O 5 de Outubro de 1910 e as Reações Contra as Ordens Religiosas

Litografia colorida, da autoria de Cândido da Silva (?) alusiva à revolução que deflagrou na noite de 3 de Outubro de 1910, em Lisboa, e que conduziu à proclamação da República Portuguesa 

A monarquia portuguesa manteve-se em vigor até Outubro de 1910, tendo como último soberano D. Manuel II, que subira ao trono em 1908, na sequência do regicídio que vitimou o seu pai, D. Carlos I, e o seu irmão, o Príncipe Real D. Luís Filipe.

No dia 4 de Outubro de 1910, perante as movimentações militares e populares que indicavam a iminente implantação da República, e num contexto de forte instabilidade política e social em Lisboa, o monarca decidiu afastar-se da capital. Partiu inicialmente para Mafra, onde se encontrava parte da guarnição real, seguindo depois para a Ericeira, de onde embarcou rumo a Gibraltar. Pouco tempo depois, fixou residência em Inglaterra, país que o acolheu até ao fim da sua vida.

A partida de D. Manuel II simbolizou o término de mais de sete séculos de monarquia em Portugal e marcou o início de uma nova etapa na história nacional — a Primeira República.

“Expulsão dos jesuítas em 10 de Outubro de 1910”. Bilhete postal com ilustração satírica alusiva às políticas anti-clericais de Afonso Costa.

O gesto do retratado e a composição espacial são apropriados do óleo de Louis-Michel van Loo que retrata o Marquês de Pombal – traçando com este um paralelo nas políticas anti-clericais. Data:  1910.

A Implantação da República, a 5 de Outubro de 1910, é um dos marcos mais importantes da história contemporânea portuguesa. Porém, além da mudança de regime político, esse dia e os seguintes foram também palco de episódios de tensão entre o novo poder republicano e as instituições religiosas. Este artigo revisita esses acontecimentos e analisa o impacto das medidas que viriam a definir as novas relações entre o Estado e a Igreja em Portugal.

O contexto e os acontecimentos

Na manhã de 5 de Outubro de 1910, registaram-se vários episódios de hostilidade dirigidos a instituições religiosas, em particular à Companhia de Jesus. O colégio dos jesuítas de Campolide foi invadido, tendo sido detidos o reitor, Padre Alexandre de Faria Barros, vários professores religiosos e alguns empregados. Os detidos foram conduzidos ao quartel de Artilharia 1, onde foram identificados e posteriormente enviados para o Limoeiro. Por razões de segurança, acabaram transferidos para Caxias, acompanhados por uma multidão que assistiu ao percurso.

Em Torres Vedras, o colégio do Barro foi alvo de uma busca com o objetivo de encontrar documentos considerados comprometedores. O episódio ficou marcado por atos de desordem e vandalismo. Em Setúbal e em Vale de Rosal ocorreram igualmente invasões a residências pertencentes a religiosos, conduzidas por grupos armados. Na época, os jesuítas eram frequentemente identificados como opositores à nova ordem republicana, sendo acusados de dificultar a difusão dos ideais democráticos.

As ações prolongaram-se nos dias seguintes. O convento dos Quelhas foi revistado por populares e por elementos da cavalaria, que procuravam armas e explosivos. O convento das Trinas também foi alvo de uma invasão, tendo sido evitados incidentes de maior gravidade. Estes acontecimentos decorreram num contexto de forte tensão política e social, marcado pela transição do regime monárquico para o republicano e por um acentuado anticlericalismo em alguns setores da sociedade.

A Lei da Separação

Afonso Costa assina a Lei de Separação da Igreja e do Estado, a 20 de Abril de 1911.

A 20 de Abril de 1911, o Governo Provisório da República aprovou a Lei de Separação do Estado das Igrejas, redigida por Afonso Costa, então ministro da Justiça e dos Cultos. Publicada no Diário do Governo nº 92 do dia seguinte, a lei consolidou juridicamente a separação entre as instituições religiosas e o Estado português. Inspirada pelos princípios do laicismo e da liberdade de consciência, visava limitar a influência clerical nas esferas política, social e educativa, tanto no território continental como no ultramarino.

O 5 de Outubro de 1910 marcou, assim, não apenas a mudança de regime político em Portugal, mas também o início de uma nova fase nas relações entre o Estado e a Igreja. A partir desse momento, consolidou-se uma política laica que procurou redefinir o papel da religião na sociedade portuguesa, estabelecendo as bases de um Estado moderno e secular.

A Lei é constituída por sete capítulos:

I – Da Liberdade de consciência e de culto;

II – Das corporações e entidades encarregadas do culto;

III – Da fiscalização do culto público;

IV – Da propriedade e encargos dos edifícios;

V – Do destino dos edifícios e bens;

VI – Das pensões aos ministros da religião catholicos;

VII – Disposições geraes e transitorias

“O Século: suplemento humorístico”, 8 de dezembro de 1910.

O Decreto de 8 de Outubro de 1910 e a Expulsão das Congregações Religiosas

Poucos dias após a Implantação da República, o novo governo português iniciou um conjunto de medidas destinadas a reorganizar as relações entre o Estado e a Igreja. Entre as primeiras decisões destacou-se o decreto de 8 de Outubro de 1910, que retomou antigas leis relativas à expulsão das ordens religiosas e determinou a incorporação dos seus bens na posse do Estado.

Contexto e conteúdo do decreto

O decreto com força de lei, datado de 8 de Outubro de 1910 e emitido pelo Ministério da Justiça, estabelecia a continuação em vigor de três diplomas históricos: as leis de 3 de Setembro de 1759 e de 28 de Agosto de 1767, referentes à expulsão dos jesuítas, e a lei de 28 de Maio de 1834, que determinava o encerramento dos conventos. Ao mesmo tempo, o novo decreto revogava o de 18 de Abril de 1901, que tinha autorizado a constituição de congregações religiosas durante a Monarquia Constitucional.

Com esta medida, o governo republicano procurava reforçar a política de laicização do Estado e a separação entre as instituições religiosas e a esfera pública. Nas semanas seguintes, foram publicados vários decretos e portarias complementares que designaram comissões responsáveis por proceder ao arrolamento dos bens das congregações, à aposição de selos e à sua integração progressiva no património do Estado.

Destino dos bens e impacto imediato

O processo de arrolamento visava garantir que os bens das congregações passassem legalmente para a posse pública. No entanto, na prática, parte desse património acabou por não permanecer sob administração estatal. Alguns imóveis e propriedades foram alienados, vendidos ou transferidos para particulares, nem sempre de forma centralizada ou regulamentada.

O decreto de 8 de Outubro de 1910 representou, assim, uma das primeiras medidas estruturais do novo regime republicano, ao reafirmar a separação entre o poder civil e o religioso e ao retomar legislação de séculos anteriores, adaptando-a ao contexto político do início do século XX.

1910-10-10 – Expulsão dos jesuítas, encerramento dos conventos, congregações religiosas, colégios, etc., e os todos os seus bens declarados pertença do Estado, etc – in Diário do Governo (Decreto de 8 de Outubro de 1910)
https://www.estudosportugueses.com/uploads/1/1/3/4/113423301/1910-10-10_-_dg_-_expulsao_dos_jesu%C3%ADtas_e_encerramento_dos_conventos_etc.pdf

Conclusão

A aprovação deste decreto consolidou juridicamente a posição da República face às ordens religiosas, antecipando a Lei de Separação do Estado das Igrejas, promulgada em 1911. As medidas tomadas a partir de Outubro de 1910 definiram o rumo das políticas religiosas da Primeira República e tiveram um impacto duradouro na organização social, política e patrimonial do país.

VER, INCLUSIVE, Outono de 1910 a Companhia de Jesus foi pela terceira vez expulsa de Portugal. In https://franciscabrancoveiga.com/2024/08/06/outono-de-1910-a-companhia-de-jesus-foi-pela-terceira-vez-expulsa-de-portugal/

Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco (2024), O 5 de Outubro de 1910 e as Reações Contra as Ordens Religiosas (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [6 de Agosto de 2024].

#HistóriaDePortugal #PrimeiraRepública #IgrejaEEstado #Decreto1910 #ExpulsãoDosJesuítas #BensDasCongregações #Laicização #ImplantaçãoDaRepública #AfonsoCosta #PrimeiraRepública #LeiDeSeparação

Exílio e Igreja del Gesù: Os Jesuítas Portugueses em Génova, 1834

A igreja é conhecida como Chiesa del Gesù ou Chiesa dei Santi Ambrogio e Andrea, em referência ao seu fundador do século VI, o bispo Honorato de Milão, que se refugiou em Génova para escapar às perseguições dos lombardos.

O edifício localiza-se numa zona que, durante a Idade Média, era conhecida como o bairro dos vendedores de aves, como testemunha a vizinha Salita Pollaiuoli. Abandonada no século VII pela comunidade milanesa, a igreja foi entregue à Companhia de Jesus no século XVI, sendo reconstruída entre 1552 e 1589.

Localiza-se no coração de Génova, diante da Piazza Matteotti e nas imediações da Piazza De Ferrari. A sua localização central, aliada ao contraste entre a sobriedade da fachada e a monumentalidade do interior, reflete não apenas a importância da presença jesuíta em Génova desde meados do século XVI, mas também a tensão simbólica entre a simplicidade exterior exigida nos primórdios da Companhia de Jesus e a riqueza decorativa que veio a caracterizar os seus espaços litúrgicos.

