Em Carnaxide, o céu abriu-se como uma ferida de luz. Da colina, o povo viu nascer a Senhora — não da terra, mas do espanto. Trouxe no olhar o fogo de 1822, quando os homens gritavam liberdade e os altares tremiam.
Chamaram-lhe a Primeira Revolucionária, porque veio inverter o sentido das vozes, porque ergueu um estandarte de silêncio contra o rumor das praças. Ela não falava — mas o vento levava o seu nome sobre o campo, e os corações curvavam-se como espigas.
Nossa Senhora da Rocha — não do mar, mas da terra ferida, não da revolta, mas da promessa. Entre a fé e o poder, entre o altar e o trono, permanece guardada sob o zelo da Irmandade, que na devoção sustém a chama e o destino.
Francisca Branco Veiga
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Como referir este artigo:
Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!
VEIGA, Francisca Branco, A “Primeira Revolucionária” Divina (1822) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [11 de junho de 2026].
Um panfletista miguelista galego naturalizado português
[Imagem produzida através de ferramentas de Inteligência Artificial generativa]
Introdução
Alvito Buela Pereira de Miranda foi uma figura curiosa e pouco conhecida do período da Revolução Constitucionalista portuguesa (1820–1834). Natural da Galiza, sacerdote egresso da Ordem Beneditina, envolveu-se ativamente nas lutas políticas que agitaram Portugal e escreveu panfletos contra os liberais com um estilo ainda mais violento do que o do célebre Padre José Agostinho de Macedo.
Este artigo resume a sua biografia, com base no Diccionarío bibliográphico de Inocêncio Francisco da Silva (vol. VIII) e em documentos do Arquivo Histórico Militar.
Dados Biográficos Principais
Dimensão
Informação
Nascimento
1791, Galiza (Espanha)
Ordem religiosa
Egresso da Ordem Beneditina
Morte
Outubro de 1862, Vilarelho da Raia, Trás-os-Montes
Naturalização
Portugal (chegado da Galiza)
Percurso Político e Militar
Fase Miguelista (1820–1834)
Entre 1820 e 1834, o P. Alvito envolveu-se nas lutas políticas que agitaram Portugal durante o período constitucional. Em 1822, emigrou para Espanha, acompanhando as tropas do 2.º Conde de Amarante e do 1.º Marquês de Chaves, que ali se acolheram após a revolta de Vila-Real (5 de outubro de 1822), contra o regime constitucional.
Segundo um dos documentos reproduzidos, terá também anteriormente seguido para Espanha com o mesmo caudilho miguelista, depois de este ser derrotado em Amarante (5 de março de 1823) pelo general Luiz do Rêgo.
Regresso e Cargos sob D. Miguel
Voltou a Portugal no reinado de D. Miguel. Em 1830, os seus serviços prestados à causa absolutista foram remunerados com a nomeação de pároco encomendado de Santa Marinha, em Lisboa.
Foi, posteriormente, provido na abadia de S. Miguel de Rebordosa, distrito do Porto.
Fase Liberal (pós-1834)
Apesar da sua atitude miguelista, após a Convenção de Évora-Monte (1834) fêz-se liberal. Isso valeu-lhe o ser conservado na sua abadia, da qual depois foi transferido para a de S. Tiago de Vilarelho da Raia, em Trás-os-Montes, concelho de Chaves, onde faleceu em outubro de 1862.
Atividade Jornalística e Panfletária
Jornais Miguelistas
Jornal
Local
Ano
Contribuição
Defeza de Portugal
Lisboa
1831–1833
Artigos violentos contra liberais
Verdadeiro Eco de Portugal
Coimbra
1834
Artigos violentos contra liberais
O Povo Legitimista
Lisboa
1860
Colaborador
Estilo Panfletário
Como jornalista-panfletário, escreveu contra os liberais artigos ainda mais violentos do que os do Padre José Agostinho de Macedo e de D. Fr. Fortunato de S. Boaventura.
Documentos do Arquivo Histórico Militar
Alistamento Militar (1828)
Em junho de 1828, alistou-se voluntariamente, como soldado, na 1.ª companhia do Batalhão de Voluntários Realistas de Vila-Real, de que era comandante o coronel António Colmieiro de Morais, 2.º Barão de Paúlos.
