Fernão Teles de Meneses (governador da Índia e fundador do noviciado da Cotovia)

(I – Fernando Tellez
Retratos dos Vices Reys e Governadores da India dispostos pela ordem de seus governos collegidos nos mezes de Abril e Maio de 1791. Publicado entre 1674 e 1791.
II – Fernão Teles de Meneses, segundo a pintura do Palácio de Goa.
Tratado de todos os vice-reis e Governadores da Índia. Publicado em 1962
III – Fernão Teles de Meneses, (Galeria dos Vice-Reis) Archaeological Museum, Velha Goa, Goa.
Vice-Reis e Governadores da Índia Portuguesa. Publicado em 1999.
IV – Fernão Teles de Meneses.
MNHNC. Século XVII)

Fernão Teles de Meneses, nasceu em 1530 em Santarém, filho de Brás Teles de Meneses, alcaide-mor de Moura, camareiro-mor, guarda-mor e capitão dos ginetes e se D. Catarina de Brito. Casado com D. Maria de Noronha, filha de D. Francisco de Faro, da casa dos condes de Faro, Vedor da Fazenda dos reis D. Sebastião e D. Henrique e de D. Mécia de Albuquerque Henriques. Segundo D. António Caetano de Sousa, “…nella nomeou seu pay hum Padraõ de huma tença com licença delRey, por Provisaõ passada a 8 de Fevereiro de 1579, que está no Liv. 14. Fol.272. da sua Chancelaria.”[1] Não tiveram filhos mas Fernão Teles de Meneses teve uma filha fora do casamento,de seu nome Soror Clara do Lado, freira do mosteiro do Castelo, em Moura,[2]ao qual deixou bens depois da sua morte.[3]

Seguiu viagem para a Índia em 1566, na armada do vice-rei D. Antão de Noronha[4] e fez parte, como capitão de uma fusta[5], numa expedição dirigida por D. Antão de Noronha contra a rainha de Olala, em 1568.Em 1570 foi a pedido do Conde de Atouguia em seu auxílio para libertar Chaul do cerco dos inimigos. Serviu de maneira ilustre como capitão em Ormuz e no Malabar.

Retrato póstumo de Luís de Camões, oferecido por 
Fernão Teles de Meneses a D. Luís de Ataíde, datado de Goa, 1581[6]

Com a morte do Conde de Atouguia e aberta a primeira via de sucessão, ficou a 10 de Março de 1581 com o seu lugar de governador da Índia, tomando posse do cargo a 13 do mesmo mês. Antes da sua mudança para a Casa dos Governadores mandou colocar lá o seu retrato. A sala dos retratos que de inicio se encontrava na Casa de Sabaio, foi com Fernão Teles de Meneses transladada para uma nova casa, conhecida como “casa da fama”,[7] mandada construir por D. Luis de Ataíde, sendo completada com todos os retratos dos governadores e vice-reis seus antecessores. Tomou, nessa altura, conhecimento da posse de Filipe I no trono de Portugal. A 3 de Novembro de 1581 jurou e fez jurar o novo rei em todo o estado da Índia. Fez entrega do governo, sem ter feito qualquer alteração na administração pública, a D. Francisco de Mascarenhas, Conde de Sta Cruz, em 17 de Setembro do mesmo ano.

 Na Biblioteca Nacional encontra-se um documento relativo às armadas que partiram para a Índia onde faz a seguinte referência a Fernão Teles de Meneses: “ D. Francisco de Mascarenhas Vice-Rei e Capitão-mor partio a 4 de Abril, Capitães Pero Lopes de Sousa, Manoel de Miranda, João Menelao. E para Malaca hum Galeão de que era Capitão Leonel de Lima, que voltando para este Reino invernou em Moçambique, e não pode fazer viagem. A nao de Manoel de Miranda desapareceo á volta e elle ficou na India. Nestas naos veio o Governador Fernão Telles que succedeo ao Conde de Atouguia.”[8]

Retratos dos Vices Reys e Governadores da India dispostos pela ordem de seus governos collegidos nos mezes de Abril e Maio de 1791. – [S.L. : s.n., entre 1674 e 1791], nº 79.

