JOSÉ ANCHIETA (1534 – 1597): curiosidades acerca do humanista

Do Brasil escreve aos seus irmãos de fé: 

«Não basta sair de Coimbra com um fervor que logo murcha, antes mesmo de cruzar o equador e desejar voltar para Portugal. É necessário ter os alforjes cheios para durar até ao final do dia»

Gravura anónima do “Venerabilis P. Ioseph Anchieta e(x) Societate Iesu”. In Simão de Vasconcelos, Vida… (Lisboa, 1672).

Foi, ainda noviço para o Brasil, a 8 de maio de 1553, na 3.ª Expedição de Missionários Jesuítas, chefiada pelo Padre Luiz de Grã e na armada de Duarte Góis.

José de Anchieta e outros religiosos subiram a Serra do Mar rumo ao Planalto, onde se instalaram. A inauguração do barracão do planalto deu-se junto a uma aldeia de índios no dia 24 de JANEIRO de 1554, dia da conversão do Apóstolo São Paulo, local onde os jesuítas precisavam de tradutores e de intérpretes da língua indígena Tupi. No local, Nóbrega com a ajuda de Anchieta celebraram uma missa, em homenagem ao Santo – dava-se início à FUNDAÇÃO da cidade de SÃO PAULO.

Em 1566, Anchieta foi ordenado padre. Dirigiu o Colégio dos Jesuítas no Rio de Janeiro entre 1570 e 1573 e foi Provincial da Companhia de Jesus no Brasil durante dez anos.

A 9 de julho de 1597, José de Anchieta faleceu em Reritiba (atual Anchieta), aldeia que fundara, no Estado do Espírito Santo (Brasil).

Em 1611, os seus restos mortais foram transladados: uma parte, para o Colégio da Baía, a outra, para Roma.

Na Conferência proferida na biblioteca da Faculdade de Direito de São Paulo, a 24 de setembro de 1896, na presença dos lentes da Faculdade, do Presidente do Estado, autoridades e representantes do clero, grande número de Senhoras e cavalheiros e sob a Presidência de João Monteiro, vice-director da Faculdade, Brazilio Machado descrevia o padre Anchieta da seguinte forma:

« Era o padre Anchieta de mediana estatura, de compleição robusto, porém, descarnado; tinha pouca barba, olhos azues, cabeça grande; seu aspecto, tão magestoso quanto affavel, inspirava, em quantos o conversavam, confiança e amor!»*

Obra que integra o acervo do Museu Paulista da USP. Coleção Fundo Museu Paulista (Museu do Ipiranga) – FMP, 1920.
“Às estrelas por caminhos difíceis” – A frase em latim no quadro de José Anchieta, de autoria do pintor Oscar Pereira da Silva (1865-1939), é um dos lemas fundamentais na Companhia de Jesus.

Em 1595, escreveu «Arte da Gramática da Língua mais Conhecida na Costa do Brasil», o tupi-guarani, que foi publicada em Coimbra, por Antônio Mariz, em 1595. Esta obra teve um caráter pioneiro pela sua importância para o conhecimento do tupi falado no século XVI, a qual era, até então, exclusivamente oral. Outro jesuíta, como por exemplo, o padre basco João de Azpilcueta Navarro compôs os primeiros hinos religiosos nas suas pregações aos indígenas.

In http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_obrasraras/or812098/or812098.pdf

Índice

  1. Das letras – Cap. I 
  2. Da ortografia ou pronunciação – Cap. II 
  3. De accentu – Cap. III 
  4. Dos nomes – Cap. IIII 
  5. Dos pronomes – Cap. V 
  6. Dos verbos – Cap. VI
  7. Anotações, na conjugação – Cap. VII 
  8. Da construção dos verbos ativos – Cap. VIII 
  9. De algumas maneiras de verbos em que esta anfibologia se tira – Cap. IX 
  10. Das preposições – Cap. X 
  11. De sumesfui – Cap. XI 
  12. Dos verbos neutros feitos ativos – Cap. XII 
  13. Dos ativos feitos neutros – Cap. XIII 
  14. Da composição dos verbos – Cap. XIIII 
  15. Da repetição dos verbos – Cap. XV 
  16. De alguns verbos irregulares de  – Cap. XVI 

José de Anchieta : Padre Jesuíta e Apóstolo do Brasil
Date: [18–]
Description: “Nascido a 7 de abril de 1534 em Teneriffe, Fallecido a 9 de junho de 1597…”
Zincogravura, p&b
In https://acervobndigital.bn.gov.br/sophia/index.html

*In III Centenário do Veneravel Joseph Anchieta, 1900.

