A Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, em Oeiras: arquitetura rural e devoção marítima

A Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, em Oeiras, conserva na sua arquitetura a memória de um antigo espaço de devoção e de romaria. Construída a partir de 1670, sobre uma ermida quinhentista, foi sendo transformada ao longo de várias décadas, adquirindo no século XVIII uma rica decoração de azulejos barrocos e talha dourada. O seu amplo alpendre, a relação com os romeiros e a ligação histórica aos homens do mar testemunham a importância que este lugar assumiu na paisagem religiosa de Oeiras.

Palavras-chave:
Nossa Senhora de Porto Salvo; Porto Salvo; Oeiras; Caspolima; arquitetura religiosa; arquitetura rural; ermidas; devoção mariana; romaria; homens do mar; Irmandade de Nossa Senhora de Porto Salvo; azulejo barroco; talha dourada; século XVII; século XVIII; património religioso.

A Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, situada no antigo lugar de Caspolima, constitui um dos mais destacados edifícios religiosos do concelho de Oeiras. A sua história está ligada à devoção a Nossa Senhora de Porto Salvo, à tradição marítima e às romarias que, desde o século XVI, marcaram este lugar.

Porto Salvo (N.ª Sra. do Porto Salvo)

Concelho                                Oeiras

Área                                        7,10 km²

População                             c. 15 000 hab.

Densidade                              1 933,0 hab. /Km²

Orago                                     Nossa Senhora de Porto Salvo

A origem da ermida

A origem da ermida é tradicionalmente situada por volta de 1530. Segundo a tradição, a sua construção resultou de uma promessa feita por mareantes da carreira da Índia que, durante o regresso a Portugal, se encontraram em grande perigo. Terão prometido a Nossa Senhora que, se chegassem sãos e salvos, lhe dedicariam uma ermida no primeiro lugar alto que avistassem à chegada.

A súplica terá sido ouvida e a bonança manteve-se até à vista do estuário do Tejo. Cumprida a promessa, foi construída a ermida no outeiro de Caspolima.

O rei D. João III terá cedido aos mareantes o baldio identificado no reguengo de Oeiras para a construção da ermida, que desde então se tornou lugar de devoção e de romaria.

A festa de Nossa Senhora de Porto Salvo era celebrada a 25 e 26 de julho, dias de São Tiago e de Santa Ana, e prolongava-se por dois dias.

A localização da ermida, num ponto elevado e com uma posição privilegiada em relação à barra do Tejo, contribuiu para a associação do lugar à proteção dos homens do mar, estando igualmente na origem da designação de Porto Salvo.

A reconstrução da ermida no século XVII

A antiga ermida, considerada «pequenina», foi demolida em 1670, iniciando-se nesse mesmo ano a construção de um novo edifício.

Durante a demolição foram aproveitados alguns azulejos de «tapete», posteriormente reutilizados na nova construção, e possivelmente algumas peças soltas, entre as quais imagens e pinturas. Entre estas encontra-se o Pentecostes, pintado sobre tábua, atualmente na sacristia.

A reconstrução coincidiu com a organização dos devotos de Lisboa, essencialmente ligados ao meio marítimo. Em 1675 foi fundada a Irmandade de Nossa Senhora de Porto Salvo, com sede na Igreja da Vitória, em Lisboa. Esta organização esteve na origem de algumas confusões e atritos com a população de Caspolima.

Os estatutos da Irmandade foram aprovados em 1678 pelo arcebispo de Lisboa, D. Luís de Sousa. Encontravam-se manuscritos num livro de pergaminho intitulado Compromisso da Irmandade de N. S. do Porto Salvo do lugar de Caspolima & sita na Igreja de N. Soara da Vitória desta cidade de Lxª, Ano 1675, Ludovicus Nunes Tinoco fecit. O manuscrito, que abria com uma iluminura de Nossa Senhora, encontra-se atualmente em paradeiro desconhecido.

A ermida, organizada em confraria, contava com juiz, juíza, escrivão, tesoureiro e dois procuradores, um para as festas e outro para as obras, além de doze mordomos e dez mordomas.

Irmandade de Nossa Senhora do Porto Salvo

Uma construção realizada por etapas

A reconstrução começou pela capela-mor, em 1670. Em 1674 foi construído o alpendre, necessário ao acolhimento dos romeiros, pelo mestre de obras António João Valente Sucesso.

