O azulejista português Policarpo de Oliveira Bernardes e a capela de Nª Sª de Porto Salvo, em Oeiras

Porto Salvo (N.ª S.ª do Porto Salvo)

Concelho                               Oeiras

  Área                                  7,10 km²

População                             15 157 hab. (2011)  

A freguesia de Porto Salvo foi oficialmente criada em 11 de Junho de 1993, por desmembramento das freguesias de Barcarena, Oeiras e São Julião da Barra. Foi elevada a vila em 12 de Julho de 2001.

Tem por orago Nossa Senhora de Porto Salvo.

Porto Salvo deve o seu nome à ermida construída no século XVI no Outeiro de Caspolima.
A construção da ermida, por volta de 1530, resulta em cumprimento de uma promessa de mareantes da carreira das Índias que, ao regressarem, se viram em grande perigo e prometeram a Nossa Senhora que se chegassem sãos e salvos a Portugal lhe dedicariam um lugar de culto, no primeiro lugar alto que avistassem ao chegarem. A súplica foi ouvida e a bonança permaneceu até à vista do estuário do Tejo, com feliz sucesso.


O rei D. João III cedeu-lhes a baldio identificado no reguengo de Oeiras, para construção da Ermida, que desde logo se tornou lugar de devoção e de romaria na grande festa da Senhora de Porto Salvo que durava dois dias, e foi celebrada desde sempre a 25 e 26 de julho, dias do Apóstolo São Tiago e Santa Ana.

Em 1670 foi demolida a antiga e «pequenina» ermida e iniciada a atual capela, que terá ficado concluída em 1694.

Até ao século XIX era saudada com salvas de 21 tiros pelos barcos que chegavam ao Tejo.

Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, Oeiras
Fotografia: Francisca Branco Veiga

Os Azulejos da Capela de Porto Salvo

O último quartel do século XVII até cerca de 1750 é a época do apogeu do azulejo português, a do Ciclo dos Mestres e da Grande Produção, rica em grandes cenas sagradas e profanas, apresentadas com grandes molduras cenográficas desenhadas especificamente para os espaços, e executadas exclusivamente em pintura a azul e branco.

Segundo José Meco, no seu livro Azulejaria Portuguesa,

«Bastante expressiva no seu ingénuo encanto, estas obras apresentam uma pintura pouco contrastada, de grande eficácia na mobilidade do desenho e na economia dos meios utilizados na sugestão de sombras e volumes… À simplificação das partes historiadas correspondeu uma acentuação decorativa na concepção dos conjuntos e dos enquadramentos, através da crescente extroversão e popularização dos elementos, com o recorte interno do emolduramento e o remate superior dos painéis a abandonarem a linearidade, adquirindo concepção teatral e tornando-se progressivamente a parte fulcral das composições. A evolução destas características acentuou-se na chamada «grande produção joanina», realizadas por artistas formados na escola de António de Oliveira Bernardes…» [1]

Os azulejos da capela de Nossa Senhora de Porto Salvo têm merecido mais atenção que os restantes valores artísticos da igreja. Existem duas campanhas azulejar, bem distintas: a de 1734, nos silhares da capela-mor. Esta obra de azulejo foi feita pelos devotos de Lisboa, com notáveis composições barrocas a enquadrarem Ladainhas da Virgem, realizadas pela oficina de Bartolomeu Antunes e de Nicolau de Freitas, e a de 1740, na frontaria da ermida, também esta obra mandada fazer pelos devotos de Lisboa a Policarpo de Oliveira Bernardes, que compreende a decoração desta frontaria, com dois Milagres de Nossa Senhora de Porto Salvo, legendados, estando a parte historiada de um deles há muito perdida e o conjunto de painéis da nave, com Cenas da vida de Cristo, bem como a composição por baixo do púlpito feita pelo mestre azulejador João Guilherme Roiz.

Assim a Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo tem:

  • Na fachada, dois painéis de azulejos de Policarpo de Oliveira Bernardes, datados de 1740, muito danificados, estando um deles praticamente destruído; estão sobre as janelas que ladeiam a porta, debaixo do alpendre. Compõem-se de sete fiadas de treze azulejos pintados a azul-cobalto a aguadas, sobre esmalte estanífero, representando milagres atribuídos a Nossa Senhora;
  • Na nave da mesma capela e revestindo as paredes até meia altura, são de autoria de Policarpo de Oliveira Bernardes, de grande qualidade e representando cenas da infância de Jesus, formando, de cada lado, um painel único. O do lado do evangelho, o esquerdo, vai da parede fundeira até ao púlpito, num total de 54 azulejos. O do lado da epístola, o direito, termina numa porta que, segundo a legenda, foi inutilizada em 1874.
  •  Na capela-mor, azulejos datados de 1734, da oficina de Bartolomeu Antunes, fortemente ornamentados, sem figuração, com diversos símbolos marianos e adaptados a diferentes solicitações;
  • E ainda na mesma capela existem dois azulejos de finais do século XVIII, muito danificados, formando um registo, classificado de “gracioso”, aplicado sobre uma caixa de esmolas, embutida numa parede exterior.
Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, Oeiras (interior)
Fotografia: Francisca Branco Veiga


O azulejista português Policarpo de Oliveira Bernardes

Assinatura de Policarpo de Oliveira Bernardes

Policarpo de Oliveira Bernardes, filho e discípulo de António de Oliveira Bernardes, pertenceu ao chamado ciclo dos mestres da produção azulejar portuguesa.

Nascido em 1695, Policarpo faleceu em 1778, o seu último trabalho documentado foi a decoração da frontaria e do corpo da nave da ermida de Porto Salvo. Evidenciou-se bastante cedo como pintor autónomo. As suas obras assinadas não vão além de 1740, mas a sua reputação e importância têm levado a considerá-lo um dos mais importantes mestres da segunda metade do Reinado de D. João V. Talvez, baseando-se nisso, muitas obras essenciais da época lhe têm sido atribuídas.

Embora sem a eloquência da pintura do pai, que Policarpo absorveu com inteligência, a sua obra revela uma formação muito cuidada e uma personalidade bastante vincada e criativa, associada a uma notável capacidade como pintor. Esta capacidade está bem patente nos painéis historiados, cujo espaço se encontra magnificamente construído, assim como nas figuras, de volumetria acentuada pelas pinceladas cruzadas, que Policarpo favoreceu, e representadas com agudeza psicológica.

As obras fundamentais de Policarpo são a decoração de uma capela da igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, o monumental e deslumbrante revestimento integral da igreja de São Lourenço, em Almansil (Loulé), de 1730, o da capela do Forte de São Filipe, em Setúbal, de 1736, e o de Porto Salvo, de 1740, já referido.

A sua obra de uma naturalidade, de uma força expressiva e de uma perfeição encantadora em todos os seus aspetos faz-se evidenciar na riqueza iconográfica dos azulejos da Capela de Porto Salvo.

O tipo de temática pertence ao grupo dos Painéis historiados (painéis descritivos representando um determinado acontecimento ou cena histórica, religiosa, mitológica ou do quotidiano), onde as pinturas dos azulejos narram cenas religiosas da vida de Jesus Cristo.

A obra azulejar na ermida de Porto Salvo, em Oeiras, é a última datada deste grande pintor de azulejo, sendo também, talvez até por isso, uma das mais perfeitas e inigualáveis produções saídas de suas mãos.

Os dois frisos do corpo da ermida

Policarpo de Oliveira Bernardes

Cenas da vida de Cristo

Mosaico azul e branco

Assinado Policarpo de Oliveira Bernardes

Datado de 1740

13,5 cm * 13,5 cm (cada azulejo

Do lado esquerdo da nave

A fuga para o Egito
Fotografia:Francisca Branco Veiga
Repouso durante a viagem para o Egito
Fotografia:Francisca Branco Veiga

Do lado direito da nave

A Virgem Maria trabalha, com a meada na dobadeira, enquanto o menino descansa Fotografia:Francisca Branco Veiga
São José a carpinteirar
Fotografia:Francisca Branco Veiga
Passeio da Sagrada Família (José, Maria e o Menino)
Fotografia:Francisca Branco Veiga

[1] MECO, José – Azulejaria portuguesa, Amadora: Bertrand, 1985.

Jesuítas Matemáticos Portugueses no Império da China (século XVI-XVIII)

Post comemorativo das 50 publicações do blogue

Nos séculos XV e XVI desenvolveram-se em Portugal os meios técnicos necessários que possibilitaram as grandes navegações, as quais, por sua vez, vieram a permitir progressos científicos notáveis nos mais variados domínios, com destaque para a Náutica, a Cartografia, a Construção Naval, a Medicina e a Botânica.

As viagens dos Descobrimentos obrigaram os portugueses a considerar o regime dos ventos e das correntes no Atlântico e a desenvolver a náutica astronómica, isto é, a capacidade de conhecer a posição aproximada dos navios em alto mar.

Para esse feito utilizaram-se instrumentos de observação astronómica como o quadrante e o astrolábio náuticos ou ainda a balestilha, que permitiam determinar a altura de um astro sobre o horizonte e dessa forma calcular a latitude do lugar onde se realizava a observação.

Lisboa tornou-se no centro de intercâmbio científico entre os Colégios Europeus e as missões orientais.

Quase todos os professores que passaram por Lisboa estudaram no Colégio Romano, acompanhando de perto as grandes descobertas e as grandes polémicas científicas da época.

Os mais preparados davam aulas no Colégio de Santo Antão e traziam as novidades científicas mais recentes.

Conteúdos ensinados no Colégio Santo Antão-o-Novo
Fotografia: Francisca Branco Veiga

Entrada dos Matemáticos no Império da China

Três dos Imperadores da Dinastia Qing
Imperador Kangxi
Imperador Yongzheng
Imperador Qianlong
Palácio Imperial da Dinastia Qing em Shenyang, com  114 edifícios, construídos entre 1625-26 e 1783. 

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento desse intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.

Na China, todos os nobres, incluindo os imperadores, se espantavam com as novas ideias ocidentais. Mais importante, a explicação exata da regularidade astronómica e do calendário foram algumas das eficazes ferramentas simbólicas que ajudaram o governo Qing a estabelecer o poder no país.

