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Autor: Francisca Branco Veiga
Francisca Branco Veigahttps://franciscabrancoveiga.wordpress.com/Doutorada em História Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com a tese "A Restauração da Companhia de Jesus em Portugal, 1828–1834: O breve regresso no reinado de D. Miguel". É mestre em Património Cultural de Matriz Cristã pela Universidade Católica Portuguesa, com especialização em Museologia, tendo desenvolvido a dissertação "Noviciado da Cotovia – O passado dos Museus da Politécnica, 1619–1759".
Foi distinguida com uma Menção Honrosa no Prémio de Investigação Internacional “Pina Manique – Do Iluminismo à Revolução Liberal” (2020), com a sua dissertação de doutoramento.
É autora das obras "Companhia de Jesus: O breve regresso no reinado de D. Miguel" (2023) e "Noviciado da Cotovia, 1619–1759" (2025).
Os seus interesses de investigação incidem sobre a história política e religiosa da época Moderna e Contemporânea em Portugal, com particular enfoque na relação entre Igreja e Estado, ordens religiosas e património cultural.
Durante a Renascença italiana, obras antigas inspiraram os estudiosos italianos, dando origem a diversos movimentos humanistas. Com os Iluministas, os valores humanistas foram reforçados, com os avanços da ciência e das tecnologias, acreditando-se nas capacidades do Homem (individualismo/antropocentrismo; espirito crítico; racionalismo) .
A decadência dos costumes do alto clero secular (bispos, cardeais e papas), devido à imoralidade, ao absentismo, à falta de vocação, à compra e venda de cargos eclesiásticos e a falta de austeridade, venda de relíquias, venda de indulgências e exploração da crença e da piedade dos fiéis pela Igreja Monástica, levou à quebra do prestígio e da autoridade da Igreja Católica Romana.
Os humanistas cristãos criticavam a hipocrisia e a corrupção do clero, defendiam a necessidade de renovação da vida religiosa, e procuravam através da crítica e do estudo dos textos evangélicosrealçar o afastamento da mensagem que a Bíblia transmitia, propondo o regresso à pureza original do cristianismo e à interioridade da fé, defendendo a tradução da Bíblia para as línguas nacionais, de modo a possibilitar aos crentes um acesso direto e pessoal aos textos sagrados e colocando em causa o papel exclusivo dos sacerdotes na leitura e interpretação dos Evangelhos.
Como humanistas cristãos, apoiavam-se nos textos antigos, com o fim da purificação das Escrituras Sagradas, recusando a interpretação contida nas diversas em citações feitas pelas autoridades clericais medievais.
Martinho Lutero era um cristão profundamente devoto e, como qualquer homem do seu tempo, vivia preocupado com a questão do julgamento final e da salvação eterna.
Entendia que nem as obras nem as indulgências influenciavam a salvação dos homens e que só a fé em Deus podia salvá-los.
Para Lutero, o caminho da salvação era da responsabilidade do cristão e da sua fé; as indulgências eram, assim, contrárias à doutrina cristã.
Em 31 de Outubro de 1517, Martinho Lutero afixou na porta da catedral de Wittenberg, as 95 Teses contra as Indulgências.
Estava aberta a rutura com Roma e iniciava-se um novo cisma na cristandade ocidental. O ano de 1517 assumia-se como a data oficial do início da Reforma.
O protestantismo viu a sua definição concretizada, em 1530, na Confissão de Augsburgo:
Martinho Lutero recusou alguns dos dogmas católicos:
– negava a hierarquia e a autoridade do papa;
– o celibato eclesiástico foi recusado. Todos os cristãos eram iguais pelo Batismo;
– o sacerdócio era universal: todos os crentes eram pastores;
– a Bíblia foi traduzida para as línguas nacionais;
– os Evangelhos eram a única fonte de fé e de toda a revelação;
– negava o papel das obras na salvação: só a fé em Deus era salvadora;
– quanto aos sacramentos: reconhecia o Batismo e a Eucaristia; – adotou a comunhão do pão e do vinho instituída por Cristo;
– recusou o papel da Virgem e dos santos;
– não reconhecia a validade de determinados ritos;
– a missa era celebrada em língua vulgar e não em latim;
– elementos principais do culto: a leitura da Palavra do Evangelho, o sermão e os cânticos.
Foi o movimento protestante e a sua rápida expansão que deu o impulso e impôs a urgência de renovação da Igreja Católica.
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Lutero morto conforme retratado por Lucas Cranach, o Velho
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Encontra-se sepultado na Igreja do Castelo de Vitemberga (Alta Saxónia, Alemanha)
Schlosskirche (Palace Chapel) in Wittenberg
A REAÇÃO DA IGREJA CATÓLICA
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RENASCIMENTO
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Como referir este artigo:
Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!
VEIGA, Francisca Branco (2024), Martinho Lutero (Eisleben, 10 de novembro de 1483 – Eisleben, 18 de fevereiro de 1546) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [29 de Fevereiro de 2024].
O período histórico em apreço é de tal modo importante e tão cheio de particularidades que um historiador pode bem sentir-se frustrado na escolha deste ou daquele tema. Para este trabalho, o conjunto de códices que a biblioteca da Ajuda tem sobre os jesuítas na Ásia é de uma quantidade e valor inestimável pelo que me foi difícil fazer a opção de escolha.
Após a viagem de Vasco da Gama à Índia chegam a Lisboa notícias sobre a China e sobre as navegações chinesas no Índico, realizadas entre 1405 e 1433.
D. Manuel, em 1508, envia Diogo Lopes de Sequeira a Malaca com o objectivo de recolher informações sobre a China e os chineses.
A partir de 1511, após a conquista de Malaca são feitos os primeiros contactos e é centralizado aqui o comércio português do Índico e dos mares da China.
Em 1513, Jorge Álvares penetra nos mares da China iniciando um período de intensas relações luso-chinesas.
Em 1515, em Malaca os portugueses ouvem falar de Macau, então conhecido pelo nome de Haojing, que significa Espelho de Ostra.
A partir desta data os portugueses procuram estabelecer relações diplomáticas com a China e obter um posto de comércio permanente na zona de Cantão.
Em 1517 é enviada à China a primeira embaixada, chefiada por Tomé Pires, com o intuito de estabelecer contactos políticos e diplomáticos que permitissem o comércio português na zona.
Assim, a instalação dos portugueses em Macau, em 1557, é fruto da conjugação de três factores essenciais: das condições internas e das relações internacionais estabelecidas pela dinastia reinante, Ming; do processo de aprendizagem dos portugueses nos mares da China; e da parceria de interesses comerciais que se estabeleceram entre chineses, portugueses e japoneses.
