A Igreja de São João Evangelista, ou Igreja do Colégio, no Funchal

A Igreja de São João Evangelista, conhecida como Igreja do Colégio, é um dos mais importantes testemunhos da presença da Companhia de Jesus no Funchal. Integrada no antigo complexo jesuíta, a sua história atravessa vários séculos, desde a fundação do Colégio no século XVI até às sucessivas campanhas de construção, decoração e transformação do conjunto. A igreja atual, iniciada em 1629, conserva um notável património artístico, com talha dourada, pintura, azulejo, escultura, capelas e inscrições funerárias. A expulsão dos Jesuítas, em 1759, marcou uma profunda mudança no destino do complexo, que posteriormente conheceu diferentes utilizações. Hoje, a Igreja do Colégio permanece como um importante espaço de culto e, simultaneamente, como uma verdadeira fonte para o estudo da história religiosa, artística e social da Madeira.

Palavras-chave: Igreja do Colégio; Companhia de Jesus; Funchal; Jesuítas; património religioso; arte sacra; Madeira; história religiosa; arquitectura; devoção.

📸 @Pedro Veiga

No centro histórico do Funchal, junto à atual Praça do Município, ergue-se a Igreja de São João Evangelista, mais conhecida como Igreja do Colégio. Integrada no antigo complexo dos Jesuítas, constitui um dos mais importantes testemunhos da presença da Companhia de Jesus na Madeira e um dos conjuntos de maior riqueza artística da cidade.

A história do templo, porém, não começa com a sua construção no século XVII. A igreja que hoje vemos é o resultado de um processo muito mais longo, iniciado ainda no século XVI com a instalação dos Jesuítas no Funchal e prolongado por sucessivas campanhas de construção, decoração, transformação e conservação.

É precisamente essa sobreposição de tempos que torna o monumento particularmente interessante.

A fundação do Colégio e a chegada dos Jesuítas

A presença da Companhia de Jesus no Funchal remonta ao século XVI. Um alvará régio de 20 de setembro de 1566 esteve na origem da fundação do Colégio, num momento em que a Companhia desenvolvia uma intensa ação de evangelização e ensino nos territórios portugueses.

A instalação da comunidade não foi imediata. Durante os anos seguintes sucederam-se propostas para a escolha do local, plantas e alterações ao projeto. A documentação patrimonial regista a intervenção de Mateus Fernandes, mestre das obras reais, e o envio de plantas para aprovação.

Em 1574, os Jesuítas encontravam-se instalados nas casas de São Bartolomeu. Em 1578, fixaram-se no quarteirão onde viria a desenvolver-se o complexo colegial.

O projeto foi sendo sucessivamente reformulado. Em 1592 é registada uma nova planta de Mateus Fernandes, com alterações introduzidas pelo padre visitador Pedro da Fonseca. As obras da ala do Colégio sobre a Rua do Castanheiro começaram em 1599.

A igreja atual pertence a uma fase posterior. A sua construção teve início em 1629, já no século XVII, e foi dedicada a São João Evangelista.

A construção da igreja

A construção do templo prolongou-se ao longo do século XVII, acompanhada por sucessivas obras de acabamento e decoração.

A documentação patrimonial regista, entre outros acontecimentos, a chegada, em 1660, das colunas destinadas aos portais da igreja, provenientes das pedreiras de Câmara de Lobos. O dado é revelador da dimensão material da obra e da utilização de recursos provenientes da própria ilha.

A arquitetura do templo insere-se numa tradição maneirista, mas o seu programa decorativo foi sendo enriquecido numa época em que o barroco começava a afirmar-se com crescente intensidade.

É por isso que a Igreja do Colégio não deve ser entendida como um edifício exclusivamente maneirista ou barroco. A sua identidade resulta precisamente da coexistência dessas diferentes linguagens, construídas e acrescentadas ao longo do tempo.

A fachada

📸 @Pedro Veiga

A fachada constitui um dos elementos mais marcantes do conjunto.

De composição equilibrada e monumental, estabelece uma relação estreita com os edifícios do antigo Colégio e afirma a presença do templo no espaço urbano.

O programa escultórico merece particular atenção. Entre as figuras representadas encontram-se santos ligados à Companhia de Jesus, como Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier, São Francisco de Borja e Santo Estanislau Kostka.

📸 @Pedro Veiga

A documentação patrimonial acrescenta um dado particularmente interessante: em 1750 chegaram de Lisboa as imagens destinadas à fachada. O conjunto escultórico que hoje observamos deve, portanto, ser relacionado com uma campanha posterior à construção seiscentista da igreja.

A fachada tornou-se, assim, também uma declaração visual da identidade jesuíta. As figuras dos fundadores, missionários e santos da Companhia apresentavam ao espaço urbano os principais protagonistas da ordem que durante quase dois séculos marcou profundamente a vida religiosa e cultural do Funchal.

O interior

📸 @Pedro Veiga

No interior, a riqueza decorativa torna-se ainda mais evidente.

A nave, os altares e as capelas formam um conjunto em que se articulam talha dourada, pintura, azulejo, escultura e elementos de pedra. O resultado é uma composição visual característica da cultura religiosa da época moderna, na qual diferentes artes concorrem para a criação de um espaço de grande intensidade devocional.

Os retábulos de talha dourada do século XVII ocupam um lugar central neste conjunto. A eles juntam-se pinturas dos séculos XVII e XVIII, azulejos de padrão e figurativos e outros elementos decorativos que testemunham a continuidade das campanhas artísticas.

Arquitetura, imagem e devoção

📸 @Pedro Veiga

A riqueza do interior da Igreja de São João Evangelista não deve ser entendida apenas como uma acumulação de elementos decorativos. A arquitetura, a pintura, a talha, a escultura e a azulejaria articulam-se na construção de um espaço religioso destinado ao culto, à pregação e à devoção. Esta articulação insere-se na cultura visual e religiosa da época moderna, marcada pela renovação das práticas de culto e pela valorização da imagem no contexto posterior ao Concílio de Trento.

Nas igrejas da Companhia de Jesus, a organização do espaço estava estreitamente relacionada com a atividade pastoral. A pregação, a instrução religiosa e a celebração litúrgica exigiam espaços que favorecessem a atenção dos fiéis e a centralidade dos altares. A arquitetura não constituía, por isso, um simples enquadramento para o culto: contribuía para organizar a própria experiência religiosa.

Também a imagem assumia uma função que ultrapassava a dimensão ornamental. Pinturas, esculturas e retábulos tornavam visíveis personagens, episódios e temas fundamentais da doutrina cristã, permitindo associar a contemplação visual à devoção. No universo inaciano, esta valorização da imaginação e da representação encontra uma relação particularmente significativa com a espiritualidade dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, onde a chamada «composição de lugar» convida o exercitante a tornar presentes, através da imaginação, os acontecimentos da história sagrada.

Na Igreja do Colégio, esta relação entre espaço e imagem é particularmente evidente. Os retábulos, as capelas, as pinturas, os revestimentos azulejares e a talha dourada não funcionam como elementos isolados. A sua disposição contribui para estruturar visualmente a nave e para conferir especial destaque aos diferentes núcleos de culto.

Um dos exemplos mais expressivos encontra-se na própria cobertura da nave. Executada em madeira e decorada com pintura perspetivada, apresenta arquiteturas fingidas, elementos ornamentais e composições que criam uma ilusão de profundidade, prolongando visualmente os limites da arquitetura real. A quadratura permite transformar a superfície do teto num espaço pictórico que parece abrir-se para além da estrutura física do edifício.

Esta solução aproxima-se da cultura visual barroca que, sobretudo a partir do final do século XVII e início do século XVIII, explorou de forma cada vez mais sofisticada a perspetiva e a arquitetura ilusionista. No caso da Igreja do Colégio, estudos sobre a pintura de tetos na Madeira têm relacionado a composição perspetivada com modelos difundidos pela tratadística europeia, nomeadamente com a obra de Andrea Pozzo e com a linguagem da quadratura. A execução do teto é geralmente situada nas primeiras décadas do século XVIII.

O efeito produzido não depende, contudo, apenas da pintura. A talha dourada, a pintura mural, os azulejos e a escultura participam igualmente na construção de uma experiência visual integrada. A relativa simplicidade da estrutura maneirista é, assim, progressivamente enriquecida por uma linguagem ornamental barroca, sem que isso signifique que todo o conjunto tenha sido concebido numa única campanha. Pelo contrário, a própria cronologia da igreja revela a sucessão de diferentes momentos de construção, decoração e transformação.

É neste sentido que podemos falar de uma articulação das artes no espaço religioso. Não se trata de atribuir a cada elemento uma função isolada, mas de compreender como arquitetura, imagem e ornamentação podiam convergir para tornar o espaço mais expressivo, orientar o olhar e reforçar os lugares de culto.

No caso da Igreja do Colégio, esta leitura deve ainda ter em conta a intervenção de diferentes agentes — a própria Companhia de Jesus, os artistas e artífices envolvidos nas sucessivas campanhas e os fundadores e benfeitores das capelas. A decoração do templo não resultou, portanto, de uma única iniciativa nem corresponde exclusivamente a uma conceção centralizada da Companhia. Foi sendo construída ao longo de décadas, à medida que diferentes devoções, recursos, encomendas e linguagens artísticas foram deixando a sua marca no edifício.

É precisamente essa sobreposição que torna o interior da Igreja de São João Evangelista tão significativo: a unidade visual que hoje percecionamos é o resultado de uma história feita de diferentes campanhas, devoções e formas de apropriação do espaço sagrado.

As capelas

É nas capelas que a riqueza artística e a dimensão social do templo melhor se revelam. Cada espaço está associado a uma devoção, a uma imagem, a uma campanha decorativa e, em alguns casos, à memória de quem financiou a sua construção ou escolheu ali o lugar da sua sepultura.

Capela do Bom Jesus

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A Capela do Bom Jesus apresenta um retábulo de características maneiristas, centrado na representação da Paixão de Cristo. A composição inclui o Crucificado e os quatro Evangelistas.

Conserva ainda uma imagem do Senhor Morto, atribuída ao século XVII, e uma representação do Sagrado Coração. Os azulejos e as pinturas completam o programa decorativo, com representações relacionadas com os Mártires de Marrocos, Santo António e São Francisco de Assis.

Flanqueando a cena central, dispostas em nichos sobrepostos e enquadradas por colunas coríntias estriadas, encontram-se as esculturas de vulto que representam os quatro evangelistas (São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João), um programa iconográfico típico do espírito da Contra-Reforma jesuíta.