Nesta companhia exerceu também as funções de capelão. Concorreu ainda, como secretário do coronel, para se reunir e organizar o mesmo batalhão, por ocasião da malograda revolta militar no Porto, em 16 de maio de 1828.
Pedido de Baixa (1830)
Em 7 de abril de 1830, estando em Lisboa, encarregado de diversas comissões, pediu baixa e demissão de soldado, por não poder exercer, no seu batalhão, as suas obrigações militares, visto que a abadia de S. Miguel de Rebordosa, que lhe fora concedida por D. Miguel, ficava 11 léguas distante de Vila-Real, sede daquela unidade militar.
Declara, porém, que, no caso de ocorrer nova sublevação contra os direitos e augusta pessoa do rei, se reunirá a qualquer batalhão que fique próximo daquela igreja.
O Duque de Cadaval foi, porém, de parecer que, dado o seu carácter sacerdotal, não podia ser considerado como soldado, visto ter-se alistado numa época em que a formação dos corpos voluntários realistas não obedecia a quaisquer prescrições legais. E, assim, entendia que ele não necessitava da escusa que solicitara.
Fontes Utilizadas
Inocêncio Francisco da Silva, Diccionarío bibliográphico, vol. VIII
Arquivo Histórico Militar, documentos sobre o Batalhão de Voluntários Realistas
Henrique de Campos Ferreira Lima, Coronel de Artilharia, Director do Arquivo Histórico Militar
Síntese Final
Alvito Buela Pereira de Miranda foi um panfletista miguelista galego naturalizado português, egresso beneditino, que:
Participou nas lutas políticas de 1820–1834 e emigrou para Espanha em 1822
Serviu sob D. Miguel como capelão, secretário e soldado voluntário
Escreveu panfletos mais violentos contra liberais do que José Agostinho de Macedo
Fez-se liberal após 1834, conservando a abadia
Morreu em 1862 em Vilarelho da Raia
Nota
Este artigo baseia-se em fontes históricas primárias, incluindo o Diccionarío bibliográphico de Inocêncio Francisco da Silva e documentos do Arquivo Histórico Militar. A figura de Alvito Buéla Pereira de Miranda permanece pouco estudada, mas o seu envolvimento na imprensa miguelista e nas lutas políticas do período constitutional oferece um testemunho interessante do papel do clero na controversa disputa entre liberalismo e absolutismo em Portugal.
CARTA DE NATURALIZAÇÃO
1.ª De Alvito Buela Pereira de Miranda
“As Côrtes Gerais, Extraordináarias e Constituintes da Nação Portuguesa, atendendo ao que lhes foi representado por Alvito Buela Pereira de Miranda, natural de Santiago, Reino de Galiza, Egresso da Congregação Beneditina, o qual reside em Vila Real, ensinando Gramática Latina por Provisão da Junta da Directória Geral dos Estudos: Concedem ao Suplicante Carta de naturalização sem dependência de outra alguma diligência, para que possa gozar de todos os direitos e prerrogativas, que competem aos Naturais do Reino-Unido de Portugal, Brasil e Algarves.Paço das Côrtes em 22 de Dezembro de 1821. Francisco Manuel Trigoso d’Aragão Morato, Presidente, António Ribeiro da Costa, Deputado Secretário, João Baptista Felgueiras, Deputado Secretário.” (Collecção Dos Decretos, Resoluções e Ordens das Cortes Geraes, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portugueza, Desde a Sua Instalação em 26 de Janeiro de 1821 … – Parte I; Coimbra, 1822. pág. 310)
O Periódico “Defeza de Portugal“
Semanário político, moral e miguelista de Alvito Buéla Pereira de Miranda
Dados Básicos do Periódico
Dimensão
Informação
Título completo
Defeza de Portugal: seminário periodico, politico e moral
Local de publicação
Lisboa, Portugal
Período
1831–1833
Editor
Pe. Alvito Buéla Pereira de Miranda
Orientação política
Miguelista (absolutista)
Tipo
Semanário político
Características do Periódico
Orientação Ideológica
Defesa do absolutismo e do reinado de D. Miguel
Oposição frontal ao liberalismo e à Revolução Constitucionalista
Panfletário violento contra os liberais, com artigos considerados ainda mais agressivos do que os do Padre José Agostinho de Macedo e do Fr. Fortunato de S. Boaventura
Conteúdo
Artigos políticos contra o regime constitucional
Panfletos e campanhas de propaganda absolutista
Moral e religião como argumento de defesa do absolutismo
Críticas aos «revolucionários» e ao «liberalismo»
Estilo
Linguagem violenta e agressiva
Tom panfletário e propaganda política
Uso de argumentos religiosos (defesa da «Verdade» e da «causa absolutista»)
Importância Histórica
O Defeza de Portugal foi um dos principais periódicos miguelistas do período de 1831–1833, durante a Guerra Civil Portuguesa (1828–1834).
