A chegada de jesuítas ao colégio de Santo Antão-o-Velho passados setenta e um anos

1759 – 1830

Outras denominações: Coleginho; Mosteiro da Anunciada; Residência de Santo Antão; Hospício dos Padres de São Francisco; Colégio dos Religiosos Eremitas Calçados de Santo Agostinho de Lisboa.

No dia 27 de dezembro de 1830 D. Miguel entregava aos jesuítas o Colégio de Santo Antão-o-Velho, denominado Coleginho, local onde no século XVI se estabeleceram os primeiros jesuítas[1] e aí abriram um noviciado:

“El Rei meu Senhor Foi Servido Mandar declarar ao Prior Provincial dos Ermitas de Santo Agostinho, que era da Sua Real vontade que se prestasse toda a Casa, e Igreja do Colleginho […] para os Padres da Companhia de Jesus” [2]

O Padre Delvaux descreve do seguinte modo como os padres agostinhos receberam a notícia:

“Je reçus le lendemain, par le duc, l’aviso de Sa Majesté qui ordonnait aux Pères ermites de Saint-Augustin de nous abandonner cette église et cette maison pour y continuer maintenant nos ministères. On dit que cela a donné quelque déplaisir à ces Pères; mais j’aime à croire que la sainte Vierge adoucira la contrariété qu’un déménagement forcé entraîne toujours avec soi. Les Pères nous ont três-bien reçus et, tout en se plaignant un peu de n’avoir que si peu de jours pour ce déplacement, surtout en hiver, ils s’exécutent et nous ont assuré qu’ils se félicitaient de trouver cette occasion de concourir au rétablissement de la Compagnie. Notez au reste, que cet Ordre a quatre maisons à Lisbonne même; deux sont immenses, une surtout et telle que l’on en a pu prendre la moitié pour faire une caserne, sans incommoder beaucoup les religieux. Notez encore que, dans le colleginho en question, il n’y avait actuellement que deux Pères pour veiller seulement à sa garde. Notre adresse est donc maintenant: Petit collége de Saint-Antoine-le-Vieux rue Saint-André; mais ici elle serait mieux comprise ainsi: No colleginho de Santo-Antâo, calçada de Santo André”

 No periódico A Contra-Mina, Fortunato de São Boaventura escreve o seguinte acerca da entrega aos jesuítas do Coleginho:

“O certo he, que depois de vaguearem por muitos domicílios, conseguem, e não foi sem mysterio, hum Colleginho, onde existem retirados, e ainda como feridos da antiga maldição, e sem ousarem dizer, ou proferir, o que são actualmente nestes Reinos …”[3]

Crétineau-Joly refere que foi após a chegada destes missionários ao seu antigo Colégio de Lisboa que estes despertaram para a criação de um verdadeiro projeto de construção da futura Província jesuíta.

 “… ils commencèrent à donner à leurs travaux une direction plus uniforme. Les uns, comme le Père Pouly, s’efforcèrent, par le secours religieux, d’alléger les chaînes des prisonniers; les autres cherchèrent à réveiller dans les âmes des sentiments de vertu et de piété. Témoin des succès de ces quelques Jésuites, le Cardinal Patriarche de Lisbonne ne veut plus demeurer indifférent au bien qui s’opère par leur intermédiaire”[4]

Em correspondência emitida de Roma (?) para o P. Delvaux, o sentimento era de esperança: “Sans doute, qu’il seroit fort de mon goût, si on vous accordoit l’ancienne maison de nos premiers Péres – Tout nous prêche, nous edifie, nous anime dans cette sorte de maisons. Mais laissons agir la Providence… [5].

«Ils commencèrent à donner à leurs travaux une direction plus uniforme» dedicando-se à pastoral, dispensando o seu tempo à catequese, à pregação em algumas paróquias da capital e arredores, em algumas missões populares, à administração dos sacramentos, à assistência material e espiritual dos presos e feridos da guerra civil e em poucos meses ligados à educação no Colégio das Artes (1833-1834)[6], funções primordiais da Companhia de Jesus.

