A Divina Comédia de Dante: O Inferno. In Ilustração Portugueza de 6 de setembro de 1909





O artigo sobre A Divina Comédia de Dante publicado na Ilustração Portugueza em 6 de Setembro de 1909 é um excelente pretexto para pensar como, no início do século XX, a cultura portuguesa relia os grandes clássicos através da mediação da imagem, da imprensa ilustrada e de uma sensibilidade romântico-simbolista ainda muito viva.
Dante exilado: o poeta em busca de paz
O texto abre com uma pequena narrativa de sabor quase hagiográfico: um monge de Santa Croce conta o episódio em que Dante, já exilado e desconhecido, bate à porta de um convento, vindo “a caminho dos países que ficam para além dos nossos montes”, e apenas pede “paz”. A revista sublinha o cansaço do poeta, esgotado pelas lutas entre guelfos e gibelinos e pelas rivalidades internas do seu próprio partido, traçando o retrato de um Dante desencantado, afastado do sonho de pacificar Florença, a cidade que o havia primeiro banido e depois condenado.
Esta moldura biográfica reforça a ideia de que a Divina Comédia nasce precisamente dessa experiência de dor, nostalgia e errância – é “durante esse período doloroso” que Dante escreve a obra, concluindo os últimos cantos em Ravenna pouco antes da morte.
O Inferno como arquitetura moral
O artigo dedica especial atenção ao Inferno, apresentado como a parte mais celebrada da trilogia (Inferno, Purgatório, Paraíso) e descrito em termos quase cartográficos. O espaço infernal surge organizado em nove círculos concêntricos, divididos em vales e recintos, onde as almas são distribuídas de acordo com a natureza e a gravidade dos seus crimes, numa espécie de topografia moral rigorosa. A imaginação de Dante é caracterizada como “macabra” e “tenebrosa”, capaz de conceber castigos que levam o sofrimento ao limite do cruel e do horrível – um catálogo de suplícios que o articulista afirma serem difíceis de reproduzir sem recorrer às próprias palavras do poeta.
Os exemplos escolhidos são emblemáticos: Paolo e Francesca, condenados a girar eternamente num turbilhão de vento, simbolizando uma paixão que não encontrou forma justa; o conde Ugolino, que devora para sempre o crânio do inimigo que o fizera morrer à fome; e a celebérrima inscrição à entrada do Inferno, “Per me si va nella città dolente…”, apresentada como verdadeira chave de acesso à “cidade dolorosa”.
Ao convocar estes episódios, o artigo cria pontos de ancoragem para leitores que, mesmo sem conhecerem o poema na íntegra, reconhecem as suas figuras mais trágicas.
Gustavo Doré: um comentador em imagens
Um dos aspectos mais interessantes do texto é a forma como consagra Gustavo Doré como o grande “comentador” visual de Dante. As gravuras são descritas como interpretações “exactas e perfeitas” das visões do poeta florentino: os diabos de formas estranhas e ameaçadoras, os condenados de rostos contorcidos pela “sobrehumana dor” e o fundo abrupto, seco e estéril compõem um Inferno que parece prolongar, em traços e sombras, a violência imagética do poema.
A Ilustração Portugueza reivindica particular cuidado na reprodução dessas imagens, sublinhando que as estampas publicadas foram retiradas diretamente da edição portuguesa, em madeira, e destacando a série como uma das partes mais valiosas da obra de Doré. A selecção é pensada como percurso visual: Dante perdido na selva escura, o encontro com Virgílio, os diversos aspetos dessa “mansão pavorosa de trevas e horrores” e alguns dos episódios mais célebres, oferecendo ao leitor um roteiro condensado do Inferno em forma de álbum.
Auto‑imagem de elite culta
No início do século XX, ao olhar para Dante, a cultura portuguesa via sobretudo um espelho elevado de si própria: aspirava à alta cultura europeia, mas filtrava-a pela sensibilidade de uma burguesia urbana que consumia clássicos em versão ilustrada, narrativa e emocionalmente carregada.
