[A Sala das Esferas Encantadas é um pequeno conto infantil inspirado na histórica Sala «Das Esferas» do Colégio de Santo Antão-o-Novo, em Lisboa].
Cenas alegóricas alusivas às disciplinas que eram ensinadas no Colégio de Santo Antão. Sala «das Esferas». Atual Salão Nobre do Hospital de São José. Fotografias: @franciscabrancoveiga
Em Lisboa, há uma sala com paredes forradas com azulejos azuis e brancos.
Se olhares bem para elas, vês figuras pintadas há centenas de anos: homens a medir o céu, globos enormes, mapas do mundo, instrumentos que parecem saídos de um sonho.
Estas paredes guardam uma história.
Há muito, muito tempo, neste mesmo lugar, existia uma aula muito especial. Chamava-se a Aula da Esfera. E quem entrava nunca mais olhava para o mundo da mesma maneira.
Os jovens aprendiam que a Terra é redonda — como uma laranja gigante! Aprendiam os nomes dos planetas, as estrelas que desenham o céu, e os segredos dos oceanos que ainda ninguém tinha atravessado.
E depois pegavam nos instrumentos.
O astrolábio — para medir a altura das estrelas. O quadrante — para saber onde estavam no mundo. A balestilha — para guiar um navio quando à volta só havia água e céu.
Com estes instrumentos nas mãos, um jovem podia sonhar em ser líder de expedições. E alguns foram mesmo — até ao Brasil, até África, até à distante Ásia.
A aula já não existe. Mas as paredes lembram-se de tudo.
Hoje, esse edifício é o Hospital de São José. Médicos e enfermeiros cuidam das pessoas nas mesmas salas onde um dia se aprendia a navegar pelo mundo.
E a Sala dos Azulejos continua lá, intacta e cheia de histórias pintadas a azul e branco.
Se um dia forem a Lisboa, entra e olha com atenção.
As paredes vão sussurrar-te ao ouvido:
— Olha com atenção. Faz perguntas.Atreve-te a adivinhar. E descobre que o mundo é muito maior do que imaginas.
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Como referir este texto:
Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!
VEIGA, Francisca Branco, A SALA DAS ESFERAS ENCANTADAS: A Sala «Das Esferas» do Colégio de Santo Antão-O-Novo, Lisboa , (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [10 de julho de 2026].
O Dia Nacional do Azulejo celebra-se a 6 de maio de 2026 em Portugal, com o objetivo de proteger e valorizar este património único.
1.Secção de um mapa do pólo Norte2.Traçado geométrico do pentágono3.Traçado geométrico da pirâmide. FaiançaLisboa, 2.ª metade do séc. XVIIIMuseu Nacional do Azulejo @franciscabrancoveiga
Estes são azulejos didáticos em faiança, produzidos em Lisboa na segunda metade do século XVIII. Não eram meramente decorativos — serviam mesmo para ensinar.
Representam:
uma secção de um mapa do Pólo Norte
o traçado geométrico de um pentágono
o traçado geométrico de uma pirâmide
Funcionavam como uma espécie de “manual visual” fixo na parede.
A influência dos jesuítas
Os jesuítas tiveram um papel central no ensino até meados do século XVIII. O seu método, baseado no Ratio Studiorum, dava importância a:
matemática e geometria
astronomia e cartografia
aprendizagem visual e demonstrativa
Ou seja, coisas que se mostram, não apenas se dizem — exatamente o que estes azulejos fazem.
Mas há aqui um ponto importante: Os jesuítas foram expulsos de Portugal em 1759, por ordem do Marquês de Pombal.
Portanto, estes azulejos já são de uma fase em que:
ou ainda refletem a herança pedagógica jesuíta,
ou fazem parte das reformas pombalinas, que mantiveram um ensino mais científico e prático.
Porque usar azulejos para ensinar?
Na época, fazia todo o sentido:
eram resistentes e duravam muito mais que papel
ficavam expostos nas paredes das salas
permitiam repetir constantemente os conceitos
aproveitavam uma tradição portuguesa fortíssima: a azulejaria
E, no fundo, funcionavam como um quadro permanente.
O que isto revela
Estes azulejos mostram bem uma mudança de mentalidade:
ensino mais abstrato → ensino visual e científico
influência religiosa → abertura ao Iluminismo
arte decorativa → ferramenta pedagógica
São um excelente exemplo de como, em Portugal, a arte e a ciência se cruzaram no ensino.
Estes três azulejos são quase “aulas congeladas” na parede.
1. Secção de um mapa do Pólo Norte
Isto não é um mapa “normal” — é uma projeção polar.
Passo a passo:
Marca um ponto central → representa o Pólo Norte.
A partir desse ponto, traça várias linhas direitas a sair do centro → são os meridianos (longitudes).
Desenha círculos concêntricos à volta do centro → são os paralelos (latitudes).
Divide o topo em graus (70°, 80°, 90°, etc.).
Acrescenta massas de terra de forma aproximada (como “Cumberlândia” no azulejo).
Ideia-chave: transformar a Terra (esfera) num plano visto “de cima”.
2. Traçado geométrico de um pentágono regular
Este é um clássico da geometria euclidiana.
Passo a passo (método tradicional):
Desenha um círculo (centro A).
Traça um diâmetro horizontal.
Marca o ponto médio desse diâmetro.
Com o compasso, usa esse ponto médio para criar uma interseção com o círculo (passo chave para obter a proporção correta).
Com essa medida, marca um ponto na circunferência.
Repete essa distância ao longo da circunferência até obter 5 pontos.
Liga os pontos → tens o pentágono regular.
O truque escondido aqui envolve a proporção áurea, mesmo que não seja nomeada.
3. Traçado geométrico de uma pirâmide
Aqui já entramos em algo próximo do desenho técnico / perspectiva.
Passo a passo:
Desenha a base (normalmente um polígono, como um quadrado ou pentágono).
Marca o centro da base.
A partir desse centro, traça uma linha vertical → define a altura da pirâmide.
Marca o ponto do topo (vértice).
Liga o topo a todos os vértices da base.
Desenha linhas auxiliares (como no azulejo) para mostrar:
alturas
diagonais
projeções
Reforça as arestas visíveis e indica as ocultas com traço diferente.
👉 Isto ensinava não só geometria, mas também visualização espacial.
Em conjunto
Estes três azulejos cobrem três áreas fundamentais do ensino da época:
Cartografia (mapa do Pólo)
Geometria pura (pentágono)
Geometria aplicada / desenho (pirâmide)
É quase um pequeno “currículo” numa parede.
Conclusão
Estes azulejos didácticos são testemunhos de um momento em que arte e ciência não estavam separadas, mas sim profundamente interligadas. Representam uma pedagogia que privilegiava o olhar, a repetição e a compreensão visual — princípios que continuam atuais.
Ao mesmo tempo, espelham uma época de transição na sociedade portuguesa: entre a influência jesuíta e as reformas iluministas, entre a tradição e a modernidade. Neles, o conhecimento deixa de ser apenas transmitido oralmente ou por livros e passa a ser inscrito no espaço, tornando-se parte do quotidiano.
Hoje, ao olharmos para estas peças, não vemos apenas objetos antigos. Vemos um modo de ensinar — e de pensar — em que aprender era também ver, observar e construir.
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Como referir este artigo:
Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!
VEIGA, Francisca Branco, Quando os azulejos ensinavam: ciência, arte e pedagogia no Portugal do século XVIII (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [06 de Maio de 2026].