A Igreja do Gesù de Génova e os Jesuítas portugueses no exílio em 1834

A Chiesa del Gesù e dei Santi Ambrogio e Andrea, situada no coração histórico de Génova, diante da Piazza Matteotti e nas proximidades da Piazza De Ferrari, constitui um dos mais importantes testemunhos da presença da Companhia de Jesus na cidade.

A sua história é, contudo, anterior à chegada dos Jesuítas. O edifício encontra-se associado à antiga presença da comunidade milanesa em Génova e a uma zona que, durante a Idade Média, era conhecida como o bairro dos vendedores de aves, designação ainda evocada pela vizinha Salita Pollaiuoli.

A partir da chegada da Companhia de Jesus a Génova, em 1552, o edifício entrou numa nova fase da sua história. Confiado aos Jesuítas, foi profundamente reformulado a partir de 1589, num processo que conduziu à construção de uma nova igreja, concluída essencialmente em 1606.

A atual configuração do templo resulta, assim, de diferentes momentos de projeto, construção, transformação e restauro. A igreja que hoje podemos observar conserva a memória de um espaço jesuíta dos séculos XVI e XVII, mas incorpora também intervenções posteriores que alteraram, sobretudo, a sua imagem exterior.

A arquitetura da Igreja do Gesù

A história arquitetónica da igreja permite acompanhar a evolução de diferentes conceções do espaço religioso jesuíta no final do século XVI.

O primeiro projeto: cerca de 1586

O primeiro projeto conhecido, datado de cerca de 1586, não chegou a ser executado. Propunha uma igreja de planta centralizada, organizada como uma cruz grega inscrita num quadrado.

No centro encontrava-se prevista uma cúpula, enquanto a capela-mor, de configuração semicircular, definia um dos eixos principais do edifício.

Esta primeira solução inscreve-se na tradição italiana de valorização das plantas centralizadas, produzindo uma organização espacial fortemente geométrica e concentrada em torno de um núcleo central.

A reformulação de Giuseppe Valeriano

Em 1589, o projeto foi reformulado e iniciou-se a construção de uma nova igreja associada ao arquiteto jesuíta Giuseppe Valeriano.

A solução adotada afastou-se da planta centralizada inicialmente prevista e aproximou-se de uma organização longitudinal, mais adequada às necessidades litúrgicas e pastorais da Companhia de Jesus.

A mudança não foi apenas arquitetónica. A organização do espaço respondia à importância atribuída pelos Jesuítas à celebração da missa, à pregação e à participação dos fiéis, estabelecendo uma relação visual mais direta entre a assembleia e o altar.

A construção contou com o apoio da influente família Pallavicini, cujo financiamento contribuiu para a afirmação da presença jesuíta no tecido urbano e religioso de Génova.

Nave, capelas e transepto

A nave constitui o principal eixo longitudinal da igreja e conduz o olhar desde a entrada até ao altar-mor.

Ao longo da nave distribuem-se as capelas laterais, destinadas ao culto e à celebração de missas nos diferentes altares. A sua integração na estrutura do templo permite conciliar a existência de espaços devocionais individualizados com a unidade espacial da nave.

O transepto introduz uma alteração no percurso longitudinal e define, juntamente com a nave, o núcleo central da igreja. Sobre a sua interseção ergue-se a cúpula, um dos elementos mais importantes da composição arquitetónica.

A luz que penetra nesta zona contribui para acentuar a centralidade espacial da cúpula e para estabelecer uma hierarquia entre os diferentes espaços do templo.

Na extremidade da nave encontra-se a capela-mor, dominada pelo altar e destinada à celebração litúrgica principal. Toda a organização do espaço conduz progressivamente o olhar para esta zona, reforçando a sua centralidade dentro do programa arquitetónico.

A ampliação da planta

A configuração inicial foi posteriormente modificada através do acrescento de um tramo junto à entrada.

Esta alteração transformou a proporção da igreja, tornando a planta mais retangular e longitudinal. A transformação é particularmente importante porque demonstra que o edifício não resultou de uma única conceção arquitetónica, mas de um processo de adaptação e reformulação.

A igreja e a representação de Rubens

A construção da igreja prolongou-se pelas últimas décadas do século XVI e início do século XVII, ficando essencialmente concluída em 1606.

Um testemunho fundamental da sua configuração encontra-se na obra Palazzi di Genova, de Peter Paul Rubens, publicada em 1622.

Rubens representou a igreja não apenas através da fachada, mas também mediante a planta e os cortes do edifício. Esta documentação permite observar a organização espacial do templo e compreender a relação entre a nave, as capelas laterais, o transepto, a cúpula, a capela-mor e a zona de entrada.

Importa, contudo, distinguir representação de projeto: em 1622, Rubens não estava a projetar uma nova igreja. Registava graficamente um edifício já existente, oferecendo um testemunho particularmente relevante da sua configuração nas primeiras décadas do século XVII.

O interior e o programa artístico

O interior da igreja revela um programa artístico de grande riqueza, no qual arquitetura, escultura e pintura se articulam na construção de um espaço litúrgico de forte impacto visual.

Entre as obras mais importantes encontram-se três pinturas de especial relevância: A Circuncisão, de Peter Paul Rubens, realizada em 1608 para o altar-mor; Santo Inácio de Loyola curando uma mulher possuída, também de Rubens; e A Assunção da Virgem, de Guido Reni.

O conjunto artístico contribui para compreender uma das características fundamentais dos grandes espaços religiosos associados à Companhia de Jesus: a utilização articulada da arquitetura e das artes para criar ambientes destinados simultaneamente à celebração litúrgica, à devoção e à transmissão de conteúdos religiosos.

A fachada da Igreja do Gesù

A fachada da Chiesa del Gesù e dei Santi Ambrogio e Andrea constitui um dos elementos mais reconhecíveis do edifício.

