«Louvar os ornamentos e edifícios das igrejas. Do mesmo modo as imagens. Venerá-las segundo o que representam» (Inácio de Loyola)

Assiste-se a partir de meados do século XVI a um aumento da produção de imagens sacras. O conjunto escultórico do Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus ( espaços ocupados atualmente pelo Museu Nacional de História Natural e da Ciência, de Lisboa), que chegou aos nossos dias (e de nosso conhecimento), é bem representativo das novas exigências do culto tridentino, que deu especial relevo à imagem de Nossa Senhora sob as variadas invocações, à imagem de Cristo, dos Apóstolos e dos Santos mártires[1].

A escultura da Virgem com o Menino Salvador do Mundo é uma imagem de vulto, em madeira de carvalho setentrional, estofada e policromada, apresentando grande delicadeza na sua postura. Exibe um estofo muito desgastado e alguns vestígios de policromia.    

Virgem com o Menino Salvador do Mundo

Data: séc. XVII d.C.                                                                                                                                         
Dimensões:
– Altura: 130 cm
– Largura: 26 cm
– Comprimento: 51 cm  
Materiais:
 – Madeira
Técnicas:
– Dourado
– Estofado
– Policromado
– Escultura

 A outra escultura de vulto é um S. Paulo, e que apresenta os mesmos problemas na conservação. O estofo encontra-se muito desgastado, em tons vermelho e verde e com alguns vestígios de policromia, provavelmente floral e geométrica, com desenho de linha a dourado. Esta imagem parece ter sido repintada, pelo menos nas zonas sem estofo.

São Paulo
 
Autor: Desconhecido, trabalho português                 
Datação: séc. XVII d.C.                        
Dimensões:
– Altura: 115 cm
– Largura: 33 cm
– Profundidade: 40 cm
Materiais:
 – Madeira
Técnicas:
– Dourado
– Estofado
– Policromado
– Escultura

A terceira e última escultura do espólio do Noviciado da Cotovia é um Cristo que estaria na sua origem atado a uma coluna. Escultura em muito mau estado de conservação, com ténues vestígios de pintura. Esta imagem está associada à flagelação de Cristo. A cena da Flagelação, tal como os outros episódios da Paixão é, a partir do século XVI, representada com grande dramatismo, com Cristo atado a uma coluna e ladeada dos verdugos. Quando a cena se encontra despida de todo e qualquer elemento (verdugos, açoites) transforma-se numa imagem de grande devoção, como o caso deste exemplar do Noviciado da Cotovia. Com estas imagens os escultores praticavam a criação do nu, proibido pela igreja pois era considerado indecoroso e desonesto.[2]

Cristo preso à coluna
 
Autor (es): Desconhecido
Datação: séc. XVII d.C. 
Dimensões:
– Altura: 187 cm
– Largura: 32 cm
– Profundidade: 52 cm 
Materiais:
 – Madeira
Técnicas:
– Dourado
– Estofado
– Policromado
– Escultura

Não existem referências quanto aos seu autores, mas sabe-se o local para o qual a escultura de S. Paulo foi criada dado que em 1759, quando os bens da Companhia de Jesus foram sequestrados, foi elaborado um inventário onde era referido que na sacristia se encontrava «…em cima do caixão três imagens de vulto, uma de S. Pedro, outra de S. Paulo, ambas de cinco palmos com resplendores de folha prateada,…»[3]tendo em atenção que seguiam uma representação “tipo” seguindo as normas tridentinas.

Encontrámos referências bibliográficas a outra imagem escultórica, do século XVIII, pertencente ao Noviciado e que se encontra atualmente na igreja de S. Mamede, vizinha dos Museus da Politécnica, sendo lá colocada após um dos últimos incêndios que houve na antiga escola Politécnica. Esta escultura encontra-se em muito bom estado de conservação. José de Almeida foi o escultor desta imagem de vulto, em madeira policromada e estofada. 

Nª Sª da Conceição
Autor: José de Almeida 
Data: séc. XVIII

As esculturas do Noviciado da Cotovia são maneiristas, do início do século XVII, fidelizadas a parâmetros de imaginária sacra portuguesa, tipo esculturas de Gonçalo Rodrigues. Vitor Serrão num artigo publicado na revista Museu afirma que, este escultor trabalhou para uma clientela muito vasta, como por exemplo, a Misericórdia do Porto, os padres jesuítas de Braga e possivelmente para «…os inacianos de Lisboa»[4]. As esculturas maneiristas em madeira estofada e policromada, de que são exemplo as quatro referidas atrás, dão-nos a ideia do tipo de técnica usada neste período, tal como a postura da imagem e os tons e as cores utilizados.

As normas saídas do Concílio de Trento foram adotadas pela Companhia de Jesus a todos os níveis, incluindo as relativas à Invocação e Veneração das Relíquias dos Santos e das Sagradas Imagens. Inácio de Loyola afirmava que: «Louvar os ornamentos e edifícios das igrejas. Do mesmo modo as imagens. Venerá-las segundo o que representam».[a]


[a] INÁCIO DE LOYOLA, Exercícios Espirituais (360).


[1] CAETANO, Joaquim Oliveira; SILVA, Nuno Vassalo e, [e tal.], O púlpito e a imagem : os jesuítas e a arte, p. 25.  

[2] DIAS, Pedro, A escultura maneirista portuguesa: subsídio para uma síntese, p. 135.

[3] LINO, Raúl, SILVEIRA, Luís; MARQUES, A. H. de Oliveira, Documentos para a história da arte em Portugal,  p. 8.

[4] SERRÃO, Vítor, O escultor maneirista Gonçalo Rodrigues e a sua actividade no Norte de Portugal. Museu, IV série, nº7, 1998, p.148.

História do Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus: Cronologia

Excerto do Panorama de Lisboa. In Academia Nacional de Belas Artes

1540 – A 27 de Setembro, o papa Paulo III aprova a criação da Companhia de Jesus, pela bula “Regimini Militantis Ecclesiae”.

 Sto. Inácio de Loyola acedeu ao convite do rei português e enviou para Portugal dois dos seus primeiros companheiros: Francisco Xavier e  Simão Rodrigues.

1545-1563 – Concílio de Trento – Os Decretos Tridentinos produziram uma genuína reforma da Igreja Católica Romana, e reafirmaram as bases fundamentais do seu dogma.

1546 – É criada a Província Portuguesa da Companhia de Jesus, a primeira província de toda a Ordem no mundo.

– Fernão Telles de Menezes (Governador da Índia e 1º Governador do Algarve, Regedor das Justiças e Provedor da Misericórdia de Lisboa) e sua esposa, D. Maria de Noronha, acordam com os jesuítas serem os fundadores da Casa Do Noviciado.

1597 – Fernão Teles de Menezes oferece de dote à C. J. 20. 000 Cruzados (mais de 100.000 contos de hoje).

1598 – Celebra-se a dedicação da Casa a Nossa Senhora da Assunção (18 de Dezembro).

1603 – Lançamento da 1ª pedra para a construção do edifício (23 de Abril).

1605 – Morte de Fernão Telles de Menezes (26 de Novembro).

1607 – O arquitecto real Baltazar Álvares passa a dirigir a construção da obra.

1613 – Lourenço Lombardo, flamengo natural de Anvers, 2º financiador da Casa do Noviciado, dota a Casa com 30.000 cruzados (mais de 150.000 mil contos).

1616 – Foi feita a 1ª missa na Igreja do Noviciado (1 de Novembro).

Transladação dos ossos do fundador Fernão Telles de S. Roque para a igreja da Cotovia (9 de Novembro).

1619 – Inauguração do edifício do noviciado do Monte Olivete.

1634 – Morre Lourenço Lombardo. Foi sepultado na Sacristia em campa rasa com epitáfio.

1694 – Incêndio na Casa do Noviciado da Cotovia

1705 – É criado o Noviciado de Arroios (Lisboa), para as missões da Índia, dedicado a S. Francisco Xavier, e do qual aceitou ser fundadora D. Catarina rainha de Inglaterra.

1755 – Terramoto em Lisboa afecta parte do edifício.

1758 – Os jesuítas são suspensos do exercício de confessar e     pregar (Junho).

1759 – Sai o alvará de sequestro dos seus bens (Janeiro).

                  São reclusos e com guarda à porta (Fevereiro).

                  São proscritos e banidos do reino (3 de Setembro).

                  Noviciado da Cotovia foi confiscado para a Fazenda Real.

1773 – O Papa Clemente XIV, pressionado pelas cortes portuguesa e bourbónicas, promulga a 21 de Julho, o breve “Dominus ac Redemptor”, que decretava a extinção da Companhia de Jesus no mundo inteiro.