Por iniciativa de Filipe I, regressa a Portugal tendo-lhe sido entregue o governo do Algarve, além do lugar de Capitão-general do mesmo território, General da armada, Conselheiro de Estado, Regedor da Casa da Suplicação e presidente do Conselho da Índia. Era Comendador de Santa Maria da Louzãa na Ordem de Cristo, e da de Moura na Ordem de Aviz.

Como Governador do Algarve (1º governador do Algarve que se seguiu aos fronteiros-mores) participou na resistência às tentativas de desembarque de Drake em Lagos.[9] Os danos causados pela artilharia inglesa a Lagos, bem como o receio de novos ataques no litoral, levaram à reconstrução das suas defesas nos anos seguintes. Em 1598, Fernão Telles de Menezes concluiu as obras na segunda cerca da muralha.

Nesta altura encontrava-se o casal a morar em Lagos quando souberam que a Companhia de Jesus procurava um local para fundar uma casa separada para os noviços, logo se propuseram a ser seus fundadores. A 18 de Setembro de 1589 foi lavrada a primeira escritura, em Lagos, com a presença do Pe. jesuíta Pedro Lopes. Ficou determinado, tanto pelo Geral Aquaviva como pelos doadores, que iriam dar 500$000 réis de juros ou terras que rendessem 20.000 cruzados em dinheiro. Mas já em Lisboa, no dia 26 de Dezembro de 1597 foi feita nova escritura onde o Padre Provincial Cristóvam de Gouveia recebeu de Fernão Telles e sua esposa 20.000 cruzados,[10]representada uma terça parte pela Quinta do Monte Olivete e os outros dois terços por padrões de juros.

O Pe. Provincial deu início no dia 18 de Dezembro de 1598 ao noviciado na Quinta de Campolide, mandando vir quinze noviços dos noviciados dos colégios de Coimbra e Évora, onde se criavam os noviços de toda a Província. O primeiro reitor desta casa foi o Pe António Mascarenhas. [11]

Durante algum tempo procuraram sítio para a casa do noviciado mas devido à impaciência de Fernão Telles resolveram os jesuítas começar a construir em terreno que este deixou em doação.[12] A actual rua do Monte Olivete, perpendicular à Rua da Escola Politécnica corresponderia à antiga Quinta da Cotovia.

Frente à quinta do Monte Olivete ficavam as terras de André Soares e sua esposa Maria Botelho. Ao seu neto chamavam «o da Cotovia» e morava nas casas nobres da quinta da Cotovia, actual Imprensa Nacional.

O sítio era o ideal pois ficava perto da Casa Professa de S. Roque, tinha ótimos ares e muito terreno para cultura e pomares.[13] O terreno de tipo argiloso, muito utilizado pelos oleiros da zona, e de calcário gredoso de cor amarela, dificultou a construção do edifício tendo que se procurar terreno mais firme para as fundações.[14] Encontrou-se no ponto mais alto da quinta, junto à estrada para Campolide. A primeira pedra foi lançada, como já foi referenciado atrás, a 23 de Abril de 1603, catorze anos depois do primeiro contrato para a construção do edifício. A pedra estava toda ornamentada com ramos de folhagem e flores silvestres. Com seis faces, como foi descrito atrás, tendo na sexta face não uma inscrição mas uma concavidade onde Fernão Teles de Meneses colocou um “português de oiro” e medalhas devotas[15]. À cerimónia assistiram os fundadores, o Provincial, o Reitor Padre António Mascarenhas e outros jesuítas vindos dos colégios da Província portuguesa.