Capela de Nossa Senhora de Fátima

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A atual Capela de Nossa Senhora de Fátima foi anteriormente dedicada a Nossa Senhora da Luz.

A imagem original de Nossa Senhora da Luz encontra-se hoje no Museu de Arte Sacra do Funchal, enquanto a capela acolhe atualmente as imagens de Nossa Senhora de Fátima e de São José.

Os azulejos de padrão seiscentista, a pequena abóbada de berço e o retábulo de talha dourada, associado à transição do maneirismo para o barroco, conservam a memória das fases mais antigas do espaço, apesar da alteração da sua invocação.

Capela do Senhor da Misericórdia

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Anteriormente dedicada a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, esta capela apresenta um retábulo de características maneiristas e um sacrário integrado na estrutura.

Duas imagens de santos completam o conjunto. Uma delas tem sido identificada como possível representação de São Francisco Xavier, embora esta atribuição deva permanecer prudente.

Capela de Santo António

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A Capela de Santo António está ligada à família de António Spínola Teixeira, identificado na inscrição tumular como fundador. A mesma inscrição recorda D. Francisca Coelha de Sampaio, sua mulher e benfeitora, e Manuel Spínola, seu filho, apresentando a data de 1719.

A talha dourada e os painéis pintados a óleo sobre madeira conferem à capela uma decoração particularmente rica.

As inscrições funerárias acrescentam ao valor artístico do espaço uma dimensão documental: permitem recuperar nomes, relações familiares e formas de patrocínio que fizeram parte da vida social e religiosa do templo.

Inscrição funerária de 1719, existente na Capela de Santo António, associada à memória dos seus fundadores. A epígrafe menciona, entre outros elementos, o nome de [António/Pedro?] e de Francisca Coelha, devendo a leitura integral da inscrição ser confrontada com documentação ou transcrição epigráfica especializada.
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Capela de São Francisco Xavier

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A devoção a São Francisco Xavier ocupa um lugar natural num templo da Companhia de Jesus.

A capela está associada à fundação de Bento de Matos, cuja memória funerária permanece ligada ao espaço. O retábulo, tradicionalmente datado de 1648, é uma importante peça de talha dourada do século XVII. Organizado em três panos, apresenta no centro a imagem de São Francisco Xavier, entre colunas de inspiração coríntia.

Merece atenção uma pequena porta de acesso ao transepto, em madeira de carvalho, que a tradição local relaciona com uma estrutura anterior à igreja atual. A possibilidade de a peça provir de uma antiga capela existente no local em 1578 é interessante, embora não possa ser tomada como facto estabelecido sem documentação que o confirme.

Lápide tumular plana (laje sepulcral) integrada no pavimento da Capela de São Francisco Xavier. O epitáfio documenta a inumação de três indivíduos principais e respetiva descendência: o Licenciado Bento de Matos Coutinho, a sua consorte Dona Filipa de Vasconcelos e o seu irmão, Lourenço de Matos Coutinho.
A documentação arquivística do século XVII contextualiza estes indivíduos na dinâmica da elite mercantil e jurídica da Madeira:
Estatuto Jurídico e Social: O título de Licenciado atribuído a Bento de Matos Coutinho atesta uma formação universitária (geralmente em Cânones ou Leis pela Universidade de Coimbra), posicionando a família na burocracia institucional ou na magistratura local.
Redes de Comércio Ultramarino: Os irmãos Matos Coutinho inseriam-se nos circuitos comerciais do Atlântico e do Norte da Europa. Registos de inventários e testamentos da época demonstram a sua ligação à exportação de açúcar madeirense e à importação de manufaturas através de agentes em praças francesas (como Ruão) e redes de comércio associadas ao Brasil colonial.
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Capela de Santa Úrsula e das suas companheiras mártires

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A capela tradicionalmente conhecida como das Onze Mil Virgens é dedicada a Santa Úrsula e às suas companheiras mártires.

A própria Igreja do Colégio admite que a designação tradicional poderá resultar de uma alteração na transmissão escrita da expressão original. Por isso, a designação de Santa Úrsula e suas companheiras mártires é historicamente mais prudente.

O retábulo, tradicionalmente datado de cerca de 1654, apresenta características maneiristas. A grande pintura que originalmente ocupava o centro do conjunto encontra-se atualmente no Museu de Arte Sacra do Funchal.

A capela conserva ainda um importante conjunto de relíquias, acompanhado por imagens policromadas e outros elementos de aparato devocional. Aqui, pintura, escultura, talha e culto das relíquias conjugam-se num programa particularmente expressivo da religiosidade da época moderna.

Esta imagem retrata a placa comemorativa em azulejo e o painel heráldico integrados na parede da Capela das Onze Mil Virgens, localizada na nave da Igreja.
Leitura atualizada:
“Esta capela das Onze Mil Virgens fundou o Capitão Simão Nunes Machado e sua mulher Dona Joana Tello Peras e seus herdeiros. 1654.”
O painel documenta a instituição de uma capela privada por parte do Capitão Simão Nunes Machado (importante figura militar e proprietário local na Madeira do século XVII) e da sua esposa, D. Joana Tello Peras.
A fundação de capelas colaterais sob a invocação de devoções específicas (neste caso, as Onze Mil Virgens) funcionava como um contrato de mecenato com a Companhia de Jesus. Os benfeitores financiavam a ornamentação do espaço e as missas por sufrágio das suas almas em troca do direito de sepultura e da exibição das suas armas heráldicas no espaço sagrado.
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Capela de Nossa Senhora da Conceição

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A imagem de Nossa Senhora da Conceição é executada em madeira dourada e policromada e apresenta a Virgem sobre um crescente lunar, acompanhada por anjos.

A própria Igreja admite que a postura da imagem poderá aproximá-la iconograficamente de uma representação da Assunção, questão que merece ser considerada na leitura da peça.

O retábulo pertence ao século XVII. A capela conserva ainda uma pintura de São Marcos Evangelista e painéis de azulejo cuja disposição parece ter sido pensada em relação com um coro alto que nunca chegou a ser construído.

São Marcos Evangelista. Óleo sobre tela, de caráter conventual,
na Capela de Nossa Senhora da Conceição da Igreja de
São João Evangelista (Igreja do Colégio), Funchal.
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Capela de São Miguel Arcanjo

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A Capela de São Miguel Arcanjo oferece um dos exemplos mais claros de uma cronologia apoiada numa inscrição funerária.

Foi fundada pelo reverendo Miguel Pereira de Almeida, cuja lápide informa que morreu em 14 de dezembro de 1671 e que os seus ossos foram trasladados para a capela em 16 de junho de 1682.

Estes dados permitem situar a construção da capela entre essas duas datas.

A imagem de São Miguel Arcanjo, em madeira dourada e policromada, pertence ao século XVII. A decoração da capela evidencia já uma linguagem mais próxima do barroco, acompanhando a evolução artística que se verifica no conjunto.

Capela de Santa Quitéria

A Capela de Santa Quitéria conserva uma imagem da santa em madeira estofada, dourada e policromada, com características associadas ao século XVIII.

Entre as pinturas existentes destaca-se uma representação da Mulher Adúltera, tradicionalmente datada de meados do século XVII.

As restantes obras têm sido objeto de atribuições menos seguras, nomeadamente quanto à sua autoria e eventual relação com oficinas de tradição franciscana.

A sacristia

A sacristia constitui outro dos espaços de maior interesse do conjunto.

Os armários com embutidos de mármore, os revestimentos de azulejo figurativo, o grande arcaz de características barrocas e as pinturas de temática religiosa revelam o cuidado colocado na decoração dos espaços destinados à vida litúrgica interna.

Tal como acontecia noutras casas da Companhia de Jesus, a sacristia não era apenas um espaço funcional. Participava da conceção global do templo e da criação de um ambiente adequado à celebração e à representação do culto.

A expulsão dos Jesuítas

A história do Colégio sofreu uma rutura em 1759, quando a Companhia de Jesus foi expulsa dos domínios portugueses.

Os últimos Jesuítas deixaram a Madeira em 16 de julho de 1760.

A partir desse momento, o conjunto perdeu a função para a qual havia sido concebido e entrou numa nova fase da sua história.

Em 1787, parte das instalações foi cedida para o Seminário. Durante o período das guerras napoleónicas e da presença britânica na Madeira, o antigo Colégio conheceu também utilizações militares.

O século XIX trouxe novas intervenções e preocupações de conservação. Durante o governo civil de José Silvestre Ribeiro foram promovidas obras de recuperação que contribuíram para a preservação do conjunto.

A igreja regressou depois ao uso religioso, mantendo-se ligada à vida diocesana do Funchal.

Do antigo Colégio ao património atual

A história do conjunto não terminou com as intervenções oitocentistas.

Em 1980, o antigo complexo do Colégio passou do Exército para o Governo Regional da Madeira, numa operação que marcou uma nova etapa da sua história patrimonial.

Em 1988, o edifício recebeu a Universidade da Madeira. A adaptação de um antigo complexo jesuíta a uma instituição universitária constituiu mais uma transformação significativa na longa história do edifício.

A Universidade viria posteriormente a transferir as suas instalações para a Penteada, permanecendo durante algum tempo a Reitoria no antigo Colégio.

A sucessão destas utilizações mostra a extraordinária capacidade de adaptação do conjunto, que atravessou diferentes regimes políticos, funções e formas de apropriação sem perder a sua importância histórica.

A Igreja do Colégio hoje

Atualmente, a Igreja de São João Evangelista continua aberta ao culto e integra o quadro pastoral da Diocese do Funchal.

A ligação à Companhia de Jesus permanece igualmente presente na vida contemporânea do templo, que tem atualmente como reitor o padre jesuíta Carlos Ismael Faria Almada.

Esta realidade pastoral não deve, contudo, ser confundida com a questão da propriedade jurídica do imóvel. A definição dessa propriedade exigiria documentação patrimonial e jurídica específica.

Mais importante, para a compreensão histórica do monumento, é reconhecer a continuidade entre o espaço atual e a longa história que o antecedeu.

Um monumento feito de várias épocas

A Igreja de São João Evangelista reúne, num único espaço, diferentes momentos da história da Madeira.

A fundação do Colégio remonta ao século XVI. A igreja atual começou a ser construída em 1629. A decoração foi enriquecida ao longo do século XVII e entrou progressivamente no universo artístico barroco. A fachada recebeu as suas esculturas numa campanha setecentista. As capelas foram sendo transformadas e enriquecidas por fundadores e benfeitores. A expulsão dos Jesuítas alterou profundamente o destino do conjunto. Nos séculos seguintes, o antigo Colégio recebeu novas funções, foi ocupado, adaptado e restaurado.

