Cem anos do Dia Mundial das Missões: memória dos missionários jesuítas

No próximo domingo, 18 de outubro de 2026, a Igreja Católica em todo o mundo celebra o 100.º Dia Mundial das Missões. A primeira celebração realizou-se em outubro de 1926, no pontificado de Pio XI, o «Papa das Missões». Foi nesse mesmo ano que publicou a encíclica Rerum Ecclesiae. Para este centenário, o Papa Leão XIV escolheu como tema «Um em Cristo, unido na missão». Na mensagem, lembra que «a unidade missionária não deve ser entendida como uniformidade, mas como a convergência de diferentes carismas para o mesmo propósito».

Esta frase descreve bem a história missionária da Companhia de Jesus. Os jesuítas evangelizaram de muitas maneiras: pelo ensino, pela ciência, pelo estudo das línguas, pela diplomacia e, muitas vezes, pelo sofrimento. Recordo aqui alguns destes missionários.

Palavras-chave:

Dia Mundial das Missões; Companhia de Jesus; missões; Brasil; China; Amazónia; Pio XI; Leão XIV

Francisco Xavier: o modelo da missão ad gentes

Pregação de São Francisco Xavier em Goa.
AUTOR
André Reinoso (c. 1590-pós 1650)
LOCAL/DATA
Museu de S. Roque, c. 1619

São Francisco Xavier nasceu em 1506, no castelo de Xavier, em Navarra. Estudou na Universidade de Paris, onde conheceu Inácio de Loiola. Foi um dos seus primeiros companheiros e um dos fundadores da Companhia de Jesus. Quando D. João III pediu missionários para o Oriente português, Inácio escolheu-o quase à última hora. Xavier partiu de Lisboa a 7 de abril de 1541, no dia em que fazia 35 anos, e chegou a Goa em maio do ano seguinte.

Nos dez anos seguintes percorreu milhares de quilómetros:

  • Costa da Pescaria e Travancor (1542–1544): no sul da Índia, viveu entre os pescadores paravás. Mandou traduzir para tâmil as orações e o catecismo, e diz-se que percorria as aldeias a tocar uma campainha para reunir as crianças.
  • Malaca e Molucas (1545–1547): passou por Ambão, Ternate e as ilhas do Moro, uma das regiões mais remotas e perigosas do império.
  • Japão (1549–1551): em Malaca conheceu Anjirō, um japonês convertido, e com ele chegou a Kagoshima a 15 de agosto de 1549. Esteve em Hirado, Yamaguchi e Quioto e percebeu que era preciso adaptar-se. Os japoneses respeitavam a cultura e a dignidade, por isso trocou a pobreza exterior por trajes adequados para se apresentar aos senhores locais. Descreveu os japoneses como «o melhor povo até agora descoberto».
  • As portas da China (1552): convencido de que o Japão só se converteria depois da China, tentou entrar no império chinês, que estava fechado aos estrangeiros. Morreu a 3 de dezembro de 1552 na ilha de Sanchão, frente à costa chinesa, à espera de um barco que o levasse ao continente.

As cartas que enviava para a Europa eram lidas em voz alta em colégios e cortes. Despertaram vocações por todo o lado e moldaram o imaginário missionário durante séculos. O seu corpo repousa na Basílica do Bom Jesus, em Goa. Foi canonizado em 1622, ao mesmo tempo que Santo Inácio.

Há ainda uma ligação direta ao centenário que agora celebramos. Em 1927, um ano depois do primeiro Dia Mundial das Missões, Pio XI proclamou São Francisco Xavier padroeiro das missões, juntamente com Santa Teresa do Menino Jesus.

A ciência ao serviço do Evangelho: os jesuítas portugueses em Pequim

Na China, a missão passou pela corte imperial, através da astronomia, da matemática e da técnica:

  • Manuel Dias Júnior (1574–1659) descreveu em chinês as observações de Galileu e, com Nicolau Longobardo, fez o primeiro globo terrestre chinês (1623).
  • Gabriel de Magalhães (1610–1677) construiu autómatos e relógios para os imperadores Shunzhi e Kangxi.
  • Tomás Pereira (1645–1708) serviu cerca de 35 anos na corte de Kangxi. Ensinou música ao imperador e participou na definição da fronteira sino-russa.
  • Félix da Rocha (1713–1781) e José de Espinha (1722–1788) cartografaram regiões inteiras do império e dirigiram o Tribunal das Matemáticas.
  • André Rodrigues (1729–1796) e José Bernardo de Almeida (1728–1805) mantiveram a presença jesuíta em Pequim até ao fim. José Bernardo de Almeida foi também médico da corte e recusou, por fidelidade à fé, realizar o rito fúnebre chinês por Qianlong.

Estes homens adotaram nomes chineses, aprenderam a língua e a cultura e ganharam a confiança de imperadores. Mostraram que a missão é também diálogo e inculturação.

José de Anchieta: o Apóstolo do Brasil

Anchieta e Nóbrega na cabana de Pindobuçu, 1927.
AUTOR
Benedito Calixto (1853–1927)
LOCAL/DATA
Acervo da Fundação Reginaldo e Beth Bertholino, São Paulo. 1927

São José de Anchieta nasceu a 19 de março de 1534 em San Cristóbal de La Laguna, em Tenerife, nas Canárias. Ainda jovem foi estudar para Coimbra, no Colégio das Artes, e aí entrou na Companhia de Jesus em 1551. Tinha uma saúde frágil, com um problema na coluna que o acompanhou toda a vida. Os superiores pensaram que o clima do Brasil o ajudaria e, em 1553, partiu na armada do governador D. Duarte da Costa. Tinha 19 anos.

Juntou-se a Manuel da Nóbrega e, a 25 de janeiro de 1554, dia da Conversão de São Paulo, participou na fundação do colégio de Piratininga, no planalto paulista. Foi aí que nasceu a cidade de São Paulo. Numa casa pobre, feita de taipa e palha, Anchieta ensinava latim aos jovens e, ao mesmo tempo, aprendia com os indígenas a língua tupi. Dominou-a tão bem que escreveu a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil. A obra circulou manuscrita entre os missionários durante décadas, antes de ser impressa em Coimbra em 1595.

Para Anchieta, a língua era o caminho para a evangelização. Na catequese usou também a música, a poesia e o teatro: escreveu autos, como o Na Festa de São Lourenço, que misturavam o tupi, o português e o castelhano, e eram representados nas aldeias pelos próprios indígenas. Nas cartas que enviava para a Europa, descreveu com olhos atentos a fauna, a flora e os costumes da terra. Por isso foi também um dos primeiros observadores da natureza brasileira.

O episódio mais conhecido da sua vida aconteceu em 1563. Os Tamoios, aliados dos franceses, estavam em guerra com os portugueses. Anchieta acompanhou Nóbrega até Iperoig, no litoral, para negociar a paz, e ficou sozinho como refém durante cerca de cinco meses, sempre em risco de vida. Segundo a tradição, foi aí que compôs o poema De Beata Virgine Dei Matre Maria, com mais de cinco mil versos latinos. Tê-lo-á escrito na areia da praia e decorado verso a verso, para mais tarde o passar para o papel. As negociações deram origem à chamada Paz de Iperoig.

Foi ordenado sacerdote na Baía em 1566 e acompanhou os acontecimentos que levaram à fundação do Rio de Janeiro e à expulsão dos franceses da Guanabara. Entre 1577 e 1587 foi provincial da Companhia de Jesus no Brasil. Percorreu a costa a pé e de barco, visitando colégios, aldeias e missões. Passou os últimos anos no Espírito Santo, junto das aldeias indígenas, e morreu em Reritiba (hoje Anchieta) a 9 de junho de 1597. Diz-se que os indígenas carregaram o seu corpo aos ombros durante cerca de 90 quilómetros, até Vitória.

Chamaram-lhe o «Apóstolo do Brasil». Foi beatificado por João Paulo II em 1980 e canonizado pelo Papa Francisco em 2014. A sua vida resume o que foi a missão jesuíta: aprender a língua do outro, ensinar, criar cultura e não recuar diante do perigo.

Anselmo Eckart: missão, prisão e fidelidade

Litografia “Aldeia de Tapuias” (Aldea des Tapuyos), criada pelo artista alemão Johann Moritz Rugendas entre 1822 e 1825 e publicada em Paris em 1835
c. 1820

nselmo Eckart nasceu a 4 de agosto de 1721, na Alemanha, e entrou na Companhia de Jesus em 1740. Como muitos jesuítas da Europa Central, ofereceu-se para as missões ultramarinas portuguesas. Em 1753 partiu de Lisboa para o Estado do Grão-Pará e Maranhão, na Amazónia.

Trabalhou primeiro em Piraguiri e depois nas missões dos Abacaxis e de Trocano, no rio Madeira, um dos grandes afluentes do Amazonas. Era uma região de floresta densa e longas viagens de canoa, onde os missionários viviam isolados entre as populações indígenas. Para comunicar com elas, Eckart aprendeu a língua geral, de base tupi, que os jesuítas tinham tornado a língua comum das missões amazónicas. Preparou materiais catequéticos e linguísticos e fez também trabalho cartográfico, num território que os europeus ainda mal conheciam.

A sua missão foi interrompida pouco depois de começar. Na década de 1750, a política do Marquês de Pombal e do seu irmão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, governador do Grão-Pará, entrou em conflito aberto com os jesuítas. Os missionários perderam o governo temporal das aldeias e passaram a ser acusados de se oporem à Coroa. Em novembro de 1757, Eckart foi preso e deportado para Portugal, ainda antes da expulsão geral da Companhia, em 1759.

Começou então um longo cativeiro. Esteve primeiro na fortaleza de Almeida, a partir de 1759, e em 1762 foi transferido para o Forte de São Julião da Barra, onde ficou até 1777. As celas eram «subterrâneas, húmidas, escuras e mal ventiladas». Muitos dos companheiros de prisão morreram de doença, fome e frio. Eckart sobreviveu e deixou um testemunho precioso desses anos nas suas memórias, publicadas em português como Memórias de um jesuíta prisioneiro de Pombal. Para os jesuítas encarcerados, São Julião foi um lugar de provação, de sofrimento e de fidelidade.

