A caminho da liberdade: o processo de abolição da escravatura em Portugal – 25 de fevereiro de 1869

25 de fevereiro de 1869, publicação do decreto que aboliu o estado de escravidão em todos os territórios da monarquia portuguesa.

A abolição da escravatura em Portugal resultou de um processo longo e gradual que se desenvolveu ao longo de mais de um século. As sucessivas medidas refletiram tanto a evolução das ideias políticas e sociais da época como a influência das transformações internacionais.

Em 1761, durante o reinado de D. José I, o Marquês de Pombal determinou o fim da escravatura na metrópole e na Índia portuguesa. Esta decisão marcou o início do caminho abolicionista, embora o regime de escravidão continuasse a existir nas colónias africanas e no Brasil – 16 de janeiro: Alvará de D. José I a declarar livres todos os filhos de mãe escrava nascidos em Portugal continental.


Alvará pelo qual Vossa Majestade, agindo conforme o conselho, determina o fim do abuso existente no Reino do Algarve e em algumas províncias de Portugal quanto ao cativeiro. Considerando que atualmente já não se pode manter tal prática, declara que todos os que nascerem após a publicação desta lei serão, por benefício dela, naturalmente livres. E que os libertados por este decreto ficarão habilitados para todos os ofícios, honras e dignidades. Assim se manda cumprir.
Real Majestade.

Existem dois marcos importantes:

  • 1761 – Proibição da entrada de novos escravizados em Portugal continental.
  • 1773 – Lei que determina que os filhos de mulheres escravizadas nascidos em Portugal seriam livres.

O excerto da imagem menciona que:

“todos os que nascerem depois da publicação desta Lei fiquem naturalmente livres”
Esta medida era valida para Portugal continental,

Seguiu-se, em 1815, o Tratado de Viena, no qual Portugal assumiu o compromisso de restringir o tráfico de escravos, em cooperação com o Reino Unido.

A regulamentação do tráfico intensificar-se-ia nas décadas seguintes, tendo em 1836 o Visconde de Sá da Bandeira proibido o comércio de escravos nas colónias a sul do Equador — uma das medidas mais significativas da política abolicionista portuguesa – 10 de dezembro: Decreto de Sá da Bandeira que aboliu o estado de escravidão nas colónias portuguesas.

Decreto de abolição da escravatura.

«[…] O infame tráfico dos negros é certamente uma nódoa indelével na história das Nações modernas (…). Emendar pois o mal feito, impedir que mais se não faça, é dever da honra portuguesa, e é do interesse da Coroa de vossa majestade […]. Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros em 10 de Dezembro pie 1836.
= (Assinado)
= Visconde de Sá da Bandeira.

RIBEIRO, João Baptista, 1790-1868
Visconde de Sá da Bandeira / J. B. Ribeiro des. e lith. no Porto, 1837. BNP

O processo ganhou reforço diplomático com o Acordo luso-britânico de 1842, assinado pelo Duque de Palmela e Lord Houvard Walden, que consolidou o combate internacional ao tráfico. O documento é um registo oficial da consolidação diplomática entre Portugal e Inglaterra para tornar efetiva a abolição do tráfico de escravos, estabelecendo mecanismos de vigilância e cooperação internacional através das figuras de Palmela e Howard de Walden.

Notas do Tratado de Comércio e Navegação entre Portugal e Inglaterra – 1842
https://ahpweb.parlamento.pt/Detalhe/?pesq=pa&t=8&id=11167&q=AND__topic_type_id_2__32287_;

A etapa decisiva ocorreu a 25 de fevereiro de 1869, com a publicação do decreto que aboliu o estado de escravidão em todos os territórios da monarquia portuguesa. A partir dessa data, todos os escravizados passaram à condição de libertos, com o reconhecimento dos direitos civis definidos pela legislação em vigor. A medida aplicou-se a todo o império colonial, incluindo as possessões africanas.

A abolição de 1869 — completada pelas leis de 1875 e 1878 — representou o culminar de uma política de transição que acompanhou as mudanças do seu tempo e marcou um momento histórico essencial na definição dos direitos humanos no espaço português.

