31 de julho: Dia de Santo Inácio de Loyola

Fundador da Companhia de Jesus

Em 2023 assinalaram-se 467 anos da sua morte.

«É necessário tornar-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre-arbítrio (…), desejando e escolhendo somente o que mais nos conduz ao fim para que fomos criados»
Exercícios Espirituais, n.º 23

Morte de Inácio de Loyola, 31 de Julho de 1556. Baseada na biografia do Padre Pedro Ribadeneyra, Vita beati patris Ignatii Loyolae religionis Societatis Iesu fundatoris ad viuum expressa ex ea quam.., de 1609, autoria de Peter Paul Rubens.

No dia 31 de julho de 1556, Santo Inácio de Loyola faleceu, inesperadamente, em Roma, aos 65 anos de idade. Morreu numa modesta sala da Casa Professa da Companhia de Jesus, junto da antiga igreja de Santa Maria della Strada, onde viveu os seus últimos anos.

Em 1587, os seus restos mortais foram trasladados para a igreja do Gesù, a igreja-mãe da Companhia de Jesus. Cinquenta anos mais tarde, em 1637, foram definitivamente depositados numa magnífica urna de bronze, da autoria de Alessandro Algardi, colocada sob o altar da Capela de Santo Inácio, uma das mais notáveis obras do jesuíta Andrea Pozzo.

Logo após a sua morte, o seu secretário e companheiro, o Padre Juan Alfonso de Polanco, escrevia, numa carta datada de 6 de agosto de 1556, que por toda a parte se ouvia a mesma expressão:

«Morreu o Santo.»

Era o reconhecimento espontâneo da santidade daquele que transformara profundamente a vida religiosa da Igreja.

A obra de Inácio estava consolidada. A Companhia de Jesus encontrava-se oficialmente aprovada, os Exercícios Espirituais haviam sido reconhecidos como um dos maiores textos da espiritualidade cristã e as Constituições da Ordem encontravam-se praticamente concluídas. A nova família religiosa estava implantada em diversos países e lançava as bases de uma das mais vastas redes missionárias, educativas e culturais da época moderna.

Quando a Companhia foi oficialmente aprovada, em 1540, contava apenas dez companheiros. À data da morte do fundador, dezasseis anos depois, reunia já cerca de mil jesuítas, distribuídos por 13 províncias, mais de uma centena de casas e cerca de 35 colégios em funcionamento, aos quais se juntavam vários outros em preparação. O extraordinário crescimento da Ordem testemunha a força do ideal inaciano e a rápida difusão da sua missão apostólica.

Capela de Santo Inácio, no braço esquerdo do transepto. Igreja de Gesù, Roma.

Planta da Igreja de Gesù, Roma, Itália.
1.Capela de Santo Inácio de Loyola, obra do jesuíta Andrea Pozzo. Contém a urna de Santo Inácio. Esta é em bronze e da assinatura de Alessandro Algardi.
2. Acesso ao quarto de Santo Inácio

Ainda hoje é possível visitar o quarto de Santo Inácio, preservado na Casa Professa do Gesù, onde viveu os últimos doze anos da sua vida. Foi nesse espaço que redigiu grande parte das Constituições da Companhia de Jesus e manteve uma intensa correspondência com os jesuítas espalhados pela Europa, Ásia, África e Novo Mundo, acompanhando de perto o desenvolvimento da Ordem.

O lema que orientou toda a sua vida permanece como síntese da espiritualidade inaciana:

Ad Maiorem Dei Gloriam
«Tudo para a maior glória de Deus.»

A oração de Santo Inácio

Entre os textos tradicionalmente associados à espiritualidade inaciana destaca-se a célebre oração Alma de Cristo, rezada ainda hoje por milhões de cristãos em todo o mundo:

Alma de Cristo, santificai-me.
Corpo de Cristo, salvai-me.
Sangue de Cristo, inebriai-me.
Água do lado de Cristo, lavai-me.
Paixão de Cristo, confortai-me.
Ó bom Jesus, ouvi-me.
Dentro das vossas chagas, escondei-me.
Não permitais que eu me afaste de Vós.
Do espírito maligno, defendei-me.
Na hora da minha morte, chamai-me
e mandai-me ir para Vós,
para que, com os vossos santos,
Vos louve por todos os séculos dos séculos.
Amém.

