A Oratória de Natal de Bach constitui um monumento brilhante da herança musical barroca, sendo escrita para o Natal de 1734.
Johann Sebastian Bach at the organ, 1725. Private Collection; Primeira página do manuscrito da partitura
Quando compôs a Oratória de Natal, entre Outubro e Dezembro de 1734, Bach decidiu empreender uma renovação global da música para o culto, servindo-se, para isso, dos infindáveis recursos que a sua imaginação musical lhe proporcionava.
Na composição de oratórias aliou a estrutura tradicional das cantatas de igreja, com árias recitativos e coros, a uma inovadora concepção narrativa da história religiosa, na qual se destaca a figura central do Evangelista, personificada pela voz de tenor narrador.
Uma parte essencial da eficácia catequética e expressiva na Oratória de Natal advém, com efeito, da forte coesão interna dos seus textos, de autoria provável do libretista Christian Friedrich Picander (1700-1764), mas amplamente apoiados nos Evangelhos segundo São Lucas e São João.
A obra é constituída por seis cantatas detentoras de diferentes dispositivos vocais e instrumentais, cada uma das quais foi destinada a ser executada num dia específico da quadra natalícia.
– Primeira Parte: Para o Primeiro Dia do Natal, descreve o Nascimento e a Nominação de Jesus;
– Segunda Parte: Para o Segundo Dia do Natal, a Anunciação aos Pastores;
– Terceira Parte: Para o Terceiro Dia do Natal, a Adoração dos Pastores;
– Quarta Parte: Para a Festa da Circuncisão de Cristo, a Circuncisão de Jesus;
– Quinta Parte: Para o primeiro Domingo do Ano Novo, a Jornada dos Reis Magos,
– Sexta Parte: Para a Festa da Epifania, a Adoração dos Reis Magos.
Como se pode verificar, esta criação de Bach, inundada de devoção e criatividade musical, narra os diferentes episódios relativos ao nascimento e primeiros dias da vida de Jesus Cristo, até ao início da fuga da sagrada família para o Egito.
Contudo, deve evitar-se perspectivar a Oratória de Natal como um ciclo de seis cantatas independentes, sob o risco de se perder de vista a interessante lógica de coesão global. A unificação da Oratória como um todo musical reside no encadeamento dos acontecimentos descritos, protagonizado pelo Evangelista, narrador.
O Oratório foi ouvido na Igreja de São Tomás e na Igreja de São Nicolau, em Leipzig.
Igreja de São Nicolau, Leipzig
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J.S. Bach – Christmas Oratorio BWV 248 I “Jauchzet, frohlocket” (J.S. Bach Foundation). From the protestant church Trogen in Switzerland Choir and Orchestra of the J. S. Bach Foundation Rudolf Lutz – conductor.
(1) BWV – Bach-Werke-Verzeichnis (Catálogo de Obras de Bach) é o sistema de numeração usado para identificar obras musicais de Johann Sebastian Bach, que estão agrupadas tematicamente, e não cronologicamente.
Os milagres de S. Francisco Xavier |Peter Paul Rubens,1617-18 Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria
A convite de D. João III, a Companhia de Jesus estabeleceu-se em Portugal em 1540, logo a seguir à sua criação (a 27 de Setembro de 1540, o Papa Paulo III aprova a criação da Companhia de Jesus, pela bula Regimini Militantis Ecclesiae.
S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III André Reinoso, cerca de 1619 Igreja de S. Roque, Lisboa, Portugal (3)
Francisco de Xavier na sua estadia em Portugal e antes de partir para o Oriente escreveu uma carta a Inácio de Loyola e a João Coduri onde refere o seguinte: «D´acá os hago saber como el Rey, paresciéndole bien nuestro modo de proceder, así por la experiencia que tiene del fruto espiritual que se hace, como esperando mayor cuantos mas fueren, está deliberado de hacer un colegio y una casa de los nuestros, es a saber, de la Compañia de Jesus…». Afirmava que: «…Este verano en la Universidad de Coimbra edificará el colégio, y la casa pienso en la cidad de Ébora» (1). Em pouco tempo constroem-se três importantes estabelecimentos em Lisboa, entre muitos outros espalhados pelo país de Norte a Sul. Francisco Xavier, já missionário em Goa, alertava para a preparação de “soldados de Deus”. Não importava que fossem letrados, mas tinham que ser bem exercitados (2). Noviciados, colégios e universidades unidos num projecto comum onde a qualidade de acção, a preparação adequada e contínua e uma ocupação constante para o atendimento das almas eram requisitos obrigatórios para educar os futuros ―soldados de Deus.
