Sala «das esferas» do Colégio de Santo Antão-o-Novo (atual Hospital de S. José)

Colégio da Companhia de Jesus

Cenas alegóricas alusivas às disciplinas que eram ensinadas no Colégio de Santo Antão. Sala «das Esferas». Atual Salão Nobre do Hospital de São José.
Fotografias: @franciscabrancoveiga

No Colégio de Santo Antão-o-Novo, em Lisboa, funcionou desde finais do século XVI até ao século XVIII uma Aula de Esfera pública, uma das mais relevantes instituições de ensino científico da época em Portugal.

Esta designação derivava dos tratados sobre “a esfera”, que tratavam dos princípios da cosmografia, fundamentais para a formação dos navegadores e estudiosos da época. A Aula de Esfera fazia parte do currículo jesuíta, que desempenhava um papel central na educação científica e na formação de elites portuguesas, em especial nos domínios da matemática aplicada à navegação, cartografia e astronomia.

Disciplinas ensinadas na Aula da Esfera

Arte de Navegar – Domínio dos métodos e técnicas de navegação marítima, com recurso a instrumentos náuticos como o astrolábio, o quadrante e a balestilha, essenciais para a determinação da posição em alto mar.

Geografia e Hidrografia – Estudo e descrição dos continentes, oceanos e rotas marítimas, com particular enfoque nas possessões ultramarinas portuguesas e nas suas vias de acesso.

Cosmografia, construção e uso de globos – Conhecimentos sobre a forma e estrutura da Terra, a representação cartográfica do mundo conhecido e a construção de instrumentos globulares de apoio à navegação.

Astrologia Judiciária e Prática – Análise da influência dos astros sobre os fenómenos terrestres e sua aplicação ao planeamento de expedições e à navegação.

Geometria – Base indispensável para os alunos com vocação militar, permitindo o domínio da engenharia, da arquitetura defensiva e da balística.

Astronomia – Estudo sistemático do movimento dos corpos celestes e da sua aplicação à navegação astronómica e à determinação de coordenadas geográficas.

Matemática aplicada – Cálculo de latitudes, longitudes e projeções cartográficas, com aplicação direta à cartografia e à navegação de longo curso.

Física e Mecânica – Princípios fundamentais para a compreensão da balística, do funcionamento de máquinas e da conceção de instrumentos científicos.

Os alunos da Aula de Esfera pertenciam a três grandes grupos:

A Aula da Esfera não se destinava a um público homogéneo. Os seus alunos eram recrutados em função de objetivos distintos, mas convergentes no quadro do projeto expansionista português, e podiam ser agrupados em três grandes perfis.

Especialistas em navegação e cartografia
O primeiro grupo era constituído por jovens com vocação técnica, destinados a servir a Coroa portuguesa na exploração e administração das possessões ultramarinas. A estes futuros pilotos, cartógrafos e cosmógrafos exigia-se um domínio rigoroso da astronomia, da matemática aplicada e da arte de navegar. Eram eles que, munidos de astrolábios e quadrantes, garantiam a segurança das rotas marítimas e a precisão dos mapas que iam desenhando o mundo conhecido.

Jovens nobres com aspirações militares
O segundo grupo era composto por filhos de famílias nobres com ambições na carreira militar e nas conquistas coloniais. Para estes, a Aula da Esfera oferecia uma formação sólida em geometria, balística e engenharia militar — saberes indispensáveis a quem aspirava comandar fortalezas, dirigir operações militares ou administrar territórios em nome da Coroa. A ciência era, para eles, um instrumento de poder.

Missionários jesuítas
O terceiro grupo distinguia-se dos anteriores pela natureza da sua missão. Os missionários que partiam para os territórios ultramarinos — do Brasil ao Japão, de Angola à Índia — necessitavam de uma formação científica sólida para estabelecer contacto com civilizações estrangeiras, muitas delas com tradições astronómicas e matemáticas próprias e sofisticadas. Conhecer o céu era, para estes homens, não apenas uma ferramenta de navegação, mas também uma ponte de diálogo com os povos que encontravam.

A Aula de Esfera do Colégio de Santo Antão desempenhou um papel central na cultura científica portuguesa do século XVII. Era a única instituição em Portugal onde se ensinavam ciências ligadas à Matemática com um caráter tão prático e aplicado. O seu ensino estava diretamente relacionado com os interesses expansionistas da Coroa e com a necessidade de manter a liderança portuguesa na navegação e na exploração marítima.