Foram 143 anos de existência e de prestação de serviços na formação missionária dos Padres da Companhia neste edifício do Monte Olivete.

1761 – Decreto-lei de 7 de Março institui o Colégio dos Nobres

1837 – Decreto-lei de 4 de Janeiro abole o Colégio dos Nobres

Decreto-Lei de 21 de Janeiro é criada a Escola Politécnica

1843 – Novo incêndio na agora Escola Politécnica

1911 – Pólo da Universidade de Lisboa: Faculdade de Ciências

1978 – Novo incêndio no edifício do antigo Noviciado.

Atualmente – Alberga dois Museus de referência em Portugal e no estrangeiro, o Museu da Ciência e o Museu de História Natural, e o Jardim Botânico de Lisboa, jardim científico, projetado em meados do século XIX para complemento do ensino e investigação da botânica na Escola Politécnica.

https://www.museus.ulisboa.pt/pt-pt

Fernão Teles de Meneses (governador da Índia e fundador do noviciado da Cotovia)

(I – Fernando Tellez
Retratos dos Vices Reys e Governadores da India dispostos pela ordem de seus governos collegidos nos mezes de Abril e Maio de 1791. Publicado entre 1674 e 1791.
II – Fernão Teles de Meneses, segundo a pintura do Palácio de Goa.
Tratado de todos os vice-reis e Governadores da Índia. Publicado em 1962
III – Fernão Teles de Meneses, (Galeria dos Vice-Reis) Archaeological Museum, Velha Goa, Goa.
Vice-Reis e Governadores da Índia Portuguesa. Publicado em 1999.
IV – Fernão Teles de Meneses.
MNHNC. Século XVII)

Fernão Teles de Meneses, nasceu em 1530 em Santarém, filho de Brás Teles de Meneses, alcaide-mor de Moura, camareiro-mor, guarda-mor e capitão dos ginetes e se D. Catarina de Brito. Casado com D. Maria de Noronha, filha de D. Francisco de Faro, da casa dos condes de Faro, Vedor da Fazenda dos reis D. Sebastião e D. Henrique e de D. Mécia de Albuquerque Henriques. Segundo D. António Caetano de Sousa, “…nella nomeou seu pay hum Padraõ de huma tença com licença delRey, por Provisaõ passada a 8 de Fevereiro de 1579, que está no Liv. 14. Fol.272. da sua Chancelaria.”[1] Não tiveram filhos mas Fernão Teles de Meneses teve uma filha fora do casamento,de seu nome Soror Clara do Lado, freira do mosteiro do Castelo, em Moura,[2]ao qual deixou bens depois da sua morte.[3]

Seguiu viagem para a Índia em 1566, na armada do vice-rei D. Antão de Noronha[4] e fez parte, como capitão de uma fusta[5], numa expedição dirigida por D. Antão de Noronha contra a rainha de Olala, em 1568.Em 1570 foi a pedido do Conde de Atouguia em seu auxílio para libertar Chaul do cerco dos inimigos. Serviu de maneira ilustre como capitão em Ormuz e no Malabar.

Retrato póstumo de Luís de Camões, oferecido por 
Fernão Teles de Meneses a D. Luís de Ataíde, datado de Goa, 1581[6]

Com a morte do Conde de Atouguia e aberta a primeira via de sucessão, ficou a 10 de Março de 1581 com o seu lugar de governador da Índia, tomando posse do cargo a 13 do mesmo mês. Antes da sua mudança para a Casa dos Governadores mandou colocar lá o seu retrato. A sala dos retratos que de inicio se encontrava na Casa de Sabaio, foi com Fernão Teles de Meneses transladada para uma nova casa, conhecida como “casa da fama”,[7] mandada construir por D. Luis de Ataíde, sendo completada com todos os retratos dos governadores e vice-reis seus antecessores. Tomou, nessa altura, conhecimento da posse de Filipe I no trono de Portugal. A 3 de Novembro de 1581 jurou e fez jurar o novo rei em todo o estado da Índia. Fez entrega do governo, sem ter feito qualquer alteração na administração pública, a D. Francisco de Mascarenhas, Conde de Sta Cruz, em 17 de Setembro do mesmo ano.

 Na Biblioteca Nacional encontra-se um documento relativo às armadas que partiram para a Índia onde faz a seguinte referência a Fernão Teles de Meneses: “ D. Francisco de Mascarenhas Vice-Rei e Capitão-mor partio a 4 de Abril, Capitães Pero Lopes de Sousa, Manoel de Miranda, João Menelao. E para Malaca hum Galeão de que era Capitão Leonel de Lima, que voltando para este Reino invernou em Moçambique, e não pode fazer viagem. A nao de Manoel de Miranda desapareceo á volta e elle ficou na India. Nestas naos veio o Governador Fernão Telles que succedeo ao Conde de Atouguia.”[8]

Retratos dos Vices Reys e Governadores da India dispostos pela ordem de seus governos collegidos nos mezes de Abril e Maio de 1791. – [S.L. : s.n., entre 1674 e 1791], nº 79.

Por iniciativa de Filipe I, regressa a Portugal tendo-lhe sido entregue o governo do Algarve, além do lugar de Capitão-general do mesmo território, General da armada, Conselheiro de Estado, Regedor da Casa da Suplicação e presidente do Conselho da Índia. Era Comendador de Santa Maria da Louzãa na Ordem de Cristo, e da de Moura na Ordem de Aviz.

Como Governador do Algarve (1º governador do Algarve que se seguiu aos fronteiros-mores) participou na resistência às tentativas de desembarque de Drake em Lagos.[9] Os danos causados pela artilharia inglesa a Lagos, bem como o receio de novos ataques no litoral, levaram à reconstrução das suas defesas nos anos seguintes. Em 1598, Fernão Telles de Menezes concluiu as obras na segunda cerca da muralha.

Nesta altura encontrava-se o casal a morar em Lagos quando souberam que a Companhia de Jesus procurava um local para fundar uma casa separada para os noviços, logo se propuseram a ser seus fundadores. A 18 de Setembro de 1589 foi lavrada a primeira escritura, em Lagos, com a presença do Pe. jesuíta Pedro Lopes. Ficou determinado, tanto pelo Geral Aquaviva como pelos doadores, que iriam dar 500$000 réis de juros ou terras que rendessem 20.000 cruzados em dinheiro. Mas já em Lisboa, no dia 26 de Dezembro de 1597 foi feita nova escritura onde o Padre Provincial Cristóvam de Gouveia recebeu de Fernão Telles e sua esposa 20.000 cruzados,[10]representada uma terça parte pela Quinta do Monte Olivete e os outros dois terços por padrões de juros.

O Pe. Provincial deu início no dia 18 de Dezembro de 1598 ao noviciado na Quinta de Campolide, mandando vir quinze noviços dos noviciados dos colégios de Coimbra e Évora, onde se criavam os noviços de toda a Província. O primeiro reitor desta casa foi o Pe António Mascarenhas. [11]

Durante algum tempo procuraram sítio para a casa do noviciado mas devido à impaciência de Fernão Telles resolveram os jesuítas começar a construir em terreno que este deixou em doação.[12] A actual rua do Monte Olivete, perpendicular à Rua da Escola Politécnica corresponderia à antiga Quinta da Cotovia.

Frente à quinta do Monte Olivete ficavam as terras de André Soares e sua esposa Maria Botelho. Ao seu neto chamavam «o da Cotovia» e morava nas casas nobres da quinta da Cotovia, actual Imprensa Nacional.

O sítio era o ideal pois ficava perto da Casa Professa de S. Roque, tinha ótimos ares e muito terreno para cultura e pomares.[13] O terreno de tipo argiloso, muito utilizado pelos oleiros da zona, e de calcário gredoso de cor amarela, dificultou a construção do edifício tendo que se procurar terreno mais firme para as fundações.[14] Encontrou-se no ponto mais alto da quinta, junto à estrada para Campolide. A primeira pedra foi lançada, como já foi referenciado atrás, a 23 de Abril de 1603, catorze anos depois do primeiro contrato para a construção do edifício. A pedra estava toda ornamentada com ramos de folhagem e flores silvestres. Com seis faces, como foi descrito atrás, tendo na sexta face não uma inscrição mas uma concavidade onde Fernão Teles de Meneses colocou um “português de oiro” e medalhas devotas[15]. À cerimónia assistiram os fundadores, o Provincial, o Reitor Padre António Mascarenhas e outros jesuítas vindos dos colégios da Província portuguesa.