No dia 1 de agosto do 1º ano do reinado de Shun Zhi (1644 AD), o calendário tradicional chinês (Calendário Dai Tong) foi declarado inexato.

Adam Schall (1591 – 1666) astrónomo e matemático, fez a sugestão ao Imperador de que calculasse o calendário usando os novos instrumentos astronómicos ocidentais que foram logo feitos entrar no Palácio Qing pelo portão principal.

Retrato do jesuíta alemão Johann Adam Schall von Bell (1592–1666),
missionário na China (dinastias Ming e Qing) de 1622 até sua morte em 1666.

No ano seguinte, o governo Qing revelou ao público o “Calendário Shi Xian” que tinha sido estabelecido por Adam Schall, a quem foi atribuído o título de “Tou Xuan” (Mestre) pelo Imperador Shun Zhi.

Ferdinand Verbiest (1623 – 1688) recorreu a um quadrante, um sextante, um altazímute, um nível equatorial e outros instrumentos ocidentais, reproduzidos das ideias de Kepler, para calcular com exatidão o primeiro dia da Primavera. 

Ferdinand Verbiest foi nomeado para tratar dos assuntos do “Qin Tian Jian” (Tribunal das Matemáticas) e encarregou-se prontamente de desmantelar o Observatório Astronómico de Pequim, que incluía equipamento das anteriores dinastias Yuan e Ming, substituindo tudo por avançados instrumentos produzidos sob a sua direção.

Um retrato de Ferdinand Verbiest (9 de outubro de 1623 – 28 de janeiro de 1688),
missionário jesuíta flamengo na China durante a dinastia Qing.

Portugueses no Tribunal das Matemáticas

Observatório Astronómico de Pequim,
gravura do século XVIII

Entre 1583 e 1805, portugueses presidiram, em Pequim, ao célebre Tribunal das Matemáticas – uma espécie de Ministério do Interior encarregue de elaborar o Calendário Imperial e que empregava 150 a 200 funcionários.

Sobre a atividade científica dos portugueses em Pequim escreve Francisco Rodrigues:

“Matheus Ricci, auxiliado pela dedicação de tantos portugueses como Duarte Sande, António de Almeida, Francisco Cabral, João Soeiro, João da Rocha, Gaspar Ferreira e Manuel Dias, sénior, chegou a gozar de tamanha reputação pela sua ciência que julgava a sua permanência segura no Celeste Império.”

Menos de dois anos antes da sua morte (1610), escrevia com satisfação neste sentido:

“Sobretudo pelos mapas e livros que estampámos, da nossa Matemática e pelas muitas novidades nesta matéria, até hoje desconhecidas da China e por nós ensinadas, nos dão o maior crédito em assuntos matemáticos e nos guardam respeito extraordinário, O que porém mais os impressiona, por ser cousa nunca ouvida entre eles desde que há memória, é o terem vindo à China estrangeiros, que lhes possam ser mestres em todas as ciências com tão grande superioridade.”

Alguns portugueses Presidentes do Tribunal das Matemáticas

Gabriel de Magalhães – An Wensi, Jingming

Manuel Dias Júnior – Yang Manuo, Yenxi

Tomás Pereira – Xu Risheng, Yingong

João Francisco Cardoso – Mai Dacheng, Ershang

Félix da Rocha – Fu zoulin, Lisi

André Rodrigues – An Guoning, YongKang

O jesuíta Tomás Pereira jaz agora nos jardins da embaixada portuguesa em Pequim.
Trata-se de um desenho do relógio que Tomás Pereira fabricou para a torre de uma igreja, em Pequim.
Introduziu no interior da torre um tambor com espigões, semelhantes aos das caixas de música, que acionavam arames ligados aos badalos de um carrilhão o qual, a todas as horas, tocava músicas tradicionais chinesas.

Vários mandarins chineses aconselharam os astrónomos portugueses a adotarem o traje dos letrados chineses, pois passariam a usufruir do estatuto dos Letrados, o que reforçaria grandemente a sua posição e credibilidade tanto junto dos mandarins como junto das populações.

Traje do Astrónomo chinês em 1675

Portugal – China: Encontro de Culturas

Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.

Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos. Entre eles destacamos: Padre Gabriel de Magalhães; Padre Manuel Dias Júnior; Padre Tomás Pereira; Padre João Francisco Cardoso; Padre André Pereira; Padre Domingos Pinheiro; Padre Félix da Rocha; Padre José de Espinha; Padre André Rodrigues.

Convenção de Évora Monte (26 de maio de 1834)

Na Europa dos anos 30, devido à expansão do liberalismo e nacionalismo como ideologias, renovavam-se os conceitos de liberdade e de revolução, opondo-se totalmente à restauração da Santa Aliança idealizada por Metternich e pelo czar Alexandre I, e à política representada por D. Miguel em Portugal.

Esta viragem na política europeia, iniciada com as revoluções de julho de 1830 em Paris, é consumada quatro anos depois com o Tratado da Quádrupla Aliança, assinado em Londres no dia 22 de abril de 1834.

À conjuntura política cada vez mais fortalecida por agentes externos, que pretendiam instalar no país instituições parlamentares, junta-se a ação da Maçonaria e da Imprensa escrita, ligada aos intelectuais e burgueses emigrados, no sentido da capitulação do regime miguelista.

Associado às alterações políticas externas e à falta de apoio interno, encontrámos referências à falta de competência de muitos que se encontravam junto deste rei, tornando-se um handicap em diversas questões políticas e militares. O próprio D. Miguel, no protesto de 1 de janeiro de 1836, esclarecia que, a Convenção de Évora Monte tinha sido, acima de tudo, uma capitulação militar imposta pela lei dos mais fortes.

Publicava-se no periódico Chronica Constitucional de Lisboa do dia 29 de novembro de 1833 que,

“O General Bourmont dirigiu aos seus amigos uma memoria, datada de Alcantara, onde se acha detido pelas Authoridades Hespanholas, na qual justifica a sua conducta Militar em Portugal, attribuindo todos os desastres que occorreram durante a Campanha, á inexperiencia ou desafeição dos Generaes Portuguezes (Le Temps)”[1]

Como refere António Ventura, talvez por falta de fidelidade ao rei,

 “… alguns chefes militares miguelistas contactaram em segredo os seus congéneres liberais. A 22 de Maio, o general Azevedo Lemos escreveu ao duque da Terceira, que marchava sobre Estremoz, e ao marechal Saldanha, que avançava em direcção a Évora, propondo-lhes um cessar-fogo e uma conferência, o que foi aceite. As negociações tiveram lugar em Évora Monte entre os três generais. A 26 de Maio foi assinado o documento que ficou conhecido com o nome de «Convenção de Évora Monte», que pôs fim à Guerra Civil, mas que ao qual os liberais sempre chamaram «concessão»”[2].

O testemunho do carlista Auget de St. Sylvan, barão de los Valles reflete essa mesma falta de apoio imparcial a D. Miguel, referindo que o rei se rodeava de «conselheiros pérfidos e pusilânimes». Nas suas palavras:

“O general Lemos, na qualidade de comandante em chefe do exército miguelista, recebeu o encargo de ajustar as condições daquela capitulação, e para esse fim passou ao quartel general do Duque da Terceira. O referido mandatado cedeu em tudo quanto se lhe indicou, até o despojar o seu dono do título de infante de Portugal”[3]

No periódico O Conimbricense, Joaquim Martins de Carvalho, escreve um artigo intitulado Coimbra, Reflexões Politicas, onde reflete sobre o tipo de homens que rodeavam D. Miguel. No seu ponto de vista, D. Miguel rodeava-se em geral de «homens violentos de caracter, atrabiliarios e vingativos».  Martins de Carvalho refere que,

“… D. Miguel, em vez de dar ao seu partido e ao seu exercito um caracter puramente nacional; mostrando que as capacidades do paiz estavam em grande maioria pelo seu lado, em quanto que o partido liberal precisava de recrutar regimentos no estrangeiro e fazer commandar o seu exercito por um estrangeiro; não quis deixar de praticar idêntico desatino. Para isso fez vir de França o marechal Bourmont, os generaes Clouet, Almer, Larochejaquelein, […]. Em particular Bourmont era um caracter infamado pela ignóbil traição que tinha feito a Napoleão, desertando cobardemente na véspera da batalha de Waterloo para o exercito inglez. […] e de 1832 a 1834 era uma guerra civil, em que D. Miguel devia mostrar, que só por si podia vencer o partido liberal, que havia desembarcado no Mindello apenas com 7:500 homens”[4]

A derrota miguelista na batalha da Asseiceira (16 de maio de 1834) teria desmotivado muitos oficiais levando-os ao abandono da causa absolutista. O próprio coronel dos dragões de Chaves[5], que era compadre de D. Miguel, e lhe devia muitos favores, desertou com quase todo o regimento, indo apresentar-se ao marechal Saldanha.

No dia 26 de maio de 1834, em Évora Monte, sucumbe o governo absolutista de D. Miguel.

A Convenção contém nove artigos: 1.º concede amnistia a todos os delitos políticos cometidos desde 31 de julho de 1826; 2.º permite a livre saída de Portugal a todos os amnistiados; 3.º garante aos militares os postos legalmente adquiridos; 4.º dispõe que com os funcionários civis e eclesiásticos haja a consideração que merecerem por seus serviços e qualidades; 5.º estabelece a dotação anual de 60.000$000 réis ao infante D. Miguel; 6.º permite que o infante embarque no porto que escolher com a devida segurança para a sua pessoa e comitiva; 7.º presume a obrigação de D. Miguel sair do reino no prazo de quinze dias com a declaração de não voltar mais à península; 8.º estabelece que as tropas miguelistas entregarão as armas no depósito que for indicado; 9.º dispõe que os regimentos e corpos de serviço de D. Miguel se dissolvam pacificamente.

A estes artigos foram aditados mais quatro: o1.º e 2.º direcionados às autoridades que ainda reconhecessem a autoridade do infante, para que fosse dada imediata ordem para se submeterem ao governo da rainha D. Maria II; o 3.º marcando o dia 30 para D. Miguel sair de Évora para o porto de Sines, onde devia embarcar, e por fim, o 4.º fixando o dia 31 para a entrega das armas no seminário de Évora.