Muitos dos homens que se distinguiram na cartografia, na astronomia e na administração dos territórios ultramarinos passaram por esta instituição. Lisboa era, à época, um ponto de encontro para intelectuais e cientistas europeus a caminho da Ásia e das Américas, e os mais preparados entre eles contribuíam para o ensino na Aula de Esfera, introduzindo os mais recentes avanços científicos.

Professores notáveis da Aula de Esfera:

A qualidade do ensino ministrado na Aula da Esfera ficou em grande medida a dever-se ao perfil excecional dos seus docentes. Muitos eram jesuítas de projeção europeia, atraídos a Lisboa pela centralidade de Portugal nas rotas científicas e comerciais do mundo quinhentista e seiscentista.

Giovanni Paolo Lembo – Astrónomo jesuíta italiano de reconhecido mérito, Lembo distinguiu-se não apenas pelo ensino teórico mas pelo contributo prático na conceção e construção de instrumentos de observação astronómica, aproximando os alunos da ciência experimental.

Cristóvão Galo – Matemático de formação rigorosa, dedicou o seu trabalho ao estudo da cartografia e da navegação, domínios em que a precisão matemática era condição de sobrevivência em alto mar.

Simão Fallónio – Especialista em astronomia e geografia, contribuiu para a articulação entre o conhecimento celeste e a descrição do mundo terrestre, essencial à formação dos navegadores.

Valentim Estancel – Professor de matemática e cosmografia, Estancel representava a tradição jesuíta de unir o rigor científico à missão pedagógica, formando alunos capazes de compreender a estrutura do universo e a sua aplicação prática.

Inácio Vieira – Destacado estudioso da astronomia e dos seus usos na navegação, Vieira foi uma figura de referência na transmissão dos conhecimentos astronómicos aplicados às grandes viagens marítimas.

Francisco da Costa – Mestre em astrologia e cosmografia, Costa integrava no seu ensino tanto a dimensão científica como a tradição interpretativa dos astros, num tempo em que as fronteiras entre astronomia e astrologia ainda não estavam claramente definidas.

João Delgado – Professor de geometria e balística, Delgado respondia à necessidade crescente de formar militares tecnicamente preparados, capazes de aplicar os princípios matemáticos à guerra e à engenharia.

Cristóvão Griemberger – Astrónomo e matemático de reputação europeia, Griemberger trouxe à Aula da Esfera os mais recentes debates científicos do continente, contribuindo para manter Lisboa ligada à vanguarda do pensamento astronómico da época.

Francisco Machado – Cartógrafo e especialista na construção de globos, Machado dominava a arte de traduzir o mundo em objeto — transformando o conhecimento geográfico em instrumentos tangíveis de navegação e ensino.

Sebastião Dias Cristóvão Galo – Matemático e estudioso da arte de navegar, a sua formação combinava o rigor do cálculo com o conhecimento prático das rotas e técnicas de navegação marítima.

Inácio Stafford – Especialista em astrologia prática e judiciária, Stafford ensinava a leitura e interpretação dos astros com aplicação direta ao planeamento de expedições e à tomada de decisões em contexto marítimo e militar.

Luís Gonzaga – Professor de física e mecânica aplicada à navegação, Gonzaga introduzia os alunos nos princípios do funcionamento das máquinas e instrumentos científicos, saberes indispensáveis a bordo dos navios portugueses.

A Sala das Esferas — memória viva de uma aula extraordinária

O atual Salão Nobre do Hospital de São José, em Lisboa, guarda nas suas paredes muito mais do que decoração. Conhecido como Sala das Esferas, este espaço foi a antiga aula magna do Colégio de Santo Antão-o-Novo — o coração intelectual e científico da instituição jesuíta que durante dois séculos formou os homens que navegaram, cartografaram e administraram o império português.

A sala mantém hoje uma decoração notável: oito painéis de azulejos em azul e branco, executados com invulgar qualidade artística, representando cenas alegóricas das disciplinas que ali se ensinavam. Cada painel é, em si mesmo, um documento histórico — uma síntese visual do programa científico da Aula da Esfera e do universo intelectual que a animava.

As disciplinas representadas — Óptica, Geografia, Geometria, Balística, Astronomia, Mecânica, Navegação e Cartografia — não foram escolhidas ao acaso. Formam um retrato coerente de uma instituição que unia a contemplação do céu à conquista do mar, o rigor matemático à utilidade prática, a ciência pura ao serviço do império.