Organizada em dois níveis, apresenta uma composição simétrica marcada por pilastras, mármores, nichos com figuras de santos e pelo monograma IHS, símbolo associado à Companhia de Jesus.

O portal central assume particular destaque. Sobre ele encontra-se o monograma jesuíta, integrado numa composição ornamental que estabelece a ligação entre arquitetura e escultura. Nos nichos laterais surgem figuras de santos, enquanto o segundo nível é dominado por uma ampla abertura central e rematado por um frontão triangular, sobre o qual se ergue a cruz.

Apesar da forte aparência barroca da composição, a fachada que atualmente vemos não corresponde integralmente à fachada da igreja construída entre os séculos XVI e XVII.

A sua configuração atual resulta de uma intervenção realizada na segunda metade do século XIX, concluída em 1894, tomando como referência um projeto atribuído a Peter Paul Rubens.

Esta circunstância confere à fachada um particular interesse historiográfico. O edifício conserva a memória da igreja jesuíta construída entre 1589 e 1606, mas a sua imagem exterior resulta também de uma intervenção posterior, que procurou recuperar e reinterpretar uma linguagem arquitetónica associada ao período barroco.

No centro da composição, o IHS afirma visualmente a identidade da Companhia de Jesus. As representações de Santo Ambrósio e Santo André remetem, por sua vez, para as invocações sob as quais a igreja é atualmente conhecida.

Arquitetura, escultura e simbologia religiosa articulam-se, assim, numa fachada que continua a tornar visível, no espaço urbano de Génova, a longa presença da Companhia de Jesus.

Génova e os Jesuítas portugueses

A história da Igreja do Gesù não se esgota, porém, na sua arquitetura.

Séculos depois da construção do templo, Génova voltaria a cruzar-se com a história da Companhia de Jesus em Portugal. Em 1834, na sequência da extinção das Ordens religiosas e da expulsão dos Jesuítas, a cidade tornou-se um dos lugares de passagem da Missão Portuguesa no exílio.

A relação entre Génova e os Jesuítas portugueses permite, assim, estabelecer uma ponte entre dois momentos muito distintos da história da Companhia: a construção e afirmação de um espaço jesuíta na Itália da Reforma Católica e, três séculos mais tarde, a circulação de religiosos portugueses obrigados a abandonar o seu país.

Os Jesuítas portugueses em Génova: o exílio de 1834

4 de setembro de 1834 –  Os padres da Missão portuguesa partem de Génova para diversos destinos na França – Nice, Aix-en-Provence e Marselha.

A história dos Jesuítas portugueses em Génova inscreve-se no processo de expulsão e dispersão que se seguiu à vitória liberal de 1834.

Depois da expulsão dos Jesuítas de Coimbra, os religiosos foram conduzidos para a Torre de São Julião da Barra, onde permaneceram até à partida para o exílio.

Entre os dias 3 e 7 de julho de 1834, aguardaram no porto o navio que os transportaria para Génova. A passagem foi paga por amigos de Coimbra, tendo também desempenhado um papel importante a intervenção do embaixador francês, Mr. Mortier, junto do governo português.

No dia 7 de julho de 1834, partiram finalmente a bordo do bergantim sardo Verdadeiros Amigos, com destino a Génova. A bordo seguiam também a Baronesa de Lebzeltorn e duas senhoras francesas, netas do general Forbes.

Uma viagem difícil

A travessia foi longa e difícil.

Segundo o testemunho do padre Cypriano Margottet, o navio enfrentou mau tempo, trovoadas, relâmpagos e forte ondulação. Durante a viagem ocorreu ainda um episódio particularmente dramático: um marinheiro caiu ao mar e foi posteriormente resgatado pela tripulação.

Depois de 29 dias de viagem, o navio chegou a Génova no dia 5 de agosto de 1834.

A chegada, contudo, não significou imediatamente a entrada na cidade. Os religiosos permaneceram em quarentena durante quinze dias, só podendo desembarcar no dia 16 de agosto.

Durante esse período, o padre Margottet adoeceu com febre e fortes ataques de sangue, agravando as dificuldades de uma viagem que já havia sido marcada pelo mau tempo e pelo desgaste físico.

Génova: entre o exílio e a memória de Portugal

A chegada a Génova marcou uma nova etapa na vida destes religiosos.

Tinham deixado para trás as casas, os bens e a atividade apostólica que a Companhia de Jesus desenvolvera em Portugal desde a sua restauração, em 1829. A documentação jesuíta evidencia o sentimento de desânimo e perda provocado pelo afastamento de Portugal e, em particular, de Coimbra.

Génova era, contudo, também um espaço de encontro entre diferentes percursos do exílio português.

Entre os portugueses que ali se encontravam estava Frei Fortunato de São Boaventura, que atravessara a Europa antes de se dirigir para Roma. A presença destes exilados conferia à cidade uma dimensão que ultrapassava a simples condição de escala geográfica: Génova fazia parte das redes de circulação dos portugueses afastados do país na sequência da vitória liberal.

A dispersão da Missão Portuguesa

A permanência dos Jesuítas portugueses em Génova seria breve.

A cidade constituiu sobretudo um ponto de passagem antes da dispersão da Missão Portuguesa por diferentes destinos.

No dia 4 de setembro de 1834, os padres partiram de Génova para diferentes localidades de França, entre as quais Nice, Aix-en-Provence e Marselha. Alguns seguiram por mar, enquanto outros fizeram a viagem por terra.

A Missão Portuguesa deixava, assim, de permanecer reunida como comunidade. Iniciava-se uma nova fase da história dos Jesuítas portugueses, marcada pelo exílio, pela dispersão e pela reorganização da vida religiosa fora de Portugal.

Génova na história da Companhia de Jesus

A relação entre Génova e a Companhia de Jesus adquire, deste modo, um significado particular.

