A Abertura Europeia ao Mundo (Séc. XV e XVI)

1. Introdução: O Despertar de um Mundo Estagnado

Durante séculos, o horizonte europeu foi definido por fronteiras mentais tão rígidas quanto as geográficas. O homem medieval vivia num mundo “encravado”, onde o desconhecido era preenchido por teologias dogmáticas e pelo medo do fantástico. O “Mar Tenebroso” não era apenas uma barreira física; era o limite de uma consciência que via a Terra como um círculo fechado e estático. Contudo, entre os séculos XV e XVI, ocorreu uma explosão de horizontes sem precedentes. As Descobertas não foram apenas balanços comerciais de especiarias e ouro; foram os primeiros rascunhos de uma identidade humana partilhada. Este “desencravamento dos mundos” representou uma revolução mental profunda, uma transição da estagnação para uma conectividade global que ainda hoje dita o ritmo do nosso quotidiano.

2. O “Desencravamento” e a Unidade Humana

As Descobertas, lideradas pela vanguarda portuguesa, foram o motor que provou, contra séculos de mitos, a “unidade e a universalidade do género humano”. Ao derrubar a imagem medieval do mundo rodeado por um oceano intransponível, os navegadores estabeleceram uma nova e correta visão sobre a geografia física da Terra, provando a comunicabilidade entre os hemisférios norte e sul.

Mais do que cartografia, tratou-se de um encontro ético. Ao contactarem com povos que até então se ignoravam, os europeus foram confrontados com a realidade de que não existiam “bestas” nem “monstros humanos” nas terras distantes. A demonstração de que a natureza humana é una destruiu o mito de civilizações infra-humanas.

“O movimento das Descobertas (…) iniciou o processo de desencravamento dos diversos ‘mundos’ do Mundo.”

Este encontro com o “outro” foi o alicerce para o conceito moderno de globalização, transformando a Terra numa esfera única, comunicável e, acima de tudo, habitada por uma só humanidade.

3. O Paradoxal Triunfo de Antuérpia sobre Lisboa

No século XVI, Lisboa e Sevilha eram os centros pulsantes do globo. Lisboa, “cabeça de um vasto e disperso Império”, geria, através da Casa da Índia, um lucrativo monopólio régio sobre o comércio oriental. Contudo, a história revela um paradoxo fascinante: embora as capitais hispânicas detivessem a supremacia colonial, foi Antuérpia que se tornou o verdadeiro centro da economia europeia, explorando as fragilidades de um “capitalismo ibérico” demasiado dependente do Estado.

Enquanto Lisboa funcionava como o porto de entrada, Antuérpia servia como o motor financeiro, rentabilizando a riqueza que as coroas ibéricas não sabiam ou não podiam reinvestir produtivamente. A escala desta riqueza era colossal: em Sevilha, se inicialmente o ouro dominava, por volta de 1620 a prata constituía 99% das remessas de metais preciosos americanos.

Pelo porto de Lisboa circulava a seiva da modernidade:

  • Exportações: Pimenta e especiarias indianas, açúcar, pedras preciosas, madeiras exóticas, ouro, vinho, cortiça, corantes naturais e o sal do Reino.
  • Importações: Têxteis ingleses e flamengos, metais alemães, madeira da Holanda e o trigo essencial dos portos do Norte da Europa.

4. Experiencialismo: O Fim dos Monstros e o Nascimento dos Dados

A modernidade nasceu quando o saber teórico e dogmático foi subjugado pelo Experiencialismo — o conhecimento fundamentado na vivência direta das coisas. Os navegadores portugueses substituíram as narrativas fantásticas por um racionalismo crítico-experiencial que permitiu conhecer a habitabilidade da zona equatorial e a ligação entre os oceanos Atlântico e Índico.

Nomes como Duarte Pacheco Pereira (Esmeraldo de Situ Orbis), D. João de Castro, Garcia da Orta e o matemático Pedro Nunes foram os arquitetos desta mudança. Eles não se limitaram a observar; eles quantificaram a realidade. Através da navegação astronómica, da adaptação do astrolábio náutico e do aperfeiçoamento da balestilha e dos métodos de cálculo da latitude, o empirismo tornou-se a ferramenta de domínio sobre a natureza.

“Narrativas fantásticas e mitos relacionados com o mar (…) acabariam por ser destruídos pelos Portugueses através de um saber fundamentado na experiência.”

Este pragmatismo preparou o advento de uma mentalidade quantitativa: uma atitude mental onde tudo — do espaço ao próprio tempo — passava a ser mensurável, rigoroso e passível de cálculo.