Intervenientes na Convenção de Évora Monte:

António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha (1792 – 1860), 7.º Conde de Juro e Herdade, 1.º Marquês de Vila Flor e ainda 1.º Duque da Terceira; Francisco Vaz Pereira Pinto Guedes (1814 – 1835), 3.º visconde de Monte Alegre, Capitão do exército miguelista; João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun (1790 – 1876), 1.º conde, 1.º marquês e 1.º duque de Saldanha, Marechal de Campo do exército pedrista e deputado na Câmara dos Deputados;  José de Sousa Pereira de Sampaio Vaía (1790 – 1847), 2.º visconde de Santa Marta, Marechal de Campo do exército miguelista até fevereiro de 1833; D. Pedro de Sousa Holstein, 1.º Duque de Palmela, (1781 – 1850), Ministro do Reino e Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo de Regência, e Presidente do Conselho de Ministros de Portugal no I Governo da Monarquia Constitucional; Martinho Correia de Morais e Castro (1771 – 1833), 1.º visconde de Azenha, Marechal de Campo do exército miguelista até janeiro de 1832.

D. Miguel morre no exílio, em Bronnbach (Alemanha), no ano 1866, sem poder voltar a Portugal (pela Carta de Lei de 19 de dezembro de 1834, foi proibido de regressar a Portugal).

A 5 de abril de 1967, chegam a Lisboa em aviões da Força Aérea Portuguesa, os restos mortais do rei D. Miguel I e de sua esposa, a Princesa Adelaide de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg. Os despojos reais foram acolhidos em São Vicente de Fora, no Panteão da Dinastia de Bragança[1]. No 6 de abril de 1967, o periódico Diário da Manhã publicava um artigo, cujo título era Chegaram a Terra Portuguesa os Restos Mortais de D. Miguel, e que começava do seguinte modo: “DIA histórico o de ontem, em que D. Miguel 1, o mais português dos nossos Reis, regressou à Pátria que o banira, entre o respeito do povo que o vtu passar, enternecido, a caminho da sua Jazida de S. Vicente, aquela que já agora será a sua última morada até ao dia da Ressurreição dos mortos”.

Após a leitura do Evangelho, subiu ao púlpito o Padre jesuíta Domingos Maurício, que prestou uma sentida homenagem à memória de D. Miguel:  “No desterro imposto pelas contingências políticas obscureceu-se a lembrança das vossas benemerências nacionais […]. Surgiu, enfim, o momento redentor, a hora da reparação sincera, que vos reintegra no lugar que vos compete na tessitura histórica de Portugal”[a]

Fica uma breve curiosidade em relação aos restos mortais de D. Pedro.  Em março de 1972, os seus restos mortais, por decisão do Governo Português e a conselho de D. Filipa de Bragança (1905–1990), deixaram o Panteão da Dinastia de Bragança, e atravessando o Atlântico foram repousar no Monumento do Ipiranga, em São Paulo, Brasil.


[a] CUNHA, José Correia da, (P.) – “Sono Final, No Solo Pátrio… Bem Merecido Pelo Homem Rei, Como Cristão E Como Português…”. [Consultado 10 janeiro 2017]. Disponível na internet em: <http://realbeiralitoral.blogspot.pt/2012/11/ > .


[1] Chronica Constitucional de Lisboa, nº 109,de 29 de novembro de 1833, p. 4.

[2] VENTURA, António – As Guerras Liberais 1820-1834. Lisboa: QuidNovi, 2008, p. 119.

[3] VENTURA, António (selec. textos, pról. e introd.); FERREIRA, Filipe Moura (ed. lit.). – D. Miguel e o fim da guerra civil: testemunhos, p. 112 (Capítulo II – O testemunho do carlista Auget de St. Sylvan, barão de los Valles).

[4] Coimbra, Reflexões Politicas, artigo de Joaquim Martins de Carvalho. In O Conimbricense, nº 3373, de 29 de novembro de 1879, pp. 1-2.

[5] A designação de Regimento de “Dragões de Chaves” remonta a 1754, simultaneamente com a criação do Regimento de Cavalaria Ligeira de Bragança. Veja-se DRAGÕES D´ENTRE DOURO E MINHO [Consultado 12 setembro de 2016]. Disponível na Internet em: <https://www.exercito.pt/pt/quem-somos/organizacao/ceme/cft/brigint/rc6&gt;

Casa da Convenção de Évora Monte (PLACA)
Casa da Convenção de Évora Monte

17 de fevereiro de 1832: «Prier sur la tombe du marquis de Pombal»

No dia 14 de janeiro de 1832 o rei D. Miguel revelava aos missionários da Companhia de Jesus o seu amor para com a Companhia, «dando-lhes assim nova prova da Sua Augusta benevolência», dizendo-lhes que o Colégio das Artes, em Coimbra, tinha sido criado pelo seu Instituto e com a maior independência e por isso mesmo o que ele queria era o “mesmo colégio da Companhia”. A Companhia de Jesus encontrava-se, portanto, preparada para ir reaver o seu antigo colégio. Estamos aqui perante um daqueles momentos de “vingança jesuíta” ou de “reparação providencial”, em que a história da Igreja oferece muitos exemplos.

Na viagem até Coimbra para além de visitarem o Bispo de Leiria que os recebeu com amizade, entram sexta-feira, dia 17 de janeiro, na área da diocese de Coimbra[1], passando por Pombal, cidade para onde foi desterrado e morreu o Marquês com o mesmo nome e que perseguiu e expulsou a Companhia de Jesus em 1759.

O Padre jesuíta Philippe Delvaux descreve ao Padre Druilhet, em Paris os acontecimentos de Pombal e o que aí vieram encontrar:

“… le vendredi 17 février 1832, nous entrâmes dans le diocèse de Coïmbre, ce dont nous ne tardâmes pas à nous apercevoir. Pombal est la première paroisse; nous y fûmes reçus au son des cloches, complimentés et conduits en triomphe par le curé-archiprêtre, accompagné de tout son clergé. L’église, où deux de nos Pères allèrent dire la sainte Messe, était magnifiquement illuminée comme aux plus grandes solennités. Pour moi, pressé par un sentiment religieux impossible à exprimer, je m’étais esquivé, avec un père et un frère, avant la rencontre du bon curé, et j’avais couru vers l’église des franciscains pour y prier sur la tombe du marquis de Pombal; mais l’infortuné n’a point de tombe! Nous trouvâmes, à peu de distance du maître-autel, une bière, couverte d’un méchant drap mortuaire, que le père gardien du couvent nous dit être la sienne. Il y attendait en vain les honneurs de la sépulture depuis le 8 mai 1782, chose à peine concevable, vu le crédit dont son innombrable famille a continué à jouir dans le royaume. […] C’est donc en toute vérité que je puis le dire: le premier pas de la Compagnie, rentrant solennellement à Coïmbre, après plus d’un demi-siècle de proscription, fut d’aller célébrer une messe d’anniversaire, le corps présent, pour le repos de l’âme de celui qui l’avait proscrite, et dans le lieu où il passa les dernières années de sa vie, disgracié, exilé et condamné à mort. Quel concours de circonstances ne fallait-il pas pour amener cet événement! Je sortis de Pombal sans bien savoir si c’était songe ou réalité […] Ceux qui connaissent l’histoire des derniers temps de cet homme fameux, rapprochaient de ce qui se passait sous leurs yeux ce qui arriva l’année de sa chute, lorsque l’évêque de Coïmbre, qui avait été compagnon d’infortune de nos Pères, sortit, avec quelques-uns d’entre’ eux, de son affreux cachot, et retourna dans son diocese, en passant aussi à Pombal. Là commença son triomphe, et le marquis alla se jeter à ses pieds, le priant avec larmes de lui pardonner”[2]

Este acontecimento contribuiu, aos olhos dos filojesuítas, para a valorização, grandeza e generosidade dos membros da Companhia de Jesus. O Padre Delvaux, Superior da Missão Portuguesa, junto do túmulo do Marquês de Pombal terá dito «La Compagnie reviendra, mais il lui sera difficile de refaire son nid». É um dado certo que para os antijesuítas este ato foi considerado como um exemplo da ironia jesuítica.

Na obra Clemente XIV et les Jesuites encontra-se uma carta escrita pelo P. Delvaux na vila de Pomhal. Nela, este padre revelava os seus sentimentos perante a urna de Pombal: “… pero no sé esplicar lo que pasó por mí, al ofrecer la víctima de propiciacion, el cordero inmaculado que pidió en la cruz por sus verdugos, al ofrecerla, repito, por el reposo del alma de D. Sebastian Carvalho, marqués de Pombal, corpore proesente![…]”.

Na opinião de Crétineau-Joly, “La venganza de los jesuítas no podía ser mas completa. Se ocultaban al entusiasmo general, de que eran objeto, para recojerse y orar en silencio sobre la tumba aun abierta del ministro, su mayor enemigo”[3].

De referir que, com as invasões francesas durante a Guerra Peninsular a sepultura do Marquês de Pombal foi profanada pelos soldados franceses do Marechal André Massena, durante a 3ª invasão a Portugal.


Túmulo do Marquês de Pombal.  
Museu Marquês de Pombal, Pombal.
Túmulo em madeira onde estiveram os restos mortais do Marquês de Pombal, durante mais de 70 anos, até serem trasladados para a igreja das Mercês em Lisboa.
 Inscrição que se encontra na Igreja do Cardal, em Pombal, onde permaneceram os restos mortais do Marquês de Pombal desde 1782 até 1856.
Descrição: “Aqui estiveram depositados os restos mortaes do Grande Marquez de Pombal Sebastião Joze de Carvalho e Mello desde 1782 até 1856 em que foram trasladados p. Lisboa pelo seu Quarto Successor”.