Mas, a Europa dos anos trinta encontra-se em mudança. A Santa Aliança estava a perder força face aos ideais liberais que se opunham ao conservadorismo tradicional e procuravam substituir o absolutismo no governo pelo Estado de direito. Nesse sentido o Padre Delvaux sentia-se privilegiado por se encontrar em Portugal e afirmava que «la tranquillité dont nous jouissons ici au milieu du bruit général de guerres et de révolutions qui retentit de toutes parts est jusqu’à présent admirable»[7].

Carayon refere que no dia 31 de dezembro os jesuítas “… on put ouvrir l’église [do Coleginho] consacrée sous le titre da la Conversion de Saint-Augustin”[8].

Nesta igreja criaram um altar dedicado a Nossa Senhora da Rocha contribuindo para ele o próprio rei: “Nous établirons à un autre autel une dévotion particulière à Notre Dame da Rocha et déjà le roi a bien voulu se charger de la dépense que son petit trône exigera. je la lui évaluais approximativement à la somme de trois mille francs, voilà une nouvelle preuve de sa grande dévotion pour cette bonne Mère et tout à la fois de son affection pour la Compagnie”[9].

Reitera-se a ideia de que a Senhora Aparecida tinha vindo como castigo aos liberais para, em nome de Deus, livrar Portugal da sua obra “monstruosa”, a Constituição.  A Senhora da Rocha era considerada a bandeira da nova cruzada.


[1] “A Companhia de Jesus, nos séculos XVI a XVIII, esteve ativa em Portugal ao longo de um período de duzentos e dezanove anos, desde a sua fundação em Roma, em 27 de Setembro de 1540, até 3 de Setembro de 1759, data do decreto do Marquês de Pombal que promulgou a sua extinção no nosso país. Foi em 1540 com D. João III (1521-1557), que a Companhia de Jesus entrou em Portugal, sendo o nosso país a primeira Província jesuíta no mundo. Numa época de forte expansão territorial D. João irá ser o primeiro rei na Europa a contactar Inácio de Loyola devido à necessidade de encontrar missionários, homens letrados, para evangelizar o Oriente, pregando e convertendo à Fé cristã os nativos. D. João concedeu privilégios aos jesuítas, nomeadamente casas gratuitas, liberdade de enviar missionários para todo o mundo e de fundar colégios. […] Começaram por se instalar em Lisboa, no Colégio de Santo Antão-o-Velho, edifício sobre o terreno de uma antiga mesquita”. In VEIGA, Francisca M. C. Branco – Noviciado da Cotovia: O passado dos Museus da Politécnica 1619-1759 [Texto policopiado], Dissertação para obtenção do Grau de Mestre, Universidade Católica Portuguesa. Lisboa, fev. 2009, p.19; CLÁUDIO DA CONCEIÇÃO, Frei – Gabinete Histórico: Que A Sua Majestade Fidelissima O Senhor Rei D. João VI, Em O Dia De Seus Felicissimos Annos… Offerece, Tomo XVII. Lisboa: Impr. Nacional, 1820, pp. 95-97.      

[2] Aviso do Duque de Cadaval ão Prior Provincial dos Ermitas de S. Agostinho. Palácio de Queluz, 18 de dezembro de 1830. In APPCJ, Companhia de Jesus 1829-1834, 1833-34 Delvaux, 1 fl.

Veja-se sobre o tema, AZEVEDO, Carlos A. Moreira – Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho em Portugal (1256-1834). Edição da Colecção de Memórias de Fr. Domingos Vieira, OESA. Lisboa: Centro de Estudos de História Religiosa, UCP, vol. 8, 2011, pp. 226-227. Veja-se, inclusive, SEIXAS, Miguel Beirão de Almeida Metelo de – História do Coleginho ou Colégio e mosteiro de Santo-Antão-o-Velho. Lisboa: Direcção de Documentação e história militar, 1998.

[3] A Contra-Mina, nº40, de 13 de dezembro de 1831, p.7. Artigo intitulado A Estatua da Fé e escrito por Fortunato de São Boaventura.

[4] CRÉTINEAU-JOLY, Jacques – Histoire religiosa, politica y literária de la Compañía de Jesús, p. 362.

