Conflitos entre Estado e Igreja na segunda metade do século XIX – comparação entre França, Itália e Alemanha

Cartoon satírico publicado em 1875 fazendo referência à Questão religiosa.
http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1758
Autor: Bordallo Pinheiro

Esta comparação mostra que os conflitos entre Estado e Igreja na segunda metade do século XIX tinham uma origem comum — a afirmação do Estado liberal moderno —, mas assumiram formas muito diferentes.

Cenário de conflito entre o Estado liberal e a Igreja Católica – comparação entre Alemanha, França e Itália

Alemanha (1871–1878)França (1880–1882)Itália (1866–1887)
Otto von BismarckCharles de Freycinet / Jules FerryVítor Emanuel II, Agostino Depretis e Francesco Crispi
Império Alemão (1871)Terceira RepúblicaReino de Itália

Política de unificação conduzida por Bismarck
Política republicana e laicizantePolítica nacional e unificadora
Alvo principal: Companhia de Jesus e Igreja CatólicaAlvo principal: Companhia de Jesus e congregações não autorizadasAlvo principal: ordens religiosas e poder temporal da Igreja
Lei dos Jesuítas (1872)
Kulturkampf (1871-1878)
Decretos de 29 de março de 1880 contra os JesuítasLeis de supressão das ordens religiosas (1866–1867) e medidas anticongregacionistas posteriores
Controlo estatal sobre o cleroLaicização do ensinoSecularização do património e limitação da influência eclesiástica
Leis de Maio (1873)Leis escolares de Jules Ferry (1881–1882)Lei das Garantias (1871) e consolidação do Estado liberal
Conflito centrado na influência do VaticanoConflito centrado na influência das congregações religiosasConflito centrado na Questão Romana e na perda dos Estados Pontifícios

A França foi o caso mais radical.

Na segunda metade do século XIX, o conflito entre o Estado liberal e a Igreja Católica na França intensificou-se drasticamente. Este período foi marcado pela transição do Segundo Império para a Terceira República, onde a Igreja era vista pelos liberais como uma força contrarrevolucionária que ameaçava a modernização do país.

O Segundo Império (1852–1870): Aliança Tática e Tensões

No início do regime de Napoleão III, a Igreja viveu um período de forte influência e expansão:

  • Apoio ao Regime: A Igreja apoiou o golpe de Estado de Napoleão III em troca da proteção dos seus privilégios e do controlo do ensino público.
  • A Lei Falloux (1850): Esta lei continuou em vigor, dando ao clero enorme poder na gestão e fiscalização das escolas primárias e secundárias.
  • A Questão Romana: O envio de tropas francesas para Roma para proteger o Papa Pio IX contra os nacionalistas italianos gerou forte oposição dos liberais franceses, que viam a Igreja como um entrave à liberdade e unificação dos povos.
Proclamação da Segunda República Francesa durante a Revolução de Fevereiro, 24 de fevereiro de 1848, folha avulsa publicada por Gadola, Lyon, 1848,

A Terceira República (A partir de 1870): O Combate ao Clericalismo

Após a queda de Napoleão III e a instauração da Terceira República, o conflito tornou-se aberto e ideológico sob o lema de Léon Gambetta: “O clericalismo, eis o inimigo!”.

  • O Silabo dos Erros (1864): A encíclica Quanta cura e o Syllabus do Papa Pio IX já tinham condenado explicitamente o liberalismo, a liberdade de imprensa e o secularismo. Isto convenceu os republicanos franceses de que o catolicismo era incompatível com a República.
  • Ameaça Monárquica: Nas décadas de 1870 e 1880, a maioria do clero francês apoiou abertamente as tentativas de restauração da monarquia, o que levou os republicanos a verem a Igreja como uma ameaça direta à segurança do Estado.

O objetivo dos republicanos era construir uma sociedade em que:

  • o ensino fosse exclusivamente estatal;
  • as congregações religiosas perdessem influência;
  • a Igreja deixasse de condicionar a política.

Os principais alvos foram:

  • os Jesuítas;
  • os Irmãos das Escolas Cristãs;
  • dominicanos;
  • capuchinhos;
  • outras congregações dedicadas ao ensino.

A Laicização do Ensino (Década de 1880)

Os decretos de 1880 tornaram-se um símbolo desta política.

Os liberais identificaram as escolas como o principal campo de batalha para moldar a mentalidade das futuras gerações republicanas:

  • Leis Jules Ferry (1881–1882): Afastaram completamente o ensino religioso das escolas públicas, tornando a instrução primária obrigatória, gratuita e laica.
  • Substituição do Clero: Os professores religiosos foram progressivamente substituídos por professores civis formados pelo Estado (os chamados “hussardos negros” da República).
  • Simbolismo Público: Retiraram-se crucifixos e símbolos religiosos dos tribunais, hospitais e edifícios públicos.

A imprensa católica europeia falava frequentemente de uma “nova perseguição religiosa”.

A Tentativa de Trégua: O Ralliement (1892)

Diante do avanço do secularismo liberal, o Papa Leão XIII adotou uma postura mais pragmática:

  • Encíclica Au milieu des sollicitudes: O Papa aconselhou os católicos franceses a aceitarem e a integrarem-se na República para tentar influenciar as leis a partir de dentro, em vez de combaterem o regime.
  • Resultado Limitado: Embora alguns católicos moderados tenham aderido, a desconfiança mútua permaneceu alta na sociedade francesa.

O Caso Dreyfus (Final do Século XIX)

O final do século foi dominado pelo escândalo político do Caso Dreyfus, que dividiu o país e selou o destino da Igreja:

  • Igreja Antidreyfusarda: A maioria das ordens religiosas e a imprensa católica assumiram uma postura nacionalista, militarista e profundamente antissemita contra o capitão Alfred Dreyfus.
  • Justificação para a Rutura: A vitória dos defensores de Dreyfus (republicanos e radicais de esquerda) convenceu o governo liberal de que a influência política da Igreja e das congregações religiosas tinha de ser definitivamente eliminada, preparando o terreno para a Lei de Separação que surgiria em 1905.

Itália: o Estado contra o poder temporal do Papa

Risorgimento: desenho satírico retratando os heróis do Risorgimento Giuseppe Garibalidi (1807-1882) regulando a questão romana, controvérsia política sobre o papel de Roma, sede do poder temporal do Papa e capital do novo reino. Italian School/ Private Collection.

A unificação da Itália na segunda metade do século XIX gerou um dos conflitos mais intensos entre o Estado liberal e a Igreja Católica, conhecido historicamente como a Questão Romana, onde o novo reino italiano combateu diretamente o poder temporal (político e territorial) do Papa.

O Estado não pretendia destruir a Igreja.

Pretendia impedir que o Papa continuasse a ser um soberano territorial.

As medidas concentravam-se em:

  • extinguir muitos conventos;
  • confiscar bens eclesiásticos;
  • integrar Roma no novo Reino.

