Cem anos do Dia Mundial das Missões: memória dos missionários jesuítas

No próximo domingo, 18 de outubro de 2026, a Igreja Católica em todo o mundo celebra o 100.º Dia Mundial das Missões. A primeira celebração realizou-se em outubro de 1926, no pontificado de Pio XI, o «Papa das Missões». Foi nesse mesmo ano que publicou a encíclica Rerum Ecclesiae. Para este centenário, o Papa Leão XIV escolheu como tema «Um em Cristo, unido na missão». Na mensagem, lembra que «a unidade missionária não deve ser entendida como uniformidade, mas como a convergência de diferentes carismas para o mesmo propósito».

Esta frase descreve bem a história missionária da Companhia de Jesus. Os jesuítas evangelizaram de muitas maneiras: pelo ensino, pela ciência, pelo estudo das línguas, pela diplomacia e, muitas vezes, pelo sofrimento. Recordo aqui alguns destes missionários.

Palavras-chave:

Dia Mundial das Missões; Companhia de Jesus; missões; Brasil; China; Amazónia; Pio XI; Leão XIV

Francisco Xavier: o modelo da missão ad gentes

Pregação de São Francisco Xavier em Goa.
AUTOR
André Reinoso (c. 1590-pós 1650)
LOCAL/DATA
Museu de S. Roque, c. 1619

São Francisco Xavier nasceu em 1506, no castelo de Xavier, em Navarra. Estudou na Universidade de Paris, onde conheceu Inácio de Loiola. Foi um dos seus primeiros companheiros e um dos fundadores da Companhia de Jesus. Quando D. João III pediu missionários para o Oriente português, Inácio escolheu-o quase à última hora. Xavier partiu de Lisboa a 7 de abril de 1541, no dia em que fazia 35 anos, e chegou a Goa em maio do ano seguinte.

Nos dez anos seguintes percorreu milhares de quilómetros:

  • Costa da Pescaria e Travancor (1542–1544): no sul da Índia, viveu entre os pescadores paravás. Mandou traduzir para tâmil as orações e o catecismo, e diz-se que percorria as aldeias a tocar uma campainha para reunir as crianças.
  • Malaca e Molucas (1545–1547): passou por Ambão, Ternate e as ilhas do Moro, uma das regiões mais remotas e perigosas do império.
  • Japão (1549–1551): em Malaca conheceu Anjirō, um japonês convertido, e com ele chegou a Kagoshima a 15 de agosto de 1549. Esteve em Hirado, Yamaguchi e Quioto e percebeu que era preciso adaptar-se. Os japoneses respeitavam a cultura e a dignidade, por isso trocou a pobreza exterior por trajes adequados para se apresentar aos senhores locais. Descreveu os japoneses como «o melhor povo até agora descoberto».
  • As portas da China (1552): convencido de que o Japão só se converteria depois da China, tentou entrar no império chinês, que estava fechado aos estrangeiros. Morreu a 3 de dezembro de 1552 na ilha de Sanchão, frente à costa chinesa, à espera de um barco que o levasse ao continente.

As cartas que enviava para a Europa eram lidas em voz alta em colégios e cortes. Despertaram vocações por todo o lado e moldaram o imaginário missionário durante séculos. O seu corpo repousa na Basílica do Bom Jesus, em Goa. Foi canonizado em 1622, ao mesmo tempo que Santo Inácio.

Há ainda uma ligação direta ao centenário que agora celebramos. Em 1927, um ano depois do primeiro Dia Mundial das Missões, Pio XI proclamou São Francisco Xavier padroeiro das missões, juntamente com Santa Teresa do Menino Jesus.

A ciência ao serviço do Evangelho: os jesuítas portugueses em Pequim

Na China, a missão passou pela corte imperial, através da astronomia, da matemática e da técnica:

  • Manuel Dias Júnior (1574–1659) descreveu em chinês as observações de Galileu e, com Nicolau Longobardo, fez o primeiro globo terrestre chinês (1623).
  • Gabriel de Magalhães (1610–1677) construiu autómatos e relógios para os imperadores Shunzhi e Kangxi.
  • Tomás Pereira (1645–1708) serviu cerca de 35 anos na corte de Kangxi. Ensinou música ao imperador e participou na definição da fronteira sino-russa.
  • Félix da Rocha (1713–1781) e José de Espinha (1722–1788) cartografaram regiões inteiras do império e dirigiram o Tribunal das Matemáticas.
  • André Rodrigues (1729–1796) e José Bernardo de Almeida (1728–1805) mantiveram a presença jesuíta em Pequim até ao fim. José Bernardo de Almeida foi também médico da corte e recusou, por fidelidade à fé, realizar o rito fúnebre chinês por Qianlong.