Editor: Alvito Buéla Pereira de Miranda, panfletista galego naturalizado português
Contexto: Publicação durante o reinado de D. Miguel e a resistência absolutista
Papel: Ferramenta de propaganda absolutista e oposição ao liberalismo
Legado: Testemunho da imprensa miguelista e do papel do clero na disputa política
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VEIGA, Francisca Branco, O Panfletário Alvito Buela Pereira de Miranda (1791–1862) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [8 de junho de 2026].
O Dia Nacional do Azulejo celebra-se a 6 de maio de 2026 em Portugal, com o objetivo de proteger e valorizar este património único.
1.Secção de um mapa do pólo Norte2.Traçado geométrico do pentágono3.Traçado geométrico da pirâmide. FaiançaLisboa, 2.ª metade do séc. XVIIIMuseu Nacional do Azulejo @franciscabrancoveiga
Estes são azulejos didáticos em faiança, produzidos em Lisboa na segunda metade do século XVIII. Não eram meramente decorativos — serviam mesmo para ensinar.
Representam:
uma secção de um mapa do Pólo Norte
o traçado geométrico de um pentágono
o traçado geométrico de uma pirâmide
Funcionavam como uma espécie de “manual visual” fixo na parede.
A influência dos jesuítas
Os jesuítas tiveram um papel central no ensino até meados do século XVIII. O seu método, baseado no Ratio Studiorum, dava importância a:
matemática e geometria
astronomia e cartografia
aprendizagem visual e demonstrativa
Ou seja, coisas que se mostram, não apenas se dizem — exatamente o que estes azulejos fazem.
Mas há aqui um ponto importante: Os jesuítas foram expulsos de Portugal em 1759, por ordem do Marquês de Pombal.
Portanto, estes azulejos já são de uma fase em que:
ou ainda refletem a herança pedagógica jesuíta,
ou fazem parte das reformas pombalinas, que mantiveram um ensino mais científico e prático.
Porque usar azulejos para ensinar?
Na época, fazia todo o sentido:
eram resistentes e duravam muito mais que papel
ficavam expostos nas paredes das salas
permitiam repetir constantemente os conceitos
aproveitavam uma tradição portuguesa fortíssima: a azulejaria
E, no fundo, funcionavam como um quadro permanente.
O que isto revela
Estes azulejos mostram bem uma mudança de mentalidade:
ensino mais abstrato → ensino visual e científico
influência religiosa → abertura ao Iluminismo
arte decorativa → ferramenta pedagógica
São um excelente exemplo de como, em Portugal, a arte e a ciência se cruzaram no ensino.
Estes três azulejos são quase “aulas congeladas” na parede.
1. Secção de um mapa do Pólo Norte
Isto não é um mapa “normal” — é uma projeção polar.
Passo a passo:
Marca um ponto central → representa o Pólo Norte.
A partir desse ponto, traça várias linhas direitas a sair do centro → são os meridianos (longitudes).
Desenha círculos concêntricos à volta do centro → são os paralelos (latitudes).
Divide o topo em graus (70°, 80°, 90°, etc.).
Acrescenta massas de terra de forma aproximada (como “Cumberlândia” no azulejo).
Ideia-chave: transformar a Terra (esfera) num plano visto “de cima”.
2. Traçado geométrico de um pentágono regular
Este é um clássico da geometria euclidiana.
Passo a passo (método tradicional):
Desenha um círculo (centro A).
Traça um diâmetro horizontal.
Marca o ponto médio desse diâmetro.
Com o compasso, usa esse ponto médio para criar uma interseção com o círculo (passo chave para obter a proporção correta).
Com essa medida, marca um ponto na circunferência.
Repete essa distância ao longo da circunferência até obter 5 pontos.
Liga os pontos → tens o pentágono regular.
O truque escondido aqui envolve a proporção áurea, mesmo que não seja nomeada.
3. Traçado geométrico de uma pirâmide
Aqui já entramos em algo próximo do desenho técnico / perspectiva.