A China da dinastia Ming procura o monopólio do comércio externo marítimo através do controle da iniciativa privada das comunidades chinesas litorais e ultramarinas.
A crise fiscal e monetária da China, no tempo do imperador Jiajing (1522-1566), e o consequente incremento da procura chinesa da prata, bem como a crescente produção da prata japonesa e a capacidade dos portugueses como intermediários, em parceria com chineses e japoneses, cria a possibilidade de Macau se tornar um entreposto, por onde passa a rota da seda, prata, porcelana, ouro e cobre.
Durante a ocupação filipina (1580-1640), o Império Português tornou-se muito fraco e desprotegido, visto que o Rei de Espanha, que era simultaneamente Rei de Portugal, não estava muito interessado em defender o Império Português. Estava mais interessado em defender e expandir o seu Império, em colonizar e controlar a América do Sul e em travar guerras com as outras potências europeias, nomeadamente a Inglaterra e a Holanda. Utilizou muitos recursos para manter estas guerras, em vez de utilizá-los para defender o nosso Império. Os inimigos de Espanha tornaram-se por consequência inimigos de Portugal. As colónias portuguesas sofreram inúmeros ataques dos ingleses, dos holandeses e dos franceses e muitas delas caíram nas mãos do inimigo.
Macau foi atacada em 1622 por 800 soldados holandeses. Eles desembarcaram na praia e avançaram com cautela para a Cidade, sofrendo pesado bombardeio de canhões da Fortaleza do Monte. A guarnição militar em Macau era pequena e muito inferior à força invasora holandesa. Após 2 dias de combate, no dia 24 de Junho, um padre jesuíta disparou um tiro de canhão e acertou com precisão, um vagão carregado de pólvora pertencente aos holandeses e foi assim que os militares de Macau derrotaram as forças invasoras. Dizem os registos portugueses que morreram algumas dezenas de portugueses e que morreram em combate ou afogados cerca de 350 holandeses. Para Macau, desprevenida, a vitória foi considerada um milagre. Após a vitória, os moradores de Macau passaram a comemorar o dia 24 de Junho, dia da vitória, como o “Dia da Cidade”. É também neste dia que se comemora o São João Baptista, o Padroeiro da Cidade. Conta a lenda que foi graças ao seu manto foram desviados os tiros dos inimigos, salvando a Cidade dos invasores holandeses.
Em 1640, em Portugal, quando a classe média e aristocracia, descontentes com o domínio espanhol e com o reinado de Filipe IV de Espanha (III de Portugal), quiseram restaurar a independência, pediram a D. João para encabeçar a causa. D. João aceitou a responsabilidade e a 1 de Dezembro deu-se o golpe contra Filipe III, sendo coroado Rei de Portugal a 15 de Dezembro de 1640.
Muitos mensageiros espalharam pelo país a notícia, levando consigo cartas para as autoridades de cada terra se encarregarem de aclamarem o novo rei. D. João IV enviou também diplomatas às principais cortes europeias com o objectivo de conseguir o reconhecimento da independência.
Na China, as notícias chegam dois anos depois. Em 30 Outubro de 1642 são enviadas cartas para Portugal, da Santa Casa da Misericórdia para dar a D. João IV os parabéns da aclamação. Também há registo de, em Agosto de 1643, uma Certidão de D. Sebastião Lobo de Sylveira Capitão Geral de Macau falando da felicidade dos Padres da companhia, aclamando D. João IV.
Macau é um espaço de pluralidade religiosa onde convivem com o cristianismo as várias expressões da religiosidade chinesa: o budismo, o daoísmo e o confucionismo.
Os missionários jesuítas chegam à Ásia em 1542. Macau vai desempenhar um papel de centro difusor do cristianismo no Oriente. É a partir de Macau que partem as missões com destino ao Japão, à China e ao sueste asiático.
O Colégio de S. Paulo é a primeira universidade europeia na China, desenvolvendo cursos de artes, teologia, chinês, latim, matemática, astronomia, física, medicina, retórica e música. A impressão surge também ligada aos jesuítas e à difusão do cristianismo na China e no Japão. Em Macau imprime-se em três línguas: chinês, latim e português.
Fachada da Igreja de S. Paulo em Macau Manuel da Costa c. 1815 Litografia a preto sobre papel Lisboa, Arquivo Histórico Ultramarino
O cristianismo tem nesta parte do mundo uma forte dimensão cultural, tendo penetrado por esta via junto das elites chinesas.
Os primeiros tempos dos jesuítas na China foram essencialmente marcados pelo estudo da língua, pela observação atenta dos hábitos religiosos e sociais, pelo esforço de integração cultural e, sobretudo, por uma grande contenção nos gestos e nas palavras, a fim de não darem azo a qualquer suspeita de confronto susceptíveis de justificarem a sua expulsão do país. Mesmo assim muitas foram as injúrias, os desacatos e intrigas contra os membros da Companhia de Jesus levando a extremos, como por exemplo, ao martírio de alguns membros.
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A Biblioteca da Ajuda detém um acervo bastante importante, instaladas em 220 estantes, compreendendo 2800 prateleiras, num total de 3700 metros de prateleiras com um total de 105 000 espécimes manuscritos e impressos, como o Cancioneiro da Ajuda, o Livro de Traças de Carpintaria ou a obra Da fabrica que falece a cidade de Lisboa, de Francisco de Holanda.
Nos códices Jesuítas na Ásia as divisões, Série da Província do Japão, Série da Província da China, Série das Missões do Tonquim, orientam-nos no estudo dos vários espaços geográficos de missionização.
A origem do núcleo dos Jesuítas na Ásiaestá na chegada a Macau, em 1742, do Bispo D. Frei Hilário de Santa Rosa, acompanhado de dois franciscanos e quatro jesuítas, entre eles os Padres José Montanha S. J. e José de Jesus. À sua chegada esperava-os o Irmão João Álvares para os conduzir a Macau. Encontravam-se reunidos, pela primeira vez, os principais intervenientes de uma acção que iria frutificar na organização de um “corpo” histórico de extrema importância hoje em dia, existente na Biblioteca da Ajuda, na Biblioteca Nacional de Lisboa, e na Academia Real da História, em Madrid.
Em 1745 o Irmão João Álvares e o Padre José Montanha dirigiram os trabalhos de treslado directamente para a Procuratura da Província do Japão em Lisboa, no Colégio de Santo Antão.