[5] Carta emitida de Roma (?) para o P. Delvaux, em Lisboa. Dia 15 de julho de 1830. APPCJ, Companhia de Jesus 1829-1834, Correspondência para o Padre António Pinto SJ, 2 fls.

[6] CASIMIRO, Acácio, S.J. – 1829-1930: Factos Da Companhia De Jesus, Restaurada Em Portugal. Porto: Tip. Porto Médico, 1930, pp. 9-10.

[7] Carta do Padre Delvaux Ao Padre Gury, em Lyon. Lisboa, 24 dezembro de 1830. CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus, vol. XIX, p. 276.

[8] CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus: Notes historiques, vol. X, 1863, p.9.

[9] Carta do Padre Delvaux a Madame Delvaux, Religiosa do Sagrado Coração. Lisboa, 3 janeiro de 1831. CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus, vol. XIX, p. 285.

Colégio de Santo Antão-o-Velho | Colégio de Santo Agostinho | Exterior | Fachada poente.
© CML | DMC | Arquivo Municipal de Lisboa.
Colégio de Santo Antão-o-Velho | Colégio de Santo Agostinho | Museu de Lisboa | Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755 | Pormenor.
© CML | DMC | DPC | José Vicente 2013.
Infante D. Miguel de Bragança. Retrato pintado durante o seu exílio na Corte de Viena.
Óleo sobre tela, pormenor.
Johann (Giovanni) Nepomuk Ender. 1827.
Palácio Nacional de Queluz
Jean-Philippe Roothaan (1785-1853), S.J.
Superior Geral da Companhia de Jesus de 1829 a 1853

Apoio dado por António Ribeiro Saraiva e pelo Duque de Cadaval ao regresso da Companhia de Jesus a Portugal, em 1829

Em 1829 houve a intenção de trazer de volta a Portugal os missionários da Companhia de Jesus, como agentes da colonização e evangelizadores das colónias portuguesas.

A missionação jesuítica iria ser considerada como uma colonização “salvífica”, isto é, como uma ferramenta política, de reforço do Trono de D. Miguel na recuperação de muitas colónias ultramarinas que se encontravam abandonadas após a expulsão dos jesuítas em 1759.

António Ribeiro Saraiva procurou apoio para a  causa na pessoa do duque de Cadaval, expressando-lhe:

“Nós somos nada ou pouquíssimos, sem o mar e as colonias, que foi o que nos faz grandes; as de africa principalmente, por onde começaram nossas gloriosas empresas, e onde temos um campo imenso que nos pode compensar pela tola separação do Brasil. Mas os territórios, por mui ricos que sejam, sem gente, sem braços, sem população útil, de nada servem; portanto, precisamos formar em nossa Africa gente que nos sirva e que faça valer essas possessões. De Portugal não podemos fornecel-a; é preciso, pois, achal-a lá mesmo, e lá a temos em abundancia; somente o que precisa, é ser polida e educada – istruida ou civilizada. Para isso a experiencia incontestável tem mostrado, que não há operários como os jesuítas; a eles devemos principalmente o christianismo e a civilização da India, do Brasil […] devemos fazer vir os jesuítas, incimbil-os dessa obra sem tardança”

O duque do Cadaval era da mesma opinião e a sua resposta foi de apoio total:

“Olhe senhor N., quando a gente é rapaz, por esta ou aquella causa, concebe certos desejos favoritos. Eu desde mui jovem tive dois desses appetites, que sempre muito me captivaram. – Um d’elles era, o ver convocadas, e funcionando as nossas côrtes e verdadeira representação nacional; o outro era de ver os jesuítas restabelecidos e restituídos a Portugal. […] o segundo muito desejava eu se verificasse igualmente, mas onde estão os jesuítas?”

In VEIGA, Francisca – A Restauração da Companhia de Jesus em Portugal 1828-1834: O breve regresso no reinado de D. Miguel. In Tese elaborada para obtenção do grau de Doutor em História, na especialidade de História Contemporânea, 2019.

