 2009, p. 224-225.

[5] Entrada das forças militares lideradas pelo duque da Terceira em Lisboa, 24 de julho de 1833. In Suplemento ao nº 174 da Crónica Constitucional do Porto, 26 de julho de 1833.

[6] SARAIVA, António Ribeiro – Diário de Ribeiro Saraiva, 1831-1888, Tomo I: 1831-1835. Lisboa: Imprensa Nacional, 1915, p.245.

[7] COSTA, Francisco de Paula Ferreira da – Memórias de um miguelista: 1833-1834, p. 24.

[8] Relation écrite par les Pères exilés de Coïmbre et du Portugal durant leur traversée, de Lisbonne à Gênes, sur le brigantin Sarde les vrais amis, en juillet 1834. In CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus, vol. XIX, pp. 472-473. Vide Anexo 17.

[9] GOMES, J. Pinharanda – A Ordem da Cartuxa em Portugal: Ensaio da Monografia Histórica, pref. dos Cartuxos de Scala Coeli. Salzburg: Institut für Anglistik und Amerikanistik, 2004, pp. 172-175.

[10] Carta de António Ribeiro Saraiva para o P. Nicolau, dia 16 de abril de 1848. In BNP, ARS, cx. 172 (25 cartas de 1844 a 1852), nº 22.

Colégio jesuíta de S. Paulo, Macau (1594-1762)

Muitos portugueses, homens cultos, ligados à ciência, entravam através de Macau no interior da China.

Data de 1565 o estabelecimento dos jesuítas em Macau. Rui Manuel Loureiro, em As Origens de Macau nas Fontes Ibéricas, refere, «Em 1554, viviam em Macau cerca de “oitocentos ou novecentos portugueses”, segundo informação de um missionário ali residente. No ano seguinte, os responsáveis da Companhia de Jesus despachavam o padre André Fernandes para aquelas partes, para, juntamente com o padre Manuel Teixeira e o irmão André Pinto, dar assistência religiosa aos mercadores portugueses que sempre são muitos. Mas, durante algumas semanas, entre a partida dos navios para o Japão e a chegada da frota de Malaca, a população diminuía consideravelmente» (LOUREIRO 2002: 93).

Estabeleceu-se em Macau uma Universidade destinada a preparar e treinar os recém-chegados. Instituição fundada em 1594 pela Companhia de Jesus ao serviço do império português, no âmbito do acordo do Padroado português. O Colégio serviu para preparar os missionários jesuítas que viajavam para o Extremo Oriente.

Como universidade passou a ministrar o ensino de disciplinas como o chinês, latim, teologia, filosofia, matemática, astronomia, física, medicina, retórica e música. A mais importante destas disciplinas era o chinês escrito e falado.

Nos mais de cento e oitenta anos desde 1594 (ano 22 do reinado de Wanli da Dinastia Ming, a 1779, ano 44 do reinado de Qianlong da Dinastia Qing), o Colégio de São Paulo funcionou sempre como base de treino onde se preparavam os portugueses que iam entrar na China.

Em 1594, esta instituição universitária já contava com mais de 200 estudantes e 59 professores.

Os Imperadores Xangxi e Qianlong tomaram a decisão de que, para missionar na China, «tem de morar-se mais de dois anos no Colégio de Macau, e aprender a língua chinesa.»

Em 1835, o Colégio de São Paulo e a sua igreja (Igreja da Madre de Deus) foram destruídos por um violento incêndio. Apenas sobreviveram a imponente fachada e a escadaria monumental da Igreja da Madre de Deus.

Fachada da Igreja de S. Paulo em Macau
Manuel da Costa
c. 1815
Litografia a preto sobre papel
Lisboa, Arquivo Histórico Ultramarino

China – Macau

Planta de Macau
Autoria do cartógrafo luso-malaio Godinho de Erédia
(ms. c. 1615-c. 1622)

A mais antiga imagem da península de Macau depois de consumado o estabelecimento dos portugueses em meados do século XVI.