Passo a passo:
Desenha a base (normalmente um polígono, como um quadrado ou pentágono).
Marca o centro da base.
A partir desse centro, traça uma linha vertical → define a altura da pirâmide.
Marca o ponto do topo (vértice).
Liga o topo a todos os vértices da base.
Desenha linhas auxiliares (como no azulejo) para mostrar:
alturas
diagonais
projeções
Reforça as arestas visíveis e indica as ocultas com traço diferente.
👉 Isto ensinava não só geometria, mas também visualização espacial.
Em conjunto
Estes três azulejos cobrem três áreas fundamentais do ensino da época:
Cartografia (mapa do Pólo)
Geometria pura (pentágono)
Geometria aplicada / desenho (pirâmide)
É quase um pequeno “currículo” numa parede.
Conclusão
Estes azulejos didácticos são testemunhos de um momento em que arte e ciência não estavam separadas, mas sim profundamente interligadas. Representam uma pedagogia que privilegiava o olhar, a repetição e a compreensão visual — princípios que continuam atuais.
Ao mesmo tempo, espelham uma época de transição na sociedade portuguesa: entre a influência jesuíta e as reformas iluministas, entre a tradição e a modernidade. Neles, o conhecimento deixa de ser apenas transmitido oralmente ou por livros e passa a ser inscrito no espaço, tornando-se parte do quotidiano.
Hoje, ao olharmos para estas peças, não vemos apenas objetos antigos. Vemos um modo de ensinar — e de pensar — em que aprender era também ver, observar e construir.
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Como referir este artigo:
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VEIGA, Francisca Branco, Quando os azulejos ensinavam: ciência, arte e pedagogia no Portugal do século XVIII (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [06 de Maio de 2026].
O Mensageiro de Fez, de Thomaz Ribeiro, é um poema narrativo de feição patriótica e religiosa que cruza dois núcleos históricos e simbólicos: a memória de Fez, ligada ao cativeiro de D. Fernando, e a devoção à Senhora da Rocha, em Carnaxide. A obra constrói uma ponte entre o drama da expansão portuguesa no Norte de África e uma paisagem devocional profundamente enraizada na religiosidade popular lisboeta.
Dedicado à Rainha D. Amélia d’ Orleans
Fez e o drama do cativeiro
Desenho do ataúde de D. Fernando na Bab Es-Seba de Fez, retirado do livro de Joseph Goulven
A primeira parte do livro centra-se na missão do “mensageiro de Fez”, isto é, Fernão Lopes Pacheco, enviado para comunicar à corte portuguesa a situação de D. Fernando, preso em território muçulmano. O poema recupera o episódio histórico do Infante Santo, capturado após a desastrosa expedição a Tânger, e transforma-o num quadro de sofrimento, fidelidade e sacrifício. Thomaz Ribeiro dá grande relevo à dimensão moral do cativeiro: D. Fernando surge como figura de martírio cristão e de nobreza espiritual, enquanto Pacheco encarna a lealdade e o dever cumprido até ao limite.
A história de Fez encontra-se profundamente ligada ao cativeiro, martírio e morte do Infante D. Fernando (1402-1443), conhecido como o “Infante Santo“. Esta figura da Ínclita Geração foi refém durante seis anos após a desastrosa expedição a Tânger em 1437, tornando-se um símbolo de sacrifício e fidelidade nacional.
O Cativeiro e a Morte em Fez (1437-1443):
A Causa: Após a derrota na tentativa de conquista de Tânger, o Infante D. Fernando foi entregue como refém em troca da permissão para o reembarque das tropas portuguesas, ficando acordada a devolução de Ceuta.
O Impasse: O acordo não foi cumprido pela coroa portuguesa (liderada por D. Duarte e, posteriormente, pela regência), que se recusou a devolver Ceuta. D. Fernando permaneceu, assim, prisioneiro em Fez.
O Sofrimento: Durante os anos de cativeiro, o Infante sofreu maus-tratos, sendo colocado a ferros e sujeito a trabalhos pesados, mas, segundo relatos, manteve uma conduta exemplar e caridosa.
A Morte e Exposição: D. Fernando faleceu em Fez a 5 de junho de 1443. Após a morte, o seu corpo foi exposto na Bab Es-Seba (a “Porta do Príncipe Português”) na muralha de Fez, inicialmente pendurado de cabeça para baixo durante quatro dias, antes de ser colocado num ataúde na muralha.