Hoje, neste mesmo espaço por onde médicos e enfermeiros passam diariamente, as figuras dos azulejos continuam a olhar em silêncio para quem cruza a sala — astrónomos com os seus instrumentos, geógrafos com os seus mapas, navegadores com os seus globos. São a memória persistente de um tempo em que Lisboa era, verdadeiramente, o centro do mundo conhecido.

A Sala das Esferas é, por isso, muito mais do que um salão nobre. É um arquivo em azulejo. Um monumento à curiosidade humana. E uma homenagem silenciosa a todos os que, entre estas paredes, aprenderam a perguntar, a medir e a descobrir.

Colégio de Santo Antão-o-Velho (Coleginho),
Mouraria, Lisboa
Colégio de Santo Antão-o-Novo em 1836, em desenho de Luís Gonzaga Pereira

Considerações Finais

A Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão-o-Novo representa um dos episódios mais significativos — e porventura mais subvalorizados — da história da ciência e da educação em Portugal. Nascida no contexto da expansão marítima e sustentada pelo projeto pedagógico jesuíta, esta instituição soube responder, com notável lucidez, às exigências de um país que governava um império disperso por quatro continentes.

O que a distinguia das restantes instituições de ensino da época não era apenas o conteúdo do seu currículo, mas a sua filosofia de fundo: a convicção de que o conhecimento científico devia ser rigoroso, prático e útil. Numa Europa ainda dominada pelo escolasticismo, a Aula da Esfera ensinava a observar, a calcular e a questionar — antecipando, em muitos aspectos, os princípios que viriam a definir a ciência moderna.

O seu corpo docente, recrutado entre os mais destacados astrónomos, matemáticos e cartógrafos da Europa, assegurou que Lisboa permanecesse ligada às principais correntes do pensamento científico continental, num período em que o conhecimento circulava, sobretudo, através das redes da Companhia de Jesus.

O legado desta instituição não se esgota, porém, nos tratados publicados ou nas rotas traçadas pelos seus alunos. Sobrevive, de forma tangível e serena, nos oito painéis de azulejos da Sala das Esferas do Hospital de São José — um testemunho iconográfico de rara beleza e valor histórico, que continua a recordar, a todos os que por ali passam, que naquele lugar se aprendeu a medir o mundo.

Estudar a Aula da Esfera é, em última análise, compreender melhor o Portugal que foi ao mundo — e perceber que por detrás das grandes viagens e das grandes descobertas esteve sempre, em silêncio, o trabalho paciente de quem ensinou e de quem aprendeu.

Por detrás de cada navio que partiu, havia um homem que aprendeu a ler o céu.

Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, Sala «das esferas» do Colégio de Santo Antão-o-Novo (atual Hospital de S. José) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [17 de Fevereiro de 2025].

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Santo António na produção escultórica nacional no séc. XVII

“Santo António”

Portugal, final do séc.XVII

Madeira estofada e policromada

Alt.: c. 1700 mm

Museu de São Roque, inv. nº43

Igreja de São Roque, capela de Santo António

A capela de Santo António, no interior da igreja de São Roque, em lisboa, foi fundada por Pero Machado de Brito, ficou parcialmente destruída com o terramoto de 1755 e foi restaurada no séc. XIX. Em talha dourada, é barroca no intradorso do arco e neoclássica no pano que fecha o retábulo. Tem duas esculturas, uma de Santo António e outra de S. Miguel e pinturas alusivas à vida de Santo António, de Vieira Lusitano.

A imagem do Santo apresenta-se, iconograficamente, completa nos seus atributos tradicionais. Vestido com o hábito de franciscano, com um livro na mão sobre o qual figura o Menino Jesus, que lhe terá aparecido várias vezes, em pé, virado para o santo utilizando um movimento corporal, e na outra mão um ramo de açucenas, símbolo da sua pureza. Este tipo de representação iconográfica foi muito utilizada e divulgada pela arte barroca no período da Contra Reforma.

Santo António, hoje celebrizado e lembrado quase que exclusivamente como “santo casamenteiro”, já ocupou diversos papéis no imaginário cristão de outrora. No séc. XVII ele figurava como “Farol da Igreja”, Defensor da fé”, “Martelo dos Hereges”, “Chave de Ouro”, “Oficina de Milagres”, “Padroeiro dos Impossíveis”, “Doutor Evangélico”, “Santo dos Casos e Coisas Perdidas”.