É nítida a coexistência de uma cidade portuguesa e de uma cidade chinesa, separadas uma da outra, mas preenchendo toda a área entre a Praia Grande e a Praia Pequena.

Regista ainda os perímetros murados da residência mandarim e da cerca que os portugueses fizeram levantar no monte de S. Paulo, a qual foi concluída por volta de 1606 e antecedeu a fortaleza do Monte (por seu turno, praticamente terminada em 1622).

Marca as principais igrejas, ermidas e/ou baterias nos pontos elevados (Nossa Senhora da Guia, S. Francisco, Barra), tal como o sítio do templo chinês da Barra (Ma-Kou-Miu/Ma Ge Miao, ou Templo da Deusa A-Má), encravado entre a Colina da Barra e o “sorgidoro” (Porto Interior).

Na margem Norte, entre um denso arvoredo e o istmo, marca ainda algumas casas, representando a aldeia chinesa de Wangxia (Mongha).

China – Pequim
Dinastia Ming  (1368-1644)

A Dinastia Ming  (1368-1644) foi precedida pela dinastia Yuan e substituída pela dinastia Qing na China.

Os imperadores da dinastia Ming eram membros da família Zhu. Entre a população havia fortes sentimentos contra o governo por “estrangeiros”, o que finalmente levou à revolta que empurrou a dinastia Yuan de volta às estepes da Mongólia e ao estabelecimento da dinastia Ming em 1368.

Esta dinastia começa num tempo de renovação cultural e de florescimento das artes.

Especialmente a indústria da porcelana obteve um brilho sem precedentes.

Mercadores chineses exploraram a totalidade do Oceano Índico, atingindo a África com as viagens de Zheng He.

Um vasta marinha foi construída, incluindo navios com 4 mastros, pesando 1.500 toneladas.

Havia um exército permanente de 1 milhão de homens.

Alguns afirmam que a China do início da dinastia Ming poderia ter sido a nação mais avançada do seu tempo.

Períodos mais importantes da estada dos portugueses em Pequim:

1521-1566  Imperador Jiajing

1566-1572  Imperador Longqing

1572-1620  Imperador Wanli

1620       Imperador Taichang

1620-1627  Imperador Tianqi

1627-1644  Imperador Chongzhen

China – Pequim
Dinastia Qing (1644 – 1912)

A dinastia Qing por vezes conhecida como a dinastia Manchu, foi fundada pelo clã Manchu Aisin Gioro.

Esta dinastia começou quando os manchus invadiram o norte da China em 1644 e derrotaram a dinastia Ming.

Desta região, os manchus expandiram a dinastia para a China propriamente dita e os territórios circundantes da Ásia central, estabelecendo o Império do grande Qing.

A Qing foi a última dinastia imperial da China; os seus imperadores ocuparam a sua capital entre 1644 e 1912.

Mapa do Império Qing

Períodos mais importantes da estada dos portugueses em Pequim:

1643-1661  Imperador Shunzhi

1661-1722  Imperador Kangxi

1722-1735  Imperador Yongzheng

1735-1796   Imperador Qianlong

Três dos Imperadores da Dinastia Qing  na vida dos portugueses

O Palácio Imperial da Dinastia Qing, em Shenyang, com  114 edifícios, construídos entre 1625-26 e 1783. 

Alguns estudiosos estrangeiros que passaram pelo colégio de S. Paulo:

    Alexandre Valignano (1578-1606): fundador do colégio, o impulsionador do estudo das línguas japonesa e chinesa.

    Michele Ruggieri (1579): coautor do dicionário Português-Chinês – o primeiro dicionário europeu de chinês.

    Matteo Ricci (1582): coautor do dicionário Português-Chinês – o primeiro dicionário europeu de chinês

    Johann Adam Schall von Bell (1619): conselheiro do imperador Shunzhi, Presidente do Observatório Imperial e do Tribunal das Matemáticas.

    Ferdinand Verbiest (1659): matemático e astrónomo, corrigiu o calendário chinês, foi Presidente do Conselho de Matemática e Diretor do Observatório.