Estes homens adotaram nomes chineses, aprenderam a língua e a cultura e ganharam a confiança de imperadores. Mostraram que a missão é também diálogo e inculturação.

José de Anchieta: o Apóstolo do Brasil

Anchieta e Nóbrega na cabana de Pindobuçu, 1927.
AUTOR
Benedito Calixto (1853–1927)
LOCAL/DATA
Acervo da Fundação Reginaldo e Beth Bertholino, São Paulo. 1927

São José de Anchieta nasceu a 19 de março de 1534 em San Cristóbal de La Laguna, em Tenerife, nas Canárias. Ainda jovem foi estudar para Coimbra, no Colégio das Artes, e aí entrou na Companhia de Jesus em 1551. Tinha uma saúde frágil, com um problema na coluna que o acompanhou toda a vida. Os superiores pensaram que o clima do Brasil o ajudaria e, em 1553, partiu na armada do governador D. Duarte da Costa. Tinha 19 anos.

Juntou-se a Manuel da Nóbrega e, a 25 de janeiro de 1554, dia da Conversão de São Paulo, participou na fundação do colégio de Piratininga, no planalto paulista. Foi aí que nasceu a cidade de São Paulo. Numa casa pobre, feita de taipa e palha, Anchieta ensinava latim aos jovens e, ao mesmo tempo, aprendia com os indígenas a língua tupi. Dominou-a tão bem que escreveu a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil. A obra circulou manuscrita entre os missionários durante décadas, antes de ser impressa em Coimbra em 1595.

Para Anchieta, a língua era o caminho para a evangelização. Na catequese usou também a música, a poesia e o teatro: escreveu autos, como o Na Festa de São Lourenço, que misturavam o tupi, o português e o castelhano, e eram representados nas aldeias pelos próprios indígenas. Nas cartas que enviava para a Europa, descreveu com olhos atentos a fauna, a flora e os costumes da terra. Por isso foi também um dos primeiros observadores da natureza brasileira.

O episódio mais conhecido da sua vida aconteceu em 1563. Os Tamoios, aliados dos franceses, estavam em guerra com os portugueses. Anchieta acompanhou Nóbrega até Iperoig, no litoral, para negociar a paz, e ficou sozinho como refém durante cerca de cinco meses, sempre em risco de vida. Segundo a tradição, foi aí que compôs o poema De Beata Virgine Dei Matre Maria, com mais de cinco mil versos latinos. Tê-lo-á escrito na areia da praia e decorado verso a verso, para mais tarde o passar para o papel. As negociações deram origem à chamada Paz de Iperoig.

Foi ordenado sacerdote na Baía em 1566 e acompanhou os acontecimentos que levaram à fundação do Rio de Janeiro e à expulsão dos franceses da Guanabara. Entre 1577 e 1587 foi provincial da Companhia de Jesus no Brasil. Percorreu a costa a pé e de barco, visitando colégios, aldeias e missões. Passou os últimos anos no Espírito Santo, junto das aldeias indígenas, e morreu em Reritiba (hoje Anchieta) a 9 de junho de 1597. Diz-se que os indígenas carregaram o seu corpo aos ombros durante cerca de 90 quilómetros, até Vitória.

Chamaram-lhe o «Apóstolo do Brasil». Foi beatificado por João Paulo II em 1980 e canonizado pelo Papa Francisco em 2014. A sua vida resume o que foi a missão jesuíta: aprender a língua do outro, ensinar, criar cultura e não recuar diante do perigo.

Anselmo Eckart: missão, prisão e fidelidade

Litografia “Aldeia de Tapuias” (Aldea des Tapuyos), criada pelo artista alemão Johann Moritz Rugendas entre 1822 e 1825 e publicada em Paris em 1835
c. 1820

nselmo Eckart nasceu a 4 de agosto de 1721, na Alemanha, e entrou na Companhia de Jesus em 1740. Como muitos jesuítas da Europa Central, ofereceu-se para as missões ultramarinas portuguesas. Em 1753 partiu de Lisboa para o Estado do Grão-Pará e Maranhão, na Amazónia.

