Entre o Tejo e a Devoção: O Legado de Nossa Senhora da Atalaia em Oeiras

Nossa Senhora da Atalaia (Igreja Matriz de Oeiras)
Fotografia: @franciscabrancoveiga

O culto a Nossa Senhora da Atalaia remonta a uma antiga tradição mariana cujas origens se ligam a uma alegada aparição da Virgem sobre uma aroeira, junto a uma fonte tida como sagrada. Nesse local surgiu um templo que acolheu a primeira imagem da Senhora, transformando-o em centro de peregrinação e devoção.

Já no início do século XVI a fama do santuário era significativa: em 1505, durante uma peste em Lisboa, oficiais da alfândega dirigiram-se em procissão à Atalaia para pedir proteção divina. Cientes do milagre que atribuíam à intercessão da Virgem, fundaram uma confraria que passou a organizar peregrinações anuais — um gesto que consolidou o culto como expressão duradoura da religiosidade popular e da solidariedade entre comunidades.

Santuário de Nossa Senhora de Atalaia (Montijo)
Imagem de Nossa Senhora da Atalaia sobre uma nuvem, segura o menino com o braço direito e na mão esquerda um ramo de flores. Na parte inferior várias casa, um rio com barcos (VASCONCELOS, p.49)

A devoção a Nossa Senhora da Atalaia reflete uma profunda ligação entre fé, natureza e vida comunitária. A aroeira e a fonte sagrada evocam a dimensão natural e simbólica do sagrado, enquanto as procissões e círios unem as populações em torno da imagem da Mãe protetora. Entre as manifestações mais marcantes destacou-se o Círio de Oeiras, que durante cerca de quatro séculos levou os fiéis pelo Tejo até à Atalaia, numa romaria fluvial organizada pela extinta Confraria de Oeiras.

Ladeando o retábulo‑mor do Santuário de Nossa Senhora da Atalaia, a cerca de dois metros de altura, do lado da Epístola, encontra‑se a inscrição: “O ALTAR DE N. SNRA. DA ATALAIA / HE PREVILIGIADO TODOS OS DI / AS DO ANNO MERCE Q.UE CON / CEDEV O SS. P. PIO C A INSTACI / AS DOS DEVOTOS. DE OEIRAS / ANNO DE MDCCXCII”.

  • “O ALTAR DE N. SNRA. DA ATALAIA / HE PREVILIGIADO TODOS OS DIAS DO ANNO” indica que aquele altar é “privilegiado”, isto é, associado a graças espirituais especiais (indulgências, benefícios litúrgicos) válidas em qualquer dia do ano.
  • “MERCE Q.UE CONCEDEV O SS. P. PIO” refere-se a uma mercê (graça, favor) concedida pelo “Santíssimo Padre Pio” – um dos papas de nome Pio – que outorga esse privilégio ao altar.
  • “A INSTACIAS DOS DEVOTOS. DE OEIRAS” significa que esse privilégio foi obtido “a instâncias”, isto é, por solicitação insistente dos devotos de Oeiras, sublinhando a ligação histórica e espiritual entre o santuário e essa comunidade.
  • “ANNO DE MDCCXCII” corresponde ao ano de 1792, data em que o privilégio foi formalmente reconhecido e mandado inscrever.

Em síntese, a inscrição funciona quase como um “documento em pedra”: regista que, desde 1792, o altar-mor de Nossa Senhora da Atalaia é um altar privilegiado todos os dias do ano, por graça do papa Pio, obtida graças à intervenção dos devotos de Oeiras.

1753 – data do ex-voto mais antigo que se conhece dedicado à Senhora da Atalaia, sendo oferta dos quinze romeiros do círio de Oeiras que foram apanhados por um forte temporal; 1792 – mercê de altar privilegiado de Nossa Senhora da Atalaia concedida aos devotos de Oeiras pelo papa Pio VI; 1903 – venda das casas do Círio de Oeiras, em hasta pública, devido ao declínio do mesmo, a um morador de aldeia Galega;

Em 2023, celebrando os 275 anos da Igreja Matriz de Oeiras, esta antiga tradição foi recuperada, mobilizando as paróquias sucessoras da Confraria — Porto Salvo, Paço de Arcos, São Julião, Nova Oeiras e Oeiras — num gesto de reencontro com a memória espiritual e marítima do concelho.

Igreja Matriz de Oeiras
Fotografia: @franciscabrancoveiga
Igreja Matriz de Oeiras (Interior)
Fotografia: @franciscabrancoveiga

Na própria Igreja Matriz, guarda-se um testemunho notável desta devoção: uma pintura representando Nossa Senhora da Atalaia, visivelmente inspirada na tradição iconográfica mariana e nas paisagens devocionais da região. A obra, exposta em local de destaque, convida o visitante a descobrir não só a riqueza artística da composição, mas também a história viva que ela transporta — feita de fé, promessa e comunhão.

Na Igreja Matriz de Oeiras, a devoção a Nossa Senhora da Atalaia ganha forma visível na pintura a óleo sobre tela, datada de 1745 e atribuída ao pintor lisboeta Jerónimo da Silva. Integrada num dos altares laterais da nave, emoldurada por mármore e talha de gosto barroco, esta obra inscreve-se no ciclo mariano que percorre o interior do templo, dialogando com outras representações da Virgem.

Para o visitante atento, a tela funciona como um verdadeiro “sinal” da antiga romaria fluvial de Oeiras à Atalaia: mais do que simples quadro devocional, é uma peça que condensa séculos de fé, memória e ligação ao Tejo, convidando quem entra na igreja a procurar a sua localização, a observar os detalhes da composição e a redescobrir, através da imagem, a história viva do círio e da comunidade que o manteve ao longo do tempo.

Visitar a Igreja Matriz de Oeiras é, assim, entrar em contacto com um património que ultrapassa a arte religiosa: é reencontrar uma narrativa de crença partilhada, de ligação ao Tejo e de continuidade entre o passado e o presente. A pintura de Nossa Senhora da Atalaia torna-se, nesse contexto, tanto memória como convite — um apelo silencioso à contemplação e à redescoberta de uma devoção que, mais do que preservar o sagrado, mantém viva a alma de uma comunidade.

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco (2026), Entre o Tejo e a Devoção: O Legado de Nossa Senhora da Atalaia em Oeiras (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [30 de Janeiro de 2026].


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In Francisca Branco Veiga e José Subtil, Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822-1834). Ed. Autor, 2025.