Alguns estudiosos portugueses que passaram pelo colégio de S. Paulo:

  • João Rodrigues: nasceu em Sernancelhe, em 1560 ou 1561. Com apenas 14 anos saiu de Portugal em direção à Índia. Em 1577 chegou ao Japão como membro da Companhia de Jesus. Para além de intérprete, foi um dos autores e coordenador do Vocabulário da Lingoa de Japan, editado em 1603, primeiro dicionário de japonês-português; da Arte da Língua de Japam (1608); Arte Breve da Língua de Japam (1620) e autor de A História da Igreja de Japam.
Vocabulario da lingoa de japan
Os jesuítas, que recebiam confissões, precisavam entender os fiéis japoneses.

  • Tomás Pereira (1665?-73) – Xu Risheng, Yingong: Considerado o introdutor da música ocidental na China, emissário do imperador Kangxi no Tratado de Nerchinsk.

Zarpou de Lisboa em 15 de Abril de 1666 e acabou a sua formação na Índia.

Saiu de Macau em 1672 e chegou a Pequim em 1673. Foi convidado do Imperador Xangxi devido aos seus dotes naturais e musicais. Ensinou o Imperador a tocar o “clavicórdio”.

Tomás Pereira, clavicórdio

Encarregado de traçar as fronteiras da Sibéria com a China, no ano de 1688.

Vice Presidente do Tribunal das Matemáticas, em Pequim.

Depois da morte de Verbiest (1688) Xangxi nomeou T. Pereira presidente da Comissão de Astronomia, mas Pereira declinou, ficando como Presidente substituto com António Pereira de 1688 a 1694.

Curiosidade: Relógio de Tomás Pereira – Trata-se de um desenho do relógio que Tomás Pereira fabricou para a torre de uma igreja, em Pequim. Introduziu no interior da torre um tambor com espigões, semelhantes aos das caixas de música, que acionavam arames ligados aos badalos de um carrilhão o qual, a todas as horas, tocava músicas tradicionais chinesas.

Desenho do relógio que Tomás Pereira fabricou para a torre de uma igreja, em Pequim.
  • Manuel Dias (Yang Manuo, Yenxi): nasceu em Castelo Branco (Portugal) e chegou à China em 1611. Saiu de Portugal a 11 de Abril de 1601 para a Índia a bordo da nave Santiago e provavelmente chegou a Goa no mesmo ano. Terminou aí os seus estudos de Teologia. Chegou a Macau por volta de 1605 e ensinou teologia seis anos. Chegou a Pequim em 1613/14 com a ordem de «ensinar matemática aos chineses».

              Curiosidade: Manuel Dias introduziu o telescópio na China apenas três anos após Galileu o ter divulgado. Galileu descobriu duas saliências na altura do equador de Saturno. Como o telescópio não era suficientemente poderoso para que ele pudesse perceber os anéis do planeta, atribuiu as saliências a duas pequenas luas, bem próximas à superfície de Saturno. Quando as notícias chegaram a Pequim, Manuel Dias fez este desenho no seu compêndio “Tien wen Lueh”. Nas suas publicações afirmava a existência destas esferas celestes sólidas. Esta doutrina estranha à cosmologia chinesa, estimulou reações muito vivas entre os mandarins, referidas na Europa por Cristóvão Borri.

Globo chinês, feito em 1623 na China, por Manuel Dias (1574-1659).

ROTA DA COTOVIA

Memórias do noviciado da Cotovia em diversas instituições de Lisboa

Ao espólio do noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus que se encontra no Museu Nacional de História Natural e da Ciência poderíamos adicionar pinturas e esculturas da igreja do antigo noviciado, mas, devido a uma série de incêndios e cataclismos que lavraram este edifício da Rua da Escola Politécnica, perderam-se no fogo ou foram salvas e recuperadas por outras entidades, encontrando-se atualmente a embelezar igrejas ou museus nacionais.

Pelos espaços dos Museus da Politécnica passaram as seguintes instituições de ensino onde lamentavelmente os cataclismos e incêndios foram, como se disse, uma constante:

  • Noviciado da Cotovia (13 de Junho 1619)

1694 – 1º Incêndio

1731 – 2º Incêndio – arde a Capela particular de um dos financiadores do noviciado, Lourenço Lombardo.