Após a chegada da Companhia de Jesus a Génova, em 1552, o edifício foi-lhe confiado, tendo sido profundamente reformulado a partir de 1589, com base num projeto de Giuseppe Valeriano, arquiteto jesuíta responsável também pela concepção da Igreja del Gesù Nuovo, em Nápoles. O financiamento da reconstrução esteve a cargo da influente família Pallavicini, cujo apoio consolidou o prestígio da Ordem na cidade.

A planta da igreja foi inspirada no modelo da Santa Maria Assunta em Carignano, obra de Galeazzo Alessi, caracterizando-se originalmente por um traçado quadrado e cinco cúpulas. Estas cúpulas, ou zimbórios, apresentam-se encimadas por lanternas superiores com janelas, frequentemente associadas a um nível inferior de lucarnas, que garantem a iluminação natural do espaço litúrgico. Posteriormente, foi adicionada uma baía junto à entrada principal, o que alterou a configuração original para uma planta rectangular, como é possível observar na gravura publicada por Peter Paul Rubens na sua obra Palazzi di Genova.

O interior da igreja revela um programa iconográfico de grande coerência e riqueza, reunindo obras de figuras centrais do barroco italiano e flamengo. Três obras-primas encontram-se alojadas no seu interior: duas de Peter Paul Rubens — A Circuncisão (1608, no altar-mor) e São Inácio curando uma mulher possuída (terceira capela do corredor esquerdo) — assim como uma de Guido Reni, A Suplição (terceira capela do corredor direito).

A fachada, datada do século XIX, foi reconstruída com base em desenhos de Rubens, após a demolição de uma estrutura que ligava a igreja ao Palazzo Ducale.

Apresenta atualmente um esplendor multicolorido, típico do barroco genovês.

A Partida dos Jesuítas Portugueses para Génova em 1834

Sentindo que o momento de partir finalmente chegara, os missionários jesuítas começaram a organizar cuidadosamente a sua saída de Lisboa, conscientes da delicada situação política que se desenrolava no país. Entre eles destacavam-se os padres Boulogne, Palavicini e o padre superior Delvaux, figuras de grande importância na missão jesuítica portuguesa. Inicialmente, pretendiam embarcar num navio de guerra inglês que se encontrava estacionado no rio Tejo, de modo a acompanhar mais de perto o desenrolar dos acontecimentos políticos e garantir uma saída segura.

No entanto, antes que pudessem seguir esse plano, foram convocados pelo Núncio Apostólico, que os acolheu junto de si durante alguns dias, em ambiente de precaução e cuidado. A autoridade eclesiástica, consciente da delicada conjuntura, solicitou então os seus passaportes junto do governo português e pediu-lhes que o acompanhassem numa viagem discreta e protegida, visando evitar maiores riscos.

Assim, no dia 4 de agosto de 1834, partiram a bordo de um brigue genovês fretado pelo próprio Núncio, rumando para Génova. A viagem durou cerca de duas semanas, e embora tenham chegado às proximidades da cidade a 17 de agosto, só lhes foi possível entrar em Génova no dia 1 de setembro. Segundo registos do padre Carayon, o Superior da Missão Portuguesa nutria inicialmente a intenção de desembarcar num porto espanhol e dali seguir para Coimbra, para se juntar aos religiosos que ainda permaneciam em território português e compartilhar o destino da missão.

Porém, devido à persistência do surto de cólera em Portugal, o capitão do brigue recusou-se a aproximar-se das costas espanholas, temendo o atraso que uma quarentena obrigatória poderia acarretar. Consequentemente, viram-se obrigados a prolongar a viagem e seguir diretamente até Itália, onde finalmente puderam desembarcar com relativa segurança. Desta forma, os jesuítas que partiram de Portugal em 1834 enfrentaram não só os desafios políticos e religiosos da época, mas também os obstáculos sanitários que marcavam o contexto europeu naquele momento, encontrando em Génova um novo ponto de partida para a sua missão.

A presente reportagem fotográfica, da autoria de André Branco Veiga (André Veiga), regista com detalhe a riqueza arquitetónica e artística da Igreja del Gesù, constituindo um complemento visual ao texto apresentado.

– – –

Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco, Exílio e Igreja del Gesù: Os Jesuítas Portugueses em Génova, 1834 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [12 de julho de 2025].

#franciscabrancoveiga #historia4all #franciscaveiga #genova #igrejadelgesù #CompanhiaDeJesus #delvaux #nuncioapostolico #lisboaportugal #GENOVAITALIA#1834 #andreveiga
@seguidores @destacar

Entre o Triunfo e o Silêncio: Imaginário e Realidade nas Missões Jesuítas

A “Alegoria do Triunfo dos Jesuítas nas Quatro Partes do Mundo” é uma pintura de grandes dimensões, datada do século XVIII e de autoria anónima, localizada na Igreja de São Pedro, em Lima, no Peru. Esta obra insere-se no contexto do pós-Concilio de Trento (1545–1563), um período em que a Igreja Católica respondeu de forma vigorosa à Reforma Protestante, nomeadamente à sua tendência iconoclasta, através da valorização da imagem como instrumento de ensino e doutrinação religiosa.

Alegoria do triunfo dos jesuítas nas quatro partes do mundo.
Anónimo, século XVIII.
Igreja de São Pedro, Lima (Peru).

A imagem adquire, assim, um papel crucial na estratégia da Igreja, sendo utilizada para transmitir conteúdos teológicos de forma acessível e apelativa às populações. Neste esforço de reafirmação católica, destaca-se a Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola em 1540 e considerada a vanguarda da renovação eclesiástica. Dotada de um forte espírito de disciplina e obediência ao Papa, a Companhia combinava uma elevada sofisticação intelectual com uma ação pragmática e missionária, focada nas zonas onde a presença da fé católica era mais necessária.

A pintura alegórica de Lima reflete de forma clara esta vocação missionária e universal dos jesuítas. Representa, simbolicamente, a sua ação evangelizadora nas quatro partes do mundo então conhecidas — Europa, Ásia, África e América — evidenciando o ideal de cristianização e “humanização” dos povos através da fé. A própria Ordem reconhece, na atualidade, que esta obra expressa o seu projeto teológico e evangelizador, assente na transformação espiritual e cultural das populações indígenas.

Apesar do prestígio e influência da Companhia de Jesus, esta viria a ser suprimida em 1773 pelo Papa Clemente XIV e só seria restaurada em 1814 por Pio VII. A expulsão dos jesuítas de Espanha e das suas colónias, decretada por Carlos III em 1767 no contexto das reformas ilustradas dos Bourbons, marcou o início do declínio da sua presença nas Américas. Ainda assim, obras como esta pintura continuam a testemunhar o papel decisivo da Companhia na propagação da fé católica e na construção de um império espiritual global, através de uma sofisticada linguagem visual e simbólica.

As grandes missões ad gentes da Companhia de Jesus

Desde a sua fundação, a Companhia de Jesus assumiu uma vocação marcadamente missionária, centrada na difusão da fé cristã junto de povos não europeus, numa lógica universal e profundamente comprometida com o ideal de evangelização global. Estas missões, conhecidas como ad gentes — expressão latina que significa “para os povos” —, constituíam uma resposta direta ao apelo da Igreja pós-tridentina para levar o Evangelho aos confins do mundo, promovendo não apenas a conversão, mas também a dignificação e educação dos povos contactados.

A ação missionária dos jesuítas destacou-se tanto pela sua ousadia geográfica como pela sofisticação do seu método. Um dos exemplos mais emblemáticos foi a missão de São Francisco Xavier, que levou a fé cristã a territórios tão diversos como a costa oriental de África, a Índia, o Sudeste Asiático, o Japão e a China. O seu trabalho, para além do esforço de evangelização, revelou uma notável sensibilidade à diversidade cultural, procurando dialogar com as tradições locais em vez de simplesmente as substituir.

Na América, o labor jesuíta foi igualmente marcante, sobretudo nas chamadas reduções jesuíticas do sul do Brasil, do Paraguai e da Argentina. Estas missões eram comunidades organizadas que visavam proteger os povos indígenas da exploração colonial, ao mesmo tempo que os instruíam na fé cristã e em saberes práticos. A experiência das reduções, única no seu género, tornou-se um símbolo do espírito missionário jesuíta e do seu compromisso com a justiça social e a dignidade humana.

As missões ad gentes da Companhia de Jesus refletem, assim, o seu duplo caráter: uma Ordem profundamente intelectual e, ao mesmo tempo, extraordinariamente ativa no terreno. Inspirados pelo lema Ad maiorem Dei gloriam (“Para maior glória de Deus”), os jesuítas procuraram constantemente adaptar-se às culturas locais, aprendendo línguas, respeitando costumes e integrando elementos culturais nos processos de evangelização.

A “Alegoria do Triunfo dos Jesuítas nas Quatro Partes do Mundo” é uma expressão visual deste ideal missionário: um testemunho artístico da ambição espiritual, da visão universal e do sucesso evangelizador da Companhia de Jesus no mundo moderno.

Significado:

Projeto teológico e evangélico:
A alegoria ilustra o compromisso da Companhia de Jesus com a evangelização dos povos, promovendo uma síntese entre a fé cristã e as diversas culturas do mundo.

Visão universal:
A imagem transmite a visão da Companhia como uma entidade verdadeiramente global, com uma missão espiritual que se estende a todos os cantos do planeta.

Êxito missionário:
A representação do triunfo jesuíta nas quatro partes do mundo reforça a ideia do seu impacto positivo e do papel decisivo que desempenharam na difusão do cristianismo a nível mundial.