Nesta altura da sua vida, o escudo de armas de Fernão Teles de Meneses podia ostentar o leão altivo, de cor púrpura (grandeza e sabedoria elevada)., dos Silvas, o anel encoberto dos Meneses e como símbolo da sua generosidade um campo azul (zelo, lealdade, caridade, justiça, lealdade, beleza e boa reputação) com um coração de ouro (nobreza, riqueza e poder).[16]

Dois anos depois já não assistiu, ao lançamento da primeira pedra da igreja do noviciado, morrendo no dia 26 de Janeiro de 1605. D. Maria de Noronha, sua esposa, pediu que as obras da Capela-mor (do lado do Evangelho) terminassem o mais rápido possível, para lá colocar o túmulo do seu marido, pois os ossos tinham ficado num trono do cruzeiro d igreja de  S. Roque à espera do traslado. Mandou fazer um mausoléu que lhe custou 3.000 cruzados, onde foram colocados primeiro, os ossos de Fernão Teles e em 1623 os seus.

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha
Museu/instituição: Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Universidade de Lisboa
Denominação: Túmulo/ Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha
Autor (es): Desconhecido
Datação: Início do século XVII (± 1616)

[1] SOUSA, António Caetano de, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, T. IX, p. 333.

[2] , Júlio de, Lisboa antiga : o Bairro Alto, p.27.

[3] SOUSA, António Caetano de, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, T. IX, p. 333.

[4] SEQUEIRA, Gustavo Matos, Depois do Terremoto, Lisboa, 1916, p. 205.

[5] Embarcação comprida de fundo chato, de vela e remo.

[6] In http://www.instituto-camoes.pt/…/camoes02.jpg

COUTINHO, B. Xavier Camões e as artes plásticas: subsídios para a iconografia camoneana, 1946-1949,Porto, p.9-18. Nesta iluminura existe uma incógnita relativa ao nome assinado pelo pintor. É composta pelo local e data, mais o nome Pinto e mais um conjunto de sinais orientais, chineses. Xavier Coutinho, coloca a incógnita relativamente ao nome do pintor pois, segundo ele, o nome tanto pode ser Pinto como os símbolos orientais e assim sendo a palavra Pinto seria Pintô.

[7] BARROS, João de, Decadas da Asia, Lisboa, 1788, p. 106-110.

[8]In, http://nautarch.tamu.edu/SHIPLAB/01guifrulopes/Pguinote-naubn2.htm

[9] Em 1587 desembarcaram, na costa algarvia, corsários ingleses comandados pelo almirante Francis Drake que, aproveitando o clima de guerra existente entre a Inglaterra e a Espanha, saqueiam e espalham o terror em muitas zonas do Algarve. In http://www.glosk.com/PO/Sagres/-3009477/pages/Castelo_de_Lagos/1858_pt.htm

[10] B.N.P., Conventos de Lisboa, cód.429, cap. XV, Caza do Noviciado da Companhia de Jesus, ms.

B.N.P., Historia de Lisboa, cód. 145, Da caza do Noviciado da Companhia de Jesus, ms., 1704 a 1708.

[11] Historia da Fundaçam aumento è progresso da casa de provaçam da Compª de Iesu de Lxª Anno de 1597, cap. 3.

[12] Fundaçam aumento…, Cap. VII.

[13] História de Lisboa

[14] História de Lisboa

Fundaçam aumento…, Cap. VIII.

[15] FRANCO, António, Imagem da Virtude…em Lisboa, 1717, p.10.

Cód. 429,  da BNP. Fundaçam aumento…, Cap. VII.

[16] SEQUEIRA, Gustavo Matos, Depois do Terremoto, p. 216.

Um túmulo no acervo do Museu Nacional da História Natural e da Ciência, Lisboa

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e esposa [séc. XVII]

A primeira pedra do noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus, foi lançada a 23 de abril de 1603, catorze anos depois do primeiro contrato para a construção do edifício. A pedra estava toda ornamentada com ramos de folhagem e flores silvestres. Com seis faces, como foi descrito atrás, tendo na sexta face não uma inscrição, mas uma concavidade onde Fernão Teles de Meneses, seu fundador, colocou um “português de oiro” e medalhas devotas[1]. À cerimónia assistiram os fundadores, o Provincial, o Reitor Padre António Mascarenhas e outros jesuítas vindos dos colégios da Província portuguesa.