Restauração da Companhia de Jesus pelo Papa Pio VII, 1814

D. João III e a Companhia de Jesus: consolidação da presença portuguesa em territórios além- mar

D. João III (1502-1557) foi um rei que herdou um vasto império ultramarino que se estendia por três continentes e com imensos problemas de administração à distância. As fortes relações com a Santa Sé levam a que os Bispos portugueses adiram ao espírito da Contra-Reforma, conseguindo também estabelecer o Tribunal da Inquisição em Portugal. A protecção à cultura foi muito dominante no seu reinado. Pôs em prática uma reforma do ensino e pode-se afirmar que «…pela honra que, depois reinou, soube fazer às letras e a todas as boas artes»[1]. Deu subsídios a muitos jovens para irem estudar em universidades estrangeiras, principalmente para o Colégio de Santa Bárbara, em Paris, onde era reitor o português Diogo de Gouveia. Mas ao mesmo tempo trouxe para Portugal muitos homens instruídos que foram ensinar letras e ciências na Universidade que, em 1537 tinha sido transferida de Lisboa para Coimbra. A reforma do ensino ficou concluída com a fundação, também em Coimbra, do Colégio das Artes (1548), local onde se faziam os estudos de preparação para o ingresso na universidade. A afluência às aulas dos novos mestres, vindos de Paris, levou a que D. João III ordenasse a Frei Brás de Barros que instituísse escolas fora do claustro do mosteiro[2].

Numa época onde o protestantismo se expandia na Europa e as descobertas de portugueses e espanhóis de novas terras necessitavam de “homens de Deus” para as evangelizar nasce a Companhia de Jesus com o objectivo de trabalhar para a salvação do mundo, através da salvação das almas. Um dos seus meios para combater o protestantismo e defender a fé católica era a divulgação da instrução. A especialização de eclesiásticos dedicados à tarefa da evangelização foi muito bem visto pela coroa portuguesa de D. João III, pois o avanço dos missionários significava a consolidação da presença portuguesa em territórios além- mar[3]. Além disso, «Lisboa foi a maior rampa de lançamento que teve Inácio de Loyola para realizar o seu sonho de levar a todos os povos da Terra a Boa Nova de Jesus de Nazaré»[4]. A convite de D. João III, a Companhia de Jesus estabeleceu-se em Portugal em 1540, logo a seguir à sua criação (a 27 de Setembro de 1540, o Papa Paulo III aprova a criação da Companhia de Jesus, pela bula “Regimini Militantis Ecclesiae”[5]). Francisco de Xavier na sua estadia em Portugal e antes de partir para o Oriente escreveu uma carta a Inácio de Loyola e a Coduri onde refere o seguinte:

«D´acá os hago saber como el Rey, paresciéndole bien nuestro modo de proceder, así por la experiencia que tiene del fruto espiritual que se hace, como esperando mayor cuantos mas fueren, está deliberado de hacer un colegio y una casa de los nuestros, es a saber, de la Compañia de Jesus…».

Afirmava que:

«…Este verano en la Universidad de Coimbra edificará el colégio, y la casa pienso en la cidad de Ébora»[6].

Em pouco tempo constrói três importantes estabelecimentos em Lisboa, entre muitos outros espalhados pelo país de Norte a Sul: O Colégio de Sto Antão (actual Hospital de S. José), que foi o grande centro de aprendizagem de muitos que partiam para o Oriente, uma Casa Professa, onde na hierarquia da Companhia de Jesus está reservada aos padres professos (era a residência mais importante da Companhia) e o Noviciado da Cotovia, para a formação dos futuros jovens jesuítas.

Francisco Xavier, já missionário em Goa, alertava para a preparação de “soldados de Deus”. Não importava que fossem letrados, mas tinham que ser bem exercitados[7]. Noviciados, colégios e universidades unidos num projecto comum onde a qualidade de acção, a preparação adequada e contínua e uma ocupação constante para o atendimento das almas eram requisitos obrigatórios para educar os futuros “soldados de Deus”.


[1] Frei Luís de Sousa, Anais de D. João III, Colecção de Clássicos Sá da Costa, Lisboa, 1938, I, p.8 e 9.