Os Jesuítas sofreram perdas importantes, mas nunca houve uma campanha tão espetacular como em França.

O centro do conflito era:

Quem é o verdadeiro soberano de Roma?

O Contexto: Risorgimento e a Ideia de Roma

  • A Itália Fragmentada: Até meados do século XIX, a península italiana estava dividida em vários reinos, incluindo os Estados Pontifícios, governados diretamente pelo Papa Pio IX.
  • O Ideal Liberal: Líderes liberais e nacionalistas como o Conde de Cavour (primeiro-ministro do Reino da Sardenha-Piemonte) e Giuseppe Garibaldi viam o absolutismo papal como o maior obstáculo à modernização e unificação do país.
  • “Roma Capital”: Cavour cunhou a célebre frase “Igreja livre num Estado livre”, defendendo que o Papa deveria ter poder espiritual absoluto, mas abdicar completamente do poder político.

As Etapas da Perda do Poder Temporal

O avanço do Estado liberal italiano sobre os territórios da Igreja fez-se pela força das armas e da legislação:

  • Leis Siccardi (1850): No Piemonte, aboliram os privilégios dos tribunais eclesiásticos e o direito de asilo nas igrejas, iniciando a submissão do clero às leis civis.
  • Anexação de Territórios (1859–1860): Com a Segunda Guerra da Independência Italiana, o Piemonte anexou a maior parte dos Estados Pontifícios (Romagna, Marche e Úmbria), reduzindo o território do Papa apenas à região de Roma (Lácio).
  • Proteção Francesa: Roma só não caiu imediatamente porque Napoleão III enviou tropas francesas para guarnecer a cidade e proteger o Papa, temendo a reação dos católicos em França.

1870: A Queda de Roma e a Brecha da Porta Pia

O colapso do poder temporal papal ocorreu devido a um evento internacional:

  • A Retirada Francesa: Em 1870, com o eclodir da Guerra Franco-Prussiana, Napoleão III foi obrigado a retirar a sua guarnição militar de Roma.
  • O Ataque Italiano: A 20 de setembro de 1870, as tropas do Reino de Itália bombardearam as muralhas de Roma e entraram na cidade através da Porta Pia.
  • Fim dos Estados Pontifícios: Roma foi anexada, o poder temporal dos Papas chegou ao fim após mais de mil anos e a cidade foi proclamada a capital oficial da Itália unificada.

A Reação Papal: O “Prisioneiro do Vaticano”

O Papa Pio IX recusou-se categoricamente a aceitar a nova realidade política:

  • Rejeição da Lei das Garantias (1871): O Estado liberal italiano tentou pacificar a situação aprovando uma lei que garantia a imunidade do Papa, honras soberanas e uma pensão anual. Pio IX recusou o dinheiro e o acordo, considerando o governo italiano um “usurpador”.
  • Prisioneiro Voluntário: O Papa fechou-se nos palácios do Vaticano e declarou-se prisioneiro do Estado italiano.
  • O Non Expedit (1874): Pio IX emitiu uma bula proibindo terminantemente todos os católicos italianos de votar ou de participar na vida política do Estado liberal (“nem eleitos, nem eleitores”). Isto sabotou a legitimidade política do novo regime durante décadas.

A Resolução Tardia: Tratado de Latrão (1929)

Este conflito de soberania arrastou-se por quase 60 anos, paralisando a política italiana. O impasse só foi resolvido já no século XX, quando o ditador Benito Mussolini, procurando legitimidade interna, assinou com o Papa Pio XI o Tratado de Latrão, que extinguiu definitivamente a disputa ao criar o moderno Estado da Cidade do Vaticano.

Alemanha: o Kulturkampf

” Wilhelm Scholtz – Kladderadatsch, 16 de maio de 1875; republicado em: Bismarck-Album des Kladderadatsch. Com trezentos desenhos de Wilhelm Scholz e quatro cartas fac-similadas do Chanceler Imperial. Berlim, 1890, p. 86. Caricatura da Kulturkampf (Cultura de Combate) “Entre Berlim e Roma” da revista Kladderadatsch, 16 de maio de 1875. A legenda diz: (Papa:) “O último movimento foi certamente muito desagradável para mim; mas isso ainda não significa que o jogo esteja perdido. Eu ainda tenho mais uma jogada excelente na manga!” (Bismarck:) “Essa também será a última, e então você estará em xeque-mate em poucas jogadas — pelo menos na Alemanha.” No canto inferior esquerdo da mesa, pode-se ver que vários bispos já foram aprisionados (internirt) por Bismarck. Algumas das peças de xadrez contêm palavras escritas: Interdito (Interdict), Encíclica (Encycl.), Sílabo (Syllab.) e Lei dos Mosteiros (Klostergesetz). Outras são símbolos do poder estatal alemão (Germânia representa o Império Alemão, os símbolos de parágrafo § representam a lei alemã) ou do poder eclesiástico católico (as mitras representam a autoridade episcopal). Note o erro do caricaturista na orientação do tabuleiro de xadrez ao colocar as casas brancas à esquerda dos jogadores.

Na Alemanha da segunda metade do século XIX, o conflito entre o Estado liberal-nacionalista e a Igreja Católica ganhou o nome de Kulturkampf (Luta Cultural). Este embate foi liderado pelo Chanceler de Ferro, Otto von Bismarck, logo após a unificação alemã em 1871.

Após a unificação de 1871, o chanceler Otto von Bismarck receava que os católicos obedecessem mais ao Papa do que ao novo Império.

Daí nasceu o chamado Kulturkampf (“luta cultural”).

As principais medidas foram:

  • expulsão dos Jesuítas (Lei dos Jesuítas de 1872);
  • controlo estatal da formação dos padres;
  • fiscalização dos seminários;
  • prisão ou expulsão de bispos resistentes;
  • obrigação de aprovação estatal para muitos atos eclesiásticos.

Ao contrário da França, aqui o objetivo não era tanto criar uma escola laica, mas garantir que o Estado controlasse a organização da Igreja.

O Contexto: As Causas do Conflito

  • O Dogma da Infalibilidade Papal (1870): O Papa Pio IX proclamou que as suas decisões doutrinárias eram infalíveis. Bismarck e os liberais alemães viram isto como uma ameaça, temendo que os católicos fossem mais leais ao Papa do que ao recém-criado Império Alemão.
  • A Minoria Católica: A Alemanha unificada era de maioria protestante e dominada pela Prússia. Os católicos (cerca de um terço da população, concentrados na Baviera e na Renânia) eram vistos com desconfiança.
  • O Partido do Centro (Zentrum): Fundado em 1870 para defender os interesses dos católicos, este partido tornou-se rapidamente uma força política poderosa. Bismarck temia que o Zentrum se aliasse a outras minorias (como os polacos católicos na Prússia) para destabilizar o Império.
  • Aliança com os Liberais: Para governar, Bismarck aliou-se aos Liberais Nacionais, que viam a Igreja Católica como uma instituição medieval, obscurantista e inimiga do progresso científico e da modernização.

