Ficou conhecido como o “Apóstolo do Oriente”, sendo uma das figuras mais marcantes da expansão missionária do cristianismo no século XVI e um dos primeiros companheiros de Santo Inácio de Loyola na fundação da Companhia de Jesus.

|Peter Paul Rubens,1617-18
Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria
A convite de D. João III, a Companhia de Jesus estabeleceu-se em Portugal em 1540, pouco depois da sua aprovação pontifícia. A 27 de setembro de 1540, o Papa Paulo III aprovou oficialmente a nova ordem religiosa através da bula Regimini Militantis Ecclesiae, abrindo caminho à rápida expansão dos jesuítas e à criação de uma vasta rede de colégios e casas de formação.

André Reinoso, cerca de 1619
Igreja de S. Roque, Lisboa, Portugal (3)
Durante a sua permanência em Portugal, antes de partir para o Oriente, Francisco Xavier escreveu a Santo Inácio de Loyola e a João Coduri, dando conta do entusiasmo de D. João III pelo projeto educativo da Companhia:
«D’acá os hago saber como el Rey, paresciéndole bien nuestro modo de proceder, así por la experiencia que tiene del fruto espiritual que se hace, como esperando mayor cuantos más fueren, está deliberado de hacer un colegio y una casa de los nuestros, es a saber, de la Compañía de Jesús…»
Acrescentava ainda:
«…Este verano en la Universidad de Coimbra edificará el colegio, y la casa pienso en la ciudad de Évora.» (1)
Estas palavras testemunham o decisivo apoio régio à implantação da Companhia de Jesus em Portugal. Em poucos anos seriam fundados importantes estabelecimentos em Lisboa, Coimbra, Évora e noutras localidades do reino, constituindo uma rede educativa que marcaria profundamente a cultura portuguesa.
Já missionário em Goa, Francisco Xavier insistia na necessidade de preparar “soldados de Deus”. Mais do que uma formação exclusivamente erudita, defendia homens profundamente exercitados na vida espiritual e apostólica (2). Noviciados, colégios e universidades integravam um mesmo projeto educativo, onde a sólida preparação intelectual, a disciplina espiritual e a dedicação permanente ao serviço das almas constituíam os pilares da formação jesuíta.

André Reinoso, cerca de 1619
Igreja de S. Roque (Sacristia)
Na madrugada de 3 de dezembro de 1552, a mais de dez mil quilómetros de Lisboa, numa humilde cabana de palha na ilha de Sancião, junto à costa da China, Francisco Xavier faleceu sem conseguir concretizar o grande objetivo da sua vida missionária: entrar no Império Chinês.
Consumido pela febre e pelo isolamento, entregou a alma pronunciando as palavras do Salmo que tantas vezes o haviam sustentado:
In te, Domine, speravi, non confundar in aeternum.
Em Vós, Senhor, esperei; jamais serei confundido.
A morte interrompeu a missão, mas deu início ao nascimento de uma das figuras mais veneradas da história do cristianismo. O missionário que percorreu milhares de quilómetros apenas com um crucifixo, uma fé inabalável e uma extraordinária coragem tornou-se símbolo da evangelização do Oriente. Não conquistou territórios com armas nem exércitos; conquistou-os pela palavra, pelo exemplo e pela dedicação aos mais pobres.
Após a sua morte, o corpo foi trasladado para Malaca e, posteriormente, para Goa, onde permanece até aos dias de hoje, sendo objeto de profunda veneração.
Foi beatificado pelo Papa Paulo V, a 25 de outubro de 1619, e canonizado pelo Papa Gregório XV, a 12 de março de 1622.