Só foi libertado em 1777, com a morte de D. José e a queda de Pombal. Já em liberdade, continuou a escrever sobre o Brasil. Em 1785 publicou as Observações Críticas sobre o relato de viagem de Pedro Cudena, uma obra hoje valorizada pelo seu interesse etnográfico. Fiel à sua vocação, voltou à Companhia de Jesus na Rússia Branca, onde a Ordem sobrevivera à supressão de 1773 graças à proteção de Catarina II. Morreu ali em 1809, aos 88 anos.

A vida de Anselmo Eckart lembra que a missão nem sempre se mede por frutos visíveis. Por vezes mede-se pela perseverança: na floresta amazónica, no cárcere e no exílio.

Uma memória que é também um apelo

No centenário do Dia Mundial das Missões, lembrar estes jesuítas é mais do que um exercício de memória histórica. Os seus percursos foram muito diferentes: um santo andarilho, o apóstolo do Brasil, astrónomos de corte, um prisioneiro de Pombal. Ainda assim, todos dão rosto ao tema deste ano, carismas diferentes unidos num mesmo propósito. Neste domingo, ao rezarmos pelos missionários de hoje, rezemos também em ação de graças por aqueles que, há séculos, partiram de Portugal e da Europa para levar o Evangelho até aos confins do mundo.

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, Cem anos do Dia Mundial das Missões: memória dos missionários jesuítas (blogue da autora (Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [16 de Outubro de 2026].

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Textos do blogue sobre missões e missionários jesuítas

2020

  1. 31 julho 1833, D. PEDRO DÁ ORDEM DE EXPULSÃO AOS MISSIONÁRIOS JESUÍTAS DE LISBOA
  2. Noviciado S. Francisco de Xavier (1706-1758)
  3. Paiaçu de Portugal: António Vieira, Missionário, Orador, Defensor
  4. Francisco Xavier embarca em Lisboa, com destino à Índia (7 abril 1541)
  5. D. João III e a Companhia de Jesus: consolidação da presença portuguesa em territórios além-mar
  6. Apoio dado por António Ribeiro Saraiva e pelo Duque de Cadaval ao regresso da Companhia de Jesus a Portugal, em 1829

2021

  1. São João de Brito, missionário e mártir da Companhia de Jesus
  2. Jesuítas Matemáticos Portugueses no Império da China (século XVI-XVIII)
  3. Colégio jesuíta de S. Paulo, Macau (1594-1762)
  4. Veneração aos Santos e Mártires: o relicário e as relíquias dos jesuítas João Soan (de Goto) e Diogo Kisai, martirizados em Nagasaki
  5. No dia 3 de dezembro de 1552, morre São Francisco Xavier (1506-1552)

2022

  1. Astrónomos Jesuítas Portugueses na China
  2. A formação de um noviço da Companhia de Jesus no Noviciado da Cotovia (1616-1759)

2023

  1. Os azulejos da Igreja do Convento de Arroios / Convento de Nossa Senhora da Nazaré / Hospital de Arroios
  2. Portugal e a China nos séculos XVI e XVII

2024

  1. Biblioteca da Ajuda, Jesuítas na Ásia, Série da Província da China, Séculos XVI e XVII
  2. JOSÉ ANCHIETA (1534 – 1597): curiosidades acerca do humanista
  3. Mártires do Brasil (15 de Julho de 1570)
  4. SIMÃO RODRIGUES (primeiro Provincial da Companhia de Jesus em Portugal)
  5. Marcos e Curiosidades do Forte de São Julião da Barra, em Oeiras

2025

  1. Entre o Triunfo e o Silêncio: Imaginário e Realidade nas Missões Jesuítas

2026

  1. Um repórter de natureza no século XVI: José de Anchieta e o primeiro retrato da Mata Atlântica
  2. 22 de Abril de 1541: Fundação Solene da Companhia de Jesus e a Primeira Missão Global dos Jesuítas
  3. Igreja do Gesù (Santissimo Nome di Gesù all’Argentina ou Igreja de Jesus), Roma
  4. A Igreja de São João Evangelista, ou Igreja do Colégio, no Funchal
  5. Anselmo Eckart (1721–1809): missionário, prisioneiro e testemunha do cárcere pombalino

Um biombo de laca de Coromandel: entre a China e o Ocidente

Há objetos que, pela sua beleza, despertam imediatamente o olhar. Outros, para além da beleza, permitem-nos compreender a circulação de pessoas, técnicas, objetos e culturas entre diferentes espaços do mundo. É o caso deste biombo de laca de Coromandel, da coleção da Fundação Calouste Gulbenkian, constituído por doze painéis de madeira.

Palavras-chave

Biombo de Coromandel · Laca chinesa · Arte chinesa · Dinastia Qing · Fundação Calouste Gulbenkian · China · Coromandel · Comércio marítimo · Circulação cultural · Chinoiserie · Arte e sociedade · Cultura material · Património · Relações Ásia-Europa · História da arte · Colecionismo

Um objeto chinês com nome ocidental

Os biombos, conhecidos na China como pingfeng ou lian ping, tinham uma função prática: protegiam os espaços interiores das correntes de ar e permitiam também organizar e delimitar diferentes áreas dentro de uma divisão.

A designação «laca de Coromandel» não significa, contudo, que estas peças fossem produzidas na costa de Coromandel, na Índia.

O nome está relacionado com a sua circulação comercial para o Ocidente através da costa de Coromandel, na costa oriental da Índia. É, por isso, uma designação que nos fala tanto da peça como das redes comerciais através das quais ela circulou.

Uma pintura sobre madeira

A técnica utilizada é particularmente interessante.

Sobre a laca preta era previamente realizado um desenho, sendo depois os sulcos preenchidos com pigmentos de diferentes cores. O resultado é uma superfície de grande riqueza decorativa, onde o negro do fundo contrasta com as cores das figuras, dos edifícios e da vegetação.

Neste exemplar, as cenas distribuem-se pelos diferentes painéis e apresentam arquiteturas palacianas, jardins, personagens e momentos da vida quotidiana num ambiente de corte.

O biombo não deve, por isso, ser entendido apenas como um objeto decorativo. A sua pintura constrói também uma representação visual de um determinado universo social.

Um objeto para celebrar

Existe ainda uma particularidade que torna esta peça especialmente interessante.

Segundo a informação que acompanha o objeto (legenda), a sua execução esteve relacionada com a comemoração do quinquagésimo aniversário de um marechal.

Esta circunstância ajuda a compreender a dimensão simbólica do biombo. Estamos perante um objeto de uso doméstico, mas também perante uma peça associada à memória, à representação social e à celebração de uma figura de estatuto elevado.

A riqueza da decoração não é, portanto, meramente ornamental.

O biombo como espaço

Um biombo serve para dividir um espaço, criar alguma privacidade e orientar a circulação dentro de um interior. Mas, simultaneamente, este biombo representa espaços: pavilhões, jardins, interiores palacianos e diferentes grupos de personagens.

Existe, assim, uma relação muito interessante entre o espaço real que o biombo organiza e o espaço imaginado que a sua pintura representa.

O espectador não contempla uma única imagem. O olhar percorre os doze painéis, passando de uma cena para outra e descobrindo progressivamente uma paisagem social e arquitetónica.

Da China para o Ocidente

Peças como esta são também testemunhos de uma longa história de circulação cultural entre a Ásia e a Europa.

Muito antes de a chinoiserie se afirmar como gosto europeu, objetos chineses circulavam através das redes comerciais asiáticas e chegavam aos espaços europeus, onde eram apreciados pelo seu valor artístico, pela qualidade técnica e pelo seu carácter exótico.

O biombo torna-se, assim, mais do que uma peça de mobiliário.

É também um testemunho material de contactos entre mundos diferentes, de circuitos comerciais e de uma crescente curiosidade europeia pelas culturas asiáticas.

Um objeto que merece ser lido

É precisamente esta dimensão que me interessa nestas peças.

Quando observamos um biombo de laca de Coromandel, não estamos apenas perante uma obra de grande beleza decorativa. Estamos perante um objeto que permite pensar arte, comércio, circulação, representação social e contacto entre culturas.

E talvez seja essa uma das maiores riquezas dos objetos históricos: continuam a falar-nos, mesmo muitos séculos depois de terem sido produzidos.

O passado continua a falar — quando sabemos olhar para os seus objetos.

Esta fotografia mostra a estrutura completa de 12 painéis (folhas) do biombo de Coromandel pertencente à coleção de arte da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
A imagem permite compreender o intrincado esquema decorativo tripartido e simétrico planeado pelos artesãos chineses do final do século XVII (dinastia Qing), revelando como as aproximações anteriores se integram na grandiosa narrativa visual da peça:

1. O Registo Superior (Os Círculos e Janelas Caligráficas)
Medalhões Circulares: No topo de cada uma das 12 folhas, existe uma cercadura circular que emoldura delicadas pinturas de paisagens e composições florais em tons suaves.
Cartelas Verticais: Logo abaixo de cada círculo, pequenas cartelas verticais intercalam-se com padrões geométricos brancos e pretos que recordam favos de mel, criando respiros visuais preciosos antes da densidade das cenas principais.

2. O Registo Central Superior (Painéis Narrativos em Papel)
É nesta faixa intermédia que se inserem as cenas de cariz literário, doméstico e militar (como a partida da expedição militar a cavalo e o encontro de intelectuais) detalhadas anteriormente.
A utilização de cores minerais mais suaves e fundos claros sobrepostos simula o efeito dos rolos de pintura tradicional chinesa em papel ou seda, conferindo erudição à peça.

3. O Registo Central Inferior e Base (A Grande Escultura em Laca)
A Celebração do Banquete: Ocupando a metade inferior do biombo, estende-se a grande e contínua narrativa palaciana esculpida em laca preta profunda (técnica kuan-cai). A perspetiva isométrica unifica todas as folhas, permitindo que a corte, o pátio com os músicos, as escadarias e o salão do trono do dignatário façam parte de um único e monumental cenário.
A Base: A sustentar toda a composição, a base do biombo apresenta robustos painéis inferiores a vermelho e ouro decorados com figuras de dragões imperiais e fénix que protegem a estrutura.

