Cem anos do Dia Mundial das Missões: memória dos missionários jesuítas

No próximo domingo, 18 de outubro de 2026, a Igreja Católica em todo o mundo celebra o 100.º Dia Mundial das Missões. A primeira celebração realizou-se em outubro de 1926, no pontificado de Pio XI, o «Papa das Missões». Foi nesse mesmo ano que publicou a encíclica Rerum Ecclesiae. Para este centenário, o Papa Leão XIV escolheu como tema «Um em Cristo, unido na missão». Na mensagem, lembra que «a unidade missionária não deve ser entendida como uniformidade, mas como a convergência de diferentes carismas para o mesmo propósito».

Esta frase descreve bem a história missionária da Companhia de Jesus. Os jesuítas evangelizaram de muitas maneiras: pelo ensino, pela ciência, pelo estudo das línguas, pela diplomacia e, muitas vezes, pelo sofrimento. Recordo aqui alguns destes missionários.

Palavras-chave:

Dia Mundial das Missões; Companhia de Jesus; missões; Brasil; China; Amazónia; Pio XI; Leão XIV

Francisco Xavier: o modelo da missão ad gentes

Pregação de São Francisco Xavier em Goa.
AUTOR
André Reinoso (c. 1590-pós 1650)
LOCAL/DATA
Museu de S. Roque, c. 1619

São Francisco Xavier nasceu em 1506, no castelo de Xavier, em Navarra. Estudou na Universidade de Paris, onde conheceu Inácio de Loiola. Foi um dos seus primeiros companheiros e um dos fundadores da Companhia de Jesus. Quando D. João III pediu missionários para o Oriente português, Inácio escolheu-o quase à última hora. Xavier partiu de Lisboa a 7 de abril de 1541, no dia em que fazia 35 anos, e chegou a Goa em maio do ano seguinte.

Nos dez anos seguintes percorreu milhares de quilómetros:

  • Costa da Pescaria e Travancor (1542–1544): no sul da Índia, viveu entre os pescadores paravás. Mandou traduzir para tâmil as orações e o catecismo, e diz-se que percorria as aldeias a tocar uma campainha para reunir as crianças.
  • Malaca e Molucas (1545–1547): passou por Ambão, Ternate e as ilhas do Moro, uma das regiões mais remotas e perigosas do império.
  • Japão (1549–1551): em Malaca conheceu Anjirō, um japonês convertido, e com ele chegou a Kagoshima a 15 de agosto de 1549. Esteve em Hirado, Yamaguchi e Quioto e percebeu que era preciso adaptar-se. Os japoneses respeitavam a cultura e a dignidade, por isso trocou a pobreza exterior por trajes adequados para se apresentar aos senhores locais. Descreveu os japoneses como «o melhor povo até agora descoberto».
  • As portas da China (1552): convencido de que o Japão só se converteria depois da China, tentou entrar no império chinês, que estava fechado aos estrangeiros. Morreu a 3 de dezembro de 1552 na ilha de Sanchão, frente à costa chinesa, à espera de um barco que o levasse ao continente.

As cartas que enviava para a Europa eram lidas em voz alta em colégios e cortes. Despertaram vocações por todo o lado e moldaram o imaginário missionário durante séculos. O seu corpo repousa na Basílica do Bom Jesus, em Goa. Foi canonizado em 1622, ao mesmo tempo que Santo Inácio.

Há ainda uma ligação direta ao centenário que agora celebramos. Em 1927, um ano depois do primeiro Dia Mundial das Missões, Pio XI proclamou São Francisco Xavier padroeiro das missões, juntamente com Santa Teresa do Menino Jesus.

A ciência ao serviço do Evangelho: os jesuítas portugueses em Pequim

Na China, a missão passou pela corte imperial, através da astronomia, da matemática e da técnica:

  • Manuel Dias Júnior (1574–1659) descreveu em chinês as observações de Galileu e, com Nicolau Longobardo, fez o primeiro globo terrestre chinês (1623).
  • Gabriel de Magalhães (1610–1677) construiu autómatos e relógios para os imperadores Shunzhi e Kangxi.
  • Tomás Pereira (1645–1708) serviu cerca de 35 anos na corte de Kangxi. Ensinou música ao imperador e participou na definição da fronteira sino-russa.
  • Félix da Rocha (1713–1781) e José de Espinha (1722–1788) cartografaram regiões inteiras do império e dirigiram o Tribunal das Matemáticas.
  • André Rodrigues (1729–1796) e José Bernardo de Almeida (1728–1805) mantiveram a presença jesuíta em Pequim até ao fim. José Bernardo de Almeida foi também médico da corte e recusou, por fidelidade à fé, realizar o rito fúnebre chinês por Qianlong.