Nesta altura da sua vida, o escudo de armas de Fernão Teles de Meneses podia ostentar o leão altivo, de cor púrpura (grandeza e sabedoria elevada)., dos Silvas, o anel encoberto dos Meneses e como símbolo da sua generosidade um campo azul (zelo, lealdade, caridade, justiça, lealdade, beleza e boa reputação) com um coração de ouro (nobreza, riqueza e poder).[16]

Dois anos depois já não assistiu, ao lançamento da primeira pedra da igreja do noviciado, morrendo no dia 26 de Janeiro de 1605. D. Maria de Noronha, sua esposa, pediu que as obras da Capela-mor (do lado do Evangelho) terminassem o mais rápido possível, para lá colocar o túmulo do seu marido, pois os ossos tinham ficado num trono do cruzeiro d igreja de  S. Roque à espera do traslado. Mandou fazer um mausoléu que lhe custou 3.000 cruzados, onde foram colocados primeiro, os ossos de Fernão Teles e em 1623 os seus.

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha
Museu/instituição: Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Universidade de Lisboa
Denominação: Túmulo/ Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha
Autor (es): Desconhecido
Datação: Início do século XVII (± 1616)

[1] SOUSA, António Caetano de, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, T. IX, p. 333.

[2] , Júlio de, Lisboa antiga : o Bairro Alto, p.27.

[3] SOUSA, António Caetano de, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, T. IX, p. 333.

[4] SEQUEIRA, Gustavo Matos, Depois do Terremoto, Lisboa, 1916, p. 205.

[5] Embarcação comprida de fundo chato, de vela e remo.

[6] In http://www.instituto-camoes.pt/…/camoes02.jpg

COUTINHO, B. Xavier Camões e as artes plásticas: subsídios para a iconografia camoneana, 1946-1949,Porto, p.9-18. Nesta iluminura existe uma incógnita relativa ao nome assinado pelo pintor. É composta pelo local e data, mais o nome Pinto e mais um conjunto de sinais orientais, chineses. Xavier Coutinho, coloca a incógnita relativamente ao nome do pintor pois, segundo ele, o nome tanto pode ser Pinto como os símbolos orientais e assim sendo a palavra Pinto seria Pintô.

[7] BARROS, João de, Decadas da Asia, Lisboa, 1788, p. 106-110.

[8]In, http://nautarch.tamu.edu/SHIPLAB/01guifrulopes/Pguinote-naubn2.htm

[9] Em 1587 desembarcaram, na costa algarvia, corsários ingleses comandados pelo almirante Francis Drake que, aproveitando o clima de guerra existente entre a Inglaterra e a Espanha, saqueiam e espalham o terror em muitas zonas do Algarve. In http://www.glosk.com/PO/Sagres/-3009477/pages/Castelo_de_Lagos/1858_pt.htm

[10] B.N.P., Conventos de Lisboa, cód.429, cap. XV, Caza do Noviciado da Companhia de Jesus, ms.

B.N.P., Historia de Lisboa, cód. 145, Da caza do Noviciado da Companhia de Jesus, ms., 1704 a 1708.

[11] Historia da Fundaçam aumento è progresso da casa de provaçam da Compª de Iesu de Lxª Anno de 1597, cap. 3.

[12] Fundaçam aumento…, Cap. VII.

[13] História de Lisboa

[14] História de Lisboa

Fundaçam aumento…, Cap. VIII.

[15] FRANCO, António, Imagem da Virtude…em Lisboa, 1717, p.10.

Cód. 429,  da BNP. Fundaçam aumento…, Cap. VII.

[16] SEQUEIRA, Gustavo Matos, Depois do Terremoto, p. 216.

Do Noviciado da Cotovia ao MNHNC (Museus da Universidade de Lisboa): Cronologia

1597 – Fernão Teles de Menezes oferece de dote à Companhia de Jesus 20. 000 Cruzados (mais de 100.000 contos de hoje).

1598 – Celebra-se a dedicação da Casa a Nossa Senhora da Assunção (18 de Dezembro).

1603 – Lançamento da 1ª pedra para a construção do edifício (23 de Abril).

Excerto do Panorama de Lisboa
In  Academia Nacional de Belas Artes

1605 – Morte de Fernão Telles de Menezes (26 de Novembro).

1607 – O arquiteto real Baltazar Álvares passa a dirigir a construção da obra.

1613 – Lourenço Lombardo, flamengo natural de Anvers, 2º financiador da Casa do Noviciado, dota a Casa com 30.000 cruzados (mais de 150.000 mil contos).

1616 – Foi feita a primeira missa na Igreja do Noviciado (1 de Novembro).

Transladação dos ossos do fundador Fernão Telles de S. Roque para a igreja da Cotovia (9 de Novembro).

1619 – Inauguração do edifício do noviciado do Monte Olivete.

Segundo o Painel de Azulejos “Vista de Lisboa”.
Desenho à penna por J.de C.

1634 – Morre Lourenço Lombardo. Foi sepultado na Sacristia em campa rasa com epitáfio.

1694 – Incêndio na Casa do Noviciado da Cotovia

1705 – É criado o Noviciado de Arroios (Lisboa), para as missões da Índia, dedicado a S. Francisco Xavier, e do qual aceitou ser fundadora D. Catarina, rainha de Inglaterra.

1755 – Terramoto em Lisboa afeta parte do edifício do noviciado da Cotovia.

1758 – Os jesuítas são suspensos do exercício de confessar e pregar (Junho).

1759 – Sai o alvará de sequestro dos seus bens (Janeiro).

                  São reclusos e com guarda à porta (Fevereiro).

                  São proscritos e banidos do reino (3 de Setembro).

                  Noviciado da Cotovia foi confiscado para a Fazenda Real.

1773 – O Papa Clemente XIV, pressionado pelas cortes portuguesa e bourbónica, promulga a 21 de Julho, o breve “Dominus ac Redemptor”, que decretava a extinção da Companhia de Jesus no mundo inteiro.

Foram 143 anos de existência e de prestação de serviços na formação missionária dos Padres da Companhia neste edifício do Monte Olivete.

1761 – Decreto-lei de 7 de Março institui o Colégio dos Nobres

Real Colégio dos Nobres – Wikipédia, a enciclopédia livre
Jornal de Belas Artes, n.º 26, 1817

1832 – Decreto de 10 de Setembro, o rei D. Miguel mostra intenção de entregar o espaço novamente aos Jesuítas.

1837 – Decreto-lei de 4 de Janeiro abole o Colégio dos Nobres

Decreto-Lei de 21 de Janeiro é criada a Escola Politécnica

1843 – Novo incêndio na agora Escola Politécnica

Rua da Escola Politécnica num postal de 1906

1911 – Pólo da Universidade de Lisboa: Faculdade de Ciências

1978 – Novo incêndio no edifício do antigo Noviciado.

Atualmente – Alberga dois Museus de referência em Portugal e no estrangeiro, o Museu da Ciência e o Museu de História Natural, da Universidade de Lisboa.

File:MNHNC.jpg - Wikimedia Commons
Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC)

Veneração aos Santos e Mártires: o relicário e as relíquias dos jesuítas João Soan (de Goto) e Diogo Kisai, martirizados em Nagasaki

O Museu Nacional de História Natural e da Ciência que desde o primeiro quartel do século XVII até ao presente serviu de sede a respeitáveis instituições de ensino e de cultura, alberga um espólio variado de obras de arte e instrumentos científico-didáticos, onde se encontra inserido o espólio relativo ao noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus.

Enquadramento religioso e artístico

O Concílio de Trento, realizado de 1545 a 1563, foi o 19º concílio ecuménico, convocado pelo Papa Paulo III para assegurar a unidade de fé e a disciplina eclesiástica. Dos decretos tridentinos e diplomas emanados do concílio transparece uma nova forma de ver a imagem sagrada, onde o “ver” uma coisa com desejo e com intenção equivalia a possuí-la. Na sessão XXV, celebrada em Outubro de 1563, aconselha-se que os dogmas sancionados e as verdades da fé se expressem através da arte, como por exemplo, da pintura e da escultura. Através das representações artísticas os fiéis eram “instruídos” com mais facilidade do que através de enunciados teóricos. A obra de arte nasce, neste contexto, ligada ao movimento contra reformista, com novos valores expressivos, novos cânones e com uma iconografia muito ligada e ao serviço da fé.

Sai do Concílio de Trento uma nova Ordem religiosa, a Companhia de Jesus, reconhecida em 27 de Setembro de 1540 pelo Papa Paulo III, através da Bula “Regimini militantis Ecclesiae”. Inácio de Loyola, fundador da Companhia, escreveu as “Constituições” jesuítas, adoptadas em 1554 e que deram origem a uma organização rigidamente disciplinada, enfatizando a absoluta auto-abnegação e a obediência ao Papa e os superiores hierárquicos.