Trabalhou primeiro em Piraguiri e depois nas missões dos Abacaxis e de Trocano, no rio Madeira, um dos grandes afluentes do Amazonas. Era uma região de floresta densa e longas viagens de canoa, onde os missionários viviam isolados entre as populações indígenas. Para comunicar com elas, Eckart aprendeu a língua geral, de base tupi, que os jesuítas tinham tornado a língua comum das missões amazónicas. Preparou materiais catequéticos e linguísticos e fez também trabalho cartográfico, num território que os europeus ainda mal conheciam.

A sua missão foi interrompida pouco depois de começar. Na década de 1750, a política do Marquês de Pombal e do seu irmão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, governador do Grão-Pará, entrou em conflito aberto com os jesuítas. Os missionários perderam o governo temporal das aldeias e passaram a ser acusados de se oporem à Coroa. Em novembro de 1757, Eckart foi preso e deportado para Portugal, ainda antes da expulsão geral da Companhia, em 1759.

Começou então um longo cativeiro. Esteve primeiro na fortaleza de Almeida, a partir de 1759, e em 1762 foi transferido para o Forte de São Julião da Barra, onde ficou até 1777. As celas eram «subterrâneas, húmidas, escuras e mal ventiladas». Muitos dos companheiros de prisão morreram de doença, fome e frio. Eckart sobreviveu e deixou um testemunho precioso desses anos nas suas memórias, publicadas em português como Memórias de um jesuíta prisioneiro de Pombal. Para os jesuítas encarcerados, São Julião foi um lugar de provação, de sofrimento e de fidelidade.

Só foi libertado em 1777, com a morte de D. José e a queda de Pombal. Já em liberdade, continuou a escrever sobre o Brasil. Em 1785 publicou as Observações Críticas sobre o relato de viagem de Pedro Cudena, uma obra hoje valorizada pelo seu interesse etnográfico. Fiel à sua vocação, voltou à Companhia de Jesus na Rússia Branca, onde a Ordem sobrevivera à supressão de 1773 graças à proteção de Catarina II. Morreu ali em 1809, aos 88 anos.

A vida de Anselmo Eckart lembra que a missão nem sempre se mede por frutos visíveis. Por vezes mede-se pela perseverança: na floresta amazónica, no cárcere e no exílio.

Uma memória que é também um apelo

No centenário do Dia Mundial das Missões, lembrar estes jesuítas é mais do que um exercício de memória histórica. Os seus percursos foram muito diferentes: um santo andarilho, o apóstolo do Brasil, astrónomos de corte, um prisioneiro de Pombal. Ainda assim, todos dão rosto ao tema deste ano, carismas diferentes unidos num mesmo propósito. Neste domingo, ao rezarmos pelos missionários de hoje, rezemos também em ação de graças por aqueles que, há séculos, partiram de Portugal e da Europa para levar o Evangelho até aos confins do mundo.

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, Cem anos do Dia Mundial das Missões: memória dos missionários jesuítas (blogue da autora (Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [16 de Outubro de 2026].

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Textos do blogue sobre missões e missionários jesuítas

2020

  1. 31 julho 1833, D. PEDRO DÁ ORDEM DE EXPULSÃO AOS MISSIONÁRIOS JESUÍTAS DE LISBOA
  2. Noviciado S. Francisco de Xavier (1706-1758)
  3. Paiaçu de Portugal: António Vieira, Missionário, Orador, Defensor
  4. Francisco Xavier embarca em Lisboa, com destino à Índia (7 abril 1541)
  5. D. João III e a Companhia de Jesus: consolidação da presença portuguesa em territórios além-mar
  6. Apoio dado por António Ribeiro Saraiva e pelo Duque de Cadaval ao regresso da Companhia de Jesus a Portugal, em 1829

2021

  1. São João de Brito, missionário e mártir da Companhia de Jesus
  2. Jesuítas Matemáticos Portugueses no Império da China (século XVI-XVIII)
  3. Colégio jesuíta de S. Paulo, Macau (1594-1762)
  4. Veneração aos Santos e Mártires: o relicário e as relíquias dos jesuítas João Soan (de Goto) e Diogo Kisai, martirizados em Nagasaki
  5. No dia 3 de dezembro de 1552, morre São Francisco Xavier (1506-1552)