Estes homens adotaram nomes chineses, aprenderam a língua e a cultura e ganharam a confiança de imperadores. Mostraram que a missão é também diálogo e inculturação.

José de Anchieta: o Apóstolo do Brasil

Anchieta e Nóbrega na cabana de Pindobuçu, 1927.
AUTOR
Benedito Calixto (1853–1927)
LOCAL/DATA
Acervo da Fundação Reginaldo e Beth Bertholino, São Paulo. 1927

São José de Anchieta nasceu a 19 de março de 1534 em San Cristóbal de La Laguna, em Tenerife, nas Canárias. Ainda jovem foi estudar para Coimbra, no Colégio das Artes, e aí entrou na Companhia de Jesus em 1551. Tinha uma saúde frágil, com um problema na coluna que o acompanhou toda a vida. Os superiores pensaram que o clima do Brasil o ajudaria e, em 1553, partiu na armada do governador D. Duarte da Costa. Tinha 19 anos.

Juntou-se a Manuel da Nóbrega e, a 25 de janeiro de 1554, dia da Conversão de São Paulo, participou na fundação do colégio de Piratininga, no planalto paulista. Foi aí que nasceu a cidade de São Paulo. Numa casa pobre, feita de taipa e palha, Anchieta ensinava latim aos jovens e, ao mesmo tempo, aprendia com os indígenas a língua tupi. Dominou-a tão bem que escreveu a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil. A obra circulou manuscrita entre os missionários durante décadas, antes de ser impressa em Coimbra em 1595.

Para Anchieta, a língua era o caminho para a evangelização. Na catequese usou também a música, a poesia e o teatro: escreveu autos, como o Na Festa de São Lourenço, que misturavam o tupi, o português e o castelhano, e eram representados nas aldeias pelos próprios indígenas. Nas cartas que enviava para a Europa, descreveu com olhos atentos a fauna, a flora e os costumes da terra. Por isso foi também um dos primeiros observadores da natureza brasileira.

O episódio mais conhecido da sua vida aconteceu em 1563. Os Tamoios, aliados dos franceses, estavam em guerra com os portugueses. Anchieta acompanhou Nóbrega até Iperoig, no litoral, para negociar a paz, e ficou sozinho como refém durante cerca de cinco meses, sempre em risco de vida. Segundo a tradição, foi aí que compôs o poema De Beata Virgine Dei Matre Maria, com mais de cinco mil versos latinos. Tê-lo-á escrito na areia da praia e decorado verso a verso, para mais tarde o passar para o papel. As negociações deram origem à chamada Paz de Iperoig.

Foi ordenado sacerdote na Baía em 1566 e acompanhou os acontecimentos que levaram à fundação do Rio de Janeiro e à expulsão dos franceses da Guanabara. Entre 1577 e 1587 foi provincial da Companhia de Jesus no Brasil. Percorreu a costa a pé e de barco, visitando colégios, aldeias e missões. Passou os últimos anos no Espírito Santo, junto das aldeias indígenas, e morreu em Reritiba (hoje Anchieta) a 9 de junho de 1597. Diz-se que os indígenas carregaram o seu corpo aos ombros durante cerca de 90 quilómetros, até Vitória.

Chamaram-lhe o «Apóstolo do Brasil». Foi beatificado por João Paulo II em 1980 e canonizado pelo Papa Francisco em 2014. A sua vida resume o que foi a missão jesuíta: aprender a língua do outro, ensinar, criar cultura e não recuar diante do perigo.

Anselmo Eckart: missão, prisão e fidelidade

Litografia “Aldeia de Tapuias” (Aldea des Tapuyos), criada pelo artista alemão Johann Moritz Rugendas entre 1822 e 1825 e publicada em Paris em 1835
c. 1820

nselmo Eckart nasceu a 4 de agosto de 1721, na Alemanha, e entrou na Companhia de Jesus em 1740. Como muitos jesuítas da Europa Central, ofereceu-se para as missões ultramarinas portuguesas. Em 1753 partiu de Lisboa para o Estado do Grão-Pará e Maranhão, na Amazónia.