As Medidas Opressivas: As “Leis de Maio” (Prússia)

O auge da Kulturkampf ocorreu na Prússia (o maior estado alemão) entre 1871 e 1875, através de uma legislação estatal agressiva:

  • Parágrafo do Púlpito (Kanzelparagraph, 1871): Uma lei imperial que proibia os padres de fazerem discursos políticos ou críticas ao governo durante os sermões, sob pena de prisão.
  • Expulsão dos Jesuítas (1872): A ordem dos Jesuítas foi banida do território alemão, e os seus membros estrangeiros foram expulsos.
  • As Leis de Maio (1873): Redigidas pelo ministro da Cultura prussiano, Adalbert Falk, colocaram a Igreja sob controlo absoluto do Estado. Exigiam que os padres fossem educados em universidades alemãs estatais e davam ao governo o poder de veto sobre as nomeações clericais.
  • Registo Civil Obrigatório (1874–1875): O casamento civil tornou-se obrigatório em todo o Império, retirando à Igreja o monopólio sobre os registos de nascimento, casamento e óbito.
  • Corte de Subsídios (Brotkorbgesetz, 1875): Suspensão de todos os fundos estatais para as paróquias católicas que não jurassem obediência às leis do Estado.

A Resistência Católica

Ao contrário do que Bismarck esperava, a comunidade católica não cedeu à pressão estatal:

  • Desobediência Civil: Bispos e padres recusaram-se a cumprir as Leis de Maio. Como resultado, metade dos bispos prussianos foi presa ou exilada, e milhares de paróquias ficaram sem padres.
  • Fortalecimento do Zentrum: A perseguição uniu os católicos. O eleitorado do Partido do Centro duplicou durante a Kulturkampf, transformando-o num bloco político impossível de ignorar no parlamento (Reichstag).

O Recuo de Bismarck e o Fim do Conflito (1878–1887)

No final da década de 1870, Bismarck percebeu que a Kulturkampf tinha falhado e que precisava de mudar de estratégia:

  • A Ascensão do Socialismo: O crescimento do Partido Social-Democrata (SPD) passou a ser visto por Bismarck como a verdadeira ameaça ao Império. Ele percebeu que precisava dos católicos conservadores para combater o socialismo.
  • Novo Papa: A morte do intransigente Pio IX e a eleição de Leão XIII (1878), um diplomata mais pragmático, abriram caminho para negociações.
  • Revogação das Leis: Entre 1880 e 1887, a maioria das Leis de Maio foi revogada. O Estado devolveu o controlo interno à Igreja e readmitiu as ordens religiosas (exceto os Jesuítas). No entanto, o Estado manteve vitórias duradouras, como o casamento civil e a supervisão pública das escolas.

Os Jesuítas nos três países

FrançaItáliaAlemanha
Expulsão em 1880Casas encerradas progressivamenteExpulsão em 1872
Acusados de dominar o ensinoAcusados de defender o poder temporal do PapaAcusados de ameaçar a unidade nacional
Grande campanha na imprensaQuestão mais ligada à unificação italianaIntegrados no Kulturkampf

1. Detalhes Específicos por País

  • França (O Alvo da Educação):
    • A expulsão de 1880, decretada por Jules Ferry, focou-se no famoso Artigo 7º da sua reforma educativa. Este artigo proibia especificamente que membros de congregações religiosas não autorizadas (como os Jesuítas) dirigissem ou ensinassem em escolas.
    • Os Jesuítas controlavam os colégios secundários onde estudavam as elites conservadoras e os futuros generais do exército francês. Os liberais temiam que a Companhia de Jesus estivesse a treinar uma elite militar para derrubar a República (o que mais tarde alimentou a paranoia no Caso Dreyfus).
  • Itália (A Perda de Sedes Históricas):
    • Em Itália, a supressão dos Jesuítas ocorreu logo em 1873, no âmbito das leis de laicização pós-unificação.
    • O golpe para a Ordem foi profundamente simbólico e doloroso: o Estado italiano confiscou as grandes propriedades históricas da Companhia em Roma, incluindo a Igreja de Jesus (Chiesa del Gesù), o Collegio Romano (fundado pelo próprio Santo Inácio de Loyola) e a sede da liderança global da Ordem (a Cúria Geral). O Superior Geral dos Jesuítas foi forçado a exilar-se fora de Roma.
  • Alemanha (A Paranoia da Espionagem):
    • A Jesuitengesetz (Lei dos Jesuítas) de 1872 não só dissolveu as suas residências, como deu ao Estado o poder de exilar individualmente os jesuítas alemães ou fixar-lhes residência forçada.
    • Bismarck promoveu a teoria da conspiração de que os Jesuítas eram “agentes estrangeiros” (leais a Roma) que espionavam contra o Império Alemão e manipulavam os polacos católicos na Prússia Oriental para sabotar o nacionalismo alemão.

2. A Estratégia de Adaptação dos Jesuítas (Como sobreviveram?)

  • Resistência Através das Fronteiras: Expulsos da Alemanha e de França, os Jesuítas não desapareceram. Eles fundaram colégios e casas de formação mesmo junto às fronteiras (na Bélgica, Países Baixos, Áustria e Reino Unido). Os estudantes franceses e alemães ricos viajavam para estes colégios fronteiriços para continuar a receber educação jesuíta.
  • A Diáspora Americana: Milhares de jesuítas expulsos da Europa Central e da Itália migraram para as Américas (sobretudo para os Estados Unidos). Lá, fundaram uma vasta rede de universidades (como Georgetown, Fordham e Boston College) que ajudou a moldar o catolicismo americano.

3. A Resposta Intelectual e a Imprensa (Armas de Combate)

  • A revista La Civiltà Cattolica: Fundada em Itália em 1850 com o apoio direto do Papa Pio IX, esta revista gerida por Jesuítas tornou-se a voz oficiosa do Vaticano na Europa. Era o principal órgão ideológico de combate ao liberalismo, ao socialismo e à laicização do Estado, lida por elites clericais em todo o continente.
  • A Reconstrução da Escolástica: Sob as ordens de Leão XIII (na encíclica Aeterni Patris, 1879), os Jesuítas lideraram o renascimento do Tomismo (a filosofia de São Tomás de Aquino). O objetivo era criar um sistema intelectual e científico católico rigoroso que pudesse rivalizar de igual para igual com o positivismo e o materialismo dos cientistas liberais.

4. O Paradoxo do Fim do Século

Apesar de terem sido o alvo número um dos três governos, a perseguição acabou por ter o efeito inverso ao desejado pelos liberais: fortaleceu o Ultramontanismo (a submissão absoluta ao Papa). Ao perderem a proteção e os privilégios dos seus Estados nacionais, os bispos e o clero local de França, Itália e Alemanha uniram-se ainda mais em torno do Papa e dos Jesuítas, tornando a Igreja Católica muito mais centralizada e homogénea do que era antes de 1850.