Cada uma dessas fases deixou vestígios.

A arquitetura conserva a memória da construção.

A talha e os azulejos testemunham a evolução artística.

As imagens revelam as devoções.

As inscrições funerárias preservam nomes e relações familiares.

As pinturas recordam programas iconográficos que atravessaram gerações.

E as próprias transformações do edifício contam a história das sociedades que dele se apropriaram.

É por isso que a Igreja do Colégio deve ser entendida não apenas como um monumento artístico, mas como uma verdadeira fonte histórica.

Percorrer a sua nave e as suas capelas é atravessar vários séculos de história madeirense: a história da Companhia de Jesus, da Igreja, das elites locais, das práticas de devoção, da arte sacra e da própria cidade do Funchal.

Talvez seja essa a sua maior riqueza.

A Igreja do Colégio não conserva apenas o passado.

Conserva vários passados, sobrepostos no mesmo espaço.

Fontes

SIPA — Sistema de Informação para o Património Arquitetónico / Monumentos, registo do antigo Colégio de São João Evangelista, Funchal.

Rui Carita, O Colégio dos Jesuítas do Funchal – Memória Histórica, vol. I.

Rui Carita, O Colégio dos Jesuítas do Funchal – Descrição e Inventários, vol. II.

Igreja do Colégio – Funchal, informação institucional sobre a história, arquitetura, capelas e património artístico.

Diocese do Funchal, informação institucional sobre a Igreja do Colégio.

Visit Madeira – Turismo Oficial da Madeira, informação patrimonial sobre a Igreja do Colégio.

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VEIGA, Francisca Branco, A Igreja de São João Evangelista, ou Igreja do Colégio, no Funchal (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [05 de Setembro de 2026].

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📸 Fotografias: Pedro Branco Veiga

Agradeço ao meu filho Pedro Branco Veiga o cuidado e a atenção na realização das fotografias que acompanham esta publicação e que permitiram documentar visualmente este percurso pela Igreja do Colégio, no Funchal.

O que foi o Kulturkampf (1871-1878)?

O Kulturkampf (“luta cultural” ou “combate pela civilização”) foi o confronto entre o Estado alemão, sob a liderança do chanceler Otto von Bismarck, e a Igreja Católica, decorrido sobretudo entre 1871 e 1878 (com resquícios legislativos até meados da década de 1880).

Esta caricatura do ano de 1875 mostra Bismarck e o Papa Pio IX a jogar xadrez, simbolizando o chamado ‘Kulturkampf‘ (Luta Cultural) entre Berlim e Roma.
Papa: «É verdade que o último lance foi-me desfavorável; mas a partida ainda não está perdida. Ainda tenho um belo lance secreto.»
Bismarck: «Esse também será o último, e depois ficará em xeque-mate ao fim de poucas jogadas — pelo menos na Alemanha.»

In Revista satírica alemã Kladderadatsch, 1875.


Contexto geral

Após a unificação alemã de 1871, Bismarck via o catolicismo — e sobretudo a sua fidelidade a uma autoridade externa, o Papa — como uma ameaça à coesão do novo Império, de maioria protestante (prussiana). O contexto agravou-se com a proclamação do dogma da infalibilidade papal no Concílio Vaticano I (1870), que Bismarck interpretou como reforço do poder papal sobre os católicos alemães, incluindo o clero e as ordens religiosas.

Mosaico da Tiara Papal na Basílica de São Pedro.

A expulsão dos Jesuítas (1872)

A Companhia de Jesus foi um alvo particular desta política, por ser vista como o braço mais disciplinado e mais diretamente subordinado a Roma. A “Lei dos Jesuítas” (Jesuitengesetz), aprovada em 4 de julho de 1872, proibiu a Ordem em todo o território do Império Alemão, permitindo às autoridades expulsar os seus membros ou restringir a sua residência. A lei estendeu-se depois a outras congregações consideradas afins (como os Redentoristas e os Lazaristas).

Principais impactos e detalhes da legislação:

  • Proibição de Estabelecimentos: Ficou estritamente proibida a criação ou manutenção de qualquer nova fundação ou residência da ordem da Companhia de Jesus.
  • Medidas de Exílio: O governo ganhou autoridade legal para banir jesuítas estrangeiros e limitar a liberdade de residência e atuação dos jesuítas de nacionalidade alemã.
  • Extensão da Lei: No ano seguinte, as restrições foram alargadas a outras congregações religiosas consideradas próximas.

A Lei dos Jesuítas e o Kulturkampp alemão (1872-1917)

Contexto
No auge do Kulturkampf — o confronto entre o Império Alemão de Bismarck e a Igreja Católica, agravado pela proclamação da infalibilidade papal no Concílio Vaticano I (1870) — a Companhia de Jesus tornou-se alvo prioritário da política antirreligiosa do Estado prussiano, por ser vista como o instrumento mais disciplinado da autoridade romana.

A expulsão (1872)
A Jesuitengesetz, promulgada a 4 de julho de 1872, proibiu a Ordem em todo o território imperial, obrigando os jesuítas alemães ao exílio. A formação dos noviços transferiu-se para a Holanda e a Grã-Bretanha, enquanto muitos religiosos partiram em missão para países como a Dinamarca, a Suécia, os Estados Unidos, o Brasil, a Índia, a Rodésia e o Japão.

Permanência da lei
Ainda que o Kulturkampf tenha sido oficialmente encerrado em 1887, a proibição manteve-se em vigor por mais três décadas, sendo apenas ligeiramente atenuada em 1904.

A Grande Guerra e a reabilitação nacional
A Primeira Guerra Mundial ofereceu aos católicos alemães, e em particular aos jesuítas, a oportunidade de reafirmar a sua lealdade patriótica, através de um serviço militar e assistencial intenso — mais de metade dos membros da Província Alemã da Ordem participou no esforço de guerra.

A revogação (1917) e o desfecho constitucional (1919)
Nesse contexto de união nacional, o Bundesrat aprovou, a 19 de abril de 1917, a revogação total da lei. Dois anos depois, a Constituição de Weimar (1919) consagrou, no seu artigo 124.º, a liberdade de associação, encerrando definitivamente a subordinação das ordens religiosas — incluindo a Companhia de Jesus — à tutela do Estado alemão.

Na fronteira alemã, a capa do Simplicissimus de 1902 traz a seguinte legenda: “Todos os anos temos de fingir uma vez que queremos entrar. Caso contrário, eles percebem que já estamos há muito tempo em casa deles” –
(Simplicissimus , 6.º ano (Jg. 6), n.º 48, p. 377, de 18 de fevereiro de 1902) – A entrada relativa à caricatura é bastante breve: para além da legenda da imagem, inclui apenas uma nota explicativa (Erläuterung) que esclarece o contexto — a caricatura refere-se aos jesuítas, proibidos na Alemanha desde 1872 pela Lei dos Jesuítas. Não há um comentário mais desenvolvido sobre esta caricatura específica; a página funciona sobretudo como um catálogo cronológico, com uma imagem/legenda/nota por entrada. In PAUL, Bruno – “An der deutschen Grenze”. Simplicissimus, Jg. 6, Nr. 48 (18 fev. 1902), p. 377.

Outras medidas do Kulturkampf

  • Leis de Maio (1873), regulando a formação e nomeação do clero, sujeitando-o a exame estatal;
  • Introdução do casamento civil obrigatório (1875);
  • Expulsão de bispos e clérigos que resistiram, encarceramento de alguns (o chamado “período dos bispos na prisão”);
  • Supressão de subsídios estatais a paróquias vacantes.

Desfecho

O conflito revelou-se contraproducente: reforçou a coesão e a mobilização eleitoral dos católicos (através do Zentrum, o partido do Centro Católico), em vez de os enfraquecer. Sebastian Haffner descreve em Alemanha: Jekyll & Hyde sumariamente a história deste partido da seguinte forma. Um extracto:

“Foi o único partido que não acolheu (a fundação do) Império Alemão com regozijo. Fundado em 1870, tornou-se um depositário de todos os elementos líderes conservadores do oeste e sul da Alemanha, os quais se sentiam inesperadamente incorporados. O objectivo do Zentrum era defender valores claramente acima e fora do Estado, sobretudo os valores do Catolicismo. Foi o único partido que na altura não acolheu a criação de Bismarck como a forma política ideal para a Alemanha, tendo no entanto decidido aceitar isso como um facto estabelecido. Bismarck acusou repetidamente o Zentrum de ser um “inimigo do Império”, mas isso não era verdade. O Zentrum não foi fundado como protesto contra o Império mas sim como um compromisso. Ele aceitou o Império com um encolher de ombros, mas trabalhava lealmente com ele, mesmo que com limitações. As reservas situavam-se no aspecto cultural. Aqui, o Zentrum era sempre inflexível”. Em todas as outras áreas ele podia dar-se ao luxo de ser oportunista.”

“Os membros deste partido caracterizavam-se por aceitarem sem quaisquer compromissos os valores religiosos e culturais católicos”*.

A partir de 1878-1879, com a eleição do Papa Leão XIII (mais conciliador do que Pio IX) e as necessidades políticas internas de Bismarck (que precisava do apoio católico contra o movimento socialista), a maior parte da legislação foi progressivamente revogada. A proibição específica dos Jesuítas, no entanto, manteve-se formalmente em vigor por mais tempo, só sendo definitivamente revogada em 1917.

Este episódio foi amplamente comentado na imprensa europeia da época, incluindo a portuguesa, tanto em jornais católicos (que o denunciavam como perseguição religiosa) como em publicações mais liberais ou anticlericais (que por vezes viam nele um paralelo com as próprias tensões entre Estado e Igreja em Portugal).

O provável interesse da imprensa portuguesa sobre o Kulturkampf

Portugal, em 1871-1878, vivia sob a Monarquia Constitucional, com uma imprensa já relativamente livre e diversificada, e um campo de tensão próprio entre setores católicos e liberais/anticlericais — o que tornava o conflito alemão um tema de interesse imediato, seja como exemplo a evitar, seja como modelo a invocar, consoante a orientação do periódico.

Os dois ângulos prováveis de leitura

  • Imprensa católica/conservadora — tenderia a apresentar o Kulturkampf como perseguição religiosa, solidarizando-se com o Papa Pio IX e com os jesuítas expulsos, e usando o episódio como advertência contra tendências anticlericais internas.
  • Imprensa liberal/anticlerical — poderia ler o conflito com mais simpatia pelo Estado alemão, ou pelo menos com interesse analítico, no contexto mais amplo das tensões europeias entre poder civil e autoridade eclesiástica (paralelas, em Portugal, aos debates sobre o regalismo, o padroado e a posição da Igreja face ao Estado liberal).
    (em desenvolvimento….)