1755 – Terramoto

  • Colégio dos Nobres (7 de Março 1761)
  • Escola Politécnica (11 de Janeiro 1837)

1843 (22 de Abril) – 3º incêndio – fica totalmente destruída a igreja.

  • Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) (Março 1911)

1978 – 4º Incêndio

Assim, num percurso que parte do MNHNC, edifício com uma longa história mas com um presente que ainda tem muito por desvendar e para transmitir à população, vamos descobrir o passado da primeira Casa de Provação da Companhia de Jesus na Província Portuguesa, através do seu espólio disperso por diversas instituições que acolheram estas peças e as expuseram ao público como peças de culto ou de interesse artístico. 

Na sacristia da igreja de S. Mamede, na rua da Escola Politécnica, encontra-se uma pintura de Domingos da Cunha. Sendo a temática mariana um dos temas melhor aceites no período pós Concílio de Trento e também aquele que mais suscitou o interesse dos pintores europeus, esta Visitação não foge à regra tridentina. Iconograficamente encontra-se enquadrada ao centro por Maria SSª que cumprimenta a sua prima Isabel. À esquerda do observador, São José faz festas a um cão. Atrás dele apruma-se um retrato seguido de outra figura feminina. Do lado direito Zacarias (sacerdote do Templo de Jerusalém, pai de João Baptista e esposo de Isabel) avança de braços abertos, tendo junto de si outro figurante, com a mão em esquisita posição e desenho. Atrás de si outra figura feminina. A figura do retrato contrasta na comparação visualmente estabelecida com as outras idealizadas. Será o autorretrato de Cabrinha, enroupado de negro, com colarinho típico dobrado sobre a gola, no gosto elegante da época. Pensa-se que Domingos da Cunha se introduziu como personagem nesta pintura devido aos traços fisionómicos algo bexigosos e orientalizantes de uma figura.

Pintura do século XVII (mais ou menos 1630) que, segundo Vítor Serrão e para o jesuíta Costa Lima pertenceu ao “…extinto Colégio jesuítico da Cotovia…”. Joaquim O. Caetano em O púlpito e a imagem: os jesuítas e a arte refere que Domingos da Cunha executou “…algumas pinturas para o Noviciado da Cotovia, entre as quais uma «Visitação» que se encontra na Sacristia da Igreja de S. Mamede…”. Também Costa Lima assegura que “…o quadro fora da Politécnica, antigo Noviciado dos jesuítas, onde o famoso e santo artista reparou a sua vida boémia…”[1].

Visitação (Sacristia da Igreja de S. Mamede)

Datada do século XVIII d.C., encontra-se na nave desta igreja de S. Mamede uma escultura de Nossa Senhora da Conceição, de José de Almeida (1708-1769), também ela pertencente ao antigo noviciado da Cotovia. José de Almeida foi mestre de Machado de Castro na escultura em mármore. Podemos ver peças deste escultor no palácio de Mafra (presépio, conjunto escultórico relativo aos mártires de Marrocos) e na igreja de S. Domingos de Benfica. Discípulo de Carlo Monaldi esculpiu ainda uma Senhora da Vitória e uma Senhora das Virtudes para a igreja de S. Domingos, em Lisboa, e um Cristo e  uns Anjos de Adoração para o Palácio-Convento de Mafra; é-lhe atribuído o trabalho de talha dourada no Coche de D. João V; podemos também ver um Santo Onofre no Museu Nacional de Arte Antiga. Hábil escultor em pedra José de Almeida estudara em Roma, protegido e sustentado por D. João V.

A escultura de Nossa Senhora da Conceição encontra-se iconograficamente presentada com equilíbrio e síntese no tratamento volumétrico, com serenidade expressiva e gestual. Dinâmico contraposto dos membros inferiores. Assenta num esferoide, que tem representadas nuvens e a rodeá-la estão quatro cabeças de anjos.