Anos mais tarde, foi trasladado para o antigo Colégio dos Jesuítas Missionários da Índia (em 1755 Convento de Nossa Senhora da Conceição de Arroios e a partir de 1898 Hospital Rainha Dona Amélia ou vulgarmente conhecido como Hospital de Arroios), tendo em 1856, o Marechal Saldanha, seu neto por via materna, novamente feito o translado para a ermida das Mercês, onde o Marquês de Pombal fora batizado e, inclusive, pertencia à irmandade. Os restos mortais (ou o que restava deles) ficaram aí depositados sobre o adorno de dois elefantes esculpidos em pedra, tendo este túmulo desaparecido. Vandalizado por altura da implantação da República, os restos mortais foram depois transferidos para a Igreja da Memória, na Ajuda, onde se encontram desde 1923[4].


Mausoléu do Marquês de Pombal, Igreja da Memória (Ajuda, Lisboa).
Sarcófago de formato irregular suportado por pés de bronze. Na parte central, placa de bronze com o seu nome e datas.

[1] Carta do Padre Delvaux para o Padre Druilhet, em Paris. Coimbra, 10 de março de 1832. In CARAYON, Auguste – ibidem, p. 331.

[2] Carta do Padre Delvaux ao Padre Druilhet, em Paris. Coimbra, 10 de março de 1832. In CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus, vol. XIX, pp. 332-333.

[3] CRÉTINEAU-JOLY, Jacques – Clemente XIV et les Jesuites. Madrid: Typ. de Nicolas de Castro y Compañia, 1848, pp. 75-76 (Nota 1).

[4] Comunicação proferida no dia 18 de abril de 2012 – Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, sobre o tema Franciscanos, Jesuítas e doutores: 500 anos a fabricar ideias de futuro para este Mundo e o outro, no Hospital de Santa Marta – Sala do Capítulo, por Francisca Branco Veiga com o título O noviciado como escola de formação de missionários.

GUERRA CIVIL 1832-1834 (nótula brevis)

No dia 6 de julho D. Miguel envia uma circular ao Corpo Diplomático de Lisboa, comunicando o estabelecimento do “estado de sítio” das praças e terras marítimas do Reino, face à ameaça de uma invasão[1].

Com a notícia de uma possível chegada das esquadras liberais ao Porto, saí de Coimbra para Aveiro o regimento de milícias que aí se encontrava em alerta. E na defesa do Trono e do Altar vão pegar em armas muitos eclesiásticos. Esse serviço foi aprovado pelo ministro da Justiça Luiz de Paula Furtado de Castro do Rio de Mendonça, num aviso dirigido ao bispo de Coimbra, D. Joaquim da Nazaré. Enuncia o dito Aviso:

«… as três dignidades da sua Sé Cathedral, que são o deão, chantre e mestre-eschola, juntamente com o provisor do bispado, se dirigiram a v. ex.ª, para por sua intervenção se offerecerem a sua majestade, a fim de serem empregados no serviço militar da cidade de Coimbra, ou em qualquer outro, que sua majestade houvesse por bem designar-lhes […] e que pouco depois os mais capitulares da mesma sé, e o reitor, mestres e mais empregados do seminário de v. exª se lhe apresentaram também para fazerem eguaes oferecimentos […] assim mesmo quiseram dar provas n’esta occasião do seu grande amor pelo seu legitimo soberano, e da sua fidelidade pela sua religião, e pela sua pátria …»[2]

No dia 7 de julho avista-se na costa portuguesa a esquadra liberal, desembarcando D. Pedro com o seu exército no Mindelo no dia 8 e entrando no Porto no dia seguinte, dando início ao Cerco do Porto[3]. Registam os missionários jesuítas franceses,

 «… maintenant ils se trouvant cernés dans la ville de Porto. Il n’y a eu aucun mouvement considérable on leur faveur dans aucune autre ville … Les impiétés auxquelles ils se sont portes à Porto et dans les lieux voisins [prouvent] que c’est surtout à la religion qu’ils on veulent …»[4].

O fim da Guerra Civil ou o fim da guerra entre os dois irmãos em 1834 foi representado numa gravura de Honoré Daumie intitulada  Kssssse! Pédro – Ksssss! Kssssse! Miguel. Nesta gravura vê-se, de um lado o espírito liberal representado pelo rei francês Luís Filipe que apoia D. Pedro e o Czar Nicolau da Rússia, representando a Santa Aliança e que apoia D. Miguel[5].

No periódico Bibliotheca Familiar e Recreativa dedicado à mocidade portuguesa fez-se uma súmula da despeza causada pela Guerra Civil que se desenrolou entre 1832 e 1834 e o número de perda de vidas:

«A despeza causada n’esta guerra com o exercito libertador desde Março de 1832 até Junho de 1834 ascende a seis mil cincoenta e nove contos seiscentos doze mil quatrocentos sessenta e dous réis, compreendida nesta somma a de réis cento trinta e quatro contos setecentos oitenta e cinco mil seiscentos quarenta e sete, que se despendeo em objectos da competência da marinha. […]

Conta geral dos mortos […] desde 8 de Julho de 1832 até 30 de Junho de 1834. […]

O exercito libertador tinha quando chegou a este reino ……. 8,300 prças.

Quando acabou a guerra ……………………………………… 60,119.

O exercito de D. Miguel no principio da guerra tinha ……… 83,316.

Quando acabou a guerra ……………………………………. 16,000»[6].

Oliveira Martins refere que «[…] Setenta, oitenta, cem mil contos, custou decerto à economia da Nação a guerra que terminara sem conseguir acabar ainda com a crise, porque à luta entre o velho e o novo Portugal iam suceder as lutas dos partidos liberais […]»[7].


[1] Circular dirigida ao Nuncio de Sua Santidade, ao Enviado Extraordinário, o Ministro Plenipotenciário de Sua Magestade Catholico, ao Encarregado de Negocios dos Estados Unidos da America, e aos Cônsules das mais Noções Estrangeiras residentes nesta Corte. In Gazeta de Lisboa, nº 158, de 6 de julho de 1832.

[2] O Conimbricense, nº 3191, de 10 de janeiro de 1882, p.3.

[3] Sobre o Cerco do Porto veja-se SORIANO, Luz – História do cerco do Porto: precedida de uma extensa noticia sobre as differentes phazes politicas da monarchia desde os mais antigos tempos até ao anno de 1820…. Lisboa: Imp. Nacional, 1846-1849; FERRÃO, António – Reinado de D. Miguel: o cerco do Porto: 1832-1833. [S.I.: s.n.], 1940 (Lisboa: Tip. Gráf. Santelmo).

Desembarque dos liberais no Mindelo em 1832
Aguarela de Alfredo Roque Gameiro (1864-1935)
A gravura representa a formatura das tropas liberais pouco depois do desembarque, na ocasião em que D. Pedro IV se preparava para lhes passar revista. . FRANCO, Chagas; SOARES, João – Quadros da História de Portugal. Lisboa: Pap. Guedes, 1917, 7º Ciclo – O tempo dos franceses até ao constitucionalismo – Ilustrações de Roque gameiro, Cap 36 – As lutas da liberdade

[4] APPCJ, Companhia de Jesus 1829-1834, 1833-34 Delvaux, 1 fl.

[5] DAUMIER, Honoré – Kssssse! Pédro – Ksssse! Ksssse! Miguel! [Visual gráfico]. [Paris]: chez Aubert galerie, [1833].

Kssssse! Pédro – Ksssss! Kssssse! Miguel
Litografia satírica para o jornal La Caricature, publicada a 11 de julho de 1833.
Representa o fim da guerra entre os dois irmãos. Nesta gravura vê-se, de um lado o espírito liberal representado pelo rei francês Luís Filipe que apoia D. Pedro e o Czar Nicolau da Rússia, representando a Santa Aliança e que apoia D. Miguel.

[6] In Bibliotheca Familiar e Recreativa, nº 18, vol. V. Lisboa: Imprensa Nevesiana, 1836, p. 207.

[7] MARTINS, J. P. de Oliveira – Portugal Contemporâneo, vol. II. Lisboa: Guimarães & C. Ed., 1977, p. 27. Veja-se, inclusive, SÁ, Victor de – A Crise do Liberalismo e as Primeiras Manifestações das Ideias Socialistas em Portugal (1820 –1852), 2ª ed.. Lisboa: Seara Nova, 1974, pp. 99 e ss.

In VEIGA, Francisca Branco – A Restauração da Companhia de Jesus em Portugal 1828-1834: O breve regresso no reinado de D. Miguel. Tese elaborada para obtenção do grau de Doutor em História, na especialidade de História Contemporânea, 2019.

Rafael Bordalo Pinheiro

(Lisboa, 21 de março de 1846 — Lisboa, 23 de janeiro de 1905)

(cont.)

Rafael Bordalo Pinheiro foi não só o maior caricaturista e desenhador humorista do século XIX português, como um dos mais importantes e significativos artistas da sua geração, a par do seu irmão Columbano e de José Malhoa.

Estruturalmente caricaturista, por gosto, por temperamento, não teve escolas, não seguiu métodos. Ele mesmo declarava em 1903, quando a Associação dos Jornalistas de Lisboa lhe fez uma grande homenagem nacional:

“Sabe porque comecei a fazer caricaturas? A razão é semelhante à que levou Justino Soares a professor de dança. O Justino a quem lhe perguntava porque tinha deixado o ofício e se tinha metido a dançarino respondia: O menino comecei a sentir um formigueiro nas pernas e vai puz-me a dançar. Ora comigo dá-se um caso idêntico. Comecei a sentir um formigueiro nas mãos e vai puz-me a fazer caricaturas…”

Espírito irrequieto, Bordalo não via a sociedade só pelas qualidades exteriores, ia mais longe, aprofundava o carácter da mesma, a tal ponto que, muitas vezes com apenas um traço e todo o desassombro da sua independência, dava a conhecer uma personagem.

A sua obra bem-humorada, reflete uma época cheia de tolerância, caracterizada pela «doce paz» do reinado de D. Luís, e que a história denominou de “paz podre”.

Foi caricaturista de raça, na fertilidade das suas obras e na imaginação que lhes impunha. Como jornalista, ele reproduziu a atualidade como ninguém. Entre 1870 e 1905 tornou-se na alma critica e muito assaz de todos os periódicos que dirigiu quer em Portugal, quer nos três anos que trabalhou no Brasil.