O Kulturkampf foi a tentativa de Bismarck de subordinar a Igreja Católica ao Estado alemão, mas acabou por reforçar a identidade e a organização política dos católicos, tornando-se um dos mais marcantes conflitos entre poder civil e autoridade religiosa na Europa do século XIX.

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  • * Sebastian Haffner (1940). Germany: Jekyll And Hyde, A Contemporary Account Of Nazi Germany. SECKER AND WARBURG, pp. 210-211.

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VEIGA, Francisca Branco, O que foi o Kulturkampf (1871-1878)? , (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [15 de julho de 2026].

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Quando os azulejos ensinavam: ciência, arte e pedagogia no Portugal do século XVIII

O Dia Nacional do Azulejo celebra-se a 6 de maio de 2026 em Portugal, com o objetivo de proteger e valorizar este património único.

1.Secção de um mapa do pólo Norte2.Traçado geométrico do pentágono3.Traçado geométrico da pirâmide.
FaiançaLisboa, 2.ª metade do séc. XVIIIMuseu Nacional do Azulejo
@franciscabrancoveiga

Estes são azulejos didáticos em faiança, produzidos em Lisboa na segunda metade do século XVIII. Não eram meramente decorativos — serviam mesmo para ensinar.

Representam:

  • uma secção de um mapa do Pólo Norte
  • o traçado geométrico de um pentágono
  • o traçado geométrico de uma pirâmide

Funcionavam como uma espécie de “manual visual” fixo na parede.

A influência dos jesuítas

Os jesuítas tiveram um papel central no ensino até meados do século XVIII. O seu método, baseado no Ratio Studiorum, dava importância a:

  • matemática e geometria
  • astronomia e cartografia
  • aprendizagem visual e demonstrativa

Ou seja, coisas que se mostram, não apenas se dizem — exatamente o que estes azulejos fazem.

Mas há aqui um ponto importante:
Os jesuítas foram expulsos de Portugal em 1759, por ordem do Marquês de Pombal.

Portanto, estes azulejos já são de uma fase em que:

  • ou ainda refletem a herança pedagógica jesuíta,
  • ou fazem parte das reformas pombalinas, que mantiveram um ensino mais científico e prático.

Porque usar azulejos para ensinar?

Na época, fazia todo o sentido:

  • eram resistentes e duravam muito mais que papel
  • ficavam expostos nas paredes das salas
  • permitiam repetir constantemente os conceitos
  • aproveitavam uma tradição portuguesa fortíssima: a azulejaria

E, no fundo, funcionavam como um quadro permanente.

O que isto revela

Estes azulejos mostram bem uma mudança de mentalidade:

  • ensino mais abstrato → ensino visual e científico
  • influência religiosa → abertura ao Iluminismo
  • arte decorativa → ferramenta pedagógica

São um excelente exemplo de como, em Portugal, a arte e a ciência se cruzaram no ensino.

Estes três azulejos são quase “aulas congeladas” na parede.

1. Secção de um mapa do Pólo Norte

Isto não é um mapa “normal” — é uma projeção polar.

Passo a passo:

  1. Marca um ponto central → representa o Pólo Norte.
  2. A partir desse ponto, traça várias linhas direitas a sair do centro → são os meridianos (longitudes).
  3. Desenha círculos concêntricos à volta do centro → são os paralelos (latitudes).
  4. Divide o topo em graus (70°, 80°, 90°, etc.).
  5. Acrescenta massas de terra de forma aproximada (como “Cumberlândia” no azulejo).

Ideia-chave: transformar a Terra (esfera) num plano visto “de cima”.

2. Traçado geométrico de um pentágono regular

Este é um clássico da geometria euclidiana.

Passo a passo (método tradicional):

  1. Desenha um círculo (centro A).
  2. Traça um diâmetro horizontal.
  3. Marca o ponto médio desse diâmetro.
  4. Com o compasso, usa esse ponto médio para criar uma interseção com o círculo (passo chave para obter a proporção correta).
  5. Com essa medida, marca um ponto na circunferência.
  6. Repete essa distância ao longo da circunferência até obter 5 pontos.
  7. Liga os pontos → tens o pentágono regular.

O truque escondido aqui envolve a proporção áurea, mesmo que não seja nomeada.

3. Traçado geométrico de uma pirâmide

Aqui já entramos em algo próximo do desenho técnico / perspectiva.

Passo a passo:

  1. Desenha a base (normalmente um polígono, como um quadrado ou pentágono).
  2. Marca o centro da base.
  3. A partir desse centro, traça uma linha vertical → define a altura da pirâmide.
  4. Marca o ponto do topo (vértice).
  5. Liga o topo a todos os vértices da base.
  6. Desenha linhas auxiliares (como no azulejo) para mostrar:
    • alturas
    • diagonais
    • projeções
  7. Reforça as arestas visíveis e indica as ocultas com traço diferente.

👉 Isto ensinava não só geometria, mas também visualização espacial.

Em conjunto

Estes três azulejos cobrem três áreas fundamentais do ensino da época:

  • Cartografia (mapa do Pólo)
  • Geometria pura (pentágono)
  • Geometria aplicada / desenho (pirâmide)

É quase um pequeno “currículo” numa parede.

Conclusão

Estes azulejos didácticos são testemunhos de um momento em que arte e ciência não estavam separadas, mas sim profundamente interligadas. Representam uma pedagogia que privilegiava o olhar, a repetição e a compreensão visual — princípios que continuam atuais.

Ao mesmo tempo, espelham uma época de transição na sociedade portuguesa: entre a influência jesuíta e as reformas iluministas, entre a tradição e a modernidade. Neles, o conhecimento deixa de ser apenas transmitido oralmente ou por livros e passa a ser inscrito no espaço, tornando-se parte do quotidiano.

Hoje, ao olharmos para estas peças, não vemos apenas objetos antigos. Vemos um modo de ensinar — e de pensar — em que aprender era também ver, observar e construir.

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VEIGA, Francisca Branco, Quando os azulejos ensinavam: ciência, arte e pedagogia no Portugal do século XVIII (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [06 de Maio de 2026].

#Azulejos #AzulejariaPortuguesa #HistóriaDePortugal #SéculoXVIII #Educação #HistóriaDaEducação #Jesuítas #Iluminismo #Geometria #Cartografia #ArteESciência #Património #CulturaPortuguesa #Lisboa #EnsinoVisual #HistóriaDaArte #franciscabrancoveiga #franciscaveiga

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Lisboa Precursora do Projeto Inaciano: O Colégio de Santo Antão-o-Velho

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VEIGA, Francisca Branco (2024),  Lisboa Percursora do Projeto Inaciano: O Colégio de Santo Antão-o-Velho (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [16 de Janeiro de 2024].

Palestra proferida para as Jornadas Europeias do Património 2012.
“A Companhia de Jesus em Lisboa. Os jesuítas e a Santa Casa da Misericórdia:
Desafios comuns na tradição cultural”
(Museu de São Roque 28-09-2012)

Título da comunicação:

Lisboa percursora do Projeto inaciano: Colégio de Santo Antão-o-velho e Noviciado da Cotovia

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José Ferreira Borges e o periódico “O Correio Interceptado” 

O Correio Interceptado, de José Ferreira Borges (1786-1838), impresso em Londres, fazia parte da chamada imprensa da emigração portuguesa em Londres. Ferreira Borges foi uma personagem importante do liberalismo português, economista liberal e pensador político e jurídico, autor do Código comercial português, de 1833, desempenhou um papel de liderança na revolução de 1820 e foi nomeado Secretário do Interior do governo provisório.  Encontrava-se exilado em Inglaterra devido ao avanço que as forças absolutistas tinham tido em Portugal, desde 1823, e que puseram fim, após a Vilafrancada, ao primeiro governo liberal.

José Ferreira Borges [Visual gráfico] / Alves lithografou. Porto, 1840 . – [Lisboa?: s.n., 1840]. In BNP.

A obra, escrita sob a forma de cartas entre 1 de Novembro de 1825 e 24 de Agosto de 1826, num total de 63 cartas sobre diversos assuntos: política em Portugal, Grã-Bretanha, Estados Unidos, América Latina e Brasil, assuntos eclesiásticos, Alexandre I da Rússia, o comércio do vinho, papel moeda e bancário, a estátua equestre de D. José I na Praça do Cavalo Negro de Lisboa, os Açores, a censura, a medicina, etc. 

A polícia de D. Miguel teve um cuidado especial para com os exilados e as suas publicações, principalmente com as folhas de Londres. Referia Frei Fortunato de São Boaventura no O Defensor dos Jesuítas, em 1829: “…protestão, e jurão mover toda a qualidade de pedras”.

No centro de difusão da propaganda política liberal portuguesa em Londres, os escritos destinados a Portugal seguiam trâmites complicados.

Eram enviados, em sacos selados, para a embaixada brasileira, de Londres, daqui os remetiam como «correspondência oficial brasileira» ao secretário dos Negócios Estrangeiros inglês, o qual, por seu turno, os mandava como «bagagem diplomática», ou no navio correio ou num vaso de guerra inglês, ao cônsul de Inglaterra em Lisboa, que os confiava ao encarregado de negócios brasileiro, que os distribuía pelo país, não raro por intermédio de senhoras titulares.

O padre Benevenuto, que vivia em Londres, enviava instruções do «conselho de regência» a senhoras da nobreza, entre elas, a marquesa de Alorna, D. Leonor de Almeida Portugal (1750-1839), a baronesa do Alvito, D. Henriqueta Policarpa Lobo da Silveira Quaresma (1796 – 1858), a marquesa de Nisa, D. Eugénia Maria Josefa Xavier Teles de Castro da Gama (1776-1839), e a condessa de Ficalho, Eugénia Maurícia Tomásia de Almeida Portugal (1784-1859)[1], que por sua vez se dedicavam a fazer propaganda da revolução. Os revolucionários de Lisboa reuniam-se na casa do cônsul do Brasil, sendo este, mais tarde, expulso do país e a condessa de Ficalho internada no convento de Carnide[2]. Contava o Marquês de Fronteira que,

“As minhas parentas Marquezas de Angeja e de Castello Melhor, as Condessas de Ficalho e Ribeira Grande, minha cunhada D. Anna da Camara, e outras muitas, estavam encarceradas nos conventos mais apertados da capital e incomunicáveis, e os filhos d’algumas d’estas senhoras, que eram menores, estavam debaixo da tutela de indivíduos inteiramente estranhos á família”[3].

