Um biombo de laca de Coromandel: entre a China e o Ocidente

Há objetos que, pela sua beleza, despertam imediatamente o olhar. Outros, para além da beleza, permitem-nos compreender a circulação de pessoas, técnicas, objetos e culturas entre diferentes espaços do mundo. É o caso deste biombo de laca de Coromandel, da coleção da Fundação Calouste Gulbenkian, constituído por doze painéis de madeira.

Palavras-chave

Biombo de Coromandel · Laca chinesa · Arte chinesa · Dinastia Qing · Fundação Calouste Gulbenkian · China · Coromandel · Comércio marítimo · Circulação cultural · Chinoiserie · Arte e sociedade · Cultura material · Património · Relações Ásia-Europa · História da arte · Colecionismo

Um objeto chinês com nome ocidental

Os biombos, conhecidos na China como pingfeng ou lian ping, tinham uma função prática: protegiam os espaços interiores das correntes de ar e permitiam também organizar e delimitar diferentes áreas dentro de uma divisão.

A designação «laca de Coromandel» não significa, contudo, que estas peças fossem produzidas na costa de Coromandel, na Índia.

O nome está relacionado com a sua circulação comercial para o Ocidente através da costa de Coromandel, na costa oriental da Índia. É, por isso, uma designação que nos fala tanto da peça como das redes comerciais através das quais ela circulou.

Uma pintura sobre madeira

A técnica utilizada é particularmente interessante.

Sobre a laca preta era previamente realizado um desenho, sendo depois os sulcos preenchidos com pigmentos de diferentes cores. O resultado é uma superfície de grande riqueza decorativa, onde o negro do fundo contrasta com as cores das figuras, dos edifícios e da vegetação.

Neste exemplar, as cenas distribuem-se pelos diferentes painéis e apresentam arquiteturas palacianas, jardins, personagens e momentos da vida quotidiana num ambiente de corte.

O biombo não deve, por isso, ser entendido apenas como um objeto decorativo. A sua pintura constrói também uma representação visual de um determinado universo social.

Um objeto para celebrar

Existe ainda uma particularidade que torna esta peça especialmente interessante.

Segundo a informação que acompanha o objeto (legenda), a sua execução esteve relacionada com a comemoração do quinquagésimo aniversário de um marechal.

Esta circunstância ajuda a compreender a dimensão simbólica do biombo. Estamos perante um objeto de uso doméstico, mas também perante uma peça associada à memória, à representação social e à celebração de uma figura de estatuto elevado.

A riqueza da decoração não é, portanto, meramente ornamental.

O biombo como espaço

Um biombo serve para dividir um espaço, criar alguma privacidade e orientar a circulação dentro de um interior. Mas, simultaneamente, este biombo representa espaços: pavilhões, jardins, interiores palacianos e diferentes grupos de personagens.

Existe, assim, uma relação muito interessante entre o espaço real que o biombo organiza e o espaço imaginado que a sua pintura representa.

O espectador não contempla uma única imagem. O olhar percorre os doze painéis, passando de uma cena para outra e descobrindo progressivamente uma paisagem social e arquitetónica.

Da China para o Ocidente

Peças como esta são também testemunhos de uma longa história de circulação cultural entre a Ásia e a Europa.

Muito antes de a chinoiserie se afirmar como gosto europeu, objetos chineses circulavam através das redes comerciais asiáticas e chegavam aos espaços europeus, onde eram apreciados pelo seu valor artístico, pela qualidade técnica e pelo seu carácter exótico.

O biombo torna-se, assim, mais do que uma peça de mobiliário.

É também um testemunho material de contactos entre mundos diferentes, de circuitos comerciais e de uma crescente curiosidade europeia pelas culturas asiáticas.

Um objeto que merece ser lido

É precisamente esta dimensão que me interessa nestas peças.

Quando observamos um biombo de laca de Coromandel, não estamos apenas perante uma obra de grande beleza decorativa. Estamos perante um objeto que permite pensar arte, comércio, circulação, representação social e contacto entre culturas.

E talvez seja essa uma das maiores riquezas dos objetos históricos: continuam a falar-nos, mesmo muitos séculos depois de terem sido produzidos.

O passado continua a falar — quando sabemos olhar para os seus objetos.