A Memória e o Mito:
O “Infante Santo”: A sua morte no exílio, recusando a sua libertação à custa de Ceuta (segundo alguns relatos), transformou-o numa figura de veneração popular em Portugal, celebrada como um mártir da fé e da pátria.
Relíquias: A “Crónica do Infante Santo D. Fernando”, escrita por Frei João Álvares, seu companheiro de cativeiro, contribuiu para a construção da sua imagem hagiográfica.
Resgate: Mais tarde, os seus restos mortais foram resgatados e sepultados no Mosteiro da Batalha, próximo dos seus irmãos.
Memória na Literatura: A sua figura é imortalizada na literatura portuguesa, nomeadamente no poema “D. Fernando, Infante de Portugal” da secção As Quinas do livro Mensagem de Fernando Pessoa.
Embora a Igreja nunca tenha oficializado a sua canonização, a devoção popular e a história de Portugal retêm o seu cativeiro em Fez como um dos episódios mais dramáticos e marcantes da expansão no Norte de África
A referência a Fez é, assim, mais do que geográfica: torna-se símbolo de distância, prova e resistência. O poema não descreve apenas um episódio militar; reconstitui uma tragédia nacional em que se cruzam a dor política, a memória dinástica e a leitura providencial da história. O tom é profundamente emotivo, mas também solene, como convém a uma obra que procura elevar o sofrimento de um príncipe cativo ao estatuto de exemplo moral e patriótico.
Tríptico do Infante D. Fernando(Painel central). c. 1450-1460 Técnica: pintura a têmpera e óleo Localização: Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
O Tríptico do Infante D. Fernando é uma pintura quinhentista atribuída a um autor português desconhecido, realizada por volta de 1450-1460, em têmpera e óleo sobre madeira de carvalho, e hoje conservada no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. A obra terá sido encomendada para a Capela do Fundador do Mosteiro da Batalha e está ligada à memória do Infante D. Fernando, o Infante Santo, evocando o seu cativeiro e martírio em Fez. Segundo a tradição referida por Frei Luís de Sousa, teria sido mandada pintar pelo Infante D. Henrique, possivelmente como parte das cerimónias de trasladação dos restos mortais do Infante Santo para a Batalha, em 1451. Quanto à autoria, o tríptico tem sido associado por diversos estudiosos a vários mestres, embora a proposta mais provável seja a de João Afonso de Leiria. Em termos artísticos, trata-se de uma obra de qualidade regular, importante sobretudo pelo seu valor histórico e simbólico, mais do que por uma atribuição segura ou por um nome consagrado da pintura portuguesa.
A segunda dimensão essencial da obra é a da Senhora da Rocha, cuja presença domina a parte inicial e mediana do poema. Thomaz Ribeiro transforma a pequena ermida e a gruta do Jamor num espaço de forte carga simbólica: lugar de devoção, de memória e de recuperação da presença sagrada. A narrativa poética associa a imagem da Virgem ao reencontro de uma fé antiga, quase perdida, mas ainda viva no coração das gentes de Carnaxide e da vizinhança.
Vista do Santuário no jornal o Occidente
A figura da Tia Ignez é decisiva nesta secção. É ela quem conserva a lembrança do milagre, do esconderijo da imagem e da relação afectiva com a Senhora. A sua voz dá ao poema uma espessura popular e testemunhal, ligando a grande história à memória humilde de quem viveu perto do santuário. A Senhora da Rocha aparece, por isso, não apenas como objecto de culto, mas como centro de uma comunidade espiritual que resiste à ruína, ao esquecimento e às transformações políticas.
A ligação entre os dois temas
O vínculo entre Fez e a Senhora da Rocha faz-se pela própria arquitectura do livro. Thomaz Ribeiro reúne num mesmo poema a epopeia do resgate, o sofrimento do cativo, a fidelidade do mensageiro e a devoção mariana de uma localidade portuguesa. Fez representa a prova histórica, o exílio e a violência; a Senhora da Rocha representa o consolo, a permanência e a esperança. Entre ambos, o poema ergue uma visão do mundo em que a história de Portugal só se compreende plenamente quando lida à luz da fé e da memória.