Como reagiu o Papa?

Tanto Pio IX (liderou a Igreja Católica de 1846 até 1878) como Leão XIII (governou a Igreja Católica de 1878 a 1903 e ficou conhecido como o “Papa das Encíclicas” por introduzir a instituição na era moderna) viam estes acontecimentos como manifestações de uma mesma tendência europeia: a tentativa dos Estados liberais de submeter a Igreja ao poder civil.

Por isso, Roma procurou coordenar uma resposta internacional através de:

  • cartas pastorais;
  • encíclicas;
  • imprensa católica;
  • fortalecimento das congregações religiosas, especialmente da Companhia de Jesus.

Os Jesuítas tornaram-se, assim, uma espécie de “tropa de elite” intelectual da Santa Sé, dedicando-se ao ensino, à apologética, à imprensa e às missões.

Repercussão em Portugal

A imprensa portuguesa acompanhava atentamente os três casos, mas atribuía-lhes significados distintos:

  • França representava o modelo do anticlericalismo republicano e da laicização do ensino.
  • Itália simbolizava o conflito entre o Estado nacional e o Papado, centrado na Questão Romana.
  • Alemanha era apresentada como o exemplo de um Estado forte que procurava disciplinar a Igreja em nome da unidade política.

Os jornais católicos portugueses estabeleciam frequentemente um paralelo entre os três países, falando de uma “ofensiva liberal contra a Igreja”. Em contraste, a imprensa liberal via neles expressões diversas de um mesmo princípio: a supremacia do Estado sobre qualquer poder considerado supranacional.

Síntese

Podemos resumir os três casos numa fórmula simples:

  • França: Quem educa a juventude? → o Estado ou as congregações religiosas?
  • Itália: Quem governa Roma? → o Rei de Itália ou o Papa?
  • Alemanha: A quem devem lealdade os católicos? → ao Imperador alemão ou ao Papa?

Embora diferentes nos seus objetivos imediatos, estes três conflitos alimentaram um intenso debate transnacional sobre os limites da autoridade civil e da autoridade religiosa. Foi precisamente esse debate que a imprensa portuguesa das décadas de 1870 e 1880 acompanhou de perto, utilizando exemplos franceses, italianos e alemães para discutir problemas internos como a educação, a liberdade das congregações religiosas e o papel da Igreja na sociedade portuguesa.

Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, Conflitos entre Estado e Igreja na segunda metade do século XIX – comparação entre França, Itália e Alemanha (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [25 de Agosto de 2026].

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[investigação em curso]

A República contra as Congregações: um conflito francês que incendiou o debate em Portugal (Decretos de 1880)

Protesto popular durante a expulsão da Companhia de Jesus das suas instalações da Rue de Sèvres, em Paris, em 30 de junho de 1880. In La Ilustración española y americana, n.º 26, 15/7/1880, p. 20.

Década de 1870 — controvérsias ligadas às leis anticlericais em França (culminando nos decretos de 1880 contra congregações religiosas, incluindo a Companhia de Jesus), temas muito debatidos na imprensa católica e liberal portuguesa.

Trata-se de um dos grandes conflitos político-religiosos da Europa do século XIX. Embora os decretos de 29 de março de 1880, que visavam particularmente a Companhia de Jesus e as congregações religiosas não autorizadas, sejam o momento mais conhecido, eles foram o culminar de um processo iniciado na década de 1870, marcado pela afirmação do republicanismo francês e pelo anticlericalismo.

Esse conflito teve enorme repercussão em Portugal, onde a imprensa se dividiu entre jornais católicos ultramontanos e jornais liberais ou republicanos.

Contexto francês

Após a derrota na Guerra Franco-Prussiana (1870-71) e a queda do Segundo Império, nasceu a Terceira República. Nos primeiros anos, a nova República era politicamente instável:

  • os monárquicos eram ainda muito influentes;
  • os republicanos procuravam consolidar o novo regime;
  • a Igreja Católica era vista por muitos republicanos como aliada da monarquia e do conservadorismo.

Assim, a luta política transformou-se também numa luta sobre o lugar da religião na sociedade.

Porque eram os jesuítas um alvo?

Capela de Nossa Senhora na Igreja de Jesus da Casa-Mãe da Companhia de Jesus, na Rue de Sèvres, em Paris. In L’Illustration (jornal ilustrado), 3 de julho de 1880.

A Companhia de Jesus ocupava uma posição muito particular. Os republicanos acusavam-na de:

  • obedecer primeiro ao Papa e só depois ao Estado francês;
  • dominar o ensino secundário através dos colégios;
  • influenciar politicamente a juventude aristocrática;
  • representar o “ultramontanismo”, isto é, a supremacia da autoridade papal sobre os poderes civis.

Estas acusações eram frequentemente exageradas, mas tinham forte impacto na opinião pública.

A ofensiva anticlerical

Entre 1877 e 1880, o governo republicano endureceu progressivamente. O ministro da Instrução Pública, Jules Ferry, defendia uma escola:

  • gratuita;
  • obrigatória;
  • laica.

Ao mesmo tempo, vários ministros consideravam necessário reduzir a influência das congregações religiosas.

O momento decisivo chegou com os decretos de 29 de março de 1880, promovidos pelo governo de Charles de Freycinet e executados sobretudo pelo ministro do Interior Ernest Constans.

Retrato de Charles de Freycinet,
da autoria de Gabriel Ferrier, 1894.

Os detalhes destes decretos incluem:

  • O Primeiro Decreto: Ordenou a dissolução da Companhia de Jesus (Jesuítas) em território francês, concedendo um prazo de três meses aos seus membros para evacuarem os seus estabelecimentos.
  • O Segundo Decreto: Visou todas as restantes congregações religiosas não reconhecidas legalmente. Exigiu que estas ordens submetessem os seus estatutos e solicitassem autorização oficial ao Estado no prazo de três meses, sob pena de enfrentarem a mesma dissolução.
  • Contexto de Laicização: Faziam parte de um programa mais amplo de reformas republicanas e de laicização do ensino impulsionado por figuras como Jules Ferry, então Ministro da Instrução Pública.
  • Reações e Consequências: Os decretos geraram forte oposição e indignação no seio do clero e da elite conservadora. Vários magistrados recusaram-se a aplicar as ordens de expulsão e demitiram-se. Quando algumas congregações se recusaram a obedecer, o governo recorreu à força militar para dispersar os religiosos e encerrar os edifícios, um processo que continuou intensamente sob o executivo seguinte de Jules Ferry.

Como muitas congregações recusaram fazê-lo, centenas de casas religiosas foram encerradas.

Execução dos decretos

A execução dos decretos de 29 de março de 1880 foi um processo tenso, marcado por forte resistência civil, divisões políticas e pelo uso da força militar. O processo ocorreu em duas fases distintas devido a uma crise governamental.