Espontâneo na caricatura será através da cerâmica que a sua individualidade também persistirá, tendo aceitado o convite para chefiar o setor artístico da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. O que notabilizou a interferência de Bordalo Pinheiro na faiança caldense foi o impulso estimulador de uma nova era de renascimento, que o artista transmitiu não só pelo exemplo, como ensinando a alguns artífices o desenho por eles completamente ignorado até então. Onde se revelava mais exuberantemente a sua boa influência era no apuramento e perfeição do esmalte e na unidade e riqueza da cor.

Ramalho Ortigão, depois de ver as peças criadas por Bordalo, declarou que a sua faiança era «um capítulo de Folclore português», tendo Bordalo «criado um novo estilo decorativo genuinamente nacional».

A história da sociedade portuguesa do último quartel do século XIX, nos seus múltiplos aspetos, está toda documentada nos seus jornais humorísticos. A política foi para ele um vício que satisfazia no Chiado, o seu «habitat», mas também uma ação cívica consciente e patriótica e, por isso, necessariamente crítica. E, acima de tudo, foi uma ação independente, alheia a partidos e seus interesses, mal vista por progressistas ou regeneradores e também, às vezes, pelos republicanos da sua simpatia. Em 1885, ele afirmava, «As minhas opiniões, boas ou más, não se subordinaram nunca ao “mot d’ordre”».

Por isso o povo (ou o «povinho») o chorou sinceramente, à sua morte, no dia 23 de janeiro de 1905.

Rafael Bordalo Pinheiro

São João de Brito, missionário e mártir da Companhia de Jesus

(Lisboa, São Cristóvão e São Lourenço, 1 de março de 1647 — Oriur, Índia, 4 de fevereiro de 1693)

Foi missionário e mártir, frequentemente chamado de «Francisco Xavier» português. Nasceu em Lisboa, na calçada de S. André (Costa do Castelo) em 1647. De ascendência fidalga, diz António Franco que, desde menino que o seu destino era ser pagem na Corte.

João de Brito, já entrado na adolescência, é vítima de uma doença grave. A sua cura marcou uma viragem na sua vida, pois devido a uma promessa de sua mãe, teve de vestir o hábito de São Francisco Xavier.

A 17 de dezembro de 1662, com 16 anos entra para o noviciado da Cotovia (atual espaço do MNHNC), em Lisboa. A 25 de dezembro de 1664, após dois anos de noviciado, é enviado para a Universidade de Évora para continuar os estudos eclesiásticos, seguindo em 1666para Coimbra, para fazer filosofia.

Mais tarde será professor no Colégio de Santo Antão, em Lisboa. No ano de 1668, pede ao Superior Geral que o deixe ser missionário. Partiu a 25 de março de 1673 numa expedição em que vão 27 jesuítas, uns destinam-se à China, outros como João de Brito à Índia.

O martírio chegou em 1693 no alto do monte sobranceiro ao rio Pamparru, à vista de Urgur. Foi decapitado sendo o cadáver amputado de pés e mãos, e os seus despojos dados às feras e aos abutres. Alguns cristãos recolheram o crânio e alguns ossos. O cutelo da execução obteve-se do carrasco mediante grande soma de dinheiro. Dentro de uma bainha de filigrana de prata, foi trazido para Lisboa e oferecido a D. Pedro II, que o confiou à guarda da Companhia de Jesus, no Colégio de Santo Antão.

Foi canonizado em 22 de Junho de 1947, pelo Papa Pio XII.

In VEIGA, Francisca Branco – “Noviciado da Cotovia: O passado dos Museus da Politécnica 1619-1759” [texto policopiado]. Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Património Cultural. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2009.

São João de Brito
Foto: Francisca Branco Veiga
Arca Relicário de S. João de Brito
Museu de S. Roque, Lisboa

NOSSA SENHORA DA ROCHA E A COMPANHIA DE JESUS NO REFORÇO DA LEGITIMAÇÃO DE D. MIGUEL

1829 – 1834

Durante o vintismo, assistiu-se a um avolumar do movimento beato, valorizando-se o culto mariano, o do Santíssimo Sacramento, bem como a confissão e a comunhão frequentes, a assistência à missa e a obtenção de indulgências. Para além de se encontrar inserido no aumento das práticas devocionais que tinham marcado os últimos tempos do Antigo Regime, este aumento da religiosidade vai ser aproveitado pela contrarrevolução.

Assim, a «milagrosa aparição» de uma imagem de Nª Sr.ª da Conceição da Rocha numa gruta de Carnaxide, em finais do mês de maio de 1822, desperta um novo movimento devocional que vai ser aproveitado pelos contrarrevolucionários, que o apresentam como um sinal precursor da queda próxima do sistema constitucional. Diz o republicano e maçon Faustino da Fonseca:

“A Senhora Apparecida vinha como castigo aos pedreiros livres, para, em nome de Deus, livrar Portugal da terrivel seita dos maçons, da sua obra monstruosa, a constituição. Fizeram-se romarias, em que Carlota Joaquina, D. Miguel, e a alta roda tinham o primeiro logar. A imagem recebeu esmolas valiosíssimas, que os absolutistas, no interesse politico, e os crédulos, na sua ilimitada ingenuidade, levavam-lhe em pomposas romarias, velas acesas, entoando cânticos. Carnaxide tornou-se o ponto de reunião dos adversários do regímen liberal e o foco das conspirações, porque ahi podiam encontrar-se fóra da vigilância da policia. A Senhora da Rocha era a bandeira da nova cruzada”[1]

Continuando, asseverava:

“Podiam lá admitir um pacto constitucional, eles que tinham feito depender da intervenção da Senhora da Conceição da Rocha, de outros santos passeiados em triumpho, a queda do infame regímen, filho da revolução de 1820?”[2]

Na opinião de outro liberal, Joaquim Martins de Carvalho, «como elemento contra o partido liberal foi inventada em 1822 a Senhora da Conceição da ROCHA». Refere o redator do Conimbricense que,

 “As cartas que os jesuítas escreviam de Portugal para França, quando estiveram neste paiz nos anos de 1829 a 1834, acham-se cheias de historias, e referencias á Senhora da Conceição da ROCHA, por onde se mostra largamente o quanto os jesuítas, ligados com D. Miguel e os seus partidários, faziam dessa invocação um instrumento da politica absolutista”[3]

Também Manuel Borges Grainha se refere a esta ligação D. Miguel – Nª Sª da Rocha – Jesuítas:

“Os Jesuítas, apoiados por D. Miguel, exploram escandalosamente a devoção pela imagem por imaginários milagres que atraíam ao local numerosas peregrinações de fiéis. Ia-se ao ponto de proclamar que a aparição da imagem representava a certeza da dominação absoluta de D. Miguel”[4]

Exemplo disto é a carta de 24 de setembro de 1829, do Padre Delvaux ao Padre Varlet, que se encontrava no Colégio em Passage, descrevendo o aparecimento da imagem numa gruta de Carnaxide, e mostrando a sua importância na intervenção política sobre o povo, instigando este contra os ideais liberais:

“Les bons Portugais lui attribuent le retour de leur roi. Ils ne cessaient de l’invoquer, pour lui, pendant sa longue absence, aussi l’un de ses premiers soins en arrivant fut d’aller se jeter à ses pieds. Que les conseils de Dieu, que sa miséricorde sont admirables! Un peu d’argile, une petite bonne vierge, grande comme celle des pupitres de vos enfants! O sagesse humaine, où êtes vous?  Cependant il est três-vrai que notre senhora da Rocha a fait reculer la révolution en 1823, au jour même de l’événement de son apparition; qu’elle a fait plus de miracles en Portugal qu’il n’en avait fallu pour y planter la foi”[5]

Em 1825 a Novena da Milagrosa Imagem da Senhora da Conceição da Rocha fazia uma leitura política deste “aparecimento”[6]. A descoberta desta imagem numa gruta em Carnaxide, para além de ter sido considerado um fenómeno milagroso por ser a aparição da mãe de Deus junto dos homens, representou o milagre anunciado da queda da Constituição, que se verificou em maio de 1823 por intervenção do infante D. Miguel, que através de um golpe militar derrubara as primeiras Cortes liberais em Vila Franca, restaurando os direitos de seu pai enquanto rei absoluto. Na Dedicatória desta Novena, Fr. Cláudio da Conceição referia diretamente os benefícios feitos a Portugal por intermédio do aparecimento da imagem da Virgem em Carnaxide, «nos dias em que ele se viu coberto da sua maior humilhação», e aos portugueses «quando eles se achavam mais aflitos e atribulados, atemorizando os seus perseguidores, pressagiando grandes vantagens», e por fim «fazendo o triunfo de Portugal, o triunfo da Monarquia e o triunfo da Religião»[7]. Exaltando a Religião Cristã, ele advertia:

 “… se nada pode subsistir sem Religião, se a Sociedade, a Patria, os Magistrados, o Sacerdocio, e até o mesmo Soberano não podem estar seguros sem Religião, porque os Revolucionarios de todos os tempos, e em todas as Nações forão sempre homens sem Religião, sigamos, sigamos os dictames desta mesma Santa Religião; porque deste modo o Povo Portuguez, estando firme na sua Crença, he agradável a Deos, he temível aos homens, sendo bons Catholicos, são bons vassalos, taes os exige a Religião, taes os necessita o Estado”[8].

Entronizada após a Vilafrancada como padroeira da «feliz Restauração» e defensora do Trono e do Altar, torna-se símbolo da vitória sobre os liberais, levando toda a família real a se deslocar à Sé de Lisboa a 23 de junho de 1823 para, solenemente, lhe agradecer a sua proteção[9].

D. Miguel, imagem da Vilafrancada, defensor do absolutismo e líder da contrarrevolução conjuntamente com a sua mãe, a rainha Carlota Joaquina, torna-se seu fiel e particular devoto. Mais tarde foi, inclusive, feita uma estampa de contornos populares representando-o a ele e a duas das suas irmãs em oração na Sé diante da imagem, agradecendo o restabelecimento de uma lesão numa perna provocada por uma queda[10].

