12 de Março de 1514: Quando um Elefante Entrou em Roma com a Embaixada Portuguesa

O elefante “Hanno” numa cópia de um desenho (perdido) realizado em 1516 por Raffaello Sanzio
Reprodução de desenho à pena s/ papel
Rafael/Giulio Romano (atrib.), 1514-15
Preussicher Kulturbesittz Kupferstichkabinett, Staatliche Museen, Berlin.

Imagine Roma em alvoroço: ruas apinhadas, trombetas a soar, um cortejo de cavaleiros e nobres em sedas orientais. No centro, não um rei, mas Hanno, o elefante asiático, presente de D. Manuel I ao papa Leão X. Chegou a 12 de março de 1514, num gesto que elevou Portugal ao píncaro do prestígio renascentista. Sabe a história por trás deste exotismo imperial?

A Embaixada de Obediência: Poder e Diplomacia

Tristão da Cunha liderava a comitiva – mais de cem almas, incluindo Diogo Pacheco e Garcia de Resende. Partiram de Lisboa no final de 1513 para renovar a vassalagem ao papa eleito meses antes. Mas o alvo era maior: bulas para o padroado das conquistas (Índia, África), bispados como o do Funchal (concedido em junho) e fundos para a Ordem de Cristo. Roma vibrou com o desfile dominical, sob olhares de embaixadores rivais.

Hanno: Do Cochim à Cidade Eterna

Nascido c. 1510 em Cochim, oferecido a Afonso de Albuquerque, Hanno rumou a Lisboa em 1511 – seis meses amarrado ao convés, sob chuvas e sóis. Em 1514, de Porto Ercole a Roma por estradas traiçoeiras, patas feridas por pedras, multidões sufocantes (em Tarquinia, um telhado ruiu!). A 19 de março, no Castelo de Sant’Angelo, ajoelhou-se perante Leão X, espirrando água perfumada na multidão extasiada. Rafael pintou-o – tela perdida, mas eterna na memória.

Glória Efémera e Tragédia

Mascote papal, desfilava em festas. Mas o clima húmido e dieta errada cobraram o preço. Em junho de 1516, aos seis anos, prisão de ventre ou angina: médicos deram laxante com ouro em pó (crença da época). Morreu a 8 desse mês, sepultado com pompa vaticana. Inspirou o “elefante branco” – símbolo de luxo inútil.

Lição Dupla: Imperial e Ética

Naquele século XVI, Hanno era troféu de Descobrimentos, prova do império manuelino. Hoje, questionamos o custo animal: estresse, ignorância cuidados. Crónicas de Resende e arquivos da Torre do Tombo confirmam: Portugal chocou a Europa, mas a um preço que o tempo revelou.

Curiosidade final: Leão X adorava-o tanto que lhe dedicou um epitáfio.

Esboço do epitáfio memorial de Hanno (Francisco d’Olanda, 1539 ou 1540)
Tradução Literal
“Ao Senhor Manuel, com imenso aparato conduzido felizesmente ao convento do Monte Oliveto,
animal maravilhoso, conduzido e vencedor,
preservou intacta a sua graça,
nem permitiu que os anos deleitosos da infância se prolongassem;
viveu, cumpriu o tempo, partiu; viveu um ano,
faleceu a 6 de junho de 1516.
Rafael Urbino fez [isto].”

(Fontes: Crónica de Resende, Torre do Tombo, estudos sobre embaixadas de obediência.)

A Expressão Italiana que Traiu Portugal: «non fare il portoghese»

Já ouviu «non fare il portoghese»? Em Itália significa «não faças de português» – alguém que quer trunfos sem pagar. Pejorativo? Sim. Verdadeiro? Nem por sombras. A origem, no século XVI, honra o nosso império. Vamos à história!

1514: Roma em Delírio com Presente Português

D. Manuel I envia embaixada ao papa Leão X: jóias, pantera, cavalos persas… e Hanno, elefante de Cochim (n. 1510). Chega a 12 de março; a 19, desfila no Castelo de Sant’Angelo – ajoelha-se, espirra água perfumada! Rafael pinta‑o (fresco perdido).

Grato, Leão X decreta: portugueses entram grátis em festas romanas. Basta dizer «io sono portoghese» – sem bilhete!

A Origem da Expressão

Italianos e outros fingem ser portugueses para entrar sem pagar. Guardas: «Non fare il portoghese!» («Não te passes por português!»).
Privilégio luso vira burla alheia – mas o tempo esquece e culpa‑nos a nós!

A imagem ilustra de forma humorística alguém a tentar “fazer o português” – ou seja, enganar para entrar sem pagar, rastejando debaixo do balcão da bilheteria (“Biglietti”). O homem de verde rastejando simboliza esse “português falso” a burlar a fila e o pagamento, enquanto as mulheres esperam honestamente. É uma sátira visual perfeita ao ditado, comum em cartoons italianos sobre oportunismo.
In Faccia da Beota” non “Fare il Portoghese”.

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VEIGA, Francisca Branco, 12 de Março de 1514: Quando um Elefante Entrou em Roma com a Embaixada Portuguesa (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [13 de Março de 2026].

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D. Luís Filipe e D. Manuel de Bragança em visita ao Colégio de Campolide (Março 1905)

D. Luís Filipe e D. Manuel de Bragança em visita ao Colégio de Campolide, por ocasião da sessão solene da academia científica, 16 de março de 1905. Arquivo Português da Companhia de jesus.

A fotografia regista a visita dos príncipes D. Luís Filipe e D. Manuel ao Colégio Jesuíta de Campolide, em Lisboa, para presidirem a uma sessão solene da academia científica do colégio em 16 de março de 1905.

Contexto da sessão de 1905

  • A sessão integrou as atividades da Academia Científica e Literária de Maria Santíssima Imaculada, formada pelos melhores alunos para debates e experiências científicas avançadas.
  • Tratou‑se de uma sessão de física experimental com demonstrações públicas que tiveram grande impacto, justamente pela presença dos príncipes e pela visibilidade dada ao ensino científico jesuíta.​

Conteúdo científico apresentado

  • Na sessão foram expostas e demonstradas várias teses, incluindo experiências de eletricidade, magnetismo e telegrafia sem fios, área em que os jesuítas de Campolide já realizavam ensaios desde 1902.​
  • Esta ênfase em trabalho experimental distinguia o colégio da prática habitual em Portugal, ainda muito teórica, e servia para contrariar o estereótipo de “obscurantismo” atribuído à Companhia de Jesus.

In Proscritos, 1911.

Reitoria da Universidade Nova de Lisboa. Campus De Campolide .

Num país ainda preso a práticas pedagógicas teóricas, o Colégio de Campolide funcionou como vitrina estratégica de um ensino experimental de elite, integrando ciência, devoção mariana e prestígio régio, o que reforça a capacidade jesuíta de adaptação cultural e penetração nas elites sociais e políticas, mesmo após supressões históricas. Este episódio sublinha a estabilidade e relevância perdurável da Companhia em Portugal, transformando potenciais críticas em demonstrações de excelência que atraíam apoio institucional e público.​

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Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco (2026), D. Luís Filipe e D. Manuel de Bragança em visita ao Colégio de Campolide (Março 1905)(blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [26 de Janeiro de 2026].

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