Nossa Senhora da Rocha e o «Te Deum»: devoção, poder régio e ritual na Lisboa de 1822

O aparecimento da imagem de Nossa Senhora da Rocha, em Carnaxide, em maio de 1822, deu origem a uma devoção que rapidamente ultrapassou a dimensão estritamente religiosa. A sua trasladação para a Sé Patriarcal de Lisboa, determinada por D. João VI, foi acompanhada por um complexo cerimonial público, no qual o Te Deum assumiu particular significado. Este artigo procura compreender a relação entre a devoção mariana, a intervenção da Coroa e a dimensão política e simbólica dos rituais religiosos no contexto conturbado de 1822.

Palavras-chave

Nossa Senhora da Rocha; Carnaxide; D. João VI; Te Deum; devoção mariana; religião e política; poder régio; ritual religioso; Sé Patriarcal de Lisboa; 1822; história religiosa; Portugal.

Te Deum é um hino litúrgico cristão de louvor e ação de graças, cujo nome em latim significa

«A Vós, ó Deus, louvamos» (Te Deum laudamus).

O que é o Te Deum

Te Deum num vitral na Capela do Santuário da Mãe Dolorosa
(Bellevue, Ohio)

O Te Deum desempenhava um papel central de legitimação política e sacralização do poder real em Portugal, funcionando como o hino supremo de ação de graças para celebrar momentos fundamentais da história da monarquia.

  • Significado: A expressão vem das primeiras palavras do texto original em latim.
  • Origem: É um dos cânticos mais antigos da Igreja, tradicionalmente associado ao batismo de Santo Agostinho por Santo Ambrósio no século IV.
  • Estrutura: Possui um formato trinitário (Deus Pai, Filho e Espírito Santo) e foca-se na exaltação de Cristo e na história da salvação.

Quando é utilizado

  • Liturgia: Faz parte do Ofício de Leituras da Liturgia das Horas e de celebrações solenes.
  • Ação de Graças: É entoado em grandes festividades, datas comemorativas ou no encerramento do ano civil (31 de dezembro) para agradecer as bênçãos recebidas.
  • Cerimónia: Também designa o próprio ato litúrgico ou solenidade pública de agradecimento que acompanha o cântico.

Tradução Completa do Te Deum em Português

A Vós, ó Deus, louvamos, a Vós, Senhor, bendizemos.
A Vós, Pai eterno, a Terra inteira venera.
A Vós, todos os Anjos, os Céus e todas as Potestades;
A Vós, os Querubins e os Serafins proclamam sem cessar:
Santo, Santo, Santo é o Senhor, Deus do Universo!
O Céu e a Terra estão cheios da vossa glória.

A Vós, o glorioso coro dos Apóstolos,
A Vós, o louvável número dos Profetas,
A Vós, o fulgurante exército dos Mártires glorifica.
A Vós, a santa Igreja confessa por toda a Terra:
Pai de imensa majestade;
Ao vosso venerável, verdadeiro e único Filho;
E também ao Espírito Santo, Paráclito.

Vós, ó Cristo, sois o Rei da glória.
Vós sois o Filho eterno do Pai.
Vós, para libertar o homem, não recusastes o seio da Virgem.
Vós, vencido o aguilhão da morte, abristes aos crentes o Reino dos Céus.
Vós estais sentado à direita de Deus, na glória do Pai.
Acreditamos que haveis de vir como Juiz.

Pedimos-Vos, pois, que ajudeis os vossos servos, que remistes com o vosso precioso Sangue.
Fazei que sejamos contados entre os vossos Santos, na glória eterna.

Salvai o vosso povo, Senhor, e abençoai a vossa herança.
Sede o seu pastor e exaltai-o para sempre.
Dia após dia Vos bendizemos
E louvamos o vosso nome para sempre, e pelos séculos dos séculos.