As normas saídas do Concílio de Trento foram adoptadas pela Companhia a todos os níveis, incluindo as relativas à Invocação e Veneração das Relíquias dos Santos e das Sagradas Imagens. Inácio de Loyola afirmava que: «Louvar os ornamentos e edifícios das igrejas. Do mesmo modo as imagens. Venerá-las segundo o que representam».[1]

Da igreja do noviciado chega-nos aos nossos dias um relicário em prata que é testemunho da veneração que se prestava aos Santos e aos Mártires.

Em forma de custódia, realizado com folha de prata aplicada sobre estrutura de madeira e assente sobre base de madeira dourada, de secção triangular, mistilínea e moldurada, com relíquias correspondentes aos dois irmãos coadjutores João Soan (de Goto) e Diogo Kisai, martirizados em Nagasaki. Este relicário é de origem italiana com as marcas da Contrastaria de Roma (chaves cruzadas e umbela) e a do ourives: leão rampante (esta marca apresenta-se defeituosa, dificultando a sua leitura e justifica a interrogação da autoria). Tem ainda junto com a peça o selo de autenticidade das relíquias.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/38/The_Three_Maryrs_of_Nagasaki_-_Johann_Heinrich_Sch%C3%B6nfeld_-_Castel_Nuovo_-_Italy_2015.jpg
Crucificação dos mártires de Nagasaki (5 de fevereiro de 1597)
Johann Heinrich Schönfeld

[1] INÁCIO DE LOYOLA, Exercícios Espirituais (360).


Relicário

 Museu/instituição: Museu Nacional de História Natural e Ciência da Universidade de Lisboa

Super categoria: Artes Plásticas e Artes Decorativas

Categoria: Ourivesaria

Denominação: Relicário

Autor(es): Antonio GIGLI (c. 1704-1761?), Itália

Datação: séc. XVII d.C.

Matéria/suporte/técnica: Prata / madeira

Marcas: Contrastaria de Roma (chaves cruzadas e umbela)

Marca do ourives: leão rampante (?)                                                                                

Dimensões: 435mm (alt. com base) / 375mm (alt. sem base) x 165mm (larg.) x 90mm (prof.)        

Descrição:

Relicário em forma de custódia realizado com folha de prata aplicada sobre estrutura de madeira e assente sobre base de madeira dourada, de secção triangular, mistilínea e moldurada. Sobre a base elevam-se dois apoios em voluta que sustentam a base da peça, reconhecendo-se ainda, ao centro, uma cartela rematada por concha. O fuste apresenta-se constituído exclusivamente pelo nó, abalaustrado e ladeado por duas volutas, ostentando decoração de carácter vegetalista. O receptáculo, envidraçado, possui forma mistilínea. A restante decoração envolvente apresenta como motivos principais grinaldas e volutas.

A peça é superiormente rematada por motivos contracurvados sobre os quais se reconhece ainda uma cruz apical de avelã dotada de auréola de raios lanceolados.

Inscrição: S. JOAN. GOTTO. M. / S. JACOBI. KIS. M., correspondente aos dois irmãos coadjutores João Soan (de Goto) e Diogo Kisai, martirizados em Nagasaki a 5 de Fevereiro de 1597; canonizados apenas em 8 de Junho de 1862 por Pio IX mas já anteriormente venerados no contexto da Companhia de Jesus.

NOTA: a marca do ourives foi efectuada em dois locais diferentes da peça (à semelhança do que se verifica com a marca da contrastaria de Roma) mas em qualquer dos casos apresenta-se defeituosa, facto que dificulta a sua leitura e justifica a interrogação da autoria.

 Proveniência/incorporação: Noviciado da Cotovia

ROTA DA COTOVIA

Memórias do noviciado da Cotovia em diversas instituições de Lisboa

Ao espólio do noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus que se encontra no Museu Nacional de História Natural e da Ciência poderíamos adicionar pinturas e esculturas da igreja do antigo noviciado, mas, devido a uma série de incêndios e cataclismos que lavraram este edifício da Rua da Escola Politécnica, perderam-se no fogo ou foram salvas e recuperadas por outras entidades, encontrando-se atualmente a embelezar igrejas ou museus nacionais.

Pelos espaços dos Museus da Politécnica passaram as seguintes instituições de ensino onde lamentavelmente os cataclismos e incêndios foram, como se disse, uma constante:

  • Noviciado da Cotovia (13 de Junho 1619)

1694 – 1º Incêndio

1731 – 2º Incêndio – arde a Capela particular de um dos financiadores do noviciado, Lourenço Lombardo.

1755 – Terramoto

  • Colégio dos Nobres (7 de Março 1761)
  • Escola Politécnica (11 de Janeiro 1837)

1843 (22 de Abril) – 3º incêndio – fica totalmente destruída a igreja.

  • Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) (Março 1911)

1978 – 4º Incêndio

Assim, num percurso que parte do MNHNC, edifício com uma longa história mas com um presente que ainda tem muito por desvendar e para transmitir à população, vamos descobrir o passado da primeira Casa de Provação da Companhia de Jesus na Província Portuguesa, através do seu espólio disperso por diversas instituições que acolheram estas peças e as expuseram ao público como peças de culto ou de interesse artístico. 

Na sacristia da igreja de S. Mamede, na rua da Escola Politécnica, encontra-se uma pintura de Domingos da Cunha. Sendo a temática mariana um dos temas melhor aceites no período pós Concílio de Trento e também aquele que mais suscitou o interesse dos pintores europeus, esta Visitação não foge à regra tridentina. Iconograficamente encontra-se enquadrada ao centro por Maria SSª que cumprimenta a sua prima Isabel. À esquerda do observador, São José faz festas a um cão. Atrás dele apruma-se um retrato seguido de outra figura feminina. Do lado direito Zacarias (sacerdote do Templo de Jerusalém, pai de João Baptista e esposo de Isabel) avança de braços abertos, tendo junto de si outro figurante, com a mão em esquisita posição e desenho. Atrás de si outra figura feminina. A figura do retrato contrasta na comparação visualmente estabelecida com as outras idealizadas. Será o autorretrato de Cabrinha, enroupado de negro, com colarinho típico dobrado sobre a gola, no gosto elegante da época. Pensa-se que Domingos da Cunha se introduziu como personagem nesta pintura devido aos traços fisionómicos algo bexigosos e orientalizantes de uma figura.

Pintura do século XVII (mais ou menos 1630) que, segundo Vítor Serrão e para o jesuíta Costa Lima pertenceu ao “…extinto Colégio jesuítico da Cotovia…”. Joaquim O. Caetano em O púlpito e a imagem: os jesuítas e a arte refere que Domingos da Cunha executou “…algumas pinturas para o Noviciado da Cotovia, entre as quais uma «Visitação» que se encontra na Sacristia da Igreja de S. Mamede…”. Também Costa Lima assegura que “…o quadro fora da Politécnica, antigo Noviciado dos jesuítas, onde o famoso e santo artista reparou a sua vida boémia…”[1].

Visitação (Sacristia da Igreja de S. Mamede)

Datada do século XVIII d.C., encontra-se na nave desta igreja de S. Mamede uma escultura de Nossa Senhora da Conceição, de José de Almeida (1708-1769), também ela pertencente ao antigo noviciado da Cotovia. José de Almeida foi mestre de Machado de Castro na escultura em mármore. Podemos ver peças deste escultor no palácio de Mafra (presépio, conjunto escultórico relativo aos mártires de Marrocos) e na igreja de S. Domingos de Benfica. Discípulo de Carlo Monaldi esculpiu ainda uma Senhora da Vitória e uma Senhora das Virtudes para a igreja de S. Domingos, em Lisboa, e um Cristo e  uns Anjos de Adoração para o Palácio-Convento de Mafra; é-lhe atribuído o trabalho de talha dourada no Coche de D. João V; podemos também ver um Santo Onofre no Museu Nacional de Arte Antiga. Hábil escultor em pedra José de Almeida estudara em Roma, protegido e sustentado por D. João V.

A escultura de Nossa Senhora da Conceição encontra-se iconograficamente presentada com equilíbrio e síntese no tratamento volumétrico, com serenidade expressiva e gestual. Dinâmico contraposto dos membros inferiores. Assenta num esferoide, que tem representadas nuvens e a rodeá-la estão quatro cabeças de anjos.

Nossa Senhora da Conceição (nave da Igreja de S. Mamede)

No largo Trindade Coelho encontramos a igreja de S. Roque, igreja e casa Professa da Companhia de Jesus durante mais de 200 anos, antes de os Jesuítas terem sido expulsos do país no ano de 1759. Primeira igreja em Portugal e uma das primeiras igrejas jesuítas em todo o mundo.  Aqui, na sua sacristia vamos encontrar algumas pinturas de Domingos da Cunha que, segundo alguns historiadores poderiam ter pertencido ao noviciado da Cotovia.

