A Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, em Oeiras: arquitetura rural e devoção marítima

A Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, em Oeiras, conserva na sua arquitetura a memória de um antigo espaço de devoção e de romaria. Construída a partir de 1670, sobre uma ermida quinhentista, foi sendo transformada ao longo de várias décadas, adquirindo no século XVIII uma rica decoração de azulejos barrocos e talha dourada. O seu amplo alpendre, a relação com os romeiros e a ligação histórica aos homens do mar testemunham a importância que este lugar assumiu na paisagem religiosa de Oeiras.

Palavras-chave:
Nossa Senhora de Porto Salvo; Porto Salvo; Oeiras; Caspolima; arquitetura religiosa; arquitetura rural; ermidas; devoção mariana; romaria; homens do mar; Irmandade de Nossa Senhora de Porto Salvo; azulejo barroco; talha dourada; século XVII; século XVIII; património religioso.

A Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, situada no antigo lugar de Caspolima, constitui um dos mais destacados edifícios religiosos do concelho de Oeiras. A sua história está ligada à devoção a Nossa Senhora de Porto Salvo, à tradição marítima e às romarias que, desde o século XVI, marcaram este lugar.

Porto Salvo (N.ª Sra. do Porto Salvo)

Concelho                                Oeiras

Área                                        7,10 km²

População                             c. 15 000 hab.

Densidade                              1 933,0 hab. /Km²

Orago                                     Nossa Senhora de Porto Salvo

A origem da ermida

A origem da ermida é tradicionalmente situada por volta de 1530. Segundo a tradição, a sua construção resultou de uma promessa feita por mareantes da carreira da Índia que, durante o regresso a Portugal, se encontraram em grande perigo. Terão prometido a Nossa Senhora que, se chegassem sãos e salvos, lhe dedicariam uma ermida no primeiro lugar alto que avistassem à chegada.

A súplica terá sido ouvida e a bonança manteve-se até à vista do estuário do Tejo. Cumprida a promessa, foi construída a ermida no outeiro de Caspolima.

O rei D. João III terá cedido aos mareantes o baldio identificado no reguengo de Oeiras para a construção da ermida, que desde então se tornou lugar de devoção e de romaria.

A festa de Nossa Senhora de Porto Salvo era celebrada a 25 e 26 de julho, dias de São Tiago e de Santa Ana, e prolongava-se por dois dias.

A localização da ermida, num ponto elevado e com uma posição privilegiada em relação à barra do Tejo, contribuiu para a associação do lugar à proteção dos homens do mar, estando igualmente na origem da designação de Porto Salvo.

A reconstrução da ermida no século XVII

A antiga ermida, considerada «pequenina», foi demolida em 1670, iniciando-se nesse mesmo ano a construção de um novo edifício.

Durante a demolição foram aproveitados alguns azulejos de «tapete», posteriormente reutilizados na nova construção, e possivelmente algumas peças soltas, entre as quais imagens e pinturas. Entre estas encontra-se o Pentecostes, pintado sobre tábua, atualmente na sacristia.

A reconstrução coincidiu com a organização dos devotos de Lisboa, essencialmente ligados ao meio marítimo. Em 1675 foi fundada a Irmandade de Nossa Senhora de Porto Salvo, com sede na Igreja da Vitória, em Lisboa. Esta organização esteve na origem de algumas confusões e atritos com a população de Caspolima.

Os estatutos da Irmandade foram aprovados em 1678 pelo arcebispo de Lisboa, D. Luís de Sousa. Encontravam-se manuscritos num livro de pergaminho intitulado Compromisso da Irmandade de N. S. do Porto Salvo do lugar de Caspolima & sita na Igreja de N. Soara da Vitória desta cidade de Lxª, Ano 1675, Ludovicus Nunes Tinoco fecit. O manuscrito, que abria com uma iluminura de Nossa Senhora, encontra-se atualmente em paradeiro desconhecido.

A ermida, organizada em confraria, contava com juiz, juíza, escrivão, tesoureiro e dois procuradores, um para as festas e outro para as obras, além de doze mordomos e dez mordomas.