[2] RIBEIRO, José Silvestre, Historia dos estabilicimentos scientificos litterarios e artisticos de Portugal nos successsivos reinados da monarchia, 1871-1914, p.65 a 78.

[3] PACHECO, José Carlos Monteiro, Simão Rodrigues, O Iniciador da Companhia de Jesus em Portugal, p. 73-75.

[4] LOPES, António, Roteiro Histórico dos jesuítas em Lisboa, p.7.

[5] Na Carta Apostólica do Papa Paulo III de 1540, onde este aprova a Companhia de Jesus, ele refere o seguinte: «Esta (Companhia de Jesus) foi instuída principalmente para o aperfeiçoamento das almas na vida e na doutrina cristã, e para a propagação da fé, por meio de pregações públicas, do ministério da palavra de Deus, dos Exercícios Espirituais e obras de caridade, e nomeadamente pela formação cristã das crianças e dos rudes, bem como por meio de Confissões, buscando principalmente a consolação espiritual dos fiéis cristãos». In INÁCIO DE LOYOLA, Santo, Constituições da Companhia de Jesus, Tradução de Joaquim Mendes Abranches, S.J., p.19-20.

[6] Monumenta Historica Societatis Iesu, Cartas de San Ignacio, p. 443-447.

LOPES, António, D. Pedro Mascarenhas: Introdutor da Companhia de Jesus em Portugal, 2003, p.168.

[7] GOMES, Manuel Pereira, Santo Inácio e a fundação de Colégios, p. 41.

Retrato de D. João III de Portugal, no Museu de São Roque.
 É uma réplica dum quadro pelo Mestre Flamengo Anthonis Moro, pintado em 1522 (Museu do Prado, Madrid).
Este quadro é atribuído a Cristóvão Lopes, filho de Gregório Lopes e seu sucessor enquanto pintor da corte em 1550.
Sto Inácio de Loyola
Pieter Paul Rubens
Francisco Xavier. Retrato japonês do período Nanban.
Autor desconhecido

In VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.

O “modo nostro” Jesuíta

Il Gesú, de Roma (protótipo), S. Roque, de Lisboa e Colégio de Jesus, de Coimbra (Sé Nova)

Mantendo o respeito pelas normas da II Congregação Geral, a Companhia de Jesus segue a linha de que, todas as edificações deviam respeitar os critérios de utilidade, funcionalidade e adaptação aos Ministérios da Companhia, constituindo, deste modo, a essência do modo nostro jesuíta.

A linha arquitetónica definida pela Companhia irá também ser seguida em Portugal. Vão surgir igrejas amplas com ou sem capelas laterais, onde o transepto é curto. Igrejas com uma só nave, compacta, que se desenvolve em andares com tribunas e galerias sobre as capelas ou sobre os altares. O seu espaço interno apoia-se em esquemas rítmicos simples e de grande largueza de conceção. Esta vasta área adapta-se perfeitamente à função missionária da Companhia, mais dedicada à pregação, às confissões, ao estudo, ao ensino, sempre em missão.

Com este tipo de planta aumenta o número de cristãos no seu interior, tal como a celebração de várias missas em simultâneo nas várias capelas, pois as naves laterais transformaram-se em capelas para Santos, para servirem de intercetoras entre o homem e Deus. Trata-se de recuperar, a partir desta planta, os fiéis perdidos com a reforma protestante e voltar à clara tradição cristã. Para os jesuítas, a igreja é agora símbolo do todo um processo que leva a humanidade à salvação, instrumento espiritual de mediação entre a terra (matéria) e o céu (espírito). Segundo o padre jesuíta Francisco Rodrigues, as igrejas jesuíticas lusas da segunda metade do séc. XVI e primeiro quartel do séc. XVII seguem o modelo da igreja de Gesú.

Deste modo, o protótipo de igreja jesuítica é a igreja do Gesú, de Roma, a primeira igreja construída para a Companhia de Jesus e aquela em que transparece os objectivos da Contra-Reforma, que mais tarde vão ser utilizados em toda a arquitectura religiosa barroca. Em 1568, foi iniciado o templo pelo arquiteto Giacomo Barozzi (Vignola). Igreja onde o altar se encontra no local de acordo com objetivos litúrgicos assumidos no Concílio – a disposição interior reúne as vantagens do plano alongado, em cruz latina, onde todas as vistas convergem para o alvo principal, disposto em situação predominante, o altar.