São catorze os quadros que se encontram colocados sobre o arcaz da sacristia da igreja de S. Roque, acima da série xaveriana de André Reinoso, do século XVIII e que descrevem o Ciclo da Vida de Santo Inácio de Loyola. Para Vítor Serrão e Reynaldo dos Santos, esta série da sacristia é de nível inferior à da nave da Igreja, mostrando ser obra de colaborações díspares, como também que estava mal montada sobre o arcaz[2]. Possivelmente foram aí colocados pós terramoto, com a consequente destruição do noviciado da Cotovia, pois o espaço onde foram colocados não parece adaptado à série.

Para pintar estas telas o pintor Domingos da Cunha utilizou as gravuras da Vita Beattii Patris Ignatii Loyolae Religionis Societatis Iesu Fundatoris ad Vivum Expressa ex ea quam, de P. Petrus Ribadeneyra, publicada em 1610 por Cornelis Galle, em Antuérpia, com dezasseis buris de Cornelis e de Theodore Galle, de Adrien e Johann Collaert e de Charles de Mallery[3]. Nota-se outras influências ao nível estético, com alguma modernidade, saídas dos modelos caravagescos. É visível ao nível pictórico um desequilíbrio, mostrando que, possivelmente, um colaborador seu tenha também participado nesta construção[4].

Luís Moura Sobral estudou o ciclo hagiográfico da sacristia de S. Roque e concluiu o seguinte acerca dos painéis da Vida de Santo Inácio: estes não estão dispostos seguindo uma narrativa biográfica; dois dos quadros repetem o mesmo episódio; oito das telas foram feitas cerca de 1619, com legendas na banda inferior em castelhano e com figuras de pequena escala; as restantes seis pinturas que se encontram enquadradas entre os anos de 1640-44 tem figuras monumentais, com efeitos tenebristas e alguns exageros na representação anatómica e estão legendadas na banda inferior em português. Estas, para Moura Sobral e Joaquim Caetano são as verdadeiras obras de Domingos da Cunha, com semelhanças de composição e de fatura (exceto aquela onde Santo Inácio ouvindo um sermão lhe saem raios da cabeça, que se encontra mais perto das telas da nave da igreja, também elas de Domingos da Cunha), executadas para S. Roque ou reaproveitadas do Noviciado da Cotovia[5].

Nas peças cedidas ao Museu Arqueológico do Carmo pela Escola Politécnica[6] encontram-se três peças do espólio da Cotovia: uma escultura de São Estanislau Kostka (padroeiro dos noviços); uma de São Luís Gonzaga (padroeiro da juventude); e uma Inscrição funerária e votiva de Luís Correia.

São Estanislau Kostka e São Luís Gonzaga (Museu de Arqueologia do Carmo)

A estatuária religiosa em pedra possui uma função ornamental e identificativa. Trata-se de imaginária integrada em nichos abertos nas fachadas principais dos edifícios religiosos, aludindo ao orago do templo ou ao universo devocional da comunidade religiosa. Neste caso específico encontramo-nos iconograficamente perante dois santos da Companhia de Jesus.  São Estanislau Kostka (padroeiro dos noviços) surge-nos, iconograficamente, sustentando um menino nos seus braços, levando-nos ao encontro com sua história onde se conta que, estando doente e durante um sonho, viu a Virgem Maria colocar o Menino Jesus em seus braços. Nossa Senhora, na sua aparição, convidou-o a ingressar na Companhia de Jesus. A indumentária de ambas as esculturas é semelhante, estando ambos vestidos como membros da Companhia de Jesus, isto é, com sobrepeliz[7]. São Luís Gonzaga (padroeiro da juventude)[8] tem como atributos um lírio, um crânio, uma disciplina ou um crucifixo. Um desses objetos, agora desaparecido da sua mão esquerda era por ele dado a contemplar. Imagens que física e estilisticamente se aproximam uma da outra, onde a desproporção pode igualmente ser observada e sendo visível ao nível da cabeça, parecendo à vista desarmada um restauro quase desastroso. Cultiva-se o gosto pelo gesto e pela exploração do momento determinante da ação. Mas se olharmos estas figuras num plano mais elevado, esta desproporção ameniza-se. Ambas as peças estão sobre uma base do mesmo material mas também ela provocando alguma dinâmica.

Por fim, vamos encontrar no Museu Arqueológico do Carmo uma Inscrição funerária e votiva que se encontrava na Capela de São Luís Gonzaga, no corpo da igreja, do lado do Evangelho. Esta capela tinha um altar com colunas de madeira dourada e capitéis. No retábulo havia uma pintura em pano com a imagem de São Luís Gonzaga, e uma imagem do mesmo santo de três palmos de altura, com resplendor de prata. Numa mão tinha um ramo de açucenas, em tecido, e à cintura um coração de prata[9]. Comprada ao noviciado, com escritura de 30 de Junho de 1666, por Luís Correia da Paz com intenção de ter aí a sua jazida. O seu filho morreu em 1665 e um ano depois foi aí enterrado.

Inscrição funerária e votiva (MAC)

Encaixada em uma parede da capela existia uma lápide que tinha inscrito o seguinte:

[Á EXALTAÇÃO DE CHRISTO/ DEDICADA ESTA CAPELA AO/ B. LUVIS GONZAGA POR LUIS COR/ REIA Q.DO A COMPRO A ESTE/ COLLEGIO PARA SEV JAZIGO E DE/ TODOS OS DESCENDENTES E AS/ CENDENTES DE SEV PAI FER/ NÃO CORREIA E SVA MAI BRANCA/ DA PAZ E IAZ NELLA SEV FILHO LV/ IS CORREIA DE SOVSA Q. FALECEV A/ 21 DE ABRIL DE 1665][10]

Panorama de Lisboa e Partida de S. Francisco Xavier para a Índia.   -   Autor desconhecido - Séc. XVIII. Noviciado da Cotovia, MNAA.Mais distante deste circuito do espólio perdido do noviciado da Cotovia vamos encontrar no Museu Nacional de Arte Antiga duas pinturas monumentais desta dita casa de provação.

A pintura a óleo sobre tela do Panorama de Lisboa e partida de S. Francisco Xavier para a Índia, atribuída primeiro a Domingos da Cunha, artista jesuíta e noviço da Cotovia cuja atividade se desenvolveu até aos finais da primeira metade do século XVII (1644), depois a Gaspar Simões dos Reis e, mais recentemente ao pintor José Pinhão de Matos (165? – 175?). Esta pintura representa a vista panorâmica de Lisboa na segunda metade do século XVII, abarcando o Terreiro do Trigo a Este, até à Cruz Quebrada (já fora dos limites da cidade) a Oeste, passando pela Rocha do Conde de Óbidos e Belém, onde se destaca o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, enquanto para o interior, ainda se consegue visualizar o Paço da Alcáçova, a Sé e São Vicente de Fora e a Oeste uma conjunto de conventos. São reproduzidos detalhadamente toda a zona ribeirinha e mais precisamente o mercado da Ribeira Velha, a Casa da Índia e o Terreiro do Paço devido à perspetiva vinda do rio Tejo, que se encontra cheio de caravelas e naus nacionais e Estrangeiras. A esta Vista de Lisboa no século XVII, é acrescida a partida para Goa de São Francisco Xavier corrido em Abril de 1541[11]. O pintor pinta os diversos momentos do acontecimento: a saída do Santo para a passarela que dá acesso ao Rio, o embarque na galeota e o trajeto desta que se dirige para a nau da armada da Índia. Na parte superior da composição está representada a cena de despedida de Francisco de Xavier ao rei D. João III, envolta por grinaldas suspensas por dois anjos. Um terceiro anjo, no ângulo superior esquerdo desenrola um pergaminho onde se pode ler: “Acceptis a Joane III / pontificis literis / nuntius apostolicus / in Indiam solvit / Santus Francisco Xavierius. /”. Depois de ter recebido as cartas pontifícias das mãos de D. João III, o Núncio apostólico São Francisco Xavier parte para a Índia.

D. João III e o núncio apostólico da Índia, ou A partida de São Francisco Xavier em 1541,
José Pinhão de Mattos, c. 1730.
MNAA

Outra pintura que se encontra referenciada como pertencente ao noviciado está atualmente em exposição neste Museu. É uma Vista Perspectica de Goa e Terras Próximas no Século XVII[12], atribuída erradamente ao retratista Domingos de Gusmão que “… as pintou na casa de provação dos jesuítas”, como é referido num ofício expedido pelo Diretor da FCUL ao Reitor da Universidade de Lisboa em 23 de Julho de 1947 [13]. Datada do século XVIII (1715 d.C. – 1765 d.C.), esta vista de Goa, tal como o Panorama de Lisboa foram encontrados nas coleções da Escola Politécnica em 1864, onde fazia parte de um conjunto de pinturas evocativas da presença de São Francisco Xavier no Oriente.