Ao assumir que “todos conhecem a trilogia” e ao citar em italiano os versos de abertura e a inscrição do Canto III, o artigo pressupõe um leitor ideal culto, poliglota, capaz de reconhecer referências e de se emocionar com elas. Esta construção de leitor funciona como auto‑retrato: a cultura portuguesa que publica este texto quer ver‑se como pertença de uma elite europeia, familiarizada com Dante, com Doré e com a tradição literária continental. Ao mesmo tempo, o gesto de “oferecer” ao público português uma selecção de estampas reforça uma missão civilizadora: educar o gosto, aproximar o leitor comum de um património que é apresentado como universal.
Dante, o anticlericalismo e o “tribunal” moral de 1909
A publicação deste artigo em 1909 sobre Dante e o Inferno acontece num momento em que o anticlericalismo em Portugal está no auge, sobretudo nos meios republicanos urbanos, e isso torna a escolha do tema particularmente significativa. Embora o texto da Ilustração Portugueza não seja abertamente político, a forma como apropria Dante e a sua visão do pecado e do castigo dialoga, de modo subtil, com o clima de contestação ao poder da Igreja.
Em 1909 o anticlericalismo já é uma bandeira forte do republicanismo, alimentado por décadas de conflito Estado–Igreja e por campanhas de mobilização que apresentam a Igreja como obstáculo à modernização do país. Ler e divulgar Dante – um leigo, poeta, crítico das corrupções do seu tempo – encaixa bem num imaginário que valoriza a denúncia dos abusos de poder, incluindo os eclesiásticos.
Esse enquadramento torna‑se ainda mais expressivo se trouxermos para cena episódios concretos como a manifestação anticlerical de 2 de agosto, que expõe nas ruas uma hostilidade aberta ao poder e à visibilidade pública da Igreja. Nessa atmosfera carregada, a escolha de Dante pela Ilustração Portugueza deixa de ser apenas literária ou estética: adquire uma ressonância simbólica que dialoga com o conflito Estado–Igreja e com a retórica republicana de regeneração moral e política.
A receção de Dante torna‑se particularmente eloquente num país onde, quase ao mesmo tempo que se marcha contra o clero nas ruas – como na manifestação anticlerical de 2 de agosto – se lê, comenta e ilustra com entusiasmo o poeta medieval que põe príncipes, prelados e poderosos no banco dos réus; ao circular em revistas como a Ilustração Portugueza, o Inferno oferece ao público urbano um tribunal simbólico em que os abusos de poder – também os que vestem batina – são julgados em nome de uma ordem moral superior, permitindo a uma cultura em acelerada laicização reconhecer‑se discretamente nas condenações dantescas sem precisar de as enunciar em chave panfletária.
Em jeito de conclusão
Em 1909, num Portugal marcado por forte anticlericalismo e por manifestações nas ruas contra o clero, a publicação, na Ilustração Portugueza, de um artigo sobre o Inferno de Dante, ilustrado por Gustavo Doré, revela muito da auto‑imagem cultural da época: recupera-se a figura do poeta exilado, cansado das fações e das alianças entre poder político e religioso, como modelo de intelectual crítico; apresenta-se o Inferno como arquitetura moral rigorosa, onde príncipes, prelados e poderosos são julgados por uma ordem superior à das instituições; e oferece-se ao público urbano um acesso moderno, visual e prestigiante a um clássico europeu que permite, de forma discreta, ressoar com um imaginário de denúncia de abusos de poder – também os que vestem batina – sem recorrer ao tom panfletário, conciliando, assim, ambição de alta cultura, vontade de laicização e fascínio pelo macabro organizado num “tribunal” simbólico de justiça poética.
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Como referir este texto:
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VEIGA, Francisca Branco (2026), Dante na Ilustração Portugueza de 1909: Inferno, imagens e anticlericalismo na cultura portuguesa (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [04 de Fevereiro de 2026].
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