Assim se explica as razões da escolha de um periódico com um formato mais pequeno, nomeadamente o décimo segundo tamanho (a folha media 8 cm de largura por 13 cm de altura), para que não fosse detetado nas cartas em que era colocado e deste modo podesse entrar mais facilmente em Portugal.

Em Plymouth, onde até 1829 se encontrava a máquina geradora de novas formas de resistência ativa, Ferreira Borges editou o O Correio Interceptado com 63 cartas, integrando a ressonância da epifania dos liberais emigrados. É nestas circunstâncias que publica a carta intercetada nº 57, onde difama os jesuítas e alerta a sociedade portuguesa para uma possível entrada destes em território nacional. Na carta escrevia o seguinte:

“Cinco Jesuitas Francezes acabão, segundo me disseram, de embarcar-se para Lisboa com o nome de Padres Allemaens.

[…] A Lei que ordenou o seu extirminio está em vigor. – Uma Regencia não tem poder de revoga-la […]

Eu fico à espreita da realização deste attentado nacional; e a realizar- se protesto-lhe a mais solemne accusação contra o Ministro, que em minhas forças caiba”[4] .

Plymouth: Câmara Municipal e Igreja de Santo André.
Gravura do século XIX.

[1] PORTUGAL, Eugénia Maurícia Tomásia Almeida (1784-1859). [Consultado 2 novembro de 2016]. Disponível na internet em:  < http://www.inventarq.fcsh.unl.pt/index.php/almeida-eugenia-mauricia-tomasia-1784-1859&gt;

[2] MENEZES, Luís Miguel P. G. Cardoso de – “Os Patriotas Ficalhos e a Defesa do Liberalismo Constitucional”. In Revista Militar, n.º 2535, abril de 2013, pp. 343 – 364.

[3] FRONTEIRA, 7º Marquês de – Memorias do Marquês de Fronteira e de Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861, Parte 4ª: 1824 a 1833. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1928, p. 300.

[4] Carta de Le Fouet para Snr. Ignacio de Loyola, em Lisboa. Havre de Grace, 7 de julho de 1826. In O Correio Interceptado. Londres: M. Calero, 1825, pp. 281-283.

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Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco (2023),  José Ferreira Borges e o periódico “O Correio Interceptado”  (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [30 de Outubro de 2023].

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VEIGA, Francisca Branco, Companhia de Jesus. O Breve Regresso no Reinado de D. Miguel. Ed. Autor, 2023, 437 p. (Livro disponível na Amazon.es)

#companhiadejesusobreveregressonoreinadodedmiguel #franciscabrancoveiga #historia4all #franciscaveiga #joseferreiraborges #CorreioInterceptado #CompanhiaDeJesus #FortunatodeSaoBoaventura #ODefensordosJesuítas

31 de julho: Dia de Santo Inácio de Loyola

Fundador da Companhia de Jesus

Em 2023 assinalaram-se 467 anos da sua morte.

«É necessário tornar-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre-arbítrio (…), desejando e escolhendo somente o que mais nos conduz ao fim para que fomos criados»
Exercícios Espirituais, n.º 23

Morte de Inácio de Loyola, 31 de Julho de 1556. Baseada na biografia do Padre Pedro Ribadeneyra, Vita beati patris Ignatii Loyolae religionis Societatis Iesu fundatoris ad viuum expressa ex ea quam.., de 1609, autoria de Peter Paul Rubens.

No dia 31 de julho de 1556, Santo Inácio de Loyola faleceu, inesperadamente, em Roma, aos 65 anos de idade. Morreu numa modesta sala da Casa Professa da Companhia de Jesus, junto da antiga igreja de Santa Maria della Strada, onde viveu os seus últimos anos.

Em 1587, os seus restos mortais foram trasladados para a igreja do Gesù, a igreja-mãe da Companhia de Jesus. Cinquenta anos mais tarde, em 1637, foram definitivamente depositados numa magnífica urna de bronze, da autoria de Alessandro Algardi, colocada sob o altar da Capela de Santo Inácio, uma das mais notáveis obras do jesuíta Andrea Pozzo.

Logo após a sua morte, o seu secretário e companheiro, o Padre Juan Alfonso de Polanco, escrevia, numa carta datada de 6 de agosto de 1556, que por toda a parte se ouvia a mesma expressão:

«Morreu o Santo.»

Era o reconhecimento espontâneo da santidade daquele que transformara profundamente a vida religiosa da Igreja.

A obra de Inácio estava consolidada. A Companhia de Jesus encontrava-se oficialmente aprovada, os Exercícios Espirituais haviam sido reconhecidos como um dos maiores textos da espiritualidade cristã e as Constituições da Ordem encontravam-se praticamente concluídas. A nova família religiosa estava implantada em diversos países e lançava as bases de uma das mais vastas redes missionárias, educativas e culturais da época moderna.

Quando a Companhia foi oficialmente aprovada, em 1540, contava apenas dez companheiros. À data da morte do fundador, dezasseis anos depois, reunia já cerca de mil jesuítas, distribuídos por 13 províncias, mais de uma centena de casas e cerca de 35 colégios em funcionamento, aos quais se juntavam vários outros em preparação. O extraordinário crescimento da Ordem testemunha a força do ideal inaciano e a rápida difusão da sua missão apostólica.

Capela de Santo Inácio, no braço esquerdo do transepto. Igreja de Gesù, Roma.

Planta da Igreja de Gesù, Roma, Itália.
1.Capela de Santo Inácio de Loyola, obra do jesuíta Andrea Pozzo. Contém a urna de Santo Inácio. Esta é em bronze e da assinatura de Alessandro Algardi.
2. Acesso ao quarto de Santo Inácio

Ainda hoje é possível visitar o quarto de Santo Inácio, preservado na Casa Professa do Gesù, onde viveu os últimos doze anos da sua vida. Foi nesse espaço que redigiu grande parte das Constituições da Companhia de Jesus e manteve uma intensa correspondência com os jesuítas espalhados pela Europa, Ásia, África e Novo Mundo, acompanhando de perto o desenvolvimento da Ordem.

O lema que orientou toda a sua vida permanece como síntese da espiritualidade inaciana:

Ad Maiorem Dei Gloriam
«Tudo para a maior glória de Deus.»

A oração de Santo Inácio

Entre os textos tradicionalmente associados à espiritualidade inaciana destaca-se a célebre oração Alma de Cristo, rezada ainda hoje por milhões de cristãos em todo o mundo:

Alma de Cristo, santificai-me.
Corpo de Cristo, salvai-me.
Sangue de Cristo, inebriai-me.
Água do lado de Cristo, lavai-me.
Paixão de Cristo, confortai-me.
Ó bom Jesus, ouvi-me.
Dentro das vossas chagas, escondei-me.
Não permitais que eu me afaste de Vós.
Do espírito maligno, defendei-me.
Na hora da minha morte, chamai-me
e mandai-me ir para Vós,
para que, com os vossos santos,
Vos louve por todos os séculos dos séculos.
Amém.

Peter Paul Rubens – Saint Ignatius of Loyola
1620-22. 223×138. Norton Simon Pasadena Museum

Legado


«Em tudo amar e servir.» (Exercícios Espirituais, n.º 233)

Esta breve expressão constitui a síntese da espiritualidade de Santo Inácio de Loyola e do ideal que presidiu à fundação da Companhia de Jesus. Para o fundador dos jesuítas, a vida cristã não se esgota nos momentos de oração nem se circunscreve ao espaço da igreja; realiza-se no quotidiano, através do serviço generoso, da disponibilidade para a missão e da procura constante da vontade de Deus. Amar significa reconhecer a presença de Deus em todas as coisas e corresponder ao seu amor; servir é colocar a inteligência, os talentos e a liberdade ao serviço do próximo, da Igreja e do bem comum.

Foi este espírito que moldou a identidade da Companhia de Jesus e impulsionou a sua extraordinária expansão missionária. Desde os primeiros companheiros de Inácio, muitos dos quais partiram de Lisboa rumo aos quatro cantos do mundo, os jesuítas dedicaram-se à evangelização, ao ensino, à investigação científica, ao diálogo entre a fé e a cultura e à promoção da justiça, deixando uma marca profunda na história da Igreja e da humanidade.

Como refere António Lopes, «Lisboa foi a maior rampa de lançamento que teve Inácio de Loyola para realizar o seu sonho de levar a todos os povos da Terra a Boa Nova de Jesus de Nazaré» (LOPES, Roteiro Histórico dos Jesuítas em Lisboa, p. 7). A capital portuguesa tornou-se, assim, um dos principais centros da expansão missionária da Companhia de Jesus durante os séculos XVI e XVII.

Quase cinco séculos após a sua morte, o legado de Santo Inácio permanece vivo. A sua espiritualidade continua a inspirar milhões de pessoas em todo o mundo, convidando cada geração a discernir, em cada circunstância da vida, a melhor forma de «amar e servir», vivendo para a maior glória de Deus (Ad Maiorem Dei Gloriam).

Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco. 31 de julho: Dia de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [31 de julho de 2023].

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Veja-se:
https://www.amazon.com/Noviciado-Cotovia-1619-1759-Portuguesa-Portuguese/dp/B0F26LJL35

D. Miguel e os jesuítas: fidelidade mútua às antigas tradições 1829-1834

D. Miguel and the Jesuits: mutual fidelity to ancient traditions 1829-1834

RESUMO:

Este artigo tem como objetivo procurar responder a questões relativas à segunda entrada da Companhia de Jesus em Portugal, concretamente o contexto externo e interno que lhe deu origem, os propósitos que serviu e as razões que determinaram a segunda expulsão.

A autora baseou a sua análise em fontes históricas documentais inéditas e secundárias, destacando-se entre as fontes primárias um repositório de documentos do espólio documental do Arquivo da Província Portuguesa da Companhia de Jesus.

Foi seguida uma metodologia cronológico-evolutiva na reconstrução do período histórico em análise, seguindo os estudos de historiadores de relevo para a história política e religiosa miguelista.

Como representante do tradicionalismo e conservadorismo, a Companhia de Jesus constitui-se como um instrumento fundamental na afirmação dos ideais miguelistas e reforço da sua causa, mas jesuítas e miguelistas tinham o destino da sua presença traçado perante os ideais do liberalismo.

Palavras-Chave: miguelismo / jesuítas / liberalismo

ABSTRACT:

This article aims to provide answers to some questions related to the second entry of the Society of Jesus in Portugal, specifically the external and internal context that gave rise to it, the purposes it served, and the reasons that determined the second expulsion.

