Em 22 de abril de 1541, Inácio de Loyola e os seus primeiros companheiros professaram votos solenes na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma, consolidando juridicamente a Companhia de Jesus. A ordem havia sido aprovada no ano anterior, em 1540, pelo Papa Paulo III, através da bula Regimini militantis Ecclesiae. Este momento marcou a formalização definitiva dos jesuítas, estabelecendo, entre outros elementos distintivos, o voto de obediência especial ao Papa e lançando as bases para uma rápida expansão missionária, educativa e cultural.
O núcleo fundador era composto por companheiros que, em grande parte, se conheceram na Universidade de Paris. Entre eles destacavam-se Pedro Fabro, o único sacerdote no início e notável diretor espiritual; Francisco Xavier, que se tornaria um dos maiores missionários da história; Diego Laínez e Afonso Salmerón, ambos teólogos influentes e participantes no Concílio de Trento; Nicolau Bobadilla, ativo e combativo no contexto europeu; e Simão Rodrigues, fundamental para a implantação da ordem em Portugal. A este grupo juntaram-se pouco depoisCláudio Jayo, Pascoal Broet e João Codure, que contribuíram para a consolidação inicial da Companhia, sobretudo em Itália.
Após a aprovação e os votos solenes, Inácio, permanecendo em Roma, organizou a distribuição dos companheiros segundo as necessidades da Igreja e os pedidos do Papa. Francisco Xavier foi enviado para o Oriente, estabelecendo-se na Índia e estendendo a missão até ao Japão, numa das mais notáveis expansões missionárias do século XVI. Simão Rodrigues dirigiu-se a Portugal, onde consolidou a presença jesuíta junto da corte e no sistema educativo. Pedro Fabro trabalhou no espaço do Sacro Império Romano-Germânico, incluindo regiões como Alemanha e Áustria, num contexto marcado pela Reforma Protestante. Diego Laínez e Afonso Salmerón destacaram-se em Itália e no Concílio de Trento, contribuindo para a resposta católica à Reforma. Nicolau Bobadilla atuou igualmente na Europa Central, enquanto Cláudio Jayo, Pascoal Broet e João Codure permaneceram sobretudo em Itália, envolvidos na formação, ensino e organização interna da ordem.
A Estratégia Quadripartida de Loyola
A distribuição geográfica e funcional dos jesuítas revela uma “notável clareza” estratégica por parte de Inácio de Loyola. A tabela seguinte revela as quatro frentes de atuação definidas institucionalmente:
Pilar Estratégico
Aplicação Prática/Geográfica
Periferias missionárias
Expansão na Ásia, especificamente na Índia e no Japão (Francisco Xavier).
Centros de poder político
Inserção estratégica em Portugal (corte) e a sede administrativa em Roma.
Fronteiras religiosas mais tensas
Atuação no Sacro Império Romano-Germânico (Alemanha, Áustria) e Europa Central contra a Reforma.
Núcleo intelectual e administrativo em Roma
Concentração em Roma para formação, ensino e organização interna, com foco no Concílio de Trento.
A estratégia delineada por Inácio de Loyola revela uma notável clareza: presença nas periferias missionárias, como a Ásia; inserção nos centros de poder político, como Portugal e Roma; atuação nas fronteiras religiosas mais tensas da Europa; e consolidação de um núcleo intelectual e administrativo em Roma.
Percepção Histórica vs. Intencionalidade Inicial
A distribuição dos companheiros, abrangendo desde a Ásia até ao coração da Europa Central, reflete uma visão de mundo globalizada e uma intencionalidade estratégica planeada. A “notável clareza” da estratégia de Loyola permitiu que a Companhia de Jesus ocupasse, em simultâneo, os centros de decisão política, as frentes de combate teológico e as periferias missionárias. Esta capacidade de gerir um núcleo intelectual e administrativo em Roma, enquanto se projetava como uma vanguarda missionária e educativa, moldou a percepção histórica da ordem como uma instituição de elite, capaz de responder com precisão aos desafios da Época Moderna.
A partir deste modelo, sustentado por uma intensa rede de correspondência, a Companhia de Jesus desenvolveu-se rapidamente, tornando-se uma das instituições mais influentes da época moderna.
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VEIGA, Francisca Branco, 22 de Abril de 1541: Fundação Solene da Companhia de Jesus e a Primeira Missão Global dos Jesuítas (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [22 de Abril de 2026].
Cenas alegóricas alusivas às disciplinas que eram ensinadas no Colégio de Santo Antão. Sala «das Esferas». Atual Salão Nobre do Hospital de São José. Fotografias: @franciscabrancoveiga
No Colégio de Santo Antão-o-Novo, em Lisboa, funcionou desde finais do século XVI até ao século XVIII uma Aula de Esfera pública, uma das mais relevantes instituições de ensino científico da época em Portugal.
Esta designação derivava dos tratados sobre “a esfera”, que tratavam dos princípios da cosmografia, fundamentais para a formação dos navegadores e estudiosos da época. A Aula de Esfera fazia parte do currículo jesuíta, que desempenhava um papel central na educação científica e na formação de elites portuguesas, em especial nos domínios da matemática aplicada à navegação, cartografia e astronomia.
Disciplinas ensinadas na Aula da Esfera
Arte de Navegar – Domínio dos métodos e técnicas de navegação marítima, com recurso a instrumentos náuticos como o astrolábio, o quadrante e a balestilha, essenciais para a determinação da posição em alto mar.
