
A Chiesa del Gesù e dei Santi Ambrogio e Andrea, situada no coração histórico de Génova, diante da Piazza Matteotti e nas proximidades da Piazza De Ferrari, constitui um dos mais importantes testemunhos da presença da Companhia de Jesus na cidade.
A sua história é, contudo, anterior à chegada dos Jesuítas. O edifício encontra-se associado à antiga presença da comunidade milanesa em Génova e a uma zona que, durante a Idade Média, era conhecida como o bairro dos vendedores de aves, designação ainda evocada pela vizinha Salita Pollaiuoli.
A partir da chegada da Companhia de Jesus a Génova, em 1552, o edifício entrou numa nova fase da sua história. Confiado aos Jesuítas, foi profundamente reformulado a partir de 1589, num processo que conduziu à construção de uma nova igreja, concluída essencialmente em 1606.
A atual configuração do templo resulta, assim, de diferentes momentos de projeto, construção, transformação e restauro. A igreja que hoje podemos observar conserva a memória de um espaço jesuíta dos séculos XVI e XVII, mas incorpora também intervenções posteriores que alteraram, sobretudo, a sua imagem exterior.
A arquitetura da Igreja do Gesù
A história arquitetónica da igreja permite acompanhar a evolução de diferentes conceções do espaço religioso jesuíta no final do século XVI.
O primeiro projeto: cerca de 1586
O primeiro projeto conhecido, datado de cerca de 1586, não chegou a ser executado. Propunha uma igreja de planta centralizada, organizada como uma cruz grega inscrita num quadrado.
No centro encontrava-se prevista uma cúpula, enquanto a capela-mor, de configuração semicircular, definia um dos eixos principais do edifício.
Esta primeira solução inscreve-se na tradição italiana de valorização das plantas centralizadas, produzindo uma organização espacial fortemente geométrica e concentrada em torno de um núcleo central.
A reformulação de Giuseppe Valeriano
Em 1589, o projeto foi reformulado e iniciou-se a construção de uma nova igreja associada ao arquiteto jesuíta Giuseppe Valeriano.
A solução adotada afastou-se da planta centralizada inicialmente prevista e aproximou-se de uma organização longitudinal, mais adequada às necessidades litúrgicas e pastorais da Companhia de Jesus.
A mudança não foi apenas arquitetónica. A organização do espaço respondia à importância atribuída pelos Jesuítas à celebração da missa, à pregação e à participação dos fiéis, estabelecendo uma relação visual mais direta entre a assembleia e o altar.
A construção contou com o apoio da influente família Pallavicini, cujo financiamento contribuiu para a afirmação da presença jesuíta no tecido urbano e religioso de Génova.
Nave, capelas e transepto
A nave constitui o principal eixo longitudinal da igreja e conduz o olhar desde a entrada até ao altar-mor.
Ao longo da nave distribuem-se as capelas laterais, destinadas ao culto e à celebração de missas nos diferentes altares. A sua integração na estrutura do templo permite conciliar a existência de espaços devocionais individualizados com a unidade espacial da nave.
O transepto introduz uma alteração no percurso longitudinal e define, juntamente com a nave, o núcleo central da igreja. Sobre a sua interseção ergue-se a cúpula, um dos elementos mais importantes da composição arquitetónica.
A luz que penetra nesta zona contribui para acentuar a centralidade espacial da cúpula e para estabelecer uma hierarquia entre os diferentes espaços do templo.
Na extremidade da nave encontra-se a capela-mor, dominada pelo altar e destinada à celebração litúrgica principal. Toda a organização do espaço conduz progressivamente o olhar para esta zona, reforçando a sua centralidade dentro do programa arquitetónico.
A ampliação da planta
A configuração inicial foi posteriormente modificada através do acrescento de um tramo junto à entrada.
Esta alteração transformou a proporção da igreja, tornando a planta mais retangular e longitudinal. A transformação é particularmente importante porque demonstra que o edifício não resultou de uma única conceção arquitetónica, mas de um processo de adaptação e reformulação.
A igreja e a representação de Rubens
A construção da igreja prolongou-se pelas últimas décadas do século XVI e início do século XVII, ficando essencialmente concluída em 1606.
Um testemunho fundamental da sua configuração encontra-se na obra Palazzi di Genova, de Peter Paul Rubens, publicada em 1622.
Rubens representou a igreja não apenas através da fachada, mas também mediante a planta e os cortes do edifício. Esta documentação permite observar a organização espacial do templo e compreender a relação entre a nave, as capelas laterais, o transepto, a cúpula, a capela-mor e a zona de entrada.