Dois anos depois, Fernão Teles de Meneses já não assistiu ao lançamento da primeira pedra da igreja do noviciado, morrendo no dia 26 de janeiro de 1605. D. Maria de Noronha, sua esposa, pediu que as obras da Capela-mor (do lado do Evangelho) terminassem o mais rápido possível, para lá colocar o túmulo do seu marido, pois os ossos tinham ficado num trono do cruzeiro da igreja de S. Roque, à espera do traslado. Mandou fazer um mausoléu que lhe custou 3.000 cruzados, onde foram colocados primeiro, os ossos de Fernão Teles e em 1623 os seus.

Em 1893, Sousa Viterbo referia-se ao mausoléu de mármore como tendo uma forma de pirâmide com mais ou menos seis metros de altura. A arquitetura tumular é muito idêntica à dos túmulos reais que se encontram na capela-mor da igreja de Santa Maria de Belém, no Mosteiro dos Jerónimos[2]. Assentava, o túmulo, sobre dois elefantes de mármore cinzento-escuro[3]. Segundo nos descreve Matos Sequeira,

 «O túmulo dos fundadores que estava, como já disse, na capela-mor, foi removido para um barracão, existente numa das dependências da Escola, depois do incêndio de 1843. Aí se conserva ainda hoje ao abandono, apeado dos elefantes, em cujo dorso se apoia, por não caber em altura no barracão. Fazem-lhe companhia, alguns destroços da igreja, troços de colunas e de capitéis, pedaços de imagens e entulho que farte»[4]

Dia 1 de Novembro ficou pronta a igreja e foi colocado no altar o Santíssimo Sacramento[5].  Oito dias depois foi feito o traslado dos ossos, que se encontravam num trono do Cruzeiro, num cofre de veludo preto com fechadura dourada, na igreja de S. Roque, para a Capela-mor da igreja do noviciado da Cotovia. Saíram em cortejo com velas acesas e entoando cânticos. Chegando à igreja do noviciado, toda coberta com panos de luto e cheia de luzes, fez-se a missa, desceu-se o corpo à sepultura.[6]

A 13 de Junho de 1619, dia de Sto António entraram os primeiros quinze noviços na nova e única Casa de Provação até esta data, sem ainda estar concluído nem o edifício, nem a igreja.

Escultura Tumular

Este tipo de escultura é de grande importância, não apenas pelo seu valor histórico, mas, também, devido ao seu valor artístico, pois eram quase sempre executadas por bons escultores, para servirem de morada “eterna” para gente da nobreza ou religiosos. Na Capela-mor das Igrejas dos Colégios da Companhia de Jesus encontramos sempre o túmulo do fundador do noviciado, conforme impunham as “Constituições”(309-310), além de testemunhar o sentimento de gratidão à figura benemérita do Fundador (312-314). Nenhum colégio jesuítico podia ser fundado sem que existisse uma pessoa que garantisse financeiramente a construção e manutenção dos edifícios em causa. Este túmulo que se encontrava no Altar-mor da Igreja do Noviciado da Cotovia é mais um exemplo que não foge à regra.

Reproduz o modelo régio que se encontra na capela-mor da igreja do mosteiro Jerónimo de Santa Maria de Belém e que se integra numa tipologia de tumularia portuguesa que abrange o final do século XVI até ao início do século XVIII.

Segundo Vítor Serrão[7], o arquiteto régio Pedro Nunes Tinoco (ativo de 1604 a 1641) poderia ter sido o presumível executor da traça deste mausoléu pois encontra-se ativo no tempo em que este foi construído (± 1616).

Desde o incêndio de 1843 que se encontra emparedado numa das dependências dos Museus da Politécnica, tendo-lhe sido retirado os seus dois elementos de suporte (elefantes indianos) devido à sua altura.

