O Elefante como elemento decorativo na tumulária

Ao longo dos tempos o elefante esteve sempre associado a grandes cerimónias. Na Ásia simbolizava o poder real. No Ocidente simbolizava eternidade, temperança, piedade, associadas à soberania, ao poder e à riqueza. Em Roma, por exemplo, fazia parte das monumentais exéquias e cortejos fúnebres dos imperadores. Na arte oriental o elefante como elemento de suporte é simbólico de animal-suporte-do-mundo: o universo repousa sobre o lombo de um elefante. Em Portugal, acompanhava os cortejos de D. Manuel, serviu como presente oferecido por D. João III ao arquiduque Maximiliano de Áustria e até o papa Pio IV solicitou a D. Sebastião um par de elefantes.

Pensa-se que o motivo que levou à escolha da representação de elefantes como suporte tumular tenha a ver com a época histórica e heróica que estávamos a passar, ligada ao descobrimento pelos portugueses de novas terras “Além-mar”, em parte porque se trata de elefantes indianos.

Além de todas estas justificações a nível formal e simbólico podemos também referir que a nível técnico este modelo tumular não implicava grandes recursos manuais e de especialidade. A obra exigia apenas um trabalho de canteiro e não de um escultor. O que cativou a realeza e a nobreza por este tipo de sepultura terá sido o seu aspeto em pirâmide e o material utilizado (mármores).

Para António Filipe Pimentel, foram as sepulturas régias da capela-mor de Santa Maria de Belém que deram início a um conjunto de monumentos funerários tipologicamente idênticos:

«E quando D. Catarina de Áustria manda erguer a capela-mor do Mosteiro dos Jerónimos para panteão da Casa de Avis, uma concepção inteiramente nova, austera e de base essencialmente arquitectónica, faz a sua aparição nos túmulos reais. Apoiados sobre o dorso de elefantes – único elemento figurativo -, os quatro mausoléus, absolutamente idênticos, abrigam sob os arcos rasgados nos flancos da ousia uma severa estrutura moldada de configuração piramidal que apenas no remate coroado ostenta uma referência velada à qualidade dos régios ocupantes. Estabelece-se assim o protótipo do túmulo maneirista cuja descendência uniformizará o panorama das nossas sepulturas murais seiscentistas, estendendo ainda a sua influência ao século XVIII»[1].

Segundo Vítor Serrão, este tipo de obra «…revela bem o apuro com que na época os artistas executavam tais empreitadas, mesmo quando se tratava…de encomendas secundárias…». Este trabalho feito em mármore revela, para o professor, «…equilíbrio e dignidade…» denunciando da parte do projetista alguma sensibilidade[2]. Para este investigador existem,

«…duas ordens de razões para a grande aceitação conhecida pela sua fórmula: por um lado, o inevitável prestígio associado a monumentos fúnebres régios, e, por outro, o facto de a realização deste modelo não implicar, a nível técnico, a necessidade de grandes recursos ou apresentar particulares dificuldades»[3].

Este tipo de escultura tumular é de grande importância, não apenas pelo seu valor histórico, mas, também, devido ao seu valor artístico, pois eram quase sempre executadas por bons escultores, para servirem de morada “eterna” para gente da nobreza ou religiosos. No caso dos espaços religiosos ligados à Companhia de Jesus (colégio de S. Lourenço, no Porto e Noviciado da Cotovia, em Lisboa) iremos encontrar na capela-mor das suas Igrejas o túmulo do fundador, conforme impunham as “Constituições”(309-310), além de testemunhar o sentimento de gratidão à figura benemérita do fundador (312-314). Nenhum colégio jesuítico podia ser fundado sem que existisse uma pessoa que garantisse financeiramente a construção e manutenção dos edifícios em causa.

Os exemplos aqui focados (colégio de S. Lourenço, no Porto, Noviciado da Cotovia, em Lisboa e a Capela dos Castro, em Benfica) reproduzem o modelo régio que se encontra na capela-mor da igreja do mosteiro Jerónimo de Santa Maria de Belém e que se integra numa tipologia de tumularia portuguesa que abrange o final do século XVI até ao início do século XVIII.

Os túmulos são compostos por essas e suporte. Essas com uma sucessão de volumes em forma piramidal, lembrando monumentos fúnebres do antigo Egipto, da Suméria e da Índia hindu ou, em Portugal, faz lembrar as cerimónias fúnebres onde utilizando um catafalco, que se cobria com tecidos ricos, como por exemplo, brocados e veludos, se colocava o caixão com o defunto.