O corpo do edifício foi construído durante a década seguinte e encontrava-se a ser terminado em 1689. Nos anos seguintes foram realizados outros elementos, entre os quais as portas e o púlpito.

A capela-mor voltou a receber obras em 1683-1684, nomeadamente no altar-mor, onde foi construída uma tribuna. Em 1740 foi colocado um novo trono, realizado por Francisco Xavier, seguindo-se, em 1743, uma remodelação feita por Manuel da Costa Barbuda.

A porta lateral da nave foi concretizada em 1692 e a sacristia começou a ser construída em 1693. A pintura da abóbada da nave só foi realizada em 1712.

A sucessão de obras ao longo de várias décadas demonstra o caráter progressivo da construção da atual capela.

Uma arquitetura rural

Fotografia: @franciscabrancoveiga

A Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo apresenta características da arquitetura rural das pequenas capelas portuguesas.

A sua imagem exterior é marcada pela simplicidade da fachada branca, apenas interrompida pela sineira lateral. O elemento mais característico é o vasto alpendre quadrangular, cuja cobertura assenta em robustos cunhais de pedra e em duas colunas toscanas em cada face.

As colunas apoiam-se no murete que envolve o alpendre e delimitam os três acessos ao espaço. O alpendre tinha uma função importante no acolhimento dos romeiros que afluíam à ermida.

A porta da frontaria, ladeada por dois postigos, constitui outro elemento característico. Estes permitiam assistir aos serviços religiosos a partir do exterior. Em 1740, os postigos foram envolvidos por azulejos barrocos.

A empena da frontaria, de perfil arqueado e delimitada por dois fogaréus sobre os cunhais, bem como a janela central e a sineira do lado esquerdo, apresentam características atribuídas a intervenções da segunda metade do século XVIII.

Em 1918 foi colocado em frente desta porta o interessante cruzeiro de pedra, com um rudimentar Cristo esculpido, proveniente do Sítio dos Moinhos, na estrada de Porto Salvo para Oeiras, que recentemente foi deslocado para o adro da Ermida. Tem a data de 1759, gravada no pedestal, e apresenta no pé da cruz a legenda:


SNOR  JEZUS
REI DOS  REIS
SNOR  DA  BO
A  SENTENSA

Cruzeiro de pedra com um rudimentar Cristo esculpido.
Fotografia: @franciscabrancoveiga

ERMIDA DE NOSSA SENHORA De PORTO SALVO vista do Lado do terreiro, tendo contíguas as três casas de hospedaria, construídas a partir de 1679.
Fotografia: @franciscabrancoveiga

O enriquecimento do interior

Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, Oeiras (interior)
Fotografia: @franciscabrancoveiga

A simplicidade exterior da capela contrasta com a riqueza decorativa que foi adquirindo no interior.

O segundo grande momento da história do edifício ocorre durante o segundo quartel do século XVIII, quando o interior e o enquadramento da porta principal foram decorados segundo uma linguagem barroca e de Regência.

Os azulejos barrocos e a talha dourada constituem elementos fundamentais desta transformação, realizados por alguns dos melhores artistas da capital.

A decoração interior veio, assim, alterar profundamente a imagem do edifício construído no século XVII, sem eliminar, contudo, a sua matriz arquitetónica rural.

Passeio da Sagrada Família (José, Maria e o Menino)
Fotografia: @franciscabrancoveiga

A capela e a paisagem de Porto Salvo

Até ao século XIX, a ermida era saudada com salvas de 21 tiros pelos barcos que demandavam o Tejo, reforçando a relação entre o templo e a navegação.

As fotografias históricas permitem ainda observar a relação da capela com o espaço envolvente. Junto ao edifício encontravam-se a torre sineira, a casa mortuária e as casas destinadas aos romeiros. Existiam também três casas de hospedaria, construídas a partir de 1679.

Este conjunto ajuda a compreender a importância da ermida enquanto lugar de romaria.

A paisagem envolvente era profundamente marcada pela ruralidade, realidade que se foi alterando ao longo do século XX com a transformação urbana do território de Porto Salvo.

Entre o século XVII e o século XVIII

Fotografia: @franciscabrancoveiga

A história arquitetónica da Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo pode ser entendida a partir de dois grandes momentos.

O primeiro corresponde à construção do atual edifício, iniciada em 1670, depois da demolição da pequena ermida quinhentista. Foi uma construção realizada progressivamente, com intervenções que se prolongaram até às primeiras décadas do século XVIII.