Geografia e Hidrografia – Estudo e descrição dos continentes, oceanos e rotas marítimas, com particular enfoque nas possessões ultramarinas portuguesas e nas suas vias de acesso.
Cosmografia, construção e uso de globos – Conhecimentos sobre a forma e estrutura da Terra, a representação cartográfica do mundo conhecido e a construção de instrumentos globulares de apoio à navegação.
Astrologia Judiciária e Prática – Análise da influência dos astros sobre os fenómenos terrestres e sua aplicação ao planeamento de expedições e à navegação.
Geometria – Base indispensável para os alunos com vocação militar, permitindo o domínio da engenharia, da arquitetura defensiva e da balística.
Astronomia – Estudo sistemático do movimento dos corpos celestes e da sua aplicação à navegação astronómica e à determinação de coordenadas geográficas.
Matemática aplicada – Cálculo de latitudes, longitudes e projeções cartográficas, com aplicação direta à cartografia e à navegação de longo curso.
Física e Mecânica – Princípios fundamentais para a compreensão da balística, do funcionamento de máquinas e da conceção de instrumentos científicos.
Os alunos da Aula de Esfera pertenciam a três grandes grupos:
A Aula da Esfera não se destinava a um público homogéneo. Os seus alunos eram recrutados em função de objetivos distintos, mas convergentes no quadro do projeto expansionista português, e podiam ser agrupados em três grandes perfis.
Especialistas em navegação e cartografia O primeiro grupo era constituído por jovens com vocação técnica, destinados a servir a Coroa portuguesa na exploração e administração das possessões ultramarinas. A estes futuros pilotos, cartógrafos e cosmógrafos exigia-se um domínio rigoroso da astronomia, da matemática aplicada e da arte de navegar. Eram eles que, munidos de astrolábios e quadrantes, garantiam a segurança das rotas marítimas e a precisão dos mapas que iam desenhando o mundo conhecido.
Jovens nobres com aspirações militares O segundo grupo era composto por filhos de famílias nobres com ambições na carreira militar e nas conquistas coloniais. Para estes, a Aula da Esfera oferecia uma formação sólida em geometria, balística e engenharia militar — saberes indispensáveis a quem aspirava comandar fortalezas, dirigir operações militares ou administrar territórios em nome da Coroa. A ciência era, para eles, um instrumento de poder.
Missionários jesuítas O terceiro grupo distinguia-se dos anteriores pela natureza da sua missão. Os missionários que partiam para os territórios ultramarinos — do Brasil ao Japão, de Angola à Índia — necessitavam de uma formação científica sólida para estabelecer contacto com civilizações estrangeiras, muitas delas com tradições astronómicas e matemáticas próprias e sofisticadas. Conhecer o céu era, para estes homens, não apenas uma ferramenta de navegação, mas também uma ponte de diálogo com os povos que encontravam.
A Aula de Esfera do Colégio de Santo Antão desempenhou um papel central na cultura científica portuguesa do século XVII. Era a única instituição em Portugal onde se ensinavam ciências ligadas à Matemática com um caráter tão prático e aplicado. O seu ensino estava diretamente relacionado com os interesses expansionistas da Coroa e com a necessidade de manter a liderança portuguesa na navegação e na exploração marítima.
Muitos dos homens que se distinguiram na cartografia, na astronomia e na administração dos territórios ultramarinos passaram por esta instituição. Lisboa era, à época, um ponto de encontro para intelectuais e cientistas europeus a caminho da Ásia e das Américas, e os mais preparados entre eles contribuíam para o ensino na Aula de Esfera, introduzindo os mais recentes avanços científicos.
Professores notáveis da Aula de Esfera:
A qualidade do ensino ministrado na Aula da Esfera ficou em grande medida a dever-se ao perfil excecional dos seus docentes. Muitos eram jesuítas de projeção europeia, atraídos a Lisboa pela centralidade de Portugal nas rotas científicas e comerciais do mundo quinhentista e seiscentista.
Giovanni Paolo Lembo – Astrónomo jesuíta italiano de reconhecido mérito, Lembo distinguiu-se não apenas pelo ensino teórico mas pelo contributo prático na conceção e construção de instrumentos de observação astronómica, aproximando os alunos da ciência experimental.
Cristóvão Galo – Matemático de formação rigorosa, dedicou o seu trabalho ao estudo da cartografia e da navegação, domínios em que a precisão matemática era condição de sobrevivência em alto mar.
Simão Fallónio – Especialista em astronomia e geografia, contribuiu para a articulação entre o conhecimento celeste e a descrição do mundo terrestre, essencial à formação dos navegadores.
Valentim Estancel – Professor de matemática e cosmografia, Estancel representava a tradição jesuíta de unir o rigor científico à missão pedagógica, formando alunos capazes de compreender a estrutura do universo e a sua aplicação prática.
Inácio Vieira – Destacado estudioso da astronomia e dos seus usos na navegação, Vieira foi uma figura de referência na transmissão dos conhecimentos astronómicos aplicados às grandes viagens marítimas.
Francisco da Costa – Mestre em astrologia e cosmografia, Costa integrava no seu ensino tanto a dimensão científica como a tradição interpretativa dos astros, num tempo em que as fronteiras entre astronomia e astrologia ainda não estavam claramente definidas.
João Delgado – Professor de geometria e balística, Delgado respondia à necessidade crescente de formar militares tecnicamente preparados, capazes de aplicar os princípios matemáticos à guerra e à engenharia.
Cristóvão Griemberger – Astrónomo e matemático de reputação europeia, Griemberger trouxe à Aula da Esfera os mais recentes debates científicos do continente, contribuindo para manter Lisboa ligada à vanguarda do pensamento astronómico da época.
