O que foi o Kulturkampf (1871-1878)?

O Kulturkampf (“luta cultural” ou “combate pela civilização”) foi o confronto entre o Estado alemão, sob a liderança do chanceler Otto von Bismarck, e a Igreja Católica, decorrido sobretudo entre 1871 e 1878 (com resquícios legislativos até meados da década de 1880).

Esta caricatura do ano de 1875 mostra Bismarck e o Papa Pio IX a jogar xadrez, simbolizando o chamado ‘Kulturkampf‘ (Luta Cultural) entre Berlim e Roma.
Papa: «É verdade que o último lance foi-me desfavorável; mas a partida ainda não está perdida. Ainda tenho um belo lance secreto.»
Bismarck: «Esse também será o último, e depois ficará em xeque-mate ao fim de poucas jogadas — pelo menos na Alemanha.»

In Revista satírica alemã Kladderadatsch, 1875.


Contexto geral

Após a unificação alemã de 1871, Bismarck via o catolicismo — e sobretudo a sua fidelidade a uma autoridade externa, o Papa — como uma ameaça à coesão do novo Império, de maioria protestante (prussiana). O contexto agravou-se com a proclamação do dogma da infalibilidade papal no Concílio Vaticano I (1870), que Bismarck interpretou como reforço do poder papal sobre os católicos alemães, incluindo o clero e as ordens religiosas.

Mosaico da Tiara Papal na Basílica de São Pedro.

A expulsão dos Jesuítas (1872)

A Companhia de Jesus foi um alvo particular desta política, por ser vista como o braço mais disciplinado e mais diretamente subordinado a Roma. A “Lei dos Jesuítas” (Jesuitengesetz), aprovada em 4 de julho de 1872, proibiu a Ordem em todo o território do Império Alemão, permitindo às autoridades expulsar os seus membros ou restringir a sua residência. A lei estendeu-se depois a outras congregações consideradas afins (como os Redentoristas e os Lazaristas).

Principais impactos e detalhes da legislação:

  • Proibição de Estabelecimentos: Ficou estritamente proibida a criação ou manutenção de qualquer nova fundação ou residência da ordem da Companhia de Jesus.
  • Medidas de Exílio: O governo ganhou autoridade legal para banir jesuítas estrangeiros e limitar a liberdade de residência e atuação dos jesuítas de nacionalidade alemã.
  • Extensão da Lei: No ano seguinte, as restrições foram alargadas a outras congregações religiosas consideradas próximas.

A Lei dos Jesuítas e o Kulturkampp alemão (1872-1917)

Contexto
No auge do Kulturkampf — o confronto entre o Império Alemão de Bismarck e a Igreja Católica, agravado pela proclamação da infalibilidade papal no Concílio Vaticano I (1870) — a Companhia de Jesus tornou-se alvo prioritário da política antirreligiosa do Estado prussiano, por ser vista como o instrumento mais disciplinado da autoridade romana.

A expulsão (1872)
A Jesuitengesetz, promulgada a 4 de julho de 1872, proibiu a Ordem em todo o território imperial, obrigando os jesuítas alemães ao exílio. A formação dos noviços transferiu-se para a Holanda e a Grã-Bretanha, enquanto muitos religiosos partiram em missão para países como a Dinamarca, a Suécia, os Estados Unidos, o Brasil, a Índia, a Rodésia e o Japão.

Permanência da lei
Ainda que o Kulturkampf tenha sido oficialmente encerrado em 1887, a proibição manteve-se em vigor por mais três décadas, sendo apenas ligeiramente atenuada em 1904.

A Grande Guerra e a reabilitação nacional
A Primeira Guerra Mundial ofereceu aos católicos alemães, e em particular aos jesuítas, a oportunidade de reafirmar a sua lealdade patriótica, através de um serviço militar e assistencial intenso — mais de metade dos membros da Província Alemã da Ordem participou no esforço de guerra.

A revogação (1917) e o desfecho constitucional (1919)
Nesse contexto de união nacional, o Bundesrat aprovou, a 19 de abril de 1917, a revogação total da lei. Dois anos depois, a Constituição de Weimar (1919) consagrou, no seu artigo 124.º, a liberdade de associação, encerrando definitivamente a subordinação das ordens religiosas — incluindo a Companhia de Jesus — à tutela do Estado alemão.

Na fronteira alemã, a capa do Simplicissimus de 1902 traz a seguinte legenda: “Todos os anos temos de fingir uma vez que queremos entrar. Caso contrário, eles percebem que já estamos há muito tempo em casa deles” –
(Simplicissimus , 6.º ano (Jg. 6), n.º 48, p. 377, de 18 de fevereiro de 1902) – A entrada relativa à caricatura é bastante breve: para além da legenda da imagem, inclui apenas uma nota explicativa (Erläuterung) que esclarece o contexto — a caricatura refere-se aos jesuítas, proibidos na Alemanha desde 1872 pela Lei dos Jesuítas. Não há um comentário mais desenvolvido sobre esta caricatura específica; a página funciona sobretudo como um catálogo cronológico, com uma imagem/legenda/nota por entrada. In PAUL, Bruno – “An der deutschen Grenze”. Simplicissimus, Jg. 6, Nr. 48 (18 fev. 1902), p. 377.