Fachada e Planta da Igreja de Il Gesú (Roma, Itália)

Uma só nave, larga e desafogada, seis capelas laterais intercomunicantes, de um lado e de outro da nave, erigidas em honra dos Santos e Mártires, permitindo-se a passagem destas ao transepto através de duas câmaras circulares; o transepto é ligeiramente saliente com capelas nos topos, a cúpula sobre o cruzeiro é grande, permitindo iluminar toda a abside; o altar principal fica, geralmente, numa posição bem visível, no topo da capela-mor e o púlpito[1] alto e bem posicionado para dominar sem dificuldade todo o templo e ao mesmo tempo tornar-se o ponto focal, para onde tudo converge. A necessidade de mostrar a grandeza de Deus num espaço amplo, com muita luz incentivando o povo cristão ao culto e mostrando de uma só vez todo o recinto sagrado e o orador a pregar. Esta igreja corresponde a dois tempos vividos pela Reforma, a sobriedade dos primeiros tempos e a riqueza e ostentação do segundo, onde o maneirismo da estrutura arquitetónica se mistura com barroco da decoração. [2]


[1] Tribuna, nas igrejas, de onde os oradores sagrados pregam;

[2] CHIESA DEL GESÚ DI ROMA Disponível na Internet em: <http://www.chiesadelgesu.org/>. [Referência de: 25 agosto de 2020]; Paulo F. Santos., O Barroco e o jesuítico na arquitectura do Brasil, Rio de Janeiro: Kosmos, 1951, pp. 92 e ss.

Fachada e Planta da Igreja de S. Roque (Lisboa, Portugal)

No âmbito do Padroado Português, o modelo mais próximo terá sido a igreja de S. Roque, em Lisboa. Entre 1566 e 1575 a construção de S. Roque irá subir até a cornija interior com a intervenção de Afonso Álvares. Com a morte deste, surge um segundo arquiteto, Baltasar Álvares, seu sobrinho e colaborador.

O projeto da igreja de S. Roque embora inspirado no da igreja de Gesú, apresenta em relação a esta várias diferenças como: a diminuição da largura do transepto que, na igreja de Lisboa, quase se confunde, em planta, com as capelas laterais; enquanto na arquitetura da Gesù há uma cúpula central que depende dos arcos gerados pela abóbada de berço, no padrão português a adoção das traves promove um espaço mais livre e a inexistência de abóbadas recortando o forro da nave central possibilita o uso de padrões decorativos cada vez mais sofisticados nos forros (como a pintura ilusionista); oito capelas laterais intercomunicantes; cabeceira retangular com capela-mor plana e pouco profunda; a substituição da abside[1] por uma capela-mor muito pequena e inclusão de uma teia com balaústres que delimita o avanço do santuário em relação ao corpo da igreja[2].


[1] Hemiciclo ou meia abóbada que termina as basílicas cristãs, debaixo do qual se contém o altar-mor;

[2] Oceanos. António Mega Ferreira (dir.), nº 12 (nov. 1992), Lisboa: C.N.C.D.P., pp.105-106; Maria João Madeira Rodrigues, A igreja de S. Roque, Lisboa: Santa Casa da Misericórdia, 1980.

Fachada e Planta da Igreja do Colégio de Jesus (Sé Nova, Coimbra, Portugal)

A construção do Colégio de Jesus, foi iniciada em 1547 por Afonso Álvares, mas em1560 a planta original foi modificada para se adaptar ao elevado número de religiosos que o iriam habitar. Construído depois da Igreja de São Roque, a igreja do Colégio de Jesus iniciou-se em 1598 e Baltazar Álvares, “arquiteto oficial” da Companhia de Jesus em Portugal, será o seu autor, apresentando uma evolução ao modelo lisboeta.