Esta magnífica peça da Coleção Gulbenkian é um dos exemplares mais raros deste género em Portugal devido à inclusão destas molduras de papel nos painéis superiores.
📸 @franciscabrancoveiga

Esta imagem foca-se na zona inferior da cena da audiência, revelando os preparativos culinários e o entretenimento musical que dão vida ao banquete palaciano no pátio exterior.
A composição divide-se nitidamente entre o terraço superior (onde decorre a cerimónia) e o pátio inferior de laca preta:

1. O Pátio Inferior: Músicos e Servas (Primeiro Plano)
Esta área mostra a azáfama dos criados e artistas que asseguram o sucesso da festividade:
As Músicas da Corte: No canto inferior direito, um grupo de mulheres executa música tradicional ao vivo para entreter os convidados. É possível distinguir uma figura a tocar uma flauta transversal (dizi) e outra inclinada sobre um tambor ritual assente num suporte de madeira decorado.
O Transporte das Iguarias: À esquerda, três damas de companhia avançam em cortejo. Transportam bandejas e recipientes circulares com alimentos e ofertas preciosas que serão subidos pelas escadas até ao salão principal.

2. O Terraço Superior: A Comitiva Real
No nível superior, a imagem permite ver com maior nitidez a transição entre o espaço exterior e o trono:
Guardas e Aias no Alpendre: À esquerda das colunas vermelhas, várias aias posicionam-se estrategicamente ao longo da balaustrada de pedra verde, funcionando como assistentes de protocolo da corte.
A Proximidade do Trono: À direita, a figura ajoelhada em vestes azuis escuras faz a ponte visual direta com o dignatário barbudo sentado no trono, reforçando o ato central de submissão, respeito ou entrega de tributo.
📸 @franciscabrancoveiga

1. Painel da Esquerda: A Vida Doméstica e Literária (Cena Superior e Inferior)
Este painel foca-se na sofisticação e nas atividades intelectuais ou de lazer no interior de uma residência nobre:
A Cena Superior: No interior de um pavilhão aberto para o jardim, vê-se um grupo em redor de um grande recipiente ou braseiro circular. Uma figura central, vestida de azul, parece estar a preparar chá ou a queimar incenso, enquanto outras personagens observam. O ambiente está decorado com mesas baixas e objetos de escrita, sugerindo um encontro de intelectuais ou poetas (literati).
A Cena Inferior: Junto ao portão de entrada da residência, delimitado por uma árvore antiga, duas figuras masculinas vestidas com trajes formais conversam. Uma delas parece estar a despedir-se ou a receber um convidado, um tema muito comum na pintura de paisagem chinesa que exalta a hospitalidade e os laços de amizade.

2. Painel da Direita: A Partida ou Regresso de uma Expedição Militar
Este painel introduz um elemento dinâmico e heroico, muito comum em biombos narrativos que celebram os feitos de grandes generais (como as crónicas do Romance dos Três Reinos):
O Comandante Militar: Um guerreiro montado num cavalo branco destaca-se no centro da composição. Ele veste uma armadura tradicional e segura uma longa lança (ji), liderando a marcha.
A Comitiva e os Estandartes: Abaixo dele, vários soldados a cavalo avançam transportando grandes bandeiras militares e estandartes coloridos com insígnias. A presença das bandeiras reforça a solenidade e a importância da missão ou da vitória militar.
A Entrada da Fortaleza: Ao fundo, as tropas aproximam-se ou saem de um imponente arco de pedra que serve de porta a uma cidade fortificada ou palácio, encimado por um pavilhão com uma cortina vermelha.
📸 @franciscabrancoveiga

Vista Geral d
A imagem oferece uma perspetiva mais ampla de dois dos painéis centrais do biombo, revelando a organização espacial e a arquitetura típica dos palácios chineses da época:
Estrutura multinível: A composição divide-se através de terraços elevados, escadarias de pedra e pavilhões abertos sustentados por colunas vermelhas.
Dinâmica narrativa: Do lado esquerdo, vemos as comitivas a aproximarem-se dos portões do palácio, enquanto o lado direito conduz o olhar diretamente para a sala de audiências principal.
Painéis decorativos: No topo, observam-se secções horizontais separadas que retratam paisagens e cavalheiros, emoldurados por padrões geométricos e dragões dourados na base.
📸 @franciscabrancoveiga

A Audiência com a Figura Central
Esta imagem foca-se no clímax narrativo do biombo, que se assemelha fortemente à famosa iconografia tradicional de “Guo Ziyi a receber os parabéns no seu aniversário” ou a uma receção com um dignatário ou imperador:
O Anfitrião/Dignatário: Um homem de longa barba preta, envergando sumptuosas vestes imperiais vermelhas bordadas com motivos circulares de dragões, encontra-se sentado num trono elevado.
O Suplicante ou Homenageado: Diante dele, uma figura vestida de azul-escuro curva-se numa profunda reverência respeitosa.
A Corte: À esquerda do trono, um grupo de oficiais e conselheiros com chapéus oficiais (wushamao) observa atentamente a cena. Atrás deles, criadas transportam grandes travessas com oferendas cobertas, simbolizando riqueza e celebração.
📸 @franciscabrancoveiga

O Cortejo das Damas de Companhia (Terceira Foto)
Esta secção detalha um grupo de mulheres da corte (meiren) a deslocar-se graciosamente ao longo de um corredor inclinado ou rampa pavimentada do jardim palaciano:
Preparativos para o Banquete: As damas surgem a transportar alimentos, frutas, taças de vinho rituais e um vaso azul com peónias (flores que simbolizam a prosperidade, a honra e a primavera).
Estética da Época: Estão vestidas com trajes tradicionais de seda multicamada e ostentam penteados elaborados decorados com ganchos de cabelo dourados, refletindo os ideais de elegância e harmonia da dinastia Qing.
📸 @franciscabrancoveiga
Os Dignatários no Pavilhão (Quarta Foto)
A última fotografia foca-se num pavilhão de lazer adjacente, onde os convidados de elite aguardam ou assistem aos festejos:
Estudo e Observação: Um grupo de intelectuais e funcionários públicos conversa descontraidamente. Um biombo de treliça geométrica preta adorna o fundo do pavilhão, enquanto um vaso com flores assenta sobre uma mesa clássica ao lado.
Elementos Naturais: À direita, surge uma imponente rocha ornamental de jardim (conhecida como “rocha de académico” ou Gongshi), essencial no design de jardins tradicionais chineses para evocar a harmonia com a natureza.
📸 @franciscabrancoveiga

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco (2021), Um biombo de laca de Coromandel: entre a China e o Ocidente (blogue da autora (Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [23 de Setembro de 2026].

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Portugal e a China nos séculos XVI e XVII

Representação de Chineses, in Jan Huygenvan Linschoten – Itinerario, Amsterdão, 1596.

[Jan Huyghen van Linschoten, filho de um notário público em Haarlem, emigrou para Sevilha e depois para Lisboa com o irmão quando tinha apenas 13 anos. Foi enviado para Goa, feitoria portuguesa na Índia, em 1583, onde procedeu à cópia ilícita de mapas náuticos portugueses. De volta à Holanda em 1595, Linschoten escreveu três livros relatando o seu conhecimento do “Oriente”. Esta imagem encontra-se inserida na sua terceira publicação Itinerario: Voyage ofte schipvaert van Jan Huyghen van Linschoten naer Oost ofte Portugaels Indien, 1579-1592, publicada em 1596 e traduzida para o inglês e o alemão dois anos depois].

Após a viagem de Vasco da Gama à Índia chegam a Lisboa notícias sobre a China e sobre as navegações chinesas no Índico, realizadas entre 1405 e 1433.

Dom vasco da Gama, conde da Vidigueira 2º Vice Rei de 2 de setembro 1524 até á sua morte em Cochim a 24 de dezembro de 1524

D. Manuel, em 1508, envia Diogo Lopes de Sequeira a Malaca com o objectivo de recolher informações sobre a China e os chineses.

A partir de 1511, após a conquista de Malaca, são feitos os primeiros contactos e é centralizado aqui o comércio português do Índico e dos mares da China.

Em 1513, Jorge Álvares penetra nos mares da China iniciando um período de intensas relações luso-chinesas.

Em 1515, em Malaca os portugueses ouvem falar de Macau, então conhecido pelo nome de Haojing, que significa Espelho de Ostra.

A partir desta data os portugueses procuram estabelecer relações diplomáticas com a China e obter um posto de comércio permanente na zona de Cantão.

Em 1517 é enviada à China a primeira embaixada, chefiada por Tomé Pires, com o intuito de estabelecer contactos políticos e diplomáticos que permitissem o comércio português na zona.

Assim, a instalação dos portugueses em Macau, em 1557, é fruto da conjugação de três factores essenciais: das condições internas e das relações internacionais estabelecidas pela dinastia reinante, Ming; do processo de aprendizagem dos portugueses nos mares da China; e da parceria de interesses comerciais que se estabeleceram entre chineses, portugueses e japoneses.

A China da dinastia Ming procura o monopólio do comércio externo marítimo através do controle da iniciativa privada das comunidades chinesas litorais e ultramarinas.

A crise fiscal e monetária da China, no tempo do imperador Jiajing  (1522-1566), e o consequente incremento da procura chinesa da prata, bem como a crescente produção da prata japonesa e a capacidade dos portugueses como intermediários, em parceria com chineses e japoneses, cria a possibilidade de Macau se tornar um entreposto, por onde passa a rota da seda, prata, porcelana, ouro e cobre.

Durante a ocupação filipina (1580-1640), o Império Português tornou-se muito fraco e desprotegido, visto que o Rei de Espanha, que era simultaneamente Rei de Portugal, não estava muito interessado em defender o Império Português. Estava mais interessado em defender e expandir o seu Império, em colonizar e controlar a América do Sul e em travar guerras com as outras potências europeias, nomeadamente a Inglaterra e a Holanda. Utilizou muitos recursos para manter estas guerras, em vez de utilizá-los para defender o nosso Império. Os inimigos de Espanha tornaram-se por consequência inimigos de Portugal. As colónias portuguesas sofreram inúmeros ataques dos ingleses, dos holandeses e dos franceses e muitas delas caíram nas mãos do inimigo.