O conteúdo dos treslados é diversificado: desde cartas anuas e notícias das missões, incluindo a epistolografia Xavieriana; tratados e pareceres teológicos-morais sobre os ritos sínicos, toda a série de notícias e actos das controvérsias com os Vigários Apostólicos e a Sagrada Congregação da Propaganda Fide, o longo martiriológico jesuítico, bem como a sucessão dos Bispos de Macau, China e Japão e superiores das respectivas Províncias e Vice-Províncias. Inventários e cargas do barco “negro” da viagem do Japão, bens do Colégio de Macau e da Procuratura da Província do Japão, enfim, um pouco da vida civil e religiosa de Macau. Por fim, as grandes obras de Fróis, Montanha, Valignano e Cardim, entre outros.
Da pesquisa historiográfica dos 61 códices dos Jesuítas na Ásia conseguimos ter uma ideia organizada sobre a sua penetração na Ásia, o embate cultural e a estratégia de fixação, os métodos missionários utilizados, os seus desejos, as suas convicções, os seus medos.
Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação efetiva, os missionários da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, no encontro das culturas europeia e chinesa.
Bibliografia
ARAÚJO, Horácio Peixoto de, Os Jesuítas no Império da China: o primeiro século (1582-1680), Macau: Instituto Português do Oriente, 2000.
GEADA, Maria da Conceição, Índice Onomástico da Colecção dos Jesuítas na Ásia, Lisboa, Biblioteca da Ajuda, 1976.
LEÃO, Francisco G. Cunha, Jesuítas na Ásia: catálogo e guia, Macau: Instituto Cultural de Macau: Instituto Português do Património Arquitectónico: Biblioteca da Ajuda, 1998.
LOUREIRO, Rui Manuel, Fidalgos, missionários e mandarins: Portugal e a China no século XVI, Lisboa: Fundação Oriente, 2000.
PEREIRA, Galiote, Primeiros escritos portugueses sobre a China, Lisboa: Alfa, D.L. 1989.
RODRIGUES, Francisco, A aclamação de D. João IV em Macau, Lisboa: [Tip. Porto Médico], 1944.
RODRIGUES, Francisco, Jesuítas portugueses astrónomos na China: 1583-1805, Macau : Instituto Cultural, 1990.
SANDE, Duarte de, Um tratado sobre o reino da China dos padres Duarte Sande e Alessandro Valignano (Macau, 1590) / introd., versão port. e notas de Rui Manuel Loureiro, Macau : Instituto Cultural, 1992.
SILVA, Armando Malheiro da, Arquivística: teoria e prática de uma ciência da informação, Porto: Afrontamento, imp. 1999.
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Como referir este artigo:
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VEIGA, Francisca Branco (2024), Biblioteca da Ajuda, Jesuítas na Ásia, Série da Província da China, Séculos XVI e XVII (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [03 de Fevereiro de 2024].
(Trabalho elaborado para a cadeira de Arquivística. Mestrado em Património Histórico de Matriz Cristã. Área de Comunicação Social. Universidade Católica de Lisboa. Lisboa, 2006.
Título do trabalho: CÓDICE 49-V-3. Série da Província da China)
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VEIGA, Francisca Branco (2024), Lisboa Percursora do Projeto Inaciano: O Colégio de Santo Antão-o-Velho (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [16 de Janeiro de 2024].
Palestra proferida para as Jornadas Europeias do Património 2012. “A Companhia de Jesus em Lisboa. Os jesuítas e a Santa Casa da Misericórdia: Desafios comuns na tradição cultural” (Museu de São Roque 28-09-2012)
Título da comunicação:
Lisboa percursora do Projeto inaciano: Colégio de Santo Antão-o-velhoe Noviciado da Cotovia
Dos Magos Anónimos aos Reis de Colónia: Tradição, Relíquias e Simbolismo da Epifania
ADORAÇÃO DOS MAGOS Domingos Sequeira 1828 Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
O dia dedicado à veneração dos Reis Magos inscreve-se numa tradição que, a partir do século VIII, consolidou a identificação de Melchior, Gaspar e Baltasar como figuras santas do imaginário cristão ocidental.
Segundo a tradição, as relíquias atribuídas aos Magos teriam sido inicialmente trasladadas para Constantinopla e, em seguida, confiadas ao bispo Eustórgio de Milão, que as levou para aquela cidade, onde passaram a ser veneradas. Em 1164, no contexto da política expansionista do Sacro Império Romano-Germânico, o arcebispo Rainald de Dassel transferiu essas relíquias de Milão para Colónia, ato que deu origem à construção de um monumental relicário e, posteriormente, à edificação da catedral gótica que viria a tornar-se um dos maiores centros de peregrinação da Europa medieval.
As relíquias dos Reis Magos continuam hoje expostas na catedral de Colónia, no célebre relicário dos Três Reis, mantendo vivo o culto em torno destas figuras ligadas ao relato da Epifania.
Segundo a tradição cristã, os Reis Magos ofereceram ao Menino Jesus três dons – ouro, incenso e mirra – aos quais a exegese atribuiu, desde cedo, um profundo significado simbólico.
O ouro passou a ser entendido como sinal da realeza de Cristo, sublinhando a sua dignidade régia; o incenso, utilizado no culto litúrgico, foi associado à sua divindade, remetendo para a adoração devida a Deus; já a mirra, resina aromática empregue em unguentos e ritos fúnebres, simboliza a dimensão humana e o sofrimento de Jesus, antecipando a sua paixão e morte.
Na Bíblia, o Dia de Reis aparece no Evangelho de São Mateus (Mt 2 1-12) (escrito entre 70 e 115 d.C.)
«Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia no tempo do rei Herodes, vieram do oriente uns magos a Jerusalém, perguntando:
Onde está aquele que nasceu Rei dos Judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos adorá-lo.
O rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e com ele toda Jerusalém;
e reunindo todos os principais sacerdotes e os escribas do povo, perguntava-lhes onde havia de nascer o Cristo.
Eles lhe disseram: Em Belém da Judéia; pois assim está escrito pelo profeta:
E tu Belém, terra de Judá, Não és de modo algum o menor entre os lugares principais de Judá; Porque de ti sairá um condutor, Que há de pastorear meu povo de Israel.
Então Herodes chamou secretamente os magos, e deles indagou com precisão o tempo em que a estrela tinha aparecido;
e enviando-os a Belém, disse-lhes: Ide informar-vos cuidadosamente acerca do menino; e quando o tiverdes achado, avisai-me, para eu também ir adorá-lo.
Os magos, depois de ouvirem o rei, partiram; e eis que a estrela, que viram no oriente, ia adiante deles, até que foi parar sobre o lugar onde estava o menino.