Outras medidas do Kulturkampf

  • Leis de Maio (1873), regulando a formação e nomeação do clero, sujeitando-o a exame estatal;
  • Introdução do casamento civil obrigatório (1875);
  • Expulsão de bispos e clérigos que resistiram, encarceramento de alguns (o chamado “período dos bispos na prisão”);
  • Supressão de subsídios estatais a paróquias vacantes.

Desfecho

O conflito revelou-se contraproducente: reforçou a coesão e a mobilização eleitoral dos católicos (através do Zentrum, o partido do Centro Católico), em vez de os enfraquecer. Sebastian Haffner descreve em Alemanha: Jekyll & Hyde sumariamente a história deste partido da seguinte forma. Um extracto:

“Foi o único partido que não acolheu (a fundação do) Império Alemão com regozijo. Fundado em 1870, tornou-se um depositário de todos os elementos líderes conservadores do oeste e sul da Alemanha, os quais se sentiam inesperadamente incorporados. O objectivo do Zentrum era defender valores claramente acima e fora do Estado, sobretudo os valores do Catolicismo. Foi o único partido que na altura não acolheu a criação de Bismarck como a forma política ideal para a Alemanha, tendo no entanto decidido aceitar isso como um facto estabelecido. Bismarck acusou repetidamente o Zentrum de ser um “inimigo do Império”, mas isso não era verdade. O Zentrum não foi fundado como protesto contra o Império mas sim como um compromisso. Ele aceitou o Império com um encolher de ombros, mas trabalhava lealmente com ele, mesmo que com limitações. As reservas situavam-se no aspecto cultural. Aqui, o Zentrum era sempre inflexível”. Em todas as outras áreas ele podia dar-se ao luxo de ser oportunista.”

“Os membros deste partido caracterizavam-se por aceitarem sem quaisquer compromissos os valores religiosos e culturais católicos”*.

A partir de 1878-1879, com a eleição do Papa Leão XIII (mais conciliador do que Pio IX) e as necessidades políticas internas de Bismarck (que precisava do apoio católico contra o movimento socialista), a maior parte da legislação foi progressivamente revogada. A proibição específica dos Jesuítas, no entanto, manteve-se formalmente em vigor por mais tempo, só sendo definitivamente revogada em 1917.

Este episódio foi amplamente comentado na imprensa europeia da época, incluindo a portuguesa, tanto em jornais católicos (que o denunciavam como perseguição religiosa) como em publicações mais liberais ou anticlericais (que por vezes viam nele um paralelo com as próprias tensões entre Estado e Igreja em Portugal).

O provável interesse da imprensa portuguesa sobre o Kulturkampf

Portugal, em 1871-1878, vivia sob a Monarquia Constitucional, com uma imprensa já relativamente livre e diversificada, e um campo de tensão próprio entre setores católicos e liberais/anticlericais — o que tornava o conflito alemão um tema de interesse imediato, seja como exemplo a evitar, seja como modelo a invocar, consoante a orientação do periódico.

Os dois ângulos prováveis de leitura

  • Imprensa católica/conservadora — tenderia a apresentar o Kulturkampf como perseguição religiosa, solidarizando-se com o Papa Pio IX e com os jesuítas expulsos, e usando o episódio como advertência contra tendências anticlericais internas.
  • Imprensa liberal/anticlerical — poderia ler o conflito com mais simpatia pelo Estado alemão, ou pelo menos com interesse analítico, no contexto mais amplo das tensões europeias entre poder civil e autoridade eclesiástica (paralelas, em Portugal, aos debates sobre o regalismo, o padroado e a posição da Igreja face ao Estado liberal).
    (em desenvolvimento….)

O Kulturkampf foi a tentativa de Bismarck de subordinar a Igreja Católica ao Estado alemão, mas acabou por reforçar a identidade e a organização política dos católicos, tornando-se um dos mais marcantes conflitos entre poder civil e autoridade religiosa na Europa do século XIX.

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  • * Sebastian Haffner (1940). Germany: Jekyll And Hyde, A Contemporary Account Of Nazi Germany. SECKER AND WARBURG, pp. 210-211.

Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, O que foi o Kulturkampf (1871-1878)? , (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [15 de julho de 2026].

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Rafael Bordalo Pinheiro

(Lisboa, 21 de março de 1846 — Lisboa, 23 de janeiro de 1905)

Nascido no dia 21 de março de 1846 em família de artistas, Rafael Augusto Prostes Bordalo Pinheiro , filho de Manuel Maria Bordallo Pinheiro (1815-1880) e D. Maria Augusta do Ó Carvalho Prostes, cedo ganhou o gosto pelas artes. 