Nascido em Lisboa, aos quinze anos entrou para um convento de Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, e em 1220, com vinte e cinco anos, impressionado pela pregação de alguns frades que conheceu em Coimbra enquanto estudava, trocou o seu nome por António e ingressou na Ordem dos Franciscanos. Viria a falecer em Pádua, onde foi sepultado em 1231. Foi canonizado um ano após ter falecido e, até finais do séc. XV, foi apenas venerado em Pádua.

Santo António detém o recorde de canonização da Igreja Católica: foi declarado santo menos de um ano decorrido sobre a sua morte, em 30 de Maio de 1232. É o santo padroeiro das cidades de Pádua e de Lisboa. Em 1934, o Papa Pio XI proclamou-o segundo padroeiro de Portugal, a par de Nossa Senhora da Conceição. Por fim, em 16 de Janeiro de 1946, o Papa Pio XII juntou o seu nome à lista dos Doutores da Igreja Católica.[1]

Produção escultórica nacional no séc. XVII

Caracterizando genericamente a produção escultórica nacional no séc. XVII denota-se uma clara opção por outros materiais que não a pedra. Os materiais eleitos pelos escultores portugueses são a madeira e o barro.

Na escultura em madeira reconhece-se quase exclusivamente imaginária sacra de carácter devocional, obedecendo às regras impostas pela Contrarreforma, saídas do Concílio de Trento, e que vão ser seguidas pelo maneirismo português.

Grande parte destas obras denunciam: desconhecimento quanto à representação anatómica; incapacidade de representação verosímil da corporeidade e da volumetria e, consequentemente, opção por soluções de representação simplistas e convencionadas; deficiente diferenciação dos materiais representados pela concepção de múltiplas texturas à superfície escultórica; incapacidade de representação de movimento com estaticidade, rigidez das figuras e respectivos panejamentos; opções iconográficas obedecendo a regras predefinidas; utilização intensiva da componente decorativa tornando-se uma escultura vivaz na diversidade policromática e na riqueza em ouro em detrimento das qualidades morfológicas relativas à massa e à textura.

A escultura do Santo António, da Igreja de São Roque, é uma escultura do ciclo do Maneirismo, onde este é representado com equilíbrio e síntese no tratamento volumétrico, com serenidade expressiva e gestual como convinha ás regras saídas da Contra-reforma. O hábito de franciscano foi decorado com apurados elementos florais e vegetalistas, em técnica de estofagem, distribuídos homogeneamente ao longo da veste. O sebasto, que atravessa diagonalmente a figura, realçado pelo dourado igualmente decorado de pequenas flores e ramagens, bem como os pregueados resultantes da suspensão do hábito pelo braço esquerdo, conferem um ritmo particular a esta escultura. O vestuário é completado com um cordão dourado à cintura.

Esta imagem faz uso da policromia. E o que é a policromia?

É o emprego de várias cores no mesmo trabalho. POLI + CROMIA = MUITAS CORES

“É a capa, ou capas, com ou sem preparação, realizadas com diferentes técnicas pictóricas e decorativas, que cobre total ou parcialmente esculturas, elementos arquitectónicos ou ornamentais, com o fim de proporcionar a estes objectos um acabamento ou decoração.”[2]

A Policromia, nesta peça, tem como finalidade revestir o volume tridimensional, completando-o e enriquecendo-o. O estofado, uma das técnicas de policromia mais complexas e de maior durabilidade e extensão, e da qual esta peça faz uso, é uma das técnicas mais vistosas, em que as cores se sobrepõem ao ouro, imitando os tecidos de ricos louvores, como os adamascados e brocados. Este trabalho de policromia combinado com o cinzelado dos tecidos criava um efeito de grande realismo, dando alguma volumetria à peça. A carnação era a última operação a realizar neste processo da policromia, mas o seu aparelho era o primeiro a fazer-se. A pintura das zonas desnudadas, carnação, valia-se de acabamentos mates e brilhantes pois assim podiam-se obter efeitos naturalistas de transparência. O rosto é muito bem tratado onde transparece uma grande dignidade de atitudes.

A produção escultórica nacional de seiscentos é preferencialmente obra de imaginários, produtores de arte sacra com funcionalidade devocional, mais do que de escultores. Os artistas e os artesãos organizavam-se em grémios profissionais de origem medieval. Cada grémio tinha estabelecido os seus estatutos através dos quais se controlava o trabalho e a comercialização das obras. Estes grémios tinham um motivo religioso vinculante, a devoção dos seus respectivos patronos, como por exemplo, S. Lucas que é o patrono do Grémio dos pintores. Em Portugal, os pintores e douradores de imaginária originavam autenticas dinastias, pois o título passava de pais para filhos, mantendo aberta a oficina durante várias gerações. Regra geral os pintores não assinavam as suas policromias, ainda que excepcionalmente se encontrem trabalhos assinados. Muitas esculturas não sendo assinadas pelos seus escultores, pelo menos de forma visível, acabam por selo no interior das imagens, o que não é o caso do Santo António, da Igreja de São Roque.