Macau foi atacada em 1622 por 800 soldados holandeses. Eles desembarcaram na praia e avançaram com cautela para a Cidade, sofrendo pesado bombardeio de canhões da Fortaleza do Monte. A guarnição militar em Macau era pequena e muito inferior à força invasora holandesa. Após 2 dias de combate, no dia 24 de Junho, um padre jesuíta disparou um tiro de canhão e acertou com precisão, um vagão carregado de pólvora pertencente aos holandeses e foi assim que os militares de Macau derrotaram as forças invasoras. Dizem os registos portugueses que morreram algumas dezenas de portugueses e que morreram em combate ou afogados cerca de 350 holandeses. Para Macau, desprevenida, a vitória foi considerada um milagre. Após a vitória, os moradores de Macau passaram a comemorar o dia 24 de Junho, dia da vitória, como o “Dia da Cidade”. É também neste dia que se comemora o São João Baptista, o Padroeiro da Cidade. Conta a lenda que foi graças ao seu manto foram desviados os tiros dos inimigos, salvando a Cidade dos invasores holandeses.

Em 1640, em Portugal, quando a classe média e aristocracia, descontentes com o domínio espanhol e com o reinado de Filipe IV de Espanha (III de Portugal), quiseram restaurar a independência, pediram a D. João para encabeçar a causa. D. João aceitou a responsabilidade e a 1 de Dezembro deu-se o golpe contra Filipe III, sendo coroado Rei de Portugal a 15 de Dezembro de 1640.

Muitos mensageiros espalharam pelo país a notícia, levando consigo cartas para as autoridades de cada terra se encarregarem de aclamarem o novo rei. D. João IV enviou também diplomatas às principais cortes europeias com o objectivo de conseguir o reconhecimento da independência.

Na China, as notícias chegam dois anos depois. Em 30 Outubro de 1642 são enviadas cartas para Portugal, da Santa Casa da Misericórdia para dar a D. João IV os parabéns da aclamação. Também à registo de, em Agosto de 1643, uma Certidão de D. Sebastião Lobo de Sylveira Capitão Geral de Macau falando da felicidade dos Padres da companhia, aclamando D. João IV.

VASCONCELLOS, José Frazão de – A Aclamação del Rei D. João IV em Macau (Subsídios Históricos e Biográficos). Separata do N.º 53 do «Boletim da Agência Geral das Colónias. Agência Geral das Colónias, 55 páginas , 1929 (24 cm x 16,5 cm). Exemplar n.º 34 da tiragem de  125 exemplares numerados.

Macau é um espaço de pluralidade religiosa onde convivem com o cristianismo as várias expressões da religiosidade chinesa: o budismo, o daoísmo  e o confucionismo.

Os missionários jesuítas chegam à Ásia em 1542. Macau vai desempenhar um papel de centro difusor do cristianismo no Oriente. É a partir de Macau que partem as missões com destino ao Japão, à China e ao sueste asiático.

O Colégio de S. Paulo é a primeira universidade europeia na China, desenvolvendo cursos de artes, teologia, chinês, latim, matemática, astronomia, física, medicina, retórica e música. A impressão surge também ligada aos jesuítas e à difusão do cristianismo na China e no Japão. Em Macau imprime-se em três línguas: chinês, latim e português.

O cristianismo tem nesta parte do mundo uma forte dimensão cultural, tendo penetrado por esta via junto das elites chinesas.

Os primeiros tempos dos jesuítas na China foram essencialmente marcados pelo estudo da língua, pela observação atenta dos hábitos religiosos e sociais, pelo esforço de integração cultural e, sobretudo, por uma grande contenção nos gestos e nas palavras, a fim de não darem azo a qualquer suspeita de confronto susceptíveis de justificarem a sua expulsão do país. Mesmo assim muitas foram as injúrias, os desacatos e intrigas contra os membros da Companhia de Jesus levando a extremos, como por exemplo, ao martírio de alguns membros.

Os 120 Mártires da China

Memorial plaque for the 120 Martyr Saints of China at Saint Francis Xavier Church (Ho Chi Minh City)

[Os 120 Mártires da China, ou Agostinho Zhao Rong e 119 Companheiros, mártires na China, são mártires católicos da China e santos da Igreja Católica canonizados no dia 1 de Outubro de 2000 pelo Papa João Paulo II]

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China

Nos séculos XV e XVI desenvolveram-se em Portugal os meios técnicos necessários que possibilitaram as grandes navegações, as quais, por sua vez, vieram a permitir progressos científicos notáveis nos mais variados domínios, com destaque para a Náutica, a Cartografia, a Construção Naval, a Medicina e a Botânica.

As viagens dos Descobrimentos obrigaram os portugueses a considerar o regime dos ventos e das correntes no Atlântico e a desenvolver a náutica astronómica, isto é, a capacidade de conhecer a posição aproximada dos navios em alto mar.

Para esse feito utilizaram-se instrumentos de observação astronómica como o quadrante e o astrolábio náuticos ou ainda a balestilha, que permitiam determinar a altura de um astro sobre o horizonte e dessa forma calcular a latitude do lugar onde se realizava a observação.

Lisboa tornou-se no centro de intercâmbio cientifico entre os Colégios Europeus e as missões orientais.

No Colégio (jesuíta) de Santo Antão, em Lisboa, funcionou desde finais do século XVI até ao século XVIII uma “Aula de Esfera”, pública (“Aula de Esfera” por se tratar de textos sobre Tratados «da esfera», dedicados à exposição dos princípios de cosmografia).

Programas seguidos nesta aula:

Arte de Navegar

Estudo da Geografia/Hidrografia

Cosmografia, construção e uso de globos

Astrologia Judiciária / astrologia prática

Geometria (ingresso na carreira militar)

A «aula de esfera» do Colégio de Santo Antão foi muito importante na cultura portuguesa do século XVII por ser o único curso onde se professavam as ciências tão intimamente ligadas à Matemática.

Aqui estudaram muitos dos homens que retratámos em outras publicações e que se distinguiram em cargos que dependiam destas ciências.

Jesuítas Matemáticos Portugueses no Império da China (século XVI-XVIII).

Astrónomos jesuítas Portugueses na China (I)

TOMÁS PEREIRA S.J. [Nome chinês: Xu Risheng, cuja tradução é “Sol que nasce aos poucos”].

S. Martinho do Vale (Braga)

Missionário jesuíta, músico, matemático.

Nasceu a 1 de novembro de 1645, e S. Martinho do Vale, perto de Braga e morreu a 24 dezembro de 1708 em Beijing (Pequim).

Descende de uma família nobre portuguesa Costa Pereira estudou no Colégio de S. Paulo, em Braga.

Integrou durante 35 anos a corte do imperador chinês Kangxi (1654 – 1722), cuja governação marca o início de uma era áurea da civilização chinesa.

Zarpou de Lisboa em 15 de abril de 1666 e acabou a sua formação na Índia.

Saiu de Macau em 1672 e chegou a Pequim em 1673. Foi convidado do Imperador Xangxi devido aos seus dotes naturais e musicais. Ensinou o Imperador a tocar o “clavicórdio”.

No ano de 1688 foi encarregue de traçar as fronteiras da Sibéria com a China.

Vice-Presidente do Tribunal das Matemáticas, em Pequim. Depois da morte de Verbiest (1688) Xangxi nomeou Tomás Pereira presidente da Comissão de Astronomia, mas Pereira declinou, ficando como Presidente substituto com António Pereira de 1688 a 1694.

Tomás Pereira fabricou um relógio para a torre de uma igreja, em Pequim.

Introduziu no interior da torre um tambor com espigões, semelhantes aos das caixas de música, que acionavam arames ligados aos badalos de um carrilhão o qual, a todas as horas, tocava músicas tradicionais chinesas.

Astrónomos jesuítas Portugueses na China (II)

ANDRÉ PEREIRA S.J. (1689-1743) [Nome chinês: XU Moude, Zhouxian].

Missionário, sinólogo, astrónomo, matemático.

Nasceu em 1689, no Porto e morreu em 1742, em Beijing (Pequim)

Em 1710 estudava Filosofia na Universidade de Évora, onde tirou o grau de Mestre em Artes.

A 13 de Março de 1716, embarcou em Lisboa na nau Sant’Ana rumo a Macau, onde chegou a 30 de Agosto do mesmo ano.

Concluiu os estudos no Colégio Macaense.

Em 1724 foi chamado para a corte de Pequim como astrónomo e matemático e três anos depois recebia do Imperador a promoção a vice-presidente do Tribunal astronómico.

Deixou várias observações astronómicas, entre elas, aos satélites de Júpiter, em Pequim.

Período de grande intercâmbio científico entre os astrónomos portugueses, em Pequim, e a Academia das Ciências de S. Petersburgo, na Rússia (com o médico português Ribeiro Sanches).

Foi nomeado pelo Imperador ao grau de Mandarim.

Entre 1583 e 1805, portugueses presidiram, em Pequim, ao célebre Tribunal das Matemáticas – uma espécie de Ministério do Interior encarregue de elaborar o Calendário Imperial e que empregava 150 a 200 funcionários. André Pereira foi vice-presidente deste Tribunal de 1728 a 1742 .

Sobre a atividade científica de alguns portugueses em Pequim escreve Francisco Rodrigues:

“Matheus Ricci, auxiliado pela dedicação de tantos portugueses como Duarte Sande, António de Almeida, Francisco Cabral, João Soeiro, João da Rocha, Gaspar Ferreira e Manuel Dias, sénior, chegou a gozar de tamanha reputação pela sua ciência que julgava a sua permanência segura no Celeste Império.”

China: Encontro de Culturas

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.

Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos. Entre eles destacamos: Padre Gabriel de Magalhães; Padre Manuel Dias Júnior; Padre Tomás Pereira; Padre João Francisco Cardoso; Padre André Pereira; Padre Domingos Pinheiro; Padre Félix da Rocha; Padre José de Espinha; Padre André Rodrigues.

Astrónomos jesuítas Portugueses na China (III)

GABRIEL DE MAGALHÃES S.J. [Nome chinês: An Wensi, Jingming].