2022

  1. Astrónomos Jesuítas Portugueses na China
  2. A formação de um noviço da Companhia de Jesus no Noviciado da Cotovia (1616-1759)

2023

  1. Os azulejos da Igreja do Convento de Arroios / Convento de Nossa Senhora da Nazaré / Hospital de Arroios
  2. Portugal e a China nos séculos XVI e XVII

2024

  1. Biblioteca da Ajuda, Jesuítas na Ásia, Série da Província da China, Séculos XVI e XVII
  2. JOSÉ ANCHIETA (1534 – 1597): curiosidades acerca do humanista
  3. Mártires do Brasil (15 de Julho de 1570)
  4. SIMÃO RODRIGUES (primeiro Provincial da Companhia de Jesus em Portugal)
  5. Marcos e Curiosidades do Forte de São Julião da Barra, em Oeiras

2025

  1. Entre o Triunfo e o Silêncio: Imaginário e Realidade nas Missões Jesuítas

2026

  1. Um repórter de natureza no século XVI: José de Anchieta e o primeiro retrato da Mata Atlântica
  2. 22 de Abril de 1541: Fundação Solene da Companhia de Jesus e a Primeira Missão Global dos Jesuítas
  3. Igreja do Gesù (Santissimo Nome di Gesù all’Argentina ou Igreja de Jesus), Roma
  4. A Igreja de São João Evangelista, ou Igreja do Colégio, no Funchal
  5. Anselmo Eckart (1721–1809): missionário, prisioneiro e testemunha do cárcere pombalino

31 de julho: Dia de Santo Inácio de Loyola

Fundador da Companhia de Jesus

Em 2023 assinalaram-se 467 anos da sua morte.

«É necessário tornar-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre-arbítrio (…), desejando e escolhendo somente o que mais nos conduz ao fim para que fomos criados»
— Exercícios Espirituais, n.º 23

Morte de Inácio de Loyola, 31 de Julho de 1556. Baseada na biografia do Padre Pedro Ribadeneyra, Vita beati patris Ignatii Loyolae religionis Societatis Iesu fundatoris ad viuum expressa ex ea quam.., de 1609, autoria de Peter Paul Rubens.

No dia 31 de julho de 1556, Santo Inácio de Loyola faleceu, inesperadamente, em Roma, aos 65 anos de idade. Morreu numa modesta sala da Casa Professa da Companhia de Jesus, junto da antiga igreja de Santa Maria della Strada, onde viveu os seus últimos anos.

Em 1587, os seus restos mortais foram trasladados para a igreja do Gesù, a igreja-mãe da Companhia de Jesus. Cinquenta anos mais tarde, em 1637, foram definitivamente depositados numa magnífica urna de bronze, da autoria de Alessandro Algardi, colocada sob o altar da Capela de Santo Inácio, uma das mais notáveis obras do jesuíta Andrea Pozzo.

Logo após a sua morte, o seu secretário e companheiro, o Padre Juan Alfonso de Polanco, escrevia, numa carta datada de 6 de agosto de 1556, que por toda a parte se ouvia a mesma expressão:

«Morreu o Santo.»

Era o reconhecimento espontâneo da santidade daquele que transformara profundamente a vida religiosa da Igreja.

A obra de Inácio estava consolidada. A Companhia de Jesus encontrava-se oficialmente aprovada, os Exercícios Espirituais haviam sido reconhecidos como um dos maiores textos da espiritualidade cristã e as Constituições da Ordem encontravam-se praticamente concluídas. A nova família religiosa estava implantada em diversos países e lançava as bases de uma das mais vastas redes missionárias, educativas e culturais da época moderna.

Quando a Companhia foi oficialmente aprovada, em 1540, contava apenas dez companheiros. À data da morte do fundador, dezasseis anos depois, reunia já cerca de mil jesuítas, distribuídos por 13 províncias, mais de uma centena de casas e cerca de 35 colégios em funcionamento, aos quais se juntavam vários outros em preparação. O extraordinário crescimento da Ordem testemunha a força do ideal inaciano e a rápida difusão da sua missão apostólica.