Ao avistarem a estrela ficaram extremamente jubilosos.
Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, adoraram-no; e abrindo os seus cofres, fizeram-lhe ofertas de ouro, incenso e mirra.
Sendo em sonhos avisados por Deus que não voltassem a Herodes, seguiram por outro caminho para a sua terra.
[…]»
O relato evangélico não indica quantos eram os Magos nem regista os seus nomes; o número três acabou por se firmar na tradição cristã a partir da variedade dos presentes oferecidos – ouro, incenso e mirra – e da respetiva interpretação simbólica. Também não há, no texto bíblico, qualquer identificação nominal destas figuras. A tradição dos nomes e perfis dos Magos foi sendo construída progressivamente, devendo-se muito, no Ocidente latino, ao monge beneditino inglês São Beda (c. 673‑735), que, na obra Excerpta et Collectanea, lhes conferiu identidade, origem e traços físicos. Beda associa cada um dos Magos a uma região do mundo antigo:
«Melchior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio. E Baltasar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz”» (Excerpta et Colletanea)
Esta descrição, amplamente retomada pela tradição posterior, fixou um imaginário visual e teológico que associa os Magos à universalidade dos povos.
A própria designação «magos» foi frequentemente interpretada como indício de que poderiam ter sido astrólogos ou astrónomos, atentos aos sinais celestes. O evangelho relata que «viram uma estrela» e, por isso, se puseram a caminho até à região onde nascera Jesus Cristo, deixando perceber a leitura religiosa de um fenómeno astral. A estrela, segundo o texto de Mateus, conduz primeiro os Magos a Herodes e só depois «parou sobre o lugar onde estava o menino», culminando na afirmação:
«E vendo a estrela, alegraram-se eles com grande e intenso júbilo» (Mt 2,10).
Os Reis Magos, figuras anónimas do Evangelho transformadas em ícones da universalidade cristã, continuam a iluminar o imaginário coletivo como símbolo eterno da busca humana pelo divino, guiada por estrelas de esperança e transcendência.
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VEIGA, Francisca Branco (2024), DIA DE REIS, 06 de Janeiro (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [05 de Janeiro de 2024].
A Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada em 1534 por um grupo de estudantes da Universidade de Paris, liderados pelo basco Inácio de Loyola, é conhecida principalmente pelo seu trabalho missionário e de educação.
Ao entrar em Portugal pela mão do rei D. João III, logo após a sua fundação, é, no reinado de D. José, expulsa de Portugal, levando ao encerramento da presença evangelizadora, missionária e educativa nos territórios portugueses (1759).
Retrato de D. João III de Portugal, no Museu de São Roque. É uma réplica dum quadro pelo Mestre Flamengo Anthonis Moro, pintado em 1522 (Museu do Prado, Madrid). Este quadro é atribuído a Cristóvão Lopes, filho de Gregório Lopes e seu sucessor enquanto pintor da corte em 1550.S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III André Reinoso, cerca de 1619 Igreja de S. Roque, Lisboa, Portugal
O século XIX vai ser para os jesuítas um século de exílios. Reentram em Portugal em 1829, no reinado de D. Miguel, e são novamente expulsos seis anos depois por D. Pedro, regente em nome de sua filha D. Maria II.
Johann Nepomuk Ender Viena, Áustria, 1827 Óleo sobre tela 256×180 cm Assinado e datado: “Giovanni Ender pinx, Vienne 1827”
Em 1858, será o Padre Rademaker a pessoa que irá fazer renascer os missionários jesuítas em Portugal, que a República volta a expulsar (outubro de 1910).
Carlos João Rademaker (1828—1885) Autor desconhecido
A partir de 1923, no governo do presidente António José de Almeida (6º presidente da Primeira República Portuguesa – 5 de outubro de 1919 a 5 de Outubro de 1923), reabrem algumas residências em Portugal, sendo, pelo decreto de 12 de maio de 1941, na sequência da Concordata de 1940, reconhecidos como corporação missionária, normalizando, deste modo, a sua situação jurídica.
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«INTER SANCTAM SEDEM ET REMPUBLICAM LUSITANAM
SOLLEMNES CONVENTIONES
CONCORDATA ENTRE A SANTA SÉ E A REPÚBLICA PORTUGUESA
Em nome da Santíssima Trindade
Sua Santidade o Sumo Pontífice Pio XII, e Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, dispostos a regular por mútuo acôrdo e de modo estável a situação jurídica da Igreja Católica em Portugal, para a paz e maior bem da Igreja e do Estado,
Resolveram concluir entre si uma solene Convenção que reconheça e garanta a liberdade da Igreja e salvaguarde os legítimos interesses da Nação Portuguesa, inclusivamente no que respeita às Missões Católicas e ao Padroado do Oriente.
Para tal efeito, Sua Santidade nomeou seu Plenipotenciário Sua Eminência Reverendíssima o Senhor Cardeal LUIGI MAGLIONE, Seu Secretário de Estado,
e o Senhor Presidente da República Portuguesa nomeou Seus Plenipotenciários :
Sua Excelência o Sr. General EDUARDO AUGUSTO MARQUES, antigo Ministro das Colónias, Presidente da Câmara Corporativa, Gran Cruz das Ordens militares de Cristo, de S. Bento d’Aviz e da Ordem do Império Colonial;
Sua Excelência o Sr. Doutor MARIO DE FIGUEIREDO, antigo Ministro da Justiça e dos Cultos, Professor e Director da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, Deputado e Gran Cruz da Ordem militar de S. Tiago da Espada;
Sua Excelência o Sr. Doutor VASCO FRANCISCO CAETANO DE QUEVEDO, Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário junto da Santa Sé, Gran Cruz da Ordem militar de Cristo e Cavaleiro de Gran Cruz da Ordem de S. Gregório Magno;
os quais, trocados os seus respectivos plenos poderes e achados em boa e devida forma, acordaram nos artigos seguintes :
Art. I
A República Portuguesa reconhece a personalidade jurídica da Igreja Católica. As relações amigáveis com a Santa Sé serão asseguradas na forma tradicional por que historicamente se exprimiam, mediante um Núncio Apostólico junto da República Portuguesa e um Embaixador da República junto da Santa Sé.
[…]
Assinatura da Concordata e do Acordo Missionário no Vaticano, 7 de Maio de 1940. À direita o Cardeal Luigi Maglione, representante da Santa Sé e à esquerda o General Eduardo Marques, antigo Ministro das Colónias portuguesas. [AHD- Colecção de Álbuns Fotográficos].