A cidade possuía uma longa tradição jesuíta, materializada na monumental Igreja do Gesù, cuja história arquitetónica se desenvolveu entre o final do século XVI e o início do século XVII. Em 1834, Génova tornou-se também um lugar de passagem para os Jesuítas portugueses expulsos de Portugal.

Entre estes dois momentos existe uma distância de quase três séculos, mas também uma ligação histórica: a mesma cidade que acolheu a expansão da Companhia de Jesus no contexto da Reforma Católica tornou-se, no século XIX, um espaço de passagem para religiosos portugueses obrigados a reorganizar a sua vida fora do país.

A Igreja do Gesù permite, assim, estabelecer uma ponte entre a história da arquitetura jesuíta e a história da própria Companhia. De um lado, encontramos a construção de um espaço destinado à celebração, à devoção e à ação pastoral dos Jesuítas; do outro, a circulação de religiosos portugueses que, em 1834, procuravam novos lugares onde continuar a sua missão.

Génova surge, deste modo, não apenas como cenário, mas como um lugar inscrito na longa história de presença, expulsão, circulação e reorganização da Companhia de Jesus.

A arquitetura da Igreja do Gesù conserva a memória material da afirmação da Companhia na cidade; a passagem dos Jesuítas portugueses em 1834 acrescenta-lhe uma dimensão humana e política, marcada pelo exílio. Entre o espaço construído e a experiência vivida, Génova permite acompanhar diferentes momentos da história de uma mesma instituição religiosa.

📸 André Veiga

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, Exílio e Igreja del Gesù: Os Jesuítas Portugueses em Génova, 1834 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [12 de julho de 2025].

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📸  Fotografias: André Veiga

Agradeço ao meu filho André Branco Veiga o cuidado e a atenção na realização das fotografias que acompanham esta publicação e que permitiram documentar visualmente este percurso pela Chiesa dei Santi Ambrogio e Andrea 

Sala «das esferas» do Colégio de Santo Antão-o-Novo (atual Hospital de S. José)

Colégio da Companhia de Jesus

Cenas alegóricas alusivas às disciplinas que eram ensinadas no Colégio de Santo Antão. Sala «das Esferas». Atual Salão Nobre do Hospital de São José.
Fotografias: @franciscabrancoveiga

No Colégio de Santo Antão-o-Novo, em Lisboa, funcionou desde finais do século XVI até ao século XVIII uma Aula de Esfera pública, uma das mais relevantes instituições de ensino científico da época em Portugal.

Esta designação derivava dos tratados sobre “a esfera”, que tratavam dos princípios da cosmografia, fundamentais para a formação dos navegadores e estudiosos da época. A Aula de Esfera fazia parte do currículo jesuíta, que desempenhava um papel central na educação científica e na formação de elites portuguesas, em especial nos domínios da matemática aplicada à navegação, cartografia e astronomia.

Disciplinas ensinadas na Aula da Esfera

Arte de Navegar – Domínio dos métodos e técnicas de navegação marítima, com recurso a instrumentos náuticos como o astrolábio, o quadrante e a balestilha, essenciais para a determinação da posição em alto mar.

Geografia e Hidrografia – Estudo e descrição dos continentes, oceanos e rotas marítimas, com particular enfoque nas possessões ultramarinas portuguesas e nas suas vias de acesso.

Cosmografia, construção e uso de globos – Conhecimentos sobre a forma e estrutura da Terra, a representação cartográfica do mundo conhecido e a construção de instrumentos globulares de apoio à navegação.

Astrologia Judiciária e Prática – Análise da influência dos astros sobre os fenómenos terrestres e sua aplicação ao planeamento de expedições e à navegação.

Geometria – Base indispensável para os alunos com vocação militar, permitindo o domínio da engenharia, da arquitetura defensiva e da balística.

Astronomia – Estudo sistemático do movimento dos corpos celestes e da sua aplicação à navegação astronómica e à determinação de coordenadas geográficas.

Matemática aplicada – Cálculo de latitudes, longitudes e projeções cartográficas, com aplicação direta à cartografia e à navegação de longo curso.

Física e Mecânica – Princípios fundamentais para a compreensão da balística, do funcionamento de máquinas e da conceção de instrumentos científicos.

Os alunos da Aula de Esfera pertenciam a três grandes grupos:

A Aula da Esfera não se destinava a um público homogéneo. Os seus alunos eram recrutados em função de objetivos distintos, mas convergentes no quadro do projeto expansionista português, e podiam ser agrupados em três grandes perfis.

Especialistas em navegação e cartografia
O primeiro grupo era constituído por jovens com vocação técnica, destinados a servir a Coroa portuguesa na exploração e administração das possessões ultramarinas. A estes futuros pilotos, cartógrafos e cosmógrafos exigia-se um domínio rigoroso da astronomia, da matemática aplicada e da arte de navegar. Eram eles que, munidos de astrolábios e quadrantes, garantiam a segurança das rotas marítimas e a precisão dos mapas que iam desenhando o mundo conhecido.

Jovens nobres com aspirações militares
O segundo grupo era composto por filhos de famílias nobres com ambições na carreira militar e nas conquistas coloniais. Para estes, a Aula da Esfera oferecia uma formação sólida em geometria, balística e engenharia militar — saberes indispensáveis a quem aspirava comandar fortalezas, dirigir operações militares ou administrar territórios em nome da Coroa. A ciência era, para eles, um instrumento de poder.

Missionários jesuítas
O terceiro grupo distinguia-se dos anteriores pela natureza da sua missão. Os missionários que partiam para os territórios ultramarinos — do Brasil ao Japão, de Angola à Índia — necessitavam de uma formação científica sólida para estabelecer contacto com civilizações estrangeiras, muitas delas com tradições astronómicas e matemáticas próprias e sofisticadas. Conhecer o céu era, para estes homens, não apenas uma ferramenta de navegação, mas também uma ponte de diálogo com os povos que encontravam.