Decreto de 25 de fevereiro de 1869 aboliu a escravatura em todos os territórios portugueses.
Fundo Secretaria de Estado da Marinha e Ultramar (PT/AHU/SEMU) do Arquivo Histórico Ultramarino.
Livro de Decretos, 1869-01-05 – 1869-06-30, Lisboa, 1 vol.; 39×26 cm; 146 fls

No panorama mundial, Portugal iniciou cedo algumas medidas restritivas, mas a abolição total da escravatura ocorreu mais tarde do que em países como o Reino Unido (1833) ou a França (1848), e antes do Brasil (1888). O processo português caracterizou-se, assim, por uma evolução faseada, com avanços sucessivos no quadro das transformações políticas, morais e económicas do século XIX.

A abolição de 1869 representou o culminar de uma política de transição que acompanhou as mudanças do seu tempo e marcou um momento histórico essencial na definição dos direitos humanos no espaço português.

Evolução da abolição da escravatura em Portugal (1761–1878)

AnoMedida / EventoFigura ou Autoridade AssociadaConteúdo PrincipalÂmbito de Aplicação
1761Primeira medida abolicionistaMarquês de Pombal (reinado de D. José I)Abolição da escravatura na Metrópole e na Índia portuguesaPortugal continental e Índia
1815Tratado de VienaGoverno português e Reino UnidoPortugal compromete-se a restringir o tráfico de escravosCompromisso diplomático internacional
1836Proibição do tráfico a sul do EquadorVisconde de Sá da BandeiraProibição do tráfico de escravos nas colónias portuguesas a sul do EquadorColónias africanas
1842Acordo luso-britânicoDuque de Palmela e Lord Howard de WaldenAcordo para abolir o tráfico nas possessões portuguesas e britânicasDomínios coloniais
1854Decreto preparatórioGoverno portuguêsDefine o estatuto e deveres dos futuros libertosColónias
1869Abolição definitiva da escravaturaGoverno português (Diário do Governo, 25 de fevereiro)Abolição legal da escravatura em todos os territórios da monarquia portuguesaTodo o Império português
1875Lei de 29 de abrilGoverno portuguêsExtingue o estado de “liberto”, garantindo plena liberdade civilTodo o Império português
1878Abril de 1878Governo portuguêsCessam todas as obrigações para com os antigos senhores, concluindo o processo abolicionistaTodo o Império português

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VEIGA, Francisca Branco, A caminho da liberdade: o processo de abolição da escravatura em Portugal – 25 de fevereiro de 1869 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [27 de Fevereiro de 2026].

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Um repórter de natureza no século XVI: José de Anchieta e o primeiro retrato da Mata Atlântica

Evangelho nas selvas
Benedito Calixto (1853–1927)
São Paulo Museum of Sacred Art

José de Anchieta foi muito mais do que o “apóstolo do Brasil”: foi missionário jesuíta, poeta, gramático, cronista da natureza e uma das primeiras vozes a maravilhar‑se, por escrito, com a Mata Atlântica. Ainda jovem, vindo das Canárias e formado em Coimbra, embarcou para aquilo que muitos europeus viam como o “fim do mundo” e acabou por se tornar fundador de cidades como São Paulo e observador privilegiado de um território em processo de descoberta. Frágil de saúde, encontrou no clima tropical e no contacto com novas gentes e paisagens não apenas cura, mas um horizonte intelectual e espiritual inteiramente novo, que procurou fixar em cartas, poemas e relatos.

José Anchieta
Apóstolo do Brasil

Nas cartas trimestrais que enviava aos superiores na Europa, Anchieta surgia como um verdadeiro “repórter de natureza” avant la lettre, descrevendo plantas, bichos e paisagens que os leitores do outro lado do Atlântico não conseguiam sequer imaginar. Numa delas, de 1585, vê o Brasil como “um jardim em frescura e bosque”, onde não há árvore seca e os arvoredos se elevam “às nuvens”, cheios de frutos e de pássaros cuja música não fica atrás dos rouxinóis, pintassilgos ou canários de Portugal. Esta capacidade de traduzir o espanto em palavras dá aos seus textos um tom simultaneamente devocional e sensorial: cada caminho na floresta é ocasião para louvar a Deus, mas também para registar cores, cheiros, sons, texturas, como se quisesse levar os leitores pela mão por dentro daquele mundo novo.