The author based her analysis on unpublished and secondary historical documentary sources, highlighting among the primary sources a repository of documents from the documentary collection of the Archive of the Portuguese Province of Society of Jesus.

 A chronological-evolutionary methodology was followed in the reconstruction of the historical period under analysis, following the studies of relevant historians regarding the miguelist political and religious history.

As a representative of traditionalism and conservatism, the Society of Jesus constitutes itself as a fundamental instrument in the affirmation of the miguelist ideals and reinforcement of its cause, but Jesuits and miguelists had the destiny of their presence traced before the ideals of liberalism.

Keywords: miguelism / jesuits / liberalism

INTRODUÇÃO

Em 1759 os jesuítas foram expulsos de todos os territórios portugueses e pelo breve papal Dominus ac Redemptor (21 de julho de 1773), o Papa Clemente XIV suprimia a Companhia de Jesus no mundo. 

A sua expulsão de Portugal fazia parte de um projeto político iluminista e centralizador para o qual a Companhia de Jesus era considerada um obstáculo. Na literatura sobre a temática dos Jesuítas portugueses exilados pelo marquês de Pombal prevalece o estudo recente de António Trigueiros, afirmando este que, “No horizonte da política regalista de Carvalho e Melo estaria a total subordinação da Igreja ao poder do Estado e a simpatia pela criação de uma Igreja nacional” (TRIGUEIROS 2016:13).

A literatura sobre o pensamento europeu moderno faz referência a acontecimentos como a Revolução Francesa (1789) ou a dissolução do Sacro Império Romano-Germânico (1806), e a consequente ascensão do nacionalismo, como indicadores relevantes de que estava a nascer uma nova «orgânica» política e social na Europa (BAUMER 1977: 13). As explicações metafísicas do mundo já não se coadunavam com o mundo da experiência e com a consciência crescente do condicionalismo histórico do respetivo momento (BAUMER 1977; HOBSBAWM 001; RÉMOND 1994).

Contudo, após as Guerras Napoleónicas, ea consequente derrota de Napoleão na Batalha de Waterloo, as monarquias conservadoras depostas/exiladas voltam a subir ao trono, pretendendo-se o restabelecimento do princípio da legitimidade monárquica. O programa de uma Santa Aliança como mecanismo regulador terá então como objetivo a contenção de novos focos revolucionários.

Neste contexto, em 1814 «O mundo católico exige com unanimidade o restabelecimento da Companhia de Jesus». Assim sustentava o Papa Pio VII, por meio da Bula Pontifícia Sollicitudo omnium Ecclesiarum, lida no dia 7 de agosto de 1814 na Igreja de Gesù, restabelecendo a Companhia no mundo. Não obstante, para muitos historiadores, como por exemplo Eric Hobsbawm, «a tendência geral, entre 1789 e 1848, foi a de uma acentuada secularização» da sociedade (HOBSBAWM 2001: 225).

Assim, em Portugal, na primeira metade do século XIX, a sociedade foi atravessada por uma série de acontecimentos – invasões francesas, domínio inglês, a revolução de 1820, a guerra civil – que despertaram, nas palavras de M. de Lourdes Lima dos Santos, uma nova intelligentsia cuja ideologia contribuiu para criar uma crise orgânica com a intelligentsia tradicional, cimentando novos discursos (SANTOS 1979: 69-115). Do lado dos governantes portugueses continuava a pesar, como refere Acácio Casimiro, uma «atmosfera de ódios e calúnias adensada por Pombal e não dissipada por seus sucessores» (CASIMIRO 1940: 475). Após um estudo exploratório do Diario das Cortes Geraes e Extraordinarias da Nação Portugueza concluiu-se que maioria dos parlamentares desde a revolução de 1820 reassumiu os princípios regalistas estabelecidos no século XVIII por especialistas como António Pereira de Figueiredo, Seabra da Silva ou Ribeiro dos Santos, que defendiam a supremacia do poder civil sobre o eclesiástico, legitimando, deste modo, a política pombalina de dominação do Estado sobre a Igreja. Deste estudo concluiu-se, inclusive, que a propaganda negativa levada a cabo contra a Ordem dos Jesuítas continuava a ter um espaço de riquíssimo debate onde era impossível vingarem as ideias dos políticos mais conservadores, e muito menos a do regresso da Companhia de Jesus.

Neste contexto, os jesuítas eram acusados e combatidos pelos movimentos antijesuíticos, pela sua colagem aos modelos políticos e sociais do passado e pela sua luta contra a modernidade das ideias. D. João VI alegava que a memória histórica da Companhia de Jesus encontrava-se ainda muito manchada. Teófilo Braga refere-se a este assunto alegando que: “Quando D. João VI estava ainda no Brasil tentou-se trazel-o á coligação monarchica que começava pelo restabelecimento dos Jesuítas; os políticos que o rodeavam não comprehenderam o jogo…” (BRAGA 1902:83). Embora ele e a rainha-mãe D. Maria I não fossem desafetos da Companhia, encontravam-se rodeados por um conjunto de pessoas que não sendo liberais mantinham os ideais pró-pombalinos, como Fernando José de Portugal e Castro, Marquês de Aguiar, António de Araújo, conde da Barca, e o conde de Linhares Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, que pretendiam manter em vigor o alvará de 3 de setembro de 1759. Em 1832, no periódico A Contra-Mina, Fortunato de S. Boaventura referia as calúnias a que estavam sujeitos os jesuítas no reinado de D. Maria I:

Nem a saudosissima, e piedosissima Rainha D. Maria I, que tomava a peito o restabelecimento dos Jesuitas em Portugal, porque tomava a peito a verdadeira, felicidade dos seus Povos, conseguio trazer novamente a este Reino, e suas Conquistas os Filhos de Sancto Ignacio! Vio-se necessitada a conter, ou reprimir os seus votos, e a deixa-los como abafados, e sepultados em seu Regio Coração …. Tanta era a força das prevenções, ou das calumnias, que ardilosamente se havião espalhado neste Reino contra os Jesuitas! (A CONTRA MINA 1832)

A rainha pretendia readmitir em Portugal os jesuítas expulsos, mas os seus conselheiros fizeram-lhe ver que tinha sido a própria Cúria Romana a extinguir essa Ordem, e que esse pedido tinha vindo de várias potências europeias, para além de que a readmissão dos jesuítas em Portugal seria um motivo de censura por parte do governo de Espanha e de França (DICIONÁRIO HISTÓRICO 1908: 817-819).

Tendo em conta a atuação política, social, educacional e religiosa da Companhia de Jesus no período até à sua extinção em 1759, pretenderam os absolutistas/miguelistas, para revigorar a Igreja, o seu restabelecimento em Portugal. O seu renascimento torna-se inteligível no quadro histórico-político e doutrinário da contrarrevolução europeia, após o Congresso de Viena. Este movimento religioso restaurador assegurava o suporte do seu sistema político na luta contra a avalanche revolucionária iniciada na França dos iluminados e pedreiros-livres.

Depois de fazer um levantamento bibliográfico do tema sentimos ser pertinente efetuar uma nova recolha de informação, mais atualizada e com uma nova perspetiva de análise que o tema merece, não realizada até hoje, tendo como enfoque principal a visão interna da Companhia de Jesus.

Esta visão interna da Companhia sobre o contexto político e social no período em análise permitiria validar as teses sobre o anti jesuitismo dominante na sociedade portuguesa, bem como sobre a manutenção dos seus ideais fortemente associados ao conservadorismo e ao absolutismo.

Podendo delimitar o estudo do objeto de análise do presente artigo, no contexto europeu, no período entre o Congresso de Viena, em 1814, e os movimentos revolucionários da década de 1830, o caso em concreto do corpus deste artigo foca-se no período histórico entre 1829 e 1834, ascensão e queda de um regime tradicionalista.

Como orientação na organização da nossa análise, optámos por uma metodologia cronológico-evolutiva, baseada numa abordagem interpretativa e demonstrativa do processo histórico antecedente e da causalidade desse processo na construção do período histórico-cronológico em análise.

Relativamente à escolha das fontes documentais a utilizar, seguimos uma via múltipla, a leitura e análise relativa à história da Europa e da Igreja Católica na época Moderna e Contemporânea, e o espólio documental que se encontra no arquivo da Província Portuguesa da Companhia de Jesus, instrumento fundamental para o objetivo do nosso trabalho, nunca antes explorado.

Assim sendo, para Portugal beneficiamos de um ambiente fecundo, onde historiadores de relevo aprofundaram a história política e religiosa. De Luís Reis Torgal e Isabel Nobre Vargues lemos um estudo sobre a revolução e contrarrevolução na sua passagem do vintismo até ao absolutismo (TORGAL; VARGUES 1993: 65-87), e de Luís Reis Torgal o estudo sobre o Tradicionalismo Absolutista e Contrarrevolucionário e o Movimento Católico (TORGAL 1993: 227-239). De Maria Alexandre Lousada procurámos descobrir o discurso político do miguelismo (LOUSADA 1987), tal como foi importante ler as diversas publicações de Armando Malheiro da Silva, historiador do miguelismo (SILVA 1993). Com Vítor Neto estudámos a relação entre o Estado e a Igreja neste contexto de mudança (NETO 1993: 265-283). D. Manuel Clemente publicou um conjunto de artigos sobre a Igreja e a sociedade portuguesa que se tornaram relevantes para a temática em questão (CLEMENTE 2012).  António Matos Ferreira foi um investigador incontornável para o estudo da desarticulação do Antigo Regime e da Guerra Civil (FERREIRA 2002: 21-35). Na defesa do pensamento contrarrevolucionário em Portugal no século XIX, Fernando Campos, que organizou o inventário do pensamento contrarrevolucionário português, relembra-nos os autores que “…à refutação dos sofismos revolucionários dedicaram o melhor esforço da sua inteligência” (CAMPOS 1931-32).

O estudo sobre os jesuítas, desde o seu nascimento como Ordem religiosa até à atualidade, e em particular o fenómeno anti jesuíta estudado por José Eduardo Franco foi uma contribuição importante para a História e Antropologia religiosas da Europa Moderna e Contemporânea e em particular da História da Companhia de Jesus.

Para suportar todo o processo de investigação, tivemos a oportunidade única de trazer à luz do dia um espólio documental que se encontra no arquivo da Província Portuguesa da Companhia de Jesus em Portugal, e que consideramos ter sido um recurso de enorme relevo para a nossa pesquisa, no contexto da sua primeira utilização para pesquisa histórica.

Adicionalmente, o estudo de documentos inéditos como uma pequena obra elaborada por ex missionários jesuítas em 1834 que se encontra na biblioteca da revista Brotéria, desperta o interesse para este período de seis anos, período de profundas transformações no campo político, social e das mentalidades. 