Trabalhou primeiro em Piraguiri e depois nas missões dos Abacaxis e de Trocano, no rio Madeira, um dos grandes afluentes do Amazonas. Era uma região de floresta densa e longas viagens de canoa, onde os missionários viviam isolados entre as populações indígenas. Para comunicar com elas, Eckart aprendeu a língua geral, de base tupi, que os jesuítas tinham tornado a língua comum das missões amazónicas. Preparou materiais catequéticos e linguísticos e fez também trabalho cartográfico, num território que os europeus ainda mal conheciam.

A sua missão foi interrompida pouco depois de começar. Na década de 1750, a política do Marquês de Pombal e do seu irmão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, governador do Grão-Pará, entrou em conflito aberto com os jesuítas. Os missionários perderam o governo temporal das aldeias e passaram a ser acusados de se oporem à Coroa. Em novembro de 1757, Eckart foi preso e deportado para Portugal, ainda antes da expulsão geral da Companhia, em 1759.

Começou então um longo cativeiro. Esteve primeiro na fortaleza de Almeida, a partir de 1759, e em 1762 foi transferido para o Forte de São Julião da Barra, onde ficou até 1777. As celas eram «subterrâneas, húmidas, escuras e mal ventiladas». Muitos dos companheiros de prisão morreram de doença, fome e frio. Eckart sobreviveu e deixou um testemunho precioso desses anos nas suas memórias, publicadas em português como Memórias de um jesuíta prisioneiro de Pombal. Para os jesuítas encarcerados, São Julião foi um lugar de provação, de sofrimento e de fidelidade.

Só foi libertado em 1777, com a morte de D. José e a queda de Pombal. Já em liberdade, continuou a escrever sobre o Brasil. Em 1785 publicou as Observações Críticas sobre o relato de viagem de Pedro Cudena, uma obra hoje valorizada pelo seu interesse etnográfico. Fiel à sua vocação, voltou à Companhia de Jesus na Rússia Branca, onde a Ordem sobrevivera à supressão de 1773 graças à proteção de Catarina II. Morreu ali em 1809, aos 88 anos.

A vida de Anselmo Eckart lembra que a missão nem sempre se mede por frutos visíveis. Por vezes mede-se pela perseverança: na floresta amazónica, no cárcere e no exílio.

Uma memória que é também um apelo

No centenário do Dia Mundial das Missões, lembrar estes jesuítas é mais do que um exercício de memória histórica. Os seus percursos foram muito diferentes: um santo andarilho, o apóstolo do Brasil, astrónomos de corte, um prisioneiro de Pombal. Ainda assim, todos dão rosto ao tema deste ano, carismas diferentes unidos num mesmo propósito. Neste domingo, ao rezarmos pelos missionários de hoje, rezemos também em ação de graças por aqueles que, há séculos, partiram de Portugal e da Europa para levar o Evangelho até aos confins do mundo.

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VEIGA, Francisca Branco, Cem anos do Dia Mundial das Missões: memória dos missionários jesuítas (blogue da autora (Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [16 de Outubro de 2026].

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Textos do blogue sobre missões e missionários jesuítas

2020

  1. 31 julho 1833, D. PEDRO DÁ ORDEM DE EXPULSÃO AOS MISSIONÁRIOS JESUÍTAS DE LISBOA
  2. Noviciado S. Francisco de Xavier (1706-1758)
  3. Paiaçu de Portugal: António Vieira, Missionário, Orador, Defensor
  4. Francisco Xavier embarca em Lisboa, com destino à Índia (7 abril 1541)
  5. D. João III e a Companhia de Jesus: consolidação da presença portuguesa em territórios além-mar
  6. Apoio dado por António Ribeiro Saraiva e pelo Duque de Cadaval ao regresso da Companhia de Jesus a Portugal, em 1829

2021

  1. São João de Brito, missionário e mártir da Companhia de Jesus
  2. Jesuítas Matemáticos Portugueses no Império da China (século XVI-XVIII)
  3. Colégio jesuíta de S. Paulo, Macau (1594-1762)
  4. Veneração aos Santos e Mártires: o relicário e as relíquias dos jesuítas João Soan (de Goto) e Diogo Kisai, martirizados em Nagasaki
  5. No dia 3 de dezembro de 1552, morre São Francisco Xavier (1506-1552)

