Anselmo Eckart (1721–1809): missionário, prisioneiro e testemunha do cárcere pombalino

Anselmo Eckart (1721–1809), jesuíta alemão, foi missionário na Amazónia (1753–1757), onde estudou a língua geral e produziu materiais linguísticos e cartográficos. Deportado pela política pombalina, passou pelos cárceres de Almeida e, sobretudo, de São Julião da Barra (1762–1777), deixando nas suas Memórias de um jesuíta prisioneiro de Pombal um testemunho ímpar da repressão antijesuítica. Libertado em 1777, reintegrou a Companhia de Jesus na Rússia Branca, onde viveu até à morte.

Palavras-chave

Anselmo Eckart; Jesuítas; Amazónia; Língua geral; Pombal; São Julião da Barra; Memórias; Rússia Branca; São Julião da Barra.

A história de Anselmo Eckart (1721–1809) atravessa alguns dos momentos mais marcantes da história da Companhia de Jesus no século XVIII. Jesuíta alemão, missionário na Amazónia portuguesa e, mais tarde, prisioneiro nos cárceres de Pombal, Eckart conheceu duas realidades muito diferentes: a vida nas missões e a dura experiência do encarceramento.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)»
XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025

Nascido a 4 de agosto de 1721, entrou na Companhia de Jesus em 1740. Em 1753 partiu de Lisboa para o Estado do Grão-Pará e Maranhão, integrando o grupo de missionários destinados às missões da Amazónia. Passou pela missão de Piraguiri, onde se dedicou também à aprendizagem da língua geral, e desenvolveu atividade missionária em Abacaxis e Trocano, no rio Madeira. O contacto com as populações indígenas levou-o também a interessar-se pelas suas línguas e pela elaboração de materiais de natureza linguística e catequética.

Litografia “Aldeia de Tapuias” (Aldea des Tapuyos), criada pelo artista alemão Johann Moritz Rugendas entre 1822 e 1825 e publicada em Paris em 1835
c. 1820

Anselmo Eckart destacou-se também como cartógrafo e linguista ao produzir mapas e estudar a língua geral (tupi). A sua obra mais importante, Observações Críticas sobre o relato de viagem de Pedro Cudena ao Brasil”(1785), possui grande relevância etnográfica por descrever a religião e os costumes dos índios tupi de forma rigorosa e menos sensacionalista do que os relatos de cronistas anteriores. O texto traça um paralelo histórico entre a catequese dos índios no Brasil colonial e a reeducação confessional dos camponeses luteranos na Renânia (Alemanha) pelas ursulinas. Ambos os projetos utilizavam o teatro ritualístico voltado para o povo iletrado e compartilhavam a mesma visão das elites: tratavam tanto indígenas quanto camponeses europeus como “incultos e supersticiosos”, aplicando-lhes os mesmos métodos de educação severa e trabalho controlado.

A sua vida missionária seria, porém, bruscamente interrompida pela política de Sebastião José de Carvalho e Melo.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)»
XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)»
XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025

Em novembro de 1757, Eckart foi deportado para Portugal com outros missionários alemães. A partir desse momento, o missionário da Amazónia passou a conhecer uma realidade completamente diferente: a dos cárceres onde os jesuítas foram encerrados na sequência da política pombalina.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)»
XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025

Passou por diferentes locais de confinamento até chegar à praça-forte de Almeida, em 1759. Em 1762 foi transferido para o Forte de São Julião da Barra, onde permaneceu durante quinze anos, até 1777.

É esta longa experiência de cativeiro que faz de Anselmo Eckart uma figura particularmente importante para conhecer a repressão exercida contra os jesuítas.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)»
XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)»
XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)»
XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025

São Julião da Barra tornou-se um dos principais espaços de encarceramento da Companhia de Jesus depois da expulsão de 1759. As memórias deixadas por Eckart, juntamente com os testemunhos de outros jesuítas, permitem-nos perceber o que significava, no dia a dia, viver naqueles cárceres.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)»
XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025

As descrições são impressionantes. Falava-se de celas subterrâneas, húmidas, escuras e mal ventiladas, com uma pequena abertura no alto da abóbada por onde entravam algum ar e um fio de luz. A água infiltrava-se pelas paredes e, quando chovia, chegava a entrar nas celas. A alimentação era escassa e a assistência médica muito limitada. A falta de luz, o isolamento e as más condições materiais tornavam aquele espaço particularmente duro para quem ali permanecia durante anos.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)»
XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025

Mas Anselmo Eckart não foi apenas um homem que viveu essa experiência. Foi também alguém que a deixou registada por escrito.

As suas memórias permitem acompanhar a deportação dos missionários, a passagem pelas prisões portuguesas e as condições em que os jesuítas viveram durante os anos do governo de Pombal. É através destes testemunhos que conseguimos aproximar-nos de uma realidade que os decretos e a documentação administrativa, por si só, dificilmente conseguem transmitir.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)»
XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025

Eckart não escreve apenas sobre a prisão. Escreve também sobre aquilo que significava ser jesuíta numa situação de perseguição. A experiência do sofrimento aparece ligada à fé, à fidelidade à Companhia de Jesus e à ideia de resistência perante a adversidade. Por isso, as suas memórias têm também uma dimensão espiritual e são importantes para perceber a forma como os próprios jesuítas construíram a memória daqueles anos.

São Julião da Barra deixou, assim, de ser apenas um lugar de prisão. Na memória jesuítica, tornou-se também um lugar de provação, de sofrimento e de fidelidade.

A história de Eckart não terminou, contudo, com a sua libertação. Em 1777, depois da morte de D. José I e da queda política de Pombal, os jesuítas encarcerados foram libertados. Eckart deixou então Portugal e regressou ao espaço germânico.

Entretanto, a própria Companhia de Jesus tinha passado por uma das maiores crises da sua história. Em 1773, Clemente XIV decretara a sua supressão. Apesar disso, a Companhia continuou a existir na Rússia, e Eckart voltou a integrar as suas estruturas, desempenhando funções ligadas à formação e ao governo da ordem. Morreu em 1809, na Rússia Branca.

A vida de Anselmo Eckart é, por isso, particularmente interessante porque acompanha quase toda a história da rutura entre a Companhia de Jesus e o poder pombalino. Foi missionário na Amazónia, conheceu de perto a política colonial de Pombal, foi deportado para Portugal, passou anos nas prisões do reino e acabou por deixar por escrito a memória dessa experiência.

Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco (2021), Anselmo Eckart (1721–1809): missionário, prisioneiro e testemunha do cárcere pombalino (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [20 de Setembro de 2026].

Palestra:

Francisca Branco Veiga, Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834) XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025.

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