Esta fotografia mostra a estrutura completa de 12 painéis (folhas) do biombo de Coromandel pertencente à coleção de arte da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
A imagem permite compreender o intrincado esquema decorativo tripartido e simétrico planeado pelos artesãos chineses do final do século XVII (dinastia Qing), revelando como as aproximações anteriores se integram na grandiosa narrativa visual da peça:

1. O Registo Superior (Os Círculos e Janelas Caligráficas)
Medalhões Circulares: No topo de cada uma das 12 folhas, existe uma cercadura circular que emoldura delicadas pinturas de paisagens e composições florais em tons suaves.
Cartelas Verticais: Logo abaixo de cada círculo, pequenas cartelas verticais intercalam-se com padrões geométricos brancos e pretos que recordam favos de mel, criando respiros visuais preciosos antes da densidade das cenas principais.

2. O Registo Central Superior (Painéis Narrativos em Papel)
É nesta faixa intermédia que se inserem as cenas de cariz literário, doméstico e militar (como a partida da expedição militar a cavalo e o encontro de intelectuais) detalhadas anteriormente.
A utilização de cores minerais mais suaves e fundos claros sobrepostos simula o efeito dos rolos de pintura tradicional chinesa em papel ou seda, conferindo erudição à peça.

3. O Registo Central Inferior e Base (A Grande Escultura em Laca)
A Celebração do Banquete: Ocupando a metade inferior do biombo, estende-se a grande e contínua narrativa palaciana esculpida em laca preta profunda (técnica kuan-cai). A perspetiva isométrica unifica todas as folhas, permitindo que a corte, o pátio com os músicos, as escadarias e o salão do trono do dignatário façam parte de um único e monumental cenário.
A Base: A sustentar toda a composição, a base do biombo apresenta robustos painéis inferiores a vermelho e ouro decorados com figuras de dragões imperiais e fénix que protegem a estrutura.

Esta magnífica peça da Coleção Gulbenkian é um dos exemplares mais raros deste género em Portugal devido à inclusão destas molduras de papel nos painéis superiores.
📸 @franciscabrancoveiga

Esta imagem foca-se na zona inferior da cena da audiência, revelando os preparativos culinários e o entretenimento musical que dão vida ao banquete palaciano no pátio exterior.
A composição divide-se nitidamente entre o terraço superior (onde decorre a cerimónia) e o pátio inferior de laca preta:

1. O Pátio Inferior: Músicos e Servas (Primeiro Plano)
Esta área mostra a azáfama dos criados e artistas que asseguram o sucesso da festividade:
As Músicas da Corte: No canto inferior direito, um grupo de mulheres executa música tradicional ao vivo para entreter os convidados. É possível distinguir uma figura a tocar uma flauta transversal (dizi) e outra inclinada sobre um tambor ritual assente num suporte de madeira decorado.
O Transporte das Iguarias: À esquerda, três damas de companhia avançam em cortejo. Transportam bandejas e recipientes circulares com alimentos e ofertas preciosas que serão subidos pelas escadas até ao salão principal.

2. O Terraço Superior: A Comitiva Real
No nível superior, a imagem permite ver com maior nitidez a transição entre o espaço exterior e o trono:
Guardas e Aias no Alpendre: À esquerda das colunas vermelhas, várias aias posicionam-se estrategicamente ao longo da balaustrada de pedra verde, funcionando como assistentes de protocolo da corte.
A Proximidade do Trono: À direita, a figura ajoelhada em vestes azuis escuras faz a ponte visual direta com o dignatário barbudo sentado no trono, reforçando o ato central de submissão, respeito ou entrega de tributo.
📸 @franciscabrancoveiga

1. Painel da Esquerda: A Vida Doméstica e Literária (Cena Superior e Inferior)
Este painel foca-se na sofisticação e nas atividades intelectuais ou de lazer no interior de uma residência nobre:
A Cena Superior: No interior de um pavilhão aberto para o jardim, vê-se um grupo em redor de um grande recipiente ou braseiro circular. Uma figura central, vestida de azul, parece estar a preparar chá ou a queimar incenso, enquanto outras personagens observam. O ambiente está decorado com mesas baixas e objetos de escrita, sugerindo um encontro de intelectuais ou poetas (literati).
A Cena Inferior: Junto ao portão de entrada da residência, delimitado por uma árvore antiga, duas figuras masculinas vestidas com trajes formais conversam. Uma delas parece estar a despedir-se ou a receber um convidado, um tema muito comum na pintura de paisagem chinesa que exalta a hospitalidade e os laços de amizade.