5. A Revolução Coperniciana: A Terra Desce do Altar

Se as caravelas expandiram a Terra, a ciência renascentista reorganizou o Cosmos. O universo medieval de Aristóteles e Ptolomeu era um sistema fechado, finito e geocêntrico. Nicolau Copérnico, em De revolutionibus orbium coelestium (1543), operou a grande rotura: a Terra deixou de ser o centro imóvel para se tornar um planeta em órbita do Sol (heliocentrismo).

Esta revolução foi completada por Johannes Kepler, que demonstrou que as órbitas não eram círculos perfeitos, mas sim elípticas. O espaço foi “geometrizado” e a realidade matematizada. Esta nova cosmologia enfrentou a resistência feroz das autoridades eclesiásticas, que viam o heliocentrismo como uma heresia moral. Contudo, o espírito crítico e a valorização do rigor numérico eram imparáveis. A ciência moderna começava a exigir provas e confirmação, libertando-se da servidão teológica.

6. A Invenção da “Civilidade” e o Homem Moderno

O Renascimento inventou o indivíduo confiante e senhor de si próprio (antropocentrismo). Com a ascensão da burguesia, surgiu a necessidade de distinção social através da civilidade — um código de etiquetas e “boas maneiras” que Baldassare Castiglione cristalizou em O Livro do Cortesão. O “homem completo” era agora o equilíbrio entre o militar brilhante e o artista talentoso.

Em Portugal, o Paço Real tornou-se o grande foco de irradiação cultural. O prestígio da coroa era alimentado por um ambicioso programa de mecenato que financiou obras como o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém. O Estado investia ativamente na criação de elites, financiando os bolseiros d’el-rei — estudantes enviados para centros como Paris, Lovaina e Salamanca (o número de bolseiros subiu de 22 sob D. Manuel para 177 com D. João III). A cultura tornou-se, assim, um instrumento de afirmação do absolutismo régio e do prestígio nacional.

7. Conclusão: Um Horizonte em Permanente Expansão

O Renascimento e as Descobertas não foram um corte “brutal” ou uma negação total do passado; os tempos medievais não foram uma “época de trevas” estéril, mas a ponte necessária para esta transição orgânica. O que vivemos nesses séculos foi a maturação do espírito crítico, da liberdade individual e da racionalização do mundo.

Passámos de um universo fechado para um sistema infinito e quantificável. Hoje, numa era de novas fronteiras digitais e espaciais, o desafio permanece o mesmo. Fica a pergunta provocadora: numa era de novas descobertas tecnológicas, estaremos nós a viver o nosso próprio processo de “desencravamento”, ou ainda estamos presos aos mitos e dogmas do nosso tempo?

O Renascimento e os Descobrimentos abriram um rasgão irreversível no velho mundo fechado: derrubaram monstros marítimos, provaram a unidade do género humano e inauguraram uma globalização avant la lettre, em que Lisboa, Sevilha e Antuérpia giravam ao ritmo do ouro, da prata e das especiarias. Ao mesmo tempo, Copérnico, Kepler e a navegação astronómica transformaram o céu e o mar em problemas de cálculo, acelerando a matematização do real e a exigência de prova empírica. Neste novo palco, a civilidade cortesã, o mecenato régio e os bolseiros d’el‑rei fabricaram um homem moderno mais consciente de si, crítico, ambicioso — e inquieto perante um horizonte que, desde então, não parou de se expandir.

Como referir este artigo:

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VEIGA, Francisca Branco, A Abertura Europeia ao Mundo (Séc. XV e XVI) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [21 de Março de 2026].

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Prenunciamentos de uma Guerra Civil (1828-1834) ou a Guerra dos Dois Irmão

DAUMIER, Honoré – Kssssse! Pédro – Ksssse! Ksssse! Miguel! [ Visual gráfico]. [Paris]: chez Aubert galerie, [1833]. Litografia satírica para o jornal La Caricature, publicada a 11 de julho de 1833.

Resumo

Na Europa de 1830, devido à propagação do liberalismo e nacionalismo como ideologias, renovam-se os conceitos de liberdade e de revolução. Em Portugal, pelo decreto de 28 de Maio de 1834 D. Pedro IV extingue todas as Ordens religiosas masculinas. As Congregações religiosas foram o alvo principal da atuação dos liberais, começando por expulsar novamente os jesuítas que, organizados segundo o estatuto canónico de Missão Portuguesa da Companhia de Jesus, eram considerados “o braço armado” do Papa.