Francisco Machado – Cartógrafo e especialista na construção de globos, Machado dominava a arte de traduzir o mundo em objeto — transformando o conhecimento geográfico em instrumentos tangíveis de navegação e ensino.
Sebastião Dias Cristóvão Galo – Matemático e estudioso da arte de navegar, a sua formação combinava o rigor do cálculo com o conhecimento prático das rotas e técnicas de navegação marítima.
Inácio Stafford – Especialista em astrologia prática e judiciária, Stafford ensinava a leitura e interpretação dos astros com aplicação direta ao planeamento de expedições e à tomada de decisões em contexto marítimo e militar.
Luís Gonzaga – Professor de física e mecânica aplicada à navegação, Gonzaga introduzia os alunos nos princípios do funcionamento das máquinas e instrumentos científicos, saberes indispensáveis a bordo dos navios portugueses.
A Sala das Esferas — memória viva de uma aula extraordinária
O atual Salão Nobre do Hospital de São José, em Lisboa, guarda nas suas paredes muito mais do que decoração. Conhecido como Sala das Esferas, este espaço foi a antiga aula magna do Colégio de Santo Antão-o-Novo — o coração intelectual e científico da instituição jesuíta que durante dois séculos formou os homens que navegaram, cartografaram e administraram o império português.
A sala mantém hoje uma decoração notável: oito painéis de azulejos em azul e branco, executados com invulgar qualidade artística, representando cenas alegóricas das disciplinas que ali se ensinavam. Cada painel é, em si mesmo, um documento histórico — uma síntese visual do programa científico da Aula da Esfera e do universo intelectual que a animava.
As disciplinas representadas — Óptica, Geografia, Geometria, Balística, Astronomia, Mecânica, Navegação e Cartografia — não foram escolhidas ao acaso. Formam um retrato coerente de uma instituição que unia a contemplação do céu à conquista do mar, o rigor matemático à utilidade prática, a ciência pura ao serviço do império.
Hoje, neste mesmo espaço por onde médicos e enfermeiros passam diariamente, as figuras dos azulejos continuam a olhar em silêncio para quem cruza a sala — astrónomos com os seus instrumentos, geógrafos com os seus mapas, navegadores com os seus globos. São a memória persistente de um tempo em que Lisboa era, verdadeiramente, o centro do mundo conhecido.
A Sala das Esferas é, por isso, muito mais do que um salão nobre. É um arquivo em azulejo. Um monumento à curiosidade humana. E uma homenagem silenciosa a todos os que, entre estas paredes, aprenderam a perguntar, a medir e a descobrir.
Colégio de Santo Antão-o-Velho (Coleginho), Mouraria, LisboaColégio de Santo Antão-o-Novo em 1836, em desenho de Luís Gonzaga Pereira
Considerações Finais
A Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão-o-Novo representa um dos episódios mais significativos — e porventura mais subvalorizados — da história da ciência e da educação em Portugal. Nascida no contexto da expansão marítima e sustentada pelo projeto pedagógico jesuíta, esta instituição soube responder, com notável lucidez, às exigências de um país que governava um império disperso por quatro continentes.
O que a distinguia das restantes instituições de ensino da época não era apenas o conteúdo do seu currículo, mas a sua filosofia de fundo: a convicção de que o conhecimento científico devia ser rigoroso, prático e útil. Numa Europa ainda dominada pelo escolasticismo, a Aula da Esfera ensinava a observar, a calcular e a questionar — antecipando, em muitos aspectos, os princípios que viriam a definir a ciência moderna.
O seu corpo docente, recrutado entre os mais destacados astrónomos, matemáticos e cartógrafos da Europa, assegurou que Lisboa permanecesse ligada às principais correntes do pensamento científico continental, num período em que o conhecimento circulava, sobretudo, através das redes da Companhia de Jesus.
O legado desta instituição não se esgota, porém, nos tratados publicados ou nas rotas traçadas pelos seus alunos. Sobrevive, de forma tangível e serena, nos oito painéis de azulejos da Sala das Esferas do Hospital de São José — um testemunho iconográfico de rara beleza e valor histórico, que continua a recordar, a todos os que por ali passam, que naquele lugar se aprendeu a medir o mundo.
Estudar a Aula da Esfera é, em última análise, compreender melhor o Portugal que foi ao mundo — e perceber que por detrás das grandes viagens e das grandes descobertas esteve sempre, em silêncio, o trabalho paciente de quem ensinou e de quem aprendeu.
Por detrás de cada navio que partiu, havia um homem que aprendeu a ler o céu.
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VEIGA, Francisca Branco, Sala «das esferas» do Colégio de Santo Antão-o-Novo (atual Hospital de S. José) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [17 de Fevereiro de 2025].
«Não basta sair de Coimbra com um fervor que logo murcha, antes mesmo de cruzar o equador e desejar voltar para Portugal. É necessário ter os alforjes cheios para durar até ao final do dia»
Gravura anónima do “Venerabilis P. Ioseph Anchieta e(x) Societate Iesu”. In Simão de Vasconcelos, Vida… (Lisboa, 1672).
Foi, ainda noviço para o Brasil, a 8 de maio de 1553, na 3.ª Expedição de Missionários Jesuítas, chefiada pelo Padre Luiz de Grã e na armada de Duarte Góis.