Do Triunfo à Dor: A tensão entre ideal e realidade na missão jesuíta

A pintura “Alegoria do Triunfo dos Jesuítas nas Quatro Partes do Mundo”, representa uma visão idealizada da missão global da Companhia de Jesus. Através de uma composição rica em simbolismo e teatralidade barroca, glorifica a presença jesuíta nos quatro continentes — Europa, Ásia, África e América — exaltando o sucesso evangelizador da Ordem, a sua universalidade e o papel civilizador da fé cristã. As figuras alegóricas dos continentes, acompanhadas por animais exóticos, trajes regionais e missionários ativos, constroem uma narrativa de conquista espiritual harmoniosa, ordeira e eficaz.

“Silence” (2016)

Em nítido contraste, o filme “Silêncio”, realizado por Martin Scorsese, oferece um retrato cru e profundamente humano da missão jesuíta no Japão do século XVII, onde a propagação da fé cristã se confronta com a perseguição violenta, o sofrimento e a aparente ausência de Deus. Em vez de vitória, Silêncio mostra a vulnerabilidade da missão: a dúvida, a dor, o martírio e até a apostasia como resultado de uma evangelização que colide com contextos culturais e políticos hostis. O missionário, longe de ser uma figura triunfante, surge como um homem dilacerado entre a fidelidade religiosa e a compaixão pelas vítimas do seu ideal.

A alegoria pictórica transmite uma imagem triunfalista, moldada pelo espírito pós-tridentino e pelo imaginário da Contrarreforma, onde a imagem é usada como ferramenta doutrinária para reforçar a autoridade e o alcance da Igreja. Já Silêncio questiona esse mesmo ideal, desvendando a dimensão trágica da missão ad gentes, onde a fé, longe de converter de forma gloriosa, é frequentemente silenciada pelo sofrimento humano e pela repressão.

Este contraste revela duas faces da mesma história:
– Por um lado, o ideal teológico e evangélico da Companhia de Jesus, que via na missão um ato sublime de serviço a Deus e de aproximação ao Outro.
– Por outro, a realidade dramática e por vezes brutal da missão no terreno, onde a fidelidade ao evangelho exigia não raramente um alto preço pessoal.

Em suma, enquanto a Alegoria celebra a expansão e o sucesso da missão jesuíta, Silêncio recorda-nos que esse “triunfo” foi, muitas vezes, marcado por dor, dúvida e sacrifício silencioso. Juntas, estas duas obras — uma pintura e um filme — oferecem uma leitura complementar e crítica da história da evangelização: entre o esplendor da fé e o seu profundo custo humano.

– – –

Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco, Entre o Triunfo e o Silêncio: Imaginário e Realidade na Missão Jesuíta (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [30 de junho de 2025].

#franciscabrancoveiga #historia4all #franciscaveiga #alegoria #jesuitas #missoes #missionarios #companhiadejesus #silence #filme #MartinScorsese
@seguidores @destacar

RETRATO DE FERNÃO TELES DE MENESES, Fundador do Noviciado da Cotovia (MNHNC)

Fernão Teles de Meneses.
@franciscabrancoveiga
Autor (es)
 Desconhecido
Datação
c. 1630-40
Proveniência
Noviciado da Cotovia
Inscrição: Maiúsculas, no canto inferior esquerdo:
FERNAN TELLES / DE MENEZES / FVNDADOR DES / TA CAZA DA PRO / VAÇAM DA COMPª / DE IHS

Pintura de aparato de Fernão Teles de Meneses, fundador do Noviciado da Cotovia, datada do século XVII (c. 1630–1640), de autoria desconhecida, possivelmente de origem espanhola. Proveniente da antiga sacristia da igreja do noviciado, encontra-se atualmente à guarda do MUHNAC.

A composição apresenta uma forte carga iconográfica associada ao período filipino, evidenciada, entre outros elementos, pela armadura filipina que enverga. Fernão Teles de Meneses empunha um bastão de comando, símbolo da sua função de Governador das Índias, enquanto a luva destacada remete para o seu cargo de Governador do Algarve. Ao peito ostenta a Cruz de Cristo, insígnia honorífica [1].

O fundo da pintura é composto por um cenário de aparato, onde se destaca uma mesa coberta com um manto ricamente bordado e um reposteiro, possivelmente em veludo, com pregas pronunciadas e pendentes decorativos. A tela parece articular os dois mundos da figura retratada: o do guerreiro e o do político.

Do ponto de vista pictórico, observa-se um certo desequilíbrio na execução: embora a generalidade da composição revele uma pintura de grande qualidade, as feições da figura central apresentam menor rigor técnico, o que poderá indicar a intervenção de mais do que um artista. A obra caracteriza-se ainda por um claro-escuro marcadamente intenso.

A moldura não é original, sendo provavelmente do século XIX. A pintura apresenta repintes e evidências de restauro em zonas da tela anteriormente rasgadas.

No canto superior esquerdo, encontra-se um escudo partido com as armas de Fernão Teles de Meneses e de sua esposa, D. Maria de Noronha: o primeiro esquartelado com leões altivos e campo liso (Teles de Meneses); o segundo com as armas do Reino, relativas à família Faro [2]

A pintura foi restaurada por Francisco Bueto (?), em 30 de junho de 1878 (AHMUL, Conta_Jul_1878_doc59).

@franciscabrancoveiga
@franciscabrancoveiga

[1] Cruz de Cristo – História

Em todas as gravuras a imagem de Fernão Teles de Meneses exibe um medalhão da Ordem Honorífica que lhe foi atribuída e que lhe conferiu o grau de Comendador.

Origens na Ordem dos Templários

A Cruz de Cristo tem origem na Ordem dos Templários, uma ordem religioso-militar fundada no século XII com o propósito de proteger os peregrinos cristãos na Terra Santa.

Com a extinção da Ordem dos Templários pelo Papa Clemente V, em 1312, o rei D. Dinis procurou garantir a continuidade dos bens e da missão dos Templários em Portugal. Para isso, solicitou ao Papa a criação de uma nova ordem.

Criação da Ordem de Cristo (1319)

Em 1319, o Papa João XXII autorizou oficialmente a fundação da Ordem de Cristo em Portugal.

Esta nova ordem:

  • Herdou os bens e propriedades dos Templários em território português.
  • Adoptou a cruz vermelha, que viria a ser conhecida como Cruz de Cristo, como símbolo.

A Cruz de Cristo e os Descobrimentos

Durante os séculos XV e XVI, a Cruz de Cristo tornou-se um símbolo fortemente associado aos Descobrimentos Portugueses.

  • Era pintada nas velas das naus e caravelas, como as de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral.
  • Representava a fé cristã, o poder da Coroa Portuguesa e a missão evangelizadora das explorações ultramarinas.

Da Ordem Religiosa à Ordem Honorífica

Com o passar do tempo, a Ordem de Cristo ficou cada vez mais subordinada à autoridade real.

  • Em 1834, com a extinção das ordens religiosas em Portugal, a ordem foi secularizada.
  • Passou a ser usada como uma ordem honorífica do Estado, concedida a quem prestasse serviços relevantes à Nação.

Ordem Militar de Cristo (actualidade)

Hoje em dia, a Ordem Militar de Cristo é uma das Ordens Honoríficas Portuguesas, atribuída pelo Presidente da República.

É conferida a cidadãos (portugueses ou estrangeiros) que se tenham distinguido por:

  • Serviços relevantes prestados ao Estado Português.
  • Mérito nas áreas da administração pública, diplomacia, ou carreira militar.

Insígnia e Graus

Existem vários graus honoríficos, como: Cavaleiro, Oficial, Comendador, Grande-Oficial, e Grã-Cruz.

O símbolo da ordem é a Cruz de Cristo – uma cruz vermelha com braços em forma de flor-de-lis.

@franciscabrancoveiga
[2] O seu brasão apresenta-se dividido verticalmente em duas partes. No lado esquerdo, ocupando o primeiro e o quarto quartel, figura um leão rampante. No lado direito, sete torres quadradas de ouro, lavradas a negro e dispostas em 3, 2, 2, preenchem o campo. Ao centro, encontram-se cinco escudetes azuis dispostos em cruz, cada um carregado com cinco besantes de prata colocados em sautor, todos inseridos num contorno. O fundo vermelho desta secção simboliza a vitória, a fortaleza e a ousadia.

Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

In VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia 1619-1759. Ed. Autor, 2025.

VEIGA, Francisca Branco, RETRATO DE FERNÃO TELES DE MENESES, Fundador do Noviciado da Cotovia (MNHNC) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [28 de maio de 2025].

#franciscabrancoveiga #historia4all #franciscaveiga #fernaotelesdemeneses #noviciadodacotovia #MNHNC #livros #CompanhiaDeJesus #Fundador

Já conhece a história do Noviciado da Cotovia? Que aspetos da vida política/religiosa portuguesa do século XVII gostaria de explorar? Veja aqui 👇

Noviciado da Cotovia 1619-1759O Primeiro Noviciado da Companhia de Jesus na Província Portuguesa

Uma pesquisa apaixonada que convida a entrar no mundo do primeiro noviciado da Companhia de Jesus em Portugal.

Situado no local onde hoje se encontra o Museu Nacional de História Natural e da Ciência, este noviciado teve um papel decisivo na formação religiosa e académica jesuíta entre os séculos XVII e XVIII. Através do estudo do espólio preservado e das fontes históricas associadas, procurei reconstruir o passado deste edifício e da sua comunidade, explorando também o papel da Arte Sacra, tão presente na sua igreja e nos seus espaços.

Este trabalho oferece uma visão integrada da história, arquitetura, ensino e arte no Noviciado da Cotovia, inserindo as suas peças no contexto artístico da época e valorizando a memória cultural deste património muitas vezes esquecido.

