A comemoração do bicentenário da Carta Constitucional de 1826 convida a uma reflexão profunda sobre as dinâmicas políticas e religiosas que moldaram o Portugal de oitocentos. Mais do que um mero texto jurídico outorgado por D. Pedro IV, este documento tornou-se o fulcro de uma violenta fratura ideológica entre o liberalismo emergente e o absolutismo tradicionalista. No epicentro deste embate, a Companhia de Jesus viveu um destino marcado pela ironia histórica: restaurada por D. Miguel em 1829 como bastião da aliança entre o Trono e o Altar, a Ordem acabaria por ser definitivamente expulsa em 1834 com a vitória definitiva da fação cartista e a restauração da Carta. Este artigo propõe-se analisar a forma como a aplicação e as sucessivas suspensões do texto constitucional de 1826 ditaram diretamente a sorte dos jesuítas em solo pátrio, ilustrando o choque inevitável entre a modernidade secularizadora e as estruturas religiosas do Antigo Regime.
Palavras-chave: Carta Constitucional de 1826; Companhia de Jesus; D. Miguel; Liberalismo; Absolutismo; Poder Moderador.

“A Carta”, crónica de costumes de finais do século XIX (atribuída ao pseudónimo “João Ribaixo” de Ramalho Ortigão), constitui um brilhante exercício de sátira social sobre a etiqueta e a prática epistolar da sociedade portuguesa por volta de 1830 — os anos iniciais de vigência da Monarquia Liberal instaurada pela Carta Constitucional de 1826.
Nota de curiosidade histórica:
Não deve confundir-se esta crónica com o texto constitucional homónimo, apesar da evidente e intencional coincidência lexical do título!
Referência bibliográfica:
BORDALO PINHEIRO, Rafael (des.); RIBAIXO, João [Ramalho Ortigão, pseud.] (texto) — “A Carta”. In: Álbum das Glórias. Lisboa: Typ. Editora Rocio, 1880-1902.
A morte de D. João VI, em 10 de março de 1826, reabriu a questão sucessória: a linha direta apontava para D. Miguel, então desterrado em Viena, uma vez que o primogénito, D. Pedro, ocupava já o trono do Brasil como imperador. Perante esta conjuntura, a fação maçónica e liberal portuguesa recusou tal solução e proclamou D. Pedro IV rei de Portugal, o qual, do Brasil, outorgou ao Reino a Carta Constitucional.
Tratou-se de um texto outorgado — e não elaborado por deputados eleitos —, o que o tornava, nesse aspeto formal, menos liberal do que a Constituição de 1822: ao rei cabiam dois poderes específicos, entre os quais o direito de veto sobre as leis votadas em Cortes, sendo uma das câmaras composta por membros de nomeação régia.
Ainda em 1826, a oposição absolutista, apoiada pelo clero, manifestou-se a favor de D. Miguel, levando D. Pedro a abdicar dos seus direitos em favor da filha, D. Maria da Glória. Para regressar a Portugal e reclamar o reino, D. Miguel comprometeu-se em noivado com a sobrinha e jurou a Carta perante a corte austríaca, sob a condição expressa, constante do próprio decreto de outorga, de que o texto fosse previamente aceite pelos três Estados do Reino. Chegado a Lisboa em 22 de fevereiro de 1828, D. Miguel reiterou publicamente o juramento de fidelidade à Carta e à futura rainha; a 26 de fevereiro, numa cerimónia solene realizada no Palácio da Ajuda perante as duas câmaras, a corte e o corpo diplomático, foi-lhe entregue o governo do país na qualidade de regente. Contudo, ao dissolver as Cortes sem convocar, como a Carta exigia, novas eleições, e sendo depois aclamado rei absoluto pelo Senado de Lisboa a 25 de abril — com o apoio de vasto conjunto da nobreza titulada —, D. Miguel anulou a Carta Constitucional e repôs as leis constitucionais tradicionais.

No plano religioso, tanto a Carta de 1826 (art.º 6.º) como a Constituição de 1838 consagravam um Estado confessionalmente católico, mantendo o beneplácito régio.