Irmandade de Nossa Senhora do Porto Salvo

Uma construção realizada por etapas

A reconstrução começou pela capela-mor, em 1670. Em 1674 foi construído o alpendre, necessário ao acolhimento dos romeiros, pelo mestre de obras António João Valente Sucesso.

O corpo do edifício foi construído durante a década seguinte e encontrava-se a ser terminado em 1689. Nos anos seguintes foram realizados outros elementos, entre os quais as portas e o púlpito.

A capela-mor voltou a receber obras em 1683-1684, nomeadamente no altar-mor, onde foi construída uma tribuna. Em 1740 foi colocado um novo trono, realizado por Francisco Xavier, seguindo-se, em 1743, uma remodelação feita por Manuel da Costa Barbuda.

A porta lateral da nave foi concretizada em 1692 e a sacristia começou a ser construída em 1693. A pintura da abóbada da nave só foi realizada em 1712.

A sucessão de obras ao longo de várias décadas demonstra o caráter progressivo da construção da atual capela.

Uma arquitetura rural

Fotografia: @franciscabrancoveiga

A Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo apresenta características da arquitetura rural das pequenas capelas portuguesas.

A sua imagem exterior é marcada pela simplicidade da fachada branca, apenas interrompida pela sineira lateral. O elemento mais característico é o vasto alpendre quadrangular, cuja cobertura assenta em robustos cunhais de pedra e em duas colunas toscanas em cada face.

As colunas apoiam-se no murete que envolve o alpendre e delimitam os três acessos ao espaço. O alpendre tinha uma função importante no acolhimento dos romeiros que afluíam à ermida.

A porta da frontaria, ladeada por dois postigos, constitui outro elemento característico. Estes permitiam assistir aos serviços religiosos a partir do exterior. Em 1740, os postigos foram envolvidos por azulejos barrocos.

A empena da frontaria, de perfil arqueado e delimitada por dois fogaréus sobre os cunhais, bem como a janela central e a sineira do lado esquerdo, apresentam características atribuídas a intervenções da segunda metade do século XVIII.

Em 1918 foi colocado em frente desta porta o interessante cruzeiro de pedra, com um rudimentar Cristo esculpido, proveniente do Sítio dos Moinhos, na estrada de Porto Salvo para Oeiras, que recentemente foi deslocado para o adro da Ermida. Tem a data de 1759, gravada no pedestal, e apresenta no pé da cruz a legenda:


SNOR  JEZUS
REI DOS  REIS
SNOR  DA  BO
A  SENTENSA

Cruzeiro de pedra com um rudimentar Cristo esculpido.
Fotografia: @franciscabrancoveiga

ERMIDA DE NOSSA SENHORA De PORTO SALVO vista do Lado do terreiro, tendo contíguas as três casas de hospedaria, construídas a partir de 1679.
Fotografia: @franciscabrancoveiga

O enriquecimento do interior

Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, Oeiras (interior)
Fotografia: @franciscabrancoveiga

A simplicidade exterior da capela contrasta com a riqueza decorativa que foi adquirindo no interior.

O segundo grande momento da história do edifício ocorre durante o segundo quartel do século XVIII, quando o interior e o enquadramento da porta principal foram decorados segundo uma linguagem barroca e de Regência.

Os azulejos barrocos e a talha dourada constituem elementos fundamentais desta transformação, realizados por alguns dos melhores artistas da capital.

A decoração interior veio, assim, alterar profundamente a imagem do edifício construído no século XVII, sem eliminar, contudo, a sua matriz arquitetónica rural.

Passeio da Sagrada Família (José, Maria e o Menino)
Fotografia: @franciscabrancoveiga

A capela e a paisagem de Porto Salvo

Até ao século XIX, a ermida era saudada com salvas de 21 tiros pelos barcos que demandavam o Tejo, reforçando a relação entre o templo e a navegação.

As fotografias históricas permitem ainda observar a relação da capela com o espaço envolvente. Junto ao edifício encontravam-se a torre sineira, a casa mortuária e as casas destinadas aos romeiros. Existiam também três casas de hospedaria, construídas a partir de 1679.

Este conjunto ajuda a compreender a importância da ermida enquanto lugar de romaria.

A paisagem envolvente era profundamente marcada pela ruralidade, realidade que se foi alterando ao longo do século XX com a transformação urbana do território de Porto Salvo.