Capela de Santo Inácio, no braço esquerdo do transepto. Igreja de Gesù, Roma.

Planta da Igreja de Gesù, Roma, Itália.
1.Capela de Santo Inácio de Loyola, obra do jesuíta Andrea Pozzo. Contém a urna de Santo Inácio. Esta é em bronze e da assinatura de Alessandro Algardi.
2. Acesso ao quarto de Santo Inácio

Ainda hoje é possível visitar o quarto de Santo Inácio, preservado na Casa Professa do Gesù, onde viveu os últimos doze anos da sua vida. Foi nesse espaço que redigiu grande parte das Constituições da Companhia de Jesus e manteve uma intensa correspondência com os jesuítas espalhados pela Europa, Ásia, África e Novo Mundo, acompanhando de perto o desenvolvimento da Ordem.

O lema que orientou toda a sua vida permanece como síntese da espiritualidade inaciana:

Ad Maiorem Dei Gloriam
«Tudo para a maior glória de Deus.»

A oração de Santo Inácio

Entre os textos tradicionalmente associados à espiritualidade inaciana destaca-se a célebre oração Alma de Cristo, rezada ainda hoje por milhões de cristãos em todo o mundo:

Alma de Cristo, santificai-me.
Corpo de Cristo, salvai-me.
Sangue de Cristo, inebriai-me.
Água do lado de Cristo, lavai-me.
Paixão de Cristo, confortai-me.
Ó bom Jesus, ouvi-me.
Dentro das vossas chagas, escondei-me.
Não permitais que eu me afaste de Vós.
Do espírito maligno, defendei-me.
Na hora da minha morte, chamai-me
e mandai-me ir para Vós,
para que, com os vossos santos,
Vos louve por todos os séculos dos séculos.
Amém.

Peter Paul Rubens – Saint Ignatius of Loyola
1620-22. 223×138. Norton Simon Pasadena Museum

Legado


«Em tudo amar e servir.» (Exercícios Espirituais, n.º 233)

Esta breve expressão constitui a síntese da espiritualidade de Santo Inácio de Loyola e do ideal que presidiu à fundação da Companhia de Jesus. Para o fundador dos jesuítas, a vida cristã não se esgota nos momentos de oração nem se circunscreve ao espaço da igreja; realiza-se no quotidiano, através do serviço generoso, da disponibilidade para a missão e da procura constante da vontade de Deus. Amar significa reconhecer a presença de Deus em todas as coisas e corresponder ao seu amor; servir é colocar a inteligência, os talentos e a liberdade ao serviço do próximo, da Igreja e do bem comum.

Foi este espírito que moldou a identidade da Companhia de Jesus e impulsionou a sua extraordinária expansão missionária. Desde os primeiros companheiros de Inácio, muitos dos quais partiram de Lisboa rumo aos quatro cantos do mundo, os jesuítas dedicaram-se à evangelização, ao ensino, à investigação científica, ao diálogo entre a fé e a cultura e à promoção da justiça, deixando uma marca profunda na história da Igreja e da humanidade.

Como refere António Lopes, «Lisboa foi a maior rampa de lançamento que teve Inácio de Loyola para realizar o seu sonho de levar a todos os povos da Terra a Boa Nova de Jesus de Nazaré» (LOPES, Roteiro Histórico dos Jesuítas em Lisboa, p. 7). A capital portuguesa tornou-se, assim, um dos principais centros da expansão missionária da Companhia de Jesus durante os séculos XVI e XVII.

Quase cinco séculos após a sua morte, o legado de Santo Inácio permanece vivo. A sua espiritualidade continua a inspirar milhões de pessoas em todo o mundo, convidando cada geração a discernir, em cada circunstância da vida, a melhor forma de «amar e servir», vivendo para a maior glória de Deus (Ad Maiorem Dei Gloriam).

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Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco. 31 de julho: Dia de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [31 de julho de 2023].

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Veja-se:
https://www.amazon.com/Noviciado-Cotovia-1619-1759-Portuguesa-Portuguese/dp/B0F26LJL35

No dia 3 de dezembro de 1552, morre São Francisco Xavier (1506-1552)

Ficou conhecido como o “Apóstolo do Oriente”, sendo uma das figuras mais marcantes da expansão missionária do cristianismo no século XVI e um dos primeiros companheiros de Santo Inácio de Loyola na fundação da Companhia de Jesus.