José de Anchieta e outros religiosos subiram a Serra do Mar rumo ao Planalto, onde se instalaram. A inauguração do barracão do planalto deu-se junto a uma aldeia de índios no dia 24 de JANEIRO de 1554, dia da conversão do Apóstolo São Paulo, local onde os jesuítas precisavam de tradutores e de intérpretes da língua indígena Tupi. No local, Nóbrega com a ajuda de Anchieta celebraram uma missa, em homenagem ao Santo – dava-se início à FUNDAÇÃO da cidade de SÃO PAULO.
Em 1566, Anchieta foi ordenado padre. Dirigiu o Colégio dos Jesuítas no Rio de Janeiro entre 1570 e 1573 e foi Provincial da Companhia de Jesus no Brasil durante dez anos.
A 9 de julho de 1597, José de Anchieta faleceu em Reritiba (atual Anchieta), aldeia que fundara, no Estado do Espírito Santo (Brasil).
Em 1611, os seus restos mortais foram transladados: uma parte, para o Colégio da Baía, a outra, para Roma.
Na Conferência proferida na biblioteca da Faculdade de Direito de São Paulo, a 24 de setembro de 1896, na presença dos lentes da Faculdade, do Presidente do Estado, autoridades e representantes do clero, grande número de Senhoras e cavalheiros e sob a Presidência de João Monteiro, vice-director da Faculdade, Brazilio Machado descrevia o padre Anchieta da seguinte forma:
« Era o padre Anchieta de mediana estatura, de compleição robusto, porém, descarnado; tinha pouca barba, olhos azues, cabeça grande; seu aspecto, tão magestoso quanto affavel, inspirava, em quantos o conversavam, confiança e amor!»*
Obra que integra o acervo do Museu Paulista da USP. Coleção Fundo Museu Paulista (Museu do Ipiranga) – FMP, 1920. “Às estrelas por caminhos difíceis” – A frase em latim no quadro de José Anchieta, de autoria do pintor Oscar Pereira da Silva (1865-1939), é um dos lemas fundamentais na Companhia de Jesus.
Em 1595, escreveu «Arte da Gramática da Língua mais Conhecida na Costa do Brasil», o tupi-guarani, que foi publicada em Coimbra, por Antônio Mariz, em 1595. Esta obra teve um caráter pioneiro pela sua importância para o conhecimento do tupi falado no século XVI, a qual era, até então, exclusivamente oral. Outro jesuíta, como por exemplo, o padre basco João de Azpilcueta Navarro compôs os primeiros hinos religiosos nas suas pregações aos indígenas.
De algumas maneiras de verbos em que esta anfibologia se tira – Cap. IX
Das preposições – Cap. X
De sum, es, fui – Cap. XI
Dos verbos neutros feitos ativos – Cap. XII
Dos ativos feitos neutros – Cap. XIII
Da composição dos verbos – Cap. XIIII
Da repetição dos verbos – Cap. XV
De alguns verbos irregulares de Aê – Cap. XVI
José de Anchieta : Padre Jesuíta e Apóstolo do Brasil Date: [18–] Description: “Nascido a 7 de abril de 1534 em Teneriffe, Fallecido a 9 de junho de 1597…” Zincogravura, p&b In https://acervobndigital.bn.gov.br/sophia/index.html
*In III Centenário do Veneravel Joseph Anchieta, 1900.
José de Anchieta e o Nascimento da Tradição Natalícia no Brasil
São José de Anchieta foi um verdadeiro pioneiro das artes e da evangelização no Brasil, destacando-se também na representação do mistério do Natal. Em 1553, ainda como noviço jesuíta, apresentou pela primeira vez no país a cena do Presépio, em São Vicente, no actual estado de São Paulo, dirigindo-se aos indígenas e aos filhos dos colonos portugueses. Este facto é registado com rigor pelo Santuário Nacional de São José de Anchieta, situado na cidade Anchieta que hoje tem o seu nome.
Para a construção do Presépio, Anchieta envolveu os indígenas da região, valorizando as suas técnicas tradicionais de cerâmica. Desta forma, soube transmitir ao catolicismo nascente no Brasil a antiga tradição natalícia medieval, iniciada por São Francisco de Assis em Greccio, na Itália, no ano de 1223 — uma herança espiritual que chegou até aos nossos dias, apesar das profundas crises religiosas que marcaram a Igreja após o Concílio Vaticano II.
Primeiro presépio da História, criado por São Francisco de Assis no Natal de 1223, na localidade de Greccio, em Itália. A imagem reproduz a Natividade (1490), o imponente presépio em terracota policromada do escultor italiano Andrea della Robbia, conservado na igreja de Santa Maria degli Angeli, no Santuário de La Verna, em Arezzo, Itália. Com grande delicadeza, a cena apresenta Jesus rodeado pela Virgem Maria, São José, São Francisco e Santo António de Lisboa. “Presépio Franciscano” Vista Alegre
A pedido do Padre Manuel da Nóbrega, José de Anchieta escreveu igualmente uma peça teatral de Natal, cuidadosamente adaptada à realidade e à sensibilidade dos índios de São Lourenço, localidade que corresponde hoje à cidade de Niterói.
Nesta obra, o grande Apóstolo do Brasil não hesitou em denunciar o estado moral e espiritual desses povos, imaginando um diálogo tocante entre um pecador — o indígena — que se aproxima do Presépio e do Menino-Deus, descrito com ternura como “o menino mui formoso, santo menino, nas palhinhas deitado para salvação do pecado”. Através desta linguagem simples e profundamente humana, Anchieta procurava tocar os corações e conduzi-los ao mistério redentor do Natal.