Depois de anos de investigação apaixonada, sinto-me honrada por poder partilhar esta obra, na esperança de que proporcione uma leitura rica e envolvente a todos os que se interessam pela história de Portugal, pela arte religiosa e pelo património jesuíta.

Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco, Noviciado da Cotovia 1619-1759 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [24 de Março de 2025].

O livro está disponível para aquisição em formato físico na Amazon, e convido todos a conhecerem esta parte fascinante da nossa história.

Link para o livro na Amazon

#franciscabrancoveiga #historia4all #franciscaveiga #noviciadodacotovia #MNHNC #CompanhiaDeJesus #joseveiga
@seguidores @destacar 

Sala «das esferas» do Colégio de Santo Antão-o-Novo (atual Hospital de S. José)

Colégio da Companhia de Jesus

Cenas alegóricas alusivas às disciplinas que eram ensinadas no Colégio de Santo Antão. Sala «das Esferas». Atual Salão Nobre do Hospital de São José.
Fotografias: @franciscabrancoveiga

No Colégio de Santo Antão-o-Novo, em Lisboa, funcionou desde finais do século XVI até ao século XVIII uma Aula de Esfera pública, uma das mais relevantes instituições de ensino científico da época em Portugal.

Esta designação derivava dos tratados sobre “a esfera”, que tratavam dos princípios da cosmografia, fundamentais para a formação dos navegadores e estudiosos da época. A Aula de Esfera fazia parte do currículo jesuíta, que desempenhava um papel central na educação científica e na formação de elites portuguesas, em especial nos domínios da matemática aplicada à navegação, cartografia e astronomia.

Disciplinas ensinadas na Aula da Esfera

Arte de Navegar – Domínio dos métodos e técnicas de navegação marítima, com recurso a instrumentos náuticos como o astrolábio, o quadrante e a balestilha, essenciais para a determinação da posição em alto mar.

Geografia e Hidrografia – Estudo e descrição dos continentes, oceanos e rotas marítimas, com particular enfoque nas possessões ultramarinas portuguesas e nas suas vias de acesso.

Cosmografia, construção e uso de globos – Conhecimentos sobre a forma e estrutura da Terra, a representação cartográfica do mundo conhecido e a construção de instrumentos globulares de apoio à navegação.

Astrologia Judiciária e Prática – Análise da influência dos astros sobre os fenómenos terrestres e sua aplicação ao planeamento de expedições e à navegação.

Geometria – Base indispensável para os alunos com vocação militar, permitindo o domínio da engenharia, da arquitetura defensiva e da balística.

Astronomia – Estudo sistemático do movimento dos corpos celestes e da sua aplicação à navegação astronómica e à determinação de coordenadas geográficas.

Matemática aplicada – Cálculo de latitudes, longitudes e projeções cartográficas, com aplicação direta à cartografia e à navegação de longo curso.

Física e Mecânica – Princípios fundamentais para a compreensão da balística, do funcionamento de máquinas e da conceção de instrumentos científicos.

Os alunos da Aula de Esfera pertenciam a três grandes grupos:

A Aula da Esfera não se destinava a um público homogéneo. Os seus alunos eram recrutados em função de objetivos distintos, mas convergentes no quadro do projeto expansionista português, e podiam ser agrupados em três grandes perfis.

Especialistas em navegação e cartografia
O primeiro grupo era constituído por jovens com vocação técnica, destinados a servir a Coroa portuguesa na exploração e administração das possessões ultramarinas. A estes futuros pilotos, cartógrafos e cosmógrafos exigia-se um domínio rigoroso da astronomia, da matemática aplicada e da arte de navegar. Eram eles que, munidos de astrolábios e quadrantes, garantiam a segurança das rotas marítimas e a precisão dos mapas que iam desenhando o mundo conhecido.

Jovens nobres com aspirações militares
O segundo grupo era composto por filhos de famílias nobres com ambições na carreira militar e nas conquistas coloniais. Para estes, a Aula da Esfera oferecia uma formação sólida em geometria, balística e engenharia militar — saberes indispensáveis a quem aspirava comandar fortalezas, dirigir operações militares ou administrar territórios em nome da Coroa. A ciência era, para eles, um instrumento de poder.

Missionários jesuítas
O terceiro grupo distinguia-se dos anteriores pela natureza da sua missão. Os missionários que partiam para os territórios ultramarinos — do Brasil ao Japão, de Angola à Índia — necessitavam de uma formação científica sólida para estabelecer contacto com civilizações estrangeiras, muitas delas com tradições astronómicas e matemáticas próprias e sofisticadas. Conhecer o céu era, para estes homens, não apenas uma ferramenta de navegação, mas também uma ponte de diálogo com os povos que encontravam.

A Aula de Esfera do Colégio de Santo Antão desempenhou um papel central na cultura científica portuguesa do século XVII. Era a única instituição em Portugal onde se ensinavam ciências ligadas à Matemática com um caráter tão prático e aplicado. O seu ensino estava diretamente relacionado com os interesses expansionistas da Coroa e com a necessidade de manter a liderança portuguesa na navegação e na exploração marítima.

Muitos dos homens que se distinguiram na cartografia, na astronomia e na administração dos territórios ultramarinos passaram por esta instituição. Lisboa era, à época, um ponto de encontro para intelectuais e cientistas europeus a caminho da Ásia e das Américas, e os mais preparados entre eles contribuíam para o ensino na Aula de Esfera, introduzindo os mais recentes avanços científicos.

Professores notáveis da Aula de Esfera:

A qualidade do ensino ministrado na Aula da Esfera ficou em grande medida a dever-se ao perfil excecional dos seus docentes. Muitos eram jesuítas de projeção europeia, atraídos a Lisboa pela centralidade de Portugal nas rotas científicas e comerciais do mundo quinhentista e seiscentista.

Giovanni Paolo Lembo – Astrónomo jesuíta italiano de reconhecido mérito, Lembo distinguiu-se não apenas pelo ensino teórico mas pelo contributo prático na conceção e construção de instrumentos de observação astronómica, aproximando os alunos da ciência experimental.

Cristóvão Galo – Matemático de formação rigorosa, dedicou o seu trabalho ao estudo da cartografia e da navegação, domínios em que a precisão matemática era condição de sobrevivência em alto mar.

Simão Fallónio – Especialista em astronomia e geografia, contribuiu para a articulação entre o conhecimento celeste e a descrição do mundo terrestre, essencial à formação dos navegadores.

Valentim Estancel – Professor de matemática e cosmografia, Estancel representava a tradição jesuíta de unir o rigor científico à missão pedagógica, formando alunos capazes de compreender a estrutura do universo e a sua aplicação prática.

Inácio Vieira – Destacado estudioso da astronomia e dos seus usos na navegação, Vieira foi uma figura de referência na transmissão dos conhecimentos astronómicos aplicados às grandes viagens marítimas.

Francisco da Costa – Mestre em astrologia e cosmografia, Costa integrava no seu ensino tanto a dimensão científica como a tradição interpretativa dos astros, num tempo em que as fronteiras entre astronomia e astrologia ainda não estavam claramente definidas.

João Delgado – Professor de geometria e balística, Delgado respondia à necessidade crescente de formar militares tecnicamente preparados, capazes de aplicar os princípios matemáticos à guerra e à engenharia.

Cristóvão Griemberger – Astrónomo e matemático de reputação europeia, Griemberger trouxe à Aula da Esfera os mais recentes debates científicos do continente, contribuindo para manter Lisboa ligada à vanguarda do pensamento astronómico da época.

Francisco Machado – Cartógrafo e especialista na construção de globos, Machado dominava a arte de traduzir o mundo em objeto — transformando o conhecimento geográfico em instrumentos tangíveis de navegação e ensino.

Sebastião Dias Cristóvão Galo – Matemático e estudioso da arte de navegar, a sua formação combinava o rigor do cálculo com o conhecimento prático das rotas e técnicas de navegação marítima.

Inácio Stafford – Especialista em astrologia prática e judiciária, Stafford ensinava a leitura e interpretação dos astros com aplicação direta ao planeamento de expedições e à tomada de decisões em contexto marítimo e militar.

Luís Gonzaga – Professor de física e mecânica aplicada à navegação, Gonzaga introduzia os alunos nos princípios do funcionamento das máquinas e instrumentos científicos, saberes indispensáveis a bordo dos navios portugueses.

A Sala das Esferas — memória viva de uma aula extraordinária

O atual Salão Nobre do Hospital de São José, em Lisboa, guarda nas suas paredes muito mais do que decoração. Conhecido como Sala das Esferas, este espaço foi a antiga aula magna do Colégio de Santo Antão-o-Novo — o coração intelectual e científico da instituição jesuíta que durante dois séculos formou os homens que navegaram, cartografaram e administraram o império português.

A sala mantém hoje uma decoração notável: oito painéis de azulejos em azul e branco, executados com invulgar qualidade artística, representando cenas alegóricas das disciplinas que ali se ensinavam. Cada painel é, em si mesmo, um documento histórico — uma síntese visual do programa científico da Aula da Esfera e do universo intelectual que a animava.

As disciplinas representadas — Óptica, Geografia, Geometria, Balística, Astronomia, Mecânica, Navegação e Cartografia — não foram escolhidas ao acaso. Formam um retrato coerente de uma instituição que unia a contemplação do céu à conquista do mar, o rigor matemático à utilidade prática, a ciência pura ao serviço do império.

Hoje, neste mesmo espaço por onde médicos e enfermeiros passam diariamente, as figuras dos azulejos continuam a olhar em silêncio para quem cruza a sala — astrónomos com os seus instrumentos, geógrafos com os seus mapas, navegadores com os seus globos. São a memória persistente de um tempo em que Lisboa era, verdadeiramente, o centro do mundo conhecido.