Nossa Senhora da Conceição (nave da Igreja de S. Mamede)

No largo Trindade Coelho encontramos a igreja de S. Roque, igreja e casa Professa da Companhia de Jesus durante mais de 200 anos, antes de os Jesuítas terem sido expulsos do país no ano de 1759. Primeira igreja em Portugal e uma das primeiras igrejas jesuítas em todo o mundo.  Aqui, na sua sacristia vamos encontrar algumas pinturas de Domingos da Cunha que, segundo alguns historiadores poderiam ter pertencido ao noviciado da Cotovia.

São catorze os quadros que se encontram colocados sobre o arcaz da sacristia da igreja de S. Roque, acima da série xaveriana de André Reinoso, do século XVIII e que descrevem o Ciclo da Vida de Santo Inácio de Loyola. Para Vítor Serrão e Reynaldo dos Santos, esta série da sacristia é de nível inferior à da nave da Igreja, mostrando ser obra de colaborações díspares, como também que estava mal montada sobre o arcaz[2]. Possivelmente foram aí colocados pós terramoto, com a consequente destruição do noviciado da Cotovia, pois o espaço onde foram colocados não parece adaptado à série.

Para pintar estas telas o pintor Domingos da Cunha utilizou as gravuras da Vita Beattii Patris Ignatii Loyolae Religionis Societatis Iesu Fundatoris ad Vivum Expressa ex ea quam, de P. Petrus Ribadeneyra, publicada em 1610 por Cornelis Galle, em Antuérpia, com dezasseis buris de Cornelis e de Theodore Galle, de Adrien e Johann Collaert e de Charles de Mallery[3]. Nota-se outras influências ao nível estético, com alguma modernidade, saídas dos modelos caravagescos. É visível ao nível pictórico um desequilíbrio, mostrando que, possivelmente, um colaborador seu tenha também participado nesta construção[4].

Luís Moura Sobral estudou o ciclo hagiográfico da sacristia de S. Roque e concluiu o seguinte acerca dos painéis da Vida de Santo Inácio: estes não estão dispostos seguindo uma narrativa biográfica; dois dos quadros repetem o mesmo episódio; oito das telas foram feitas cerca de 1619, com legendas na banda inferior em castelhano e com figuras de pequena escala; as restantes seis pinturas que se encontram enquadradas entre os anos de 1640-44 tem figuras monumentais, com efeitos tenebristas e alguns exageros na representação anatómica e estão legendadas na banda inferior em português. Estas, para Moura Sobral e Joaquim Caetano são as verdadeiras obras de Domingos da Cunha, com semelhanças de composição e de fatura (exceto aquela onde Santo Inácio ouvindo um sermão lhe saem raios da cabeça, que se encontra mais perto das telas da nave da igreja, também elas de Domingos da Cunha), executadas para S. Roque ou reaproveitadas do Noviciado da Cotovia[5].

Nas peças cedidas ao Museu Arqueológico do Carmo pela Escola Politécnica[6] encontram-se três peças do espólio da Cotovia: uma escultura de São Estanislau Kostka (padroeiro dos noviços); uma de São Luís Gonzaga (padroeiro da juventude); e uma Inscrição funerária e votiva de Luís Correia.

São Estanislau Kostka e São Luís Gonzaga (Museu de Arqueologia do Carmo)

A estatuária religiosa em pedra possui uma função ornamental e identificativa. Trata-se de imaginária integrada em nichos abertos nas fachadas principais dos edifícios religiosos, aludindo ao orago do templo ou ao universo devocional da comunidade religiosa. Neste caso específico encontramo-nos iconograficamente perante dois santos da Companhia de Jesus.  São Estanislau Kostka (padroeiro dos noviços) surge-nos, iconograficamente, sustentando um menino nos seus braços, levando-nos ao encontro com sua história onde se conta que, estando doente e durante um sonho, viu a Virgem Maria colocar o Menino Jesus em seus braços. Nossa Senhora, na sua aparição, convidou-o a ingressar na Companhia de Jesus. A indumentária de ambas as esculturas é semelhante, estando ambos vestidos como membros da Companhia de Jesus, isto é, com sobrepeliz[7]. São Luís Gonzaga (padroeiro da juventude)[8] tem como atributos um lírio, um crânio, uma disciplina ou um crucifixo. Um desses objetos, agora desaparecido da sua mão esquerda era por ele dado a contemplar. Imagens que física e estilisticamente se aproximam uma da outra, onde a desproporção pode igualmente ser observada e sendo visível ao nível da cabeça, parecendo à vista desarmada um restauro quase desastroso. Cultiva-se o gosto pelo gesto e pela exploração do momento determinante da ação. Mas se olharmos estas figuras num plano mais elevado, esta desproporção ameniza-se. Ambas as peças estão sobre uma base do mesmo material mas também ela provocando alguma dinâmica.