Peter Paul Rubens – Saint Ignatius of Loyola
1620-22. 223×138. Norton Simon Pasadena Museum

Legado


«Em tudo amar e servir.» (Exercícios Espirituais, n.º 233)

Esta breve expressão constitui a síntese da espiritualidade de Santo Inácio de Loyola e do ideal que presidiu à fundação da Companhia de Jesus. Para o fundador dos jesuítas, a vida cristã não se esgota nos momentos de oração nem se circunscreve ao espaço da igreja; realiza-se no quotidiano, através do serviço generoso, da disponibilidade para a missão e da procura constante da vontade de Deus. Amar significa reconhecer a presença de Deus em todas as coisas e corresponder ao seu amor; servir é colocar a inteligência, os talentos e a liberdade ao serviço do próximo, da Igreja e do bem comum.

Foi este espírito que moldou a identidade da Companhia de Jesus e impulsionou a sua extraordinária expansão missionária. Desde os primeiros companheiros de Inácio, muitos dos quais partiram de Lisboa rumo aos quatro cantos do mundo, os jesuítas dedicaram-se à evangelização, ao ensino, à investigação científica, ao diálogo entre a fé e a cultura e à promoção da justiça, deixando uma marca profunda na história da Igreja e da humanidade.

Como refere António Lopes, «Lisboa foi a maior rampa de lançamento que teve Inácio de Loyola para realizar o seu sonho de levar a todos os povos da Terra a Boa Nova de Jesus de Nazaré» (LOPES, Roteiro Histórico dos Jesuítas em Lisboa, p. 7). A capital portuguesa tornou-se, assim, um dos principais centros da expansão missionária da Companhia de Jesus durante os séculos XVI e XVII.

Quase cinco séculos após a sua morte, o legado de Santo Inácio permanece vivo. A sua espiritualidade continua a inspirar milhões de pessoas em todo o mundo, convidando cada geração a discernir, em cada circunstância da vida, a melhor forma de «amar e servir», vivendo para a maior glória de Deus (Ad Maiorem Dei Gloriam).

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VEIGA, Francisca Branco. 31 de julho: Dia de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [31 de julho de 2023].

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Veja-se:
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A Questão da Casa de Bragança no Congresso de Viena e a criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves

No dia 2 de janeiro de 1815 a Gazeta de Lisboa expressava o sentimento geral de satisfação que existia na Europa face à queda do império napoleónico e às expetativas que trazia o Congresso de Viena:

“Começa finalmente hum ano de paz, depois de tantas e sanguinozas guerras; respira a humanidade, tanto tempo opressa pela tyrannia; e se o anno passado há de ser eternamente memorável pelo estrondo das victorias que conquistarão a paz da Europa, desthronárão o Despota, e restituírão os thronos aos legítimos Soberanos, não o ficará sendo menos o presente pelo complemento que a esta grande obra hão de pôr os Monarcas por meio do Congresso de Vienna, cujas decisões acertadas esperamos satisfarão a toda a família Européa”[2].


A questão da Casa de Bragança

Com a morte da mãe, D. Maria I, o príncipe regente D. João é aclamado rei D. João VI (Aclamação do rei Dom João VI no Rio de Janeiro, 20 de março de 1816 a 7 de setembro de 1822). In Voyage pittoresque et historique au Brésil, ou, Séjour d’un artiste français au Brésil, depuis 1816 jusqu’en 1831, Debret, Jean Baptiste, 1834. Biblioteca Mario de Andrade, Sao Paulo.

Aclamação: 6 de fevereiro de 1818

Segundo os princípios adotados pelo Congresso de Viena, a questão da Casa de Bragança não se encontrar na Europa teria de ser tratada. Assim, a solução proposta pelo representante francês no Congresso, o príncipe Charles-Maurice de Talleyrand, foi a que D. João VI acabou por adotar, a elevação da colónia brasileira à condição de Reino Unido, igualando o seu estatuto ao da metrópole (D. João passou a ostentar o título de Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, e mais tarde rei das três coroas unidas, entre as quais, aquela onde residia como Rei do Brasil).

O representante inglês também concordou com a ideia, que resultou na efetiva criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em 16 de dezembro de 1815, instituição jurídica rapidamente reconhecida pelas outras nações. Esta medida, além de defender a presença da Europa e da realeza na América, também agradou à colónia brasileira que se viu elevada a Reino do Brasil, ajudando, deste modo, a afastar a ideia da sua independência.