Os milagres de S. Francisco Xavier
|Peter Paul Rubens,1617-18
Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria

A convite de D. João III, a Companhia de Jesus estabeleceu-se em Portugal em 1540, pouco depois da sua aprovação pontifícia. A 27 de setembro de 1540, o Papa Paulo III aprovou oficialmente a nova ordem religiosa através da bula Regimini Militantis Ecclesiae, abrindo caminho à rápida expansão dos jesuítas e à criação de uma vasta rede de colégios e casas de formação.

S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III
André Reinoso, cerca de 1619
Igreja de S. Roque, Lisboa, Portugal (3)


Durante a sua permanência em Portugal, antes de partir para o Oriente, Francisco Xavier escreveu a Santo Inácio de Loyola e a João Coduri, dando conta do entusiasmo de D. João III pelo projeto educativo da Companhia:

«D’acá os hago saber como el Rey, paresciéndole bien nuestro modo de proceder, así por la experiencia que tiene del fruto espiritual que se hace, como esperando mayor cuantos más fueren, está deliberado de hacer un colegio y una casa de los nuestros, es a saber, de la Compañía de Jesús…»

Acrescentava ainda:

«…Este verano en la Universidad de Coimbra edificará el colegio, y la casa pienso en la ciudad de Évora.» (1)

Estas palavras testemunham o decisivo apoio régio à implantação da Companhia de Jesus em Portugal. Em poucos anos seriam fundados importantes estabelecimentos em Lisboa, Coimbra, Évora e noutras localidades do reino, constituindo uma rede educativa que marcaria profundamente a cultura portuguesa.


Já missionário em Goa, Francisco Xavier insistia na necessidade de preparar “soldados de Deus”. Mais do que uma formação exclusivamente erudita, defendia homens profundamente exercitados na vida espiritual e apostólica (2). Noviciados, colégios e universidades integravam um mesmo projeto educativo, onde a sólida preparação intelectual, a disciplina espiritual e a dedicação permanente ao serviço das almas constituíam os pilares da formação jesuíta.

S. Francisco Xavier Ressuscitando um Chefe de Casta no Ceilão
André Reinoso, cerca de 1619
Igreja de S. Roque (Sacristia)

Na madrugada de 3 de dezembro de 1552, a mais de dez mil quilómetros de Lisboa, numa humilde cabana de palha na ilha de Sancião, junto à costa da China, Francisco Xavier faleceu sem conseguir concretizar o grande objetivo da sua vida missionária: entrar no Império Chinês.

Consumido pela febre e pelo isolamento, entregou a alma pronunciando as palavras do Salmo que tantas vezes o haviam sustentado:

In te, Domine, speravi, non confundar in aeternum.
Em Vós, Senhor, esperei; jamais serei confundido.

A morte interrompeu a missão, mas deu início ao nascimento de uma das figuras mais veneradas da história do cristianismo. O missionário que percorreu milhares de quilómetros apenas com um crucifixo, uma fé inabalável e uma extraordinária coragem tornou-se símbolo da evangelização do Oriente. Não conquistou territórios com armas nem exércitos; conquistou-os pela palavra, pelo exemplo e pela dedicação aos mais pobres.

Após a sua morte, o corpo foi trasladado para Malaca e, posteriormente, para Goa, onde permanece até aos dias de hoje, sendo objeto de profunda veneração.

Foi beatificado pelo Papa Paulo V, a 25 de outubro de 1619, e canonizado pelo Papa Gregório XV, a 12 de março de 1622.

Túmulo de São Francisco Xavier na Basílica do Bom Jesus de Goa.

A Capela de São Francisco Xavier, concluída em 1659, constitui um dos mais notáveis conjuntos artísticos do Oriente português. Combina mármore, cobre e madeira ricamente trabalhados em vários níveis decorativos. Sobre o altar encontra-se a célebre urna de prata, executada por artistas goeses segundo o desenho do escultor florentino Giovanni Battista Foggini, cerca de 1697, e oferecida pelo Grão-Duque Cosme III de Médici. Nesta magnífica obra repousa o corpo do santo.

Até aos nossos dias, São Francisco Xavier continua a atrair milhares de peregrinos. A urna é exposta periodicamente para veneração pública, perpetuando uma tradição iniciada logo após a transladação do corpo para Goa e testemunhando a permanência da sua devoção ao longo de quase cinco séculos.