2. Painel da Direita: A Partida ou Regresso de uma Expedição Militar
Este painel introduz um elemento dinâmico e heroico, muito comum em biombos narrativos que celebram os feitos de grandes generais (como as crónicas do Romance dos Três Reinos):
O Comandante Militar: Um guerreiro montado num cavalo branco destaca-se no centro da composição. Ele veste uma armadura tradicional e segura uma longa lança (ji), liderando a marcha.
A Comitiva e os Estandartes: Abaixo dele, vários soldados a cavalo avançam transportando grandes bandeiras militares e estandartes coloridos com insígnias. A presença das bandeiras reforça a solenidade e a importância da missão ou da vitória militar.
A Entrada da Fortaleza: Ao fundo, as tropas aproximam-se ou saem de um imponente arco de pedra que serve de porta a uma cidade fortificada ou palácio, encimado por um pavilhão com uma cortina vermelha.
📸 @franciscabrancoveiga

Vista Geral d
A imagem oferece uma perspetiva mais ampla de dois dos painéis centrais do biombo, revelando a organização espacial e a arquitetura típica dos palácios chineses da época:
Estrutura multinível: A composição divide-se através de terraços elevados, escadarias de pedra e pavilhões abertos sustentados por colunas vermelhas.
Dinâmica narrativa: Do lado esquerdo, vemos as comitivas a aproximarem-se dos portões do palácio, enquanto o lado direito conduz o olhar diretamente para a sala de audiências principal.
Painéis decorativos: No topo, observam-se secções horizontais separadas que retratam paisagens e cavalheiros, emoldurados por padrões geométricos e dragões dourados na base.
📸 @franciscabrancoveiga

A Audiência com a Figura Central
Esta imagem foca-se no clímax narrativo do biombo, que se assemelha fortemente à famosa iconografia tradicional de “Guo Ziyi a receber os parabéns no seu aniversário” ou a uma receção com um dignatário ou imperador:
O Anfitrião/Dignatário: Um homem de longa barba preta, envergando sumptuosas vestes imperiais vermelhas bordadas com motivos circulares de dragões, encontra-se sentado num trono elevado.
O Suplicante ou Homenageado: Diante dele, uma figura vestida de azul-escuro curva-se numa profunda reverência respeitosa.
A Corte: À esquerda do trono, um grupo de oficiais e conselheiros com chapéus oficiais (wushamao) observa atentamente a cena. Atrás deles, criadas transportam grandes travessas com oferendas cobertas, simbolizando riqueza e celebração.
📸 @franciscabrancoveiga

O Cortejo das Damas de Companhia (Terceira Foto)
Esta secção detalha um grupo de mulheres da corte (meiren) a deslocar-se graciosamente ao longo de um corredor inclinado ou rampa pavimentada do jardim palaciano:
Preparativos para o Banquete: As damas surgem a transportar alimentos, frutas, taças de vinho rituais e um vaso azul com peónias (flores que simbolizam a prosperidade, a honra e a primavera).
Estética da Época: Estão vestidas com trajes tradicionais de seda multicamada e ostentam penteados elaborados decorados com ganchos de cabelo dourados, refletindo os ideais de elegância e harmonia da dinastia Qing.
📸 @franciscabrancoveiga
Os Dignatários no Pavilhão (Quarta Foto)
A última fotografia foca-se num pavilhão de lazer adjacente, onde os convidados de elite aguardam ou assistem aos festejos:
Estudo e Observação: Um grupo de intelectuais e funcionários públicos conversa descontraidamente. Um biombo de treliça geométrica preta adorna o fundo do pavilhão, enquanto um vaso com flores assenta sobre uma mesa clássica ao lado.
Elementos Naturais: À direita, surge uma imponente rocha ornamental de jardim (conhecida como “rocha de académico” ou Gongshi), essencial no design de jardins tradicionais chineses para evocar a harmonia com a natureza.
📸 @franciscabrancoveiga

Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco (2021), Um biombo de laca de Coromandel: entre a China e o Ocidente (blogue da autora (Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [23 de Setembro de 2026].

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