Do Brasil escreve aos seus irmãos de fé:
«Não basta sair de Coimbra com um fervor que logo murcha, antes mesmo de cruzar o equador e desejar voltar para Portugal. É necessário ter os alforjes cheios para durar até ao final do dia»









Foi, ainda noviço para o Brasil, a 8 de maio de 1553, na 3.ª Expedição de Missionários Jesuítas, chefiada pelo Padre Luiz de Grã e na armada de Duarte Góis.
José de Anchieta e outros religiosos subiram a Serra do Mar rumo ao Planalto, onde se instalaram. A inauguração do barracão do planalto deu-se junto a uma aldeia de índios no dia 24 de JANEIRO de 1554, dia da conversão do Apóstolo São Paulo, local onde os jesuítas precisavam de tradutores e de intérpretes da língua indígena Tupi. No local, Nóbrega com a ajuda de Anchieta celebraram uma missa, em homenagem ao Santo – dava-se início à FUNDAÇÃO da cidade de SÃO PAULO.
Em 1566, Anchieta foi ordenado padre. Dirigiu o Colégio dos Jesuítas no Rio de Janeiro entre 1570 e 1573 e foi Provincial da Companhia de Jesus no Brasil durante dez anos.
A 9 de julho de 1597, José de Anchieta faleceu em Reritiba (atual Anchieta), aldeia que fundara, no Estado do Espírito Santo (Brasil).
Em 1611, os seus restos mortais foram transladados: uma parte, para o Colégio da Baía, a outra, para Roma.
Na Conferência proferida na biblioteca da Faculdade de Direito de São Paulo, a 24 de setembro de 1896, na presença dos lentes da Faculdade, do Presidente do Estado, autoridades e representantes do clero, grande número de Senhoras e cavalheiros e sob a Presidência de João Monteiro, vice-director da Faculdade, Brazilio Machado descrevia o padre Anchieta da seguinte forma:
« Era o padre Anchieta de mediana estatura, de compleição robusto, porém, descarnado; tinha pouca barba, olhos azues, cabeça grande; seu aspecto, tão magestoso quanto affavel, inspirava, em quantos o conversavam, confiança e amor!»*


“Às estrelas por caminhos difíceis” – A frase em latim no quadro de José Anchieta, de autoria do pintor Oscar Pereira da Silva (1865-1939), é um dos lemas fundamentais na Companhia de Jesus.
Em 1595, escreveu «Arte da Gramática da Língua mais Conhecida na Costa do Brasil», o tupi-guarani, que foi publicada em Coimbra, por Antônio Mariz, em 1595. Esta obra teve um caráter pioneiro pela sua importância para o conhecimento do tupi falado no século XVI, a qual era, até então, exclusivamente oral. Outro jesuíta, como por exemplo, o padre basco João de Azpilcueta Navarro compôs os primeiros hinos religiosos nas suas pregações aos indígenas.

Índice
- Das letras – Cap. I
- Da ortografia ou pronunciação – Cap. II
- De accentu – Cap. III
- Dos nomes – Cap. IIII
- Dos pronomes – Cap. V
- Dos verbos – Cap. VI