Mas, em 1828 as condições políticas internacionais e nacionais eram diferentes. Na defesa da união entre a monarquia absoluta e a instituição eclesiástica surgia a figura de D. Miguel que, tendo como retaguarda a bandeira da Santa Aliança, vai reforçar a união entre o Trono e o Altar usando os eclesiásticos para fortalecer a sua causa partidária. Foi nesse sentido que em 1829 se deu o regresso da Companhia de Jesus a Portugal, Ordem ligada ao ideário tradicionalista.

A RESTAURAR A ORDEM ABSOLUTISTA

D. Miguel I, rei de Portugal entre 1828 e 1834, morre no exílio, em Bronnbach (Alemanha), no ano 1866.

A 5 de Abril de 1967 chegam a Lisboa em aviões da Força Aérea Portuguesa, os restos mortais do Rei D. Miguel I e sua esposa, a Rainha Adelaide Sofia. Já no final da tarde desse mesmo dia, os despojos reais foram acolhidos em São Vicente de Fora, no Panteão da Dinastia de Bragança.

Após a leitura do Evangelho, subiu ao púlpito o Padre jesuíta Domingos Maurício, que prestou uma sentida homenagem à memória de D. Miguel:

 “No desterro imposto pelas contingências políticas obscureceu-se a lembrança das vossas benemerências nacionais… Surgiu, enfim, o momento redentor, a hora da reparação sincera, que vos reintegra no lugar que vos compete na tessitura histórica de Portugal”[1].

Contextualizando este período histórico, começamos pelo fim da época napoleónica que provocou mudanças políticas e económicas em toda a Europa levando os países vencedores (Áustria, Rússia, Prússia e Inglaterra) a sentiram necessidade de selarem um tratado para restabelecer a paz e a estabilidade política na Europa.

Assim, no Congresso de Viena (setembro 1814 – junho 1815) restabeleceu-se a paz e a estabilidade política na Europa, reorganizando as fronteiras europeias, alteradas pelas conquistas de Napoleão e restaurou-se a ordem absolutista do Antigo Regime. Com o Tratado da Santa Aliança (26 setembro 1815), garantia-se a realização prática das medidas que foram aprovadas pelo Congresso de Viena, bem como a intenção de bloquear o avanço nas áreas sob sua influência das ideias liberais e constitucionalistas, que se fortaleceram com a Revolução Francesa e que haviam desestabilizado toda a Europa. Pretendiam propagar os princípios da Fé cristã e manter o absolutismo como filosofia do Estado e sistema político dominante na Europa.

Personalidades do Congresso de Viena, gravura de Jean-Baptiste Isabey, 1819, Viena. Coleção do Banco de Portugal.

Relativamente à Santa Sé, após a derrota de Napoleão (1814), o papa Pio VII retornou a Roma. Em 1815, o Congresso de Viena devolveu-lhe quase todos os Estados Pontifícios e reconheceu aos Núncios Apostólicos o direito de precedência em relação aos demais embaixadores. Estabilizado no poder em Roma, Pio VII procurou adaptar o papado às condições políticas, intelectuais e sociais do mundo moderno, destacando-se a promoção de uma política de amizade com as nações europeias, o reconhecimento dos movimentos pela independência das colónias latino-americanos, e para apoiar a Igreja Pio VII restaura a Companhia de Jesus no mundo convencido de que ela tinha sua missão a cumprir no século XIX.

Deste modo, a Companhia de Jesus que nasceu num período histórico europeu, o Renascimento, renasce agora num outro período histórico, o das revoluções democráticas e industriais do século XIX, o do triunfo das luzes e da emergência da racionalidade científica.

Não cabe aqui desenvolver estes temas, interessando apenas sublinhar em jeito de resumo, que a doutrina contrarrevolucionária aparece em Portugal logo após a revolução de 1820 e da assinatura por parte de D. João VI de uma Constituição, limitando o papel do rei e colocando o poder no governo e num parlamento.

Assim sendo, depois de 1820 a oposição absolutista cresceu, desencadeando no país três movimentos que se destacaram de entre outros tantos: a Martinhada, a Vila-Francada e a Abrilada.

O dia 11 de novembro de 1820 (dia de S. Martinho) representou a separação das fações sociais e políticas que apareceram juntas na revolta de 1820 devido à conjuntura política. O golpe teve relevo pelo fato de pretenderem ambas as fações a imediata adoção da Constituição de Cádis. Todos eles empenhados em controlar o poder nascido da revolução. Mas um contragolpe vitorioso repõe os liberais no poder, forçando ao desterro alguns conservadores e absolutistas.