Como defensor da união entre o Trono e o Altar, o Padre Delvaux, Superior da missão jesuíta portuguesa, partilhava:

“Cependant il est três-vrai que notre senhora da Rocha a fait reculer la révolution en 1823, au jour même de l’événement de son apparition; qu’elle a fait plus de miracles en Portugal qu’il n’en avait fallu pour y planter la foi”[11].

Um ano depois da Vilafrancada, com o pretexto de combater uma conspiração maçónica de que afirmava ser alvo o rei e toda a família real, invocando a proteção de Nossa Senhora da Rocha tenta um novo golpe militar, o qual falhou (Abrilada)[12]. Segundo o Padre Delvaux, D. Miguel terá mandado gravar a imagem de Nossa Senhora da Rocha dentro de um Coração de Jesus, distribuindo-a no dia 30 de abril de 1824 pelos seus apoiantes em armas, a quem se dirigiu referindo a grande confiança que nela depositava[13].

Em fevereiro de 1828, D. Miguel regressa do exílio a que tinha sido forçado após a Abrilada. O momento da sua chegada foi assinalado com festas consagradas à Virgem da Rocha em freguesias dos arredores de Lisboa como Benfica, Porcalhota e na própria Carnaxide[14].  Esta imagem reforçava a ideia de que a Nª Sª da Rocha de Carnaxide consagrava a legitimação sagrada do poder miguelista, tornando a causa da religião inseparável da causa do rei[15]. E em carta de dezembro de 1830 escrevia o Superior da Missão Portuguesa para França ao Padre Gury sobre uma superstição popular que “exploravam” em Carnaxide:

“… je vous ai parlé de Nossa Senhora da Rocha, c’est le salut du Portugal; et pour nous il est bien consolant de voir que le bon Dieu semble avoir destiné notre petite Compagnie à exploiter, si je puis parler de la sorte, de plus en plus cette dévotion dans le royaume et à son profit. Vous avez vu comment cette bonne petite Mère (vous savez que sa statuette a seulement quelques pouces de haut) a daigné protéger nos Pères à la mission de Carnaxida”[16]

A utilização da palavra exploiter pelo Padre Delvaux foi aproveitada pelo redator do jornal O Conimbricense, que associou a expressão ao «fanatismo em proveito do partido miguelista»[17]. Refere Joaquim Martins de Carvalho que,

 “As cartas que os jesuítas escreviam de Portugal para França, […], acham-se cheias de historias, e referencias á Senhora da Conceição da Rocha, por onde se mostra largamente o que os mesmos jesuítas, ligados com D. Miguel e os seus partidários, faziam d’essa invocação um instrumento da politica absolutista”[18]

Foi publicado na Gazeta de Lisboa do dia 19 de março de 1833, já em plena Guerra Civil, uma ordem do Cardeal Patriarca para que se conduzisse a «milagrosa» imagem de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, que se achava na Basílica de Santa Maria, em procissão até à Igreja de S. Roque, antiga Igreja e Casa de Provação da Companhia de Jesus, sede da Ordem em Portugal entre 1565 e1759, onde deveria passar alguns dias exposta aos fiéis e em agradecimento por ter salvo a cidade da epidemia que tinha assolado Portugal nos últimos anos. D. Frei Patrício, crente da Senhora da Rocha, evocava que existia uma linha de continuidade entre o tempo do seu aparecimento (com D. João VI) e o atual (com D. Miguel):

 “Meus amados filhos (…) recordemo-nos ao menos da época não muito remota em que comecámos a tributar-lhe culto (à Virgem Maria) debaixo do título dessa venerável imagem, quando a Providência dispôs que de descobrisse no seio de uma rocha (…) Ela foi o sinal maravilhoso que anunciou o termo da execranda rebelião que então maquinava a ruína desta Monarquia (…). Invocada agora debaixo desse mesmo título e como Padroeira destes reinos (…) ela fará brilhar a mesma virtude e todo o seu poder em favor da Nação aflita contra outros rebeldes que a oprimem”[19]

A derrota dos miguelistas no fim da Guerra Civil e a expulsão de D. Miguel do reino em 1834 retirou a simbologia a esta imagem da Virgem que os políticos e eclesiásticos quiseram transformar em «padroeira da contrarrevolução».


[1] FONSECA, Faustino da – El-Rei D. Miguel, p. 79.

[2] Ibidem, p. 227.

[3] O Conimbricense, nº 3772, de 9 de outubro de 1883.

[4] GRAINHA, Manuel Borges – História da franco-maçonaria em Portugal, p. 112.

[5] Carta do Padre Delvaux ao Padre Varlet, Collége du Passage. Lisboa, 24 de setembro de 1829. In CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus, vol. XIX, p. 168.

[6] Em 1825 editou-se, em Lisboa, na Imprensa Régia, um opúsculo intitulado Novena da Milagrosa Imagem da Senhora da Conceição da Rocha que oferece Fr. Cláudio da Conceição. Padre Arrábido, pregador régio e cronista do reino, responsável pela obra Gabinete Histórico, que começou a ser publicada em 1818 e cujo vol. IX, datado de 1823, narra os factos que, em maio de 1822 inauguraram em Portugal o culto a uma nova invocação da Virgem, Nossa Senhora da Conceição da Rocha de Carnaxide. In Novena da Milagrosa Imagem da Senhora da Conceição da Rocha que à mesma oferece Fr. Cláudio da Conceição. Lisboa: Na Imprensa Régia, 1825.

[7] Ibidem, pp. III-V.

[8] Ibidem, p. XV (Advertencia).

[9] LOUSADA, Maria Alexandre; FERREIRA, Maria de Fátima Sá e Melo – D. Miguel. Mem Martins: Círculo de Leitores, 2006, pp. 42-43.

[10] El-Rei D. Miguel I e as suas augustas irmãs orando a Nossa Senhora da Rocha. Lisboa: José Augusto Amaral Frazão Vasconcelos, 1910.

[11] Carta do P. Delvaux ao Padre Varlet, Collége du Passage. Lisboa, 24 de setembro de 1829. In CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus, vol. XIX, p. 168.

[12] SILVA, Armando Barreiros Malheiro da – Miguelismo. Ideologia e Mito. Coimbra: Minerva História, 1993, pp. 257-258, segundo o jesuíta francês, o Padre Delvaux.

[13] Note sur Don Miguel roi de Portugal. In CARAYON, Auguste – op. cit., p. 502.

[14] FAVINHA, M.E.M.; SOUSA, S.M.A. – “Comemorações político-religiosas do centenário de Nossa Senhora da Rocha na imprensa periódica portuguesa (1822/1922)”. In Cultura: Revista de História e Teoria das Ideias, 9, 1997, p. 396.

[15] Carta do Padre Hippolyte Moré ao Padre Brumauld. Lisboa, 22 de novembro de 1832 (no Coleginho da Graça): “Quand nous sommes arrivés on faisait une neuvaine à Notre Senhora da conceiçao da Rocha pour la conservation de notre bon Roi don Miguel et pour l’heureux succès de la guerre”. In CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus: Notes historiques, vol. X, pp. 32-45; ARCHIVE PROVINCE FRANCE COMPAGNIE DE JÉSUS (APFCJ), DELVAUX, Philippe- Joseph (1787/1865), Ms. H, DEL 1, Pasta 6 Mission du Portugal (1829/1830), Lisbonne, 24 Septembre 1829 – Relatorio do P. Delvaux sobre a chegada a Portugal (Carta do Padre Delvaux ao Padre Varlet, Collége du Passage. Lisboa 24 de setembro de 1829).

[16] Carta do P. Delvaux ao R.P. Gury, em Lyon.  Lisboa, 24 de dezembro de 1830. In CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus, vol. XIX, p. 276.

[17] O Fanatismo Religioso como Elemento Político. In O Conimbricense, nº 3772, de 9 de outubro de 1883, p.1.

[18] Ibidem.

[19] Gazeta de Lisboa, nº 67, 19 de março de 1833 (escrita no dia 18 de março).

Nossa Senhora da Rocha
Foto: Francisca Branco Veiga; Pedro Branco Veiga
Nossa Senhora da Rocha
Foto: Francisca Branco Veiga; Pedro Branco Veiga

Santuário de Nossa Senhora da Rocha
Localizado no vale do Jamor, em Linda-a-Pastora (concelho de Oeiras).
El-Rei D. Miguel I e as suas augustas irmãs orando a Nossa Senhora da Rocha.
Lisboa: José Augusto Amaral Frazão Vasconcelos, 1910.
Local onde se encontra a imagem de Nossa Senhora da Rocha
Igreja do Santuário (interior)
Acesso à gruta onde apareceu a imagem da Virgem
Acesso à gruta onde apareceu a imagem da Virgem
Gruta onde apareceu a imagem da Virgem
Mantos para Nª Sª da Rocha bordados pelas mãos de duas princesas portuguesas
Foto: Francisca Branco Veiga; Pedro Branco Veiga

Um túmulo no acervo do Museu Nacional da História Natural e da Ciência, Lisboa

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e esposa [séc. XVII]

A primeira pedra do noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus, foi lançada a 23 de abril de 1603, catorze anos depois do primeiro contrato para a construção do edifício. A pedra estava toda ornamentada com ramos de folhagem e flores silvestres. Com seis faces, como foi descrito atrás, tendo na sexta face não uma inscrição, mas uma concavidade onde Fernão Teles de Meneses, seu fundador, colocou um “português de oiro” e medalhas devotas[1]. À cerimónia assistiram os fundadores, o Provincial, o Reitor Padre António Mascarenhas e outros jesuítas vindos dos colégios da Província portuguesa.

Dois anos depois, Fernão Teles de Meneses já não assistiu ao lançamento da primeira pedra da igreja do noviciado, morrendo no dia 26 de janeiro de 1605. D. Maria de Noronha, sua esposa, pediu que as obras da Capela-mor (do lado do Evangelho) terminassem o mais rápido possível, para lá colocar o túmulo do seu marido, pois os ossos tinham ficado num trono do cruzeiro da igreja de S. Roque, à espera do traslado. Mandou fazer um mausoléu que lhe custou 3.000 cruzados, onde foram colocados primeiro, os ossos de Fernão Teles e em 1623 os seus.