A ação da Companhia de Jesus na fundação da cidade do Rio de Janeiro
Pintura: A Construção da História Nacional pelo pintor Firmino Monteiro entre 1879 e 1884.
A fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, entendida como um processo e não como um ato isolado, contou com a presença decisiva da Companhia de Jesus, que acompanha as expedições régias, intervém nas negociações com diferentes grupos indígenas e assegura a implantação estável da Igreja no novo núcleo urbano.
Em 1563, D. Catarina, regente do trono português, ordenou que Estácio de Sá regressasse ao Brasil como chefe da armada destinada a dominar a região, contando então com o apoio direto dos padres jesuítas Manuel de Nóbrega e José de Anchieta, que recrutaram habitantes locais, em especial guerreiros temiminós sob a chefia do cacique Araribóia, para se juntarem a Estácio de Sá na luta contra os franceses.
Para além desse apoio militar e logístico na expulsão dos franceses da Baía de Guanabara, os jesuítas participam na construção da primeira casa‑igreja dedicada a São Sebastião, na catequese e na mediação com a população local, recebendo ainda uma ampla sesmaria na nova capitania.
Isso faz da Ordem, e de figuras como Nóbrega e Anchieta, alguns dos principais agentes na organização do território e na definição da paisagem social e económica da cidade nascente, articulando conversão religiosa, alianças indígenas e expansão colonial portuguesa.
A atuação da Companhia de Jesus foi um pilar fundamental na consolidação do projeto colonial português, exercendo um papel de mediação crucial entre os colonizadores e as populações indígenas. Figuras como os padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta são historicamente reconhecidas pela capacidade de negociar alianças estratégicas, como o apoio da tribo temiminó, liderada por Araribóia, que foi determinante para a expulsão definitiva dos franceses da Baía de Guanabara.
A figura de Anchieta é frequentemente associada à catequese e à conversão de importantes lideranças nativas, sendo‑lhe atribuído o baptismo de Tibiriçã, considerado o primeiro indígena convertido por ele. No imaginário artístico e literário do século XIX, Anchieta é evocado como o “missionário poeta”, possuidor de uma fisionomia angélica, que utilizava versos escritos na areia para ensinar os mistérios da fé católica aos indígenas. Por sua vez, Nóbrega é representado como a autoridade eclesiástica central, frequentemente retratado à frente de grupos religiosos e ostentando emblemas sacros em momentos de oficialização territorial.
Na iconografia histórica, a presença jesuítica simboliza a tentativa de harmonizar interesses conflitantes e unificar as diferentes “raças” em prol da construção de uma nova nação sob a égide do catolicismo. A religião, personificada nestes missionários, actuava como o elemento unificador que legitimava a posse da terra e a fundação de núcleos urbanos.
No entanto, a trajectória da Companhia de Jesus no Brasil também é marcada por uma profunda ambiguidade. Embora os jesuítas tenham sido construídos como pacificadores e conciliadores, relatos históricos apontam que eles teriam traído a confiança de grupos como a Confederação dos Tamoios. Ao revelarem segredos de confissão sobre estratégias de ataque indígenas aos portugueses, os religiosos forneceram informações estratégicas que foram decisivas para o extermínio dessa confederação, revelando uma actuação política e bélica indissociável de sua missão espiritual.
A iconografia da pintura “A Fundação da Cidade do Rio de Janeiro” (1881), de Antônio Firmino Monteiro, integra as figuras da Companhia de Jesus numa composição que simboliza a união entre a fé católica e o poder civil na formação da nação.
Detalhes iconográficos dos jesuítas
Manuel da Nóbrega: É retratado numa posição de liderança eclesiástica, aparecendo à frente de um grupo religioso e suspendendo um emblema sacro. Sua presença confere um carácter oficial e sagrado ao acto de fundação territorial.
José de Anchieta: É descrito pela crítica da época como possuidor de uma “fisionomia angélica”. Na tela, ele aparece ao lado do bispo D. Leitão, que veste seus hábitos sacerdotais, mitra e báculo. Anchieta personifica o “bom missionário poeta”, evocando a tradição de que ele ensinava os mistérios da religião aos indígenas através de quadras escritas na areia.
Composição e cenário religioso
O altar e a cruz: A cena religiosa é reforçada pela presença de um altar onde a missa foi celebrada, com velas esguias ainda acesas, palmas e galhetas. Uma cruz está situada logo ao lado do Morro do Pão de Açúcar, criando uma sensação de comunhão entre a natureza exuberante e a fé católica.
A mediação entre grupos: Os jesuítas estão posicionados no centro‑direito da tela, servindo como um elo visual e simbólico entre os portugueses (governador Mem de Sá e senadores) e o grupo de indígenas em primeiro plano. Essa disposição reforça o papel histórico da Companhia de Jesus como mediadora na aliança com a tribo temiminó.
Simbolismo da unificação e conflito
União das raças: A iconografia sugere que a religião, personificada por Anchieta e Nóbrega, foi o elemento capaz de unificar brancos e índios e harmonizar interesses conflitantes em prol de uma nova nação.
Contraponto ao indígena convertido: A presença dos padres dialoga directamente com a figura de Tibiriçã (Martim Afonso), o primeiro índio convertido por Anchieta, que aparece em destaque na tela.
Crítica subjacente: Embora a pintura apresente uma cena harmoniosa, as fontes lembram que essa iconografia omite a actuação ambígua dos jesuítas, que teriam traído segredos de confissão dos Tamoios para auxiliar na vitória militar portuguesa, um facto que Monteiro conhecia através das crónicas jesuíticas e da literatura indianista.