Também na coleção privada da família Conefrey encontra-se um copiador, no qual se destaca um Requerimento escrito pelos habitantes de Coimbra (de ambas as fações políticas) ao governo do regente D. Pedro, dando conhecimento do não envolvimento dos missionários Jesuítas na política do país.

Destaca-se, inclusive, nos Reservados da Biblioteca Nacional de Portugal, um espólio documental relativo à correspondência trocada entre António Ribeiro Saraiva e diversas personalidades, como por exemplo, a Princesa da Beira, D. Maria Teresa, o Padre Provincial francês Godinot e o Duque de Cadaval, relativas ao assunto dos jesuítas em Portugal, revelando estes o interesse e preocupação das principais figuras do reino para com estes “homens de Deus”. Espólio composto por centenas de caixas e já estudado em parte por Maria Teresa Mónica.

Como resultado deste estudo, acreditamos ter cumprido o objetivo de evidenciar o alinhamento de D. Miguel e dos jesuítas no que respeita à fidelidade mútua às antigas tradições, e contribuir para a identificação de novas áreas de pesquisa no âmbito da temática em apreço.

(…)


Referências Bibliográficas:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco, Companhia de Jesus, O Breve Regresso no Reinado de D. Miguel. Ed. Autor, 2023, 437 p.

Artigo completo em:

VEIGA, Francisca Branco, “D. Miguel e os jesuítas: fidelidade mútua às antigas tradições 1829-1834” . In Revista de História da Sociedade e da Cultura, vol. 21 (2021), pp. 217-240.

https://impactum-journals.uc.pt/rhsc/issue/view/539

A formação de um noviço da Companhia de Jesus no Noviciado da Cotovia (1616-1759)

[Pregação (Martins: Via Spiritus 11, 2004)].

Santo Inácio de Loyola reuniu em dois documentos toda a legislação jesuítica pela qual a Ordem se manteve una (corpo e mente): as Constituições e os Exercícios Espirituais, completando a primeira os segundos. A primeira cuida da vida em grupo, isto é, organiza a Companhia de Jesus e a vida dos seus membros, os segundos cuidam da parte espiritual e individual dos indivíduos.

Para o noviço da Companhia de Jesus a oração vocal e mental, a correcção dos hábitos, a assimilação dos valores da vida espiritual, assistir às instruções sobre a doutrina cristã e sobre a vida religiosa específica do instituto, fazem parte da sua formação de base.

O noviciado vai estruturar-se, basicamente, à volta de seis experiências/provações que se consideram principais (Const. 64-70) e que constituem “tempos fortes” de aprofundamento e confirmação da vocação:

primeira, um mês de Exercícios Espirituais que dão ao jesuíta a base e estrutura que orientará a sua vida espiritual e vão ser uma verdadeira escola de oração, de identificação com Cristo, de busca e acolhimento da vontade de Deus;

a segunda, será servir em hospitais durante outro mês, onde vão ser chamados a ajudar nos trabalhos, a servir e a conviver com os doentes – uma oportunidade para ter contacto com a realidade do sofrimento, bem como desenvolver a capacidade de abertura, de relação e de solidariedade, vão baixar-se e humilhar-se;

a terceira consiste num mês de peregrinação, sem dinheiro e mendigando, a fim de se habituarem a comer e a dormir mal. É um tempo para descobrir o valor do essencial na vida e deixar amadurecer a confiança na providência divina. O colégio de Coimbra ainda mantém o registo dos Avisos para os peregrinos, que são conselhos de vida espiritual destinados aos peregrinos;

as outras três experiências são, exercer ofícios domésticos para se humilhar, ensinar a doutrina cristã e confessar e predicar, consoante os tempos, os lugares ou a sua própria capacidade.

Trata-se, por tanto, de provar com estas experiências se a atitude e disposição do noviço está de acordo com a vida em missão na Companhia de Jesus além de criar no noviço atitudes correspondentes a um apóstolo evangélico.

No fim do noviciado, passadas todas as provações vão entregar-se, de acordo com as suas aptidões e talentos, às várias ocupações que a Companhia de Jesus lhes proporciona: estudo e lides literárias; serviço doméstico; Ministérios sacerdotais[1].

[Ministérios da Companhia de Jesus (Martins: Via Spiritus 11, 2004)].

O Padre António Franco no seu livro Imagem da Virtude em o Noviciado da Companhia de Jesu na Corte de Lisboa, refere o fim dos noviços da Cotovia:

«…o Padre lhe reprezentou esta caza, declarou o fim, pêra que se fundava, o qual era criaremse nella sugeytos, que fossem estudar aos collegios, e depois se repartissem pellas missoens da India, China, Japaõ, e outras da gentilidade, pêra pregar o Evangelho; donde resultava a Deos grande gloria, e augmento à fe Catholica»[2].

Faz referência às missões como «…o seu dia de allivio…»[3].


[1] Rodrigues, Francisco, História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal, Porto : Liv. Apostolado da Imprensa, 1931- ,  T.I, v. I, p. 506.

[2] FRANCO, António, Imagem da Virtude em o Noviciado da Companhia de Jesu na Corte de Lisboa, Coimbra : no Real Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1717,  p.14.

A.N.T.T., Colecção do Colégio dos Nobres, Liv. 187, CAPº 3

[3] FRANCO, António, Ibidem, p.8.

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários Portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China. Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados Mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos, entre eles: Padre Gabriel de Magalhães, Padre Manuel Dias Júnior, Padre Tomás Pereira, Padre João Francisco Cardoso, Padre André Pereira, Padre Domingos Pinheiro, Padre Félix da Rocha, Padre José de Espinha, Padre André Rodrigues. In VEIGA, Francisca M.C. Branco, Astrónomos Portugueses na China, Mestrado em Património Cultural de Matriz Cristã pela Universidade Católica Portuguesa, Cadeira de Museologia, 2006.

Veja-se, inclusive, VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.

No dia 3 de dezembro de 1552, morre São Francisco Xavier (1506-1552)

Ficou conhecido como o “Apóstolo do Oriente”, sendo uma das figuras mais marcantes da expansão missionária do cristianismo no século XVI e um dos primeiros companheiros de Santo Inácio de Loyola na fundação da Companhia de Jesus.

Os milagres de S. Francisco Xavier
|Peter Paul Rubens,1617-18
Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria

A convite de D. João III, a Companhia de Jesus estabeleceu-se em Portugal em 1540, pouco depois da sua aprovação pontifícia. A 27 de setembro de 1540, o Papa Paulo III aprovou oficialmente a nova ordem religiosa através da bula Regimini Militantis Ecclesiae, abrindo caminho à rápida expansão dos jesuítas e à criação de uma vasta rede de colégios e casas de formação.

S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III
André Reinoso, cerca de 1619
Igreja de S. Roque, Lisboa, Portugal (3)


Durante a sua permanência em Portugal, antes de partir para o Oriente, Francisco Xavier escreveu a Santo Inácio de Loyola e a João Coduri, dando conta do entusiasmo de D. João III pelo projeto educativo da Companhia:

«D’acá os hago saber como el Rey, paresciéndole bien nuestro modo de proceder, así por la experiencia que tiene del fruto espiritual que se hace, como esperando mayor cuantos más fueren, está deliberado de hacer un colegio y una casa de los nuestros, es a saber, de la Compañía de Jesús…»

Acrescentava ainda:

«…Este verano en la Universidad de Coimbra edificará el colegio, y la casa pienso en la ciudad de Évora.» (1)

Estas palavras testemunham o decisivo apoio régio à implantação da Companhia de Jesus em Portugal. Em poucos anos seriam fundados importantes estabelecimentos em Lisboa, Coimbra, Évora e noutras localidades do reino, constituindo uma rede educativa que marcaria profundamente a cultura portuguesa.


Já missionário em Goa, Francisco Xavier insistia na necessidade de preparar “soldados de Deus”. Mais do que uma formação exclusivamente erudita, defendia homens profundamente exercitados na vida espiritual e apostólica (2). Noviciados, colégios e universidades integravam um mesmo projeto educativo, onde a sólida preparação intelectual, a disciplina espiritual e a dedicação permanente ao serviço das almas constituíam os pilares da formação jesuíta.

S. Francisco Xavier Ressuscitando um Chefe de Casta no Ceilão
André Reinoso, cerca de 1619
Igreja de S. Roque (Sacristia)

Na madrugada de 3 de dezembro de 1552, a mais de dez mil quilómetros de Lisboa, numa humilde cabana de palha na ilha de Sancião, junto à costa da China, Francisco Xavier faleceu sem conseguir concretizar o grande objetivo da sua vida missionária: entrar no Império Chinês.

Consumido pela febre e pelo isolamento, entregou a alma pronunciando as palavras do Salmo que tantas vezes o haviam sustentado:

In te, Domine, speravi, non confundar in aeternum.
Em Vós, Senhor, esperei; jamais serei confundido.

A morte interrompeu a missão, mas deu início ao nascimento de uma das figuras mais veneradas da história do cristianismo. O missionário que percorreu milhares de quilómetros apenas com um crucifixo, uma fé inabalável e uma extraordinária coragem tornou-se símbolo da evangelização do Oriente. Não conquistou territórios com armas nem exércitos; conquistou-os pela palavra, pelo exemplo e pela dedicação aos mais pobres.

Após a sua morte, o corpo foi trasladado para Malaca e, posteriormente, para Goa, onde permanece até aos dias de hoje, sendo objeto de profunda veneração.

Foi beatificado pelo Papa Paulo V, a 25 de outubro de 1619, e canonizado pelo Papa Gregório XV, a 12 de março de 1622.

Túmulo de São Francisco Xavier na Basílica do Bom Jesus de Goa.

A Capela de São Francisco Xavier, concluída em 1659, constitui um dos mais notáveis conjuntos artísticos do Oriente português. Combina mármore, cobre e madeira ricamente trabalhados em vários níveis decorativos. Sobre o altar encontra-se a célebre urna de prata, executada por artistas goeses segundo o desenho do escultor florentino Giovanni Battista Foggini, cerca de 1697, e oferecida pelo Grão-Duque Cosme III de Médici. Nesta magnífica obra repousa o corpo do santo.

Até aos nossos dias, São Francisco Xavier continua a atrair milhares de peregrinos. A urna é exposta periodicamente para veneração pública, perpetuando uma tradição iniciada logo após a transladação do corpo para Goa e testemunhando a permanência da sua devoção ao longo de quase cinco séculos.