A Sala das Esferas é, por isso, muito mais do que um salão nobre. É um arquivo em azulejo. Um monumento à curiosidade humana. E uma homenagem silenciosa a todos os que, entre estas paredes, aprenderam a perguntar, a medir e a descobrir.

Colégio de Santo Antão-o-Velho (Coleginho),
Mouraria, Lisboa
Colégio de Santo Antão-o-Novo em 1836, em desenho de Luís Gonzaga Pereira

Considerações Finais

A Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão-o-Novo representa um dos episódios mais significativos — e porventura mais subvalorizados — da história da ciência e da educação em Portugal. Nascida no contexto da expansão marítima e sustentada pelo projeto pedagógico jesuíta, esta instituição soube responder, com notável lucidez, às exigências de um país que governava um império disperso por quatro continentes.

O que a distinguia das restantes instituições de ensino da época não era apenas o conteúdo do seu currículo, mas a sua filosofia de fundo: a convicção de que o conhecimento científico devia ser rigoroso, prático e útil. Numa Europa ainda dominada pelo escolasticismo, a Aula da Esfera ensinava a observar, a calcular e a questionar — antecipando, em muitos aspectos, os princípios que viriam a definir a ciência moderna.

O seu corpo docente, recrutado entre os mais destacados astrónomos, matemáticos e cartógrafos da Europa, assegurou que Lisboa permanecesse ligada às principais correntes do pensamento científico continental, num período em que o conhecimento circulava, sobretudo, através das redes da Companhia de Jesus.

O legado desta instituição não se esgota, porém, nos tratados publicados ou nas rotas traçadas pelos seus alunos. Sobrevive, de forma tangível e serena, nos oito painéis de azulejos da Sala das Esferas do Hospital de São José — um testemunho iconográfico de rara beleza e valor histórico, que continua a recordar, a todos os que por ali passam, que naquele lugar se aprendeu a medir o mundo.

Estudar a Aula da Esfera é, em última análise, compreender melhor o Portugal que foi ao mundo — e perceber que por detrás das grandes viagens e das grandes descobertas esteve sempre, em silêncio, o trabalho paciente de quem ensinou e de quem aprendeu.

Por detrás de cada navio que partiu, havia um homem que aprendeu a ler o céu.

Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco, Sala «das esferas» do Colégio de Santo Antão-o-Novo (atual Hospital de S. José) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [17 de Fevereiro de 2025].

#colegiodesantoantao#coleginho #CompanhiaDeJesus #hospitaldesaojose #franciscabrancoveiga #historia4all #franciscaveiga #auladaesfera · #colégiodesantoantão · #HistóriaDaCiência · #Educaçãojesuíta · #descobertasportuguesas · #ciêncianáutica · #cartografiaportuguesa · #astronomiaportuguesa · #saladasesferas · #patrimóniolisboa · #HistóriaDePortugal · #SéculoXVI · #séculoXVII · #Jesuítas · #navegação · #cosmografia · #CiênciaEHistória · #lisboaantiga

@destacar @seguidores

Marcos e Curiosidades do Forte de São Julião da Barra, em Oeiras

Planta do Forte de São Julião da Barra
Século XVI (A.)

O Forte de São Julião da Barra, localizado em Oeiras, é uma das mais emblemáticas fortificações costeiras de Portugal, com uma rica história que atravessa séculos e reflete momentos cruciais da política, religião e defesa do país. Inicialmente construído para proteger a entrada do rio Tejo e salvaguardar a cidade de Lisboa de ameaças marítimas, o forte tornou-se, ao longo do tempo, muito mais do que um bastião militar. Palco de episódios marcantes, como a prisão de jesuítas durante as reformas do Marquês de Pombal e a execução do general Gomes Freire de Andrade em 1817, a fortaleza também foi cenário de tensão e transformação política, testemunhando mudanças ideológicas e sociais que moldaram o destino da nação.

Além do seu papel estratégico, o Forte de São Julião da Barra está repleto de curiosidades e detalhes históricos, como a sua relação simbólica com a Torre do Bugio e os relatos de antigos prisioneiros que vivenciaram o isolamento nas suas muralhas. Cada elemento do forte, desde as suas imponentes torres até os subterrâneos que outrora serviram de cárcere, carrega histórias que ilustram a importância deste monumento como um verdadeiro guardião da memória coletiva portuguesa.

Em setembro de 1758, todas as casas da Companhia em Lisboa foram cercadas pela tropa. Eram sete: a casa professa de S. Roque, fundada durante o governo de S. Francisco de Borja, 3.° Geral da Companhia; o colégio de Santo Antão; o colégio de S. Francisco Xavier; a casa do Noviciado da Cotovia, assim chamada devido ao nome da colina em que se encontrava situada, que foi depois colégio dos Nobres; o seminário irlandês de S. Patrício; a residência de S. Francisco de Borja, Procuradoria das províncias ultramarinas; e o noviciado de vocações para as missões de Goa, Japão e China, vulgarmente chamado de Arroios.

A 3 de Setembro de 1759 foi promulgada a “Lei dada para a proscrição, desnaturalização e expulsão dos regulares da Companhia de Jesus, nestes reinos e seus domínios”.  Simbolicamente decretada um ano após a tentativa de regicídio, a expulsão oficial dos jesuítas de Portugal culminou no embarque de cerca de 1100 membros da Companhia de Jesus na zona de Belém. Dali, partiram em direção aos Estados Pontifícios, encerrando um capítulo marcante de perseguição religiosa e política no país.

Alegoria à expulsão dos jesuítas
Autor Desconhecido; c. 1759; Museu da Cidade
A interpretação alegórica desta aguarela é evidenciada pelos elementos iconográficos que acompanham a figura central do padre jesuíta. A tocha acesa que inflama o globo terrestre, junto à mitra papal e à coroa real, simboliza a suposta afronta da Companhia de Jesus ao poder eclesiástico e ao poder monárquico. O livro fechado aos seus pés representa a interdição das atividades educativas da Ordem em Portugal, enquanto o saco de moedas de ouro alude aos bens da Companhia que foram confiscados pelo Estado. No fundo da composição, uma nau afastando-se ao largo simboliza a lei de 3 de setembro de 1759, que decretou a expulsão dos jesuítas do reino. Sobre a cena, um céu tormentoso lança um raio que atinge o rosto do clérigo, sublinhando a punição divina ou política atribuída à sua figura.

Em janeiro deu-se a prisão de dez dos principais membros da Companhia de Jesus. Entre eles estavam o Padre João Henriques, Provincial da Companhia de Jesus em Portugal; o Padre Gabriel Malagrida, missionário apostólico; o Padre José Moreira, confessor do Rei e da Rainha; o Padre Timóteo de Oliveira, confessor do Príncipe do Brasil e da Duquesa de Bragança; o Padre Jacinto da Costa, diretor espiritual do príncipe D. Pedro; o Padre Francisco Duarte, historiador da Província Portuguesa; o Padre Inácio Soares, professor de teologia no Colégio das Artes de Coimbra; o Padre João Alexandre, Procurador Geral da Província do Malabar; o Padre João de Matos, Procurador da Casa Professa; e o Padre José Perdigão, Procurador da Província Portuguesa. Estas prisões, feitas sob a acusação de graves crimes, perpetuaram-se na história como um dos momentos mais sombrios para a Companhia de Jesus em Portugal.

FORTE DE SÃO JULIÃO DA BARRA 1759

O nome do Forte de São Julião da Barra é frequentemente abreviado pelo povo para “São Gião”, uma forma mais popular e informal. A festividade em honra deste santo, que foi martirizado em Antioquia sob os imperadores Diocleciano e Maximiano, ocorre a 9 de janeiro. Nas correspondências dirigidas a esta fortaleza, é comum utilizar as designações “Torre” ou “Barra de São Gião”. A origem do nome remonta à imponente torre que integra o forte, onde, todas as noites, se acende um farol equipado com 25 luzes, servindo como guia para as naus que se aproximam da entrada do Tejo.

Planta dos cárceres de S. Julião da Barra, desenhada pelo P. Lourenço Kaulen.
Aqui chegou o P. Eckart em 1762 e ficou até março de l777. Anselmo Eckart, Memórias de um Jesuíta Prisioneiro de Pombal. Braga: Livraria A. I., 1987, p. 176ª; Do original autografo do P. Kaulen Relação de algumas cousas que succederão aos religiosos da Companhia de Jesus…, p. 15 B.

O período de detenção do padre jesuíta Anselmo Eckart na Torre de São Julião da Barra, entre 1762 e março de 1777, fornece um valioso testemunho sobre a vida e as características das fortalezas que protegiam a entrada do Tejo no século XVIII. As suas Memórias de um Jesuíta Prisioneiro de Pombal não só relatam a experiência pessoal de um religioso em tempos de perseguição, mas também oferecem um olhar detalhado sobre a organização militar e simbólica destas estruturas, como a Torre de São Lourenço, mais conhecida como Torre do Bugio.

O padre jesuíta Anselmo Eckart chegou à Torre de S. Julião em 1762 e ficou até Março de l777. Refere este em Memórias de um Jesuíta Prisioneiro de Pombal:

«Esta torre enfrenta uma outra que sobressai no meio do mar, chamada vulgarmente Torre do Bugio, ou do macaco por ser uma imitação da fortaleza de S. Julião. Macaco de imitação também, porque quando o forte de S. Julião dispara uma peça de artilharia logo a Torre do Bugio responde com outro tiro. É esta Torre dedicada a S. Lourenço, e celebra-lhe o dia da comemoração como sua festa principal. Está munida de doze grandes canhões a que vulgarmente chamam os doze Apóstolos. A guarnição é feita por soldados de S. Julião, que se rendem todos os meses»[1] .