Por fim, vamos encontrar no Museu Arqueológico do Carmo uma Inscrição funerária e votiva que se encontrava na Capela de São Luís Gonzaga, no corpo da igreja, do lado do Evangelho. Esta capela tinha um altar com colunas de madeira dourada e capitéis. No retábulo havia uma pintura em pano com a imagem de São Luís Gonzaga, e uma imagem do mesmo santo de três palmos de altura, com resplendor de prata. Numa mão tinha um ramo de açucenas, em tecido, e à cintura um coração de prata[9]. Comprada ao noviciado, com escritura de 30 de Junho de 1666, por Luís Correia da Paz com intenção de ter aí a sua jazida. O seu filho morreu em 1665 e um ano depois foi aí enterrado.

Inscrição funerária e votiva (MAC)

Encaixada em uma parede da capela existia uma lápide que tinha inscrito o seguinte:

[Á EXALTAÇÃO DE CHRISTO/ DEDICADA ESTA CAPELA AO/ B. LUVIS GONZAGA POR LUIS COR/ REIA Q.DO A COMPRO A ESTE/ COLLEGIO PARA SEV JAZIGO E DE/ TODOS OS DESCENDENTES E AS/ CENDENTES DE SEV PAI FER/ NÃO CORREIA E SVA MAI BRANCA/ DA PAZ E IAZ NELLA SEV FILHO LV/ IS CORREIA DE SOVSA Q. FALECEV A/ 21 DE ABRIL DE 1665][10]

Panorama de Lisboa e Partida de S. Francisco Xavier para a Índia.   -   Autor desconhecido - Séc. XVIII. Noviciado da Cotovia, MNAA.Mais distante deste circuito do espólio perdido do noviciado da Cotovia vamos encontrar no Museu Nacional de Arte Antiga duas pinturas monumentais desta dita casa de provação.

A pintura a óleo sobre tela do Panorama de Lisboa e partida de S. Francisco Xavier para a Índia, atribuída primeiro a Domingos da Cunha, artista jesuíta e noviço da Cotovia cuja atividade se desenvolveu até aos finais da primeira metade do século XVII (1644), depois a Gaspar Simões dos Reis e, mais recentemente ao pintor José Pinhão de Matos (165? – 175?). Esta pintura representa a vista panorâmica de Lisboa na segunda metade do século XVII, abarcando o Terreiro do Trigo a Este, até à Cruz Quebrada (já fora dos limites da cidade) a Oeste, passando pela Rocha do Conde de Óbidos e Belém, onde se destaca o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, enquanto para o interior, ainda se consegue visualizar o Paço da Alcáçova, a Sé e São Vicente de Fora e a Oeste uma conjunto de conventos. São reproduzidos detalhadamente toda a zona ribeirinha e mais precisamente o mercado da Ribeira Velha, a Casa da Índia e o Terreiro do Paço devido à perspetiva vinda do rio Tejo, que se encontra cheio de caravelas e naus nacionais e Estrangeiras. A esta Vista de Lisboa no século XVII, é acrescida a partida para Goa de São Francisco Xavier corrido em Abril de 1541[11]. O pintor pinta os diversos momentos do acontecimento: a saída do Santo para a passarela que dá acesso ao Rio, o embarque na galeota e o trajeto desta que se dirige para a nau da armada da Índia. Na parte superior da composição está representada a cena de despedida de Francisco de Xavier ao rei D. João III, envolta por grinaldas suspensas por dois anjos. Um terceiro anjo, no ângulo superior esquerdo desenrola um pergaminho onde se pode ler: “Acceptis a Joane III / pontificis literis / nuntius apostolicus / in Indiam solvit / Santus Francisco Xavierius. /”. Depois de ter recebido as cartas pontifícias das mãos de D. João III, o Núncio apostólico São Francisco Xavier parte para a Índia.