Há também uma dimensão pessoal e afectiva muito marcada. O autor escreve com evidente proximidade emocional à devoção da Senhora da Rocha, e isso confere ao texto um tom entre a elegia, a confissão e a celebração. Ao mesmo tempo, a evocação de Fez e de D. Fernando inscreve a obra na tradição romântica e pós-romântica da exaltação dos heróis nacionais, onde o passado é revivido não como simples crónica, mas como experiência moral e espiritual.
Sentido da obra
No conjunto, O Mensageiro de Fez é um poema que une história, memória e devoção. A parte de Fez dá-lhe grandeza épica e trágica; a parte da Senhora da Rocha oferece-lhe intimidade religiosa e enraizamento local. O resultado é uma obra em que o patriotismo se cruza com a piedade, e em que a paisagem de Carnaxide dialoga com o drama do Norte de África, como se ambos pertencessem a uma mesma narrativa da alma portuguesa.
Se quiser, posso agora transformar este resumo em versão mais breve e jornalística para blogue, ou em versão mais académica e mais cuidada, com subtítulo e parágrafos prontos a publicar.
@franciscabrancoveiga@franciscabrancoveiga@franciscabrancoveiga@franciscabrancoveiga@franciscabrancoveiga@franciscabrancoveiga@franciscabrancoveiga@franciscabrancoveiga Biblioteca Al-Qarawiyyin (ou Khizanat al-Qarawiyyin), situada na Medina de Fez, em Marrocos, dentro do complexo da Mesquita Al-Qarawiyyin. Fundação: Foi fundada em 859 d.C. por Fatima al-Fihriya, sendo reconhecida como a biblioteca mais antiga do mundo ainda em funcionamento. O Corão e Espólio: A biblioteca alberga mais de 4000 manuscritos raros, incluindo um exemplar do Alcorão do século IX escrito em pele de camelo com caligrafia Cúfica, frequentemente citado como um dos mais antigos do mundo. A Entrada: A entrada da biblioteca é conhecida por ser modesta e, por vezes, difícil de encontrar nas ruelas da medina, localizada frequentemente perto da Praça Seffarine e do Mausoléu de Moulay Idriss. A entrada principal do complexo, que foi restaurada recentemente (reaberta em 2016), apresenta azulejos verdes e azuis típicos da arquitetura marroquina. Acesso: O acesso à biblioteca e à mesquita é estritamente reservado a muçulmanos, embora a área restaurada inclua uma sala de manuscritos, laboratório de conservação e uma sala de leitura que pode ser visitada sob autorização especial. Após uma renovação profunda entre 2012 e 2016, liderada pela arquiteta Aziza Chaouni, o edifício foi reforçado para proteger os seus tesouros da humidade, incluindo uma porta de ferro com quatro fechaduras que guarda os manuscritos mais valiosos. @franciscabrancoveiga
Tomás António Ribeiro Ferreira, mais conhecido por Thomaz Ribeiro (1831-1901), foi um poeta, escritor, publicista e político português, figura marcante do ultra-romantismo e da vida pública do seu tempo. Em Carnaxide, a sua presença tornou-se especialmente relevante pela ligação ao culto de Nossa Senhora da Rocha, que apoiou e promoveu com influência política e devoção pessoal.
Relação com Carnaxide
A relação de Thomaz Ribeiro com Carnaxide passa прежде de tudo pela Senhora da Rocha, em Linda-a-Pastora, onde foi um dos principais impulsionadores do santuário e do regresso da imagem de Nossa Senhora ao culto local. Segundo a informação reunida em fontes locais, ele tomou conhecimento da devoção popular durante estadias em Carnaxide e usou a sua influência para apoiar a construção do templo e a consolidação do culto mariano.
Além disso, a própria obra O Mensageiro de Fez revela essa proximidade: a primeira parte, “A Rocha”, é dedicada a esse universo devocional e integra a gruta do Jamor e a memória religiosa de Carnaxide no centro do poema. Por isso, Thomaz Ribeiro não é apenas uma figura literária associada a Carnaxide; é também um nome ligado à identidade histórica e religiosa do lugar.
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Como referir este artigo:
Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!
VEIGA, Francisca Branco, O Mensageiro de Fez (Thomaz Ribeiro) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [05 de Maio de 2026].
A Igreja do antigo Convento de Nossa Senhora da Ajuda, também conhecida como de São Paulo, revela-se como um notável testemunho da espiritualidade e da estética barroca, onde cada elemento — arquitectónico ou decorativo — participa numa linguagem simbólica profundamente intencional.