Forte de São Lourenço do Bugio, também conhecido como Forte de São Lourenço da Cabeça Seca ou simplesmente Torre do Bugio.
Bugio visto do Forte de São Julião da Barra.

Fotografia @franciscabrancoveiga

O relato de Eckart destaca a relação simbólica e operacional entre o Forte de São Julião e a Torre do Bugio, refletindo o rigor defensivo e o valor estratégico destas edificações. A descrição minuciosa das tradições associadas às fortalezas, como a celebração do dia de São Lourenço e o uso dos “Doze Apóstolos”, revela não apenas a dimensão militar, mas também a interseção entre devoção religiosa e vida quotidiana na guarnição. Este testemunho constitui uma fonte histórica rica, ilustrando a realidade das fortificações costeiras portuguesas numa época de desafios internos e externos.

Segundo Eckart os jesuítas «foram conduzidos para a Torre de S. Julião, onde os sepultaram vivos nos subterrâneos que Pombal mandara cavar»[1].

FORTE DE SÃO JULIÃO DA BARRA 1817

Em maio de 1817, implicado e acusado de liderar uma conspiração, Gomes Freire de Andrade (Viena, 27 de janeiro de 1757 – Oeiras, Oeiras e São Julião da Barra, Forte de São Julião da Barra, 18 de outubro de 1817) foi detido, preso, tratado como um criminoso, condenado à morte e enforcado (embora tenha pedido para ser fuzilado), na manhã de 18 de outubro, no Forte de São Julião da Barra, em Oeiras, por crime de traição à Pátria. As suas cinzas foram lançadas ao mar.

Execução de Gomes Freire de Andrade

Com a expulsão dos franceses e a queda de Napoleão, a família real portuguesa permanecia no Brasil, enquanto os ingleses continuavam a exercer um domínio quase colonial sobre Portugal. Este controle humilhava os verdadeiros patriotas, que viam o país subordinado aos interesses britânicos. O descontentamento era generalizado: o povo revoltava-se porque grande parte dos rendimentos nacionais era enviada para o Rio de Janeiro, enquanto as classes mais instruídas ansiavam por mudanças, inspiradas pelas ideias liberais que já se espalhavam pela Europa. Um clima de impaciência e fervor revolucionário tomava conta dos corações patrióticos.

Neste cenário, Gomes Freire de Andrade, suspeito de conspirar contra o domínio britânico e o absolutismo monárquico, foi preso, junto a outros companheiros, em 25 de maio de 1817. Após um julgamento marcado por graves irregularidades e injustiças, o corajoso general foi condenado à morte. A sentença foi divulgada apenas dois dias após a sua execução, evidenciando o ódio de Beresford, que, numa última humilhação, negou a Gomes Freire um fuzilamento honrado, digno de um soldado, e ordenou que ele fosse enforcado, como se fosse um criminoso vulgar.

A execução ocorreu às 9 horas da manhã de 18 de outubro de 1817. O cenário era tanto trágico quanto emblemático: Gomes Freire, sereno e altivo, vestia uma alva, mantendo a compostura apesar do frio e das pedras que feriam os seus pés. A expressão cruel do carrasco contrastava com a dignidade do general. Após o enforcamento, o corpo de Gomes Freire foi incinerado numa pira de lenha, e os seus restos mortais, em um ato de desrespeito final, foram lançados ao mar. Este episódio ficou gravado na história como um dos mais sombrios atos de repressão contra os ideais de liberdade e justiça em Portugal.

Roque Gameiro, de parceria com Alberto de Sousa, participou na ilustração dos Quadros da História de Portugaleditada em 1917. 

Em memória de Gomes Freire de Andrade, executado em 1817, uma lápide e um silhar de azulejos com a sua efígie foram colocados sobre a porta da torre do Forte de S. Julião.

Fotografia @franciscabrancoveiga
Fotografia @franciscabrancoveiga
Fotografia @franciscabrancoveiga
Fotografia @franciscabrancoveiga
Fotografia @franciscabrancoveiga
Quarto/prisão onde esteve Gomes Freire de Andrade
Fotografia @franciscabrancoveiga
Quarto/prisão onde esteve Gomes Freire de Andrade
Fotografia @franciscabrancoveiga

FORTE DE SÃO JULIÃO DA BARRA 1834

Pela Portaria de 24 de maio de 1834, dirigida ao Corregedor de Coimbra, quatro dias antes da publicação do Decreto da extinção das Ordens religiosas, determinava Joaquim António de Aguiar que «d’ella saiam [os Jesuítas] immediatamente, dando-lhes itinerário», e no prazo mais curto possível se apresentassem na secretaria de estado, onde se providenciaria os meios para o seu embarque com destino ao exílio[2]. Tinha a Companhia de Jesus honras de perseguição em decreto especial.

Os Padres Jesuítas, que se encontravam em Coimbra e seguiam em direção a Lisboa, foram encaminhados para a Torre de São Julião da Barra, onde chegaram no dia 6 de junho do ano corrente. A decisão visava mantê-los sob custódia, protegendo-os de possíveis ataques populares, já que o clima ainda era tenso devido às recentes vitórias obtidas contra o Exército Miguelista.

Carta em Francês, que a bordo do navio e no dia da partida (7 de julho de 1834) dirigiu por despedida ao governador do Foret de S. Julião da Barra o P. Mallet, Superior da Missão portuguesa da Companhia de Jesus.

«A bordo em 7 de julho de 1834

Senhor Governador Chegou o dia em que devemos deixar este país agradável, onde não existem nem as prisões que não tenham os seus atrativos! Dentro de algumas horas voltaremos a ver, provavelmente nunca mais as veremos, as muralhas do Forte de S. Julião, […] Em nome de todos os meus colegas tenho a honra de estar, com a maior estima e eterna gratidão»[3].

In summa, o Forte de São Julião da Barra simboliza um espaço de grande significado histórico e político, servindo como palco de eventos marcantes que refletem as tensões e transformações de Portugal ao longo dos séculos. Desde a expulsão dos Jesuítas em 1759, uma medida que consolidou a autoridade do Marquês de Pombal e reafirmou o poder do Estado sobre a Igreja, até a execução de Gomes Freire de Andrade em 1817, um marco trágico da luta entre absolutismo e liberalismo, este forte tem sido testemunha silenciosa de perseguições e mudanças ideológicas.

A sua função como prisão e fortaleza militar, associada ao controle e à repressão, também se entrelaça com um simbolismo de resistência e memória, perpetuado por documentos, relatos e até homenagens póstumas, como a lápide dedicada a Gomes Freire.

Assim, o Forte de São Julião da Barra permanece não apenas como uma estrutura defensiva à entrada do Tejo, mas como um marco da história portuguesa, carregando em suas paredes os ecos das disputas políticas, das perseguições religiosas e dos anseios por liberdade e justiça.

XXXXXXXX

(A.) – CARITA, Rui; Cardoso, António Homem, O Escudo do Reino: A Fortaleza de S. Julião da Barra, Ministério da Defesa Nacional, 2007.

[1] In Anselmo Eckart, Memórias de um Jesuíta Prisioneiro de Pombal. Braga: Livraria A. I., 1987, pp. 183; 104.

[2] Portaria de 24 de maio de 1834, dirigida ao Corregedor de Coimbra, para proceder à imediata expulsão dos Jesuítas. ARQUIVO UNIVERSIDADE DE COIMBRA (AUC), Colégio das Artes, Relações de Livros existentes em antigo Cartório – tombos de bens, privilégios e doações do Património antigo e novo (dos extintos colégios da Companhia de Jesus). Inventário de Bulas, Alvarás, sentenças e outros títulos com remissão para as gavetas do Cartório, [Manuscrito].V. cx.; SILVA, Antonio Delgado da – Collecção da legislação Portugueza desde a ultima compilação das ordenações: Legislação de 1833 a 1834, vol. VIII, anno de 1834. Lisboa: Typ. Maigrense, 1835, p. 438; Chronica Constitucional de Lisboa, nº 124, de 27 de maio de 1834.

[3] Produções dos Padres Jesuitas durante o tempo q estivérao na Torre de Saõ Julião da Barra, anno 1834.

Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco, Marcos e Curiosidades do Forte de São Julião da Barra, em Oeiras (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [02 de Dezembro de 2024].

@franciscabrancoveiga #historia4all #franciscaveiga #fortedesaojuliaodabarra #CompanhiaDeJesus #gomesfreiredeandrade #curiosidadesdahistoriadeportugal #oeirasvalley

@seguidores


Fotografia @franciscabrancoveiga

Fotografia @franciscabrancoveiga

SIMÃO RODRIGUES (primeiro Provincial da Companhia de Jesus em Portugal)

N. 1510, Vouzela (Viseu), Portugal; M. 15 julho 1579, Lisboa, Portugal.

Cofundador da Companhia de Jesus, estando ao lado de Inácio de Loyola na criação desta Ordem, fundada em Paris em 1534.

P. Simão Rodrigues SJ
Inácio de Loyola e os primeiros companheiros

De família nobre, foi para a Universidade de Paris (1527) como bolseiro do rei D. João III. Em Paris ficou no colégio de Santa Bárbara, dirigida pelo português Diogo de Gouveia, o Velho. Estudou letras e entrou em 1532, no círculo de amigos de Inigo de Loyola, formando assim parte do núcleo inicial da Companhia de Jesus. Formado como Mestre em Artes (1536), e, em seguida, estudou Teologia.