Deve-se a designação de “Carta Constitucional” precisamente ao facto de o texto ter sido outorgado pelo rei, e não redigido e votado por Cortes Constituintes eleitas pela Nação, distinguindo-se nisso da Constituição de 1822.
Do ponto de vista das influências doutrinais, a Carta bebeu da Constituição brasileira de 1824 — de feição liberal, com divisão entre os poderes Legislativo, Executivo e Judicial, à qual se somava a figura do Poder Moderador, exercido pelo próprio D. Pedro, com competência para desfazer e anular decisões dos restantes poderes —, da Carta Constitucional francesa de 4 de junho de 1814, através da qual Luís XVIII pretendera um poder executivo concentrado na monarquia, um parlamento bicameral, tolerância religiosa e direitos civis, e ainda do texto constitucional português de 1822, que lhe serviu de base.
Não obstante estas influências de matriz liberal, a Carta representou, em diversos pontos, um retrocesso face aos princípios da lei de 1822: a soberania passou a residir simultaneamente no Rei e na Nação (art.º 12.º); o Rei assumiu a supremacia política; garantiu-se a existência de uma nobreza hereditária com regalias e privilégios próprios; e, embora se mantivesse o princípio da separação de poderes — agora quatro, nos termos do art.º 11.º —, introduziu-se a novidade do poder moderador (art.º 17.º), definido como “a chave de toda a organização política”, competindo privativamente ao Rei, enquanto chefe supremo da Nação, zelar pela independência, equilíbrio e harmonia dos demais poderes. Manteve-se, ainda, a ausência de liberdade religiosa, reafirmando-se o catolicismo como religião oficial do Estado.
Num contexto de acentuada instabilidade política e social, a Carta conheceu três períodos de vigência, intervalados por outros regimes constitucionais, e foi objeto de três revisões através dos Atos Adicionais de 1852, 1855 e 1896:
- 31 de julho de 1826 a 3 de maio de 1828 — período interrompido pela convocação dos três estados do reino por D. Miguel, em oposição à Carta.
- 27 de maio de 1834 a 9 de setembro de 1836 — desde a Convenção de Évora Monte, que pôs termo à guerra civil entre absolutistas miguelistas e liberais pedristas e repôs a Carta em vigor, até à revolução de Setembro, que levou à readoção da Constituição de 1822. Seguiu-se, em 1838, um novo texto constitucional, influenciado pela Revolução Francesa de 1830 e por forte corrente liberal, que suprimiu o poder moderador e vigorou até 10 de fevereiro de 1842, inspirando-se na Constituição liberal de 1822, na própria Carta de 1826, na Constituição belga de 1831 e na Constituição espanhola de 1837.
- 27 de janeiro de 1842 a 5 de outubro de 1910 — desde o golpe de Costa Cabral, no Porto, que restaurou a Carta, até à revolução republicana que pôs fim à monarquia.
Crónica de um Choque Anunciado: A Carta de D. Pedro IV e os Jesuítas de D. Miguel
Existe uma ligação histórica muito profunda e irónica entre a Carta Constitucional de 1826 e a Companhia de Jesus (Jesuítas). Embora a Carta não mencione os jesuítas diretamente no seu texto original, o documento tornou-se o epicentro da guerra civil que ditou o destino da Ordem em Portugal no século XIX.
A relação entre estes dois marcos históricos assenta em três pontos principais:
1. O choque ideológico: Cartismo vs. Companhia de Jesus
A outorga da Carta Constitucional por D. Pedro IV em 1826 pretendia estabelecer uma via média de compromisso entre o absolutismo e o liberalismo radical. No entanto, a ala absolutista e a Igreja viam-na como uma ameaça de teor maçónico e secularizador.
Para contrapor este avanço liberal, o partido absolutista liderado por D. Miguel defendia uma união tradicionalista e ultracatólica entre o “Trono e o Altar”. É neste contexto que surge a figura dos jesuítas, identificados como os grandes defensores da tradição religiosa e da autoridade monárquica absoluta.
2. O breve regresso no reinado de D. Miguel (1829–1834)
Após a outorga da Carta, Portugal mergulhou numa violenta crise dinástica e política. D. Miguel usurpou o trono em 1828, anulando a Carta Constitucional e restaurando o regime absolutista.
Como parte da sua estratégia para reeducar as elites de acordo com os valores tradicionais, D. Miguel autorizou o regresso oficial da Companhia de Jesus a Portugal em 1829, após terem sido expulsos pelo Marquês de Pombal em 1759. Instalaram-se em Coimbra e em Lisboa para assumir funções na educação. Assim, o período em que a Carta de 1826 esteve revogada coincide exatamente com este breve e “segundo regresso” dos jesuítas a solo português.
3. A vitória da Carta e a segunda expulsão (1834)
A Guerra Civil (1832–1834) opôs os liberais (defensores de D. Pedro e da Carta de 1826) aos absolutistas (apoiantes de D. Miguel e aliados dos jesuítas). Com a capitulação de D. Miguel na Convenção de Évora-Monte em maio de 1834, a Carta Constitucional voltou a entrar em vigor.
Apenas dois dias após o fim do conflito, o governo liberal vitorioso respondeu de forma implacável:
- Decretou a segunda e definitiva expulsão da Companhia de Jesus do território nacional.
- Publicou o famoso decreto de Joaquim António de Aguiar (o “Mata-Frades”), que extinguiu todas as ordens religiosas masculinas em Portugal e nacionalizou os seus bens.
A Carta Constitucional de 1826 foi o “antagonista político” da Companhia de Jesus. O documento que agora celebra o seu bicentenário simbolizou a vitória do regime que baniu a Ordem de Portugal, tornando impossível a sua permanência no país até à segunda metade do século XIX.
Nota final: um legado bicentenário
Celebrar o bicentenário da Carta Constitucional de 1826 exige olhar para além da mera sucessão de datas, outorgas e revisões jurídicas. O texto fernandino-pedrino não foi apenas o código que moldou o Portugal liberal até 1910; foi, fundamentalmente, o epicentro de uma profunda fratura ideológica e social. A efeméride convida-nos a compreender como a afirmação do parlamentarismo e de conceitos inovadores como o Poder Moderador correu a par com o desmantelamento das estruturas do Antigo Regime.
O destino trágico e irónico da Companhia de Jesus neste período — oscilando entre o breve restauro miguelista e o exílio definitivo decretado pelos liberais — ilustra com perfeição a violência desse embate entre o Trono e o Altar e a modernidade secularizadora.
Assim, passados duzentos anos, a memória da Carta de 1826 subsiste não apenas nas páginas do direito constitucional, mas na herança de um país que se refundou na dor da guerra civil, deixando marcas indeléveis na nossa cultura política e na própria história das instituições religiosas em Portugal.
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Como referir este texto:
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VEIGA, Francisca Branco, A Carta Constitucional Portuguesa de 1826: Bicentenário de uma Outorga Régia, (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [06 de Agosto de 2026].
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