
O regicídio de 1 de fevereiro de 1908 foi o atentado em que o rei D. Carlos I e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe foram assassinados na Praça do Comércio (Terreiro do Paço), em Lisboa, quando regressavam de Vila Viçosa e entravam na cidade num landau descoberto.
O atentado no Terreiro do Paço
Na tarde de sábado, 1 de fevereiro de 1908, a família real vinha de comboio até ao Cais do Sodré e seguiu em carruagem aberta em direção ao Palácio das Necessidades, passando pelo Terreiro do Paço. Foi aí que vários atiradores, identificados em geral como ligados a meios republicanos e à Carbonária, abriram fogo sobre o coche. D. Carlos morreu quase de imediato, D. Luís Filipe foi mortalmente ferido e ainda terá reagido, enquanto o infante D. Manuel foi atingido num braço, mas sobreviveu.
Autores materiais e enquadramento político
Os atiradores são tradicionalmente associados à Carbonária e a círculos revolucionários republicanos, num clima de forte contestação ao rei e ao governo de João Franco. As fontes evocam nomes como Manuel Buiça e Alfredo Costa entre os executantes, embora a discussão sobre os “autores morais” e o grau de envolvimento de dirigentes republicanos se tenha prolongado ao longo de décadas. O atentado surge no contexto de grande tensão política, crise financeira, contestação ao rotativismo e perceção de autoritarismo reforçado sob João Franco, num regime ainda liberal mas socialmente muito restritivo.
Consequências imediatas
Logo após o regicídio, caiu o governo de João Franco e foram libertados numerosos presos políticos, incluindo muitos republicanos. D. Manuel II, sobrevivente do atentado, foi reconhecido como novo rei, sendo aclamado chefe de Estado em 1908, mas o seu reinado seria muito breve. O choque do regicídio fragilizou decisivamente a monarquia; dois anos depois, a 5 de outubro de 1910, a República foi proclamada e D. Manuel II partiu para o exílio.
Memória histórica
O episódio ficou conhecido como “os três tiros que abalaram a monarquia”, sublinhando o seu peso simbólico na rutura do regime constitucional oitocentista. Na memória pública, D. Carlos I acabou por ser frequentemente lembrado como “o Martirizado”, acentuando o caráter trágico de um reinado interrompido por violência política. Ao nível local e regional, a chegada da notícia (por exemplo, ao Algarve) foi vivida com enorme comoção, amplamente registada pela imprensa da época como “O Século” e o “Diário de Notícias”

In : Ilustração Portugueza. – Lisboa. – S. 2, vol. 5, n° 106 (1908).

A capa ilustrada de Le Petit Journal fixa um dos momentos mais pungentes da história contemporânea portuguesa: a despedida silenciosa de D. Amélia, entre os corpos do marido, o rei D. Carlos I, e do filho primogénito, o príncipe real D. Luís Filipe, assassinados no Terreiro do Paço a 1 de fevereiro de 1908. A rainha surge de luto, ajoelhada entre os dois leitos, numa composição que transforma o drama político do regicídio numa cena quase sacra, marcada pela dor íntima, pela maternidade ferida e pela solidão do poder derrotado. As velas acesas, os estandartes e os tecidos cuidadosamente dispostos reforçam a ideia de ritual fúnebre de Estado, mas o centro emocional da imagem não está na pompa, está no corpo inclinado da rainha, no gesto de quem vela e chora os seus mortos.
Esta representação, publicada na imprensa ilustrada francesa, revela também como a Europa viu o regicídio português: menos como um episódio interno de crise de regime, e mais como uma tragédia familiar que abala a própria ideia de monarquia. Ao destacar a dor da esposa e da mãe, o jornal convida o leitor a empatizar com a figura de D. Amélia, humanizando uma casa real que, em Portugal, era alvo de duríssimos ataques políticos e de feroz contestação republicana. A imagem é, por isso, simultaneamente crónica visual de um acontecimento e construção de uma narrativa: a monarquia portuguesa aparece aqui como vítima sacrificada, envolta num cenário de luto, num momento em que o seu fim político se aproximava inexoravelmente.
Em 1908, três tiros não abateram apenas um rei e um príncipe: sepultaram uma era e acenderam o fio que levaria à República.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:La_reine_Amelie_et_le_Roi_Manuel_en_pose.jpg


_ _ _
Como referir este texto:
Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!
VEIGA, Francisca Branco (2026), Os três tiros que derrubaram a Monarquia Portuguesa: 1 de Fevereiro de 1908 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [01 de Fevereiro de 2026].
#franciscabrancoveiga #historia4all #franciscaveiga #cultura #DCarlos #1defevereiro @seguidores @destacar