Segundo Teresa Vale, que estudou este tipo de tumularia, este tipo de tumularia pós Santa Maria de Belém, era composta por dois tipos de elementos: um corpo do monumento em forma piramidal e outro com elementos de suporte, que na igreja dos Jerónimos são elefantes, tal como no tumulo dos fundadores da casa do Noviciado da Cotovia (igreja). O túmulo está acompanhado de legenda com o objetivo de perpetuar a memória do morto.

Túmulo

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha (cerca de 1616)

Museu/instituição: Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Universidade de Lisboa

Denominação: Túmulo/ Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha

Autor (es): Desconhecido

Datação: Início do século XVII D.C. (± 1616)

Descrição: Monumento fúnebre que reproduz o modelo régio que se encontra na capela-mor da igreja do mosteiro Jerónimo de Santa Maria de Belém e que se integra numa tipologia de tumulária portuguesa que abrange o final do século XVI até ao início do século XVIII.

Na base do túmulo encontra-se uma inscrição gravada em sete linhas, que diz o seguinte:

«Aqui jaz Fernão Teles de Meneses filho de Bras Teles de Meneses, Camareyro mor e Guarda mor e Capitão dos Ginetes, q foi do Iffãte D. Luis, e de D. Catarina de Brito sua molher, o qual foy do Cõselho do Estado D`El Rey nosso Sõr. E governou os Estados da India e o Reyno do Algarve e foy Regedor da justiça da casa da suplicação e Presidente do Conselho da India e partes ultramarinas. E a sua molher D. Maria de Noronha filha de D. Frãcisco de Faro Vedor da fazenda dos Reys D. Sebastião e D. Anrique, e de D. Mesia de Albuquerque sua primeyra molher: os quais fundaram e dotarão esta casa da Provação da Compª de Jesu, e tomarão esta Capella mor pêra seu iazigo. Falleceo Fernão Teles de Mñs a XXVI. De Novº de M.D.C.V. e de Mª de Nr. A VII de Março de MDCXXIII».

O padre António Franco refere-se ao túmulo da seguinte maneira:

«Mandou esta Senhora fabricar hum magestozo mausoleo de mármores, assentado sobre dous elefantes em hũ vão no lado do Evangelho da Capella mor. He a obra neste género grandioza, fez de curto três mil cruzados»[8]

Para Matos Sequeira, «O sumptuoso túmulo era de mármore liso, assente sobre dois elefantes, tendo na face do caixão um extensíssimo epitáfio»[9].

Num manuscrito intitulado História de Lisboa a referência a este túmulo é feita da seguinte maneira:

 « Na Capella se vê da parte do Evangelho hum arco de pedraria com bastante fundo sobre dous elefantes de mármore com cor que nam deixa de ter semelhança com a natural dos elefantes, e sobre elles um bem laurado tumulo…»[10].

Depois do incêndio de 1843, este túmulo que estava na Capela-mor da igreja do Noviciado da Cotovia, foi removido para uma dependência do edifício, apeado dos seus elefantes e emparedado, e aí se encontra até hoje, embora tenham sido feitas algumas tentativas para lhe dar um lugar mais digno, juntamente com outros destroços da igreja, restos de imagens, colunas e capitéis[11].

  O túmulo era composto por essas e suporte. Essas com uma sucessão de volumes em forma piramidal, lembrando monumentos fúnebres do antigo Egipto, da Suméria e da Índia hindu ou, em Portugal, faz lembrarem as cerimónias fúnebres onde utilizando um catafalco[12], que se cobria com tecidos ricos, como por exemplo, brocados e veludos, se colocava o caixão com o defunto.

 Em relação ao suporte, pensa-se que o motivo que levou à escolha da representação de elefantes tenha a ver com a época histórica e heroica que estávamos a passar, ligada ao descobrimento pelos portugueses de novas terras “Além-mar”, em parte porque se trata de elefantes indianos.