O segundo corresponde ao enriquecimento decorativo realizado sobretudo durante o segundo quartel do século XVIII, quando os interiores receberam azulejos barrocos e talha dourada de estilo Regência e a entrada principal foi igualmente valorizada.

O terramoto de 1755 terá afetado pouco o edifício e as intervenções posteriores terão sido de menor significado. Pelo contrário, algumas remodelações realizadas em meados e finais do século XX alteraram determinados elementos da construção.

A atual Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo resulta, assim, da sobreposição destes diferentes momentos. A arquitetura rural do edifício seiscentista permanece visível sobretudo no alpendre e na simplicidade da construção, enquanto o interior testemunha o enriquecimento artístico alcançado durante o século XVIII.

Hoje, integrada numa realidade territorial muito diferente daquela que conheceu durante os séculos XVII e XVIII, a capela mantém ainda a memória do antigo lugar de Caspolima e da devoção a Nossa Senhora de Porto Salvo, ligada durante séculos aos romeiros e aos homens do mar.

Fotografia: @franciscabrancoveiga

Uma invocação que também deu nome a um forte

Forte da Giribita ou de Nossa Senhora de Porto Salvo, em Paço de Arcos.
Data: Postal manuscrito com data de 1919.
Serviço de Arquivo Municipal, Coleção Rogério Gonçalves, 02, n.º 000056.

Hoje: Vista lateral esquerda e fachada.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Forte_de_Nossa_Senhora_de_Porto_Salvo#/media/Ficheiro:F_n_s_porto_salvo_11.jpg

A importância da invocação de Nossa Senhora de Porto Salvo na paisagem de Oeiras encontra ainda expressão num outro monumento: o Forte de Nossa Senhora de Porto Salvo, também conhecido como Forte da Giribita ou Forte da Ponta do Guincho.

A relação entre os dois edifícios é particularmente interessante. Segundo o registo do Sistema de Informação para o Património Arquitetónico (SIPA), o forte era inicialmente designado Bateria do Guincho, tendo mais tarde adotado a denominação de Nossa Senhora de Porto Salvo devido à proximidade da povoação e à existência, naquele local, da ermida com esta invocação.

Em 1649, no contexto da Guerra da Restauração, o forte foi reconstruído por iniciativa de D. António Luís de Menezes, conde de Cantanhede, membro do Conselho de Estado e do Conselho de Guerra de D. João IV. A fortificação foi então dotada de quatro peças de artilharia. A data de 1649 encontra-se igualmente registada na inscrição existente sobre o Portão de Armas.

A proximidade entre a fortificação e a ermida permite perceber como a invocação de Nossa Senhora de Porto Salvo se encontrava já suficientemente associada ao território para ser utilizada na designação de uma estrutura militar destinada à defesa da barra do Tejo.

Importa, contudo, não confundir os dois monumentos. A capela é um espaço de culto e de peregrinação; o forte é uma estrutura militar integrada no sistema defensivo da barra do Tejo. A relação entre ambos reside na própria designação e na proximidade territorial, constituindo mais um testemunho da presença desta invocação na paisagem histórica de Oeiras.

O Forte de Nossa Senhora de Porto Salvo apresenta planta pentagonal irregular, adaptada ao terreno, e conserva o Portão de Armas com a inscrição de 1649, duas guaritas e seis canhoneiras voltadas para o lado do mar.

A existência deste forte acrescenta, assim, uma outra dimensão à história de Nossa Senhora de Porto Salvo: para além da devoção religiosa e da relação tradicional com os homens do mar, a mesma invocação ficou inscrita na própria paisagem militar da margem direita do Tejo.

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco (2021), A Capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, em Oeiras: arquitetura rural (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [15 de Setembro de 2026].

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A Igreja de São João Evangelista, ou Igreja do Colégio, no Funchal

A Igreja de São João Evangelista, conhecida como Igreja do Colégio, é um dos mais importantes testemunhos da presença da Companhia de Jesus no Funchal. Integrada no antigo complexo jesuíta, a sua história atravessa vários séculos, desde a fundação do Colégio no século XVI até às sucessivas campanhas de construção, decoração e transformação do conjunto. A igreja atual, iniciada em 1629, conserva um notável património artístico, com talha dourada, pintura, azulejo, escultura, capelas e inscrições funerárias. A expulsão dos Jesuítas, em 1759, marcou uma profunda mudança no destino do complexo, que posteriormente conheceu diferentes utilizações. Hoje, a Igreja do Colégio permanece como um importante espaço de culto e, simultaneamente, como uma verdadeira fonte para o estudo da história religiosa, artística e social da Madeira.