Em relação ao suporte, pensa-se que o motivo que levou à escolha da representação de elefantes tenha a ver com a época histórica e heroica que estávamos a passar, ligada ao descobrimento pelos portugueses de novas terras “Além-mar”, em parte porque se trata de elefantes indianos.

Colégio de S. Lourenço (Igreja dos Grilos), da Companhia de Jesus

Nomes alternativosIgreja e Colégio de São Lourenço
Seminário Maior de Nossa Senhora da Conceição
Estilo dominanteManeirista, Barroco, Neoclássico
Início da construção1577 (interior igreja)
1690 (fachada atual)
Inauguração1622 (sagração da igreja)
1630 (colégio)
Função inicialColégio da Companhia de Jesus

Em dia de S. Lourenço do ano de 1570, os jesuítas lançaram a primeira pedra da sua igreja e colégio nas imediações do Paço Episcopal. Em estilo maneirista barroco-jesuítico, foi financiado por doações de fiéis, mas principalmente por Frei Luís Álvaro de Távora, Comendador de Leça do Balio, da Ordem de Malta, cujo brasão de armas encima a fachada principal.

A Igreja e Colégio de S. Lourenço é vulgarmente designada por Igreja dos Grilos, devido ao facto de ter pertencido aos Frades Grilos da Ordem de Santo Agostinho.

Começou a ser construída em 1577, sendo o seu arquiteto inicial Afonso Álvares. Posteriormente, Baltazar Álvares conduz os trabalhos e altera os planos de Afonso Álvares.

Seguindo o esquema das igrejas jesuíticas, a frontaria de S. Lourenço compreende dois andares repartidos em cinco corpos delimitados por pilastras. A porta principal é constituída por duas colunas assentes em pedestais, sobrepujado por frontão curvo interrompido, tendo ao centro a heráldica jesuítica. Lateralmente abrem-se duas outras portas com frontões triangulares, de menores dimensões.

No meio do piso intermédio abre-se uma grande janela encimada por brasão do patrocinador da obra, Frei Luís de Távora, além da cruz de Malta.

A capela-mor apresenta uma abóbada de berço com caixotões esquartelados. O seu retábulo é uma obra neoclássica e contém uma pintura de João Batista Ribeiro alusiva ao tema de Jesus Cristo inflamando o Coração de Santo Agostinho, possuindo ainda uma escultura de Santo Inácio de Loyola. Numa das paredes abre-se um arco que alberga o túmulo do fundador em mármore suportado por elefantes, de composição semelhante aos túmulos régios do Mosteiro dos Jerónimos, do noviciado da Cotovia e aos da Capela dos Castros, em Benfica.

Pormenor dos elefantes que suportam o túmulo (esquerdo)
Pormenor dos elefantes que suportam o túmulo (direito)

Com a expulsão dos jesuítas em 1759, por ordem do Marquês de Pombal, a igreja foi doada à Universidade de Coimbra até à sua compra pelos Frades Descalços de Santo Agostinho que ali ficaram de 1780 a 1832.

O túmulo do fundador é formado por arca assente em dois elefantes de lavor esquemático e é encimada por uma estrutura de perfil piramidal sobre a qual se sobrepõe o seu brasão; na lastra, uma inscrição com tipo de letra capital quadrada: “AQUI JAZ FREI LUÍS ÁLVARES DE [TÁVORA] BAILIO DE LAN[GO] E LEÇA COMENDADOR DE POIARES E DA MAGISTRAL DE VILA COVA. FUNDOU ESTE COLÉGIO DOTOU DUAS MISSAS CADA DIA E DUAS ESMOLAS PARA CASAMENTO DE DUAS ORFÃS CADA ANO FALECEU NO DE MDCXLV EM XXIII DE OUTUBRO”.

Datas a destacar:

  • 1614, 24 Maio – data do contrato em que Frei Luís Álvares de Távora, Cavaleiro da Ordem de Malta, Bailio de Leça e Lango e Comendador de Poiares se ofereceu para o lugar de fundador do colégio, mediante a construção de um carneiro, no meio da capela-mor, e a colocação do seu brasão na fachada principal da igreja.
  • 1614 / 1616 – Frei Luís Álvares de Távora dá aos jesuítas 30 mil cruzados, sendo as obras do colégio incrementadas, nomeadamente com a construção do pátio principal e da atual igreja; construção do túmulo do fundador, na capela-mor.