Ao longo dos tempos o elefante esteve sempre associado a grandes cerimónias. Na Ásia simbolizava o poder real. No Ocidente simbolizava eternidade, temperança, piedade, associadas à soberania, ao poder e à riqueza. Em Roma, por exemplo, fazia parte das monumentais exéquias e cortejos fúnebres dos imperadores. Na arte oriental o elefante como elemento de suporte é simbólico de animal-suporte-do-mundo: o universo repousa sobre o lombo de um elefante[13]. Em Portugal, acompanhava os cortejos de D. Manuel, serviu como presente oferecido por D. João III ao arquiduque Maximiliano de Áustria e até o papa Pio IV solicitou a D. Sebastião um par de elefantes. Além de todas estas justificações a nível formal e simbólico podemos também referir que a nível técnico este modelo tumular não implicava grandes recursos manuais e de especialidade. A obra exigia apenas um trabalho de canteiro e não de um escultor. O que cativou a realeza e a nobreza por este tipo de sepultura terá sido o seu aspeto em pirâmide e o material utilizado (mármores).[14]

Segundo Vítor Serrão[15], o arquiteto régio Pedro Nunes Tinoco (activo de 1604 a 1641) poderia ter sido o presumível executor da traça deste mausoléu pois encontra-se ativo no tempo em que este foi construído (± 1616) e além disso, projetou vários túmulos idênticos, baseados na mesma traça do encomendado por D. Maria de Noronha, como por exemplo, o que se encontra no Mosteiro de Santo António da Lourinhã (1618-1619, da sepultura de D. Brites Brandoa (as essas são idênticas mas sem os suportes).

Proveniência/incorporação: Noviciado da Cotovia      

In  VEIGA, Francisca Branco – “Noviciado da Cotovia: O passado dos Museus da Politécnica 1619-1759” [texto policopiado]. Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Património Cultural. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2009.    

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha (cerca de 1616)
Vista Superior

                            


[1] FRANCO, António, Imagem da Virtude…em Lisboa, p.10.

BNP, cód. 429, s.p..

ANTT, Liv.187, Cap. VII.

[2] Veja-se Visita Guiada, Episódio 3 – de 21 Mar 2016 – RTP Play – RTP

[3] FRANCO, António, Imagem…, Lisboa, p.12.

[4] Sequeira, Gustavo de Matos, ibid., p. 245.

[5] ANTT, Liv. 187, Cap. VIII.

[6] «…e no dia seguinte pella manha nove de Novembro foram os Religiosos de Sam Francisco fazerlhe hum officio muy solemne de nove Lições com sua Missa, cantandolhe no fim della hum Responso, disendose pellos Religiosos de Sam Francisco, e da Companhia pella alma do defunto, muytas Missas…»

BNP, cód. 429, 2º, De como por um meyo naõ esperado se adiantou muyto a casa do Noviciado

[7] SERRÃO, Vítor Manuel, O Arquitecto Maneirista Pedro Nunes Tinoco. Novos Documentos e Obras (1616-1636), pp. 30-31.

[8] FRANCO, António, Imagem da Virtude… em Lisboa, p.12.

[9] SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Depois do terremoto, p. 217, 218.

[10] BNP, cód. 145 e 429, Capítulo XV, Da Casa do Noviciado da Companhia de Iesus, códices para o estudo dos monumentos sacros da capital, com 476 fl, e foi escrito nos annos de 1704 a 1708, s.p.

[11] SEQUEIRA, Gustavo de Matos, ibid., p. 245

[12] Catafalto – uma série de caixas sobrepostas que vão diminuindo de dimensão.

[13] CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain, Dicionário dos símbolos, p.279.

[14] VALE, Teresa Leonor M., Exotismo e Poder Político. As Representações de Elefantes na Tumulária Régia de Santa Maria de Belém, p. 97-109.

[15] SERRÃO, Vítor Manuel, O Arquitecto Maneirista Pedro Nunes Tinoco. Novos Documentos e Obras (1616-1636), pp. 30-31.