Quadro alusivo à estada da Companhia de Jesus em Portugal de 1540 à atualidade
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VEIGA, Francisca Branco (2023), Quadro cronológico relativo à estada da Companhia de Jesus em Portugal de 1540 à atualidade (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [02 de Janeiro de 2024].
Autor desconhecido Século XVI-XVII Desenho a sanguínea sobre papel Roma, Arquivo da Companhia de Jesus
Os primeiros Padres da Companhia de Jesus, aqui representados, são, da esquerda para a direita e de cima para baixo:Inácio de Loyola, Diogo Lainez, Francisco Xavier, Pedro Fabro, Nicolau Bobadilha,Simão Rodrigues, Afonso Salmerón, Pascásio Broet, João Codure e Cláudio Le Jay.
Santo Inácio de Loyola e seus companheiros Autor desconhecido Século XVII. Pintura a óleo sobre tela Arquidiocese de Braga, Museu Pio XII
Insc.: O GRANDE PATRIARCHA SANTO INACIO DE LOYOLA COM SEUS PRIMEIROS COMPANHEIROS OS VENERAVEIS PADRES PEDRO FABRO, S. FRANCISCO XAVIER, DIOGO LAYNEZ, AFFONSO SALMERÃO, NICOLAO DE BOBADILHA, SIMÃO RODRIGUES, CLAUDIO JAYO, JOÃO CODURE, PASCHASIO BROET
No dia da festa da Assunção de Nossa Senhora, a 15 de Agosto de 1534, um grupo de estudantes (Inácio de Loyola, Pedro Fabro, Francisco Xavier, Diogo Laynez, Affonso Salmerão, Nicolao de Bobadilha e Simão Rodrigues), núcleo inicial da futura Companhia de Jesus, reuniu-se na cripta da capela de S. Dionísio, em Montmartre, Paris. Pedro Fabro, então o único padre, celebrou missa, introduzindo, no momento da comunhão, uma cerimónia de juramento, na qual cada um dos companheiros pronunciou votos de castidade perpétua, pobreza evangélica e de realizar uma peregrinação a Jerusalém.
S. Francisco de Borja, S. Francisco Xavier e Santo Inácio de Loyola Autor desconhecido Século XVII Pintura a óleo sobre tela Diocese de Santarém
Estão aqui representados três dos fundadores da Companhia de Jesus, os primeiros a serem canonizados: S. Francisco de Borja (Gândia, Valência, 1510 – Roma, 1572), à esquerda; S. Francisco Xavier (Xavier, 7 de abril de 1506 — Sanchoão, 3 de dezembro de 1552), ao centro; e Santo Inácio de Loyola (Loyola, 1491 – Roma, 1556), à direita.
Ciclo da vida de S. Francisco Xavier Papa Paulo III recebe S. Francisco Xavier e os seus companheiros André Reinoso (activo 1610-1641) e colaboradores 1619 Óleo sobre tela Lisboa, igreja de S. Roque, sacristia
São Francisco Xavier, de joelhos diante do trono papal, e os seus companheiros, durante a audiência papal em 1539, solicitam-lhe a devida licença para receberem as ordens sacras e partir para a Terra Santa. Em segundo plano, de pé atrás de Francisco Xavier, encontra-se S. Inácio de Loyola.
P. Simão Rodrigues de Azevedo, natural de Vouzela, um dos Fundadores da Companhia e primeiro Provincial de Portugal. Pintura a óleo sobre tela existente na Residência de S. Roberto Belarmino (Casa de Escritores), Lisboa.
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VEIGA, Francisca Branco (2023), Os primeiros Padres da Companhia de Jesus (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [22 de Dezembro de 2023].
Inácio de Loyola (1491-1556), nos Exercícios Espirituais (parágrafos 111-117), exorta a redescobrir o sentido da Natividade, e a aprender a contemplar o Natal com outros olhos.
Pretendia Inácio de Loyola tornar o momento de numa verdadeira introspecção, procurando ver “com outros olhos” na “composição de lugar” a mesma admiração que os pastores sentiram diante da visão da cabana onde Jesus nasceu.
Sebastiano Ricci (Italiano, 1659–1734) Sagrada Família com Santo Inácio de Loyola Óleo sobre tela 128 x 95.6 cm
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EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS
Segunda Semana
«É DO NASCIMENTO
Oração preparatória, a habitual [46].
111 – Primeiro preâmbulo é a história; e será aqui como desde Nazaré saíram nossa Senhora, grávida quase de nove meses, como se pode piamente meditar, assentada numa jumenta, e José e uma serva, levando um boi, para ir a Belém pagar o tributo que César impôs em todas aquelas terras [264].
112 – Segundo [preâmbulo], composição vendo o lugar; será aqui ver, com a vista imaginativa, o caminho desde Nazaré a Belém, considerando o comprimento, a largura, e se tal caminho era plano ou se por vales ou encostas. Assim mesmo, observar o lugar ou gruta do nascimento, se era grande, pequeno, baixo, alto, e como estava preparado.
113 – Terceiro [preâmbulo] será o mesmo e da mesma forma que na contemplação precedente.
114 – Primeiro ponto é ver as pessoas, a saber, ver nossa Senhora e José e a serva, e o Menino Jesus depois de já ter nascido, fazendo-me eu um pobrezinho e escravozito indigno que os observa, os contempla e os serve em suas necessidades, como se presente me achasse, com todo o acatamento e reverência possível; e, depois, reflectir em mim mesmo para tirar algum proveito.
115 – Segundo [ponto]: observar, advertir e contemplar o que falam; e, reflectindo em mim mesmo, tirar algum proveito.
116 – Terceiro [ponto]: observar e considerar o que fazem, como é caminhar e trabalhar, para que o Senhor venha a nascer em suma pobreza e, ao cabo de tantos trabalhos de fome, de sede, de calor e de frio, de injúrias e afrontas, para morrer na cruz; e tudo isto por mim; depois, reflectindo, tirar algum proveito espiritual.
117 – Acabar com um colóquio, como na contemplação precedente, e com um Pai nosso.»
Pieter Paul Rubens A Adoração dos Pastores , 1608 Óleo sobre tela 300×192 cm
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VEIGA, Francisca Branco (2023), Inácio de Loyola, os Exercícios Espirituais e a Natividade (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [11 de Dezembro de 2023].