Missionário, sinólogo e escritor.

Nasceu em 1610 em Pedrogão Grande, Leiria e morreu a 6 de maio de 1677, em Beijing (Pequim).

Descendente do grande navegador Fernão de Magalhães.

Estudou Filosofia no Colégio das Artes, em Coimbra.

A 21 de março de 1634 zarpou de Lisboa para Goa. Em Macau ensinou Filosofia e obteve o grau de Mestre em Artes.

Possuía um talento extraordinário para idealizar máquinas com que divertia o Imperador Xangxi.

Ao serviço dos imperadores Shunzhi e Kangxi,e ganhando a sua simpatia e afeição, Magalhães construiu uma série de dispositivos mecânicos:

– Construiu um robot com uma figura humana, que quando se dava corda podia caminhar por 15 minutos, levava um escudo numa mão e na outra tinha uma espada desembainhada.

– Construiu um relógio de carrilhão e torre que tocava uma música chinesa de hora a hora.

– Construiu outro relógio onde o Imperador podia ver as horas à luz das estrelas.

Foi auxiliar de Adam Schall no Tribunal de Astronomia.

O Imperador Xangxi escreveu o seu epitáfio.

Escreveu “Nova relação da China”.

Imagens:

  • Igreja de São José, Pequim大聖 若瑟 堂 (em chinês)
  • MAGALHÃES, Gabriel de, Nova relação da China : contendo a descrição das particularidades mais notáveis deste grande império.
  • Hong Taiji, whose five-year-old son, Fulin, became the Shunzhi Emperor in 1643.
  • The Kangxi Emperor at the age of 45, painted in 1699
  • Modern striking turret clock movement mounted in a clock tower

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (IV)

FÉLIX DA ROCHA S.J. – Lisboa (1713-1781)[Nome chinês: Fu zoulin, Lisi].

Missionário, cartógrafo, astrónomo, escritor.

Nasceu a 30 de Agosto de 1713, em Lisboa e morreu a 22 de Maio de 1781 em Beijing (Pequim).

Saiu de Lisboa a 13 de Abril de 1735 e chegou em 1737 a Macau continuando os seus estudos de Teologia no Seminário.

Em Pequim, em 1753, o Imperador Quianlong nomeou Assessor do Tribunal das Matemáticas.

Após o falecimento do seu diretor, August von Hallerstein, passou a dirigir o Observatório Astronómico de Pequim. A partir de 1774 o cargo de presidente deste departamento foi sempre ocupado por jesuítas portugueses, sendo o primeiro Félix da Rocha e o último D. Caetano Pires.

O seu superior, Ignacio Koegler, descreve-o como «um jovem de génio vivo e penetrante e ávido de saber».

Desempenhava tarefas matemáticas intervaladas com demoradas excursões de Cartógrafo.

Em 1755, depois de ter feito os mapas de Sungaria, Turquistão e partes da Bujara, onde viviam os mongóis ocidentais, Quianlong elevou-o a Mandarim de 2° grau.

Entre agosto de 1774 e março de 1777 fez os mapas do Tibete.

Duas das suas obras mais importantes feitas na China:

O atlas da China – “Huangzhao Zhungwai Yihong Yotu”

O pequeno Tibete – “Weicang Tushi”

Em 1770, Cibot S.J. escrevia o seguinte: «Acabam de ser publicadas mapas e notícias sobre regiões recentemente conquistadas, sem que sejam mencionados os nomes dos nossos padres portugueses que, por ordem imperial, recolheram os dados e as coordenadas desses mesmos locais».

O jesuíta Félix da Rocha enviou para a famosa e prestigiada Academia de São Petersburgo 64 tomos das obras escritas pelos jesuítas de Pequim.

Morreu dois meses antes de completar 68 anos.

I – Mandarim, em finais da Dinastia Qing

II – Retrato do Imperador Qianlong (乾隆 Qiánlóng) (Hongli (弘历), 25 de setembro de 1711 – 7 de fevereiro de 1799)

III – Vista geral do Observatório de Pequim, após adaptações executadas pelo Padre Verbiest, entre 1669-1673.

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (V)

JOSÉ DE ESPINHA S.J. (1722-1788),

[Nome chinês: GAO Shensi, Ruose, 高慎思]. Lamego

Missionário, cartógrafo, astrónomo.

O padre José de Espinha nasceu em Vilar de Torpim, Lamego, em 1722 e faleceu em Pequim em 10 de Junho de 1788.

Embarcou para Goa em 1749 e aí terá sido ordenado. Estava em Macau em 1751 e a 22 de Agosto do mesmo ano entrou em Pequim.

Acompanhou Félix da Rocha nos trabalhos de cartografia em 1756. Foi vice-diretor do Tribunal das Matemáticas e director, a partir de 1781, como mandarim de grau quatro, concedida por ocasião da sua viagem à Tartária.

José Espinha e os seus companheiros jesuítas, André Pereira e Félix da Rocha alcançaram grande notoriedade no Departamento de Astronomia. O Eclipse do Sol ocorrido em julho de 1730, consagrou o prestígio destes religiosos cientistas, cuja previsão superou em rigor a dos académicos chineses.

Em 1775, D. Alexandre Guimarães, o bispo de Macau, nomeou o padre José de Espinha para vigário apostólico da diocese de Pequim.

Os «padres da corte», como eram conhecidos entre os portugueses, alcançaram grande influência política, de tal modo que foram várias vezes decisivos na defesa das posições portuguesas. Como nos relata Francisco Rodrigues, na sua obra “Jesuítas Portugueses Astrónomos na China”, é possível que Macau tenha sobrevivido graças aos jesuítas de Pequim.

Imagens:

I – Estela tumular do “ilustre Dao”, jesuíta José D’espinha (1722-1788), no cemitério de Chala em Pequim.

II – Francisco Rodrigues, “Jesuítas Portugueses Astrónomos na China”. Instituto Cultural de Macau, 1990.

III – Traje do Astrónomo chinês em 1675

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (VI)

MANUEL DIAS JÚNIOR S.J. (1574-1659)

[Nome chinês: YANG Manuo, Yenxi].

Missionário, astrónomo, escritor.

Nasceu em 1574 em Castelo Branco e morreu a 1 ou 4 de março de 1659 em Hangzhou (Zeijiang), China.

De 1596 a 1600 estudou Filosofia no Colégio das Artes em Coimbra, seguindo o curso de Matemática de Grienberger (sucessor de Clavius no Colégio Romano).

É considerado pela historiografia como um dos mais reputados jesuítas portugueses da missão da China.

Saiu de Portugal a 11 de Abril de 1601 para a Índia a bordo da nave “Santiago”, e provavelmente chegou a Goa no mesmo ano. Terminou aí os seus estudos de Teologia.

Chegou a Macau por volta de 1605 e ensinou teologia seis anos.

Em 1613/14 chega a Pequim com a ordem de «ensinar matemática aos chineses».

Em 1623, Dias foi nomeado vice-provincial da recém criada vice-província da China, e permaneceu nesta posição até 1635.

Em 1627, esteve em Hangzhou, onde construiu uma igreja e estabeleceu um Seminário. Morreu em Hangzhou, sendo enterrado fora da muralha da cidade, num local conhecido como Dafang jing 大方井.

Nas suas publicações afirmava a existência de esferas celestes sólidas. Esta doutrina estranha à cosmologia chinesa, estimulou reacções muito vivas entre os mandarins, referidas na Europa por Cristóvão Borri.

Em 1614, Manuel Dias escreve na China o compêndio Tianwen lue 天問略 (Tratado de Questões sobre os Céus), em mandarim.

É um pequeno compêndio de cosmografia e astronomia. No fim desta obra incluí a descrição, com figuras, da nova observação telescópica, feita por Galileu em 1609, sobre os “braços” de Saturno.

Galileu tinha descoberto duas saliências na altura do equador de Saturno. Como o telescópio não era suficientemente poderoso para que ele pudesse perceber os anéis do planeta, atribuiu as saliências a duas pequenas luas, bem próximas à superfície de Saturno. Quando as notícias chegaram a Pequim, Manuel Dias fez este desenho no seu manual de astronomia Tianwen lue 天問略.

O primeiro globo terrestre da China é feito por Manuel Dias e pelo italiano Nicolau Longobardo. É do ano de 1623, quando ainda não havia noção na China de que a Terra era esférica.

Imagens:

– Assinatura de Manuel Dias

– Tianwen lue 天問略de Manuel Dias Júnior (Pequim, 1615).

In https://www.loc.gov/item/2021666323/

– Globo chinês, feito em 1623 na China, por Manuel Dias Júnior.

– Tianwen lue, vol.1, p.3 e 4. In https://www.loc.gov/item/2021666323/

-A primeira descrição das observações telescópicas de Galileu na China, pelo jesuíta Manuel Dias júnior. A figura representa o planeta Saturno, tal como Galileu o viu.

JOÃO FRANCISCO CARDOSO SJ. (1677- 1723) (VII)

[Nome chinês: MAl Dacheng, Erzhang].

Missionário e Cartógrafo

Nasceu a 13 de junho de 1677 perto de Leiria, e morreu a 14 de agosto de 1723 em Beijing (Pequim).

Estudou no Colégio de Santo Antão, em Lisboa.

Zarpou de Lisboa em março de 1708, chegou a Macau em outubro e à China, no mesmo ano, entrando em Pequim em julho de 1711.

Levou consigo os presentes do rei de Portugal para o Imperador Kangxi, entre eles vinho espanhol.

A célebre “Querela dos Ritos Chineses”, atiçada após a chegada das Ordens mendicantes à China, no princípio da década de 1630, questionou a acomodação do Cristianismo à cultura clássica chinesa prevalecente entre os missionários da Companhia de Jesus desde o tempo de Matteo Ricci.

O cardeal Carlo Tommaso Maillard de Tournon, Patriarca de Antioquia e legado apostólico enviado à China em 1703, fora incumbido pelo papa Clemente XI da missão de minar tanto a actividade dos jesuítas, como o monopólio do padroado concedido ao rei de Portugal nas dioceses chinesas. D. João V reagirá, nomeando seu “enviado extraordinário” a Pequim o matemático jesuíta João Francisco Cardoso, naquela que foi uma das respostas mais visíveis à crise dos Ritos.