A Aula de Esfera do Colégio de Santo Antão desempenhou um papel central na cultura científica portuguesa do século XVII. Era a única instituição em Portugal onde se ensinavam ciências ligadas à Matemática com um caráter tão prático e aplicado. O seu ensino estava diretamente relacionado com os interesses expansionistas da Coroa e com a necessidade de manter a liderança portuguesa na navegação e na exploração marítima.

Muitos dos homens que se distinguiram na cartografia, na astronomia e na administração dos territórios ultramarinos passaram por esta instituição. Lisboa era, à época, um ponto de encontro para intelectuais e cientistas europeus a caminho da Ásia e das Américas, e os mais preparados entre eles contribuíam para o ensino na Aula de Esfera, introduzindo os mais recentes avanços científicos.

Professores notáveis da Aula de Esfera:

A qualidade do ensino ministrado na Aula da Esfera ficou em grande medida a dever-se ao perfil excecional dos seus docentes. Muitos eram jesuítas de projeção europeia, atraídos a Lisboa pela centralidade de Portugal nas rotas científicas e comerciais do mundo quinhentista e seiscentista.

Giovanni Paolo Lembo – Astrónomo jesuíta italiano de reconhecido mérito, Lembo distinguiu-se não apenas pelo ensino teórico mas pelo contributo prático na conceção e construção de instrumentos de observação astronómica, aproximando os alunos da ciência experimental.

Cristóvão Galo – Matemático de formação rigorosa, dedicou o seu trabalho ao estudo da cartografia e da navegação, domínios em que a precisão matemática era condição de sobrevivência em alto mar.

Simão Fallónio – Especialista em astronomia e geografia, contribuiu para a articulação entre o conhecimento celeste e a descrição do mundo terrestre, essencial à formação dos navegadores.

Valentim Estancel – Professor de matemática e cosmografia, Estancel representava a tradição jesuíta de unir o rigor científico à missão pedagógica, formando alunos capazes de compreender a estrutura do universo e a sua aplicação prática.

Inácio Vieira – Destacado estudioso da astronomia e dos seus usos na navegação, Vieira foi uma figura de referência na transmissão dos conhecimentos astronómicos aplicados às grandes viagens marítimas.

Francisco da Costa – Mestre em astrologia e cosmografia, Costa integrava no seu ensino tanto a dimensão científica como a tradição interpretativa dos astros, num tempo em que as fronteiras entre astronomia e astrologia ainda não estavam claramente definidas.

João Delgado – Professor de geometria e balística, Delgado respondia à necessidade crescente de formar militares tecnicamente preparados, capazes de aplicar os princípios matemáticos à guerra e à engenharia.

Cristóvão Griemberger – Astrónomo e matemático de reputação europeia, Griemberger trouxe à Aula da Esfera os mais recentes debates científicos do continente, contribuindo para manter Lisboa ligada à vanguarda do pensamento astronómico da época.

Francisco Machado – Cartógrafo e especialista na construção de globos, Machado dominava a arte de traduzir o mundo em objeto — transformando o conhecimento geográfico em instrumentos tangíveis de navegação e ensino.

Sebastião Dias Cristóvão Galo – Matemático e estudioso da arte de navegar, a sua formação combinava o rigor do cálculo com o conhecimento prático das rotas e técnicas de navegação marítima.

Inácio Stafford – Especialista em astrologia prática e judiciária, Stafford ensinava a leitura e interpretação dos astros com aplicação direta ao planeamento de expedições e à tomada de decisões em contexto marítimo e militar.

Luís Gonzaga – Professor de física e mecânica aplicada à navegação, Gonzaga introduzia os alunos nos princípios do funcionamento das máquinas e instrumentos científicos, saberes indispensáveis a bordo dos navios portugueses.

A Sala das Esferas — memória viva de uma aula extraordinária

O atual Salão Nobre do Hospital de São José, em Lisboa, guarda nas suas paredes muito mais do que decoração. Conhecido como Sala das Esferas, este espaço foi a antiga aula magna do Colégio de Santo Antão-o-Novo — o coração intelectual e científico da instituição jesuíta que durante dois séculos formou os homens que navegaram, cartografaram e administraram o império português.

A sala mantém hoje uma decoração notável: oito painéis de azulejos em azul e branco, executados com invulgar qualidade artística, representando cenas alegóricas das disciplinas que ali se ensinavam. Cada painel é, em si mesmo, um documento histórico — uma síntese visual do programa científico da Aula da Esfera e do universo intelectual que a animava.

As disciplinas representadas — Óptica, Geografia, Geometria, Balística, Astronomia, Mecânica, Navegação e Cartografia — não foram escolhidas ao acaso. Formam um retrato coerente de uma instituição que unia a contemplação do céu à conquista do mar, o rigor matemático à utilidade prática, a ciência pura ao serviço do império.

Hoje, neste mesmo espaço por onde médicos e enfermeiros passam diariamente, as figuras dos azulejos continuam a olhar em silêncio para quem cruza a sala — astrónomos com os seus instrumentos, geógrafos com os seus mapas, navegadores com os seus globos. São a memória persistente de um tempo em que Lisboa era, verdadeiramente, o centro do mundo conhecido.

A Sala das Esferas é, por isso, muito mais do que um salão nobre. É um arquivo em azulejo. Um monumento à curiosidade humana. E uma homenagem silenciosa a todos os que, entre estas paredes, aprenderam a perguntar, a medir e a descobrir.