2022

  1. Astrónomos Jesuítas Portugueses na China
  2. A formação de um noviço da Companhia de Jesus no Noviciado da Cotovia (1616-1759)

2023

  1. Os azulejos da Igreja do Convento de Arroios / Convento de Nossa Senhora da Nazaré / Hospital de Arroios
  2. Portugal e a China nos séculos XVI e XVII

2024

  1. Biblioteca da Ajuda, Jesuítas na Ásia, Série da Província da China, Séculos XVI e XVII
  2. JOSÉ ANCHIETA (1534 – 1597): curiosidades acerca do humanista
  3. Mártires do Brasil (15 de Julho de 1570)
  4. SIMÃO RODRIGUES (primeiro Provincial da Companhia de Jesus em Portugal)
  5. Marcos e Curiosidades do Forte de São Julião da Barra, em Oeiras

2025

  1. Entre o Triunfo e o Silêncio: Imaginário e Realidade nas Missões Jesuítas

2026

  1. Um repórter de natureza no século XVI: José de Anchieta e o primeiro retrato da Mata Atlântica
  2. 22 de Abril de 1541: Fundação Solene da Companhia de Jesus e a Primeira Missão Global dos Jesuítas
  3. Igreja do Gesù (Santissimo Nome di Gesù all’Argentina ou Igreja de Jesus), Roma
  4. A Igreja de São João Evangelista, ou Igreja do Colégio, no Funchal
  5. Anselmo Eckart (1721–1809): missionário, prisioneiro e testemunha do cárcere pombalino

Anselmo Eckart (1721–1809): missionário, prisioneiro e testemunha do cárcere pombalino

Anselmo Eckart (1721–1809), jesuíta alemão, foi missionário na Amazónia (1753–1757), onde estudou a língua geral e produziu materiais linguísticos e cartográficos. Deportado pela política pombalina, passou pelos cárceres de Almeida e, sobretudo, de São Julião da Barra (1762–1777), deixando nas suas Memórias de um jesuíta prisioneiro de Pombal um testemunho ímpar da repressão antijesuítica. Libertado em 1777, reintegrou a Companhia de Jesus na Rússia Branca, onde viveu até à morte.

Palavras-chave

Anselmo Eckart; Jesuítas; Amazónia; Língua geral; Pombal; São Julião da Barra; Memórias; Rússia Branca; São Julião da Barra.

A história de Anselmo Eckart (1721–1809) atravessa alguns dos momentos mais marcantes da história da Companhia de Jesus no século XVIII. Jesuíta alemão, missionário na Amazónia portuguesa e, mais tarde, prisioneiro nos cárceres de Pombal, Eckart conheceu duas realidades muito diferentes: a vida nas missões e a dura experiência do encarceramento.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)». In XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025.

Nascido a 4 de agosto de 1721, entrou na Companhia de Jesus em 1740. Em 1753 partiu de Lisboa para o Estado do Grão-Pará e Maranhão, integrando o grupo de missionários destinados às missões da Amazónia. Passou pela missão de Piraguiri, onde se dedicou também à aprendizagem da língua geral, e desenvolveu atividade missionária em Abacaxis e Trocano, no rio Madeira. O contacto com as populações indígenas levou-o também a interessar-se pelas suas línguas e pela elaboração de materiais de natureza linguística e catequética.

Litografia “Aldeia de Tapuias” (Aldea des Tapuyos), criada pelo artista alemão Johann Moritz Rugendas entre 1822 e 1825 e publicada em Paris em 1835
c. 1820

Anselmo Eckart destacou-se também como cartógrafo e linguista ao produzir mapas e estudar a língua geral (tupi). A sua obra mais importante, Observações Críticas sobre o relato de viagem de Pedro Cudena ao Brasil”(1785), possui grande relevância etnográfica por descrever a religião e os costumes dos índios tupi de forma rigorosa e menos sensacionalista do que os relatos de cronistas anteriores. O texto traça um paralelo histórico entre a catequese dos índios no Brasil colonial e a reeducação confessional dos camponeses luteranos na Renânia (Alemanha) pelas ursulinas. Ambos os projetos utilizavam o teatro ritualístico voltado para o povo iletrado e compartilhavam a mesma visão das elites: tratavam tanto indígenas quanto camponeses europeus como “incultos e supersticiosos”, aplicando-lhes os mesmos métodos de educação severa e trabalho controlado.