- Anotações, na conjugação – Cap. VII

- Da construção dos verbos ativos – Cap. VIII

- De algumas maneiras de verbos em que esta anfibologia se tira – Cap. IX

- Das preposições – Cap. X

- De sum, es, fui – Cap. XI

- Dos verbos neutros feitos ativos – Cap. XII

- Dos ativos feitos neutros – Cap. XIII

- Da composição dos verbos – Cap. XIIII

- Da repetição dos verbos – Cap. XV

- De alguns verbos irregulares de Aê – Cap. XVI



Date: [18–]
Description: “Nascido a 7 de abril de 1534 em Teneriffe, Fallecido a 9 de junho de 1597…”
Zincogravura, p&b
In https://acervobndigital.bn.gov.br/sophia/index.html
*In III Centenário do Veneravel Joseph Anchieta, 1900.
José de Anchieta e o Nascimento da Tradição Natalícia no Brasil
São José de Anchieta foi um verdadeiro pioneiro das artes e da evangelização no Brasil, destacando-se também na representação do mistério do Natal. Em 1553, ainda como noviço jesuíta, apresentou pela primeira vez no país a cena do Presépio, em São Vicente, no actual estado de São Paulo, dirigindo-se aos indígenas e aos filhos dos colonos portugueses. Este facto é registado com rigor pelo Santuário Nacional de São José de Anchieta, situado na cidade Anchieta que hoje tem o seu nome.
Para a construção do Presépio, Anchieta envolveu os indígenas da região, valorizando as suas técnicas tradicionais de cerâmica. Desta forma, soube transmitir ao catolicismo nascente no Brasil a antiga tradição natalícia medieval, iniciada por São Francisco de Assis em Greccio, na Itália, no ano de 1223 — uma herança espiritual que chegou até aos nossos dias, apesar das profundas crises religiosas que marcaram a Igreja após o Concílio Vaticano II.

A imagem reproduz a Natividade (1490), o imponente presépio em terracota policromada do escultor italiano Andrea della Robbia, conservado na igreja de Santa Maria degli Angeli, no Santuário de La Verna, em Arezzo, Itália. Com grande delicadeza, a cena apresenta Jesus rodeado pela Virgem Maria, São José, São Francisco e Santo António de Lisboa.
“Presépio Franciscano”
Vista Alegre
A pedido do Padre Manuel da Nóbrega, José de Anchieta escreveu igualmente uma peça teatral de Natal, cuidadosamente adaptada à realidade e à sensibilidade dos índios de São Lourenço, localidade que corresponde hoje à cidade de Niterói.
Nesta obra, o grande Apóstolo do Brasil não hesitou em denunciar o estado moral e espiritual desses povos, imaginando um diálogo tocante entre um pecador — o indígena — que se aproxima do Presépio e do Menino-Deus, descrito com ternura como “o menino mui formoso, santo menino, nas palhinhas deitado para salvação do pecado”. Através desta linguagem simples e profundamente humana, Anchieta procurava tocar os corações e conduzi-los ao mistério redentor do Natal.
A ação da Companhia de Jesus na fundação da cidade do Rio de Janeiro
Pintura: A Construção da História Nacional pelo pintor Firmino Monteiro entre 1879 e 1884.

A fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, entendida como um processo e não como um ato isolado, contou com a presença decisiva da Companhia de Jesus, que acompanha as expedições régias, intervém nas negociações com diferentes grupos indígenas e assegura a implantação estável da Igreja no novo núcleo urbano.
Em 1563, D. Catarina, regente do trono português, ordenou que Estácio de Sá regressasse ao Brasil como chefe da armada destinada a dominar a região, contando então com o apoio direto dos padres jesuítas Manuel de Nóbrega e José de Anchieta, que recrutaram habitantes locais, em especial guerreiros temiminós sob a chefia do cacique Araribóia, para se juntarem a Estácio de Sá na luta contra os franceses.
Para além desse apoio militar e logístico na expulsão dos franceses da Baía de Guanabara, os jesuítas participam na construção da primeira casa‑igreja dedicada a São Sebastião, na catequese e na mediação com a população local, recebendo ainda uma ampla sesmaria na nova capitania.
Isso faz da Ordem, e de figuras como Nóbrega e Anchieta, alguns dos principais agentes na organização do território e na definição da paisagem social e económica da cidade nascente, articulando conversão religiosa, alianças indígenas e expansão colonial portuguesa.
A atuação da Companhia de Jesus foi um pilar fundamental na consolidação do projeto colonial português, exercendo um papel de mediação crucial entre os colonizadores e as populações indígenas. Figuras como os padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta são historicamente reconhecidas pela capacidade de negociar alianças estratégicas, como o apoio da tribo temiminó, liderada por Araribóia, que foi determinante para a expulsão definitiva dos franceses da Baía de Guanabara.
A figura de Anchieta é frequentemente associada à catequese e à conversão de importantes lideranças nativas, sendo‑lhe atribuído o baptismo de Tibiriçã, considerado o primeiro indígena convertido por ele. No imaginário artístico e literário do século XIX, Anchieta é evocado como o “missionário poeta”, possuidor de uma fisionomia angélica, que utilizava versos escritos na areia para ensinar os mistérios da fé católica aos indígenas. Por sua vez, Nóbrega é representado como a autoridade eclesiástica central, frequentemente retratado à frente de grupos religiosos e ostentando emblemas sacros em momentos de oficialização territorial.
Na iconografia histórica, a presença jesuítica simboliza a tentativa de harmonizar interesses conflitantes e unificar as diferentes “raças” em prol da construção de uma nova nação sob a égide do catolicismo. A religião, personificada nestes missionários, actuava como o elemento unificador que legitimava a posse da terra e a fundação de núcleos urbanos.
No entanto, a trajectória da Companhia de Jesus no Brasil também é marcada por uma profunda ambiguidade. Embora os jesuítas tenham sido construídos como pacificadores e conciliadores, relatos históricos apontam que eles teriam traído a confiança de grupos como a Confederação dos Tamoios. Ao revelarem segredos de confissão sobre estratégias de ataque indígenas aos portugueses, os religiosos forneceram informações estratégicas que foram decisivas para o extermínio dessa confederação, revelando uma actuação política e bélica indissociável de sua missão espiritual.
A iconografia da pintura “A Fundação da Cidade do Rio de Janeiro” (1881), de Antônio Firmino Monteiro, integra as figuras da Companhia de Jesus numa composição que simboliza a união entre a fé católica e o poder civil na formação da nação.
Detalhes iconográficos dos jesuítas
- Manuel da Nóbrega: É retratado numa posição de liderança eclesiástica, aparecendo à frente de um grupo religioso e suspendendo um emblema sacro. Sua presença confere um carácter oficial e sagrado ao acto de fundação territorial.
- José de Anchieta: É descrito pela crítica da época como possuidor de uma “fisionomia angélica”. Na tela, ele aparece ao lado do bispo D. Leitão, que veste seus hábitos sacerdotais, mitra e báculo. Anchieta personifica o “bom missionário poeta”, evocando a tradição de que ele ensinava os mistérios da religião aos indígenas através de quadras escritas na areia.
Composição e cenário religioso
O altar e a cruz: A cena religiosa é reforçada pela presença de um altar onde a missa foi celebrada, com velas esguias ainda acesas, palmas e galhetas. Uma cruz está situada logo ao lado do Morro do Pão de Açúcar, criando uma sensação de comunhão entre a natureza exuberante e a fé católica.
A mediação entre grupos: Os jesuítas estão posicionados no centro‑direito da tela, servindo como um elo visual e simbólico entre os portugueses (governador Mem de Sá e senadores) e o grupo de indígenas em primeiro plano. Essa disposição reforça o papel histórico da Companhia de Jesus como mediadora na aliança com a tribo temiminó.
Simbolismo da unificação e conflito
- União das raças: A iconografia sugere que a religião, personificada por Anchieta e Nóbrega, foi o elemento capaz de unificar brancos e índios e harmonizar interesses conflitantes em prol de uma nova nação.
- Contraponto ao indígena convertido: A presença dos padres dialoga directamente com a figura de Tibiriçã (Martim Afonso), o primeiro índio convertido por Anchieta, que aparece em destaque na tela.
- Crítica subjacente: Embora a pintura apresente uma cena harmoniosa, as fontes lembram que essa iconografia omite a actuação ambígua dos jesuítas, que teriam traído segredos de confissão dos Tamoios para auxiliar na vitória militar portuguesa, um facto que Monteiro conhecia através das crónicas jesuíticas e da literatura indianista.
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Como referir este artigo:
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VEIGA, Francisca Branco, Padre JOSÉ DE ANCHIETA (1534 – 1597) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [02 de Maio de 2024].
https://www.youtube.com/TertuliasPortugalBrasil (Ep. 87)
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