Colégio de Santo Antão-o-Velho (Coleginho),
Mouraria, Lisboa
Colégio de Santo Antão-o-Novo em 1836, em desenho de Luís Gonzaga Pereira

Considerações Finais

A Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão-o-Novo representa um dos episódios mais significativos — e porventura mais subvalorizados — da história da ciência e da educação em Portugal. Nascida no contexto da expansão marítima e sustentada pelo projeto pedagógico jesuíta, esta instituição soube responder, com notável lucidez, às exigências de um país que governava um império disperso por quatro continentes.

O que a distinguia das restantes instituições de ensino da época não era apenas o conteúdo do seu currículo, mas a sua filosofia de fundo: a convicção de que o conhecimento científico devia ser rigoroso, prático e útil. Numa Europa ainda dominada pelo escolasticismo, a Aula da Esfera ensinava a observar, a calcular e a questionar — antecipando, em muitos aspectos, os princípios que viriam a definir a ciência moderna.

O seu corpo docente, recrutado entre os mais destacados astrónomos, matemáticos e cartógrafos da Europa, assegurou que Lisboa permanecesse ligada às principais correntes do pensamento científico continental, num período em que o conhecimento circulava, sobretudo, através das redes da Companhia de Jesus.

O legado desta instituição não se esgota, porém, nos tratados publicados ou nas rotas traçadas pelos seus alunos. Sobrevive, de forma tangível e serena, nos oito painéis de azulejos da Sala das Esferas do Hospital de São José — um testemunho iconográfico de rara beleza e valor histórico, que continua a recordar, a todos os que por ali passam, que naquele lugar se aprendeu a medir o mundo.

Estudar a Aula da Esfera é, em última análise, compreender melhor o Portugal que foi ao mundo — e perceber que por detrás das grandes viagens e das grandes descobertas esteve sempre, em silêncio, o trabalho paciente de quem ensinou e de quem aprendeu.

Por detrás de cada navio que partiu, havia um homem que aprendeu a ler o céu.

Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, Sala «das esferas» do Colégio de Santo Antão-o-Novo (atual Hospital de S. José) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [17 de Fevereiro de 2025].

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IGREJA DE GESÚ (Roma) / IGREJA DE S. ROQUE (Lisboa)

A igreja de Gesú, em Roma, tornou-se o modelo arquitectónico a seguir, aquele que traduz as leis e as regras da Companhia de Jesus, onde o altar se encontra no local de acordo com objetivos litúrgicos assumidos no Concílio: uma só nave, larga e desafogada; seis capelas laterais intercomunicantes, de um lado e de outro da nave, erigidas em honra dos Santos e Mártires, permitindo-se a passagem destas ao transepto através de duas câmaras circulares; o transepto é ligeiramente saliente com capelas nos topos; a cúpula sobre o cruzeiro é grande, permitindo iluminar toda a abside; o altar principal fica, geralmente, numa posição bem visível, no topo da capela-mor e o púlpito[1] alto e bem posicionado para dominar sem dificuldade todo o templo e ao mesmo tempo tornar-se o ponto focal, para onde tudo converge.

(9) Altar-mor                                                  (8) Abside

(10) Capela de Madonna della Strada            (7) Capela do Sagrado Coração de Jesus

(11) Capela de Santo Inácio                           (6) Capela de Francisco Saverio

(15) Cúpula                                                     (16) Sacristia

(18) Crucifico maior                                       (17) Ante Sacristia

(12) Capela da Santíssima Trindade               (2) Nave

(13) Capela da Sagrada Família                     (5) Capela dos Anjos

(14) Capela de Francisco Borgia                    (4) Capela da Paixão de Cristo

(1) Fachada                                                     (3) Capela de Santo André

A necessidade de mostrar a grandeza de Deus num espaço amplo, com muita luz, incentiva o povo cristão ao culto mostrando de uma só vez todo o recinto sagrado e o orador a pregar.

Esta igreja corresponde a dois tempos vividos pela Reforma, a sobriedade dos primeiros tempos e a riqueza e ostentação do segundo, onde o maneirismo da estrutura arquitectónica se mistura com barroco da decoração.

No âmbito do Padroado Português, o modelo mais próximo terá sido a igreja de S. Roque, em Lisboa. O projecto da igreja de S. Roque embora inspirado no da igreja de Gesú, apresenta em relação a esta várias diferenças como: a diminuição da largura do transepto que, na igreja de Lisboa, quase se confunde, em planta, com as capelas laterais; enquanto na arquitectura da Gesù há uma cúpula central que depende dos arcos gerados pela abóbada de berço, no padrão português a adopção das traves promove um espaço mais livre e a inexistência de abóbadas recortando o forro da nave central possibilita o uso de padrões decorativos cada vez mais sofisticados nos forros (como a pintura ilusionista); oito capelas laterais intercomunicantes; cabeceira rectangular com capela-mor plana e pouco profunda; a substituição da abside[2] por uma capela-mor muito pequena e inclusão de uma teia com balaústres que delimita o avanço do santuário em relação ao corpo da igreja.

 (9) Capela da Sagrada Família                      (1) Capela da Senhora da Doutrina

(8) Capela de Santo António                          (2) Capela de São Francisco Xavier

(7) Capela da Senhora da Piedade                  (3) Capela de São Roque

(6) Capela de São João Baptista                     (4) Capela do Santíssimo

(13) Altar do Presépio                        (11) Altar da Anunciação

(12) Altar da Santíssima Trindade                 (10) Altares das Relíquias

(10) Altares das Relíquias                              (5) Capela-Mor

 (14) Sacristia 

Segundo o padre Francisco Rodrigues as igrejas jesuíticas lusas da segunda metade do séc. XVI e primeiros quartéis do séc. XVII seguem o modelo da igreja de Gesú. No seu livro História da Companhia de Jesus na assistência de Portugal ele afirma:

“No estilo dessas obras arquitectónicas …seguiu-se geralmente o que prevalecia naquela época de renascimento. Tôdas elas se assemelhavam nas linhas gerais, e distinguiam-se facilmente de outros estilos por certas formas características, de regra observadas na sua construção. Alargavam-se desafogadamente na amplidão de uma só nave, abriam-se lateralmente de um lado e do outro do corpo da igreja em capelas fundas com seu arco de cantaria; o altar principal ostentava-se bem visível no tôpo da capela-mor, e o púlpito suspendia-se em tal altura e posição, que dominasse sem dificuldade tôda a vastidão do templo. Desta sorte se oferecia ao povo cristão uma idéia mais impressionante da grandeza de Deus com a maior largueza do espaço e mais abundância de luz, providenciava-se maravilhosamente à magnificência do culto, abrangendo a multidão dos fiéis com seu olhar tôda a extensão do recinto sagrado, e podiam ainda os maiores concursos ver o orador e escutar-lhe fàcilmente a voz. Assim foi o sentimento religioso e a facilidade imponência das cerimónias cultuais, que traçaram, como era justo, as leis da arquitectura dos santuários.
Veio de Roma a insinuação do estilo, quando se propôs, como norma para as igrejas da Companhia o templo magnífico do Gesú, que por aquêles mesmos anos e com iguais intuitos de prática utilidade se construíu no centro da cidade papal, sob a direcção de arquitectos insignes, como eram VIGNOLA e DELLA PORTA. De feito em 1568 o santo Geral Francisco de Borja aconselhava que as igrejas da sua Ordem fôssem de uma só nave, como a igreja do Gesú. Nesse ano precisamente se abriam osalicerces ao templo farnesiano”[3].


[1] Tribuna, nas igrejas, de onde os oradores sagrados pregam.

[2] Hemiciclo ou meia abóbada que termina as basílicas cristãs, debaixo do qual se encontra o altar-mor.

[3] Francisco Rodrigues S.J., História da Companhia de Jesus na assistência de Portugal, t.II, vol. 1, p. 180.

Veja-se, VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.

24 DE JULHO DE 1833 – ENTRADA EM LISBOA DAS FORÇAS LIBERAIS

Na Europa de 1830, devido à propagação do liberalismo e nacionalismo como ideologias, renovam-se os conceitos de liberdade e de revolução.

  No dia 23 de julho começaram a ouvir-se os canhões e mosquetes em Almada o que levou, segundo Auguste Carayon, à resolução de na madrugada de 24 saírem de Lisboa os noviços e padres para casa da Condessa de Oliveira.

No dia 24 de julho de 1833, «au plus fort de la chaleur», as forças militares lideradas pelo duque da Terceira dirigem-se para Lisboa onde entram sem encontrar oposição.

Os miguelistas retiram-se de Lisboa, a exemplo do próprio duque de Cadaval. Escreve Carayon que durante a noite saíram, inclusive, os ministros, o Tesouro, o exército e a nobreza[1]. Joaquim Martins de Carvalho publica um artigo intitulado Libertação de Lisboa, 24 de julho de 1833, onde menciona que “… o ministro do reino de D. Miguel, conde de Basto, que á mesma hora se retirava com o resto do exercito miguelista, comandado pelo duque de Cadaval, na direcção de Coimbra…”[2]. Refere o Marquês de Fronteira que o Duque de Cadaval fugiu da capital “… com seis mil homens de infantaria, seiscentos cavallos e duas baterias, …”, estando do outro lado do Tejo, preparados para entrar em Lisboa apenas mil e duzentos militares[3]. Na opinião De Saturio Pires e Carlos Passos, o duque de Cadaval terá tentado resistir à saída de Lisboa, “… mas as opiniões dos oficiais do conselho (entre eles Gaspar Teixeira) eram «desaminadoras e cheias de terror pânico», pelo que se decidiu abandonar a cidade com o fundamento «na falta de confiança nas tropas, na facilidade com que Napier podia entrar no Tejo e nas dificuldades de uma eficaz resistência»”[4].

António Ribeiro Saraiva sobre o facto consumado das entrada das tropas liberias em Lisboa[5], escreve no seu Diário o seguinte: “Neste momento, eu e todos os que estavam demos inteiramente por perdido tudo para nós …”[6].

Com a entrada do exército em Lisboa, os monges da Cartuxa de Laveiras, que ajudaram os missionários jesuítas no contacto com o povo, decidem abandonar o mosteiro e juntar-se ao Cortejo do Tesouro Real de Queluz, aos «Paisanos, Mulheres, Crianças, Frades»[7], e rumaram a Coimbra onde se encontrava a Corte. Segundo Auguste Carayon, «Toutes les familles exilées de Lisbonne vinrent également se réfugier» em Coimbra, tornando-se esta cidade o centro e estada da família real, com oito “cabeças coroadas” e o asilo de outros tantos. Em Relation écrite par les Pères exilés de Coïmbre et du Portugal , os missionários jesuítas descrevem o momento do seguinte modo:

“Représentez-vous une grande partie de la population de la capitale, surtout des premières familles du royaume, une arrivée de douze à quinze mille hommes, qui fuient comme frappés d’une sorte de stupeur, sans aucune provision, sans argent sans rien se retirant en désordre sur une route la plupart du temps déserte et dépourvue partout de moyens de subsistance. Ils arrivent ainsi subitement à Coïmbre, harassés, fatigues, épuisés de chaleur, de privations et de frayeur. Coïmbre se vit tout-à-coup encombré de ces infortunés fugitifs, de chevaux, de voitures, et dans toutes les maisons on réclame et on donne l’hospitalité”[8]

Segundo Pinharanda Gomes, pelo caminho encontraram já em debandada os franciscanos do Varatojo, os cistercienses de Alcobaça e os arrábidos de Mafra[9].