1. Primeira Fase: A Expulsão dos Jesuítas (Junho de 1880)

  • O Alvo: O primeiro decreto visava exclusivamente a Companhia de Jesus (Jesuítas).
  • A Ação: Em 30 de junho de 1880, esgotado o prazo de três meses, o governo dissolveu a ordem.
  • A Resistência: Cerca de 5600 jesuítas foram expulsos das suas residências e colégios. Muitos recusaram-se a sair voluntariamente, forçando as autoridades a arrombar portas. Multidões de fiéis católicos e deputados conservadores concentraram-se junto dos edifícios para protestar e tentar impedir as expulsões.

2. A Crise de Freycinet e as Negociações Secretas

  • Solidariedade: Em apoio aos Jesuítas, as restantes congregações recusaram-se em massa a pedir a autorização exigida pelo segundo decreto.
  • Recuo Político: O Primeiro-Ministro Charles de Freycinet, hesitante em usar a força contra todas as ordens, tentou negociar secretamente com o Vaticano. Ele pretendia que as ordens declarassem fidelidade à República em troca da não aplicação dos despejos.
  • A Queda: A imprensa republicana descobriu e denunciou as negociações secretas. Humilhado e acusado de fraqueza pelos republicanos radicais, Freycinet demitiu-se em setembro de 1880.

3. Segunda Fase: A Ofensiva de Jules Ferry (Outubro–Novembro de 1880)

Jules François Camille Ferry 
(Francês: 5 April 1832 – 17 March 1893)

[Jules Ferry instituiu a gratuitidade do ensino primário em 1881, tornando-o obrigatório e laico em 1882. O ensino primário público, gratuito, obrigatório e laico constituiu um dos principais pilares da Terceira República Francesa e um dos instrumentos fundamentais da política de secularização do Estado]

  • Mão de Ferro: Jules Ferry assumiu a liderança do governo e aplicou o segundo decreto com extrema rigidez.
  • O Cerco Militar: Entre outubro e novembro de 1880, o exército e a polícia cercaram e invadiram centenas de mosteiros e conventos masculinos não autorizados (como os Beneditinos, Franciscanos e Dominicanos).
  • Casos Emblemáticos: Em alguns locais, como na Abadia de Saint-Michel de Frigolet, os monges barricaram-se e partilharam o cerco com milhares de civis que os defendiam, exigindo dias de cerco militar até à capitulação e expulsão.

4. Consequências na Sociedade

  • Purga na Magistratura: Centenas de juízes e procuradores públicos franceses demitiram-se ou foram suspensos por se recusarem a assinar ou executar as ordens de despejo, que consideravam ilegais e violadoras dos direitos de propriedade.
  • O Exílio: Milhares de religiosos franceses abandonaram o país, refugiando-se em nações vizinhas como a Bélgica, Espanha, Itália e Reino Unido, onde fundaram novas comunidades e colégios.

A aplicação foi muito visível. Em numerosas cidades:

  • polícia;
  • magistrados;
  • militares

entravam nos conventos para expulsar os religiosos. As imagens das expulsões circularam por toda a Europa.

Houve:

  • resistência passiva;
  • multidões a apoiar os religiosos;
  • forte cobertura jornalística.

Embora tenha existido tensão, a violência física foi relativamente limitada.

A reação católica europeia

A imprensa católica apresentou os acontecimentos como:

  • perseguição religiosa;
  • violação da liberdade de consciência;
  • ataque à Igreja universal.

O Papa Leão XIII protestou energicamente. Bispos de vários países manifestaram solidariedade para com os jesuítas e outras congregações.

Papa Leão XIII, 1892.
Vincenzo Gioacchino Pecci (1810-1903) 

A receção em Portugal

Portugal acompanhou estes acontecimentos quase diariamente. O debate tinha uma razão evidente: Portugal possuía igualmente uma tradição liberal anticongregacionista desde a extinção das ordens religiosas masculinas em 1834.


Por isso, muitos perguntavam: Deveria Portugal seguir o exemplo francês?

As repercussões dividiram-se: a imprensa republicana e o movimento Geração de 70 aplaudiram a medida como um avanço contra o clericalismo, enquanto as elites católicas e monárquicas protestaram.

O eco e impacto em território português manifestaram-se em diferentes frentes:

  • Apoio da Geração de 70 e Republicanos: Intelectuais como Teófilo Braga e Antero de Quental viam o modelo francês com entusiasmo. Para os defensores da República e da ciência positiva, a França representava a vanguarda do progresso e do combate à influência ultramontana da Igreja Católica.
  • Agitação na Imprensa: Jornais liberais e anticlericais publicaram extensos artigos debatendo a separação entre a Igreja e o Estado.
  • Receio Monárquico: O governo e os setores conservadores portugueses encararam a medida com receio, temendo que a expulsão de religiosos de França pudesse resultar na sua vinda para Portugal, reforçando as fileiras do clero católico local num momento em que a Primeira República Francesa se consolidava.
  • Asilo a Congregações: Na prática, muitos religiosos expulsos em França procuraram refúgio e acolhimento noutros países europeus, incluindo Portugal, o que alimentou ainda mais o debate interno sobre o peso das ordens religiosas.

A imprensa dividiu-se.

Imprensa católica

Jornais como:

  • A Palavra
  • A Nação
  • O Bem Público (em certos períodos)

descreviam os decretos franceses como:

  • perseguição à Igreja;
  • ataque à civilização cristã;
  • consequência do racionalismo e da Maçonaria.

Os jesuítas eram apresentados como educadores e missionários injustamente perseguidos. Era frequente comparar a situação francesa às perseguições da Revolução Francesa.

Imprensa liberal

Obra do cartoonista português João Abel Manta, intitulada “Um problema difícil”.
A imagem, datada de cerca de 1970, retrata clérigos sob escrutínio, refletindo temas de anticlericalismo na sociedade.

Jornais liberais e republicanos defendiam o contrário. Argumentavam que:

  • o Estado tinha direito de controlar associações religiosas;
  • nenhuma corporação devia escapar à autoridade civil;
  • os jesuítas constituíam um “Estado dentro do Estado”.

Muitos viam Jules Ferry como defensor da liberdade do ensino público.

Porque interessava tanto aos portugueses?

Porque várias questões estavam também em discussão em Portugal:

  • ensino religioso;
  • influência do clero na política;
  • presença de congregações femininas;
  • eventual regresso das congregações masculinas.

Assim, França funcionava como um “laboratório político”. Os jornais portugueses usavam constantemente o exemplo francês para defender posições sobre a política nacional.

Consequências

Os decretos de 1880 não resolveram definitivamente a chamada “questão religiosa”. Na realidade, abriram caminho para novas medidas:

  • laicização do ensino (leis de Jules Ferry de 1881-1882);
  • restrições crescentes às congregações;
  • Lei das Associações de 1901;
  • expulsão de numerosas congregações em 1902-1904;
  • separação entre Igreja e Estado em 1905.