[1] Jorge Campos Tavare, Dicionário de Santos. Lello ed., 2001.

[2] Policromia: a escultura policromada religiosa dos séculos XVII e XVIII : estudo comparativo das técnicas, alterações e conservação em Portugal, Espanha e Bélgica. Congresso Internacional Policromia, Lisboa, 2002.

Patriarcado de Lisboa

Material: madeira

Autor: desconhecido

Datação: séc. XVII

Classificação: escultura

Descrição: escultura em madeira policromada e estofada, representando Santo António de Lisboa como frade franciscano, estando o Menino Jesus ao colo.

Portugal e a China nos séculos XVI e XVII

Representação de Chineses, in Jan Huygenvan Linschoten – Itinerario, Amsterdão, 1596.

[Jan Huyghen van Linschoten, filho de um notário público em Haarlem, emigrou para Sevilha e depois para Lisboa com o irmão quando tinha apenas 13 anos. Foi enviado para Goa, feitoria portuguesa na Índia, em 1583, onde procedeu à cópia ilícita de mapas náuticos portugueses. De volta à Holanda em 1595, Linschoten escreveu três livros relatando o seu conhecimento do “Oriente”. Esta imagem encontra-se inserida na sua terceira publicação Itinerario: Voyage ofte schipvaert van Jan Huyghen van Linschoten naer Oost ofte Portugaels Indien, 1579-1592, publicada em 1596 e traduzida para o inglês e o alemão dois anos depois].

Após a viagem de Vasco da Gama à Índia chegam a Lisboa notícias sobre a China e sobre as navegações chinesas no Índico, realizadas entre 1405 e 1433.

Dom vasco da Gama, conde da Vidigueira 2º Vice Rei de 2 de setembro 1524 até á sua morte em Cochim a 24 de dezembro de 1524

D. Manuel, em 1508, envia Diogo Lopes de Sequeira a Malaca com o objectivo de recolher informações sobre a China e os chineses.

A partir de 1511, após a conquista de Malaca, são feitos os primeiros contactos e é centralizado aqui o comércio português do Índico e dos mares da China.

Em 1513, Jorge Álvares penetra nos mares da China iniciando um período de intensas relações luso-chinesas.

Em 1515, em Malaca os portugueses ouvem falar de Macau, então conhecido pelo nome de Haojing, que significa Espelho de Ostra.

A partir desta data os portugueses procuram estabelecer relações diplomáticas com a China e obter um posto de comércio permanente na zona de Cantão.

Em 1517 é enviada à China a primeira embaixada, chefiada por Tomé Pires, com o intuito de estabelecer contactos políticos e diplomáticos que permitissem o comércio português na zona.

Assim, a instalação dos portugueses em Macau, em 1557, é fruto da conjugação de três factores essenciais: das condições internas e das relações internacionais estabelecidas pela dinastia reinante, Ming; do processo de aprendizagem dos portugueses nos mares da China; e da parceria de interesses comerciais que se estabeleceram entre chineses, portugueses e japoneses.

A China da dinastia Ming procura o monopólio do comércio externo marítimo através do controle da iniciativa privada das comunidades chinesas litorais e ultramarinas.

A crise fiscal e monetária da China, no tempo do imperador Jiajing  (1522-1566), e o consequente incremento da procura chinesa da prata, bem como a crescente produção da prata japonesa e a capacidade dos portugueses como intermediários, em parceria com chineses e japoneses, cria a possibilidade de Macau se tornar um entreposto, por onde passa a rota da seda, prata, porcelana, ouro e cobre.

Durante a ocupação filipina (1580-1640), o Império Português tornou-se muito fraco e desprotegido, visto que o Rei de Espanha, que era simultaneamente Rei de Portugal, não estava muito interessado em defender o Império Português. Estava mais interessado em defender e expandir o seu Império, em colonizar e controlar a América do Sul e em travar guerras com as outras potências europeias, nomeadamente a Inglaterra e a Holanda. Utilizou muitos recursos para manter estas guerras, em vez de utilizá-los para defender o nosso Império. Os inimigos de Espanha tornaram-se por consequência inimigos de Portugal. As colónias portuguesas sofreram inúmeros ataques dos ingleses, dos holandeses e dos franceses e muitas delas caíram nas mãos do inimigo.