Vista Perspectica de Goa e Terras Próximas
José Pinhão de Matos
MNAA

Todas estas peças de arte que pertenceram ao noviciado da Cotovia traduzem bem a forma de sentir dos seus ocupantes e da Ordem que Santo Inácio iniciou, onde cada homem é constituído por um composto corpo e alma, isto é, “uniformização” do indivíduo, com “purificação do corpo” e “disciplina da alma”. Este espólio traduz o universo devocional desta comunidade religiosa, utilizado na prática cultual e devocional ou na estimulação do espírito missionário. No gosto dos jesuítas pela Gesamtkunstwerk ou obra de arte total vislumbra-se os princípios estéticos vigentes no mundo católico dos séculos XVI, XVII e XVIII, isto é, pós reforma católica.


[1] Vítor Serrão, A Pintura Proto-barroca em Portugal, 1612-1657, Coimbra: [s.n.], 1992, p. 133; J. da Costa Lima, “Artistas velhos e novos”, in Brotéria cultural, vol. XXXII, 1941, p.408; Joaquim Oliveira Caetano, O púlpito e a imagem: os jesuítas e a arte, Lisboa: Museu de São Roque, 1996, p.23 e 54; J. da Costa Lima, op. cit., p.408.

[2] Vítor Serrão, A Pintura Proto-barroca em Portugal, 1612-1657, Coimbra: [s.n.], 1992, p. 140. Vítor Serrão observa que Reynaldo dos Santos também já tinha verificado que esta série Inaciana revelava uma série de incongruências. Ver inclusive João Barreira, Arte Portuguesa, Lisboa: [s.n.], 1963.

[3] Luís de Moura Sobral, “Espiritualidade e Propaganda nos programas Iconográficos dos jesuítas portugueses”, In A Companhia de Jesus na Península Ibérica nos sécs. XVI e XVII : Espiritualidade e cultura : actas do Colóquio Internacional, Maio 2004, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Instituto de Cultura Portuguesa; Universidade do Porto, Centro Inter-universitário de História da Espiritualidade, 2004, p.402.

[4] Ibidem., p. 141.

[5]Ibidem, p. 401; Joaquim Oliveira Caetano, Pintura, Colecção de Pintura da Misericórdia de Lisboa, Século XVI ao Século XX, Tomo I, Lisboa : S.C.M., 1998; Ibidem, p. 54.

[6] Informação recolhida em José Morais Arnaud (coord.); Carla Varela Fernandes (coord.); Vitória Mesquita (coord.), Construindo a Memória: As Colecções do Museu Arqueológico do Carmo, Lisboa: Associação dos Arqueólogos Portugueses, 2005.

[7] A Companhia de Jesus ordenou o uso da sobrepeliz durante o sermão e nas lições sagradas, daí surgirem estas duas estátuas com este tipo de indumentária.

[8] São Luís Gonzaga é considerado “Patrono da Juventude”. Seu corpo repousa na Igreja de Santo Inácio, em Roma. São Luís Gonzaga escreveu: “Também os príncipes são pó como os pobres: talvez, cinzas mais fedidas”. Após ter recebido a primeira comunhão das mãos de São Carlos Borromeu, decidiu-se pela vida religiosa, entrando para a Companhia de Jesus.

[9] Raul Lino, Luís Silveira, A. H. de Oliveira Marques, Documentos para a história da arte em Portugal, 4º vol., Lisboa: F.C.G., 1969-1991.

[10] Nobiliário [Manuscrito de Rangel de Macedo: Título de Correias e Pazes]. In PORTUGAL. Biblioteca Nacional de Portugal, Inventário : secção XIII : manuscriptos : collecção pombalina, Lisboa: BN, 1889, nº 272 a 276; ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO, Inventário do Cartório do Colégio dos Nobres, Liv. 71, p. 16, nº 3.

[11] Maria Helena Mendes Pinto, “Panorama de Lisbonne at départ de Saint François Xavier pour l’Inde”, in Via Orientalis (catálogo da exposição), Bruxelles: Europalia, 1991.

[12] Idem, “Panorama de Goa et de ses environs”, in Via Orientalis (catálogo da exposição). Bruxelles: Europalia, 1991.

[13] Arquivo Histórico dos Museus da Universidade de Lisboa – MUHNAC. Cópia de ofício expedido pelo Diretor da FCUL ao Reitor da Universidade de Lisboa em 23 de Julho de 1947. Lv. 718.

Um túmulo no acervo do Museu Nacional da História Natural e da Ciência, Lisboa

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e esposa [séc. XVII]

A primeira pedra do noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus, foi lançada a 23 de abril de 1603, catorze anos depois do primeiro contrato para a construção do edifício. A pedra estava toda ornamentada com ramos de folhagem e flores silvestres. Com seis faces, como foi descrito atrás, tendo na sexta face não uma inscrição, mas uma concavidade onde Fernão Teles de Meneses, seu fundador, colocou um “português de oiro” e medalhas devotas[1]. À cerimónia assistiram os fundadores, o Provincial, o Reitor Padre António Mascarenhas e outros jesuítas vindos dos colégios da Província portuguesa.

Dois anos depois, Fernão Teles de Meneses já não assistiu ao lançamento da primeira pedra da igreja do noviciado, morrendo no dia 26 de janeiro de 1605. D. Maria de Noronha, sua esposa, pediu que as obras da Capela-mor (do lado do Evangelho) terminassem o mais rápido possível, para lá colocar o túmulo do seu marido, pois os ossos tinham ficado num trono do cruzeiro da igreja de S. Roque, à espera do traslado. Mandou fazer um mausoléu que lhe custou 3.000 cruzados, onde foram colocados primeiro, os ossos de Fernão Teles e em 1623 os seus.

Em 1893, Sousa Viterbo referia-se ao mausoléu de mármore como tendo uma forma de pirâmide com mais ou menos seis metros de altura. A arquitetura tumular é muito idêntica à dos túmulos reais que se encontram na capela-mor da igreja de Santa Maria de Belém, no Mosteiro dos Jerónimos[2]. Assentava, o túmulo, sobre dois elefantes de mármore cinzento-escuro[3]. Segundo nos descreve Matos Sequeira,

 «O túmulo dos fundadores que estava, como já disse, na capela-mor, foi removido para um barracão, existente numa das dependências da Escola, depois do incêndio de 1843. Aí se conserva ainda hoje ao abandono, apeado dos elefantes, em cujo dorso se apoia, por não caber em altura no barracão. Fazem-lhe companhia, alguns destroços da igreja, troços de colunas e de capitéis, pedaços de imagens e entulho que farte»[4]

Dia 1 de Novembro ficou pronta a igreja e foi colocado no altar o Santíssimo Sacramento[5].  Oito dias depois foi feito o traslado dos ossos, que se encontravam num trono do Cruzeiro, num cofre de veludo preto com fechadura dourada, na igreja de S. Roque, para a Capela-mor da igreja do noviciado da Cotovia. Saíram em cortejo com velas acesas e entoando cânticos. Chegando à igreja do noviciado, toda coberta com panos de luto e cheia de luzes, fez-se a missa, desceu-se o corpo à sepultura.[6]

A 13 de Junho de 1619, dia de Sto António entraram os primeiros quinze noviços na nova e única Casa de Provação até esta data, sem ainda estar concluído nem o edifício, nem a igreja.

Escultura Tumular

Este tipo de escultura é de grande importância, não apenas pelo seu valor histórico, mas, também, devido ao seu valor artístico, pois eram quase sempre executadas por bons escultores, para servirem de morada “eterna” para gente da nobreza ou religiosos. Na Capela-mor das Igrejas dos Colégios da Companhia de Jesus encontramos sempre o túmulo do fundador do noviciado, conforme impunham as “Constituições”(309-310), além de testemunhar o sentimento de gratidão à figura benemérita do Fundador (312-314). Nenhum colégio jesuítico podia ser fundado sem que existisse uma pessoa que garantisse financeiramente a construção e manutenção dos edifícios em causa. Este túmulo que se encontrava no Altar-mor da Igreja do Noviciado da Cotovia é mais um exemplo que não foge à regra.

Reproduz o modelo régio que se encontra na capela-mor da igreja do mosteiro Jerónimo de Santa Maria de Belém e que se integra numa tipologia de tumularia portuguesa que abrange o final do século XVI até ao início do século XVIII.

Segundo Vítor Serrão[7], o arquiteto régio Pedro Nunes Tinoco (ativo de 1604 a 1641) poderia ter sido o presumível executor da traça deste mausoléu pois encontra-se ativo no tempo em que este foi construído (± 1616).