Noviciado da Cotovia (Igreja de Nossa Senhora da Assunção, da Cotovia[4]), da Companhia de Jesus

Museu/instituição: Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Universidade de Lisboa

Denominação: Túmulo/ Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha

Autor (es): Desconhecido

Datação: Início do século XVII (± 1616)

A primeira pedra do noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus, foi lançada a 23 de abril de 1603, catorze anos depois do primeiro contrato para a construção do edifício.

D. Maria de Noronha, esposa do fundador do noviciado da Cotovia, Fernão Teles de Meneses, pediu que as obras da capela-mor (do lado do Evangelho) terminassem o mais rápido possível, para lá colocar o túmulo do seu marido, pois os ossos tinham ficado num trono do cruzeiro da igreja de S. Roque, à espera do traslado. Mandou fazer um mausoléu que lhe custou 3.000 cruzados, onde foram colocados primeiro, os ossos de Fernão Teles e em 1623 os seus.

Este monumento fúnebre reproduz o modelo régio que se encontra na capela-mor da igreja do mosteiro Jerónimo de Santa Maria de Belém e integra-se numa tipologia de tumularia portuguesa que abrange o final do século XVI até ao início do século XVIII.

Túmulo de Fernão Teles de Meneses e sua esposa D. Maria de Noronha (cerca de 1616)

O padre António Franco refere-se ao túmulo da seguinte maneira:

«Mandou esta Senhora fabricar hum magestozo mausoleo de mármores, assentado sobre dous elefantes em hũ vão no lado do Evangelho da Capella mor. He a obra neste género grandioza, fez de curto três mil cruzados»[5].

Para Matos Sequeira, «O sumptuoso túmulo era de mármore liso, assente sobre dois elefantes, tendo na face do caixão um extensíssimo epitáfio»[6]. Quando colocado em cima dos elefantes de pedra o túmulo atinge os seis metros.

Pormenor do elefante, suporte tumular

Num manuscrito intitulado História de Lisboa a referência a este túmulo e aos seus elefantes é feita da seguinte maneira:

 « Na Capella se vê da parte do Evangelho hum arco de pedraria com bastante fundo sobre dous elefantes de mármore com cor que nam deixa de ter semelhança com a natural dos elefantes, e sobre elles um bem laurado tumulo…»[7].

Na base do túmulo encontra-se uma inscrição gravada em sete linhas, que dizia o seguinte:

«AQUI JAZ FERNÃO TELES DE MENESES FILHO DE BRAS TELES DE MENESES, CAMAREYRO MOR E GUARDA MOR E CAPITÃO DOS GINETES, Q FOI DO IFFÃTE D. LUIS, E DE D. CATARINA DE BRITO SUA MOLHER, O QUAL FOY DO CÕSELHO DO ESTADO D`EL REY NOSSO SÕR. E GOVERNOU OS ESTADOS DA INDIA E O REYNO DO ALGARVE E FOY REGEDOR DA JUSTIÇA DA CASA DA SUPLICAÇÃO E PRESIDENTE DO CONSELHO DA INDIA E PARTES ULTRAMARINAS. E A SUA MOLHER D. MARIA DE NORONHA FILHA DE D. FRÃCISCO DE FARO VEDOR DA FAZENDA DOS REYS D. SEBASTIÃO E D. ANRIQUE, E DE D. MESIA DE ALBUQUERQUE SUA PRIMEYRA MOLHER: OS QUAIS FUNDARAM E DOTARÃO ESTA CASA DA PROVAÇÃO DA COMPª DE JESU, E TOMARÃO ESTA CAPELLA MOR PÊRA SEU IAZIGO. FALLECEO FERNÃO TELES DE MÑS A XXVI. DE NOVº DE M.D.C.V. E DE Mª DE NR. A VII DE MARÇO DE MDCXXIII»[8].

Depois do incêndio de 1843, este túmulo que estava na capela-mor da igreja do Noviciado da Cotovia, foi removido para uma dependência do edifício, apeado dos seus elefantes e emparedado, juntamente com outros destroços da igreja, restos de imagens, colunas e capitéis[9]. Em 2012, foi restaurado e reinstalado no edifício principal do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, num local próximo do original.

Convento de São Domingos de Benfica (Capela dos Castros), Lisboa

Designação Capela dos Castros

Outras Designações Capela de Corpus Christi / Convento de São Domingos de Benfica / Instituto Militar dos Pupilos do Exército / Igreja da Força Aérea Portuguesa / Igreja de Nossa Senhora do Rosário

Integrada no complexo do antigo convento de S. Domingos de Benfica, a Capela dos Castros, de gosto maneirista, foi fundada sob a invocação de Corpus Christi, em 1648, por D. Francisco de Castro, bispo inquisidor-mor, neto do vice-rei da Índia, D. João de Castro e foi destinada pelo fundador para jazigo da sua família.