O Correio Interceptado, de José Ferreira Borges (1786-1838), impresso em Londres, fazia parte da chamada imprensa da emigração portuguesa em Londres. Ferreira Borges foi uma personagem importante do liberalismo português, economista liberal e pensador político e jurídico, autor do Código comercial português, de 1833, desempenhou um papel de liderança na revolução de 1820 e foi nomeado Secretário do Interior do governo provisório. Encontrava-se exilado em Inglaterra devido ao avanço que as forças absolutistas tinham tido em Portugal, desde 1823, e que puseram fim, após a Vilafrancada, ao primeiro governo liberal.
José Ferreira Borges [Visual gráfico] / Alves lithografou. Porto, 1840 . – [Lisboa?: s.n., 1840]. In BNP.
A obra, escrita sob a forma de cartas entre 1 de Novembro de 1825 e 24 de Agosto de 1826, num total de 63 cartas sobre diversos assuntos: política em Portugal, Grã-Bretanha, Estados Unidos, América Latina e Brasil, assuntos eclesiásticos, Alexandre I da Rússia, o comércio do vinho, papel moeda e bancário, a estátua equestre de D. José I na Praça do Cavalo Negro de Lisboa, os Açores, a censura, a medicina, etc.
A polícia de D. Miguel teve um cuidado especial para com os exilados e as suas publicações, principalmente com as folhas de Londres. Referia Frei Fortunato de São Boaventura no O Defensor dos Jesuítas, em 1829: “…protestão, e jurão mover toda a qualidade de pedras”.
No centro de difusão da propaganda política liberal portuguesa em Londres, os escritos destinados a Portugal seguiam trâmites complicados.
Eram enviados, em sacos selados, para a embaixada brasileira, de Londres, daqui os remetiam como «correspondência oficial brasileira» ao secretário dos Negócios Estrangeiros inglês, o qual, por seu turno, os mandava como «bagagem diplomática», ou no navio correio ou num vaso de guerra inglês, ao cônsul de Inglaterra em Lisboa, que os confiava ao encarregado de negócios brasileiro, que os distribuía pelo país, não raro por intermédio de senhoras titulares.
O padre Benevenuto, que vivia em Londres, enviava instruções do «conselho de regência» a senhoras da nobreza, entre elas, a marquesa de Alorna, D. Leonor de Almeida Portugal (1750-1839), a baronesa do Alvito, D. Henriqueta Policarpa Lobo da Silveira Quaresma (1796 – 1858), a marquesa de Nisa, D. Eugénia Maria Josefa Xavier Teles de Castro da Gama (1776-1839), e a condessa de Ficalho, Eugénia Maurícia Tomásia de Almeida Portugal (1784-1859)[1], que por sua vez se dedicavam a fazer propaganda da revolução. Os revolucionários de Lisboa reuniam-se na casa do cônsul do Brasil, sendo este, mais tarde, expulso do país e a condessa de Ficalho internada no convento de Carnide[2]. Contava o Marquês de Fronteira que,
“As minhas parentas Marquezas de Angeja e de Castello Melhor, as Condessas de Ficalho e Ribeira Grande, minha cunhada D. Anna da Camara, e outras muitas, estavam encarceradas nos conventos mais apertados da capital e incomunicáveis, e os filhos d’algumas d’estas senhoras, que eram menores, estavam debaixo da tutela de indivíduos inteiramente estranhos á família”[3].
Assim se explica as razões da escolha de um periódico com um formato mais pequeno, nomeadamente o décimo segundo tamanho (a folha media 8 cm de largura por 13 cm de altura), para que não fosse detetado nas cartas em que era colocado e deste modo podesse entrar mais facilmente em Portugal.
Em Plymouth, onde até 1829 se encontrava a máquina geradora de novas formas de resistência ativa, Ferreira Borges editou o OCorreio Interceptadocom 63 cartas, integrando a ressonância da epifania dos liberais emigrados. É nestas circunstâncias que publica a carta intercetada nº 57, onde difama os jesuítas e alerta a sociedade portuguesa para uma possível entrada destes em território nacional. Na carta escrevia o seguinte:
“Cinco Jesuitas Francezes acabão, segundo me disseram, de embarcar-se para Lisboa com o nome de Padres Allemaens.
[…] A Lei que ordenou o seu extirminio está em vigor. – Uma Regencia não tem poder de revoga-la […]
Eu fico à espreita da realização deste attentado nacional; e a realizar- se protesto-lhe a mais solemne accusação contra o Ministro, que em minhas forças caiba”[4] .
Plymouth: Câmara Municipal e Igreja de Santo André. Gravura do século XIX.
[2] MENEZES, Luís Miguel P. G. Cardoso de – “Os Patriotas Ficalhos e a Defesa do Liberalismo Constitucional”. In Revista Militar, n.º 2535, abril de 2013, pp. 343 – 364.
[3] FRONTEIRA, 7º Marquês de – Memorias do Marquês de Fronteira e de Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861, Parte 4ª: 1824 a 1833. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1928, p. 300.
[4]Carta de Le Fouet para Snr. Ignacio de Loyola, em Lisboa. Havre de Grace, 7 de julho de 1826. In O Correio Interceptado. Londres: M. Calero, 1825, pp. 281-283.
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VEIGA, Francisca Branco (2023), José Ferreira Borges e o periódico “O Correio Interceptado” (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [30 de Outubro de 2023].
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VEIGA, Francisca Branco, Companhia de Jesus. O Breve Regresso no Reinado de D. Miguel. Ed. Autor, 2023, 437 p. (Livro disponível na Amazon.es)
Retrato em litografia, de Dom Pedro IV de Portugal com a Carta Constitucional portuguesa de 1826. Gravura em metal sobre papel. Acervo Banco Itaú.
Em 10 de março de 1826, quando o rei D. João VI morre, a sucessão vai cair novamente em D. Miguel que se encontrava desterrado em Viena, pois o seu filho primogénito, D. Pedro, era agora Imperador do Brasil[1]. Mas a fação maçónica e liberal portuguesa não aceita e proclama como rei D. Pedro IV que, do Brasil outorga a Portugal a Carta Constitucional.
A regência, nomeada em 6 de março de 1826, apenas quatro dias antes da morte do rei, na pessoa da infanta D. Isabel Maria, declara D. Pedro Rei de Portugal.
A Carta Constitucional de 29 de abril de1826, outorgada por D. Pedro IV e não elaborada por deputados, era menos liberal que a Constituição de 1822: o rei tinha dois poderes, cabendo-lhe o direito de veto sobre as leis votadas em Cortes (uma das suas Câmaras era formada por membros nomeados pelo rei). A Carta representou um compromisso entre os defensores da soberania nacional adotada na Constituição de 1822 e os defensores da reafirmação do poder régio.