A célebre carta escrita em maio de 1560, em São Vicente, é hoje reconhecida como o primeiro grande documento sobre a Mata Atlântica, um marco fundador na descrição do bioma. Nela, Anchieta regista a presença de grandes mamíferos, como as “panteras” de duas variedades – uma cor de veado, mais pequena e bravia (a onça‑parda), outra malhada e pintada de várias cores (a onça‑pintada) –, descrevendo‑as com o cuidado de quem sabe que fala de animais nunca vistos na Europa. Fala também de antas, veados, porcos‑do‑mato, de peixes que sobem os rios em tal abundância que garantem a subsistência das aldeias e de aves de plumagens exuberantes, papagaios, guarás vermelhos, beija‑flores, aves de rapina, numa espécie de inventário vivo do espanto. Não esquece os insetos, as doenças, os desconfortos; mas mesmo o incómodo dos mosquitos entra no quadro geral de um ambiente intenso, total.

A flora surge igualmente em primeiro plano: raízes comestíveis, como a mandioca, outras plantas de que aprende o nome indígena, frutos variados, ervas medicinais usadas para tratar febres e maleitas, árvores que fornecem madeira, sombra, alimentos e remédios. Anchieta não se limita a enumerar espécies; observa usos, técnicas, modos de cultivo, registando aquilo que vê fazer aos povos indígenas. O resultado é um retrato raro do modo como as comunidades locais se relacionavam com a floresta, retirando dela sustento e cura sem a esgotar, o que hoje dá a estas páginas valor histórico, antropológico e ecológico.

 Flora, fauna e paisagens de São Paulo no ano de 1500.
In https://www.researchgate.net/figure/Figura-02-Flora-fauna-e-paisagens-de-Sao-Paulo-no-ano-de-1500_fig1_355680775

Na “Carta de São Vicente” de 1560, o Padre José de Anchieta apresentou uma das primeiras e mais detalhadas descrições da fauna e flora brasileiras, combinando uma excecional capacidade de observação com a admiração pela biodiversidade da Mata Atlântica. Para Anchieta, o Brasil era como um “jardim em frescura”, onde as árvores atingiam alturas admiráveis e a variedade de espécies era tão vasta que a vista nunca se cansava. Principais elementos descritos por Anchieta:

Fauna (Animais)

Anchieta descreveu uma vasta gama de criaturas, por vezes integrando mitos culturais às suas observações:

Animais Aquáticos e Anfíbios: Destacou o “boi marinho” (peixe-boi), descrevendo o seu tamanho imenso, a pele dura semelhante à do elefante e a utilidade da sua gordura para temperar comida. Mencionou a sucuryúba (sucuri), relatando com espanto a sua capacidade de engolir veados inteiros, e o jacaré, cujas carnes notou terem cheiro de almíscar. Descreveu também a capivara e as lontras.

Mamíferos Terrestres: Relatou a extrema ferocidade das panteras (onças), a lentidão da preguiça e as características peculiares do tamanduá, especialmente a sua língua comprida usada para colher formigas. Mencionou ainda a anta (tapiíra), o gambá (sariquéa) com a sua bolsa abdominal para os filhos, diversas espécies de macacos, o tatu e os veados.

Répteis e Insetos: Listou serpentes venenosas como a jararaca, a cascavel (bóicininga) e a cobra-coral. Sobre os insetos, destacou a organização das formigas (Içâ), que os indígenas costumavam comer torradas, além de diversas espécies de abelhas e mosquitos.

Aves: Notou que os papagaios eram tão comuns como os corvos na Europa. Descreveu o guará e os beija-flores (guainumbî), mencionando a crença de que estes últimos se geravam a partir de borboletas e se alimentavam apenas de orvalho.

Flora (Plantas e Árvores)

A descrição da flora foca-se tanto na exuberância visual como nas utilidades práticas:

Mandioca: Explicou que as suas raízes são venenosas e nocivas por natureza se comidas cruas, mas tornam-se um alimento essencial após serem preparadas.

Árvores de Grande Porte: Descreveu pinheiros de altura estupenda e a sapucaia, cujo fruto comparou a uma panela com tampa trabalhada a torno, contendo no interior inúmeras castanhas.

Plantas Medicinais e Curiosas: Identificou o bálsamo (copaíba), cujo suco é excelente para curar feridas sem deixar cicatrizes, e a “erva-viva” (sensitiva), que fecha as folhas imediatamente ao ser tocada. Também mencionou diversas raízes medicinais usadas como purgantes.

