«Minha querida Maria…»
CARTA DE D. PEDRO À FILHA D. MARIA DA GLÓRIA, EXPRESSANDO O DESEJO DE VÊ-LA EM PORTUGAL EM MENOS DE 20 DIAS [ASSUMIRIA O GOVERNO DO PAÍS EM 24 DE SETEMBRO DE 1834]

Portugal, Torre do Tombo, Casa Real, n.º 7321, cap. 134, n.º 134-45

D. Maria II nasceu no Rio de Janeiro, no Palácio de S. Cristóvão, a 4 de abril de 1819, recebendo o nome de Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga. Morreu no Palácio das Necessidades, a 15 de novembro de 1853, em consequência de parto.

Wikimedia Commons.
Em 26 de agosto de 1833, poucas semanas depois da entrada das forças liberais em Lisboa, D. Pedro escrevia à filha, D. Maria da Glória, manifestando o desejo de a voltar a ver em Portugal.
A carta, conservada na Torre do Tombo, integra a correspondência que D. Pedro manteve com a filha durante os anos de separação e de guerra. É um documento particularmente significativo por permitir entrever, simultaneamente, a dimensão afetiva da relação entre pai e filha e a importância política que D. Maria da Glória assumira enquanto figura central da causa liberal.
D. Maria da Glória encontrava-se então em França. A sua educação vinha sendo acompanhada à distância pelo pai, num período em que a questão dinástica portuguesa se encontrava profundamente ligada ao conflito entre o projeto absolutista de D. Miguel e o regime constitucional defendido por D. Pedro.
A carta de 26 de agosto deve, por isso, ser situada no contexto da Guerra Civil de 1832–1834.
Em 24 de julho de 1833, as forças liberais haviam entrado em Lisboa, depois do desembarque no Algarve e da campanha militar que conduziu à tomada da capital. D. Miguel retirara-se com as suas forças, mas a guerra estava longe de estar terminada.
É neste cenário que ganha particular significado o desejo expresso por D. Pedro de voltar a ver a filha em Portugal.
A chegada da jovem rainha
D. Maria da Glória, então com catorze anos, encontrava-se afastada do Reino cuja Coroa lhe era reclamada pelos liberais.
Nascida no Rio de Janeiro, em 4 de abril de 1819, D. Maria da Glória tornara-se rainha de Portugal em 1826, após a abdicação de seu pai, D. Pedro IV, que conservou, contudo, um papel decisivo na defesa dos direitos da filha e da Carta Constitucional, na perspetiva liberal.
A sua vida ficara, desde muito cedo, ligada às disputas políticas e dinásticas que atravessaram Portugal na primeira metade do século XIX.antt.
O regresso a Portugal adquiria, por isso, uma dimensão que ultrapassava o âmbito familiar. Para o campo liberal, a presença da jovem soberana no Reino constituía uma afirmação da legitimidade constitucional defendida por D. Pedro; para o campo miguelista, a questão dinástica e a legitimidade do regime eram entendidas de forma radicalmente diferente.
Em 23 de setembro de 1833, D. Maria da Glória regressaria finalmente a Lisboa, acompanhada pela sua madrasta, D. Amélia de Leuchtenberg, e pela irmã, D. Maria Amélia.
O reencontro com o pai ocorreria, assim, poucas semanas depois da carta de 26 de agosto.
Pai e filha, mas também soberano e rainha
É precisamente esta sobreposição de papéis que torna a carta particularmente interessante.
D. Pedro escreve à filha num contexto de grande proximidade afetiva, mas também num momento decisivo da história política portuguesa.
D. Maria da Glória tinha apenas catorze anos e encontrava-se já no centro de uma questão dinástica e constitucional que dividia o país.antt.
Para D. Pedro, a educação da filha não podia ser dissociada do futuro papel que lhe estava destinado, na lógica do projeto liberal que procurava impor. A correspondência entre ambos revela a preocupação do pai com a sua formação e preparação para o exercício da soberania.antt.dglab.
A carta de 26 de agosto de 1833 ganha, assim, um significado especial: escrita ainda durante a guerra, antecipa o regresso da jovem rainha ao país cuja Coroa lhe era reclamada pelos liberais e que o pai procurava assegurar para ela.antt.dglab.
Do regresso ao governo
Importa, contudo, distinguir dois momentos.
O regresso de D. Maria da Glória a Portugal ocorreu em 23 de setembro de 1833. A sua presença no Reino não significou, porém, a imediata transferência do poder.
D. Pedro continuaria a exercer a Regência em nome da filha durante o restante período da Guerra Civil.parlamento+1
A derrota definitiva de D. Miguel só ocorreria no ano seguinte, com a Convenção de Évora‑Monte, de 26 de maio de 1834, que pôs termo ao conflito.
Foi depois desse desfecho que D. Maria II assumiu efetivamente o governo do Reino. Em setembro de 1834, as Cortes declararam a sua maioridade; no mesmo dia em que D. Pedro faleceu, 24 de setembro de 1834, a jovem rainha, então com quinze anos, iniciou o exercício efetivo da soberania, sucedendo à regência de seu pai.
Entre a carta de 26 de agosto de 1833 e a data de 24 de setembro de 1834 medeia, portanto, pouco mais de um ano — um período marcado pela guerra, pela consolidação do regime constitucional e pela passagem progressiva da responsabilidade política de D. Pedro para a sua filha.
Uma carta aparentemente familiar torna-se, deste modo, um pequeno testemunho de uma importante transformação política: o regresso da jovem rainha ao Reino e o caminho que conduziria ao exercício efetivo do seu poder, na perspetiva da ordem liberal vitoriosa.
Perguntas para os leitores:
- Na sua opinião, que peso tinha esta carta mais como gesto político ou como gesto pessoal?
- Como acha que D. Maria II, com apenas 14–15 anos, viveu esta sobreposição de papéis: filha, rainha e símbolo de um projeto liberal?
Palavras-chave:
D. Pedro IV, D. Maria II, Guerra Civil, liberalismo, miguelismo, Torre do Tombo, legitimidade dinástica, regência, Évora-Monte, monarquia constitucional.
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Como referir este texto:
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VEIGA, Francisca Branco, 26 de agosto de 1833 — Carta de D. Pedro à filha, D. Maria da Glória (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [08 de Setembro de 2026].

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