O Dia Nacional do Azulejo celebra-se a 6 de maio de 2026 em Portugal, com o objetivo de proteger e valorizar este património único.

FaiançaLisboa, 2.ª metade do séc. XVIIIMuseu Nacional do Azulejo
@franciscabrancoveiga
Estes são azulejos didáticos em faiança, produzidos em Lisboa na segunda metade do século XVIII. Não eram meramente decorativos — serviam mesmo para ensinar.
Representam:
- uma secção de um mapa do Pólo Norte
- o traçado geométrico de um pentágono
- o traçado geométrico de uma pirâmide
Funcionavam como uma espécie de “manual visual” fixo na parede.
A influência dos jesuítas
Os jesuítas tiveram um papel central no ensino até meados do século XVIII. O seu método, baseado no Ratio Studiorum, dava importância a:
- matemática e geometria
- astronomia e cartografia
- aprendizagem visual e demonstrativa
Ou seja, coisas que se mostram, não apenas se dizem — exatamente o que estes azulejos fazem.
Mas há aqui um ponto importante:
Os jesuítas foram expulsos de Portugal em 1759, por ordem do Marquês de Pombal.
Portanto, estes azulejos já são de uma fase em que:
- ou ainda refletem a herança pedagógica jesuíta,
- ou fazem parte das reformas pombalinas, que mantiveram um ensino mais científico e prático.
Porque usar azulejos para ensinar?
Na época, fazia todo o sentido:
- eram resistentes e duravam muito mais que papel
- ficavam expostos nas paredes das salas
- permitiam repetir constantemente os conceitos
- aproveitavam uma tradição portuguesa fortíssima: a azulejaria
E, no fundo, funcionavam como um quadro permanente.
O que isto revela
Estes azulejos mostram bem uma mudança de mentalidade:
- ensino mais abstrato → ensino visual e científico
- influência religiosa → abertura ao Iluminismo
- arte decorativa → ferramenta pedagógica
São um excelente exemplo de como, em Portugal, a arte e a ciência se cruzaram no ensino.
Estes três azulejos são quase “aulas congeladas” na parede.
1. Secção de um mapa do Pólo Norte

Isto não é um mapa “normal” — é uma projeção polar.
Passo a passo:
- Marca um ponto central → representa o Pólo Norte.
- A partir desse ponto, traça várias linhas direitas a sair do centro → são os meridianos (longitudes).
- Desenha círculos concêntricos à volta do centro → são os paralelos (latitudes).
- Divide o topo em graus (70°, 80°, 90°, etc.).
- Acrescenta massas de terra de forma aproximada (como “Cumberlândia” no azulejo).
Ideia-chave: transformar a Terra (esfera) num plano visto “de cima”.
2. Traçado geométrico de um pentágono regular

Este é um clássico da geometria euclidiana.
Passo a passo (método tradicional):
- Desenha um círculo (centro A).
- Traça um diâmetro horizontal.
- Marca o ponto médio desse diâmetro.
- Com o compasso, usa esse ponto médio para criar uma interseção com o círculo (passo chave para obter a proporção correta).
- Com essa medida, marca um ponto na circunferência.
- Repete essa distância ao longo da circunferência até obter 5 pontos.
- Liga os pontos → tens o pentágono regular.
O truque escondido aqui envolve a proporção áurea, mesmo que não seja nomeada.
3. Traçado geométrico de uma pirâmide

Aqui já entramos em algo próximo do desenho técnico / perspectiva.
Passo a passo:
- Desenha a base (normalmente um polígono, como um quadrado ou pentágono).
- Marca o centro da base.
- A partir desse centro, traça uma linha vertical → define a altura da pirâmide.
- Marca o ponto do topo (vértice).
- Liga o topo a todos os vértices da base.
- Desenha linhas auxiliares (como no azulejo) para mostrar:
- alturas
- diagonais
- projeções
- Reforça as arestas visíveis e indica as ocultas com traço diferente.
👉 Isto ensinava não só geometria, mas também visualização espacial.
Em conjunto
Estes três azulejos cobrem três áreas fundamentais do ensino da época:
- Cartografia (mapa do Pólo)
- Geometria pura (pentágono)
- Geometria aplicada / desenho (pirâmide)
É quase um pequeno “currículo” numa parede.
Conclusão
Estes azulejos didácticos são testemunhos de um momento em que arte e ciência não estavam separadas, mas sim profundamente interligadas. Representam uma pedagogia que privilegiava o olhar, a repetição e a compreensão visual — princípios que continuam atuais.
Ao mesmo tempo, espelham uma época de transição na sociedade portuguesa: entre a influência jesuíta e as reformas iluministas, entre a tradição e a modernidade. Neles, o conhecimento deixa de ser apenas transmitido oralmente ou por livros e passa a ser inscrito no espaço, tornando-se parte do quotidiano.
Hoje, ao olharmos para estas peças, não vemos apenas objetos antigos. Vemos um modo de ensinar — e de pensar — em que aprender era também ver, observar e construir.
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Como referir este artigo:
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VEIGA, Francisca Branco, Quando os azulejos ensinavam: ciência, arte e pedagogia no Portugal do século XVIII (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [06 de Maio de 2026].
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