Esta carta é considerada um documento fundamental por detalhar a biodiversidade e o exotismo da fauna e flora no início da colonização, servindo como um dos registos mais completos sobre a Mata Atlântica da época.

Curiosamente, o mesmo homem que entrava mata adentro, com risco de encontrar onças ou de adoecer, escrevia poesia em latim e português, compunha autos teatrais para catequese e redigia a primeira gramática da língua tupi.

Arte de grammática da lingoa mais usada na costa do Brasil 

A sua obra vive deste contraste: por um lado, o intelectual formado nas letras europeias; por outro, o missionário que aprende línguas indígenas, experimenta a carne dos animais que descreve e adapta o seu olhar às realidades da terra nova. Quando compara o canto dos pássaros do Brasil com o dos rouxinóis portugueses, ou quando afirma que certos bosques brasileiros deixam os jardins artificiais de Portugal “muito abaixo”, aproxima dois mundos e convida o leitor a rever a hierarquia tácita entre centro e periferia.

Séculos mais tarde, a Carta de São Vicente seria escolhida como referência para o Dia Nacional da Mata Atlântica, celebrado a 27 de maio, transformando um documento missionário do século XVI em bandeira contemporânea de educação ambiental e preservação.

Cadernos da Reserva da Biosfera da Mata Atlantica, 7

O texto de Anchieta funciona hoje como linha de base histórica para perceber o que se perdeu e o que ainda pode ser salvo: ao comparar a floresta abundante que ele descreve com os fragmentos que restam do bioma, ganha‑se consciência da escala da devastação, mas também da necessidade de conservar o que persiste. Ao mesmo tempo, o facto de a carta integrar campanhas, exposições e séries educativas mostra como a escrita de um jesuíta quinhentista continua a gerar imaginários, mobilizar afetos e sustentar argumentos em defesa da natureza.

Da esquerda para a direita: os animais da Terra Santa segundo as “Peregrinationes in Terram Sanctam” de Bernhard von Breydenbach (1486), o “sátiro” da “Historia Animalium” de Conrad Gesner (1551) e o “orang-outang” da “Historiae Naturalis & Medicae Indiae Orientalis” de Jacobus Bontius (in Piso, 1658).

Ler Anchieta, portanto, é muito mais do que revisitar a história da evangelização do Brasil: é entrar num laboratório vivo onde natureza e cultura, teologia e curiosidade científica, medo e fascínio se entrelaçam. O seu olhar, por vezes ingénuo, por vezes agudamente analítico, revela um Brasil em estado nascente e uma Mata Atlântica ainda quase intacta, mas já sujeita a usos intensivos e conflitos. Para quem se interessa por história ambiental, pela circulação de saberes entre Europa e América ou pela própria tradição jesuíta, as cartas de Anchieta constituem uma porta de entrada privilegiada – uma leitura que, quanto mais se explora, mais perguntas suscita sobre o passado e, talvez mais urgentemente, sobre o futuro deste “jardim em frescura e bosque” que ele nos ensinou a imaginar.

Imagem de José Anchieta da biografia de Simão Vasconcellos, Vida do veneravel padre Ioseph de Anchieta da companhia de jesvs, taumaturgo do novo mundo, na província do Brasil. Lisboa: Ioam da Costa, 1672. Acesso online através de http://www.archive.org

“Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se vê em um dia do o ano árvore nem erva seca. Os arvoredos se vão às nuvens de admirável altura e grossura e variedade de espécies. Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos de grande formosura e variedade e em seu canto não dão vantagem aos rouxinóis, pintassilgos, colorinos, e canários de Portugal e fazem uma harmonia quando um homem vai por este caminho, que é para louvar ao Senhor, e os bosques são tão frescos que os lindos e artificiais de Portugal ficam muito abaixo”

escreveu o Padre Jesuíta José Anchieta, em 1585.

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VEIGA, Francisca Branco, Um repórter de natureza no século XVI: José de Anchieta e o primeiro retrato da Mata Atlântica (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [23 de Fevereiro de 2026].

Veja, inclusive, sobre o Padre Anchieta
José Anchieta (1534-1597): curiosidades acerca do humanista

https://www.youtube.com/TertuliasPortugalBrasil (Ep. 87)

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18 de fevereiro de 1546: O Último Dia de Martinho Lutero 

Gravura: A vitória da morte, 18 de fevereiro de 1546 (gravura de Pardimel a partir de uma pintura de Labouchère).