Dignai-Vos, Senhor, no dia de hoje, guardar-nos do pecado.
Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Que a vossa misericórdia, Senhor, venha sobre nós, como em Vós esperamos.
Em Vós, Senhor, esperei, não serei confundido para sempre.

A História do Te Deum na Liturgia

O Te Deum ocupa um lugar único na tradição cristã ocidental. Embora a lenda popular atribua a sua autoria a Santo Ambrósio e Santo Agostinho — afirmando que o cantaram espontaneamente, em versos alternados, no momento do batismo de Agostinho em Milão (ano 387) —, os historiadores modernos apontam para o bispo São Nicetas de Remesiana (século V) como o autor mais provável do texto que conhecemos hoje.

1. Inserção no Ofício Divino (Liturgia das Horas)

A partir do século VI, o hino foi formalmente integrado na oração diária da Igreja. São Bento incluiu-o na sua Regra monástica (c. 530), estipulando que o Te Deum deveria ser cantado aos domingos e nos dias de festa no final das Vigílias (o atual Ofício de Leituras). Esta tradição mantém-se viva no Breviário Romano: o hino conclui o Ofício de Leituras em todos os domingos (exceto no Advento e na Quaresma) e em todas as Solenidades e Festas do calendário litúrgico.

2. O Hino dos Grandes Acontecimentos

Com o passar dos séculos, o Te Deum extravasou o ambiente estritamente monástico e transformou-se no hino oficial de ação de graças do mundo cristão. Passou a ser cantado fora das horas canónicas para celebrar momentos de profunda importância histórica, tais como:

  • A eleição de um novo Papa.
  • A consagração de bispos e a coroação de reis.
  • A assinatura de tratados de paz ou o fim de epidemias.
  • A procissão e oração da noite de 31 de dezembro, onde os fiéis agradecem a Deus os benefícios recebidos ao longo de todo o ano que termina.

3. Evolução Teológica e Musical

O texto divide-se em três partes litúrgicas muito claras: a primeira é um louvor ao Pai com o cântico dos anjos; a segunda foca-se na redenção operada por Cristo; a terceira é uma compilação de versículos do Livro dos Salmos, acrescentada mais tarde, que funciona como uma prece por misericórdia.

Musicalmente, além do canto gregoriano tradicional, a sua enorme importância na liturgia solene inspirou grandes compositores da história da música ocidental (como Charpentier, Purcell, Handel, Haydn, Berlioz e Bruckner) a criarem versões orquestrais monumentais, destinadas a ecoar nas catedrais em momentos de triunfo e gratidão.

D. João VI e o hino Te Deum como propaganda política e da encenação do poder absolutista.

O reinado de D. João VI (tanto como Príncipe Regente quanto como Rei, entre Portugal e o Brasil) elevou o hino Te Deum ao patamar mais alto da propaganda política e da encenação do poder absolutista.

Nesta época, a música sacra funcionava como a banda sonora oficial do Estado. O auge deste ritual deu-se na sumptuosa Aclamação de D. João VI em 1818, no Rio de Janeiro, onde, após receber o juramento de fidelidade, o monarca se dirigiu à Capela Real expressamente para ouvir o Te Deum, acompanhado por salvas de canhão e sinos. Para esta ocasião específica, o compositor oficial da corte, Marcos Portugal, escreveu o monumental Te Deum laudamus para a Aclamação de S.M.F. D. João VI. Outros compositores da corte, como o Padre José Maurício Nunes Garcia, também compuseram Te Deum dedicados às festividades joaninas.

«Te Deum laudamus»
Marcos Portugal
Subtítulo: Para a aclamação de S. M. F. D. João VI
Período: Classicismo e música na corte
Género: Clássico
Formação: Escrito para voz, coro e orquestra completa.
Proveniência: Biblioteca Nacional de Portugal

O aparecimento de Nossa Senhora da Rocha e o Te Deum na sua trasladação para a Sé Patriarcal de Lisboa

Esta história real ilustra perfeitamente o papel histórico do Te Deum como o hino supremo de ação de graças para celebrar grandes acontecimentos políticos e religiosos nacionais.