José de Anchieta e o Nascimento da Tradição Natalícia no Brasil

São José de Anchieta foi um verdadeiro pioneiro das artes e da evangelização no Brasil, destacando-se também na representação do mistério do Natal. Em 1553, ainda como noviço jesuíta, apresentou pela primeira vez no país a cena do Presépio, em São Vicente, no actual estado de São Paulo, dirigindo-se aos indígenas e aos filhos dos colonos portugueses. Este facto é registado com rigor pelo Santuário Nacional de São José de Anchieta, situado na cidade Anchieta que hoje tem o seu nome.

Para a construção do Presépio, Anchieta envolveu os indígenas da região, valorizando as suas técnicas tradicionais de cerâmica. Desta forma, soube transmitir ao catolicismo nascente no Brasil a antiga tradição natalícia medieval, iniciada por São Francisco de Assis em Greccio, na Itália, no ano de 1223 — uma herança espiritual que chegou até aos nossos dias, apesar das profundas crises religiosas que marcaram a Igreja após o Concílio Vaticano II.

Primeiro presépio da História, criado por São Francisco de Assis no Natal de 1223, na localidade de Greccio, em Itália.
A imagem reproduz a Natividade (1490), o imponente presépio em terracota policromada do escultor italiano Andrea della Robbia, conservado na igreja de Santa Maria degli Angeli, no Santuário de La Verna, em Arezzo, Itália. Com grande delicadeza, a cena apresenta Jesus rodeado pela Virgem Maria, São José, São Francisco e Santo António de Lisboa.
“Presépio Franciscano”
Vista Alegre

A pedido do Padre Manuel da Nóbrega, José de Anchieta escreveu igualmente uma peça teatral de Natal, cuidadosamente adaptada à realidade e à sensibilidade dos índios de São Lourenço, localidade que corresponde hoje à cidade de Niterói.

Nesta obra, o grande Apóstolo do Brasil não hesitou em denunciar o estado moral e espiritual desses povos, imaginando um diálogo tocante entre um pecador — o indígena — que se aproxima do Presépio e do Menino-Deus, descrito com ternura como “o menino mui formoso, santo menino, nas palhinhas deitado para salvação do pecado”. Através desta linguagem simples e profundamente humana, Anchieta procurava tocar os corações e conduzi-los ao mistério redentor do Natal.

A ação da Companhia de Jesus na fundação da cidade do Rio de Janeiro


Pintura: A Construção da História Nacional pelo pintor Firmino Monteiro entre 1879 e 1884.

(Pormenor)

A fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, entendida como um processo e não como um ato isolado, contou com a presença decisiva da Companhia de Jesus, que acompanha as expedições régias, intervém nas negociações com diferentes grupos indígenas e assegura a implantação estável da Igreja no novo núcleo urbano.


Em 1563, D. Catarina, regente do trono português, ordenou que Estácio de Sá regressasse ao Brasil como chefe da armada destinada a dominar a região, contando então com o apoio direto dos padres jesuítas Manuel de Nóbrega e José de Anchieta, que recrutaram habitantes locais, em especial guerreiros temiminós sob a chefia do cacique Araribóia, para se juntarem a Estácio de Sá na luta contra os franceses.

Para além desse apoio militar e logístico na expulsão dos franceses da Baía de Guanabara, os jesuítas participam na construção da primeira casa‑igreja dedicada a São Sebastião, na catequese e na mediação com a população local, recebendo ainda uma ampla sesmaria na nova capitania.


Isso faz da Ordem, e de figuras como Nóbrega e Anchieta, alguns dos principais agentes na organização do território e na definição da paisagem social e económica da cidade nascente, articulando conversão religiosa, alianças indígenas e expansão colonial portuguesa.

A atuação da Companhia de Jesus foi um pilar fundamental na consolidação do projeto colonial português, exercendo um papel de mediação crucial entre os colonizadores e as populações indígenas. Figuras como os padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta são historicamente reconhecidas pela capacidade de negociar alianças estratégicas, como o apoio da tribo temiminó, liderada por Araribóia, que foi determinante para a expulsão definitiva dos franceses da Baía de Guanabara.