Em 1893, Sousa Viterbo referia-se ao mausoléu de mármore como tendo uma forma de pirâmide com mais ou menos seis metros de altura. A arquitetura tumular é muito idêntica à dos túmulos reais que se encontram na capela-mor da igreja de Santa Maria de Belém, no Mosteiro dos Jerónimos[2]. Assentava, o túmulo, sobre dois elefantes de mármore cinzento-escuro[3]. Segundo nos descreve Matos Sequeira,

 «O túmulo dos fundadores que estava, como já disse, na capela-mor, foi removido para um barracão, existente numa das dependências da Escola, depois do incêndio de 1843. Aí se conserva ainda hoje ao abandono, apeado dos elefantes, em cujo dorso se apoia, por não caber em altura no barracão. Fazem-lhe companhia, alguns destroços da igreja, troços de colunas e de capitéis, pedaços de imagens e entulho que farte»[4]

Dia 1 de Novembro ficou pronta a igreja e foi colocado no altar o Santíssimo Sacramento[5].  Oito dias depois foi feito o traslado dos ossos, que se encontravam num trono do Cruzeiro, num cofre de veludo preto com fechadura dourada, na igreja de S. Roque, para a Capela-mor da igreja do noviciado da Cotovia. Saíram em cortejo com velas acesas e entoando cânticos. Chegando à igreja do noviciado, toda coberta com panos de luto e cheia de luzes, fez-se a missa, desceu-se o corpo à sepultura.[6]

A 13 de Junho de 1619, dia de Sto António entraram os primeiros quinze noviços na nova e única Casa de Provação até esta data, sem ainda estar concluído nem o edifício, nem a igreja.

Escultura Tumular

Este tipo de escultura é de grande importância, não apenas pelo seu valor histórico, mas, também, devido ao seu valor artístico, pois eram quase sempre executadas por bons escultores, para servirem de morada “eterna” para gente da nobreza ou religiosos. Na Capela-mor das Igrejas dos Colégios da Companhia de Jesus encontramos sempre o túmulo do fundador do noviciado, conforme impunham as “Constituições”(309-310), além de testemunhar o sentimento de gratidão à figura benemérita do Fundador (312-314). Nenhum colégio jesuítico podia ser fundado sem que existisse uma pessoa que garantisse financeiramente a construção e manutenção dos edifícios em causa. Este túmulo que se encontrava no Altar-mor da Igreja do Noviciado da Cotovia é mais um exemplo que não foge à regra.

Reproduz o modelo régio que se encontra na capela-mor da igreja do mosteiro Jerónimo de Santa Maria de Belém e que se integra numa tipologia de tumularia portuguesa que abrange o final do século XVI até ao início do século XVIII.

Segundo Vítor Serrão[7], o arquiteto régio Pedro Nunes Tinoco (ativo de 1604 a 1641) poderia ter sido o presumível executor da traça deste mausoléu pois encontra-se ativo no tempo em que este foi construído (± 1616).

Desde o incêndio de 1843 que se encontra emparedado numa das dependências dos Museus da Politécnica, tendo-lhe sido retirado os seus dois elementos de suporte (elefantes indianos) devido à sua altura.

Segundo Teresa Vale, que estudou este tipo de tumularia, este tipo de tumularia pós Santa Maria de Belém, era composta por dois tipos de elementos: um corpo do monumento em forma piramidal e outro com elementos de suporte, que na igreja dos Jerónimos são elefantes, tal como no tumulo dos fundadores da casa do Noviciado da Cotovia (igreja). O túmulo está acompanhado de legenda com o objetivo de perpetuar a memória do morto.

Túmulo

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha (cerca de 1616)

Museu/instituição: Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Universidade de Lisboa

Denominação: Túmulo/ Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha

Autor (es): Desconhecido

Datação: Início do século XVII D.C. (± 1616)

Descrição: Monumento fúnebre que reproduz o modelo régio que se encontra na capela-mor da igreja do mosteiro Jerónimo de Santa Maria de Belém e que se integra numa tipologia de tumulária portuguesa que abrange o final do século XVI até ao início do século XVIII.

Na base do túmulo encontra-se uma inscrição gravada em sete linhas, que diz o seguinte:

«Aqui jaz Fernão Teles de Meneses filho de Bras Teles de Meneses, Camareyro mor e Guarda mor e Capitão dos Ginetes, q foi do Iffãte D. Luis, e de D. Catarina de Brito sua molher, o qual foy do Cõselho do Estado D`El Rey nosso Sõr. E governou os Estados da India e o Reyno do Algarve e foy Regedor da justiça da casa da suplicação e Presidente do Conselho da India e partes ultramarinas. E a sua molher D. Maria de Noronha filha de D. Frãcisco de Faro Vedor da fazenda dos Reys D. Sebastião e D. Anrique, e de D. Mesia de Albuquerque sua primeyra molher: os quais fundaram e dotarão esta casa da Provação da Compª de Jesu, e tomarão esta Capella mor pêra seu iazigo. Falleceo Fernão Teles de Mñs a XXVI. De Novº de M.D.C.V. e de Mª de Nr. A VII de Março de MDCXXIII».

O padre António Franco refere-se ao túmulo da seguinte maneira:

«Mandou esta Senhora fabricar hum magestozo mausoleo de mármores, assentado sobre dous elefantes em hũ vão no lado do Evangelho da Capella mor. He a obra neste género grandioza, fez de curto três mil cruzados»[8]

Para Matos Sequeira, «O sumptuoso túmulo era de mármore liso, assente sobre dois elefantes, tendo na face do caixão um extensíssimo epitáfio»[9].

Num manuscrito intitulado História de Lisboa a referência a este túmulo é feita da seguinte maneira:

 « Na Capella se vê da parte do Evangelho hum arco de pedraria com bastante fundo sobre dous elefantes de mármore com cor que nam deixa de ter semelhança com a natural dos elefantes, e sobre elles um bem laurado tumulo…»[10].

Depois do incêndio de 1843, este túmulo que estava na Capela-mor da igreja do Noviciado da Cotovia, foi removido para uma dependência do edifício, apeado dos seus elefantes e emparedado, e aí se encontra até hoje, embora tenham sido feitas algumas tentativas para lhe dar um lugar mais digno, juntamente com outros destroços da igreja, restos de imagens, colunas e capitéis[11].

  O túmulo era composto por essas e suporte. Essas com uma sucessão de volumes em forma piramidal, lembrando monumentos fúnebres do antigo Egipto, da Suméria e da Índia hindu ou, em Portugal, faz lembrarem as cerimónias fúnebres onde utilizando um catafalco[12], que se cobria com tecidos ricos, como por exemplo, brocados e veludos, se colocava o caixão com o defunto.

 Em relação ao suporte, pensa-se que o motivo que levou à escolha da representação de elefantes tenha a ver com a época histórica e heroica que estávamos a passar, ligada ao descobrimento pelos portugueses de novas terras “Além-mar”, em parte porque se trata de elefantes indianos.

Ao longo dos tempos o elefante esteve sempre associado a grandes cerimónias. Na Ásia simbolizava o poder real. No Ocidente simbolizava eternidade, temperança, piedade, associadas à soberania, ao poder e à riqueza. Em Roma, por exemplo, fazia parte das monumentais exéquias e cortejos fúnebres dos imperadores. Na arte oriental o elefante como elemento de suporte é simbólico de animal-suporte-do-mundo: o universo repousa sobre o lombo de um elefante[13]. Em Portugal, acompanhava os cortejos de D. Manuel, serviu como presente oferecido por D. João III ao arquiduque Maximiliano de Áustria e até o papa Pio IV solicitou a D. Sebastião um par de elefantes. Além de todas estas justificações a nível formal e simbólico podemos também referir que a nível técnico este modelo tumular não implicava grandes recursos manuais e de especialidade. A obra exigia apenas um trabalho de canteiro e não de um escultor. O que cativou a realeza e a nobreza por este tipo de sepultura terá sido o seu aspeto em pirâmide e o material utilizado (mármores).[14]

Segundo Vítor Serrão[15], o arquiteto régio Pedro Nunes Tinoco (activo de 1604 a 1641) poderia ter sido o presumível executor da traça deste mausoléu pois encontra-se ativo no tempo em que este foi construído (± 1616) e além disso, projetou vários túmulos idênticos, baseados na mesma traça do encomendado por D. Maria de Noronha, como por exemplo, o que se encontra no Mosteiro de Santo António da Lourinhã (1618-1619, da sepultura de D. Brites Brandoa (as essas são idênticas mas sem os suportes).

Proveniência/incorporação: Noviciado da Cotovia      

In  VEIGA, Francisca Branco – “Noviciado da Cotovia: O passado dos Museus da Politécnica 1619-1759” [texto policopiado]. Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Património Cultural. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2009.    

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha (cerca de 1616)
Vista Superior

                            


[1] FRANCO, António, Imagem da Virtude…em Lisboa, p.10.

BNP, cód. 429, s.p..

ANTT, Liv.187, Cap. VII.

[2] Veja-se Visita Guiada, Episódio 3 – de 21 Mar 2016 – RTP Play – RTP

[3] FRANCO, António, Imagem…, Lisboa, p.12.

[4] Sequeira, Gustavo de Matos, ibid., p. 245.

[5] ANTT, Liv. 187, Cap. VIII.

[6] «…e no dia seguinte pella manha nove de Novembro foram os Religiosos de Sam Francisco fazerlhe hum officio muy solemne de nove Lições com sua Missa, cantandolhe no fim della hum Responso, disendose pellos Religiosos de Sam Francisco, e da Companhia pella alma do defunto, muytas Missas…»

BNP, cód. 429, 2º, De como por um meyo naõ esperado se adiantou muyto a casa do Noviciado

[7] SERRÃO, Vítor Manuel, O Arquitecto Maneirista Pedro Nunes Tinoco. Novos Documentos e Obras (1616-1636), pp. 30-31.

[8] FRANCO, António, Imagem da Virtude… em Lisboa, p.12.

[9] SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Depois do terremoto, p. 217, 218.

[10] BNP, cód. 145 e 429, Capítulo XV, Da Casa do Noviciado da Companhia de Iesus, códices para o estudo dos monumentos sacros da capital, com 476 fl, e foi escrito nos annos de 1704 a 1708, s.p.