Palavras-chave: Igreja do Colégio; Companhia de Jesus; Funchal; Jesuítas; património religioso; arte sacra; Madeira; história religiosa; arquitectura; devoção.

📸 @Pedro Veiga

No centro histórico do Funchal, junto à atual Praça do Município, ergue-se a Igreja de São João Evangelista, mais conhecida como Igreja do Colégio. Integrada no antigo complexo dos Jesuítas, constitui um dos mais importantes testemunhos da presença da Companhia de Jesus na Madeira e um dos conjuntos de maior riqueza artística da cidade.

A história do templo, porém, não começa com a sua construção no século XVII. A igreja que hoje vemos é o resultado de um processo muito mais longo, iniciado ainda no século XVI com a instalação dos Jesuítas no Funchal e prolongado por sucessivas campanhas de construção, decoração, transformação e conservação.

É precisamente essa sobreposição de tempos que torna o monumento particularmente interessante.

A fundação do Colégio e a chegada dos Jesuítas

A presença da Companhia de Jesus no Funchal remonta ao século XVI. Um alvará régio de 20 de setembro de 1566 esteve na origem da fundação do Colégio, num momento em que a Companhia desenvolvia uma intensa ação de evangelização e ensino nos territórios portugueses.

A instalação da comunidade não foi imediata. Durante os anos seguintes sucederam-se propostas para a escolha do local, plantas e alterações ao projeto. A documentação patrimonial regista a intervenção de Mateus Fernandes, mestre das obras reais, e o envio de plantas para aprovação.

Em 1574, os Jesuítas encontravam-se instalados nas casas de São Bartolomeu. Em 1578, fixaram-se no quarteirão onde viria a desenvolver-se o complexo colegial.

O projeto foi sendo sucessivamente reformulado. Em 1592 é registada uma nova planta de Mateus Fernandes, com alterações introduzidas pelo padre visitador Pedro da Fonseca. As obras da ala do Colégio sobre a Rua do Castanheiro começaram em 1599.

A igreja atual pertence a uma fase posterior. A sua construção teve início em 1629, já no século XVII, e foi dedicada a São João Evangelista.

A construção da igreja

A construção do templo prolongou-se ao longo do século XVII, acompanhada por sucessivas obras de acabamento e decoração.

A documentação patrimonial regista, entre outros acontecimentos, a chegada, em 1660, das colunas destinadas aos portais da igreja, provenientes das pedreiras de Câmara de Lobos. O dado é revelador da dimensão material da obra e da utilização de recursos provenientes da própria ilha.

A arquitetura do templo insere-se numa tradição maneirista, mas o seu programa decorativo foi sendo enriquecido numa época em que o barroco começava a afirmar-se com crescente intensidade.

É por isso que a Igreja do Colégio não deve ser entendida como um edifício exclusivamente maneirista ou barroco. A sua identidade resulta precisamente da coexistência dessas diferentes linguagens, construídas e acrescentadas ao longo do tempo.

A fachada

📸 @Pedro Veiga

A fachada constitui um dos elementos mais marcantes do conjunto.

De composição equilibrada e monumental, estabelece uma relação estreita com os edifícios do antigo Colégio e afirma a presença do templo no espaço urbano.

O programa escultórico merece particular atenção. Entre as figuras representadas encontram-se santos ligados à Companhia de Jesus, como Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier, São Francisco de Borja e Santo Estanislau Kostka.

📸 @Pedro Veiga

A documentação patrimonial acrescenta um dado particularmente interessante: em 1750 chegaram de Lisboa as imagens destinadas à fachada. O conjunto escultórico que hoje observamos deve, portanto, ser relacionado com uma campanha posterior à construção seiscentista da igreja.

A fachada tornou-se, assim, também uma declaração visual da identidade jesuíta. As figuras dos fundadores, missionários e santos da Companhia apresentavam ao espaço urbano os principais protagonistas da ordem que durante quase dois séculos marcou profundamente a vida religiosa e cultural do Funchal.

O interior

📸 @Pedro Veiga

No interior, a riqueza decorativa torna-se ainda mais evidente.

A nave, os altares e as capelas formam um conjunto em que se articulam talha dourada, pintura, azulejo, escultura e elementos de pedra. O resultado é uma composição visual característica da cultura religiosa da época moderna, na qual diferentes artes concorrem para a criação de um espaço de grande intensidade devocional.