Martinho Lutero (Eisleben, 10 de novembro de 1483 – Eisleben, 18 de fevereiro de 1546) foi uma das figuras mais marcantes da História do Cristianismo e protagonista da Reforma que alterou, para sempre, o mapa religioso da Europa.

Profundamente crente e movido por uma inquietação espiritual característica do seu tempo, Lutero interrogava-se sobre o mistério da salvação e o destino eterno do ser humano. Convencido de que nem as boas obras nem as indulgências podiam conduzir à salvação, defendia que apenas a fé em Deus justificava e redimia o homem.

Para Lutero, o caminho da salvação era responsabilidade individual de cada cristão, sustentado unicamente pela fé. As indulgências — práticas tão comuns na Igreja da época — surgiam, aos seus olhos, como uma violação da autêntica doutrina evangélica.

No dia 31 de outubro de 1517, Lutero afixou na porta da catedral de Wittenberg as suas célebres 95 Teses contra as Indulgências, gesto que simbolizou a rutura com Roma e marcou o início oficial da Reforma Protestante.

Em Eisleben, em 1546, terminou a vida de Martinho Lutero, cuja fé e pensamento deixaram marca duradoura na história do cristianismo.
Porta da Igreja do Castelo em Wittenberg, onde Martinho Lutero pregou as suas 95 Teses.

Poucos anos depois, em 1530, o protestantismo afirmava-se doutrinalmente na Confissão de Augsburgo, que sistematizava os princípios fundamentais do luteranismo. Entre as rejeições de Lutero aos dogmas católicos, destacam-se:

– Recusa da autoridade do papa e da hierarquia eclesiástica.

– Supressão do celibato clerical, afirmando a igualdade de todos os crentes pelo Batismo.

– Defesa do sacerdócio universal: todos os fiéis são pastores e servos da Palavra.

– Tradução da Bíblia para as línguas nacionais, tornando-a acessível a todos.

– A Sagrada Escritura como única fonte autêntica de fé e revelação.

– Rejeição do valor das obras na salvação: só a fé em Deus salva.

– Reconhecimento de apenas dois sacramentos: o Batismo e a Eucaristia, praticada sob as duas espécies, o pão e o vinho.

– Recusa do culto à Virgem e aos santos, bem como de determinados ritos considerados inúteis.

– Celebração da missa em língua vulgar, centrada na leitura do Evangelho, no sermão e nos cânticos.

O impacto do movimento luterano foi profundo e imediato, abrindo caminho à rápida expansão do protestantismo e forçando a Igreja Católica a empreender um vigoroso processo de autocrítica e renovação interna — a Reforma Católica ou Contrarreforma.

Martinho Lutero faleceu na sua cidade natal, Eisleben, a 18 de fevereiro de 1546, e encontra-se sepultado na Igreja do Castelo de Wittenberg (Alta Saxónia, Alemanha).

O último escrito preservado de Lutero foi encontrado em cima de uma mesa após a sua morte. O pequeno pedaço de papel continha apenas algumas frases e terminava com estas palavras:

“Somos mendigos. Esta é a verdade.”

Túmulo de Martinho Lutero [Wittenberg,Schlosskirche]

No contexto da Contrarreforma, surgida em resposta ao impacto do protestantismo, a Companhia de Jesus destacou-se como o principal instrumento de renovação e afirmação da Igreja Católica. Fundada por Inácio de Loyola e aprovada pelo Papa em 1540, a ordem jesuíta tornou-se o verdadeiro “braço espiritual do Papa”, dedicada à defesa da fé, à formação intelectual do clero e à evangelização no mundo. O seu dinamismo missionário e disciplina rigorosa fizeram dela um dos pilares do catolicismo reformado, empenhada em reconquistar almas e restaurar a autoridade de Roma.

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VEIGA, Francisca Branco (2026), 18 de fevereiro de 1546: O Último Dia de Martinho Lutero  (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [18 de Fevereiro de 2026].

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Dante na Ilustração Portugueza de 1909: Inferno, imagens e anticlericalismo na cultura portuguesa

A Divina Comédia de Dante: O Inferno. In Ilustração Portugueza de 6 de setembro de 1909

Um olhar vibrante sobre como a Ilustração Portugueza transformou o Inferno de Dante num espelho ilustrado das ambições, medos e sonhos culturais da Portugal de 1909.