[11] SEQUEIRA, Gustavo de Matos, ibid., p. 245

[12] Catafalto – uma série de caixas sobrepostas que vão diminuindo de dimensão.

[13] CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain, Dicionário dos símbolos, p.279.

[14] VALE, Teresa Leonor M., Exotismo e Poder Político. As Representações de Elefantes na Tumulária Régia de Santa Maria de Belém, p. 97-109.

[15] SERRÃO, Vítor Manuel, O Arquitecto Maneirista Pedro Nunes Tinoco. Novos Documentos e Obras (1616-1636), pp. 30-31.

Um véu de Cálice de origem chinesa no espólio de um Museu de História Natural e da Ciência

Os paramentos e as vestes litúrgicas serviram aos religiosos como um importante instrumento e método de encenação das cerimónias religiosas. Na Sessão XXII, do Concílio de Trento, tratou-se dos Cânones do Sacrifício da Missa, onde se afirmou que, aquele que «…disser que as cerimónias, vestimentas, e sinais externos que usa a Igreja Católica na celebração das Missas, são muito mais incentivos de impiedade que obséquios piedosos, seja excomungado» (Cân. VII)[1]. Para a igreja católica, as vestes representam Cristo cheio de glória e simbolizam a comunidade que crê em Cristo ressuscitado.

Frei Plácido Barroco, em 1791, afirma acerca das Vestes Litúrgicas:

«Nós contestamos sem disputa que as vestes sacerdotais, como a maior parte das Cerimónias, são de si indifferentes; mas nem por isso deixaremos de as reputar de huma necessidade absoluta; porque a nossa natureza corporea não tem quem a mova facilmente, como as cousas sensíveis. Se os sacerdotes ainda pela razão, e uso das Nações barbaras, mereceram civilmente hum traje diverso, característico da sua dignidade, que seria negallo a Igreja aos verdadeiros Ministros do Altar, principalmente nas funções sagadas, onde pedem de nós maior respeito?»[2]

Desde o século VIII com a Ordinis Romani, até ao Caeremoniale episcoporum, publicado pelo Papa Clemente VIII, em 14 de julho de 1600, assiste-se a uma normalização e consequente controlo sobre o vestiário litúrgico[3].

Foi a partir do século XVI que se normalizou as cores das vestes litúrgicas de acordo com o tempo litúrgico. Nos séculos XVII e XVIII, a opulência no luxo litúrgico igualava ou excedia a riqueza da vida profana, porque além das vestes e objetos litúrgicos a igreja investiu em belas obras de arte, feitas pelos melhores artistas, consagrando-as ao culto divino[4]. Os paramentos são elaborados com tecidos encorpados de ouro e de prata, bordados, pintados, com galões, esmaltes e pedras. Nas casulas, dalmáticas, e capas de asperges vão ser usados tecidos de seda, damascos, veludos e brocados, adaptadas à calendarização das cores de acordo com o ano e festas litúrgicas. A indumentária adaptou-se ao sagrado e utilizou os usos de uma tradição, tendo por base o traje civil de cerimónia usado pelos Romanos, como por exemplo, as dalmáticas usadas por alguns oficiais curiais, como os reis-de-armas, as passavantes, os arautos[5] ou vestes de outras origens, como por exemplo, a dalmática e a mitra que tem origem grega[6].

Relativamente à Companhia de Jesus que numa fase inicial se identificava com um total desprendimento relativamente ao aparato, com o decorrer dos tempos e devido a vários condicionalismos, mas, principalmente por razões da crescente importância da pedagogia, acabaram por investir massivamente em obras de arte. Utilizando a imagem, os jesuítas tornaram-se excelentes “educadores das almas”. Paramentaria, pintura, escultura e talha, relicários, ourivesaria e azulejaria, vão exercer sobre o homem crente um poder ilusório de proximidade com o Divino. As normas relativas à arte determinadas pela igreja pós-tridentina, viradas para a imagem e ornato, vão fazer eclodir no fiel os seus sentidos, tornando-se uma arma poderosa de propaganda religiosa.

Assim, a função dos paramentos, ricamente bordados, é decorativa, mas serve também «…de reforço do mecanismo de atração dos sentidos dos crentes»[7] e de “Propaganda” da Fé Católica onde o artista se realiza, pois, a Deus tudo é devido.[8]

As cores e as ornamentações vão variar de acordo com as diferentes ocasiões acompanhando o calendário litúrgico e renovando-se ciclicamente ao longo do ano. Importam-se as novas tendências artísticas da Europa e do Oriente exótico, exemplo dessas novas tendências é o frontal de altar e véu de cálice chinês que fazem parte do espólio que chegou aos nossos dias da Igreja do Noviciado da Cotovia (espaço atualmente ocupado pelo Museu Nacional de História Natural e da Ciência). Fausto Martins, refere um colégio de Coimbra que, em 1564, carecendo a igreja de paramentos e não se encontrando em boa situação económica, preferem esperar por um carregamento que estava para chegar da Índia e até lá iam-se remediando com a ajuda da Casa de S. Roque, de Lisboa[9].  Neste caso, é bem visível a predileção dos padres jesuítas pelo luxo que vinha do oriente. Maria Filomena Brito refere na obra No caminho do Japão: arte oriental nas colecções da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa[10], que as sedas chinesas ocupavam um lugar cimeiro nas trocas comerciais devido ao seu valor, à raridade dessas peças, à qualidade do tecido e do bordado. Além disso, o baixo custo das peças e da mão-de-obra originou um elevado número de encomendas.

No século XVII, os motivos aplicados nos tecidos portugueses são inspirados por esta cultura oriental, indiana e chinesa. Temas como a flora, a fauna e a mitologia oriental, vão ser utilizados em todas as artes decorativas e em especial nos tecidos, que depois vão ser bordados (águias bicéfalas, Lotus, naginis, etc). E assim, chegaram até nós, paramentos litúrgicos ricamente bordados com motivos orientais[11].

Tendo em conta as diversas comunidades religiosas do Padroado Português no Oriente e de um conjunto de comerciantes portugueses que faziam trocas comerciais nestas zonas, podemos “imaginar” que a circulação e utilização destas peças têxteis de manufatura chinesa seriam banais e de uso comum, mas ao mesmo tempo chegam a Lisboa – a cidade europeia mais cosmopolita[12] – como produto exótico e muito atrativo e a baixo custo, devido à utilização de mão-de-obra barata.


[1] IGREJA CATÓLICA, Concílio de Trento, 1545-1563 – O sacrosanto, e ecumenico Concilio de Trento em latim e portuguez, Lisboa, 1781, p.103-107.

[2] Plácido de Andrade, Frei,  Barroco, Dissertação sobre a origem da Veste Sagrada, Lisboa, Regia Officina Typografica, 1791, p. 2, nota 3.

[3] GUERREIRO, Jacinto Salvador, “Vestes Litúrgicas”. In Dicionário de História Religiosa de Portugal. Dir. Carlos Moreira Azevedo, Lisboa, 2001, p.329.

[4] SANTOS, Reynaldo, História da Arte em Portugal, v. II, p. 405-412.

[5] AZEVEDO, Carlos Moreira, História Religiosa de Portugal, p. 480.

[6] TAVARES, Jorge Campos, Dicionário dos Santos,p. 161.

[7] ALVES, Natália Marinho Ferreira, “Nótula para o estudo da paramentaria bracarense no séc. XVIII”. Separata da revista da Faculdade de Letras, II série,  vol. VIII, p.307-308.

[8] IGREJA CATÓLICA, Concilio de Trento, 1545-1563, O Sacrosanto e Ecuménico Concilio de Trento em Latim e Portuguez. Tradução e organização por Jean-Baptiste Reycend. Lisboa: Officina patriarc. De Francisco Luiz Amendo, 1781, Tomo 2, p.103-107.

[9] MARTINS, Fausto Sanches, A Arquitectura dos primeiros colégios jesuítas [texto policopiado]: 1542-1759: cronologia, artistas, espaços, pp.57; 91.

[10] SILVA, Nuno Vassalo e; BRITO, Maria Filomena; MORNA, Teresa Freitas, No caminho do Japão: arte oriental nas colecções da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, p. 64.

[11] SANTOS, Reynaldo dos, História da arte em Portugal, vol. II, p.418. Época alta do Noviciado da Cotovia, e da formação de noviços para as missões no Oriente.

[12] Segundo João Baptista Lavanha é para Lisboa que “…concorrem maiores bes da natureza & fortuna, que em outras muitas do Mundo (…) he hua praça universal de todo o Orbe, pela riqueza dos seus Cidadãos, frequência de varias nações que nella se juntão, & nella reside, com que parece hu Mundo abreviado”, in LAVANHA, João Baptista, Viagem da Catholica Real Magestade El Rey D. Filipe II N. S. Ao Reino de Portugal, Madrid: por Tomas Junti, 1622, p. 9.     

Véu de Cálice (MNHNC)

Véu de Cálice

Museu/instituição: Museu Nacional de História Natural e da Ciência – ULisboa

Categoria:  Têxteis

Subcategoria:  Paramentaria

Centro de Fabrico: China (Cantão)

Autor(es):   Desconhecido

Prov.: Noviciado da Cotovia

Matéria: Tecido em seda creme bordada a fio de ouro metálico e sedas policromas.

Data: séc. XVIII d.C.

Dimensões: 48,2 × 52,2 cm

Descrição: Véu de cálice em seda creme de origem chinesa, com pouca torção, com desenhos ténues de losangos, imagens de crisântemos e galhos de frutos. Com desenho de base aparente. Ponto orientado que não passa para o avesso, com contorno fixado a fio de seda.

Elaborado com fio metálico chinês, fio de seda policroma e ouro, com padrão geometrizado e motivos florais. Ao centro, inscreve-se, em cartela circular com raios setiformes, lisos e em serpentina, alternantes, a inscrição IHS, emblema dos jesuítas. Cercadura onde se desenvolve uma decoração com motivos estilísticos de origem chinesa, flores e enrolamentos fitomórficos.

Véu de Cálice (pormenor)
Véu de Cálice (Pormenor)