Entre o século XVII e o século XVIII

Fotografia: @franciscabrancoveiga

A história arquitetónica da Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo pode ser entendida a partir de dois grandes momentos.

O primeiro corresponde à construção do atual edifício, iniciada em 1670, depois da demolição da pequena ermida quinhentista. Foi uma construção realizada progressivamente, com intervenções que se prolongaram até às primeiras décadas do século XVIII.

O segundo corresponde ao enriquecimento decorativo realizado sobretudo durante o segundo quartel do século XVIII, quando os interiores receberam azulejos barrocos e talha dourada de estilo Regência e a entrada principal foi igualmente valorizada.

O terramoto de 1755 terá afetado pouco o edifício e as intervenções posteriores terão sido de menor significado. Pelo contrário, algumas remodelações realizadas em meados e finais do século XX alteraram determinados elementos da construção.

A atual Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo resulta, assim, da sobreposição destes diferentes momentos. A arquitetura rural do edifício seiscentista permanece visível sobretudo no alpendre e na simplicidade da construção, enquanto o interior testemunha o enriquecimento artístico alcançado durante o século XVIII.

Hoje, integrada numa realidade territorial muito diferente daquela que conheceu durante os séculos XVII e XVIII, a capela mantém ainda a memória do antigo lugar de Caspolima e da devoção a Nossa Senhora de Porto Salvo, ligada durante séculos aos romeiros e aos homens do mar.

Fotografia: @franciscabrancoveiga

Uma invocação que também deu nome a um forte

Forte da Giribita ou de Nossa Senhora de Porto Salvo, em Paço de Arcos.
Data: Postal manuscrito com data de 1919.
Serviço de Arquivo Municipal, Coleção Rogério Gonçalves, 02, n.º 000056.

Hoje: Vista lateral esquerda e fachada.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Forte_de_Nossa_Senhora_de_Porto_Salvo#/media/Ficheiro:F_n_s_porto_salvo_11.jpg

A importância da invocação de Nossa Senhora de Porto Salvo na paisagem de Oeiras encontra ainda expressão num outro monumento: o Forte de Nossa Senhora de Porto Salvo, também conhecido como Forte da Giribita ou Forte da Ponta do Guincho.

A relação entre os dois edifícios é particularmente interessante. Segundo o registo do Sistema de Informação para o Património Arquitetónico (SIPA), o forte era inicialmente designado Bateria do Guincho, tendo mais tarde adotado a denominação de Nossa Senhora de Porto Salvo devido à proximidade da povoação e à existência, naquele local, da ermida com esta invocação.

Em 1649, no contexto da Guerra da Restauração, o forte foi reconstruído por iniciativa de D. António Luís de Menezes, conde de Cantanhede, membro do Conselho de Estado e do Conselho de Guerra de D. João IV. A fortificação foi então dotada de quatro peças de artilharia. A data de 1649 encontra-se igualmente registada na inscrição existente sobre o Portão de Armas.

A proximidade entre a fortificação e a ermida permite perceber como a invocação de Nossa Senhora de Porto Salvo se encontrava já suficientemente associada ao território para ser utilizada na designação de uma estrutura militar destinada à defesa da barra do Tejo.

Importa, contudo, não confundir os dois monumentos. A capela é um espaço de culto e de peregrinação; o forte é uma estrutura militar integrada no sistema defensivo da barra do Tejo. A relação entre ambos reside na própria designação e na proximidade territorial, constituindo mais um testemunho da presença desta invocação na paisagem histórica de Oeiras.

O Forte de Nossa Senhora de Porto Salvo apresenta planta pentagonal irregular, adaptada ao terreno, e conserva o Portão de Armas com a inscrição de 1649, duas guaritas e seis canhoneiras voltadas para o lado do mar.

A existência deste forte acrescenta, assim, uma outra dimensão à história de Nossa Senhora de Porto Salvo: para além da devoção religiosa e da relação tradicional com os homens do mar, a mesma invocação ficou inscrita na própria paisagem militar da margem direita do Tejo.

Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco (2021), A Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, em Oeiras: arquitetura rural (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [15 de Setembro de 2026].

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