O artigo sobre A Divina Comédia de Dante publicado na Ilustração Portugueza em 6 de Setembro de 1909 é um excelente pretexto para pensar como, no início do século XX, a cultura portuguesa relia os grandes clássicos através da mediação da imagem, da imprensa ilustrada e de uma sensibilidade romântico-simbolista ainda muito viva.​

Dante exilado: o poeta em busca de paz

O texto abre com uma pequena narrativa de sabor quase hagiográfico: um monge de Santa Croce conta o episódio em que Dante, já exilado e desconhecido, bate à porta de um convento, vindo “a caminho dos países que ficam para além dos nossos montes”, e apenas pede “paz”. A revista sublinha o cansaço do poeta, esgotado pelas lutas entre guelfos e gibelinos e pelas rivalidades internas do seu próprio partido, traçando o retrato de um Dante desencantado, afastado do sonho de pacificar Florença, a cidade que o havia primeiro banido e depois condenado.

Esta moldura biográfica reforça a ideia de que a Divina Comédia nasce precisamente dessa experiência de dor, nostalgia e errância – é “durante esse período doloroso” que Dante escreve a obra, concluindo os últimos cantos em Ravenna pouco antes da morte.​

O Inferno como arquitetura moral

O artigo dedica especial atenção ao Inferno, apresentado como a parte mais celebrada da trilogia (Inferno, Purgatório, Paraíso) e descrito em termos quase cartográficos. O espaço infernal surge organizado em nove círculos concêntricos, divididos em vales e recintos, onde as almas são distribuídas de acordo com a natureza e a gravidade dos seus crimes, numa espécie de topografia moral rigorosa. A imaginação de Dante é caracterizada como “macabra” e “tenebrosa”, capaz de conceber castigos que levam o sofrimento ao limite do cruel e do horrível – um catálogo de suplícios que o articulista afirma serem difíceis de reproduzir sem recorrer às próprias palavras do poeta.​

Os exemplos escolhidos são emblemáticos: Paolo e Francesca, condenados a girar eternamente num turbilhão de vento, simbolizando uma paixão que não encontrou forma justa; o conde Ugolino, que devora para sempre o crânio do inimigo que o fizera morrer à fome; e a celebérrima inscrição à entrada do Inferno, “Per me si va nella città dolente…”, apresentada como verdadeira chave de acesso à “cidade dolorosa”.

Ao convocar estes episódios, o artigo cria pontos de ancoragem para leitores que, mesmo sem conhecerem o poema na íntegra, reconhecem as suas figuras mais trágicas.​

Gustavo Doré: um comentador em imagens

Um dos aspectos mais interessantes do texto é a forma como consagra Gustavo Doré como o grande “comentador” visual de Dante. As gravuras são descritas como interpretações “exactas e perfeitas” das visões do poeta florentino: os diabos de formas estranhas e ameaçadoras, os condenados de rostos contorcidos pela “sobrehumana dor” e o fundo abrupto, seco e estéril compõem um Inferno que parece prolongar, em traços e sombras, a violência imagética do poema.​

Ilustração Portugueza reivindica particular cuidado na reprodução dessas imagens, sublinhando que as estampas publicadas foram retiradas diretamente da edição portuguesa, em madeira, e destacando a série como uma das partes mais valiosas da obra de Doré. A selecção é pensada como percurso visual: Dante perdido na selva escura, o encontro com Virgílio, os diversos aspetos dessa “mansão pavorosa de trevas e horrores” e alguns dos episódios mais célebres, oferecendo ao leitor um roteiro condensado do Inferno em forma de álbum.

Auto‑imagem de elite culta

No início do século XX, ao olhar para Dante, a cultura portuguesa via sobretudo um espelho elevado de si própria: aspirava à alta cultura europeia, mas filtrava-a pela sensibilidade de uma burguesia urbana que consumia clássicos em versão ilustrada, narrativa e emocionalmente carregada.

