No dia 14 de maio de 2026, no Palácio Nacional de Queluz, participei no colóquio “Entre o Absolutismo e o Liberalismo: Arte e Cultura ao Tempo de D. João VI (1767-1826)”, com a comunicação “D. João VI e Nossa Senhora da Rocha: Devoção, Poder e Tradição”.

D. João VI e Nossa Senhora da Rocha: quando a devoção se torna política
Nos anos turbulentos em que Portugal oscilou entre o absolutismo e o liberalismo, a devoção a Nossa Senhora da Rocha ganhou um inesperado protagonismo político. Não foi apenas uma devoção local, enraizada em Carnaxide; tornou‑se linguagem de poder, instrumento de legitimação régia e bandeira da resistência absolutista.
A Revolução de 1820 e as Cortes Constituintes abalaram a arquitectura tradicional da monarquia, limitando de forma drástica o poder executivo e sujeitando D. João VI a uma Constituição sentida por muitos como ameaça à ordem antiga. Nesse contexto de crise, o reino “exigia uma âncora espiritual e política para travar o abatimento do Trono” – e é precisamente aí que a figura de Nossa Senhora da Rocha entra em cena.
Do vale do Jamor à Sé de Lisboa

O ponto de partida é um santuário discreto, embutido na paisagem do Jamor: Nossa Senhora da Rocha, em Carnaxide, então nos arredores de Lisboa. A tradição fala de uma imagem descoberta numa gruta e de uma devoção enraizada numa comunidade relativamente periférica, mas capaz de irradiar significado para além do seu território.
Ao reconhecer o milagre e mandar levar a imagem para o coração litúrgico da capital, o rei D. João VI legitima o culto e inscreve‑o no centro da vida religiosa e política do reino.
Carlota Joaquina e a intransigência absolutista
Se D. João VI tenta gerir a transição com pragmatismo, a rainha D. Carlota Joaquina encarna a recusa frontal do novo regime. Em novembro de 1822, recusa‑se a jurar a Constituição liberal, é privada de direitos e retirada para o Ramalhão, que rapidamente se torna um foco de resistência absolutista.
É neste ambiente que a devoção a Nossa Senhora da Rocha ganha um tom marcadamente político. Às vésperas da Vila‑Francada, em maio de 1823, D. Miguel distribui gravuras da Virgem como distintivo de lealdade, transformando a imagem mariana em emblema de recrutamento absolutista. A devoção já não é apenas uma questão de fé: torna‑se senha de pertença a um campo político.
A própria Carlota Joaquina é envolvida numa narrativa de milagre: alegadamente à beira da morte, recuperaria a saúde por intercessão de Nossa Senhora da Rocha. Pouco depois, a imagem é levada para o Paço da Bemposta, onde a rainha se instala após a Vila‑Francada, aproximando ainda mais o culto do quotidiano da corte.
Solenidades, imprensa e propaganda
A ligação entre a Virgem da Rocha e a legitimidade régia é explicitada em cerimónias públicas cuidadosamente encenadas. Em junho de 1823, a Gazeta de Lisboa descreve uma “solenidade de agradecimento” pela intercessão da Virgem da Conceição da Rocha na proteção da Nação e na preservação do trono na sua “plenitude e estabilidade”. A cerimónia tem lugar na Sé de Lisboa, no altar de Nossa Senhora de Bettencourt, com a imagem da Rocha exposta no nível inferior e D. Carlota Joaquina a presidir.

Em 1828, já D. Miguel aclamado rei, um grave acidente de carruagem, em novembro de 1828, perto da Quinta do Caruncho, quase lhe custa a vida e à das irmãs que o acompanhavam. Convalescente em Queluz até ao Natal, o rei vê a sua recuperação interpretada como novo milagre de Nossa Senhora da Rocha, e a imprensa, como o Correio do Porto, insiste em que a religião é “elemento vital do coração do nosso Rei”.
Em janeiro de 1829, uma grande solenidade na Basílica de Santa Maria celebra oficialmente a intervenção da Virgem. Gravuras populares difundem a imagem de D. Miguel e das irmãs em oração perante Nossa Senhora da Rocha, consolidando o lugar desta devoção como símbolo da causa absolutista e da aliança entre fé e poder régio.
Uma devoção que atravessa o exílio
Mesmo quando as circunstâncias políticas obrigam ao exílio, após o golpe militar em 30 de Abril de 1824 (Abrilada), a devoção acompanha os protagonistas. Em 1826, D. Miguel recebe da sua ama uma pequena imagem de Nossa Senhora da Rocha, pendente numa corrente de ouro – não apenas um consolo espiritual, mas uma espécie de “transferência física de legitimidade”, sinal de que os absolutistas em Lisboa continuavam a vê‑lo como “instrumento da Providência”.

As princesas D. Maria Teresa e D. Maria Francisca, por seu lado, exprimem, em cartas, uma profunda aversão ao liberalismo, pedindo ao irmão que “venha salvar‑nos” e proteger o “Altar e Trono de Bragança”. A linguagem é reveladora: defender a dinastia e defender a fé católica surgem como duas faces da mesma missão.
Entre fé, poder e memória
Com a entrada do exército liberal em Lisboa, em 1833, sob a liderança de D. Pedro, a balança política inclina‑se definitivamente a favor da causa constitucional. Mas a devoção a Nossa Senhora da Rocha não desaparece: prolonga‑se em ofertas de mantos, como o de D. Maria Francisca Benedita, e os das irmãs de D. Miguel, D. Maria Francisca e D. Maria Teresa, e na própria musealização do Santuário e dos seus objetos.

Vista à distância, esta história mostra como, numa época de transição e conflito, religião e política se entrelaçaram de forma quase indissociável. A devoção mariana foi instrumentalizada pela Coroa desde 1822, transformando Nossa Senhora da Rocha em símbolo ideológico da resistência absolutista, enquanto a invocação da “antiga devoção” serviu de argumento contra a modernidade liberal.
Para quem visita hoje o santuário em Carnaxide, a beleza silenciosa do lugar esconde uma história de grande densidade política. Entre o vale do Jamor, a Sé de Lisboa, os salões de Queluz e os caminhos do exílio, a pequena imagem da Virgem da Rocha acompanhou a queda de um mundo e a difícil aprendizagem de outro.



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VEIGA, Francisca Branco, D. João VI e Nossa Senhora da Rocha: Devoção, Poder e Tradição (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [16 de Maio de 2026].
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