Desde o incêndio de 1843 que se encontra emparedado numa das dependências dos Museus da Politécnica, tendo-lhe sido retirado os seus dois elementos de suporte (elefantes indianos) devido à sua altura.

Segundo Teresa Vale, que estudou este tipo de tumularia, este tipo de tumularia pós Santa Maria de Belém, era composta por dois tipos de elementos: um corpo do monumento em forma piramidal e outro com elementos de suporte, que na igreja dos Jerónimos são elefantes, tal como no tumulo dos fundadores da casa do Noviciado da Cotovia (igreja). O túmulo está acompanhado de legenda com o objetivo de perpetuar a memória do morto.

Túmulo

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha (cerca de 1616)

Museu/instituição: Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Universidade de Lisboa

Denominação: Túmulo/ Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha

Autor (es): Desconhecido

Datação: Início do século XVII D.C. (± 1616)

Descrição: Monumento fúnebre que reproduz o modelo régio que se encontra na capela-mor da igreja do mosteiro Jerónimo de Santa Maria de Belém e que se integra numa tipologia de tumulária portuguesa que abrange o final do século XVI até ao início do século XVIII.

Na base do túmulo encontra-se uma inscrição gravada em sete linhas, que diz o seguinte:

«Aqui jaz Fernão Teles de Meneses filho de Bras Teles de Meneses, Camareyro mor e Guarda mor e Capitão dos Ginetes, q foi do Iffãte D. Luis, e de D. Catarina de Brito sua molher, o qual foy do Cõselho do Estado D`El Rey nosso Sõr. E governou os Estados da India e o Reyno do Algarve e foy Regedor da justiça da casa da suplicação e Presidente do Conselho da India e partes ultramarinas. E a sua molher D. Maria de Noronha filha de D. Frãcisco de Faro Vedor da fazenda dos Reys D. Sebastião e D. Anrique, e de D. Mesia de Albuquerque sua primeyra molher: os quais fundaram e dotarão esta casa da Provação da Compª de Jesu, e tomarão esta Capella mor pêra seu iazigo. Falleceo Fernão Teles de Mñs a XXVI. De Novº de M.D.C.V. e de Mª de Nr. A VII de Março de MDCXXIII».

O padre António Franco refere-se ao túmulo da seguinte maneira:

«Mandou esta Senhora fabricar hum magestozo mausoleo de mármores, assentado sobre dous elefantes em hũ vão no lado do Evangelho da Capella mor. He a obra neste género grandioza, fez de curto três mil cruzados»[8]

Para Matos Sequeira, «O sumptuoso túmulo era de mármore liso, assente sobre dois elefantes, tendo na face do caixão um extensíssimo epitáfio»[9].

Num manuscrito intitulado História de Lisboa a referência a este túmulo é feita da seguinte maneira:

 « Na Capella se vê da parte do Evangelho hum arco de pedraria com bastante fundo sobre dous elefantes de mármore com cor que nam deixa de ter semelhança com a natural dos elefantes, e sobre elles um bem laurado tumulo…»[10].

Depois do incêndio de 1843, este túmulo que estava na Capela-mor da igreja do Noviciado da Cotovia, foi removido para uma dependência do edifício, apeado dos seus elefantes e emparedado, e aí se encontra até hoje, embora tenham sido feitas algumas tentativas para lhe dar um lugar mais digno, juntamente com outros destroços da igreja, restos de imagens, colunas e capitéis[11].

  O túmulo era composto por essas e suporte. Essas com uma sucessão de volumes em forma piramidal, lembrando monumentos fúnebres do antigo Egipto, da Suméria e da Índia hindu ou, em Portugal, faz lembrarem as cerimónias fúnebres onde utilizando um catafalco[12], que se cobria com tecidos ricos, como por exemplo, brocados e veludos, se colocava o caixão com o defunto.

 Em relação ao suporte, pensa-se que o motivo que levou à escolha da representação de elefantes tenha a ver com a época histórica e heroica que estávamos a passar, ligada ao descobrimento pelos portugueses de novas terras “Além-mar”, em parte porque se trata de elefantes indianos.

Ao longo dos tempos o elefante esteve sempre associado a grandes cerimónias. Na Ásia simbolizava o poder real. No Ocidente simbolizava eternidade, temperança, piedade, associadas à soberania, ao poder e à riqueza. Em Roma, por exemplo, fazia parte das monumentais exéquias e cortejos fúnebres dos imperadores. Na arte oriental o elefante como elemento de suporte é simbólico de animal-suporte-do-mundo: o universo repousa sobre o lombo de um elefante[13]. Em Portugal, acompanhava os cortejos de D. Manuel, serviu como presente oferecido por D. João III ao arquiduque Maximiliano de Áustria e até o papa Pio IV solicitou a D. Sebastião um par de elefantes. Além de todas estas justificações a nível formal e simbólico podemos também referir que a nível técnico este modelo tumular não implicava grandes recursos manuais e de especialidade. A obra exigia apenas um trabalho de canteiro e não de um escultor. O que cativou a realeza e a nobreza por este tipo de sepultura terá sido o seu aspeto em pirâmide e o material utilizado (mármores).[14]

Segundo Vítor Serrão[15], o arquiteto régio Pedro Nunes Tinoco (activo de 1604 a 1641) poderia ter sido o presumível executor da traça deste mausoléu pois encontra-se ativo no tempo em que este foi construído (± 1616) e além disso, projetou vários túmulos idênticos, baseados na mesma traça do encomendado por D. Maria de Noronha, como por exemplo, o que se encontra no Mosteiro de Santo António da Lourinhã (1618-1619, da sepultura de D. Brites Brandoa (as essas são idênticas mas sem os suportes).

Proveniência/incorporação: Noviciado da Cotovia      

In  VEIGA, Francisca Branco – “Noviciado da Cotovia: O passado dos Museus da Politécnica 1619-1759” [texto policopiado]. Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Património Cultural. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2009.    

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha (cerca de 1616)
Vista Superior

                            


[1] FRANCO, António, Imagem da Virtude…em Lisboa, p.10.

BNP, cód. 429, s.p..

ANTT, Liv.187, Cap. VII.

[2] Veja-se Visita Guiada, Episódio 3 – de 21 Mar 2016 – RTP Play – RTP

[3] FRANCO, António, Imagem…, Lisboa, p.12.

[4] Sequeira, Gustavo de Matos, ibid., p. 245.

[5] ANTT, Liv. 187, Cap. VIII.

[6] «…e no dia seguinte pella manha nove de Novembro foram os Religiosos de Sam Francisco fazerlhe hum officio muy solemne de nove Lições com sua Missa, cantandolhe no fim della hum Responso, disendose pellos Religiosos de Sam Francisco, e da Companhia pella alma do defunto, muytas Missas…»

BNP, cód. 429, 2º, De como por um meyo naõ esperado se adiantou muyto a casa do Noviciado

[7] SERRÃO, Vítor Manuel, O Arquitecto Maneirista Pedro Nunes Tinoco. Novos Documentos e Obras (1616-1636), pp. 30-31.

[8] FRANCO, António, Imagem da Virtude… em Lisboa, p.12.

[9] SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Depois do terremoto, p. 217, 218.

[10] BNP, cód. 145 e 429, Capítulo XV, Da Casa do Noviciado da Companhia de Iesus, códices para o estudo dos monumentos sacros da capital, com 476 fl, e foi escrito nos annos de 1704 a 1708, s.p.

[11] SEQUEIRA, Gustavo de Matos, ibid., p. 245

[12] Catafalto – uma série de caixas sobrepostas que vão diminuindo de dimensão.

[13] CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain, Dicionário dos símbolos, p.279.

[14] VALE, Teresa Leonor M., Exotismo e Poder Político. As Representações de Elefantes na Tumulária Régia de Santa Maria de Belém, p. 97-109.

[15] SERRÃO, Vítor Manuel, O Arquitecto Maneirista Pedro Nunes Tinoco. Novos Documentos e Obras (1616-1636), pp. 30-31.

Um véu de Cálice de origem chinesa no espólio de um Museu de História Natural e da Ciência

Os paramentos e as vestes litúrgicas serviram aos religiosos como um importante instrumento e método de encenação das cerimónias religiosas. Na Sessão XXII, do Concílio de Trento, tratou-se dos Cânones do Sacrifício da Missa, onde se afirmou que, aquele que «…disser que as cerimónias, vestimentas, e sinais externos que usa a Igreja Católica na celebração das Missas, são muito mais incentivos de impiedade que obséquios piedosos, seja excomungado» (Cân. VII)[1]. Para a igreja católica, as vestes representam Cristo cheio de glória e simbolizam a comunidade que crê em Cristo ressuscitado.