D. João III e o núncio apostólico da Índia, ou A partida de São Francisco Xavier em 1541,
José Pinhão de Mattos, c. 1730.
MNAA

Outra pintura que se encontra referenciada como pertencente ao noviciado está atualmente em exposição neste Museu. É uma Vista Perspectica de Goa e Terras Próximas no Século XVII[12], atribuída erradamente ao retratista Domingos de Gusmão que “… as pintou na casa de provação dos jesuítas”, como é referido num ofício expedido pelo Diretor da FCUL ao Reitor da Universidade de Lisboa em 23 de Julho de 1947 [13]. Datada do século XVIII (1715 d.C. – 1765 d.C.), esta vista de Goa, tal como o Panorama de Lisboa foram encontrados nas coleções da Escola Politécnica em 1864, onde fazia parte de um conjunto de pinturas evocativas da presença de São Francisco Xavier no Oriente.

Vista Perspectica de Goa e Terras Próximas
José Pinhão de Matos
MNAA

Todas estas peças de arte que pertenceram ao noviciado da Cotovia traduzem bem a forma de sentir dos seus ocupantes e da Ordem que Santo Inácio iniciou, onde cada homem é constituído por um composto corpo e alma, isto é, “uniformização” do indivíduo, com “purificação do corpo” e “disciplina da alma”. Este espólio traduz o universo devocional desta comunidade religiosa, utilizado na prática cultual e devocional ou na estimulação do espírito missionário. No gosto dos jesuítas pela Gesamtkunstwerk ou obra de arte total vislumbra-se os princípios estéticos vigentes no mundo católico dos séculos XVI, XVII e XVIII, isto é, pós reforma católica.


[1] Vítor Serrão, A Pintura Proto-barroca em Portugal, 1612-1657, Coimbra: [s.n.], 1992, p. 133; J. da Costa Lima, “Artistas velhos e novos”, in Brotéria cultural, vol. XXXII, 1941, p.408; Joaquim Oliveira Caetano, O púlpito e a imagem: os jesuítas e a arte, Lisboa: Museu de São Roque, 1996, p.23 e 54; J. da Costa Lima, op. cit., p.408.

[2] Vítor Serrão, A Pintura Proto-barroca em Portugal, 1612-1657, Coimbra: [s.n.], 1992, p. 140. Vítor Serrão observa que Reynaldo dos Santos também já tinha verificado que esta série Inaciana revelava uma série de incongruências. Ver inclusive João Barreira, Arte Portuguesa, Lisboa: [s.n.], 1963.

[3] Luís de Moura Sobral, “Espiritualidade e Propaganda nos programas Iconográficos dos jesuítas portugueses”, In A Companhia de Jesus na Península Ibérica nos sécs. XVI e XVII : Espiritualidade e cultura : actas do Colóquio Internacional, Maio 2004, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Instituto de Cultura Portuguesa; Universidade do Porto, Centro Inter-universitário de História da Espiritualidade, 2004, p.402.

[4] Ibidem., p. 141.

[5]Ibidem, p. 401; Joaquim Oliveira Caetano, Pintura, Colecção de Pintura da Misericórdia de Lisboa, Século XVI ao Século XX, Tomo I, Lisboa : S.C.M., 1998; Ibidem, p. 54.

[6] Informação recolhida em José Morais Arnaud (coord.); Carla Varela Fernandes (coord.); Vitória Mesquita (coord.), Construindo a Memória: As Colecções do Museu Arqueológico do Carmo, Lisboa: Associação dos Arqueólogos Portugueses, 2005.