A fachada está inserida no modelo maneirista de Il Gesú e é composta por dois corpos sobrepostos separados por uma cornija, tendo na parte inferior cinco tramos divididos por pilastras toscanas. O frontispício de volumes robustos e estrutura de grande verticalidade é decorado com janelas simétricas e nichos com imagens de santos jesuítas. No final do século XVII foram acrescentadas duas torres recuadas em relação ao alçado principal, marcando a diferenciação em relação ao protótipo jesuíta de Roma.[1]

A planta segue o esquema em cruz latina, de abóbada tal como Il Gesú de Roma, apresentando um espaço interior de nave única, com transepto e capelas laterais intercomunicantes, e cruzeiro coberto por cúpula semiesférica com lanternim[2].


[1] Rui Pedro Lobo, Os Colégios de Jesus, das Artes e de São Jerónimo: Evolução e transformação no espaço urbano, Coimbra: [Ed. do A.], 1994 pp.30-31.

[2] Fresta para dar ar e luz.

In VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.

Segundo o modo nostro: o edifício do noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus, 1619 – 1759

Mátria Digital, Ano X, Número X (Dezembro 2022 – Novembro 2023).

«… explica-lhes como o Templo está feito: o seu
traçado, as entradas e saídas, a forma, a disposição de tudo e
os regulamentos. Escreve tudo para que possam ler e vejam
como tudo está delineado …»


Livro de Ezequiel 43, 11-12

O artigo sobre o modo nostro no edifício do noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus, instituição criada no espaço onde atualmente existe o Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MNHNC), tem como objetivo dar a conhecer a história e edificação deste espaço de educação e religião, no período entre 1619 e 1759.
Pelo estudo do espólio arquitetónico e artístico que chegou aos nossos dias e de fontes de informação com ele relacionado pretendeu-se demonstrar que combinando os fatores espirituais com os factores físicos, este espaço assumiu a sua forma exaltando-se o espírito do lugar de acordo com o modo nostro.
Assim, concebido para responder ao programa arquitetónico específico desta Ordem, o noviciado da Cotovia tornou-se uma
referência como primeiro noviciado da Companhia de Jesus na Província Portuguesa.

Palavras-chave: Companhia de Jesus – Noviciado – Arquitetura –História

VEIGA, Francisca Branco. “Segundo o modo nostro: o edifício do noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus, 1619 – 1759”. In Mátria Digital, Ano X, Número X (Dezembro 2022 – Novembro 2023).

Revista cientifica MÁTRIA DIGITAL, DO Centro de Investigação Professor Joaquim Veríssimo Serrão (CIJVS)

Ano X, Número X matriadigital.cm-santarem.pt/index.php/ensaio/111-ensaio-10

Ciclo iconográfico da vida de Santo Inácio de Loyola: Um programa cultual e de doutrinação (1609)

Em 1609, no ano de beatificação de Santo Inácio de Loiola, fundador da Companhia de Jesus, publicou-se em Roma a sua vida «figurada», baseada na biografia do Padre Pedro Ribadeneyra, Vita beati patris Ignatii Loyolae religionis Societatis Iesu fundatoris ad viuum expressa ex ea quam..

Composta de setenta e nove gravuras mais um frontispício, obras de Rubens e de Jean Baptiste Barbé. É considerada a primeira grande sistematização iconográfica da vida do santo fundador, após as Vitae em folhas avulsas de Thomas de Leu (Paris, 1590) e de Francisco Villamena (Roma, 1600) e depois da série de doze gravuras de Hieronymos Wiex (Antuérpia, cerca de 1609).

Esta obra foi muito importante para a arte jesuíta, pois veio a servir de modelo para outras representações feitas um pouco por todo o mundo católico.

O gosto dos jesuítas pela Gesamtkunstwerk ou obra de arte total, mostra que, associando-se a artistas nacionais e estrangeiros, estes “homens de Deus” conseguiram interpretar os princípios estéticos vigentes no mundo católico pós reforma católica.

Um programa cultual e de doutrinação teve como consequência a criação de uma arte religiosa muito própria desta Ordem nos diversos níveis artístico, como, a arquitetura, a pintura, a escultura ou a ourivesaria.

VEIGA, Francisca Branco – Noviciado da Cotovia: O passado dos Museus da Politécnica 1619-1759 [texto policopiado]. Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Património Cultural. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2009.