A Capela de São Francisco Xavier constitui, assim, uma extraordinária síntese entre a arte florentina, a mestria artesanal goesa e a herança do império português no Oriente, preservando a memória daquele que São João Paulo II designou como o “Príncipe dos Missionários”.

Pontos Principais da Vida de São Francisco Xavier

  • Um dos primeiros companheiros de Santo Inácio de Loyola e cofundador da Companhia de Jesus.
  • Estabeleceu-se em Portugal antes de partir para as missões do Oriente.
  • Chegou a Goa em 1542, iniciando uma intensa atividade missionária.
  • Evangelizou a Índia, o Ceilão, as Molucas, Malaca e o Japão.
  • Compreendeu que a evangelização do Oriente passava pela abertura da China ao cristianismo.
  • Em julho de 1552 partiu rumo à ilha de Sancião, aguardando oportunidade para entrar clandestinamente na China.
  • Celebrou diariamente a Eucaristia, ensinou a doutrina cristã, administrou os sacramentos, assistiu doentes e acompanhou os mais pobres.
  • Morreu em Sancião, a 3 de dezembro de 1552, com 46 anos de idade.
  • O seu corpo foi trasladado para Goa, onde permanece incorrupto em veneração na Basílica do Bom Jesus.
  • Foi canonizado em 1622 e é venerado como Padroeiro das Missões e um dos maiores missionários da história da Igreja.

São Francisco de Xavier no Padrão dos Descobrimentos

Viagens de S.F.X. na Ásia

Considerações finais

A morte de São Francisco Xavier encerrou uma vida extraordinariamente breve, mas de uma fecundidade espiritual incomparável. Morreu sozinho, pobre e fisicamente exausto, sem alcançar o último grande objetivo da sua missão: entrar na China. Contudo, aquilo que aos olhos humanos poderia parecer um fracasso transformou-se num dos mais poderosos símbolos da história missionária da Igreja.

A sua existência demonstra que a grandeza de uma missão não se mede pelos êxitos imediatos, mas pela fidelidade ao ideal que a inspira. Francisco Xavier não conquistou impérios nem fundou reinos; conquistou consciências, abriu caminhos ao diálogo entre culturas e lançou as bases de uma presença cristã duradoura em vastas regiões da Ásia. A sua morte, na humilde ilha de Sancião, tornou-se o culminar de uma vida inteiramente oferecida ao serviço de Deus e dos outros.

Cinco séculos depois, o seu túmulo continua a ser lugar de peregrinação, memória e esperança. O corpo que repousa na Basílica do Bom Jesus, em Goa, permanece como testemunho de uma entrega total, enquanto a sua obra missionária continua a inspirar sucessivas gerações. Mais do que recordar o missionário que levou o Evangelho ao Oriente, recordar São Francisco Xavier é reconhecer o legado universal de um homem cuja fé ultrapassou fronteiras geográficas, culturais e espirituais, fazendo dele, para a História e para a Igreja, o eterno Apóstolo do Oriente.

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(1) Monumenta Historica Societatis Iesu, Cartas de San Ignacio, pp. 443-447;

LOPES, António, D. Pedro Mascarenhas: Introdutor da Companhia de Jesus em Portugal, 2003, p.168.

(2) GOMES, Manuel Pereira, Santo Inácio e a fundação de Colégios, p. 41.

(3) S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III antes da viagem para a Índia. O rei está ao centro, tomando as mãos do santo e, ao lado, encontra-se o Padre Simão Rodrigues, introdutor da Companhia de Jesus em Portugal. A receção decorre no Paço da Ribeira, vendo-se o Tejo ao fundo, e a corte é composta por membros do clero e da nobreza, incluindo membros das três ordens militares, identificadas pelas respetivas cruzes: Cristo, Santiago e Avis.

Veja-se, inclusive, OSSWALD, Maria Cristina, S. Francisco Xavier no Oriente – aspectos de devoção e iconografia. In https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4322.pdf

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Como referir este artigo:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco. No dia 3 de dezembro de 1552, morre São Francisco Xavier (1506-1552) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [03 de Dezembro de 2021].

Veja-se:

_ VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.
_ VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia 1619-1759. Ed. Autor, 2025.

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Jesuítas Matemáticos Portugueses no Império da China (século XVI-XVIII)

Post comemorativo das 50 publicações do blogue

Nos séculos XV e XVI desenvolveram-se em Portugal os meios técnicos necessários que possibilitaram as grandes navegações, as quais, por sua vez, vieram a permitir progressos científicos notáveis nos mais variados domínios, com destaque para a Náutica, a Cartografia, a Construção Naval, a Medicina e a Botânica.

As viagens dos Descobrimentos obrigaram os portugueses a considerar o regime dos ventos e das correntes no Atlântico e a desenvolver a náutica astronómica, isto é, a capacidade de conhecer a posição aproximada dos navios em alto mar.

Para esse feito utilizaram-se instrumentos de observação astronómica como o quadrante e o astrolábio náuticos ou ainda a balestilha, que permitiam determinar a altura de um astro sobre o horizonte e dessa forma calcular a latitude do lugar onde se realizava a observação.

Lisboa tornou-se no centro de intercâmbio científico entre os Colégios Europeus e as missões orientais.

Quase todos os professores que passaram por Lisboa estudaram no Colégio Romano, acompanhando de perto as grandes descobertas e as grandes polémicas científicas da época.

Os mais preparados davam aulas no Colégio de Santo Antão e traziam as novidades científicas mais recentes.

Conteúdos ensinados no Colégio Santo Antão-o-Novo
Fotografia: Francisca Branco Veiga

Entrada dos Matemáticos no Império da China

Três dos Imperadores da Dinastia Qing
Imperador Kangxi
Imperador Yongzheng
Imperador Qianlong
Palácio Imperial da Dinastia Qing em Shenyang, com  114 edifícios, construídos entre 1625-26 e 1783. 

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento desse intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.

Na China, todos os nobres, incluindo os imperadores, se espantavam com as novas ideias ocidentais. Mais importante, a explicação exata da regularidade astronómica e do calendário foram algumas das eficazes ferramentas simbólicas que ajudaram o governo Qing a estabelecer o poder no país.

No dia 1 de agosto do 1º ano do reinado de Shun Zhi (1644 AD), o calendário tradicional chinês (Calendário Dai Tong) foi declarado inexato.

Adam Schall (1591 – 1666) astrónomo e matemático, fez a sugestão ao Imperador de que calculasse o calendário usando os novos instrumentos astronómicos ocidentais que foram logo feitos entrar no Palácio Qing pelo portão principal.

Retrato do jesuíta alemão Johann Adam Schall von Bell (1592–1666),
missionário na China (dinastias Ming e Qing) de 1622 até sua morte em 1666.

No ano seguinte, o governo Qing revelou ao público o “Calendário Shi Xian” que tinha sido estabelecido por Adam Schall, a quem foi atribuído o título de “Tou Xuan” (Mestre) pelo Imperador Shun Zhi.

Ferdinand Verbiest (1623 – 1688) recorreu a um quadrante, um sextante, um altazímute, um nível equatorial e outros instrumentos ocidentais, reproduzidos das ideias de Kepler, para calcular com exatidão o primeiro dia da Primavera. 

Ferdinand Verbiest foi nomeado para tratar dos assuntos do “Qin Tian Jian” (Tribunal das Matemáticas) e encarregou-se prontamente de desmantelar o Observatório Astronómico de Pequim, que incluía equipamento das anteriores dinastias Yuan e Ming, substituindo tudo por avançados instrumentos produzidos sob a sua direção.

Um retrato de Ferdinand Verbiest (9 de outubro de 1623 – 28 de janeiro de 1688),
missionário jesuíta flamengo na China durante a dinastia Qing.

Portugueses no Tribunal das Matemáticas

Observatório Astronómico de Pequim,
gravura do século XVIII

Entre 1583 e 1805, portugueses presidiram, em Pequim, ao célebre Tribunal das Matemáticas – uma espécie de Ministério do Interior encarregue de elaborar o Calendário Imperial e que empregava 150 a 200 funcionários.

Sobre a atividade científica dos portugueses em Pequim escreve Francisco Rodrigues:

“Matheus Ricci, auxiliado pela dedicação de tantos portugueses como Duarte Sande, António de Almeida, Francisco Cabral, João Soeiro, João da Rocha, Gaspar Ferreira e Manuel Dias, sénior, chegou a gozar de tamanha reputação pela sua ciência que julgava a sua permanência segura no Celeste Império.”

Menos de dois anos antes da sua morte (1610), escrevia com satisfação neste sentido:

“Sobretudo pelos mapas e livros que estampámos, da nossa Matemática e pelas muitas novidades nesta matéria, até hoje desconhecidas da China e por nós ensinadas, nos dão o maior crédito em assuntos matemáticos e nos guardam respeito extraordinário, O que porém mais os impressiona, por ser cousa nunca ouvida entre eles desde que há memória, é o terem vindo à China estrangeiros, que lhes possam ser mestres em todas as ciências com tão grande superioridade.”

Alguns portugueses Presidentes do Tribunal das Matemáticas

Gabriel de Magalhães – An Wensi, Jingming

Manuel Dias Júnior – Yang Manuo, Yenxi

Tomás Pereira – Xu Risheng, Yingong

João Francisco Cardoso – Mai Dacheng, Ershang

Félix da Rocha – Fu zoulin, Lisi

André Rodrigues – An Guoning, YongKang

O jesuíta Tomás Pereira jaz agora nos jardins da embaixada portuguesa em Pequim.
Trata-se de um desenho do relógio que Tomás Pereira fabricou para a torre de uma igreja, em Pequim.
Introduziu no interior da torre um tambor com espigões, semelhantes aos das caixas de música, que acionavam arames ligados aos badalos de um carrilhão o qual, a todas as horas, tocava músicas tradicionais chinesas.

Vários mandarins chineses aconselharam os astrónomos portugueses a adotarem o traje dos letrados chineses, pois passariam a usufruir do estatuto dos Letrados, o que reforçaria grandemente a sua posição e credibilidade tanto junto dos mandarins como junto das populações.

Traje do Astrónomo chinês em 1675

Portugal – China: Encontro de Culturas

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.

Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos. Entre eles destacamos: Padre Gabriel de Magalhães; Padre Manuel Dias Júnior; Padre Tomás Pereira; Padre João Francisco Cardoso; Padre André Pereira; Padre Domingos Pinheiro; Padre Félix da Rocha; Padre José de Espinha; Padre André Rodrigues.

Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco (2021), Jesuítas Matemáticos Portugueses no Império da China (século XVI-XVIII (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [15 de Março de 2021].