Eis o desenrolar dos factos de 1822, realçando o momento em que o hino coroa este acontecimento:

A Descoberta e a Reação do Poder (Maio a Julho de 1822)

  • O Achado Propício: A 28 de maio de 1822, sete rapazes descobrem uma pequena imagem de barro da Virgem numa gruta junto ao rio Jamor, em Carnaxide. Num clima de forte tensão política, a Coroa e o clero absolutista veem nisto um sinal divino contra a maçonaria e os liberais.
  • A Apropriação Régia: Percebendo o impacto político da devoção popular, o rei determina, por portaria de 27 de julho, a transferência solene da imagem para a Sé Patriarcal de Lisboa.

A Rota de Triunfo e o Cume Litúrgico (Agosto de 1822)

  • A Viagem Fluvial: A imagem é retirada com escolta militar pesada e levada até à Cruz Quebrada, de onde viaja de barco pelo rio Tejo até ao Terreiro do Paço, chegando sob enorme aparato às nove da manhã de 5 de agosto.
  • O Clímax na Sé: Conduzida num relicário até ao altar-mor da Sé de Lisboa pelo clero solenemente vestido com pluviais e dalmáticas, o momento político e religioso atinge o seu ápice: entoa-se o Te Deum.

O Papel do Te Deum neste Acontecimento

  • Selo de Legitimação Divina: O canto do Te Deum servia para declarar publicamente que o acontecimento político (como a subida ao trono ou a salvação do reino) contava com a aprovação e o patrocínio de Deus.
  • Ação de Graças do Reino: Não era apenas uma prece individual, mas sim o agradecimento coletivo de toda a nação. A Sé de Lisboa transformava-se no palco onde o clero, a nobreza e o povo se uniam numa só voz para consolidar a identidade e a estabilidade do reino.
  • Espetáculo de Poder: A imponência do ritual, marcado por vestes solenes (pluviais e dalmáticas), incenso e música solene, pretendia impressionar os presentes e os observadores estrangeiros, demonstrando a força e a unidade do poder temporal e espiritual em Portugal.

Te Deum: I. Te Deum laudamus
Monika Mauch, Elisabeth Von Magnus, Bernhard Gärtner e Klaus Merten
https://music.youtube.com/watch?v=dYRmJ_lmdIQ

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, Nossa Senhora da Rocha e o «Te Deum»: devoção, poder régio e ritual na Lisboa de 1822 (blogue da autora (Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [01 de Outubro de 2026].

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7 SETEMBRO 1822, O BRASIL COMEMORA A SUA INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL

(NOTÍCIAS DE PORTUGAL)

Manuel Fernandes Tomás, considerado por muitos a figura mais importante do primeiro período liberal, em 22 de fevereiro declarava: “… se o Brasil com efeito não quer unir-se a Portugal, como tem estado sempre, acabemos de vez com isto; passe o senhor Brasil muito [bem], que cá cuidaremos da nossa vida”(1) .

Na opinião do miguelista António Ribeiro Saraiva, tinha sido o governo liberal britânico a levar os ideais liberais para as “Américas” estimulando, deste modo, a independência do Brasil:

“Seria pois necessário admitir que o Imperador do Brasil, ao tempo da morte de Seu Pai, não era um Soberano Estrangeiro, ou não era Soberano de um Estado Estrangeiro; isto seria dizer (o que eu sentiria muito) que o Brasil tinha sido tão nescio, que não havia respondido à voz de M. Canning, quando este, tendo agasalhado em suas entranhas o embrião ou feto informe do Liberalismo transatlântico, chamava à existência e dava à luz a América (parturiunt montes!) no meio do Parlamento Britânico, com grande admiração, de todos os néscios dos dois mundos!” (2)

 A separação do Brasil iria pôr em causa o texto do Titulo II da Constituição – Da Nação Portuguesa, e seu Território, Religião, Governo, e Dinastia, Capitulo único, artigo 20:

“A Nação Portuguesa é a união de todos os Portugueses de ambos os hemisférios. O seu território forma o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, e compreende: I. Na Europa […]. II. Na América, o reino do Brasil, que se compõe das Províncias…”. (3)

 Na Constituição seria referida «a União Real com o Reino do Brasil», ora não se conservando esta união do território, nem tão pouco a dos portugueses de ambos os hemisférios seria de absoluta correção a alteração da Constituição.