O Imperador mandou os jesuítas Pierre-Vincent de Tartre (1669-1724) e João Francisco Cardoso preparar os mapas das províncias de Jiangxi, Guangdong e Guangxi. J. F. Cardoso enviou cópias dos mapas para Portugal.

Du Halde descreve estes mapas como tendo “cada um dez pés quadrados” (DU HALDE, Jean-Baptiste, S. J. — A description of the empire of China and Chinese Tartary, London, 1738-1741, vol. l, pp. VII).

Cardoso vai substituir Tomás Pereira na presidência do Tribunal das Matemáticas.

Foi nomeado mandarim pelo Imperador como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos.

No dia 14 de agosto de 1723, morreu em Pequim o Pe. João Francisco Cardoso, grande sábio e artista jesuíta, autor de um altar que o Imperador lhe encomendou.Morre cedo, com quarenta e seis anos, um ano depois de Kangxi.

ANDRÉ RODRIGUES S.J. (1729-1796) (VIII)

[Nome chinês: AN Guoning, Yongkang, 安國寧].

Missionário, astrónomo.

N. 3 fevereiro 1729, Mortagoa (Viseu), Portugal.

M. 2 dezembro, 1796, Beijing/Pekín, China.

Especializado em astronomia, partiu para a China em 1754 chegando a Pequim a 13 de Maio de 1759.

Em 1773, pelo breve Dominus ac Redemptor o papa Clemente XIV extinguiu a Companhia de Jesus. Nesse ano viviam em Pequim seis jesuítas portugueses, João Seixas (1710-1785), Félix da Rocha (1713-1781), José de Espinha (1722-1788), Inácio Francisco (1725-1792), José Bernardo de Almeida (1728-1805) e André Rodrigues (1729-1796). André Rodrigues vivia na Igreja de Dongtang (王府井 天主堂), ou de S. José com mais dois missionários portugueses, João de Seixas, Prefeito da Cristandade que conta uns mil e seiscentos cristãos de confissão anual e Inacio Francisco, ex-procurador e interino ecónomo.

Igreja de São José dos Portugueses em Pequim

– Gravura do último quartel do séc XVIII.

Arquivo Histórico Ultramarino. Lisboa

Em 1775, dois anos após a supressão da Companhia de Jesus, foi nomeado vice-diretor e, posteriormente, diretor de
Tribunal de Astronomia.

Em 1775, André Rodrigues e o vice-provincial José Espinha notificaram o Imperador Qianlong que a sua igreja, conhecida como a Nantang (Igreja do Sul), tinha sido destruída num incêndio (13 de fevereiro). Qianiong doou 10.000 taeies de prata para a sua reconstrução.

Rodrigues deixou descritas em, “Memórias da Real Academia das Ciências de Lisboa”, numerosas observações de eclipses do sol e da lua, feitas em Pequim, para além de algumas cartas.

A memória de Rodrigues – “Observationes Atronomicae Habitae”, publicada no tomo II (1799)(*2) inclui registos de observações feitas em Pequim, por ele ou por outros padres, entre 1753 e 1795. Para além do trânsito de Mercúrio ocorrido a 16 de maio de
1753 e registado pelo padre Augustin Hallerstein (1703 – 1774), de vários eclipses do Sol e da Lua registados por Rodrigues, a memória contém ainda uma espécie de adenda com os registos de observações do eclipse do Sol de 15 de Julho de 1730 feitos pelos padres jesuítas Inácio Kögler (1680 – 1746) e André Pereira (1689 – 1743).

Foi promovido a Mandarim de 3º grau a 19 de agosto de 1793 (quase o topo da hierarquia do mandarinato), para que servisse de interprete na embaixada britânica. Christoph Gottlieb von Murr publicou a sua “Tradução Fidelis Litterarum, Lusitanicè scriptarum à P. Andrea Rodriguez, Tribunalis Mathematici Praeside tertio, Pekini in Residentia S. Josephi 15 Augusti 1777″*. Murr também mencionou que enviou cartas à delegação de Macartney (a primeira missão diplomática britânica na China), datadas de 7 de maio e 6 de agosto de 1793 (Murr, Litterae patentes, p. 26).

Os jesuítas esforçaram-se por adoptar os hábitos chineses. Na China, o jesuíta Matteo Ricci adaptou a metodologia de inculturação ao contexto chinês, numa necessária adaptação dos costumes cristãos às sociedades asiáticas. Os jesuítas começaram a vestir-se como monges budistas, mas acabaram por adotar as vestes mais prestigiantes de seda dos letrados confucianos.

Matteo Ricci, missionário jesuíta na China, vestido como um letrado chinês.

ALMEIDA (ALMEYDA), JOSÉ BERNARDO DE (IX)


[Nome Chinês: SOU Dechao, Yuechang, que pode ser traduzido como “tentar ir além da virtude”].


Missionário, Matemático, Cientista, Médico.


N. 18 de setembro de 1728, Penda (Coimbra), Portugal;
M. 12 de novembro de 1805, Beijing/Pekín, China.

Entrou na Companhia de Jesus no noviciado de Arroios, noviciado criado para preparar missionários.


Desde sua chegada a Pequim em 13 de maio de 1759, José Bernardo de Almeida foi diretor do Tribunal das Matemáticas e Astronomia e foi nomeado vice-presidente em 1793 — o último jesuíta a ocupar este cargo.


Na corte imperial trabalhou como médico, dentista e farmacêutico, tendo tratado alguns filhos do próprio Imperador.


A extinção do Companhia de Jesus (1773) e sobretudo o atraso na sua promulgação em Pequim (22 de setembro de 1775) – quase um ano após a chegada e promulgação do breve papal (1774) a Macau – causaram muita confusão na capital.
José Bernardo de Almeida foi promovido a manaarms ae botão azul, grau três, quase o topo da superioridade do mandarinato.


Após a morte do imperador Qianlong e a ascensão ao trono do seu sucessor Jiaqing (1796), o missionário de serviço imperial foi convidado a prestar homenagem ao falecido imperador, de acordo com os costumes chineses. Quando ele e outros companheiros se recusaram (conscientes da controvérsia dos ritos chineses), afirmando que era incompatível com suas crenças religiosas, o novo imperador aceitou de bom grado suas razões, apesar de sua oposição ao cristianismo.

The Qianlong Emperor in Ceremonial Armor on Horseback

Giuseppe Castiglione


Depois de 1799, com a morte do imperador Qianlong, a situação dos nossos missionários em Pequim vai conhecer piores dias.


Almeida foi o português da extinta Ordem que mais tempo sobreviveu na China e, pouco antes da sua morte, poderá ter sido reincorporado (cerca de 1802) na Ordem, associando-se aos Jesuítas da Rússia Branca.


Foi sepultado no cemitério de Zhalan, em Pequim.

Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (X)

ANDRÉ RODRIGUES S.J. (1729-1796)

[Nome chinês: AN Guoning, Yongkang].

Nome tradicional chinês: A ng UO寧, Yong康

Missionário e Astrónomo.

O Padre André Rodrigues nasceu no dia 3 de fevereiro de 1729, em Mortágua (Viseu), e morreu no dia 2 de dezembro de 1796, em Pequim, China.

Entrou na Companhia de Jesus em Arroios, no noviciado para as missões no Oriente.

Depois de estudar filosofia e teologia, obteve o título de doutor. Partiu para a China em 1754 e, especializando-se em astronomia, seguiu para Pequim, onde chegou em 13 de maio de 1759.

Em 1767, foi mestre dos noviços chineses.

Em 1773, pouco depois do breve “Dominus ac Redemptor”, o Papa Clemente XIV extinguia a Companhia de Jesus.

Dois anos após a supressão da Ordem, foi nomeado vice diretor e, mais tarde, diretor do Tribunal das Matemáticas.

Encontrava-se entre os jesuítas que defendiam que o documento da Supressão da Ordem não entrava em vigor até que fosse promulgado na China.

Em 1775, André Rodrigues e o vice-provincial José Espinha notificaram o Imperador Qianlong de que a sua igreja, conhecida como Nantang, tinha sido destruída num incêndio no dia 13 de fevereiro. Deste modo, o Imperador Qianiong doou 10.000 taeies de prata para a sua reconstrução.

Foi promovido Mandarim de grau três em 19 de agosto de 1793 para servir como intérprete no Embaixada britânica chefiada pelo conde George Macartney.

Os seus únicos escritos conhecidos são as suas Cartas.

Após a extinção da Companhia de Jesus e quando o vice-Provincial, o Padre José de Espinha morre, a 10 de junho de 1788, existiam na China apenas três ex-jesuítas portugueses, que, como refere Francisco Rodrigues, continuaram as tradições dos que os tinham precedido. São eles: os padres Inácio Francisco, André Rodrigues e José Bernardo de Almeida.

Jesuítas Presidentes do Tribunal das Matemáticas:

Adam Schall (1644-1666)

Ferdinand Verbiest (1669-1688)

Filippo Grimaldi (1688-1707) ou (1709)

Nomeados na sua ausência, em 1688:

Tomás Pereira e António Tomás, presidentes interinos, até ao regresso do Padre Filippo Grimaldi da Europa em 1694.

Kaspar Castner (1707-1709)

Kilian Stumpf (1711-1720)

Inácio Kogler (1717-1746)

August von Hallerstein (1746-1774)

Félix da Rocha (1774-1781)

José de Espinha (1781-1788)

André Rodrigues (1796)

José Bernardo de Almeida (1796-1805).

Entre 1583 e 1805, portugueses presidiram, em Pequim, ao célebre Tribunal das Matemáticas – uma espécie de Ministério do Interior encarregue de elaborar o Calendário Imperial e que empregava 150 a 200 funcionários.

Gravura:

北京南方教會(南塘)- Igreja do Sul (Nantang) em Pequim

Igreja de S. José ou de Dontang (Igreja Oriental) ou Igreja da Imaculada Conceição ou de Nantang (Igreja do Sul) – Exterior].[Pequim] : [s.n.], [séc. XVIII].- 1 planta : papel chinês, aguada a negro, ms.