Assim, os decretos de 1880 constituem normalmente o primeiro grande episódio da política anticlerical sistemática da Terceira República.

Interesse para a história portuguesa

O impacto dos decretos de 1880 ultrapassou largamente as fronteiras francesas. Em Portugal, este episódio assumiu particular relevância porque permitiu observar a forma como a imprensa nacional apropriava e reinterpretava os grandes debates europeus.

Os jornais portugueses utilizaram o caso francês para discutir questões centrais da política nacional:

  • Liberalismo e os limites da intervenção do Estado;
  • Catolicismo e o papel da Igreja na sociedade;
  • Educação, nomeadamente o confronto entre ensino laico e ensino confessional;
  • Soberania do Estado face às congregações religiosas;
  • Liberdade religiosa e direitos de associação.

Consequentemente:

  • a imprensa católica apresentou os decretos como uma perseguição religiosa e uma ameaça à civilização cristã;
  • a imprensa liberal e republicana interpretou-os como uma afirmação legítima da autoridade do Estado e da laicização das instituições.

Em síntese:

Decretos franceses de 1880debate na imprensa portuguesareinterpretação segundo as divisões ideológicas nacionaisreflexão sobre o futuro das relações entre Estado, Igreja e ensino em Portugal.

Conclusão

Os decretos de 29 de março de 1880 constituíram um marco decisivo na afirmação da política laicizadora da Terceira República Francesa, simbolizando o confronto entre um Estado republicano que pretendia afirmar a sua autoridade e uma Igreja Católica que reivindicava autonomia na esfera religiosa e educativa. Embora dirigidos inicialmente contra a Companhia de Jesus e, posteriormente, contra as restantes congregações religiosas não autorizadas, estes decretos ultrapassaram a realidade francesa e transformaram-se num tema de alcance europeu, alimentando um intenso debate sobre os limites da intervenção do Estado, a liberdade religiosa, o papel da educação e a relação entre poder civil e autoridade eclesiástica.

Em Portugal, a repercussão foi particularmente significativa. A imprensa apropriou-se do caso francês para sustentar posições antagónicas sobre questões que também dividiam a sociedade portuguesa, como o ensino, a influência política do clero, a presença das congregações religiosas e a própria definição do Estado liberal. Enquanto os periódicos católicos denunciaram uma perseguição à Igreja e apresentaram os religiosos como vítimas do anticlericalismo republicano, os jornais liberais e republicanos interpretaram os acontecimentos como uma necessária afirmação da soberania do Estado perante corporações consideradas excessivamente influentes.

Mais do que um simples episódio da política interna francesa, a controvérsia em torno dos decretos de 1880 evidencia a intensa circulação internacional de ideias, argumentos e modelos políticos no século XIX. O caso francês funcionou como um verdadeiro laboratório de reflexão para a opinião pública portuguesa, revelando como os debates europeus eram reinterpretados à luz das preocupações nacionais. Nesse sentido, o estudo da receção destes acontecimentos na imprensa portuguesa permite compreender não apenas as relações entre França e Portugal, mas também as profundas clivagens ideológicas que marcaram a sociedade portuguesa nas últimas décadas de Oitocentos.

[investigação em curso]

Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, A República contra as Congregações: um conflito francês que incendiou o debate em Portugal (decretos de 1880), (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [21 de julho de 2026].

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O que foi o Kulturkampf (1871-1878)?

O Kulturkampf (“luta cultural” ou “combate pela civilização”) foi o confronto entre o Estado alemão, sob a liderança do chanceler Otto von Bismarck, e a Igreja Católica, decorrido sobretudo entre 1871 e 1878 (com resquícios legislativos até meados da década de 1880).

Esta caricatura do ano de 1875 mostra Bismarck e o Papa Pio IX a jogar xadrez, simbolizando o chamado ‘Kulturkampf‘ (Luta Cultural) entre Berlim e Roma.
Papa: «É verdade que o último lance foi-me desfavorável; mas a partida ainda não está perdida. Ainda tenho um belo lance secreto.»
Bismarck: «Esse também será o último, e depois ficará em xeque-mate ao fim de poucas jogadas — pelo menos na Alemanha.»

In Revista satírica alemã Kladderadatsch, 1875.


Contexto geral

Após a unificação alemã de 1871, Bismarck via o catolicismo — e sobretudo a sua fidelidade a uma autoridade externa, o Papa — como uma ameaça à coesão do novo Império, de maioria protestante (prussiana). O contexto agravou-se com a proclamação do dogma da infalibilidade papal no Concílio Vaticano I (1870), que Bismarck interpretou como reforço do poder papal sobre os católicos alemães, incluindo o clero e as ordens religiosas.

Mosaico da Tiara Papal na Basílica de São Pedro.

A expulsão dos Jesuítas (1872)

A Companhia de Jesus foi um alvo particular desta política, por ser vista como o braço mais disciplinado e mais diretamente subordinado a Roma. A “Lei dos Jesuítas” (Jesuitengesetz), aprovada em 4 de julho de 1872, proibiu a Ordem em todo o território do Império Alemão, permitindo às autoridades expulsar os seus membros ou restringir a sua residência. A lei estendeu-se depois a outras congregações consideradas afins (como os Redentoristas e os Lazaristas).

Principais impactos e detalhes da legislação:

  • Proibição de Estabelecimentos: Ficou estritamente proibida a criação ou manutenção de qualquer nova fundação ou residência da ordem da Companhia de Jesus.
  • Medidas de Exílio: O governo ganhou autoridade legal para banir jesuítas estrangeiros e limitar a liberdade de residência e atuação dos jesuítas de nacionalidade alemã.
  • Extensão da Lei: No ano seguinte, as restrições foram alargadas a outras congregações religiosas consideradas próximas.

A Lei dos Jesuítas e o Kulturkampp alemão (1872-1917)

Contexto
No auge do Kulturkampf — o confronto entre o Império Alemão de Bismarck e a Igreja Católica, agravado pela proclamação da infalibilidade papal no Concílio Vaticano I (1870) — a Companhia de Jesus tornou-se alvo prioritário da política antirreligiosa do Estado prussiano, por ser vista como o instrumento mais disciplinado da autoridade romana.

A expulsão (1872)
A Jesuitengesetz, promulgada a 4 de julho de 1872, proibiu a Ordem em todo o território imperial, obrigando os jesuítas alemães ao exílio. A formação dos noviços transferiu-se para a Holanda e a Grã-Bretanha, enquanto muitos religiosos partiram em missão para países como a Dinamarca, a Suécia, os Estados Unidos, o Brasil, a Índia, a Rodésia e o Japão.

Permanência da lei
Ainda que o Kulturkampf tenha sido oficialmente encerrado em 1887, a proibição manteve-se em vigor por mais três décadas, sendo apenas ligeiramente atenuada em 1904.