Sobre a atitude tomada pelo Duque de Cadaval na evacuação de Lisboa, o Padre Delvaux, superior da missão jesuíta em Portugal desde 13 de agosto de 1829, justifica-a da seguinte forma:

“La révolution préparée depuis longtemps dans cette grande ville; l’apparition des troupes de Don Pedro sur l’autre rive du Tage; leur avantage sur l’intrépide Tallez Jourdan que son intrépidité même perdit et livra à la barbarie de ses assassins; l’instruction donnée aux amiraux de France et d’Angleterre de saluer la bannière de Dona Maria da Gloria, aussitôt qu’ils la verraient arborée sur l’une ou l’autre rive; la perte de l’escadre de Don Miguel et l’approche de celle de ses ennemis si inopinément grossie par la défection; enfin une ligne immense à garnir rendaient toute défense impossible, exposaient le duc à une capitulation dont les effets matériels et moraux eussent été irrémédiables et compromettaient sans fruit une divison entière des plus fidèles serviteurs du roi. Le duc dans cette extrémité ne crut pouvoir lui rendre un service plus signalé que de la lui conduire intacte”.

D. Pedro, após um violento ataque absolutista ao Porto, embarca para a capital, fazendo a sua entrada no Tejo a bordo do vapor William the Fourth no dia 28 de julho e nesse mesmo dia reúne-se em Conselho de Ministros.

No dia seguinte foi a São Vicente visitar o túmulo do seu pai (D. João VI) e nele depositou uma folha escrita com as seguintes palavras:

“= Hum filho Te assassinou:

= Outro filho Te vingará.

= 29 de Julho de 1833. — D. PEDRO. =” .

Um ano depois, a 22 de abril de 1834, a Quádrupla Aliança decide-se pela intervenção militar contra as forças do rei D. Miguel I visando impor regimes liberais nas monarquias ibéricas e em 16 de maio, na batalha de Asseiceira, D. Pedro derrota as forças absolutistas de D. Miguel, assegurando os direitos de sua filha D. Maria da Glória e garantindo a vigência de uma Constituição liberal.

Pelo decreto de 28 de maio de 1834 D. Pedro, em nome de sua filha, extingue todas as Ordens Religiosas masculinas. As Congregações religiosas foram o alvo principal da atuação dos liberais, começando por expulsar novamente os jesuítas que, organizados segundo o estatuto canónico da Missão Portuguesa da Companhia de Jesus, eram considerados “o braço armado” do Papa.

Em 16 de abril de 1848, António Ribeiro Saraiva consternado, escrevia ao P. Nicolau dando-lhe conhecimento do estado em que se encontrava a Europa. Afirmava ele:

“É, todavia, um facto, que não há quase um canto da Europa em que se esteja ao abrigo da borrasca revolucionária e republicana, as únicas excepções por ora parecem ser aqui a Rússia. É triste não se ver apoio aos princípios monárquicos quase em parte alguma”[10].


[1] CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus: Notes historiques sur le rétablissement de la Compagnie de Jésus en Portuga, vol. X. Poitiers: Henri Oudin, 1863,, p. 53.

[2] O Conimbricense, nº4164, de 23 de julho de 1887, p. 1.

[3] FRONTEIRA, 7º Marquês de – Memorias do Marquês de Fronteira e de Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861, Parte 5ª: 1833 a 1834. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1929, pp. 33-34.

[4] PIRES, Saturio – Os Caçadores no Exercito de D. Miguel (1828-34). Um século de glória. Porto: Companhia Portugueza Editora, 1918, p. 32 (primeira referência); PASSOS, Carlos de – D. Pedro IV e D. Miguel I: 1826-1834. Porto: Livraria Simões Lopes, 1936, p. 346 (segunda referência). Apud LOUSADA, Maria Alexandre; SÁ, Maria de Fátima – D. Miguel. Lisboa: Temas e Debates, 2009, p. 224-225.

[5] Entrada das forças militares lideradas pelo duque da Terceira em Lisboa, 24 de julho de 1833. In Suplemento ao nº 174 da Crónica Constitucional do Porto, 26 de julho de 1833.

[6] SARAIVA, António Ribeiro – Diário de Ribeiro Saraiva, 1831-1888, Tomo I: 1831-1835. Lisboa: Imprensa Nacional, 1915, p.245.

[7] COSTA, Francisco de Paula Ferreira da – Memórias de um miguelista: 1833-1834, p. 24.

[8] Relation écrite par les Pères exilés de Coïmbre et du Portugal durant leur traversée, de Lisbonne à Gênes, sur le brigantin Sarde les vrais amis, en juillet 1834. In CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus, vol. XIX, pp. 472-473. Vide Anexo 17.

[9] GOMES, J. Pinharanda – A Ordem da Cartuxa em Portugal: Ensaio da Monografia Histórica, pref. dos Cartuxos de Scala Coeli. Salzburg: Institut für Anglistik und Amerikanistik, 2004, pp. 172-175.

[10] Carta de António Ribeiro Saraiva para o P. Nicolau, dia 16 de abril de 1848. In BNP, ARS, cx. 172 (25 cartas de 1844 a 1852), nº 22.

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VEIGA, Francisca Branco (2024), 24 DE JULHO DE 1833 – ENTRADA EM LISBOA DAS FORÇAS LIBERAIS (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [17 de Julho de 2024].

Do meu livro “Companhia de Jesus. O Breve Regresso no Reinado de D. Miguel “, cap. III, 3. 29 de Julho de 1833 – Fim da Missão Jesuíta em Lisboa.

No dia 24 de julho de 1833, «au plus fort de la chaleur», as forças militares lideradas pelo duque da Terceira dirigem-se para Lisboa onde entram sem encontrar oposição.