Esta gravura, do Arquivo Histórico Ultramarino, encontrava-se na exposição “Um Rei e Três Imperadores: Portugal, a China e Macau no tempo de D. João V” no Museu de S. Roque em Lisboa, entre 19 de dezembro de 2019 e 5 de abril de 2020.

In Francisco Rodrigues, Jesuítas Portugueses Astrónomos na China (1583-1805), Instituto Cultural de Macau, 1990, p. 69.

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Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários Portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.

Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados  Mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos.

Gabriel de Magalhães, Félix Rocha, André Pereira, Francisco Cardoso, todos jesuítas portugueses, todos indispensáveis, (todos sepultados no cemitério de Zhalan (em chinês: 栅栏墓地) ) foram passando pelas diferentes disciplinas do saber e levaram o imperador a requisitar de Portugal outros mais, por tanto apreciar estes.

Portal do Cemitério Zhalan com a lápide de Matteo Ricci ao fundo.

Cemitério Zhalan, lápides de Jesuítas.

*André Rodrigues, “Fidelis translatio Litterarum, Lusitanicè scriptarum à P. Andrea Rodriguez, Tribunalis Mathematici Praeside tertio, Pekini in Residentia S. Josephi 15 Augusti 1777“, in Murr, Journal zur Kunstgeschichte VII (1779), pp. 264–67.

*2 Andrea Rodrigues, “Observationes Atronomicae Habitae”, Memorias de Mathematica e Phisica da Academia R. das Sciencias, II (1799).

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [22 de Setembro de 2022].

No dia 3 de dezembro de 1552, morre São Francisco Xavier (1506-1552)

Ficou conhecido como o “Apóstolo do Oriente”, sendo uma das figuras mais marcantes da expansão missionária do cristianismo no século XVI e um dos primeiros companheiros de Santo Inácio de Loyola na fundação da Companhia de Jesus.

Os milagres de S. Francisco Xavier
|Peter Paul Rubens,1617-18
Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria

A convite de D. João III, a Companhia de Jesus estabeleceu-se em Portugal em 1540, pouco depois da sua aprovação pontifícia. A 27 de setembro de 1540, o Papa Paulo III aprovou oficialmente a nova ordem religiosa através da bula Regimini Militantis Ecclesiae, abrindo caminho à rápida expansão dos jesuítas e à criação de uma vasta rede de colégios e casas de formação.

S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III
André Reinoso, cerca de 1619
Igreja de S. Roque, Lisboa, Portugal (3)


Durante a sua permanência em Portugal, antes de partir para o Oriente, Francisco Xavier escreveu a Santo Inácio de Loyola e a João Coduri, dando conta do entusiasmo de D. João III pelo projeto educativo da Companhia:

«D’acá os hago saber como el Rey, paresciéndole bien nuestro modo de proceder, así por la experiencia que tiene del fruto espiritual que se hace, como esperando mayor cuantos más fueren, está deliberado de hacer un colegio y una casa de los nuestros, es a saber, de la Compañía de Jesús…»

Acrescentava ainda:

«…Este verano en la Universidad de Coimbra edificará el colegio, y la casa pienso en la ciudad de Évora.» (1)

Estas palavras testemunham o decisivo apoio régio à implantação da Companhia de Jesus em Portugal. Em poucos anos seriam fundados importantes estabelecimentos em Lisboa, Coimbra, Évora e noutras localidades do reino, constituindo uma rede educativa que marcaria profundamente a cultura portuguesa.


Já missionário em Goa, Francisco Xavier insistia na necessidade de preparar “soldados de Deus”. Mais do que uma formação exclusivamente erudita, defendia homens profundamente exercitados na vida espiritual e apostólica (2). Noviciados, colégios e universidades integravam um mesmo projeto educativo, onde a sólida preparação intelectual, a disciplina espiritual e a dedicação permanente ao serviço das almas constituíam os pilares da formação jesuíta.

S. Francisco Xavier Ressuscitando um Chefe de Casta no Ceilão
André Reinoso, cerca de 1619
Igreja de S. Roque (Sacristia)

Na madrugada de 3 de dezembro de 1552, a mais de dez mil quilómetros de Lisboa, numa humilde cabana de palha na ilha de Sancião, junto à costa da China, Francisco Xavier faleceu sem conseguir concretizar o grande objetivo da sua vida missionária: entrar no Império Chinês.

Consumido pela febre e pelo isolamento, entregou a alma pronunciando as palavras do Salmo que tantas vezes o haviam sustentado:

In te, Domine, speravi, non confundar in aeternum.
Em Vós, Senhor, esperei; jamais serei confundido.

A morte interrompeu a missão, mas deu início ao nascimento de uma das figuras mais veneradas da história do cristianismo. O missionário que percorreu milhares de quilómetros apenas com um crucifixo, uma fé inabalável e uma extraordinária coragem tornou-se símbolo da evangelização do Oriente. Não conquistou territórios com armas nem exércitos; conquistou-os pela palavra, pelo exemplo e pela dedicação aos mais pobres.

Após a sua morte, o corpo foi trasladado para Malaca e, posteriormente, para Goa, onde permanece até aos dias de hoje, sendo objeto de profunda veneração.

Foi beatificado pelo Papa Paulo V, a 25 de outubro de 1619, e canonizado pelo Papa Gregório XV, a 12 de março de 1622.

Túmulo de São Francisco Xavier na Basílica do Bom Jesus de Goa.

A Capela de São Francisco Xavier, concluída em 1659, constitui um dos mais notáveis conjuntos artísticos do Oriente português. Combina mármore, cobre e madeira ricamente trabalhados em vários níveis decorativos. Sobre o altar encontra-se a célebre urna de prata, executada por artistas goeses segundo o desenho do escultor florentino Giovanni Battista Foggini, cerca de 1697, e oferecida pelo Grão-Duque Cosme III de Médici. Nesta magnífica obra repousa o corpo do santo.

Até aos nossos dias, São Francisco Xavier continua a atrair milhares de peregrinos. A urna é exposta periodicamente para veneração pública, perpetuando uma tradição iniciada logo após a transladação do corpo para Goa e testemunhando a permanência da sua devoção ao longo de quase cinco séculos.

A Capela de São Francisco Xavier constitui, assim, uma extraordinária síntese entre a arte florentina, a mestria artesanal goesa e a herança do império português no Oriente, preservando a memória daquele que São João Paulo II designou como o “Príncipe dos Missionários”.

Pontos Principais da Vida de São Francisco Xavier

  • Um dos primeiros companheiros de Santo Inácio de Loyola e cofundador da Companhia de Jesus.
  • Estabeleceu-se em Portugal antes de partir para as missões do Oriente.
  • Chegou a Goa em 1542, iniciando uma intensa atividade missionária.
  • Evangelizou a Índia, o Ceilão, as Molucas, Malaca e o Japão.
  • Compreendeu que a evangelização do Oriente passava pela abertura da China ao cristianismo.
  • Em julho de 1552 partiu rumo à ilha de Sancião, aguardando oportunidade para entrar clandestinamente na China.
  • Celebrou diariamente a Eucaristia, ensinou a doutrina cristã, administrou os sacramentos, assistiu doentes e acompanhou os mais pobres.
  • Morreu em Sancião, a 3 de dezembro de 1552, com 46 anos de idade.
  • O seu corpo foi trasladado para Goa, onde permanece incorrupto em veneração na Basílica do Bom Jesus.
  • Foi canonizado em 1622 e é venerado como Padroeiro das Missões e um dos maiores missionários da história da Igreja.

São Francisco de Xavier no Padrão dos Descobrimentos

Viagens de S.F.X. na Ásia

Considerações finais

A morte de São Francisco Xavier encerrou uma vida extraordinariamente breve, mas de uma fecundidade espiritual incomparável. Morreu sozinho, pobre e fisicamente exausto, sem alcançar o último grande objetivo da sua missão: entrar na China. Contudo, aquilo que aos olhos humanos poderia parecer um fracasso transformou-se num dos mais poderosos símbolos da história missionária da Igreja.

A sua existência demonstra que a grandeza de uma missão não se mede pelos êxitos imediatos, mas pela fidelidade ao ideal que a inspira. Francisco Xavier não conquistou impérios nem fundou reinos; conquistou consciências, abriu caminhos ao diálogo entre culturas e lançou as bases de uma presença cristã duradoura em vastas regiões da Ásia. A sua morte, na humilde ilha de Sancião, tornou-se o culminar de uma vida inteiramente oferecida ao serviço de Deus e dos outros.

Cinco séculos depois, o seu túmulo continua a ser lugar de peregrinação, memória e esperança. O corpo que repousa na Basílica do Bom Jesus, em Goa, permanece como testemunho de uma entrega total, enquanto a sua obra missionária continua a inspirar sucessivas gerações. Mais do que recordar o missionário que levou o Evangelho ao Oriente, recordar São Francisco Xavier é reconhecer o legado universal de um homem cuja fé ultrapassou fronteiras geográficas, culturais e espirituais, fazendo dele, para a História e para a Igreja, o eterno Apóstolo do Oriente.

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(1) Monumenta Historica Societatis Iesu, Cartas de San Ignacio, pp. 443-447;

LOPES, António, D. Pedro Mascarenhas: Introdutor da Companhia de Jesus em Portugal, 2003, p.168.

(2) GOMES, Manuel Pereira, Santo Inácio e a fundação de Colégios, p. 41.

(3) S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III antes da viagem para a Índia. O rei está ao centro, tomando as mãos do santo e, ao lado, encontra-se o Padre Simão Rodrigues, introdutor da Companhia de Jesus em Portugal. A receção decorre no Paço da Ribeira, vendo-se o Tejo ao fundo, e a corte é composta por membros do clero e da nobreza, incluindo membros das três ordens militares, identificadas pelas respetivas cruzes: Cristo, Santiago e Avis.

Veja-se, inclusive, OSSWALD, Maria Cristina, S. Francisco Xavier no Oriente – aspectos de devoção e iconografia. In https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4322.pdf

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Como referir este artigo:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco. No dia 3 de dezembro de 1552, morre São Francisco Xavier (1506-1552) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [03 de Dezembro de 2021].