[7] A Companhia de Jesus ordenou o uso da sobrepeliz durante o sermão e nas lições sagradas, daí surgirem estas duas estátuas com este tipo de indumentária.

[8] São Luís Gonzaga é considerado “Patrono da Juventude”. Seu corpo repousa na Igreja de Santo Inácio, em Roma. São Luís Gonzaga escreveu: “Também os príncipes são pó como os pobres: talvez, cinzas mais fedidas”. Após ter recebido a primeira comunhão das mãos de São Carlos Borromeu, decidiu-se pela vida religiosa, entrando para a Companhia de Jesus.

[9] Raul Lino, Luís Silveira, A. H. de Oliveira Marques, Documentos para a história da arte em Portugal, 4º vol., Lisboa: F.C.G., 1969-1991.

[10] Nobiliário [Manuscrito de Rangel de Macedo: Título de Correias e Pazes]. In PORTUGAL. Biblioteca Nacional de Portugal, Inventário : secção XIII : manuscriptos : collecção pombalina, Lisboa: BN, 1889, nº 272 a 276; ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO, Inventário do Cartório do Colégio dos Nobres, Liv. 71, p. 16, nº 3.

[11] Maria Helena Mendes Pinto, “Panorama de Lisbonne at départ de Saint François Xavier pour l’Inde”, in Via Orientalis (catálogo da exposição), Bruxelles: Europalia, 1991.

[12] Idem, “Panorama de Goa et de ses environs”, in Via Orientalis (catálogo da exposição). Bruxelles: Europalia, 1991.

[13] Arquivo Histórico dos Museus da Universidade de Lisboa – MUHNAC. Cópia de ofício expedido pelo Diretor da FCUL ao Reitor da Universidade de Lisboa em 23 de Julho de 1947. Lv. 718.

São João de Brito, missionário e mártir da Companhia de Jesus

(Lisboa, São Cristóvão e São Lourenço, 1 de março de 1647 — Oriur, Índia, 4 de fevereiro de 1693)

Foi missionário e mártir, frequentemente chamado de «Francisco Xavier» português. Nasceu em Lisboa, na calçada de S. André (Costa do Castelo) em 1647. De ascendência fidalga, diz António Franco que, desde menino que o seu destino era ser pagem na Corte.

João de Brito, já entrado na adolescência, é vítima de uma doença grave. A sua cura marcou uma viragem na sua vida, pois devido a uma promessa de sua mãe, teve de vestir o hábito de São Francisco Xavier.

A 17 de dezembro de 1662, com 16 anos entra para o noviciado da Cotovia (atual espaço do MNHNC), em Lisboa. A 25 de dezembro de 1664, após dois anos de noviciado, é enviado para a Universidade de Évora para continuar os estudos eclesiásticos, seguindo em 1666para Coimbra, para fazer filosofia.

Mais tarde será professor no Colégio de Santo Antão, em Lisboa. No ano de 1668, pede ao Superior Geral que o deixe ser missionário. Partiu a 25 de março de 1673 numa expedição em que vão 27 jesuítas, uns destinam-se à China, outros como João de Brito à Índia.

O martírio chegou em 1693 no alto do monte sobranceiro ao rio Pamparru, à vista de Urgur. Foi decapitado sendo o cadáver amputado de pés e mãos, e os seus despojos dados às feras e aos abutres. Alguns cristãos recolheram o crânio e alguns ossos. O cutelo da execução obteve-se do carrasco mediante grande soma de dinheiro. Dentro de uma bainha de filigrana de prata, foi trazido para Lisboa e oferecido a D. Pedro II, que o confiou à guarda da Companhia de Jesus, no Colégio de Santo Antão.

Foi canonizado em 22 de Junho de 1947, pelo Papa Pio XII.

In VEIGA, Francisca Branco – “Noviciado da Cotovia: O passado dos Museus da Politécnica 1619-1759” [texto policopiado]. Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Património Cultural. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2009.

São João de Brito
Foto: Francisca Branco Veiga
Arca Relicário de S. João de Brito
Museu de S. Roque, Lisboa