A Capela de São Francisco Xavier, concluída em 1659, constitui um dos mais notáveis conjuntos artísticos do Oriente português. Combina mármore, cobre e madeira ricamente trabalhados em vários níveis decorativos. Sobre o altar encontra-se a célebre urna de prata, executada por artistas goeses segundo o desenho do escultor florentino Giovanni Battista Foggini, cerca de 1697, e oferecida pelo Grão-Duque Cosme III de Médici. Nesta magnífica obra repousa o corpo do santo.
Até aos nossos dias, São Francisco Xavier continua a atrair milhares de peregrinos. A urna é exposta periodicamente para veneração pública, perpetuando uma tradição iniciada logo após a transladação do corpo para Goa e testemunhando a permanência da sua devoção ao longo de quase cinco séculos.
A Capela de São Francisco Xavier constitui, assim, uma extraordinária síntese entre a arte florentina, a mestria artesanal goesa e a herança do império português no Oriente, preservando a memória daquele que São João Paulo II designou como o “Príncipe dos Missionários”.
Pontos Principais da Vida de São Francisco Xavier
- Um dos primeiros companheiros de Santo Inácio de Loyola e cofundador da Companhia de Jesus.
- Estabeleceu-se em Portugal antes de partir para as missões do Oriente.
- Chegou a Goa em 1542, iniciando uma intensa atividade missionária.
- Evangelizou a Índia, o Ceilão, as Molucas, Malaca e o Japão.
- Compreendeu que a evangelização do Oriente passava pela abertura da China ao cristianismo.
- Em julho de 1552 partiu rumo à ilha de Sancião, aguardando oportunidade para entrar clandestinamente na China.
- Celebrou diariamente a Eucaristia, ensinou a doutrina cristã, administrou os sacramentos, assistiu doentes e acompanhou os mais pobres.
- Morreu em Sancião, a 3 de dezembro de 1552, com 46 anos de idade.
- O seu corpo foi trasladado para Goa, onde permanece incorrupto em veneração na Basílica do Bom Jesus.
- Foi canonizado em 1622 e é venerado como Padroeiro das Missões e um dos maiores missionários da história da Igreja.


Considerações finais
A morte de São Francisco Xavier encerrou uma vida extraordinariamente breve, mas de uma fecundidade espiritual incomparável. Morreu sozinho, pobre e fisicamente exausto, sem alcançar o último grande objetivo da sua missão: entrar na China. Contudo, aquilo que aos olhos humanos poderia parecer um fracasso transformou-se num dos mais poderosos símbolos da história missionária da Igreja.
A sua existência demonstra que a grandeza de uma missão não se mede pelos êxitos imediatos, mas pela fidelidade ao ideal que a inspira. Francisco Xavier não conquistou impérios nem fundou reinos; conquistou consciências, abriu caminhos ao diálogo entre culturas e lançou as bases de uma presença cristã duradoura em vastas regiões da Ásia. A sua morte, na humilde ilha de Sancião, tornou-se o culminar de uma vida inteiramente oferecida ao serviço de Deus e dos outros.
Cinco séculos depois, o seu túmulo continua a ser lugar de peregrinação, memória e esperança. O corpo que repousa na Basílica do Bom Jesus, em Goa, permanece como testemunho de uma entrega total, enquanto a sua obra missionária continua a inspirar sucessivas gerações. Mais do que recordar o missionário que levou o Evangelho ao Oriente, recordar São Francisco Xavier é reconhecer o legado universal de um homem cuja fé ultrapassou fronteiras geográficas, culturais e espirituais, fazendo dele, para a História e para a Igreja, o eterno Apóstolo do Oriente.
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(1) Monumenta Historica Societatis Iesu, Cartas de San Ignacio, pp. 443-447;
LOPES, António, D. Pedro Mascarenhas: Introdutor da Companhia de Jesus em Portugal, 2003, p.168.
(2) GOMES, Manuel Pereira, Santo Inácio e a fundação de Colégios, p. 41.
(3) S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III antes da viagem para a Índia. O rei está ao centro, tomando as mãos do santo e, ao lado, encontra-se o Padre Simão Rodrigues, introdutor da Companhia de Jesus em Portugal. A receção decorre no Paço da Ribeira, vendo-se o Tejo ao fundo, e a corte é composta por membros do clero e da nobreza, incluindo membros das três ordens militares, identificadas pelas respetivas cruzes: Cristo, Santiago e Avis.
Veja-se, inclusive, OSSWALD, Maria Cristina, S. Francisco Xavier no Oriente – aspectos de devoção e iconografia. In https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4322.pdf
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VEIGA, Francisca Branco. No dia 3 de dezembro de 1552, morre São Francisco Xavier (1506-1552) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [03 de Dezembro de 2021].
Veja-se:
_ VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.
_ VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia 1619-1759. Ed. Autor, 2025.
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