Veja-se:

_ VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.
_ VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia 1619-1759. Ed. Autor, 2025.

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Colégio jesuíta de S. Paulo, Macau (1594-1762)

Muitos portugueses, homens cultos, ligados à ciência, entravam através de Macau no interior da China.

Data de 1565 o estabelecimento dos jesuítas em Macau. Rui Manuel Loureiro, em As Origens de Macau nas Fontes Ibéricas, refere, «Em 1554, viviam em Macau cerca de “oitocentos ou novecentos portugueses”, segundo informação de um missionário ali residente. No ano seguinte, os responsáveis da Companhia de Jesus despachavam o padre André Fernandes para aquelas partes, para, juntamente com o padre Manuel Teixeira e o irmão André Pinto, dar assistência religiosa aos mercadores portugueses que sempre são muitos. Mas, durante algumas semanas, entre a partida dos navios para o Japão e a chegada da frota de Malaca, a população diminuía consideravelmente» (LOUREIRO 2002: 93).

Estabeleceu-se em Macau uma Universidade destinada a preparar e treinar os recém-chegados. Instituição fundada em 1594 pela Companhia de Jesus ao serviço do império português, no âmbito do acordo do Padroado português. O Colégio serviu para preparar os missionários jesuítas que viajavam para o Extremo Oriente.

Como universidade passou a ministrar o ensino de disciplinas como o chinês, latim, teologia, filosofia, matemática, astronomia, física, medicina, retórica e música. A mais importante destas disciplinas era o chinês escrito e falado.

Nos mais de cento e oitenta anos desde 1594 (ano 22 do reinado de Wanli da Dinastia Ming, a 1779, ano 44 do reinado de Qianlong da Dinastia Qing), o Colégio de São Paulo funcionou sempre como base de treino onde se preparavam os portugueses que iam entrar na China.

Em 1594, esta instituição universitária já contava com mais de 200 estudantes e 59 professores.

Os Imperadores Xangxi e Qianlong tomaram a decisão de que, para missionar na China, «tem de morar-se mais de dois anos no Colégio de Macau, e aprender a língua chinesa.»

Em 1835, o Colégio de São Paulo e a sua igreja (Igreja da Madre de Deus) foram destruídos por um violento incêndio. Apenas sobreviveram a imponente fachada e a escadaria monumental da Igreja da Madre de Deus.

Fachada da Igreja de S. Paulo em Macau
Manuel da Costa
c. 1815
Litografia a preto sobre papel
Lisboa, Arquivo Histórico Ultramarino

China – Macau

Planta de Macau
Autoria do cartógrafo luso-malaio Godinho de Erédia
(ms. c. 1615-c. 1622)

A mais antiga imagem da península de Macau depois de consumado o estabelecimento dos portugueses em meados do século XVI.

É nítida a coexistência de uma cidade portuguesa e de uma cidade chinesa, separadas uma da outra, mas preenchendo toda a área entre a Praia Grande e a Praia Pequena.

Regista ainda os perímetros murados da residência mandarim e da cerca que os portugueses fizeram levantar no monte de S. Paulo, a qual foi concluída por volta de 1606 e antecedeu a fortaleza do Monte (por seu turno, praticamente terminada em 1622).

Marca as principais igrejas, ermidas e/ou baterias nos pontos elevados (Nossa Senhora da Guia, S. Francisco, Barra), tal como o sítio do templo chinês da Barra (Ma-Kou-Miu/Ma Ge Miao, ou Templo da Deusa A-Má), encravado entre a Colina da Barra e o “sorgidoro” (Porto Interior).

Na margem Norte, entre um denso arvoredo e o istmo, marca ainda algumas casas, representando a aldeia chinesa de Wangxia (Mongha).

China – Pequim
Dinastia Ming  (1368-1644)

A Dinastia Ming  (1368-1644) foi precedida pela dinastia Yuan e substituída pela dinastia Qing na China.

Os imperadores da dinastia Ming eram membros da família Zhu. Entre a população havia fortes sentimentos contra o governo por “estrangeiros”, o que finalmente levou à revolta que empurrou a dinastia Yuan de volta às estepes da Mongólia e ao estabelecimento da dinastia Ming em 1368.

Esta dinastia começa num tempo de renovação cultural e de florescimento das artes.

Especialmente a indústria da porcelana obteve um brilho sem precedentes.

Mercadores chineses exploraram a totalidade do Oceano Índico, atingindo a África com as viagens de Zheng He.

Um vasta marinha foi construída, incluindo navios com 4 mastros, pesando 1.500 toneladas.

Havia um exército permanente de 1 milhão de homens.

Alguns afirmam que a China do início da dinastia Ming poderia ter sido a nação mais avançada do seu tempo.

Períodos mais importantes da estada dos portugueses em Pequim:

1521-1566  Imperador Jiajing

1566-1572  Imperador Longqing

1572-1620  Imperador Wanli

1620       Imperador Taichang

1620-1627  Imperador Tianqi

1627-1644  Imperador Chongzhen

China – Pequim
Dinastia Qing (1644 – 1912)

A dinastia Qing por vezes conhecida como a dinastia Manchu, foi fundada pelo clã Manchu Aisin Gioro.

Esta dinastia começou quando os manchus invadiram o norte da China em 1644 e derrotaram a dinastia Ming.

Desta região, os manchus expandiram a dinastia para a China propriamente dita e os territórios circundantes da Ásia central, estabelecendo o Império do grande Qing.

A Qing foi a última dinastia imperial da China; os seus imperadores ocuparam a sua capital entre 1644 e 1912.

Mapa do Império Qing

Períodos mais importantes da estada dos portugueses em Pequim:

1643-1661  Imperador Shunzhi

1661-1722  Imperador Kangxi

1722-1735  Imperador Yongzheng

1735-1796   Imperador Qianlong

Três dos Imperadores da Dinastia Qing  na vida dos portugueses

O Palácio Imperial da Dinastia Qing, em Shenyang, com  114 edifícios, construídos entre 1625-26 e 1783. 

Alguns estudiosos estrangeiros que passaram pelo colégio de S. Paulo:

    Alexandre Valignano (1578-1606): fundador do colégio, o impulsionador do estudo das línguas japonesa e chinesa.

    Michele Ruggieri (1579): coautor do dicionário Português-Chinês – o primeiro dicionário europeu de chinês.

    Matteo Ricci (1582): coautor do dicionário Português-Chinês – o primeiro dicionário europeu de chinês

    Johann Adam Schall von Bell (1619): conselheiro do imperador Shunzhi, Presidente do Observatório Imperial e do Tribunal das Matemáticas.

    Ferdinand Verbiest (1659): matemático e astrónomo, corrigiu o calendário chinês, foi Presidente do Conselho de Matemática e Diretor do Observatório.

Alguns estudiosos portugueses que passaram pelo colégio de S. Paulo:

  • João Rodrigues: nasceu em Sernancelhe, em 1560 ou 1561. Com apenas 14 anos saiu de Portugal em direção à Índia. Em 1577 chegou ao Japão como membro da Companhia de Jesus. Para além de intérprete, foi um dos autores e coordenador do Vocabulário da Lingoa de Japan, editado em 1603, primeiro dicionário de japonês-português; da Arte da Língua de Japam (1608); Arte Breve da Língua de Japam (1620) e autor de A História da Igreja de Japam.
Vocabulario da lingoa de japan
Os jesuítas, que recebiam confissões, precisavam entender os fiéis japoneses.

  • Tomás Pereira (1665?-73) – Xu Risheng, Yingong: Considerado o introdutor da música ocidental na China, emissário do imperador Kangxi no Tratado de Nerchinsk.

Zarpou de Lisboa em 15 de Abril de 1666 e acabou a sua formação na Índia.

Saiu de Macau em 1672 e chegou a Pequim em 1673. Foi convidado do Imperador Xangxi devido aos seus dotes naturais e musicais. Ensinou o Imperador a tocar o “clavicórdio”.

Tomás Pereira, clavicórdio

Encarregado de traçar as fronteiras da Sibéria com a China, no ano de 1688.

Vice Presidente do Tribunal das Matemáticas, em Pequim.

Depois da morte de Verbiest (1688) Xangxi nomeou T. Pereira presidente da Comissão de Astronomia, mas Pereira declinou, ficando como Presidente substituto com António Pereira de 1688 a 1694.

Curiosidade: Relógio de Tomás Pereira – Trata-se de um desenho do relógio que Tomás Pereira fabricou para a torre de uma igreja, em Pequim. Introduziu no interior da torre um tambor com espigões, semelhantes aos das caixas de música, que acionavam arames ligados aos badalos de um carrilhão o qual, a todas as horas, tocava músicas tradicionais chinesas.

Desenho do relógio que Tomás Pereira fabricou para a torre de uma igreja, em Pequim.
  • Manuel Dias (Yang Manuo, Yenxi): nasceu em Castelo Branco (Portugal) e chegou à China em 1611. Saiu de Portugal a 11 de Abril de 1601 para a Índia a bordo da nave Santiago e provavelmente chegou a Goa no mesmo ano. Terminou aí os seus estudos de Teologia. Chegou a Macau por volta de 1605 e ensinou teologia seis anos. Chegou a Pequim em 1613/14 com a ordem de «ensinar matemática aos chineses».

              Curiosidade: Manuel Dias introduziu o telescópio na China apenas três anos após Galileu o ter divulgado. Galileu descobriu duas saliências na altura do equador de Saturno. Como o telescópio não era suficientemente poderoso para que ele pudesse perceber os anéis do planeta, atribuiu as saliências a duas pequenas luas, bem próximas à superfície de Saturno. Quando as notícias chegaram a Pequim, Manuel Dias fez este desenho no seu compêndio “Tien wen Lueh”. Nas suas publicações afirmava a existência destas esferas celestes sólidas. Esta doutrina estranha à cosmologia chinesa, estimulou reações muito vivas entre os mandarins, referidas na Europa por Cristóvão Borri.

Globo chinês, feito em 1623 na China, por Manuel Dias (1574-1659).

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Como referir este artigo:

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VEIGA, Francisca Branco, Colégio jesuíta de S. Paulo, Macau (1594-1762) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [26 de maio de 2021].