D. João, interessado na manutenção da soberania portuguesa do espaço colonial, ameaçado pela ascendência norte-americana e inglesa fez publicar em 16 de dezembro de 1815 a Carta de Lei onde afirmava: “Que os meus Reinos de Portugal, Algarves, e Brasil formem dora em diante um só e único Reino debaixo do título de REINO UNIDO DE PORTUGAL, E DO BRASIL, E ALGARVES”. Esta lei saudada no Rio, não foi tão bem-recebida em Portugal. A elevação a Reino Unido colocava o Brasil em condições de igualdade ou até em situação superior a Portugal, dado que a Corte permanecia no Rio de Janeiro. A notícia só foi publicada em Lisboa em 1816, no nº 299 da Gazeta de Lisboa[3].

A defesa da ação colonialista na América levou a que os britânicos não quisessem fazer parte da Santa Aliança dado que esta incluía a hipótese de intervir nas independências da América. O afastamento inglês justifica-se pelo interesse da Coroa Britânica em alargar os seus negócios com as recém-independentes nações, das amarras impostas pelo pacto colonial. Em contrapartida, o governo francês, visando recuperar o seu prestígio diplomático, decidiu juntar-se às restantes monarquias em sinal de fidelidade[4] .

Também a ameaça dos Estados Unidos quanto a uma possível intervenção na América Latina era uma realidade exequível, uma vez que já eram o mais importante país das Américas, embora ainda lá existissem algumas possessões coloniais.

Em 13 de maio de 1816 foram criados os símbolos do novo reino, expedindo D. João VI uma carta de lei que criou a heráldica do Brasil e regulamentou a do Reino Unido. Nesta carta de lei de 13 de maio de 1816 D. João refere explicitamente um antecedente histórico, a de “incorporar em hum só Escudo Real as Armas de todos os tres Reinos”, da mesma “fórma que o Senhor Rei Dom Affonso Terceiro, de Gloriosa Memoria, Unindo outróra o Reino dos Algarves ao de Portugal, Unio tambem as suas Armas respectivas”. 

Armas do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves

1817

Carta de Lei, pela qual Vossa Magestade há por bem dar Armas ao seu Reino do Brasil, e incorporar em hum só Escudo Real as Armas de Portugal, Brasil e Algarves

[Dom João, por Graça de Deos, Rei do Reino Unido de Portugal, e do Brasil, e Algarves, d’aquém, e d’além mar em Africa, Senhor de Guiné, e da Conquista, Navegação, e Commercio …]

Rio de Janeiro: 1817

Biblioteca Nacional do Brasil


[1] Gazeta de Lisboa, 2 de j

[2]Gazeta de Lisboa, 2 de janeiro de 1815, p. 5.SILVA, Luiz Augusto Rebelo da – Quadro Elementar Das Relações politicas e Diplomaticas de Portugal, Tomo XVIII. Lisboa: Typ. da Academia Real das Sciencias, 1860, pp. 501-502

[3]  Gazeta de Lisboa, nº 299, 17 de dezembro de 1816, edição de terça- feira.

Veja-se CIRCULARES DO MINISTÉRIO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS – 1815-1870, Circular de 23 de dezembro de 1815. Índice: “Participando a elevação do Estado do Brasil à dignidade de Reino, e unido aos de Portugal e dos Algarves, por Carta de Lei de 16 de Dezembro de 1815, da qual se incluíram alguns exemplares.”. In AHI 317/03/06 (Arquivo Histórico do Itamaraty, Rio de Janeiro). Vide Anexo 3; BONAVIDES, Paulo; AMARAL, Roberto – Textos Políticos da História do Brasil, 3ª ed., vol.I. Brasília: Conselho Editorial do Senado Federal, 2002, nº 41 (Elevação do Brasil à categoria de Reino – Carta de Lei do Príncipe D. João (18 de dezembro de 1815)).

[4] SARDICA, José Miguel –A Europa Napoleónica e Portugal. Lisboa: ed. Tribuna, 2011, pp. 347-349.

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Como referir este artigo:

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VEIGA, Francisca Branco (2023), A Questão da Casa de Bragança no Congresso de Viena e a criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [12 de Julho de 2023].

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VEIGA, Francisca Branco, Companhia de Jesus. Companhia de Jesus. O Breve Regresso no Reinado de D. Miguel. Ed. Autor, 2023, 437 p. (Livro disponível na Amazon.es)