Rafael Bordalo Pinheiro foi não só o maior caricaturista e desenhador humorista do século XIX português, como um dos mais importantes e significativos artistas da sua geração, a par do seu irmão Columbano e de José Malhoa.

Estruturalmente caricaturista, por gosto, por temperamento, não teve escolas, não seguiu métodos. Ele mesmo declarava em 1903, quando a Associação dos Jornalistas de Lisboa lhe fez uma grande homenagem nacional:

“Sabe porque comecei a fazer caricaturas? A razão é semelhante à que levou Justino Soares a professor de dança. O Justino a quem lhe perguntava porque tinha deixado o ofício e se tinha metido a dançarino respondia: O menino comecei a sentir um formigueiro nas pernas e vai puz-me a dançar. Ora comigo dá-se um caso idêntico. Comecei a sentir um formigueiro nas mãos e vai puz-me a fazer caricaturas…”

Espírito irrequieto, Bordalo não via a sociedade só pelas qualidades exteriores, ia mais longe, aprofundava o carácter da mesma, a tal ponto que, muitas vezes com apenas um traço e todo o desassombro da sua independência, dava a conhecer uma personagem.

A sua obra bem-humorada, reflete uma época cheia de tolerância, caracterizada pela «doce paz» do reinado de D. Luís, e que a história denominou de “paz podre”.

Foi caricaturista de raça, na fertilidade das suas obras e na imaginação que lhes impunha. Como jornalista, ele reproduziu a atualidade como ninguém. Entre 1870 e 1905 tornou-se na alma critica e muito assaz de todos os periódicos que dirigiu quer em Portugal, quer nos três anos que trabalhou no Brasil.

Espontâneo na caricatura será através da cerâmica que a sua individualidade também persistirá, tendo aceitado o convite para chefiar o setor artístico da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. O que notabilizou a interferência de Bordalo Pinheiro na faiança caldense foi o impulso estimulador de uma nova era de renascimento, que o artista transmitiu não só pelo exemplo, como ensinando a alguns artífices o desenho por eles completamente ignorado até então. Onde se revelava mais exuberantemente a sua boa influência era no apuramento e perfeição do esmalte e na unidade e riqueza da cor.

Ramalho Ortigão, depois de ver as peças criadas por Bordalo, declarou que a sua faiança era «um capítulo de Folclore português», tendo Bordalo «criado um novo estilo decorativo genuinamente nacional».

A história da sociedade portuguesa do último quartel do século XIX, nos seus múltiplos aspetos, está toda documentada nos seus jornais humorísticos. A política foi para ele um vício que satisfazia no Chiado, o seu «habitat», mas também uma ação cívica consciente e patriótica e, por isso, necessariamente crítica. E, acima de tudo, foi uma ação independente, alheia a partidos e seus interesses, mal vista por progressistas ou regeneradores e também, às vezes, pelos republicanos da sua simpatia. Em 1885, ele afirmava, «As minhas opiniões, boas ou más, não se subordinaram nunca ao “mot d’ordre”».

Por isso o povo (ou o «povinho») o chorou sinceramente, à sua morte, no dia 23 de janeiro de 1905.

Rafael Bordalo Pinheiro

A 12 de junho de 1875 criou a figura do Zé Povinho. É a figura de um homem comum eternamente explorado e enganado pelos políticos. Foi utilizado como símbolo dos republicanos, numa altura em que a República aflorava como esperança para a saída da profunda crise em que o país estava mergulhado. Nele se via a crítica mordaz ao pagamento de impostos, ao peso fiscal ou à espoliação por parte dos políticos.

Gravura:
Primeira caricatura do personagem “Zé Povinho”, in “A Lanterna Mágica”, nº 5, 12 de Junho de 1875.
Descrição:
Representa o Ministro da Fazenda, Serpa Pimentel, a sacar ao Zé Povinho uma esmola de três tostões para Santo António de Lisboa (representado por Fontes Pereira de Melo) com o “menino” (D. Luís I) ao colo, tendo ao lado o comandante da Guarda Municipal, de chicote na mão, presente para prevenir uma eventual resistência.

Tomou forma tridimensional pelas mãos do seu criador, na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, no último quartel do século XIX. Bordalo Pinheiro definiu-o da seguinte forma: “O Zé Povinho olha para um lado e para o outro e… fica como sempre… na mesma“.

CAIXA «ORA TOMA»
O recipiente tem a forma dum barril e a tampa representa o busto do Zé Povinho fazendo o gesto do «Toma». O busto pousa numa base circular com identificação em letras relevadas: TOMA
Barro vidrado policromo, com exceção do rosto que é apenas policromado.
Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Exemplar datado de 1904. Alt.: 255 mm

Caricatura de Zé Povinho e Rafael Bordalo Pinheiro na Estação Aeroporto do Metropolitano de Lisboa, 2012.