No dia 25 de março de 1824, D. Pedro I, Imperador do Brasil, outorga a primeira Constituição brasileira. A Constituição Imperial vigorou 67 anos, de 1824 a 1891, quando foi promulgada a primeira Constituição Republicana, sendo, deste modo, a constituição brasileira que teve a vigência mais longa. A Carta outorgada em 1824 foi influenciada pelas Constituições francesa de 1791, espanhola de 1812 e a portuguesa de 1822.

Juramento de D. Pedro I, Imperador do Brasil, à Constituição de 1824

Dois anos mais tarde, no dia 29 de abril, após a morte de D. João VI, D. Pedro outorgava, em Portugal, a Carta Constitucional, inspirada no modelo brasileiro.

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(1) ALEXANDRE, Valentim – “O processo de independência do Brasil”. In BETHENCOURT, Francisco; CHAUDHURI, Kirti (Org.) – História da expansão portuguesa, Vol. IV. Lisboa: Círculo dos Leitores, 1998, p. 619.

(2) SARAIVA, António Ribeiro – Eu não sou um Rebelde. Paris, 25 de fevereiro de 1828. Este texto de António Ribeiro Saraiva foi escrito na época em que os Legitimistas tentavam explicar as suas posições aos governos da Europa.

(3) Constituição de 23 de setembro de 1822. In PARLAMENTO/Documents/CRP-1822. [Consultado 15 setembro 2014]. Disponível na internet em: https://www.parlamento.pt/Parlamento/Documents/CRP-1822.pdf

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In VEIGA, Francisca Branco – A Restauração da Companhia de Jesus em Portugal 1828-1834: O breve regresso no reinado de D. Miguel.  Tese elaborada para obtenção do grau de Doutor em História, na especialidade de História Contemporânea, 2019.

Independência ou Morte, por Pedro Américo
 Óleo sobre tela, 1888
Exposta no Museu Paulista
Constituição de 23 de setembro de 1822
PARLAMENTO/Documents/CRP-1822
Disponível na internet em: https://www.parlamento.pt/Parlamento/Documents/CRP-1822.pdf
Constituição Política do Império do Brasil, primeira página
Arquivo Nacional do Brasil (AN)

23 setembro 1822 – JURAMENTO DA PRIMEIRA CONSTITUIÇÃO PORTUGUESA

Ficam consagrados os fundamentos ligados aos ideais liberais da época: representativo, separação de poderes, igualdade jurídica e respeito pelos direitos individuais.

«Em nome da Santíssima e indivisível Trindade

As Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, intimamente convencidas de que as desgraças públicas, que tanto a têm oprimido e ainda oprimem, tiveram sua origem no desprezo dos direitos do cidadão e nof esquecimento das leis fundamentais da monarquia; e havendo, outrossim, considerado que somente pelo restabelecimento destas leis, ampliadas e reformadas, pode conseguir-se a prosperidade da mesma Nação e precaver-se que ela não torne a cair no abismo, de que a salvou a heróica virtude de seus filhos, decretam a seguinte Constituição Política, a fim de segurar os direitos de cada um e o bem geral de todos os portugueses […]».

Alegoria à Constituição de 1822
Domingos Sequeira
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
No dia 4 de julho de 1821, D. João VI jurava as Bases da Constituição, um dia depois de regressar a Lisboa, vindo do Brasil onde se encontrava desde 23 de janeiro de 1808 (data da chegada à Baía).