A Grande Guerra e a reabilitação nacional
A Primeira Guerra Mundial ofereceu aos católicos alemães, e em particular aos jesuítas, a oportunidade de reafirmar a sua lealdade patriótica, através de um serviço militar e assistencial intenso — mais de metade dos membros da Província Alemã da Ordem participou no esforço de guerra.

A revogação (1917) e o desfecho constitucional (1919)
Nesse contexto de união nacional, o Bundesrat aprovou, a 19 de abril de 1917, a revogação total da lei. Dois anos depois, a Constituição de Weimar (1919) consagrou, no seu artigo 124.º, a liberdade de associação, encerrando definitivamente a subordinação das ordens religiosas — incluindo a Companhia de Jesus — à tutela do Estado alemão.

Na fronteira alemã, a capa do Simplicissimus de 1902 traz a seguinte legenda: “Todos os anos temos de fingir uma vez que queremos entrar. Caso contrário, eles percebem que já estamos há muito tempo em casa deles” –
(Simplicissimus , 6.º ano (Jg. 6), n.º 48, p. 377, de 18 de fevereiro de 1902) – A entrada relativa à caricatura é bastante breve: para além da legenda da imagem, inclui apenas uma nota explicativa (Erläuterung) que esclarece o contexto — a caricatura refere-se aos jesuítas, proibidos na Alemanha desde 1872 pela Lei dos Jesuítas. Não há um comentário mais desenvolvido sobre esta caricatura específica; a página funciona sobretudo como um catálogo cronológico, com uma imagem/legenda/nota por entrada. In PAUL, Bruno – “An der deutschen Grenze”. Simplicissimus, Jg. 6, Nr. 48 (18 fev. 1902), p. 377.

Outras medidas do Kulturkampf

  • Leis de Maio (1873), regulando a formação e nomeação do clero, sujeitando-o a exame estatal;
  • Introdução do casamento civil obrigatório (1875);
  • Expulsão de bispos e clérigos que resistiram, encarceramento de alguns (o chamado “período dos bispos na prisão”);
  • Supressão de subsídios estatais a paróquias vacantes.

Desfecho

O conflito revelou-se contraproducente: reforçou a coesão e a mobilização eleitoral dos católicos (através do Zentrum, o partido do Centro Católico), em vez de os enfraquecer. Sebastian Haffner descreve em Alemanha: Jekyll & Hyde sumariamente a história deste partido da seguinte forma. Um extracto:

“Foi o único partido que não acolheu (a fundação do) Império Alemão com regozijo. Fundado em 1870, tornou-se um depositário de todos os elementos líderes conservadores do oeste e sul da Alemanha, os quais se sentiam inesperadamente incorporados. O objectivo do Zentrum era defender valores claramente acima e fora do Estado, sobretudo os valores do Catolicismo. Foi o único partido que na altura não acolheu a criação de Bismarck como a forma política ideal para a Alemanha, tendo no entanto decidido aceitar isso como um facto estabelecido. Bismarck acusou repetidamente o Zentrum de ser um “inimigo do Império”, mas isso não era verdade. O Zentrum não foi fundado como protesto contra o Império mas sim como um compromisso. Ele aceitou o Império com um encolher de ombros, mas trabalhava lealmente com ele, mesmo que com limitações. As reservas situavam-se no aspecto cultural. Aqui, o Zentrum era sempre inflexível”. Em todas as outras áreas ele podia dar-se ao luxo de ser oportunista.”

“Os membros deste partido caracterizavam-se por aceitarem sem quaisquer compromissos os valores religiosos e culturais católicos”*.

A partir de 1878-1879, com a eleição do Papa Leão XIII (mais conciliador do que Pio IX) e as necessidades políticas internas de Bismarck (que precisava do apoio católico contra o movimento socialista), a maior parte da legislação foi progressivamente revogada. A proibição específica dos Jesuítas, no entanto, manteve-se formalmente em vigor por mais tempo, só sendo definitivamente revogada em 1917.

Este episódio foi amplamente comentado na imprensa europeia da época, incluindo a portuguesa, tanto em jornais católicos (que o denunciavam como perseguição religiosa) como em publicações mais liberais ou anticlericais (que por vezes viam nele um paralelo com as próprias tensões entre Estado e Igreja em Portugal).

O provável interesse da imprensa portuguesa sobre o Kulturkampf

Portugal, em 1871-1878, vivia sob a Monarquia Constitucional, com uma imprensa já relativamente livre e diversificada, e um campo de tensão próprio entre setores católicos e liberais/anticlericais — o que tornava o conflito alemão um tema de interesse imediato, seja como exemplo a evitar, seja como modelo a invocar, consoante a orientação do periódico.

Os dois ângulos prováveis de leitura

  • Imprensa católica/conservadora — tenderia a apresentar o Kulturkampf como perseguição religiosa, solidarizando-se com o Papa Pio IX e com os jesuítas expulsos, e usando o episódio como advertência contra tendências anticlericais internas.
  • Imprensa liberal/anticlerical — poderia ler o conflito com mais simpatia pelo Estado alemão, ou pelo menos com interesse analítico, no contexto mais amplo das tensões europeias entre poder civil e autoridade eclesiástica (paralelas, em Portugal, aos debates sobre o regalismo, o padroado e a posição da Igreja face ao Estado liberal).
    (em desenvolvimento….)

O Kulturkampf foi a tentativa de Bismarck de subordinar a Igreja Católica ao Estado alemão, mas acabou por reforçar a identidade e a organização política dos católicos, tornando-se um dos mais marcantes conflitos entre poder civil e autoridade religiosa na Europa do século XIX.

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  • * Sebastian Haffner (1940). Germany: Jekyll And Hyde, A Contemporary Account Of Nazi Germany. SECKER AND WARBURG, pp. 210-211.

Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco, O que foi o Kulturkampf (1871-1878)? , (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [15 de julho de 2026].

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Dante na Ilustração Portugueza de 1909: Inferno, imagens e anticlericalismo na cultura portuguesa

A Divina Comédia de Dante: O Inferno. In Ilustração Portugueza de 6 de setembro de 1909

Um olhar vibrante sobre como a Ilustração Portugueza transformou o Inferno de Dante num espelho ilustrado das ambições, medos e sonhos culturais da Portugal de 1909.

O artigo sobre A Divina Comédia de Dante publicado na Ilustração Portugueza em 6 de Setembro de 1909 é um excelente pretexto para pensar como, no início do século XX, a cultura portuguesa relia os grandes clássicos através da mediação da imagem, da imprensa ilustrada e de uma sensibilidade romântico-simbolista ainda muito viva.​

Dante exilado: o poeta em busca de paz

O texto abre com uma pequena narrativa de sabor quase hagiográfico: um monge de Santa Croce conta o episódio em que Dante, já exilado e desconhecido, bate à porta de um convento, vindo “a caminho dos países que ficam para além dos nossos montes”, e apenas pede “paz”. A revista sublinha o cansaço do poeta, esgotado pelas lutas entre guelfos e gibelinos e pelas rivalidades internas do seu próprio partido, traçando o retrato de um Dante desencantado, afastado do sonho de pacificar Florença, a cidade que o havia primeiro banido e depois condenado.