Frei Plácido Barroco, em 1791, afirma acerca das Vestes Litúrgicas:

«Nós contestamos sem disputa que as vestes sacerdotais, como a maior parte das Cerimónias, são de si indifferentes; mas nem por isso deixaremos de as reputar de huma necessidade absoluta; porque a nossa natureza corporea não tem quem a mova facilmente, como as cousas sensíveis. Se os sacerdotes ainda pela razão, e uso das Nações barbaras, mereceram civilmente hum traje diverso, característico da sua dignidade, que seria negallo a Igreja aos verdadeiros Ministros do Altar, principalmente nas funções sagadas, onde pedem de nós maior respeito?»[2]

Desde o século VIII com a Ordinis Romani, até ao Caeremoniale episcoporum, publicado pelo Papa Clemente VIII, em 14 de julho de 1600, assiste-se a uma normalização e consequente controlo sobre o vestiário litúrgico[3].

Foi a partir do século XVI que se normalizou as cores das vestes litúrgicas de acordo com o tempo litúrgico. Nos séculos XVII e XVIII, a opulência no luxo litúrgico igualava ou excedia a riqueza da vida profana, porque além das vestes e objetos litúrgicos a igreja investiu em belas obras de arte, feitas pelos melhores artistas, consagrando-as ao culto divino[4]. Os paramentos são elaborados com tecidos encorpados de ouro e de prata, bordados, pintados, com galões, esmaltes e pedras. Nas casulas, dalmáticas, e capas de asperges vão ser usados tecidos de seda, damascos, veludos e brocados, adaptadas à calendarização das cores de acordo com o ano e festas litúrgicas. A indumentária adaptou-se ao sagrado e utilizou os usos de uma tradição, tendo por base o traje civil de cerimónia usado pelos Romanos, como por exemplo, as dalmáticas usadas por alguns oficiais curiais, como os reis-de-armas, as passavantes, os arautos[5] ou vestes de outras origens, como por exemplo, a dalmática e a mitra que tem origem grega[6].

Relativamente à Companhia de Jesus que numa fase inicial se identificava com um total desprendimento relativamente ao aparato, com o decorrer dos tempos e devido a vários condicionalismos, mas, principalmente por razões da crescente importância da pedagogia, acabaram por investir massivamente em obras de arte. Utilizando a imagem, os jesuítas tornaram-se excelentes “educadores das almas”. Paramentaria, pintura, escultura e talha, relicários, ourivesaria e azulejaria, vão exercer sobre o homem crente um poder ilusório de proximidade com o Divino. As normas relativas à arte determinadas pela igreja pós-tridentina, viradas para a imagem e ornato, vão fazer eclodir no fiel os seus sentidos, tornando-se uma arma poderosa de propaganda religiosa.

Assim, a função dos paramentos, ricamente bordados, é decorativa, mas serve também «…de reforço do mecanismo de atração dos sentidos dos crentes»[7] e de “Propaganda” da Fé Católica onde o artista se realiza, pois, a Deus tudo é devido.[8]

As cores e as ornamentações vão variar de acordo com as diferentes ocasiões acompanhando o calendário litúrgico e renovando-se ciclicamente ao longo do ano. Importam-se as novas tendências artísticas da Europa e do Oriente exótico, exemplo dessas novas tendências é o frontal de altar e véu de cálice chinês que fazem parte do espólio que chegou aos nossos dias da Igreja do Noviciado da Cotovia (espaço atualmente ocupado pelo Museu Nacional de História Natural e da Ciência). Fausto Martins, refere um colégio de Coimbra que, em 1564, carecendo a igreja de paramentos e não se encontrando em boa situação económica, preferem esperar por um carregamento que estava para chegar da Índia e até lá iam-se remediando com a ajuda da Casa de S. Roque, de Lisboa[9].  Neste caso, é bem visível a predileção dos padres jesuítas pelo luxo que vinha do oriente. Maria Filomena Brito refere na obra No caminho do Japão: arte oriental nas colecções da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa[10], que as sedas chinesas ocupavam um lugar cimeiro nas trocas comerciais devido ao seu valor, à raridade dessas peças, à qualidade do tecido e do bordado. Além disso, o baixo custo das peças e da mão-de-obra originou um elevado número de encomendas.

No século XVII, os motivos aplicados nos tecidos portugueses são inspirados por esta cultura oriental, indiana e chinesa. Temas como a flora, a fauna e a mitologia oriental, vão ser utilizados em todas as artes decorativas e em especial nos tecidos, que depois vão ser bordados (águias bicéfalas, Lotus, naginis, etc). E assim, chegaram até nós, paramentos litúrgicos ricamente bordados com motivos orientais[11].

Tendo em conta as diversas comunidades religiosas do Padroado Português no Oriente e de um conjunto de comerciantes portugueses que faziam trocas comerciais nestas zonas, podemos “imaginar” que a circulação e utilização destas peças têxteis de manufatura chinesa seriam banais e de uso comum, mas ao mesmo tempo chegam a Lisboa – a cidade europeia mais cosmopolita[12] – como produto exótico e muito atrativo e a baixo custo, devido à utilização de mão-de-obra barata.


[1] IGREJA CATÓLICA, Concílio de Trento, 1545-1563 – O sacrosanto, e ecumenico Concilio de Trento em latim e portuguez, Lisboa, 1781, p.103-107.

[2] Plácido de Andrade, Frei,  Barroco, Dissertação sobre a origem da Veste Sagrada, Lisboa, Regia Officina Typografica, 1791, p. 2, nota 3.

[3] GUERREIRO, Jacinto Salvador, “Vestes Litúrgicas”. In Dicionário de História Religiosa de Portugal. Dir. Carlos Moreira Azevedo, Lisboa, 2001, p.329.

[4] SANTOS, Reynaldo, História da Arte em Portugal, v. II, p. 405-412.

[5] AZEVEDO, Carlos Moreira, História Religiosa de Portugal, p. 480.

[6] TAVARES, Jorge Campos, Dicionário dos Santos,p. 161.

[7] ALVES, Natália Marinho Ferreira, “Nótula para o estudo da paramentaria bracarense no séc. XVIII”. Separata da revista da Faculdade de Letras, II série,  vol. VIII, p.307-308.

[8] IGREJA CATÓLICA, Concilio de Trento, 1545-1563, O Sacrosanto e Ecuménico Concilio de Trento em Latim e Portuguez. Tradução e organização por Jean-Baptiste Reycend. Lisboa: Officina patriarc. De Francisco Luiz Amendo, 1781, Tomo 2, p.103-107.

[9] MARTINS, Fausto Sanches, A Arquitectura dos primeiros colégios jesuítas [texto policopiado]: 1542-1759: cronologia, artistas, espaços, pp.57; 91.

[10] SILVA, Nuno Vassalo e; BRITO, Maria Filomena; MORNA, Teresa Freitas, No caminho do Japão: arte oriental nas colecções da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, p. 64.

[11] SANTOS, Reynaldo dos, História da arte em Portugal, vol. II, p.418. Época alta do Noviciado da Cotovia, e da formação de noviços para as missões no Oriente.

[12] Segundo João Baptista Lavanha é para Lisboa que “…concorrem maiores bes da natureza & fortuna, que em outras muitas do Mundo (…) he hua praça universal de todo o Orbe, pela riqueza dos seus Cidadãos, frequência de varias nações que nella se juntão, & nella reside, com que parece hu Mundo abreviado”, in LAVANHA, João Baptista, Viagem da Catholica Real Magestade El Rey D. Filipe II N. S. Ao Reino de Portugal, Madrid: por Tomas Junti, 1622, p. 9.     

Véu de Cálice (MNHNC)

Véu de Cálice

Museu/instituição: Museu Nacional de História Natural e da Ciência – ULisboa

Categoria:  Têxteis

Subcategoria:  Paramentaria

Centro de Fabrico: China (Cantão)

Autor(es):   Desconhecido

Prov.: Noviciado da Cotovia

Matéria: Tecido em seda creme bordada a fio de ouro metálico e sedas policromas.

Data: séc. XVIII d.C.

Dimensões: 48,2 × 52,2 cm

Descrição: Véu de cálice em seda creme de origem chinesa, com pouca torção, com desenhos ténues de losangos, imagens de crisântemos e galhos de frutos. Com desenho de base aparente. Ponto orientado que não passa para o avesso, com contorno fixado a fio de seda.

Elaborado com fio metálico chinês, fio de seda policroma e ouro, com padrão geometrizado e motivos florais. Ao centro, inscreve-se, em cartela circular com raios setiformes, lisos e em serpentina, alternantes, a inscrição IHS, emblema dos jesuítas. Cercadura onde se desenvolve uma decoração com motivos estilísticos de origem chinesa, flores e enrolamentos fitomórficos.

Véu de Cálice (pormenor)
Véu de Cálice (Pormenor)