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VEIGA, Francisca Branco, Padre JOSÉ DE ANCHIETA (1534 – 1597) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [02 de Maio de 2024].
«É necessário tornar-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre-arbítrio (…), desejando e escolhendo somente o que mais nos conduz ao fim para que fomos criados» — Exercícios Espirituais, n.º 23
Morte de Inácio de Loyola, 31 de Julho de 1556. Baseada na biografia do Padre Pedro Ribadeneyra, Vita beati patris Ignatii Loyolae religionis Societatis Iesu fundatoris ad viuum expressa ex ea quam.., de 1609, autoria de Peter Paul Rubens.
No dia 31 de julho de 1556, Santo Inácio de Loyola faleceu, inesperadamente, em Roma, aos 65 anos de idade. Morreu numa modesta sala da Casa Professa da Companhia de Jesus, junto da antiga igreja de Santa Maria della Strada, onde viveu os seus últimos anos.
Em 1587, os seus restos mortais foram trasladados para a igreja do Gesù, a igreja-mãe da Companhia de Jesus. Cinquenta anos mais tarde, em 1637, foram definitivamente depositados numa magnífica urna de bronze, da autoria de Alessandro Algardi, colocada sob o altar da Capela de Santo Inácio, uma das mais notáveis obras do jesuíta Andrea Pozzo.
Logo após a sua morte, o seu secretário e companheiro, o Padre Juan Alfonso de Polanco, escrevia, numa carta datada de 6 de agosto de 1556, que por toda a parte se ouvia a mesma expressão:
«Morreu o Santo.»
Era o reconhecimento espontâneo da santidade daquele que transformara profundamente a vida religiosa da Igreja.
A obra de Inácio estava consolidada. A Companhia de Jesus encontrava-se oficialmente aprovada, os Exercícios Espirituais haviam sido reconhecidos como um dos maiores textos da espiritualidade cristã e as Constituições da Ordem encontravam-se praticamente concluídas. A nova família religiosa estava implantada em diversos países e lançava as bases de uma das mais vastas redes missionárias, educativas e culturais da época moderna.
Quando a Companhia foi oficialmente aprovada, em 1540, contava apenas dez companheiros. À data da morte do fundador, dezasseis anos depois, reunia já cerca de mil jesuítas, distribuídos por 13 províncias, mais de uma centena de casas e cerca de 35 colégios em funcionamento, aos quais se juntavam vários outros em preparação. O extraordinário crescimento da Ordem testemunha a força do ideal inaciano e a rápida difusão da sua missão apostólica.
Capela de Santo Inácio, no braço esquerdo do transepto. Igreja de Gesù, Roma.Planta da Igreja de Gesù, Roma, Itália. 1.Capela de Santo Inácio de Loyola, obra do jesuíta Andrea Pozzo. Contém a urna de Santo Inácio. Esta é em bronze e da assinatura de Alessandro Algardi. 2. Acesso ao quarto de Santo Inácio
Ainda hoje é possível visitar o quarto de Santo Inácio, preservado na Casa Professa do Gesù, onde viveu os últimos doze anos da sua vida. Foi nesse espaço que redigiu grande parte das Constituições da Companhia de Jesus e manteve uma intensa correspondência com os jesuítas espalhados pela Europa, Ásia, África e Novo Mundo, acompanhando de perto o desenvolvimento da Ordem.
O lema que orientou toda a sua vida permanece como síntese da espiritualidade inaciana:
Ad Maiorem Dei Gloriam «Tudo para a maior glória de Deus.»
A oração de Santo Inácio
Entre os textos tradicionalmente associados à espiritualidade inaciana destaca-se a célebre oração Alma de Cristo, rezada ainda hoje por milhões de cristãos em todo o mundo:
Alma de Cristo, santificai-me. Corpo de Cristo, salvai-me. Sangue de Cristo, inebriai-me. Água do lado de Cristo, lavai-me. Paixão de Cristo, confortai-me. Ó bom Jesus, ouvi-me. Dentro das vossas chagas, escondei-me. Não permitais que eu me afaste de Vós. Do espírito maligno, defendei-me. Na hora da minha morte, chamai-me e mandai-me ir para Vós, para que, com os vossos santos, Vos louve por todos os séculos dos séculos. Amém.
Peter Paul Rubens – Saint Ignatius of Loyola 1620-22. 223×138. Norton Simon Pasadena Museum
Legado
«Em tudo amar e servir.» (Exercícios Espirituais, n.º 233)
Esta breve expressão constitui a síntese da espiritualidade de Santo Inácio de Loyola e do ideal que presidiu à fundação da Companhia de Jesus. Para o fundador dos jesuítas, a vida cristã não se esgota nos momentos de oração nem se circunscreve ao espaço da igreja; realiza-se no quotidiano, através do serviço generoso, da disponibilidade para a missão e da procura constante da vontade de Deus. Amar significa reconhecer a presença de Deus em todas as coisas e corresponder ao seu amor; servir é colocar a inteligência, os talentos e a liberdade ao serviço do próximo, da Igreja e do bem comum.
Foi este espírito que moldou a identidade da Companhia de Jesus e impulsionou a sua extraordinária expansão missionária. Desde os primeiros companheiros de Inácio, muitos dos quais partiram de Lisboa rumo aos quatro cantos do mundo, os jesuítas dedicaram-se à evangelização, ao ensino, à investigação científica, ao diálogo entre a fé e a cultura e à promoção da justiça, deixando uma marca profunda na história da Igreja e da humanidade.