A Martinhada,  momento decisivo no processo revolucionário, Lisboa, Novembro de 1820. In Exposição inconográfica, Imagens da Revolução de 1820,  em colaboração com a Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal, Janeiro de 2021.

Na defesa da união entre a Monarquia absoluta e a instituição eclesiástica e tendo como retaguarda a bandeira da Santa Aliança, surge D. Miguel que, com o apoio de sua mãe, tem como ambição o reforço e a união entre o Trono e o Altar. Um conjunto de acontecimentos animaram o partido da rainha a revoltar-se abertamente, confiante no auxílio francês.

A 27 de Maio de 1823, o Infante D. Miguel deslocou-se a Vila Franca. Aí foram dados vivas à monarquia absoluta, conjeturando o infante e a rainha a possível abdicação de D. João VI, que se mantinha fiel à Constituição que jurara.

 No discurso D. Miguel apela ao apoio à sua causa baseada na união entre Monarquia, Nobreza, Tradicionalismo e Deus, pilares sagrados que permitiam a elevação para uma sociedade equilibrada e ordenada segundo princípios divinos.

Vilafrancada – insurreição liderada pelo Infante D. Miguel de Portugal em Vila Franca de Xira a 27 de maio de 1823. Dom Miguel, [Lisboa, na Impressão de Alcobia, 1823], gravura, BNP.

Porém, D. João VI decidiu tomar a direção da revolta, encorajado pelo levantamento do Regimento de Infantaria 18, que viera ao Palácio da Bemposta dar-lhe vivas como rei absoluto; partindo para Vila Franca, obrigou o infante a submeter-se-lhe e regressou a Lisboa em triunfo. As cortes dispersaram-se, vários políticos liberais partiram para o exílio e foi restaurado o regime absolutista, mas D. João VI conseguiu impedir a ascensão ao poder do partido ultrarreacionário e manteve a sua posição determinante no quadro político. O partido da rainha não deixou, porém, de continuar a intrigar, e menos de um ano mais tarde eclodia nova revolta absolutista, a Abrilada (Abril de 1824), dando origem ao exílio do próprio filho, o Infante D. Miguel[2].

D. João VI dirige-se aos portugueses através de uma proclamação em que descreve cronologicamente todos os acontecimentos, publicada no Suplemento ao nº 110 da Gazeta de Lisboa, 10 de maio de 1824, edição de 2ª feira:

«Proclamação de S. M.

Portuguezes! O vosso Rei não vos abandona, pelo contrário só quer libertar-vos do terror, da ansiedade que vos oprime, restabelecer a segurança publica, e remover o véo que vos encobre ainda a verdade; na certeza de que á sua voz toda esta Nação leal se unirá para sustentar o Trono (…)

Meu filho, o Infante D. Miguel, que há tão pouco tempo ainda se cobrira de gloria pela acção heróica que emprehendeo, he o mesmo que impelido agora por sinistras inspirações, e enganado por conselhos traidores, se abalançou a cometer actos, que, ainda quando fossem justos e necessários, só devião emanar da minha Soberana Authoridade, atentando assim contra o Poder Real (…)

Bordo da Náo Ingleza Windsor Castle, surta no Téjo, em nove de Maio de 1824.

ELREI Com Guarda». In Hemeroteca Municipal de Lisboa.

Todos estes acontecimentos prenunciavam uma Guerra Civil (1828-1834) ou a Guerra dos Dois Irmãos.

Dia 30 de setembro 1833 D. Pedro, Duque de Bragança, assume a regência do reino de Portugal durante a menoridade de D. Maria II.


[1] CUNHA, José Correia da. Padre, SONO FINAL, NO SOLO PÁTRIO… BEM MERECIDO PELO HOMEM REI, COMO CRISTÃO E COMO PORTUGUÊS…. [Consult. 28-04-2014]. Disponível na internet em: <http://realbeiralitoral.blogspot.pt/2012_11_01_archive.html.&gt;.

[2] MARQUES, Teresa Martins, Uma carta inédita de Dona Carlota Joaquina, Navegações, vol. 2, nº 1 (jan./jun. 2009), pp. 53-56.

Referências Bibliográficas:

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Veja-se o artigo completo:

VEIGA, Francisca Branco, “O BREVE REGRESSO DA COMPANHIA DE JESUS NO REINADO DE D. MIGUEL (1829-1834)”. In Brotéria, vol. 179, (5/6 de nov./dez. 2014), pp. 387-400.

VEIGA, Francisca Branco, Companhia de Jesus. O Breve Regresso no Reinado de D. Miguel. Ed. Autor, 2023, 437 p.