De planta longitudinal composta e volumes articulados, o edifício apresenta uma cobertura marcada por quatro telhados de duas águas, sendo coroado por uma torre sineira com domo, que acentua a verticalidade e a presença do conjunto na paisagem. A fachada principal, orientada a sul, é delimitada por cunhais de cantaria almofadados e rematada por um frontão semicircular, organizando-se em dois registos distintos, separados por um friso em pedra.
No piso inferior, destaca-se o arco de volta perfeita que dá acesso ao nártex, protegido por guarda em ferro. Já no interior, o portal ostenta uma inscrição de forte carga simbólica — “DOMUS DEI EST ET PORTA CELI / PAVLVS ERMITARVM AVCTOR ET MAGISTER” — que afirma o espaço como casa de Deus e porta do céu, evocando simultaneamente São Paulo, o Eremita, como mestre da vida eremítica.
O piso superior, correspondente ao andar nobre, apresenta três janelas de verga recta, sendo a central enriquecida com um nicho onde se encontra a imagem de Nossa Senhora da Ajuda. O conjunto é rematado por uma cruz em ferro, reforçando a identidade religiosa do edifício. A torre sineira, a nascente, com cunhais em massa e coroamento com quatro fogaréus, completa a composição exterior, enquanto as fachadas lateral e posterior evidenciam uma organização funcional marcada pela regularidade dos vãos.
No interior, sobressai o altar-mor em madeira dourada, datado do século XVII, com acrescentos do primeiro quartel do século XVIII. A igreja conserva ainda sete retábulos em madeira, que ocupam a nave. Curiosamente, muitos destes apresentam uma tonalidade escura, por não terem sido dourados ou pintados, ao contrário do que era habitual no período barroco. Entre eles, destaca-se o retábulo de Nossa Senhora do Carmo, de maiores dimensões e notável riqueza decorativa, obra de Gaspar Martins, datada de 1730.
Mas é na galilé — espaço de transição entre o exterior e o interior — que encontramos um dos elementos mais expressivos do conjunto: uma cartela barroca decorativa com a representação de São Paulo, o Eremita. Considerado o primeiro eremita do cristianismo, Paulo de Tebas é figurado com atributos que permitem a sua imediata identificação, como o leão, associado à sua morte e sepultura, e a palmeira, símbolo do deserto e da providência divina que sustentou a sua vida.
A presença desta imagem não é casual. A galilé, enquanto espaço de passagem e preparação, adquire aqui um significado espiritual acrescido. A figura do eremita convida ao recolhimento, ao silêncio e à interioridade — valores profundamente ligados à vida conventual. A cartela, com a sua moldura de volutas e elementos vegetalistas, integra-se plenamente na linguagem barroca, onde a ornamentação serve também uma função catequética e meditativa.
Mais do que um simples motivo decorativo, esta representação constitui uma verdadeira síntese de espiritualidade: Deus sustenta aquele que, na solidão e na fé, O procura.
A história do edifício conhece, contudo, uma ruptura significativa em 1834, com a extinção das Ordens Religiosas em Portugal. A igreja foi então entregue à Confraria de Nossa Senhora da Ajuda, enquanto os edifícios conventuais foram vendidos em hasta pública e posteriormente destruídos, apagando grande parte do conjunto original.
Hoje, permanece a igreja — e nela, inscritas na pedra, na madeira e na imagem, as marcas de uma vivência religiosa intensa, onde arte, arquitectura e espiritualidade se entrelaçam numa narrativa silenciosa, mas profundamente eloquente.
Elemento decorativo
Na abóbada da galilé existe uma cartela barroca decorativa
Representa São Paulo, o Eremita (Paulo de Tebas)
Considerado o primeiro eremita do cristianismo
Arquitectura exterior
Planta: longitudinal composta
Volumes: articulados
Cobertura:
Quatro telhados de duas águas
Domo na torre sineira
Fachada principal (Sul)
Delimitada por cunhais de cantaria almofadados
Remate em frontão semicircular
Dois registos separados por friso em pedra:
Piso inferior:
Arco de volta perfeita → acesso ao nártex
Guarda em ferro
Portal interior com inscrição:
DOMUS DEI EST ET PORTA CELI
PAVLVS ERMITARVM AVCTOR ET MAGISTER
Piso superior (andar nobre):
Três janelas de verga recta
Janela central com nicho e imagem de Nª Sr.ª da Ajuda
Remate superior com cruz em ferro
Torre sineira (Este)
Cunhais em massa
Coroamento com quatro fogaréus
Fachada Este
Três volumes:
Primeiro volume:
Arco semelhante ao da fachada principal
Acesso ao nártex
Quatro vãos
Segundo volume:
Um vão de verga recta
Terceiro volume:
Cego
Fachada Norte
Total de 12 aberturas
Interior
Capela-Mor, madeira dourada, séc. XVII (com acréscimos do 1º quartel do séc. XVIII)
Contém 7 retábulos em madeira
Os retábulos que ocupam a nave apresentam-se com tonalidade escura, pois não chegaram a ser dourados e pintados, como era costume na época barroca.