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Francisco Xavier embarca em Lisboa, com destino à Índia (7 abril 1541)

O momento da partida de São Francisco Xavier ficou gravado na obra da autoria de José Pinhão de Matos, intitulada: PANORAMA DE LISBOA E PARTIDA DE SÃO FRANCISCO XAVIER PARA A ÍNDIA.

Esta pintura representa a vista panorâmica de Lisboa na segunda metade do século XVII, e vai do Terreiro do Trigo a Este, até à Cruz Quebrada ( já fora dos limites da cidade ) a Oeste, passando pela Rocha do Conde de Óbidos e Belém, onde se destaca o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, enquanto que, para o interior, ainda se consegue visualizar o Paço da Alcáçova, a Sé e São Vicente de Fora e a Oeste uma conjunto de conventos.

São reproduzidos detalhadamente toda a zona ribeirinha e mais precisamente o mercado da Ribeira Velha, a Casa da Índia e o Terreiro do Paço devido à perspetiva vinda do rio Tejo, que se encontra cheio de caravelas e naus nacionais e Estrangeiras.

A esta vista de Lisboa no século XVII, é acrescida a partida para Goa de São Francisco Xavier corrido em abril de 1541. O pintor pinta os diversos momentos do acontecimento: a saída do Santo para a passarela que dá acesso ao Rio, o embarque na galeota e o trajeto desta que se dirige para a nau da armada da Índia.

Na parte superior da composição, está representada a cena de despedida de Francisco de Xavier ao rei D. João III, envolta por grinaldas suspensas por dois anjos. Um terceiro anjo, no ângulo superior esquerdo desenrola um pergaminho onde se pode ler: “Acceptis a Joane III / pontificis literis / nuntius apostolicus / in Indiam solvit / Santus Francisco Xavierius. /” -Depois de ter recebido as cartas pontifícias das mãos de D. João III, o Núncio apostólico São Francisco Xavier parte para a Índia.

No dia 7 de Abril de 1540, saia a primeira expedição jesuíta de Lisboa para a Índia e Extremo Oriente, chefiada por Francisco Xavier (que fazia nesse dia 35 anos), na nau Santiago, iniciando, assim, os 200 anos de missionação que se seguiriam para essa direção e outras (em 1549, para o Ocidente (Brasil), com o P. Manuel da Nóbrega). Com ele seguiram Micer Paulo (ou Paulo Camerte), Francisco Mansilhas e Diogo Rodrigues (noviço).

A pintura abaixo encontrava-se no noviciado jesuítico da Cotovia (atual MNHNC) e hoje no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa.

D. João III e o núncio apostólico da Índia, ou A partida de São Francisco Xavier em 1541,
José Pinhão de Mattos, c. 1730.
MNAA

É completada com a Vista de Goa, pintura que se encontra igualmente no Museu Nacional Arte Antiga.

Vista de Goa, José Pinhão de Matos
MNAA

A Vista da Cidade de Goa, também conhecida como A Chegada de São Francisco Xavier à Capital do Estado da Índia (incluída no seu medalhão), foi pintado para o Colégio da Cotovia, e é obra da autoria de José Pinhão de Matos e de seu filho, em associação.

Fachada do edifício do Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus
Archivo pittoresco : semanario illustrado, 1863

In VEIGA, Francisca Branco – “Noviciado da Cotovia: O passado dos Museus da Politécnica 1619-1759” [texto policopiado]. Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Património Cultural. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2009.

31 julho 1833, D. PEDRO DÁ ORDEM DE EXPULSÃO AOS MISSIONÁRIOS JESUÍTAS DE LISBOA

No dia 31 de julho, dia de Santo Inácio de Loiola, foram obrigados a sair do Colégio de Santo Antão-o-Velho alguns padres e irmãos jesuítas que se encontravam em Portugal desde 13 de agosto de 1829.

Com a entrada de D. Pedro em Lisboa, no dia 28 de julho, a resposta foi uma descida dos juízes à casa de Santo António, com um grande aparato da cavalaria e infantaria. Recordava o P. Delvaux o porquê da dispersão tão rápida desta missão portuguesa da Companhia de Jesus:

“1º. Que Don Pedro était bien persuadé que nous n’étions en Portugal que des instruments de son frère, comme il conste par les moyens qu’il prit pour nous engager dans son propre parti, et par la défiance avec laquelle lui et les principaux agents de cette révolution arrivèrent armés contre la Compagnie.

 2º. Que le refus constant d’entrer dans les vues de l’empereur fondé uniquement sur l’esprit, la lettre et la pratique de notre Institut, ne faisait cependant que confirmer la créance à notre inviolable attachement à Don Miguel.

3º. Que les actes de celui-ci étant tous annulés par le nouveau gouvernement, nous retombions naturellement sous les arrêts de proscription du roi Joseph Ier[1]

Partiram para a Inglaterra num grande navio de comércio inglês. No dia 16 de agosto, desembarcaram no porto de Liverpool, sendo levados para o seminário de Stonyhurst . Outros, partiram no dia 4 de agosto num brigue genovês fretado pelo Núncio Apostólico, chegando a Génova no dia 17 do mesmo mês.

O ano de 1833 marcava o fim da Missão Jesuíta em Lisboa mas, no Colégio das Artes, em Coimbra, ainda ficavam 18 missionários, vindo a ser expulsos por D. Pedro no ano seguinte.


Inácio de Loyola, nascido Iñigo López de Oñaz y Loyola (Azpeitia, 31 de maio de 1491 — Roma, 31 de julho de 1556), foi o fundador da Companhia de Jesus.
Morreu em Roma em 31 de julho de 1556.
Foi canonizado a 12 de Março de 1622 pelo Papa Gregório XV. O seu dia é festejado a 31 de julho.

Santo Inácio de Loyola, autor desconhecido, século XVII
Exposição “Ver novas todas as coisas”
Museu de São Roque, Lisboa

[1] CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus, vol. XIX, 1866, pp. 444-445.

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