A Capela de São Francisco Xavier constitui, assim, uma extraordinária síntese entre a arte florentina, a mestria artesanal goesa e a herança do império português no Oriente, preservando a memória daquele que São João Paulo II designou como o “Príncipe dos Missionários”.

Pontos Principais da Vida de São Francisco Xavier

  • Um dos primeiros companheiros de Santo Inácio de Loyola e cofundador da Companhia de Jesus.
  • Estabeleceu-se em Portugal antes de partir para as missões do Oriente.
  • Chegou a Goa em 1542, iniciando uma intensa atividade missionária.
  • Evangelizou a Índia, o Ceilão, as Molucas, Malaca e o Japão.
  • Compreendeu que a evangelização do Oriente passava pela abertura da China ao cristianismo.
  • Em julho de 1552 partiu rumo à ilha de Sancião, aguardando oportunidade para entrar clandestinamente na China.
  • Celebrou diariamente a Eucaristia, ensinou a doutrina cristã, administrou os sacramentos, assistiu doentes e acompanhou os mais pobres.
  • Morreu em Sancião, a 3 de dezembro de 1552, com 46 anos de idade.
  • O seu corpo foi trasladado para Goa, onde permanece incorrupto em veneração na Basílica do Bom Jesus.
  • Foi canonizado em 1622 e é venerado como Padroeiro das Missões e um dos maiores missionários da história da Igreja.

São Francisco de Xavier no Padrão dos Descobrimentos

Viagens de S.F.X. na Ásia

Considerações finais

A morte de São Francisco Xavier encerrou uma vida extraordinariamente breve, mas de uma fecundidade espiritual incomparável. Morreu sozinho, pobre e fisicamente exausto, sem alcançar o último grande objetivo da sua missão: entrar na China. Contudo, aquilo que aos olhos humanos poderia parecer um fracasso transformou-se num dos mais poderosos símbolos da história missionária da Igreja.

A sua existência demonstra que a grandeza de uma missão não se mede pelos êxitos imediatos, mas pela fidelidade ao ideal que a inspira. Francisco Xavier não conquistou impérios nem fundou reinos; conquistou consciências, abriu caminhos ao diálogo entre culturas e lançou as bases de uma presença cristã duradoura em vastas regiões da Ásia. A sua morte, na humilde ilha de Sancião, tornou-se o culminar de uma vida inteiramente oferecida ao serviço de Deus e dos outros.

Cinco séculos depois, o seu túmulo continua a ser lugar de peregrinação, memória e esperança. O corpo que repousa na Basílica do Bom Jesus, em Goa, permanece como testemunho de uma entrega total, enquanto a sua obra missionária continua a inspirar sucessivas gerações. Mais do que recordar o missionário que levou o Evangelho ao Oriente, recordar São Francisco Xavier é reconhecer o legado universal de um homem cuja fé ultrapassou fronteiras geográficas, culturais e espirituais, fazendo dele, para a História e para a Igreja, o eterno Apóstolo do Oriente.

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(1) Monumenta Historica Societatis Iesu, Cartas de San Ignacio, pp. 443-447;

LOPES, António, D. Pedro Mascarenhas: Introdutor da Companhia de Jesus em Portugal, 2003, p.168.

(2) GOMES, Manuel Pereira, Santo Inácio e a fundação de Colégios, p. 41.

(3) S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III antes da viagem para a Índia. O rei está ao centro, tomando as mãos do santo e, ao lado, encontra-se o Padre Simão Rodrigues, introdutor da Companhia de Jesus em Portugal. A receção decorre no Paço da Ribeira, vendo-se o Tejo ao fundo, e a corte é composta por membros do clero e da nobreza, incluindo membros das três ordens militares, identificadas pelas respetivas cruzes: Cristo, Santiago e Avis.

Veja-se, inclusive, OSSWALD, Maria Cristina, S. Francisco Xavier no Oriente – aspectos de devoção e iconografia. In https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4322.pdf

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Como referir este artigo:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco. No dia 3 de dezembro de 1552, morre São Francisco Xavier (1506-1552) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [03 de Dezembro de 2021].

Veja-se:

_ VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.
_ VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia 1619-1759. Ed. Autor, 2025.

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