Collège Sainte-Barbe, 4 rue Valette, Paris 

Foi ordenado sacerdote em 24 de Junho de 1537, em Veneza.

Diogo de Gouveia, ciente dos projetos e frutos apostólicos de Inácio e dos seus companheiros, propôs (1538) a D. João III de Portugal que os convidasse para irem à Índia.

Diogo de Gouveia (c. 1471, Beja – 8 de dezembro de 1557, Lisboa), conhecido como Diogo de Gouveia, o Velho para o distinguir do seu sobrinho Diogo Gouveia, o moço, que foi embaixador de D. João III junto do Concílio de Trento.

D. João III confiou este assunto ao seu embaixador em Roma, D. Pedro de Mascarenhas, e Inácio de Loyola designou Francisco Javier e Simão Rodrigues para esta missão. Vendo os frutos que produziam em Lisboa, o Rei decidiu que Francisco de Javier seguiria para a Índia e que Simão Rodrigues ficaria em Portugal com a tarefa de recrutar missionários para irem para o exterior.

Em janeiro de 1542, o rei doou o mosteiro de Santo Antão-o-Velho (Mouraria, Lisboa), que foi a primeira casa que a Companhia de Jesus teve no mundo e também o seu primeiro colégio em Portugal.

Colégio de Santo Antão-o-Velho | Colégio de Santo Agostinho | Exterior | Fachada poente | Eduardo Portugal s.d. © CML | DMC | Arquivo Municipal de Lisboa
Colégio de Santo Antão-o-Velho | Colégio de Santo Agostinho | Museu de Lisboa | Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755 | Pormenor | José Vicente

Em julho de 1542, Simão Rodrigues fundou o Colégio de Jesus, em Coimbra (mais tarde daria origem ao imponente  Real Colégio das Artes e Humanidades), e preparou a fundação do colégio do Espírito Santo, em Évora. Os três colégios já contavam com 240 a 250 jesuítas em 1551.

Primeira pedra do Colégio de Jesus (Coutinho, J.E.R. 2003. Sé Nova de Coimbra. Colégio das Onze Mil Virgens.Igreja de Jesuítas. Coimbra, Paróquia da Sé Nova, pg. 34)
Complexo jesuítico: à esquerda o Colégio de Jesus, à direita o Colégio das Artes e, atrás deste, o refeitório com ligação direta aos dois colégios
In Imago Collegii, in Societate Iesu omnium primi, á Ioanne III Lusitaniae Rege Conimbricae fundati / Carolus Grandi scul Romae 1732.
Lisboa, Bibliioteca Nacional.

Simão Rodrigues promoveu uma expansão notável das missões no exterior.


A partir de 1545 enviou sucessivas expedições ao Oriente, com um total de 35 missionários. Juntamente com D. João III e Inácio de Loyola, participou nas primeiras negociações sobre a missão etíope; enviou quatro companheiros ao Congo para ali fundar a missão em 1547; três para Ceuta e Tetuão para serem dedicados aos cativos em 1548; Manuel da Nóbrega e cinco companheiros, para fundar a missão brasileira em 1549, e uma segunda expedição de quatro missionários em 1553. Promoveu também missões populares nas diferentes regiões de Portugal.

O Rei tinha tanta estima por Rodrigues que o nomeou preceptor do filho em 1545 (conseguiu afastar Damião de Góis da função de mestre de letras do mesmo príncipe). E em 25 de outubro de 1546, foi nomeado Provincial da Companhia de Jesus em Portugal.

Durante os doze anos do seu governo, a Companhia de Jesus cresceu muito rapidamente em Portugal.

Simão Rodrigues foi acusado de ser muito tendencioso no seu governo, sendo, entre outras acusações, acusado de falhas de obediência. Em 1552, foi deposto do cargo de Provincial, o que agravou ainda mais a situação.

Embora resistisse em partir para Espanha, como Provincial de Aragão, tendo o rei o advertido a obedecer. Visitou as casas de Saragoça, Barcelona, ​​​​Valência e Gandía.
Com o agravamento da sua saúde, regressou sem autorização a Portugal em 1553. Considerando a sua presença prejudicial, o Provincial Diego Mirón ordenou-lhe que abandonasse o reino e fosse para Roma. Pouco depois da sua chegada, Rodrigues começou a queixar-se de alguns jesuítas em Portugal, que lhe tinham feito acusações contra ele e ao seu governo.

Rodrigues propôs a Ignacio de Loyola que submetesse o seu caso a julgamento, pois em sua consciência se considerava inocente daquilo de que era acusado. O julgamento durou pouco mais de dois meses e a sentença foi pronunciada (7 de fevereiro de 1554).

Os juízes enumerando os seus erros, impuseram-lhe duras penas, que Rodrigues aceitou humildemente. Ignacio de Loyola retirou-lhe as penas e apenas permitiu que ele não voltasse a Portugal. No entanto, Rodrigues procurou mais tarde que o Papa, como Superior supremo da Companhia de Jesus, confiasse a sua causa ao cardeal protetor para regressar com honra a Portugal. Rodrigues passou durante algum tempo triste no norte da Itália, com a memória da sua reputação perdida.

O Geral Diego Laínez mostrou-se inclinado a satisfazer o desejo de Rodrigues de regressar a Portugal, para o qual escreveu (1564) aos Padres Portugueses solicitando a sua opinião, mas ainda não foi considerado adequado. Simão Rodrigues foi para a Espanha e fixou residência em Andaluzia a partir de 1564 e em Toledo a partir de 1570, já muito melhor espiritualmente.

Por sua vez, o Padre Geral Borja, como prova de confiança (1 de janeiro de 1572) tomou medidas para preparar o regresso de Rodrigues à sua terra natal, mas Borja morreu (3 de setembro , 1572) sem tê-lo concluído. O seu sucessor Everardo Mercúriano executou o projeto de Borja e permitiu-lhe (29 de julho de 1573) o seu regresso a Portugal.
Após vinte anos de ausência, Rodrigues chegou ao Colégio de Coimbra, em 24 de setembro de 1573. Informou o Geral sobre a situação da Província e sugeriu os meios para resolver a crise. Rodrigues continuou interessado no bem da província. Apesar de ter recusado o cargo de Superior, continuou a contribuir com os seus conselhos para o bom andamento das comunidades.

Viveu os seus últimos anos na Casa Professa de São Roque, de Lisboa, onde morreu a 15 de junho de 1579, tendo ficado sepultado na igreja de S. Roque.

Uma inscrição junto à entrada da Sacristia da Igreja de S. Roque assinala, ainda hoje, o local onde repousam os seus restos mortais.

Sepultura do P. Simão Rodrigues, fundador da Companhia de Jesus em Portugal.
Na parede do cruzeiro da Igreja de S. Roque de Lisboa, do lado do Evangelho e à esquerda da porta de comunicação com o corredor da Sacristia, está um painel cuja moldura é de mármore negro, a faixa de mármore amarelo e a tabela de mármore de Carrara. @franciscabrancoveiga

O epitáfio do padre Simão Rodrigues foi mandado gravar na tabela do painel, sendo as letras douradas e o seu teor o seguinte:

OSSA P. M. SIMONIS
RODERICI PIAE RECORDA-
TIONIS, QUI PROVINCI-
AM HANC LUSITA-
NAM FUNDAVIT, PRIMUS
IN EA PROVINCIALIS,
UNUS E NOVEM
B. P. N. IGNATII SOCIIS.
OBIIT IN HAC DOMO
XV. JULII MDLXXIX

Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco, SIMÃO RODRIGUES (primeiro Provincial da Companhia de Jesus em Portugal)(blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [15 de Setembro de 2024].

@franciscabrancoveiga @destacar

A ligação da Companhia de Jesus a Santo António

Visão de Santo António
de Anthony Van Dyck

«Visto ser Santo António, nosso natural, seu dia de guarda em todo o Reino, no seu dia aja em nossa igreja pregação, e seja festejado nela com toda a adoração».

Pe. António de Sousa S.J., Assento da Visita ao Colégio de Jesus de Bragança, 1641.

Fachada do Colégio dos Nobres 
(Mnémosine Lusitana/Jornal de Bellas Artes, nº26, 1817)

Na Quinta do Monte Olivete foi iniciado o primeiro Noviciado da Província Portuguesa, sob o título de Nossa Senhora da Assunção, no dia 18 de Dezembro de 1597, festa de Nossa Senhora do Ó.
Verifiquei que existiam diversas conotações do Noviciado da Cotovia com Santo António, pois teve como primeiro Reitor o Pe António de Mascarenhas (ainda no período em que o edifício se encontrava em construção e os jesuítas que o iriam habitar se encontravam em Campolide) e como primeiro noviço, António de Azeredo, um fidalgo que lutou em Alcácer-Quibir.
A inauguração do Noviciado coincidiu com o dia 13 de Junho de 1619, festa de Santo António.
Após inauguração definitiva, que se fez na Capela de Santo António, a nomeação do primeiro Reitor recaiu na pessoa do Pe António de Morais que entrou na Companhia de Jesus em 1586 e tinha desempenhado o cargo de Mestre de Novicos em Coimbra.
À inauguração presidiu o Provincial, Pe António de Mascarenhas, que tinha ocupado o lugar de primeiro Reitor na época de Campolide.
O padre e jesuíta António Franco narra, em pormenor, a cerimónia da inauguração:

«Tudo foy pondo em execução o irmão Lombardo, e no anno de mil seiscentos, e dezanove tinha acomodado a caza em forma, que pudessem nella entrar a viver os Noviços. Por tanto se dispoz a nova dedicação em dia de Sancto Antonio do dito anno. Neste dia estava bem armada a Capella interior da Caza nos corredores de sima. Nella se armou altar com imagem de culto do glorioso Sancto Antonio. Tinhão vindo de Coimbra nove Irmãos Noviços, e seis de Evora, com os quais se deu principio ao Noviciado».