A sua vida missionária seria, porém, bruscamente interrompida pela política de Sebastião José de Carvalho e Melo.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)». In XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)». In XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025.

Em novembro de 1757, Eckart foi deportado para Portugal com outros missionários alemães. A partir desse momento, o missionário da Amazónia passou a conhecer uma realidade completamente diferente: a dos cárceres onde os jesuítas foram encerrados na sequência da política pombalina.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)». In XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025.

Passou por diferentes locais de confinamento até chegar à praça-forte de Almeida, em 1759. Em 1762 foi transferido para o Forte de São Julião da Barra, onde permaneceu durante quinze anos, até 1777.

É esta longa experiência de cativeiro que faz de Anselmo Eckart uma figura particularmente importante para conhecer a repressão exercida contra os jesuítas.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)». In XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)». In XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)». In XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025.

São Julião da Barra tornou-se um dos principais espaços de encarceramento da Companhia de Jesus depois da expulsão de 1759. As memórias deixadas por Eckart, juntamente com os testemunhos de outros jesuítas, permitem-nos perceber o que significava, no dia a dia, viver naqueles cárceres.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)». In XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025.

As descrições são impressionantes. Falava-se de celas subterrâneas, húmidas, escuras e mal ventiladas, com uma pequena abertura no alto da abóbada por onde entravam algum ar e um fio de luz. A água infiltrava-se pelas paredes e, quando chovia, chegava a entrar nas celas. A alimentação era escassa e a assistência médica muito limitada. A falta de luz, o isolamento e as más condições materiais tornavam aquele espaço particularmente duro para quem ali permanecia durante anos.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)». In XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025.

Mas Anselmo Eckart não foi apenas um homem que viveu essa experiência. Foi também alguém que a deixou registada por escrito.

As suas memórias permitem acompanhar a deportação dos missionários, a passagem pelas prisões portuguesas e as condições em que os jesuítas viveram durante os anos do governo de Pombal. É através destes testemunhos que conseguimos aproximar-nos de uma realidade que os decretos e a documentação administrativa, por si só, dificilmente conseguem transmitir.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)». In XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025.

Eckart não escreve apenas sobre a prisão. Escreve também sobre aquilo que significava ser jesuíta numa situação de perseguição. A experiência do sofrimento aparece ligada à fé, à fidelidade à Companhia de Jesus e à ideia de resistência perante a adversidade. Por isso, as suas memórias têm também uma dimensão espiritual e são importantes para perceber a forma como os próprios jesuítas construíram a memória daqueles anos.

São Julião da Barra deixou, assim, de ser apenas um lugar de prisão. Na memória jesuítica, tornou-se também um lugar de provação, de sofrimento e de fidelidade.

A história de Eckart não terminou, contudo, com a sua libertação. Em 1777, depois da morte de D. José I e da queda política de Pombal, os jesuítas encarcerados foram libertados. Eckart deixou então Portugal e regressou ao espaço germânico.

Entretanto, a própria Companhia de Jesus tinha passado por uma das maiores crises da sua história. Em 1773, Clemente XIV decretara a sua supressão. Apesar disso, a Companhia continuou a existir na Rússia, e Eckart voltou a integrar as suas estruturas, desempenhando funções ligadas à formação e ao governo da ordem. Morreu em 1809, na Rússia Branca.

A vida de Anselmo Eckart é, por isso, particularmente interessante porque acompanha quase toda a história da rutura entre a Companhia de Jesus e o poder pombalino. Foi missionário na Amazónia, conheceu de perto a política colonial de Pombal, foi deportado para Portugal, passou anos nas prisões do reino e acabou por deixar por escrito a memória dessa experiência.

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Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco (2021), Anselmo Eckart (1721–1809): missionário, prisioneiro e testemunha do cárcere pombalino (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [20 de Setembro de 2026].

Palestra:

Francisca Branco Veiga, Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834) XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025.

Francisca Branco Veiga, «Jesuítas e São Julião da Barra. Destinos Cruzados (1759 e 1834)». In XIX edição 2025 Diálogos em Noites de Outono, Livraria Verney, Oeiras, 2025.

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