Como refere António Lopes, «Lisboa foi a maior rampa de lançamento que teve Inácio de Loyola para realizar o seu sonho de levar a todos os povos da Terra a Boa Nova de Jesus de Nazaré» (LOPES, Roteiro Histórico dos Jesuítas em Lisboa, p. 7). A capital portuguesa tornou-se, assim, um dos principais centros da expansão missionária da Companhia de Jesus durante os séculos XVI e XVII.
Quase cinco séculos após a sua morte, o legado de Santo Inácio permanece vivo. A sua espiritualidade continua a inspirar milhões de pessoas em todo o mundo, convidando cada geração a discernir, em cada circunstância da vida, a melhor forma de «amar e servir», vivendo para a maior glória de Deus (Ad Maiorem Dei Gloriam).
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VEIGA, Francisca Branco. 31 de julho: Dia de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [31 de julho de 2023].
Representação de Chineses, in Jan Huygenvan Linschoten – Itinerario, Amsterdão, 1596.
[Jan Huyghen van Linschoten, filho de um notário público em Haarlem, emigrou para Sevilha e depois para Lisboa com o irmão quando tinha apenas 13 anos. Foi enviado para Goa, feitoria portuguesa na Índia, em 1583, onde procedeu à cópia ilícita de mapas náuticos portugueses. De volta à Holanda em 1595, Linschoten escreveu três livros relatando o seu conhecimento do “Oriente”. Esta imagem encontra-se inserida na sua terceira publicação Itinerario: Voyage ofte schipvaert van Jan Huyghen van Linschoten naer Oost ofte Portugaels Indien, 1579-1592, publicada em 1596 e traduzida para o inglês e o alemão dois anos depois].
Após a viagem de Vasco da Gama à Índia chegam a Lisboa notícias sobre a China e sobre as navegações chinesas no Índico, realizadas entre 1405 e 1433.
Dom vasco da Gama, conde da Vidigueira 2º Vice Rei de 2 de setembro 1524 até á sua morte em Cochim a 24 de dezembro de 1524
D. Manuel, em 1508, envia Diogo Lopes de Sequeira a Malaca com o objectivo de recolher informações sobre a China e os chineses.
A partir de 1511, após a conquista de Malaca, são feitos os primeiros contactos e é centralizado aqui o comércio português do Índico e dos mares da China.
Em 1513, Jorge Álvares penetra nos mares da China iniciando um período de intensas relações luso-chinesas.
Em 1515, em Malaca os portugueses ouvem falar de Macau, então conhecido pelo nome de Haojing, que significa Espelho de Ostra.
A partir desta data os portugueses procuram estabelecer relações diplomáticas com a China e obter um posto de comércio permanente na zona de Cantão.
Em 1517 é enviada à China a primeira embaixada, chefiada por Tomé Pires, com o intuito de estabelecer contactos políticos e diplomáticos que permitissem o comércio português na zona.
Assim, a instalação dos portugueses em Macau, em 1557, é fruto da conjugação de três factores essenciais: das condições internas e das relações internacionais estabelecidas pela dinastia reinante, Ming; do processo de aprendizagem dos portugueses nos mares da China; e da parceria de interesses comerciais que se estabeleceram entre chineses, portugueses e japoneses.
A China da dinastia Ming procura o monopólio do comércio externo marítimo através do controle da iniciativa privada das comunidades chinesas litorais e ultramarinas.
A crise fiscal e monetária da China, no tempo do imperador Jiajing (1522-1566), e o consequente incremento da procura chinesa da prata, bem como a crescente produção da prata japonesa e a capacidade dos portugueses como intermediários, em parceria com chineses e japoneses, cria a possibilidade de Macau se tornar um entreposto, por onde passa a rota da seda, prata, porcelana, ouro e cobre.
Durante a ocupação filipina (1580-1640), o Império Português tornou-se muito fraco e desprotegido, visto que o Rei de Espanha, que era simultaneamente Rei de Portugal, não estava muito interessado em defender o Império Português. Estava mais interessado em defender e expandir o seu Império, em colonizar e controlar a América do Sul e em travar guerras com as outras potências europeias, nomeadamente a Inglaterra e a Holanda. Utilizou muitos recursos para manter estas guerras, em vez de utilizá-los para defender o nosso Império. Os inimigos de Espanha tornaram-se por consequência inimigos de Portugal. As colónias portuguesas sofreram inúmeros ataques dos ingleses, dos holandeses e dos franceses e muitas delas caíram nas mãos do inimigo.
Macau foi atacada em 1622 por 800 soldados holandeses. Eles desembarcaram na praia e avançaram com cautela para a Cidade, sofrendo pesado bombardeio de canhões da Fortaleza do Monte. A guarnição militar em Macau era pequena e muito inferior à força invasora holandesa. Após 2 dias de combate, no dia 24 de Junho, um padre jesuíta disparou um tiro de canhão e acertou com precisão, um vagão carregado de pólvora pertencente aos holandeses e foi assim que os militares de Macau derrotaram as forças invasoras. Dizem os registos portugueses que morreram algumas dezenas de portugueses e que morreram em combate ou afogados cerca de 350 holandeses. Para Macau, desprevenida, a vitória foi considerada um milagre. Após a vitória, os moradores de Macau passaram a comemorar o dia 24 de Junho, dia da vitória, como o “Dia da Cidade”. É também neste dia que se comemora o São João Baptista, o Padroeiro da Cidade. Conta a lenda que foi graças ao seu manto foram desviados os tiros dos inimigos, salvando a Cidade dos invasores holandeses.