Ao assumir que “todos conhecem a trilogia” e ao citar em italiano os versos de abertura e a inscrição do Canto III, o artigo pressupõe um leitor ideal culto, poliglota, capaz de reconhecer referências e de se emocionar com elas. Esta construção de leitor funciona como auto‑retrato: a cultura portuguesa que publica este texto quer ver‑se como pertença de uma elite europeia, familiarizada com Dante, com Doré e com a tradição literária continental. Ao mesmo tempo, o gesto de “oferecer” ao público português uma selecção de estampas reforça uma missão civilizadora: educar o gosto, aproximar o leitor comum de um património que é apresentado como universal.

Dante, o anticlericalismo e o “tribunal” moral de 1909

A publicação deste artigo em 1909 sobre Dante e o Inferno acontece num momento em que o anticlericalismo em Portugal está no auge, sobretudo nos meios republicanos urbanos, e isso torna a escolha do tema particularmente significativa. Embora o texto da Ilustração Portugueza não seja abertamente político, a forma como apropria Dante e a sua visão do pecado e do castigo dialoga, de modo subtil, com o clima de contestação ao poder da Igreja.

Em 1909 o anticlericalismo já é uma bandeira forte do republicanismo, alimentado por décadas de conflito Estado–Igreja e por campanhas de mobilização que apresentam a Igreja como obstáculo à modernização do país. Ler e divulgar Dante – um leigo, poeta, crítico das corrupções do seu tempo – encaixa bem num imaginário que valoriza a denúncia dos abusos de poder, incluindo os eclesiásticos.

Esse enquadramento torna‑se ainda mais expressivo se trouxermos para cena episódios concretos como a manifestação anticlerical de 2 de agosto, que expõe nas ruas uma hostilidade aberta ao poder e à visibilidade pública da Igreja. Nessa atmosfera carregada, a escolha de Dante pela Ilustração Portugueza deixa de ser apenas literária ou estética: adquire uma ressonância simbólica que dialoga com o conflito Estado–Igreja e com a retórica republicana de regeneração moral e política.

A receção de Dante torna‑se particularmente eloquente num país onde, quase ao mesmo tempo que se marcha contra o clero nas ruas – como na manifestação anticlerical de 2 de agosto – se lê, comenta e ilustra com entusiasmo o poeta medieval que põe príncipes, prelados e poderosos no banco dos réus; ao circular em revistas como a Ilustração Portugueza, o Inferno oferece ao público urbano um tribunal simbólico em que os abusos de poder – também os que vestem batina – são julgados em nome de uma ordem moral superior, permitindo a uma cultura em acelerada laicização reconhecer‑se discretamente nas condenações dantescas sem precisar de as enunciar em chave panfletária.

Em jeito de conclusão

Em 1909, num Portugal marcado por forte anticlericalismo e por manifestações nas ruas contra o clero, a publicação, na Ilustração Portugueza, de um artigo sobre o Inferno de Dante, ilustrado por Gustavo Doré, revela muito da auto‑imagem cultural da época: recupera-se a figura do poeta exilado, cansado das fações e das alianças entre poder político e religioso, como modelo de intelectual crítico; apresenta-se o Inferno como arquitetura moral rigorosa, onde príncipes, prelados e poderosos são julgados por uma ordem superior à das instituições; e oferece-se ao público urbano um acesso moderno, visual e prestigiante a um clássico europeu que permite, de forma discreta, ressoar com um imaginário de denúncia de abusos de poder – também os que vestem batina – sem recorrer ao tom panfletário, conciliando, assim, ambição de alta cultura, vontade de laicização e fascínio pelo macabro organizado num “tribunal” simbólico de justiça poética.

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VEIGA, Francisca Branco (2026), Dante na Ilustração Portugueza de 1909: Inferno, imagens e anticlericalismo na cultura portuguesa (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [04 de Fevereiro de 2026].

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Os três tiros que derrubaram a Monarquia Portuguesa: 1 de Fevereiro de 1908

Assassinato do Rei Carlos I, Rei de Portugal, ilustração da capa do &39;Le Petit Parisien&39;, suplemento literário ilustre, 16 de fevereiro de 1908.

O regicídio de 1 de fevereiro de 1908 foi o atentado em que o rei D. Carlos I e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe foram assassinados na Praça do Comércio (Terreiro do Paço), em Lisboa, quando regressavam de Vila Viçosa e entravam na cidade num landau descoberto.