Quando em 1826 os absolutistas apoiados pelo clero se pronunciam a favor de D. Miguel, D. Pedro abdica dos seus direitos em favor da sua filha Maria da Glória. Para poder voltar a Portugal e conquistar o seu reino, D. Miguel fica noivo da sobrinha, D. Maria da Glória, jurando a Carta Constitucional de 1826 perante a corte austríaca e expressa determinação de esta ser previamente aceite pelos três Estados do reino, conforme seu decreto de outorga[2].
Alegoria ao juramento da Carta Constitucional. Domingos António de Sequeira. 1826. Museu Nacional de Arte Antiga
Em 22 de fevereiro de 1828, à sua chegada a Lisboa, D. Miguel jura, novamente, fidelidade à Carta e à rainha, sua prometida mulher. Em 26 de fevereiro, pela uma hora da tarde, foi entregue o governo do país a D. Miguel, na sua qualidade de regente. Esta cerimónia realizou-se na sala das sessões do palácio da Ajuda, e a ela assistiram as duas câmaras, toda a corte, bem como o corpo diplomático.
No mesmo dia, D. Miguel nomeou como ministros o Duque de Cadaval, o conde de Basto, José António de Oliveira Leite de Barros e Furtado do Rio de Mendonça, conde de Vila Real e conde da Lousã. D. Miguel dissolveu as cortes sem ordenar no mesmo decreto, como exigia a Carta, que se procedesse a novas eleições.
A 25 de abril o senado de Lisboa proclamou rei D. Miguel, tendo como apoiantes os seguintes titulares: Duque: Lafões; marqueses: Louriçal, Borba, Tancos, Olhão, Sabugosa, Lavradio (D. António), Penalva, Torres Novas, Belas, Valadas, Pombal, Vagos, Viana, e Alvito; condes: S. Lourenço, Figueira, Castro Marim, Barbacena, Murça, Cintra, Parati, Valadares, Peniche, Alhandra, Ega, Rio Maior, S. Miguel, Belmonte (D. Vasco), Belmonte (D. José), Almada, Soure, Redondo, S. Vicente, Viana, Atalaia, Seia, Porto Santo, Carvalhais, Mesquitela, Póvoa, Povolide, Anadia, Redinha, Pombeiro, Arcos (D. Marcos), Subserra, Lousã (D. Luís), Resende, Ponte, Galveias barão do Alvito, e Lapa; viscondes: Baía, Sousel, Torre Bela, Asseca, Magé, Vila Nova da Rainha, Estremoz, Juromenha, Souto d’EI-Rei, Azurara, Manique, Beire, e Veiros; barões: Sobral (Gerardo), Vila da Praia, Beduido, Sande, Portela, Queluz, Tavarede, e Quintela; principais: Menezes, Lencastre, Corte Real, Furtado, Silva, e Freire; Dom-priores: Guimarães e Avis. É anulada a Carta Constitucional e repostas as Leis constitucionais tradicionais[3].
A Carta Constitucional de 1826 (art. 6º) e a Constituição de 1838[4] representavam um Estado católico, consagrando constitucionalmente o beneplácito régio. A Carta, outorgada pelo rei D. Pedro IV (Imperador D. Pedro I do Brasil), após a morte do pai, D. João VI, foi a segunda Constituição Portuguesa à qual se deu o nome de Carta Constitucional por ter sido outorgada pelo rei, mas não redigida e votada por Cortes Constituintes eleitas pela Nação, tal como sucedera com a de 1822. Teve como influência a Constituição brasileira de 1824, de aparência liberal, com divisão de poderes políticos entre Legislativo, Executivo e Judicial mas, criando a figura do “Poder Moderador”, exercido por D. Pedro, com o poder de desfazer e anular as decisões tomadas pelos outros poderes, a Carta Constitucional francesa de 4 de junho de 1814, onde Luís XVIII pretendia ver implantado um poder executivo nas mãos da monarquia, um parlamento bicameral, tolerância religiosa e direitos civis, e como base o texto constitucional de 1822.
Gazeta de Lisboa, nº 164 de 15 de Julho de 1826 (publicada entre 15 de Julho a 26 de Julho de 1826)
CARTA CONSTITUCIONAL DA MONARCHIA PORTUGUESA DECRETADA, E DADA PELO REI DE PORTUGAL E ALGARVES D. PEDRO, IMPERADOR DO BRASIL AOS 29 DE ABRIL DE 1826.
DOM PEDRO, POR GRAÇA DE DEO, Rei de Portugal, dos Algarves, etc. Faço Saber a todos os Meus Subditos portugueses, que sou Servido Decretar, Dar, e Mandar Jurar imediatamente pelas Tres Ordens do Estado a Carta Constitucional abaixo transcrita, a qual d’ora em diante regerá esses Meus Reinos, e Dominios, e que he do theor seguinte…
No entanto a Carta Constitucional marcou um retrocesso em relação aos princípios liberais da lei anterior porque a soberania passava a residir no Rei e na Nação (art.º 12); o Rei passava a deter a supremacia política; garantiu-se a existência de uma nobreza hereditária, com todas as regalias e privilégios; preservava-se o princípio da separação dos poderes, reconhecendo a existência de quatro poderes políticos (art.º 11): o legislativo (art.º 13 – O poder legislativo compete às Cortes com a sanção do Rei (…)), o executivo, o judicial e o moderador, que é a novidade (art.º 17 – O poder moderador é a chave de toda a organização política e compete privativamente ao Rei, como chefe supremo da Nação, para que vele sobre a independência, equilíbrio e harmonia dos demais poderes políticos (…)); manteve-se inalterado o princípio da ausência de liberdade religiosa definindo-se, novamente, a religião Católica como religião oficial do Estado.
Num tempo de forte instabilidade política e social, a Carta Constitucional teve três períodos de vigência durante os quais foi alvo de três revisões (Actos Adicionais de 1852, 1855 e 1896):
– De 31 de julho de 1826 a 3 de maio de 1828, com a convocação dos três estados do reino pelo rei D. Miguel, opondo-se à Carta.
– De 27 de maio de 1834 até 9 de setembro de 1836, isto é, entre a Convenção de Évora Monte, que pôs fim à guerra civil entre os absolutistas de D. Miguel I e os liberais de D. Pedro IV, repondo a Carta até à Revolução de Setembro e nova adoção da Constituição de 1822. Em 1838, foi elaborada a redação de uma nova Constituição iluminada pela Revolução Francesa de 1830 e embrenhada por uma forte corrente liberal. Esta Constituição pretendia que não houvesse dependência da vontade do rei, suprimindo o poder moderador instituído pela Carta, e que fosse reconhecida pelo povo, representado na Assembleia Nacional. Vigorou até10 de fevereiro de 1842 e teve por base a Constituição liberal de 1822, a Carta Constitucional de 1826, a Constituição belga de 1831 (Constituição com um poder legislativo bicameral, em que o rei compartilhava o poder com as duas câmaras legislativas) e a Constituição espanhola de 1837 (correspondente à reformada Constituição de Cádis de 1812).