Macau foi atacada em 1622 por 800 soldados holandeses. Eles desembarcaram na praia e avançaram com cautela para a Cidade, sofrendo pesado bombardeio de canhões da Fortaleza do Monte. A guarnição militar em Macau era pequena e muito inferior à força invasora holandesa. Após 2 dias de combate, no dia 24 de Junho, um padre jesuíta disparou um tiro de canhão e acertou com precisão, um vagão carregado de pólvora pertencente aos holandeses e foi assim que os militares de Macau derrotaram as forças invasoras. Dizem os registos portugueses que morreram algumas dezenas de portugueses e que morreram em combate ou afogados cerca de 350 holandeses. Para Macau, desprevenida, a vitória foi considerada um milagre. Após a vitória, os moradores de Macau passaram a comemorar o dia 24 de Junho, dia da vitória, como o “Dia da Cidade”. É também neste dia que se comemora o São João Baptista, o Padroeiro da Cidade. Conta a lenda que foi graças ao seu manto foram desviados os tiros dos inimigos, salvando a Cidade dos invasores holandeses.

Em 1640, em Portugal, quando a classe média e aristocracia, descontentes com o domínio espanhol e com o reinado de Filipe IV de Espanha (III de Portugal), quiseram restaurar a independência, pediram a D. João para encabeçar a causa. D. João aceitou a responsabilidade e a 1 de Dezembro deu-se o golpe contra Filipe III, sendo coroado Rei de Portugal a 15 de Dezembro de 1640.

Muitos mensageiros espalharam pelo país a notícia, levando consigo cartas para as autoridades de cada terra se encarregarem de aclamarem o novo rei. D. João IV enviou também diplomatas às principais cortes europeias com o objectivo de conseguir o reconhecimento da independência.

Na China, as notícias chegam dois anos depois. Em 30 Outubro de 1642 são enviadas cartas para Portugal, da Santa Casa da Misericórdia para dar a D. João IV os parabéns da aclamação. Também à registo de, em Agosto de 1643, uma Certidão de D. Sebastião Lobo de Sylveira Capitão Geral de Macau falando da felicidade dos Padres da companhia, aclamando D. João IV.

VASCONCELLOS, José Frazão de – A Aclamação del Rei D. João IV em Macau (Subsídios Históricos e Biográficos). Separata do N.º 53 do «Boletim da Agência Geral das Colónias. Agência Geral das Colónias, 55 páginas , 1929 (24 cm x 16,5 cm). Exemplar n.º 34 da tiragem de  125 exemplares numerados.

Macau é um espaço de pluralidade religiosa onde convivem com o cristianismo as várias expressões da religiosidade chinesa: o budismo, o daoísmo  e o confucionismo.

Os missionários jesuítas chegam à Ásia em 1542. Macau vai desempenhar um papel de centro difusor do cristianismo no Oriente. É a partir de Macau que partem as missões com destino ao Japão, à China e ao sueste asiático.

O Colégio de S. Paulo é a primeira universidade europeia na China, desenvolvendo cursos de artes, teologia, chinês, latim, matemática, astronomia, física, medicina, retórica e música. A impressão surge também ligada aos jesuítas e à difusão do cristianismo na China e no Japão. Em Macau imprime-se em três línguas: chinês, latim e português.

O cristianismo tem nesta parte do mundo uma forte dimensão cultural, tendo penetrado por esta via junto das elites chinesas.

Os primeiros tempos dos jesuítas na China foram essencialmente marcados pelo estudo da língua, pela observação atenta dos hábitos religiosos e sociais, pelo esforço de integração cultural e, sobretudo, por uma grande contenção nos gestos e nas palavras, a fim de não darem azo a qualquer suspeita de confronto susceptíveis de justificarem a sua expulsão do país. Mesmo assim muitas foram as injúrias, os desacatos e intrigas contra os membros da Companhia de Jesus levando a extremos, como por exemplo, ao martírio de alguns membros.

Os 120 Mártires da China

Memorial plaque for the 120 Martyr Saints of China at Saint Francis Xavier Church (Ho Chi Minh City)

[Os 120 Mártires da China, ou Agostinho Zhao Rong e 119 Companheiros, mártires na China, são mártires católicos da China e santos da Igreja Católica canonizados no dia 1 de Outubro de 2000 pelo Papa João Paulo II]