O atentado no Terreiro do Paço

Na tarde de sábado, 1 de fevereiro de 1908, a família real vinha de comboio até ao Cais do Sodré e seguiu em carruagem aberta em direção ao Palácio das Necessidades, passando pelo Terreiro do Paço. Foi aí que vários atiradores, identificados em geral como ligados a meios republicanos e à Carbonária, abriram fogo sobre o coche. D. Carlos morreu quase de imediato, D. Luís Filipe foi mortalmente ferido e ainda terá reagido, enquanto o infante D. Manuel foi atingido num braço, mas sobreviveu.

Autores materiais e enquadramento político

Os atiradores são tradicionalmente associados à Carbonária e a círculos revolucionários republicanos, num clima de forte contestação ao rei e ao governo de João Franco. As fontes evocam nomes como Manuel Buiça e Alfredo Costa entre os executantes, embora a discussão sobre os “autores morais” e o grau de envolvimento de dirigentes republicanos se tenha prolongado ao longo de décadas. O atentado surge no contexto de grande tensão política, crise financeira, contestação ao rotativismo e perceção de autoritarismo reforçado sob João Franco, num regime ainda liberal mas socialmente muito restritivo.​

Consequências imediatas

Logo após o regicídio, caiu o governo de João Franco e foram libertados numerosos presos políticos, incluindo muitos republicanos. D. Manuel II, sobrevivente do atentado, foi reconhecido como novo rei, sendo aclamado chefe de Estado em 1908, mas o seu reinado seria muito breve. O choque do regicídio fragilizou decisivamente a monarquia; dois anos depois, a 5 de outubro de 1910, a República foi proclamada e D. Manuel II partiu para o exílio.

Memória histórica

O episódio ficou conhecido como “os três tiros que abalaram a monarquia”, sublinhando o seu peso simbólico na rutura do regime constitucional oitocentista. Na memória pública, D. Carlos I acabou por ser frequentemente lembrado como “o Martirizado”, acentuando o caráter trágico de um reinado interrompido por violência política. Ao nível local e regional, a chegada da notícia (por exemplo, ao Algarve) foi vivida com enorme comoção, amplamente registada pela imprensa da época como “O Século” e o “Diário de Notícias”

Reconstituição de Alfredo Moraes para o “Supplemento humorístico d’O Século” de 13 de Fevereiro.
In : Ilustração Portugueza. – Lisboa. – S. 2, vol. 5, n° 106 (1908).

A capa ilustrada de Le Petit Journal fixa um dos momentos mais pungentes da história contemporânea portuguesa: a despedida silenciosa de D. Amélia, entre os corpos do marido, o rei D. Carlos I, e do filho primogénito, o príncipe real D. Luís Filipe, assassinados no Terreiro do Paço a 1 de fevereiro de 1908. A rainha surge de luto, ajoelhada entre os dois leitos, numa composição que transforma o drama político do regicídio numa cena quase sacra, marcada pela dor íntima, pela maternidade ferida e pela solidão do poder derrotado. As velas acesas, os estandartes e os tecidos cuidadosamente dispostos reforçam a ideia de ritual fúnebre de Estado, mas o centro emocional da imagem não está na pompa, está no corpo inclinado da rainha, no gesto de quem vela e chora os seus mortos.

Esta representação, publicada na imprensa ilustrada francesa, revela também como a Europa viu o regicídio português: menos como um episódio interno de crise de regime, e mais como uma tragédia familiar que abala a própria ideia de monarquia. Ao destacar a dor da esposa e da mãe, o jornal convida o leitor a empatizar com a figura de D. Amélia, humanizando uma casa real que, em Portugal, era alvo de duríssimos ataques políticos e de feroz contestação republicana. A imagem é, por isso, simultaneamente crónica visual de um acontecimento e construção de uma narrativa: a monarquia portuguesa aparece aqui como vítima sacrificada, envolta num cenário de luto, num momento em que o seu fim político se aproximava inexoravelmente.

Em 1908, três tiros não abateram apenas um rei e um príncipe: sepultaram uma era e acenderam o fio que levaria à República.

La reine Amelie et le Roi Manuel en pose. ca. 1900-1919
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:La_reine_Amelie_et_le_Roi_Manuel_en_pose.jpg

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco (2026), Os três tiros que derrubaram a Monarquia Portuguesa: 1 de Fevereiro de 1908 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [01 de Fevereiro de 2026].

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