Em 1640, em Portugal, quando a classe média e aristocracia, descontentes com o domínio espanhol e com o reinado de Filipe IV de Espanha (III de Portugal), quiseram restaurar a independência, pediram a D. João para encabeçar a causa. D. João aceitou a responsabilidade e a 1 de Dezembro deu-se o golpe contra Filipe III, sendo coroado Rei de Portugal a 15 de Dezembro de 1640.
Muitos mensageiros espalharam pelo país a notícia, levando consigo cartas para as autoridades de cada terra se encarregarem de aclamarem o novo rei. D. João IV enviou também diplomatas às principais cortes europeias com o objectivo de conseguir o reconhecimento da independência.
Na China, as notícias chegam dois anos depois. Em 30 Outubro de 1642 são enviadas cartas para Portugal, da Santa Casa da Misericórdia para dar a D. João IV os parabéns da aclamação. Também à registo de, em Agosto de 1643, uma Certidão de D. Sebastião Lobo de Sylveira Capitão Geral de Macau falando da felicidade dos Padres da companhia, aclamando D. João IV.
VASCONCELLOS, José Frazão de – A Aclamação del Rei D. João IV em Macau (Subsídios Históricos e Biográficos). Separata do N.º 53 do «Boletim da Agência Geral das Colónias. Agência Geral das Colónias, 55 páginas , 1929 (24 cm x 16,5 cm). Exemplar n.º 34 da tiragem de 125 exemplares numerados.
Macau é um espaço de pluralidade religiosa onde convivem com o cristianismo as várias expressões da religiosidade chinesa: o budismo, o daoísmo e o confucionismo.
Os missionários jesuítas chegam à Ásia em 1542. Macau vai desempenhar um papel de centro difusor do cristianismo no Oriente. É a partir de Macau que partem as missões com destino ao Japão, à China e ao sueste asiático.
O Colégio de S. Paulo é a primeira universidade europeia na China, desenvolvendo cursos de artes, teologia, chinês, latim, matemática, astronomia, física, medicina, retórica e música. A impressão surge também ligada aos jesuítas e à difusão do cristianismo na China e no Japão. Em Macau imprime-se em três línguas: chinês, latim e português.
O cristianismo tem nesta parte do mundo uma forte dimensão cultural, tendo penetrado por esta via junto das elites chinesas.
Os primeiros tempos dos jesuítas na China foram essencialmente marcados pelo estudo da língua, pela observação atenta dos hábitos religiosos e sociais, pelo esforço de integração cultural e, sobretudo, por uma grande contenção nos gestos e nas palavras, a fim de não darem azo a qualquer suspeita de confronto susceptíveis de justificarem a sua expulsão do país. Mesmo assim muitas foram as injúrias, os desacatos e intrigas contra os membros da Companhia de Jesus levando a extremos, como por exemplo, ao martírio de alguns membros.
Os 120 Mártires da China
Memorial plaque for the 120 Martyr Saints of China at Saint Francis Xavier Church (Ho Chi Minh City)
[Os 120 Mártires da China, ou Agostinho Zhao Rong e 119 Companheiros, mártires na China, são mártires católicos da China e santos da Igreja Católica canonizados no dia 1 de Outubro de 2000 pelo Papa João Paulo II]
A Companhia de Jesus nos séculos XVI a XVIII esteve ativa em Portugal ao longo de um período de duzentos e dezanove anos, desde a sua fundação em Roma, em 27 de setembro de 1540, até 3 de setembro de 1759, data do decreto do Marquês de Pombal que promulgou a sua extinção no nosso país.
Foi em 1540 com D. João III (1521-1557), que a Companhia de Jesus entrou em Portugal, sendo o nosso país a primeira Província jesuíta no mundo. Numa época de forte expansão territorial D. João III irá ser o primeiro rei na Europa a contactar Inácio de Loyola devido à necessidade de encontrar missionários, homens letrados, para evangelizar o Oriente, pregando e convertendo à Fé cristã os nativos. D. João concedeu privilégios aos jesuítas, nomeadamente casas gratuitas, liberdade de enviar missionários para todo o mundo e de fundar colégios.
A Companhia de Jesus instalou-se em Portugal continental e Ilhas Atlânticas, durante este período, fundando diversas Casas Professas, Colégios, Noviciados e quintas de recreio. Só em Lisboa, à data da extinção da Companhia havia sete instituições jesuítas: a Casa Professa de S. Roque, o Colégio de Santo Antão, o Seminário de S. Patrício dos irlandeses católicos[1], o Noviciado de Nossa Senhora da Assunção (da Cotovia), o Colégio de S. Francisco de Xavier em Alfama, o Hospício de S. Francisco de Borja e o Noviciado de Nossa Senhora da Nazaré em Arroios (noviciado das Missões).
[1] Em 1611 António Rodrigues Ximenes instalou num edifício antigo da Tutoria da Infância este Seminário que se encontrava sob a direção dos jesuítas. Expulsos os jesuítas por Pombal em 1759, o Colégio de S. Patrício manteve-se em atividade até cerca de 1830, instruindo crianças pobres.
Seminário de S. Patrício dos irlandeses católicos
Noviciado de Nossa Senhora da Assunção (da Cotovia)
Colégio de S. Francisco de Xavier em Alfama
Hospício de S. Francisco de Borja
Noviciado de Nossa Senhora da Nazaré em Arroios (noviciado das Missões)
Veja-se, inclusive, VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.