Esta moldura biográfica reforça a ideia de que a Divina Comédia nasce precisamente dessa experiência de dor, nostalgia e errância – é “durante esse período doloroso” que Dante escreve a obra, concluindo os últimos cantos em Ravenna pouco antes da morte.​

O Inferno como arquitetura moral

O artigo dedica especial atenção ao Inferno, apresentado como a parte mais celebrada da trilogia (Inferno, Purgatório, Paraíso) e descrito em termos quase cartográficos. O espaço infernal surge organizado em nove círculos concêntricos, divididos em vales e recintos, onde as almas são distribuídas de acordo com a natureza e a gravidade dos seus crimes, numa espécie de topografia moral rigorosa. A imaginação de Dante é caracterizada como “macabra” e “tenebrosa”, capaz de conceber castigos que levam o sofrimento ao limite do cruel e do horrível – um catálogo de suplícios que o articulista afirma serem difíceis de reproduzir sem recorrer às próprias palavras do poeta.​

Os exemplos escolhidos são emblemáticos: Paolo e Francesca, condenados a girar eternamente num turbilhão de vento, simbolizando uma paixão que não encontrou forma justa; o conde Ugolino, que devora para sempre o crânio do inimigo que o fizera morrer à fome; e a celebérrima inscrição à entrada do Inferno, “Per me si va nella città dolente…”, apresentada como verdadeira chave de acesso à “cidade dolorosa”.

Ao convocar estes episódios, o artigo cria pontos de ancoragem para leitores que, mesmo sem conhecerem o poema na íntegra, reconhecem as suas figuras mais trágicas.​

Gustavo Doré: um comentador em imagens

Um dos aspectos mais interessantes do texto é a forma como consagra Gustavo Doré como o grande “comentador” visual de Dante. As gravuras são descritas como interpretações “exactas e perfeitas” das visões do poeta florentino: os diabos de formas estranhas e ameaçadoras, os condenados de rostos contorcidos pela “sobrehumana dor” e o fundo abrupto, seco e estéril compõem um Inferno que parece prolongar, em traços e sombras, a violência imagética do poema.​

Ilustração Portugueza reivindica particular cuidado na reprodução dessas imagens, sublinhando que as estampas publicadas foram retiradas diretamente da edição portuguesa, em madeira, e destacando a série como uma das partes mais valiosas da obra de Doré. A selecção é pensada como percurso visual: Dante perdido na selva escura, o encontro com Virgílio, os diversos aspetos dessa “mansão pavorosa de trevas e horrores” e alguns dos episódios mais célebres, oferecendo ao leitor um roteiro condensado do Inferno em forma de álbum.

Auto‑imagem de elite culta

No início do século XX, ao olhar para Dante, a cultura portuguesa via sobretudo um espelho elevado de si própria: aspirava à alta cultura europeia, mas filtrava-a pela sensibilidade de uma burguesia urbana que consumia clássicos em versão ilustrada, narrativa e emocionalmente carregada.

Ao assumir que “todos conhecem a trilogia” e ao citar em italiano os versos de abertura e a inscrição do Canto III, o artigo pressupõe um leitor ideal culto, poliglota, capaz de reconhecer referências e de se emocionar com elas. Esta construção de leitor funciona como auto‑retrato: a cultura portuguesa que publica este texto quer ver‑se como pertença de uma elite europeia, familiarizada com Dante, com Doré e com a tradição literária continental. Ao mesmo tempo, o gesto de “oferecer” ao público português uma selecção de estampas reforça uma missão civilizadora: educar o gosto, aproximar o leitor comum de um património que é apresentado como universal.

Dante, o anticlericalismo e o “tribunal” moral de 1909

A publicação deste artigo em 1909 sobre Dante e o Inferno acontece num momento em que o anticlericalismo em Portugal está no auge, sobretudo nos meios republicanos urbanos, e isso torna a escolha do tema particularmente significativa. Embora o texto da Ilustração Portugueza não seja abertamente político, a forma como apropria Dante e a sua visão do pecado e do castigo dialoga, de modo subtil, com o clima de contestação ao poder da Igreja.

Em 1909 o anticlericalismo já é uma bandeira forte do republicanismo, alimentado por décadas de conflito Estado–Igreja e por campanhas de mobilização que apresentam a Igreja como obstáculo à modernização do país. Ler e divulgar Dante – um leigo, poeta, crítico das corrupções do seu tempo – encaixa bem num imaginário que valoriza a denúncia dos abusos de poder, incluindo os eclesiásticos.

Esse enquadramento torna‑se ainda mais expressivo se trouxermos para cena episódios concretos como a manifestação anticlerical de 2 de agosto, que expõe nas ruas uma hostilidade aberta ao poder e à visibilidade pública da Igreja. Nessa atmosfera carregada, a escolha de Dante pela Ilustração Portugueza deixa de ser apenas literária ou estética: adquire uma ressonância simbólica que dialoga com o conflito Estado–Igreja e com a retórica republicana de regeneração moral e política.

A receção de Dante torna‑se particularmente eloquente num país onde, quase ao mesmo tempo que se marcha contra o clero nas ruas – como na manifestação anticlerical de 2 de agosto – se lê, comenta e ilustra com entusiasmo o poeta medieval que põe príncipes, prelados e poderosos no banco dos réus; ao circular em revistas como a Ilustração Portugueza, o Inferno oferece ao público urbano um tribunal simbólico em que os abusos de poder – também os que vestem batina – são julgados em nome de uma ordem moral superior, permitindo a uma cultura em acelerada laicização reconhecer‑se discretamente nas condenações dantescas sem precisar de as enunciar em chave panfletária.

Em jeito de conclusão

Em 1909, num Portugal marcado por forte anticlericalismo e por manifestações nas ruas contra o clero, a publicação, na Ilustração Portugueza, de um artigo sobre o Inferno de Dante, ilustrado por Gustavo Doré, revela muito da auto‑imagem cultural da época: recupera-se a figura do poeta exilado, cansado das fações e das alianças entre poder político e religioso, como modelo de intelectual crítico; apresenta-se o Inferno como arquitetura moral rigorosa, onde príncipes, prelados e poderosos são julgados por uma ordem superior à das instituições; e oferece-se ao público urbano um acesso moderno, visual e prestigiante a um clássico europeu que permite, de forma discreta, ressoar com um imaginário de denúncia de abusos de poder – também os que vestem batina – sem recorrer ao tom panfletário, conciliando, assim, ambição de alta cultura, vontade de laicização e fascínio pelo macabro organizado num “tribunal” simbólico de justiça poética.

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco (2026), Dante na Ilustração Portugueza de 1909: Inferno, imagens e anticlericalismo na cultura portuguesa (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [04 de Fevereiro de 2026].

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