Um dos mais influentes escritores e intelectuais da época, que inspirou a opinião pública grega interna externa, foi Rigas Pheraios.
O assassinato de Pheraios exaltou o nacionalismo grego. O seu poema, o Thourios, escrito em 1797, serviu como um cântico de “guerra” dos gregos frente ao domínio otomano.

«Antes uma hora de liberdade, do que quarenta anos de escravidão e prisão».
Em 31 de março de 1822, aconteceu o chamado Massacre de Quios, guerra travada entre a Turquia e a Grécia. Este episódio deu-se durante a Guerra da Independência da Grécia, pretendendo a cidade de Quios a libertação dos turcos.

Pintor francês: Eugène Delacroix.
Dimensões: 4,19 m x 3,54 m
Período: Romantismo
Localização: Museu do Louvre
Criação: 1824
O exército otomano eliminou mais de 100 mil pessoas. Os sobreviventes foram vendidos como escravos em Constantinopla, Cairo e outras praças.
Após o massacre, os nacionalistas gregos ganharam mais ímpeto, e a revolta grega, iniciada em 1821, levando à assinatura do Tratado de Andrinopla, em 14 setembro 1829, onde é concedida a independência da Grécia do Império Turco. O Reino da Grécia foi estabelecido em 1832 na Conferência de Londres pelas Grandes Potências (Reino Unido, França e pelo Império Russo).
O episódio do convite sucessivo a D. Miguel e, depois, a D. Pedro para o trono da Grécia ganha relevo singular quando colocado no contexto dramático da Guerra da Independência grega e da profunda reconfiguração do concerto europeu após as guerras napoleónicas.
Do Massacre de Quios ao “problema grego”
Em 31 de março de 1822, o Massacre de Quios chocou as opiniões públicas europeias: o exército otomano dizimou mais de 100 mil habitantes da ilha e reduziu os sobreviventes à escravidão em Constantinopla, no Cairo e noutras praças do Mediterrâneo oriental. Este episódio, imortalizado por Eugène Delacroix na monumental tela “Le Massacre de Scio” (1824, 4,19 m x 3,54 m, Museu do Louvre), tornou-se um ícone visual do Romantismo filhelénico, colocando a causa grega no centro da sensibilidade política e artística do tempo.
A brutalidade da repressão otomana radicalizou o nacionalismo grego e reforçou a legitimação internacional da revolta iniciada em 1821, preparando o caminho para a intervenção das grandes potências e para a consagração diplomática da independência através do Tratado de Andrinopla, em setembro de 1829. Em 1832, na Conferência de Londres, o Reino da Grécia foi finalmente configurado como monarquia sob tutela das potências – Reino Unido, França e Império Russo – que se reservaram o direito de escolher o soberano.
Lisboa, 1822: o convite inicial a D. Miguel
É neste quadro que, em 1822, Silvestre Pinheiro Ferreira, Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, recebe em Lisboa o enviado grego, o capitão Nikólao Kephalás[1],. A missão era ambiciosa: propor que D. Miguel, então com dezanove anos, assumisse o trono helénico.
Por indicação de D. João VI, o convite revestiu caráter “solene” e oficioso; a 16 de abril de 1822, Kephalás dirige duas cartas oficiais, uma diretamente a D. Miguel e outra ao monarca, propondo que o príncipe ocupasse o trono de Constantino, o Grande. Documentada na correspondência de Pinheiro Ferreira (ANTT, PT/TT/MNE-ASC/P/5/L175), esta iniciativa conjugava o prestígio da Casa de Bragança – descendente das dinastias bizantinas Comneno e Paleólogo – com interesses portugueses de afastar o jovem príncipe de cenários internos voláteis.
D. Miguel declinou o convite, que foi então passado ao irmão mais velho, D. Pedro, Duque de Bragança, também sem êxito.
D. Miguel não aceitou o convite, sendo este passado ao seu irmão D. Pedro, que também não aceitou.
D. Pedro entre Atenas e o Rio de Janeiro
A proposta aos gregos via D. João VI visava o primogénito D. Pedro como primeiro rei da Grécia independente. Para Lisboa, era atrativa: transferir o príncipe para o Mediterrâneo poderia mitigar o risco de rutura no Brasil, preservando o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.
O convite cruzou-se, porém, com o “Dia do Fico” (9 de janeiro de 1822), quando D. Pedro decidiu permanecer no Rio e liderar o processo político local. Aceitar a coroa da “pátria de Homero e de Péricles” significaria abandonar a missão histórica de imperador do Brasil nascente.
Ao recusar, D. Pedro optou por um projeto atlântico liberal sobre um trono europeu tutelado, condicionando o devir luso-brasileiro e helénico.
A solução bávara e a engenharia dinástica europeia

Foi na Conferência de Londres de 1832, que a Grã-Bretanha, a França e o Império Russo ofereceram o trono da Grécia ao príncipe Oto da Baviera (Salzburgo, 1815 – Bamberga, 1867), de 17 anos, tornando-se este o primeiro rei da Grécia.32.
Esta “engenharia dinástica” respondia à ausência de casas reinantes balcânicas: as dinastias bizantinas haviam-se extinguido séculos antes, favorecendo príncipes germânicos para estabilizar nações sob vigilância das potências. Após a deposição de Oto (1862), seguiu-se Jorge da Dinamarca (Casa de Oldenburg).
Reflexão contrafactual: e se um Bragança tivesse dito “sim”?
Num exercício especulativo, e se D. Miguel tivesse aceite, transplantando absolutismo joanino para Atenas? Ou D. Pedro, priorizando a Grécia sobre o Brasil? Tais rumos poderiam ter evitado os tumultos de Oto, alterando a sucessão portuguesa e o liberalismo ibero-americano. Esta dupla recusa ilustra como o acaso diplomático entrelaçou o berço antigo da democracia com nações modernas do hemisfério sul.
[1] A partir de uma carta do ministro Pinheiro Ferreira para Luiz Francisco Risso, diplomata português em Roma. Correspondência do Ministério de Silvestre Pinheiro Ferreira sobre a Independência da Grécia, 1822-1823. In Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), PT/TT/MNE-ASC/P/5/L175.
Correspondência de Silvestre Pinheiro Ferreira, ANTT, PT/TT/MNE-ASC/P/5/L175 (1822-1823).