Convalescença e conversão de Inácio, no Solar de Loyola
Sacristia da Igreja de S. Roque, Lisboa
autor desconhecido
Cerca de 1619
Com legenda coeva, subdividida em três:

“A – ESTANDO IGNACIO GRAVEMENTE HERIDO EL APARECE PEDRO Y EL DA SALUD /
B- VENCIDAS LAS TENTACIONES SE OFERECE POR SOLDADO AL SENOR /
 C- ORANDO DE NOCHE SE EL APARECE NUESTRA SENORA Y DALE EL DON DE LA CASTIDAD”
Vita Beati P. Ignatii Loiolae Societatis Iesu Fundatoris, 1609,
Incisões da autoria de Peter Paul Rubens
As temáticas, Convalescença e conversão de Inácio, no Solar de Loyola,
são tratadas em duas imagens distintas

Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, Ciclo iconográfico da vida de Santo Inácio de Loyola: Um programa cultual e de doutrinação (1609) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [28 de Setembro de 2020].

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30 agosto 1832, D. MIGUEL RESTAURA A COMPANHIA DE JESUS EM PORTUGAL

D. MIGUEL DÁ O BENEPLÁCITO RÉGIO À CIRCULAÇÃO DA BULA DE PIO VII, DE 7 DE AGOSTO DE 1814, QUE RESTABELECIA OFICIALMENTE A COMPANHIA DE JESUS.

No dia 30 de agosto de 1832, passados três anos da entrada em Portugal destes missionários franceses, D. Miguel deu o beneplácito régio à circulação da bula de Pio VII, de 7 de agosto de 1814, que restabelecida oficialmente a Companhia de Jesus.

Este decreto termina deste modo:

“… Sou Servido Acordar o Meu Real Beneplácito, e Régio Auxilio á sobredita Bulla do Sancto Padre Pio VII., que principia – Soliciludo omnium Ecclesiarum – datada em Sancta Maria Maior aos 21 de Agosto do anno de 1814, XV. do seu Pontificado; e Mando que tenha cumprimento, e execução nos Meus Reinos, e Domínios, como nella se contém, sem embargo de qualquer Legislação em contrario, que Revogo para este effeito sòmente; e entendendo-se que por esta Minha Soberana Resolução se não restituem aos ditos Padres da Companhia de Jesus os Bens, Propriedades, Isenções, Privilégios, e Prerogafivas, que anteriormente lhes houvessem pertencido, nem se lhes dá direito algum para pedirem a sua restituição. As Authoridades, a quem competir, o tenhão assim entendido, e executem. Palacio de Cachias em 30 de Agosto de 1832.”

Retrato do Papa Pio VII e de D. Miguel
Retrato de El-Rei D. Miguel vestindo uniforme de gala; condecorações; manto de arminho e mesa com coroa e ceptro real
Fonte: Palácio do Correio Velho

7 agosto 1814, O PAPA PIO VII RESTAURA A COMPANHIA DE JESUS NO MUNDO

Em 1814 «O mundo católico exige com unanimidade o restabelecimento da Companhia de Jesus». Assim sustentava , por meio da Bula Pontifícia Sollicitudo omnium Ecclesiarum, lida no dia 7 de agosto de 1814 na Igreja de Gesù, em Roma.

Pio VII, livre do exílio em Fontainebleau que Napoleão lhe impôs, celebra a missa no altar de Santo Inácio, na presença de quase cem jesuítas, restaurando universalmente a Companhia de Jesus e entregando-a nas mãos do padre Panizzoni, de oitenta e seis anos, representante do Geral da Companhia . O papado reclamava a ajuda de «valentes remeiros que enfrentassem a ameaçadora tempestade».

Tendo nascido num período histórico europeu, o Renascimento (15 de agosto de 1534), ressuscita em 1814 num outro período histórico, revolucionário e industrial do século XIX, o do triunfo das luzes e da emergência da racionalidade científica.

Gravura de Luigi Cunego
retrata a restauração da Companhia de Jesus, em 1814.
Papal Bull frontispiece