A figura de Anchieta é frequentemente associada à catequese e à conversão de importantes lideranças nativas, sendo‑lhe atribuído o baptismo de Tibiriçã, considerado o primeiro indígena convertido por ele. No imaginário artístico e literário do século XIX, Anchieta é evocado como o “missionário poeta”, possuidor de uma fisionomia angélica, que utilizava versos escritos na areia para ensinar os mistérios da fé católica aos indígenas. Por sua vez, Nóbrega é representado como a autoridade eclesiástica central, frequentemente retratado à frente de grupos religiosos e ostentando emblemas sacros em momentos de oficialização territorial.

Na iconografia histórica, a presença jesuítica simboliza a tentativa de harmonizar interesses conflitantes e unificar as diferentes “raças” em prol da construção de uma nova nação sob a égide do catolicismo. A religião, personificada nestes missionários, actuava como o elemento unificador que legitimava a posse da terra e a fundação de núcleos urbanos.

No entanto, a trajectória da Companhia de Jesus no Brasil também é marcada por uma profunda ambiguidade. Embora os jesuítas tenham sido construídos como pacificadores e conciliadores, relatos históricos apontam que eles teriam traído a confiança de grupos como a Confederação dos Tamoios. Ao revelarem segredos de confissão sobre estratégias de ataque indígenas aos portugueses, os religiosos forneceram informações estratégicas que foram decisivas para o extermínio dessa confederação, revelando uma actuação política e bélica indissociável de sua missão espiritual.

A iconografia da pintura “A Fundação da Cidade do Rio de Janeiro” (1881), de Antônio Firmino Monteiro, integra as figuras da Companhia de Jesus numa composição que simboliza a união entre a fé católica e o poder civil na formação da nação.

Detalhes iconográficos dos jesuítas

  • Manuel da Nóbrega: É retratado numa posição de liderança eclesiástica, aparecendo à frente de um grupo religioso e suspendendo um emblema sacro. Sua presença confere um carácter oficial e sagrado ao acto de fundação territorial.
  • José de Anchieta: É descrito pela crítica da época como possuidor de uma “fisionomia angélica”. Na tela, ele aparece ao lado do bispo D. Leitão, que veste seus hábitos sacerdotais, mitra e báculo. Anchieta personifica o “bom missionário poeta”, evocando a tradição de que ele ensinava os mistérios da religião aos indígenas através de quadras escritas na areia.

Composição e cenário religioso

O altar e a cruz: A cena religiosa é reforçada pela presença de um altar onde a missa foi celebrada, com velas esguias ainda acesas, palmas e galhetas. Uma cruz está situada logo ao lado do Morro do Pão de Açúcar, criando uma sensação de comunhão entre a natureza exuberante e a fé católica.

A mediação entre grupos: Os jesuítas estão posicionados no centro‑direito da tela, servindo como um elo visual e simbólico entre os portugueses (governador Mem de Sá e senadores) e o grupo de indígenas em primeiro plano. Essa disposição reforça o papel histórico da Companhia de Jesus como mediadora na aliança com a tribo temiminó.

Simbolismo da unificação e conflito

  • União das raças: A iconografia sugere que a religião, personificada por Anchieta e Nóbrega, foi o elemento capaz de unificar brancos e índios e harmonizar interesses conflitantes em prol de uma nova nação.
  • Contraponto ao indígena convertido: A presença dos padres dialoga directamente com a figura de Tibiriçã (Martim Afonso), o primeiro índio convertido por Anchieta, que aparece em destaque na tela.
  • Crítica subjacente: Embora a pintura apresente uma cena harmoniosa, as fontes lembram que essa iconografia omite a actuação ambígua dos jesuítas, que teriam traído segredos de confissão dos Tamoios para auxiliar na vitória militar portuguesa, um facto que Monteiro conhecia através das crónicas jesuíticas e da literatura indianista.

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VEIGA, Francisca Branco, Padre JOSÉ DE ANCHIETA (1534 – 1597) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [02 de Maio de 2024].

https://www.youtube.com/TertuliasPortugalBrasil (Ep. 87)

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