Importa, contudo, distinguir representação de projeto: em 1622, Rubens não estava a projetar uma nova igreja. Registava graficamente um edifício já existente, oferecendo um testemunho particularmente relevante da sua configuração nas primeiras décadas do século XVII.
O interior e o programa artístico

O interior da igreja revela um programa artístico de grande riqueza, no qual arquitetura, escultura e pintura se articulam na construção de um espaço litúrgico de forte impacto visual.
Entre as obras mais importantes encontram-se três pinturas de especial relevância: A Circuncisão, de Peter Paul Rubens, realizada em 1608 para o altar-mor; Santo Inácio de Loyola curando uma mulher possuída, também de Rubens; e A Assunção da Virgem, de Guido Reni.
O conjunto artístico contribui para compreender uma das características fundamentais dos grandes espaços religiosos associados à Companhia de Jesus: a utilização articulada da arquitetura e das artes para criar ambientes destinados simultaneamente à celebração litúrgica, à devoção e à transmissão de conteúdos religiosos.
A fachada da Igreja do Gesù

A fachada da Chiesa del Gesù e dei Santi Ambrogio e Andrea constitui um dos elementos mais reconhecíveis do edifício.
Organizada em dois níveis, apresenta uma composição simétrica marcada por pilastras, mármores, nichos com figuras de santos e pelo monograma IHS, símbolo associado à Companhia de Jesus.
O portal central assume particular destaque. Sobre ele encontra-se o monograma jesuíta, integrado numa composição ornamental que estabelece a ligação entre arquitetura e escultura. Nos nichos laterais surgem figuras de santos, enquanto o segundo nível é dominado por uma ampla abertura central e rematado por um frontão triangular, sobre o qual se ergue a cruz.
Apesar da forte aparência barroca da composição, a fachada que atualmente vemos não corresponde integralmente à fachada da igreja construída entre os séculos XVI e XVII.
A sua configuração atual resulta de uma intervenção realizada na segunda metade do século XIX, concluída em 1894, tomando como referência um projeto atribuído a Peter Paul Rubens.
Esta circunstância confere à fachada um particular interesse historiográfico. O edifício conserva a memória da igreja jesuíta construída entre 1589 e 1606, mas a sua imagem exterior resulta também de uma intervenção posterior, que procurou recuperar e reinterpretar uma linguagem arquitetónica associada ao período barroco.
No centro da composição, o IHS afirma visualmente a identidade da Companhia de Jesus. As representações de Santo Ambrósio e Santo André remetem, por sua vez, para as invocações sob as quais a igreja é atualmente conhecida.
Arquitetura, escultura e simbologia religiosa articulam-se, assim, numa fachada que continua a tornar visível, no espaço urbano de Génova, a longa presença da Companhia de Jesus.
Génova e os Jesuítas portugueses
A história da Igreja do Gesù não se esgota, porém, na sua arquitetura.
Séculos depois da construção do templo, Génova voltaria a cruzar-se com a história da Companhia de Jesus em Portugal. Em 1834, na sequência da extinção das Ordens religiosas e da expulsão dos Jesuítas, a cidade tornou-se um dos lugares de passagem da Missão Portuguesa no exílio.
A relação entre Génova e os Jesuítas portugueses permite, assim, estabelecer uma ponte entre dois momentos muito distintos da história da Companhia: a construção e afirmação de um espaço jesuíta na Itália da Reforma Católica e, três séculos mais tarde, a circulação de religiosos portugueses obrigados a abandonar o seu país.
Os Jesuítas portugueses em Génova: o exílio de 1834

A história dos Jesuítas portugueses em Génova inscreve-se no processo de expulsão e dispersão que se seguiu à vitória liberal de 1834.
Depois da expulsão dos Jesuítas de Coimbra, os religiosos foram conduzidos para a Torre de São Julião da Barra, onde permaneceram até à partida para o exílio.
Entre os dias 3 e 7 de julho de 1834, aguardaram no porto o navio que os transportaria para Génova. A passagem foi paga por amigos de Coimbra, tendo também desempenhado um papel importante a intervenção do embaixador francês, Mr. Mortier, junto do governo português.
No dia 7 de julho de 1834, partiram finalmente a bordo do bergantim sardo Verdadeiros Amigos, com destino a Génova. A bordo seguiam também a Baronesa de Lebzeltorn e duas senhoras francesas, netas do general Forbes.
