25 de fevereiro de 1869, publicação do decreto que aboliu o estado de escravidão em todos os territórios da monarquia portuguesa.

A abolição da escravatura em Portugal resultou de um processo longo e gradual que se desenvolveu ao longo de mais de um século. As sucessivas medidas refletiram tanto a evolução das ideias políticas e sociais da época como a influência das transformações internacionais.
Em 1761, durante o reinado de D. José I, o Marquês de Pombal determinou o fim da escravatura na metrópole e na Índia portuguesa. Esta decisão marcou o início do caminho abolicionista, embora o regime de escravidão continuasse a existir nas colónias africanas e no Brasil – 16 de janeiro: Alvará de D. José I a declarar livres todos os filhos de mãe escrava nascidos em Portugal continental.

Alvará pelo qual Vossa Majestade, agindo conforme o conselho, determina o fim do abuso existente no Reino do Algarve e em algumas províncias de Portugal quanto ao cativeiro. Considerando que atualmente já não se pode manter tal prática, declara que todos os que nascerem após a publicação desta lei serão, por benefício dela, naturalmente livres. E que os libertados por este decreto ficarão habilitados para todos os ofícios, honras e dignidades. Assim se manda cumprir.
Real Majestade.
Existem dois marcos importantes:
- 1761 – Proibição da entrada de novos escravizados em Portugal continental.
- 1773 – Lei que determina que os filhos de mulheres escravizadas nascidos em Portugal seriam livres.
O excerto da imagem menciona que:
“todos os que nascerem depois da publicação desta Lei fiquem naturalmente livres”
Esta medida era valida para Portugal continental,
Seguiu-se, em 1815, o Tratado de Viena, no qual Portugal assumiu o compromisso de restringir o tráfico de escravos, em cooperação com o Reino Unido.
A regulamentação do tráfico intensificar-se-ia nas décadas seguintes, tendo em 1836 o Visconde de Sá da Bandeira proibido o comércio de escravos nas colónias a sul do Equador — uma das medidas mais significativas da política abolicionista portuguesa – 10 de dezembro: Decreto de Sá da Bandeira que aboliu o estado de escravidão nas colónias portuguesas.
Decreto de abolição da escravatura.
«[…] O infame tráfico dos negros é certamente uma nódoa indelével na história das Nações modernas (…). Emendar pois o mal feito, impedir que mais se não faça, é dever da honra portuguesa, e é do interesse da Coroa de vossa majestade […]. Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros em 10 de Dezembro pie 1836.
= (Assinado)
= Visconde de Sá da Bandeira.

Visconde de Sá da Bandeira / J. B. Ribeiro des. e lith. no Porto, 1837. BNP
O processo ganhou reforço diplomático com o Acordo luso-britânico de 1842, assinado pelo Duque de Palmela e Lord Houvard Walden, que consolidou o combate internacional ao tráfico. O documento é um registo oficial da consolidação diplomática entre Portugal e Inglaterra para tornar efetiva a abolição do tráfico de escravos, estabelecendo mecanismos de vigilância e cooperação internacional através das figuras de Palmela e Howard de Walden.

https://ahpweb.parlamento.pt/Detalhe/?pesq=pa&t=8&id=11167&q=AND__topic_type_id_2__32287_;
A etapa decisiva ocorreu a 25 de fevereiro de 1869, com a publicação do decreto que aboliu o estado de escravidão em todos os territórios da monarquia portuguesa. A partir dessa data, todos os escravizados passaram à condição de libertos, com o reconhecimento dos direitos civis definidos pela legislação em vigor. A medida aplicou-se a todo o império colonial, incluindo as possessões africanas.
A abolição de 1869 — completada pelas leis de 1875 e 1878 — representou o culminar de uma política de transição que acompanhou as mudanças do seu tempo e marcou um momento histórico essencial na definição dos direitos humanos no espaço português.

Fundo Secretaria de Estado da Marinha e Ultramar (PT/AHU/SEMU) do Arquivo Histórico Ultramarino.
Livro de Decretos, 1869-01-05 – 1869-06-30, Lisboa, 1 vol.; 39×26 cm; 146 fls
No panorama mundial, Portugal iniciou cedo algumas medidas restritivas, mas a abolição total da escravatura ocorreu mais tarde do que em países como o Reino Unido (1833) ou a França (1848), e antes do Brasil (1888). O processo português caracterizou-se, assim, por uma evolução faseada, com avanços sucessivos no quadro das transformações políticas, morais e económicas do século XIX.
A abolição de 1869 representou o culminar de uma política de transição que acompanhou as mudanças do seu tempo e marcou um momento histórico essencial na definição dos direitos humanos no espaço português.
Evolução da abolição da escravatura em Portugal (1761–1878)
| Ano | Medida / Evento | Figura ou Autoridade Associada | Conteúdo Principal | Âmbito de Aplicação |
|---|---|---|---|---|
| 1761 | Primeira medida abolicionista | Marquês de Pombal (reinado de D. José I) | Abolição da escravatura na Metrópole e na Índia portuguesa | Portugal continental e Índia |
| 1815 | Tratado de Viena | Governo português e Reino Unido | Portugal compromete-se a restringir o tráfico de escravos | Compromisso diplomático internacional |
| 1836 | Proibição do tráfico a sul do Equador | Visconde de Sá da Bandeira | Proibição do tráfico de escravos nas colónias portuguesas a sul do Equador | Colónias africanas |
| 1842 | Acordo luso-britânico | Duque de Palmela e Lord Howard de Walden | Acordo para abolir o tráfico nas possessões portuguesas e britânicas | Domínios coloniais |
| 1854 | Decreto preparatório | Governo português | Define o estatuto e deveres dos futuros libertos | Colónias |
| 1869 | Abolição definitiva da escravatura | Governo português (Diário do Governo, 25 de fevereiro) | Abolição legal da escravatura em todos os territórios da monarquia portuguesa | Todo o Império português |
| 1875 | Lei de 29 de abril | Governo português | Extingue o estado de “liberto”, garantindo plena liberdade civil | Todo o Império português |
| 1878 | Abril de 1878 | Governo português | Cessam todas as obrigações para com os antigos senhores, concluindo o processo abolicionista | Todo o Império português |
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VEIGA, Francisca Branco, A caminho da liberdade: o processo de abolição da escravatura em Portugal – 25 de fevereiro de 1869 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [27 de Fevereiro de 2026].
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