O interior da Capela é composto por um espaço amplo, enobrecido com pedra de lioz e mármores policromos. De nave única, possui seis tramos, marcados por arcos de volta perfeita, sendo coberto por abóbada de berço em pedra, dividida em caixotões. Quatro dos tramos foram transformados em arcossólios (nichos em forma de arco), albergando os túmulos dos membros da família do fundador da capela.

Interior da Capela dos Castros, integrada no Instituto dos Pupilos do Exército.

Os quatro túmulos são de mármore e assentam sobre dois elefantes de mármore cinzento-escuro. Nele repousam, de um lado, D. João de Castro e sua esposa D. Leonor Coutinho e no outro lado D. Álvaro de Castro, seu filho, e D. Ana de Ataíde, sua mulher. No presbitério encontram-se as sepulturas de D. Francisco de Castro e de sua irmã D. Violante de Castro, Condessa de Odemira. Debaixo da capela, estão sepultados outros membros da família.

A capela dos Castros integra-se, atualmente, no conjunto do Instituto dos Pupilos do Exército, tendo sido declarada Monumento Nacional por decreto de 16 de junho de 1910.

Túmulos régios do Mosteiro dos Jerónimos (Capela-mor)

Capela-mor do Mosteiro dos Jerónimos,
Túmulos do rei D. Manuel e da rainha D. Maria.

A capela-mor que havia sido originalmente erguida como panteão monárquico por Diogo de Boitaca (França, possivelmente Languedoc, c. 1460 – Batalha (Portugal), 6 de dezembro de 1527)[10], no início do século XVI, foi demolida por ordem de D. Catarina, regente do reino entre 1557 e 1562, mulher de D. João III.

Em seu lugar foi instalada outra, elaborada por Jerónimo de Ruão (em 1571), introduzindo o estilo maneirista – o que criou um interessante contraste com a predominante ornamentação manuelina.

Nas arcadas laterais, entre os pares de colunas jónicas (na parte inferior) e coríntia (na parte superior), observam-se os túmulos régios, que na capela estão dispostos por ordem bíblica: à esquerda (do lado do Evangelho) as arcas funerárias de D. Manuel I e de  sua esposa D. Maria, dispostas sobre elefantes de mármore, enquanto ao lado direito (da Epístola) estão os túmulos de D. João III e de D. Catarina.

Em outubro de 1572, os trabalhos de construção da capela-mor do Mosteiro dos Jerónimos estavam concluídos. Nos dois lados da capela, em arcadas individuais, encontravam-se quatro imponentes túmulos régios com a forma de sarcófagos de mármore, assentes sobre elefantes em mármore verde, com presas de jaspe. Os túmulos estavam encimados por coroas imperiais assentes em coxins de mármore. Em cada túmulo existem cartelas com inscrições latinas louvando os régios defuntos, sendo estas da autoria André de Resende (Évora, por volta de 1500 – 9 de dezembro de 1573).


[1]  PIMENTEL, António Filipe, Tumularia. In Dicionário de Arte Barroca em Portugal. Dir., José Fernandes Pereira, Lisboa, 1989, p. 502.      

[2] SERRÃO, Vítor, O arquitecto maneirista Pedro Nunes Tinoco: novos documentos e obras: 1616-1636. Sep. Bol. Cultural Assembleia Distrital Lisboa, 83, Lisboa, 1979, pp. 30-31.

[3] Id., ibid., p. 4.

[4] A quinta da Cotovia, do Monte Olivete, tinha uma capelinha dedicada a Nossa Senhora da Assunção , sendo mais tarde adotado o mesmo orago na nova igreja.

[5] FRANCO, António, Imagem da Virtude… em Lisboa, 1717, p.12.

[6] SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Depois do terremoto, pp. 217-218.

[7] BNP, cód. 145 e 429, Capítulo XV, Da Casa do Noviciado da Companhia de Iesus, códices para o estudo dos monumentos sacros da capital, com 476 fl, e foi escrito nos annos de 1704 a 1708, s.p.

[8] FRANCO, António, Imagem da Virtude…, Lisboa, 1717, p.12.

[9] SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Depois do terramoto, p. 245

[10] Foi agraciado por D. Manuel com o título de “Mestre das Obras do Reino”.