Imago Collegii, in Societate Iesu omnium primi, á Ioanne III
Lusitaniae Rege Conimbricae fundati,
Igreja e colégios de Jesus e das Artes
Carlo Grandi, Roma,
Gravura (água-forte),
1732: BNL
Pe. Simão Rodrigues

A 13 de Junho de 1542, dia de Santo António de Lisboa, como se lê nas crónicas da Companhia de Jesus, chegava a caravana apostólica a Coimbra, chefiada pelo Mestre Simão Rodrigues. Nas crónicas da Companhia lê-se o seguinte:
«Entrou o Pe Mestre Simão com esta sua nova e religiasa colonia em Coimbra, dia de S. Antonio nosso Português (que também foy outro bom prognostico) a quem não só Lisboa, patria sua, mas todo Portugal, e em especial a cidade de Coimbra festeja com grande devoçam penhorada com honra dobrada, por lhe ter este glorioso Lisbonês, com sua sancta presenca, consagrados dous mosteiros da mesma cidade…».*

*Historia de la fundacion del collegio della Compania de lesus de Coimbra ate 1575, Biblioteca Pública de Évora.

Colégio do Santíssimo Nome de Jesus, estabelecido em 1542 pela Companhia de Jesus, foi o primeiro Colégio da Ordem em Portugal . A sua igreja (Sé Nova de Coimbra) também tem uma capela dedicada a Santo António, mandada erigir no dia 15 outubro de 1633.

Sé Nova de Coimbra – Interior: capela lateral de Santo António.
In https://servicos.dgpc.gov.pt/pesquisapatrimonioimovel/detalhes.php?code=70315

A própria Sé Velha pela qual os jesuítas passaram quando chegaram a Coimbra também tem uma capela dedicada a Santo António.

Capela de Santo António, na Sé Velha.
In https://pbase.com/diasdosreis/image/165164897

In https://museusaoroque.scml.pt/museu-igreja/capela-de-santo-antonio/

Na imagem podemos ver a Capela de Santo António na Igreja Jesuíta de São Roque, Lisboa. A existência duma capela dedicada a Santo António nesta igreja vem confirmar a devoção que a Companhia de Jesus professava a este Santo. Foi instituída por Pedro Machado de Brito que nomeou a Mesa da Misericórdia de Lisboa como testamentária, com o encargo de mandar construir uma capela para sua sepultura e dos seus descendentes.
Nas paredes laterais da capela destacam-se duas grandes telas executadas por Vieira Lusitano, por volta de 1720, com cenas alusivas ao célebre milagre da “Pregação aos peixes” e à “Visão de Santo António”. Em 1693, floresceu a Congregacão de Santo António que teve como principal objetivo a promoção do culto ao Santo.

Estes são alguns exemplos, mas o testemunho desta grande devoção da Companhia de Jesus a Santo António pode ser visto em outras igreja que pertenceram a esta Ordem religiosa, são os casos da capela na igreja do Espirito Santo de Évora, da capela da igreja do colégio de São Tiago de Faro ou da capela da igreja do colégio de São Tiago de Elvas.

Imagem de destaque:

Visão de Santo António
de Anthony Van Dyck

Como referir este artigo:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco (2024), A ligação da Companhia de Jesus a Santo António (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [14 de Junho de 2024].

#companiadejesus #santoantoniodepadua #santoantoniodelisboa #franciscabrancoveiga #franciscaveiga #historia4all #igrejadesaoroque #senovadecoimbra #noviciadodacotovia
@destacar

1814, MÉMOIRES DO CONSERVADORISMO EUROPEU NUMA EUROPA EM TRANSIÇÃO PARA O LIBERALISMO

Resumo

Este artigo tem como objetivo analisar o processo histórico legitimista e contrarrevolucionário estabelecido em 1814, após as reformas expansionistas e liberais implementadas por Napoleão Bonaparte, mais concretamente a defesa do princípio da legitimação reclamada pelos filósofos conservadores e defensores do tradicionalismo como Edmund Burke, Barruel, Louis Bonald ou Joseph de Maistre e a Companhia de Jesus, como a “alma” da contrarrevolução.

Foi seguida uma metodologia cronológico-evolutiva na reconstrução do período histórico em análise, seguindo os estudos de historiadores de relevo para a história política e religiosa.

O “novo” projeto europeu saído do Congresso de Viena serviu como instrumento factual na afirmação dos ideais tradicionalistas e conservadores, mas «as velhas casas dinásticas», tinham o destino traçado perante os ideais do liberalismo.

Palavras-chave: Congresso de Viena; conservadorismo; filosofia contrarrevolucionária; Companhia de Jesus; D. João VI.

Abstract

This article aims to analyze the legitimist and counter-revolutionary historical process established in 1814, after the expansionist and liberal reforms implemented by Napoleon Bonaparte, more specifically the defense of the principle of legitimation claimed by conservative philosophers and defenders of traditionalism such as Edmund Burke, Barruel, Louis Bonald or Joseph de Maistre and the Society of Jesus, as the “soul” of the counterrevolution.

A chronological-evolutionary methodology was followed in the reconstruction of the historical period under analysis, following the studies of important historians in political and religious history.

The “new” European project that emerged from the Congress of Vienna served as a factual instrument in the affirmation of traditionalist and conservative ideals, but “the old dynastic houses” had their destiny set before the ideals of liberalism.

INTRODUÇÃO

Le congrès de Vienne.
ISABEY Jean-Baptiste (1767 – 1855). Musée du Louvre

Após Waterloo as monarquias conservadoras depostas/exiladas voltam a subir ao trono, pretendendo-se o restabelecimento do princípio da legitimidade monárquica. O programa de uma Santa Aliança como mecanismo regulador terá então como objetivo a contenção de novos focos revolucionários.

O novo concerto europeu reagia contra as novas doutrinas iluministas (o cientificismo, o racionalismo, o ateísmo ou o progressismo que se instalaram na doutrina do iluminismo), que pretendiam derrubar as instituições tradicionais do Antigo Regime. À crítica à política racional aliam o elogio sistemático da tradição e exaltação do passado onde a religião e a Igreja tradicionais eram vistas como garantia da conservação política e social.

Ao cabo de mais de quatro décadas de supressão, em 1814 «O mundo católico exige com unanimidade o restabelecimento da Companhia de Jesus». Assim sustentava o Papa Pio VII, por meio da Bula Pontifícia Sollicitudo omnium Ecclesiarum, lida no dia 7 de agosto de 1814 na Igreja de Gesù, restabelecendo a Companhia no mundo.

Embora renascida num contexto político diferente e numa sociedade em processo de secularização, vai servir o ideário restaurador da Santa Aliança. Tendo ainda em mente o antigo modelo de cristandade e de sociedade, a Companhia de Jesus manteve-se substancialmente a mesma tanto na sua espiritualidade como na sua idealização face ao poder centralizador. Em Portugal, a memória negativa dos Jesuítas persistia no governo de D. João VI, encontrando-se enraizada na elite intelectual.

As explicações metafísicas do mundo já não se coadunavam com o mundo da experiência e com a consciência crescente do condicionalismo histórico do respetivo momento.

Este artigo explorará e examinará o processo histórico e o movimento ideológico tradicionalista, adotado após as reformas expansionistas e liberais implementadas por Napoleão Bonaparte.

A literatura que se seguiu dos diversos conservadores e defensores do tradicionalismo como Edmund Burke, Barruel, Louis Bonald ou Joseph de Maistre,  serviu de sustentação na clarificação ideológica assumida na restauração das monarquias, neste período de paz relativa, contra os «embriões revolucionários que existem mais ou menos em todos os Estados da Europa» (Hobsbawm  2001; Rémond 1994; Baumer 1990).

Depois de fazer um levantamento bibliográfico do tema sentimos ser pertinente efetuar uma nova recolha de informação que torne evidente as palavras-chave aqui destacadas: Congresso de Viena; conservadorismo; filosofia contrarrevolucionária; Companhia de Jesus; D. João VI., com uma nova perspetiva de análise que o tema merece, tendo como enfoque principal a luta contra a reivindicação das liberdades, na defesa dos ideais conservadores e de manutenção do status quo que a Igreja Católica Romana estatuíra.

Podendo delimitar o estudo do objeto de análise do presente artigo, no contexto europeu, no período representativo do Congresso de Viena, o caso em concreto do corpus deste artigo focar-se-há na génese e maturação do tradicionalismo filosófico-político, doutrinário e contrarrevolucionário e na restauração da Companhia de Jesus como representantes da “alma” da contrarrevolução.

Como orientação na organização da nossa análise histórica, optámos por uma abordagem interpretativa e demonstrativa do processo histórico e da causalidade desse processo na construção do projeto europeu,, sob a égide de monarquias conservadoras e de alianças entre o Trono e o Altar.

Este estudo busca lançar luz sobre a complexa e velha estrutura que moldou o destino da nova Europa do Congresso de Viena. …

In Mátria XXI, nº 13, 2024

#congressodeviena #1814 #CompanhiaDeJesus #conservadorismo #liberalismo #djoaovi #europaseculoxix #filosofosconservadores #franciscabrancoveiga #historia4all #franciscaveiga

@seguidores
@destacar

Como referir este artigo:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco (2024), 1814, MÉMOIRES DO CONSERVADORISMO EUROPEU NUMA EUROPA EM TRANSIÇÃO PARA O LIBERALISMO (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [11 de Junho de 2024].