– Entre o golpe de Estado de Costa Cabral, no Porto, em 27 de janeiro de 1842 e o 5 de outubro de 1910, com a revolução republicana, é restaurada a Carta Constitucional.
[1] Em 1822, por iniciativa de D. Pedro, filho primogénito de D. João VI e de Carlota Joaquina e defensor acérrimo dos ideais liberais, foi proclamada a independência do Brasil.
[2] Francisco Pina Manique, A Causa de D. Miguel, Lisboa, Caleidoscópio, 2007, p. 20.
[3] A Gazeta de Lisboa faz referência à relação das pessoas que partiram no dia 10 de Julho de 1828 do Porto para Londres, num barco a vapor inglês. Entre os nomes constam: o Marquez de Palmela, o Conde e Condessa de Villa Flor, o conde de Sampayo, o Conde da Taipa, entre muitos outros. Gazeta de Lisboa, nº 166, 1828. O nome dos indivíduos que assinaram o auto pelo qual a maior parte da alta nobreza portuguesa pediu ao infante D. Miguel que convoca-se os três estados do reino para o declararem rei absoluto e rasgasse a Carta Constitucional encontra-se em: José Liberato Freire de Carvalho, Ensaio político sobre as causas que prepararam a usurpação do Infante Dom Miguel no ano de 1828, e com ela a queda da Carta Constitucional do ano de 1826, Lisboa : Imp. Nevesiana, 1840, pp.221-223. Encontra-se no mesmo documento de José Liberato de Carvalho referência aos nomes dos indivíduos (braço eclesiástico, braço da nobreza e braço do povo) que assinaram o assento dos três estados, no dia 11 de Julho de 1823: ibid, ibidem, pp. 227-239.
[4] Outro texto constitucional a vigorar em Portugal foi a Constituição de 1838, que resultou de um compromisso entre as teses liberais da Constituição de 1822 e as teses mais conservadoras expressas na Carta Constitucional de 1826 que dera origem ao sistema bicameral com a criação do Pariato.
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VEIGA, Francisca Branco (2023), Carta Constitucional de 1826 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [24 de Outubro de 2023].
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VEIGA, Francisca Branco, Companhia de Jesus, Companhia de Jesus. O Breve Regresso no Reinado de D. Miguel. Ed. Autor, 2023, 437 p. (Livro disponível na Amazon.es)
Quebrando o cerco miguelista ao Porto, os liberais regressam através do Algarve, após a tomada de Olhão e de Tavira, e atravessam o Alentejo rumo a Lisboa, derrotando os miguelistas na Cova da Piedade, a poucos quilómetros de Cacilhas.
Batalha travada no dia 23 de Julho de 1833 entre as forças Realistas (miguelistas) de D. Miguel e as forças Liberais de D. Pedro IV.
Cartas das vitórias liberais, litografia Manuel Luiz, 1835. 23 de julho de 1833, Derrota dos Miguelistas em Cacilhas Biblioteca Nacional de PortugalCacilhas vista do Tejo, xilogravura. Autor: João Pedroso, 1846. In Revista O Panorama, n° 18, 1847.
Esta vitória marcou o fim das esperanças dos miguelistas de conter o avanço Liberal sobre Lisboa, e foi decisiva para a ocupação da capital, bem como para o desfecho da Guerra Civil Portuguesa, abrindo o caminho a uma monarquia Constitucional.
Após a brilhante vitória em Cacilhas, Lisboa foi entregue ao comandante-chefe liberal, marechal Duque da Terceira, sem combate nem resistência, pelo Duque de Cadaval, em 24 de julho de 1833.
Retrato do Duque da Terceira António José de Sousa Manuel de Meneses. Datação: 1832 dC – 1834 dC. In Museu Nacional de Soares dos Reis.
No Suplemento ao nº 174 da Crónica Constitucional do Porto, no dia 26 de julho de 1833 publicava-se o seguinte:
“PARTE OFFICIAL.
Illmº e Exmº Sr. – Cabe-me a fortuna de ter de anunciar a V. Excª a grande noticia da entrada das Tropas da Rainha em Lisboa; a qual teve lugar esta manhã depois de uma Acção, em que o Duque da Terceira desbaratou as tropas inimigas, comandadas pelo Telles Jordão, na margem esquerda do Tejo. (…)
Bordo da Nau Almirante, na entrada do Téjo, 24 de julho de 1833 = 2 horas da tarde.
Illmº e Exmº Sr. Candido José Xavier
Duque de Palmella”.
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Crónica Constitucional de Lisboa, n.º 13, 9 de Agosto de 1833
Relação dos Oficiais que mais se distinguiram na ação do dia 23 de julho de 1833 – de Almada até Cacilhas
XXXX
Joaquim Teles Jordão (Guarda, São Vicente, 1777 — Cacilhas, 23 de Julho de 1833) foi um militar do Exército Português da facção conservadora miguelista. Um dos mais acérrimos defensores do regime absolutista.
No dia 2 de Janeiro de 1832 foi nomeado pelo rei D. Miguel governador da Torre de São Julião da Barra, lucal de detenção de presos políticos. A dureza com que tratou os presos, cruelmente abusados e torturados, mereceu o ódio dos liberais.
Na manhã de 22 de Julho de 1833, depois de organizar as forças sob o seu comando, atravessou o Tejo, rumando a Almada, onde se deu o encontro das duas forças oponentes no Combate de Cacilhas. Derrotadas, as forças miguelistas, embarcavam as forças liberais para Lisboa, quando, tendo reconhecido Teles Jordão, este foi capturado e morto a golpes de sabre pelo Coronel Romão José Soares.
A Ilustração Portuguesa 1886/Mar/Nº34
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VEIGA, Francisca Branco (2023), GUERRAS LIBERAIS – Batalha da Cova da Piedade 23 Julho 1833 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [02 de Outubro de 2023].
VEIGA, Francisca Branco, Companhia de Jesus. Companhia de Jesus.O Breve Regresso no Reinado de D. Miguel. Ed. Autor, 2023, 437 p. (Livro disponível na Amazon.es)