Destaque para:
Retábulo de Nª Sr.ª do Carmo
Maior dimensão
Grande riqueza decorativa
Nota:
Os retábulos não foram dourados nem pintados, ao contrário do habitual no período barroco
Retábulo de Nossa Senhora do Carmo, Gaspar Martins, madeira 1730 (pormenor)Retábulo de Nossa Senhora do Carmo, Gaspar Martins, madeira 1730
São Paulo, o Eremita, na galilé da Igreja de Nossa Senhora da Ajuda
Na galilé da Igreja do antigo Convento de Nossa Senhora da Ajuda, ou de São Paulo, encontra-se uma cartela decorativa barroca com a representação de São Paulo, o Eremita, também conhecido como Paulo de Tebas. A sua presença neste espaço de transição entre o exterior e o interior do templo não é casual: a imagem inscreve-se numa linguagem devocional e simbólica muito própria da arte religiosa barroca.
Paulo de Tebas é tradicionalmente venerado como o primeiro eremita do cristianismo. Segundo a tradição hagiográfica, retirou-se para o deserto egípcio, onde viveu em solidão, oração e renúncia ao mundo, tornando-se exemplo de vida ascética e contemplativa. A sua figura foi amplamente difundida pela iconografia cristã, que o representa com os sinais da sua experiência no deserto.
Na cartela aqui representada, distinguem-se elementos particularmente expressivos: o leão, associado ao episódio da sua morte e sepultura, e a palmeira, que alude ao lugar do seu recolhimento no deserto e à vida sustentada pela providência divina. Estes atributos permitem reconhecer imediatamente o santo e compreender o sentido espiritual da imagem.
A escolha de São Paulo, o Eremita, para decorar a galilé é reveladora. A galilé funciona muitas vezes como espaço de passagem, de recolhimento e de preparação simbólica para a entrada no templo, o que se harmoniza bem com a memória de um santo que fez da retirada do mundo o caminho para Deus. A cartela, com a sua moldura barroca de volutas e ornatos vegetalistas, reforça ainda essa dimensão estética e catequética, tão característica da arte sacra.
Assim, esta pequena composição não é apenas um motivo ornamental. É também uma peça de memória, de espiritualidade e de pedagogia visual, onde a arte barroca transforma pedra e estuque em linguagem religiosa. Na simplicidade da imagem, concentra-se uma das grandes lições da tradição cristã: a do silêncio, da solidão e da busca de Deus no deserto.
Cartela decorativa barroca com representação de São Paulo, o Eremita
A cartela transmite, em termos gerais, uma mensagem espiritual muito clara: Deus sustenta aquele que se retira do mundo para viver na fé.
A presença de São Paulo, o Eremita, reforça ideais profundamente ligados à espiritualidade conventual, como o silêncio, o isolamento e a confiança absoluta na providência divina.
Num antigo convento, como o de Nossa Senhora da Ajuda, esta imagem não surge por acaso: ela propõe um modelo de vida espiritual para os religiosos, evocando a tradição dos eremitas e da vida ascética. Ao mesmo tempo, integra-se plenamente na sensibilidade barroca, que alia ornamentação rica e expressividade visual a uma mensagem religiosa densa e meditativa.
História
1834: Extinção das Ordens Religiosas
Igreja entregue à Confraria de Nª Sr.ª da Ajuda
Edifícios conventuais:
Vendidos em hasta pública
Posteriormente destruídos
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Como referir este artigo:
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VEIGA, Francisca Branco, Igreja do antigo Convento de Nossa Senhora da Ajuda (ou de São Paulo) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [20 de Abril de 2026].