S. Francisco Xavier Ressuscitando um Chefe de Casta no Ceilão André Reinoso, cerca de 1619 Igreja de S. Roque (Sacristia)
Na madrugada de 3 de dezembro de 1552, a mais de dez mil quilómetros de Lisboa, numa cabana de palha numa ilha esquecida do Oriente, expirava Francisco Xavier — o grande missionário que fez tremer o desespero nos confins do mundo conhecido. Desfigurado pela febre, exilado do continente que tanto desejara conquistar para Cristo, ele entregava a sua alma com as mesmas palavras que o tinham sustido durante toda a vida: In te Domine speravi, non confundar in aeternum — Em ti, Senhor, esperei. Não me confundas para sempre. Naquela noite de silêncio, que parecia sepultar um sonho impossível, nascia, porém, uma lenda imortal. O corpo definhado daquele homem que nunca recuou perante o impossível transformar-se-ia em relíquia venerada; a sua morte prematura, em vitória eterna. Porque há santos que conquistam reinos com cidades e exércitos, e há santos que conquistam tudo com um crucifixo e um coração intrepidez — Francisco Xavier foi dos segundos, e por isso o seu nome jamais morrerá. Está sepultado na Basílica do Bom Jesus em Velha Goa (Índia) onde é venerado como homem santo.
O papa Paulo V beatificou-o a 21 de outubro de 1619 e Gregório XV declarou-o santo a 12 de março de 1622.
Túmulo de São Francisco Xavier na Basílica do Bom Jesus de Goa.
A capela de São Francisco Xavier foi concluída em 1659. É uma mistura de mármore, cobre e madeira em diversos níveis, cada um ricamente decorado. Encimando o altar, logo após os dois anjos ladeando o brasão, está o sarcófago de prata com seis módulos de vidros duplos onde repousa o seu corpo. Magnífica caixa de prata feita por artistas goeses, onde repousa o corpo do Apóstolo do Oriente, oferecida pelo grão-duque da Toscana, Cosimo III Medice, executada por Giovanni Battista Foggini, cerca de 1697.
Até aos dias de hoje, o corpo de São Francisco Xavier continua a atrair peregrinações constantes. A urna é exposta a cada dez anos para contemplação pública, permitindo aos fiéis venerarem o santo que transformou o Oriente cristão. Este ciclo de exposições periódicas perpetua a tradição de devoção que começou logo após a sua transferência para Goa.
A Capela de São Francisco Xavier representa assim uma síntese magnífica da arte europeia (florentina), da destreza artesanal goesa, e da fé cristã portuguesa — um testemunho permanente do legado do homem que João Paulo II chamaria de “príncipe dos missionários”.
Pontos Principais da Vida de São Francisco Xavier
Fundador jesuíta — Um dos primeiros membros da Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola
Apóstolo do Oriente — Dedicou-se à evangelização em terras asiáticas, sendo considerado “príncipe dos missionários”
Missão na Índia — Chegou a Goa em 1542, onde começou seu trabalho missionário
Estratégia missionária — Compreendeu que para converter o Oriente era essencial começar pela China
Viagem a Sancião — Em julho de 1552, partiu de Singapura no navio “Santa Cruz” rumo à ilha de Sancião, próximo da China
Trabalho pastoral — Celebrava missa diariamente, ensinava doutrina cristã, confessava, batizava, visitava doentes e enterrava mortos
Determinação inabalável — Manteve-se firme no propósito de chegar à China apesar dos obstáculos e do medo dos portugueses
Morte em Sancião — Faleceu a 3 de dezembro de 1552, na ilha de Sancião, aos 46 anos, sem conseguir entrar na China continental
Canonização — Reconhecido pela Igreja como santo e declarado Padroeiro do Oriente e das Missões
Legado — Seu corpo tornou-se relíquia venerada, transportado para Malaca e depois para Goa, onde permanece até hoje
São Francisco de Xavier no Padrão dos DescobrimentosViagens de S.F.X. na Ásia
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(1) Monumenta Historica Societatis Iesu, Cartas de San Ignacio, pp. 443-447;
LOPES, António, D. Pedro Mascarenhas: Introdutor da Companhia de Jesus em Portugal, 2003, p.168.
(2) GOMES, Manuel Pereira, Santo Inácio e a fundação de Colégios, p. 41.
(3) S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III antes da viagem para a Índia. O rei está ao centro, tomando as mãos do santo e, ao lado, encontra-se o Padre Simão Rodrigues, introdutor da Companhia de Jesus em Portugal. A receção decorre no Paço da Ribeira, vendo-se o Tejo ao fundo, e a corte é composta por membros do clero e da nobreza, incluindo membros das três ordens militares, identificadas pelas respetivas cruzes: Cristo, Santiago e Avis.
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VEIGA, Francisca Branco (2021), No dia 3 de dezembro de 1552, morre São Francisco Xavier (1506-1552)(blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [03 de Dezembro de 2021].
Veja-se, inclusive, VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.