Uma viagem difícil
A travessia foi longa e difícil.
Segundo o testemunho do padre Cypriano Margottet, o navio enfrentou mau tempo, trovoadas, relâmpagos e forte ondulação. Durante a viagem ocorreu ainda um episódio particularmente dramático: um marinheiro caiu ao mar e foi posteriormente resgatado pela tripulação.
Depois de 29 dias de viagem, o navio chegou a Génova no dia 5 de agosto de 1834.
A chegada, contudo, não significou imediatamente a entrada na cidade. Os religiosos permaneceram em quarentena durante quinze dias, só podendo desembarcar no dia 16 de agosto.
Durante esse período, o padre Margottet adoeceu com febre e fortes ataques de sangue, agravando as dificuldades de uma viagem que já havia sido marcada pelo mau tempo e pelo desgaste físico.
Génova: entre o exílio e a memória de Portugal
A chegada a Génova marcou uma nova etapa na vida destes religiosos.
Tinham deixado para trás as casas, os bens e a atividade apostólica que a Companhia de Jesus desenvolvera em Portugal desde a sua restauração, em 1829. A documentação jesuíta evidencia o sentimento de desânimo e perda provocado pelo afastamento de Portugal e, em particular, de Coimbra.
Génova era, contudo, também um espaço de encontro entre diferentes percursos do exílio português.
Entre os portugueses que ali se encontravam estava Frei Fortunato de São Boaventura, que atravessara a Europa antes de se dirigir para Roma. A presença destes exilados conferia à cidade uma dimensão que ultrapassava a simples condição de escala geográfica: Génova fazia parte das redes de circulação dos portugueses afastados do país na sequência da vitória liberal.
A dispersão da Missão Portuguesa
A permanência dos Jesuítas portugueses em Génova seria breve.
A cidade constituiu sobretudo um ponto de passagem antes da dispersão da Missão Portuguesa por diferentes destinos.
No dia 4 de setembro de 1834, os padres partiram de Génova para diferentes localidades de França, entre as quais Nice, Aix-en-Provence e Marselha. Alguns seguiram por mar, enquanto outros fizeram a viagem por terra.
A Missão Portuguesa deixava, assim, de permanecer reunida como comunidade. Iniciava-se uma nova fase da história dos Jesuítas portugueses, marcada pelo exílio, pela dispersão e pela reorganização da vida religiosa fora de Portugal.
Génova na história da Companhia de Jesus
A relação entre Génova e a Companhia de Jesus adquire, deste modo, um significado particular.
A cidade possuía uma longa tradição jesuíta, materializada na monumental Igreja do Gesù, cuja história arquitetónica se desenvolveu entre o final do século XVI e o início do século XVII. Em 1834, Génova tornou-se também um lugar de passagem para os Jesuítas portugueses expulsos de Portugal.
Entre estes dois momentos existe uma distância de quase três séculos, mas também uma ligação histórica: a mesma cidade que acolheu a expansão da Companhia de Jesus no contexto da Reforma Católica tornou-se, no século XIX, um espaço de passagem para religiosos portugueses obrigados a reorganizar a sua vida fora do país.
A Igreja do Gesù permite, assim, estabelecer uma ponte entre a história da arquitetura jesuíta e a história da própria Companhia. De um lado, encontramos a construção de um espaço destinado à celebração, à devoção e à ação pastoral dos Jesuítas; do outro, a circulação de religiosos portugueses que, em 1834, procuravam novos lugares onde continuar a sua missão.
Génova surge, deste modo, não apenas como cenário, mas como um lugar inscrito na longa história de presença, expulsão, circulação e reorganização da Companhia de Jesus.
A arquitetura da Igreja do Gesù conserva a memória material da afirmação da Companhia na cidade; a passagem dos Jesuítas portugueses em 1834 acrescenta-lhe uma dimensão humana e política, marcada pelo exílio. Entre o espaço construído e a experiência vivida, Génova permite acompanhar diferentes momentos da história de uma mesma instituição religiosa.














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Como referir este texto:
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VEIGA, Francisca Branco, Exílio e Igreja del Gesù: Os Jesuítas Portugueses em Génova, 1834 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [12 de julho de 2025].
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📸 Fotografias: André Veiga
Agradeço ao meu filho André Branco Veiga o cuidado e a atenção na realização das fotografias que acompanham esta publicação e que permitiram documentar visualmente este percurso pela Chiesa dei Santi Ambrogio e Andrea