Os retábulos de talha dourada do século XVII ocupam um lugar central neste conjunto. A eles juntam-se pinturas dos séculos XVII e XVIII, azulejos de padrão e figurativos e outros elementos decorativos que testemunham a continuidade das campanhas artísticas.

Arquitetura, imagem e devoção

📸 @Pedro Veiga

A riqueza do interior da Igreja de São João Evangelista não deve ser entendida apenas como uma acumulação de elementos decorativos. A arquitetura, a pintura, a talha, a escultura e a azulejaria articulam-se na construção de um espaço religioso destinado ao culto, à pregação e à devoção. Esta articulação insere-se na cultura visual e religiosa da época moderna, marcada pela renovação das práticas de culto e pela valorização da imagem no contexto posterior ao Concílio de Trento.

Nas igrejas da Companhia de Jesus, a organização do espaço estava estreitamente relacionada com a atividade pastoral. A pregação, a instrução religiosa e a celebração litúrgica exigiam espaços que favorecessem a atenção dos fiéis e a centralidade dos altares. A arquitetura não constituía, por isso, um simples enquadramento para o culto: contribuía para organizar a própria experiência religiosa.

Também a imagem assumia uma função que ultrapassava a dimensão ornamental. Pinturas, esculturas e retábulos tornavam visíveis personagens, episódios e temas fundamentais da doutrina cristã, permitindo associar a contemplação visual à devoção. No universo inaciano, esta valorização da imaginação e da representação encontra uma relação particularmente significativa com a espiritualidade dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, onde a chamada «composição de lugar» convida o exercitante a tornar presentes, através da imaginação, os acontecimentos da história sagrada.

Na Igreja do Colégio, esta relação entre espaço e imagem é particularmente evidente. Os retábulos, as capelas, as pinturas, os revestimentos azulejares e a talha dourada não funcionam como elementos isolados. A sua disposição contribui para estruturar visualmente a nave e para conferir especial destaque aos diferentes núcleos de culto.

Um dos exemplos mais expressivos encontra-se na própria cobertura da nave. Executada em madeira e decorada com pintura perspetivada, apresenta arquiteturas fingidas, elementos ornamentais e composições que criam uma ilusão de profundidade, prolongando visualmente os limites da arquitetura real. A quadratura permite transformar a superfície do teto num espaço pictórico que parece abrir-se para além da estrutura física do edifício.

Esta solução aproxima-se da cultura visual barroca que, sobretudo a partir do final do século XVII e início do século XVIII, explorou de forma cada vez mais sofisticada a perspetiva e a arquitetura ilusionista. No caso da Igreja do Colégio, estudos sobre a pintura de tetos na Madeira têm relacionado a composição perspetivada com modelos difundidos pela tratadística europeia, nomeadamente com a obra de Andrea Pozzo e com a linguagem da quadratura. A execução do teto é geralmente situada nas primeiras décadas do século XVIII.

O efeito produzido não depende, contudo, apenas da pintura. A talha dourada, a pintura mural, os azulejos e a escultura participam igualmente na construção de uma experiência visual integrada. A relativa simplicidade da estrutura maneirista é, assim, progressivamente enriquecida por uma linguagem ornamental barroca, sem que isso signifique que todo o conjunto tenha sido concebido numa única campanha. Pelo contrário, a própria cronologia da igreja revela a sucessão de diferentes momentos de construção, decoração e transformação.

É neste sentido que podemos falar de uma articulação das artes no espaço religioso. Não se trata de atribuir a cada elemento uma função isolada, mas de compreender como arquitetura, imagem e ornamentação podiam convergir para tornar o espaço mais expressivo, orientar o olhar e reforçar os lugares de culto.

No caso da Igreja do Colégio, esta leitura deve ainda ter em conta a intervenção de diferentes agentes — a própria Companhia de Jesus, os artistas e artífices envolvidos nas sucessivas campanhas e os fundadores e benfeitores das capelas. A decoração do templo não resultou, portanto, de uma única iniciativa nem corresponde exclusivamente a uma conceção centralizada da Companhia. Foi sendo construída ao longo de décadas, à medida que diferentes devoções, recursos, encomendas e linguagens artísticas foram deixando a sua marca no edifício.

É precisamente essa sobreposição que torna o interior da Igreja de São João Evangelista tão significativo: a unidade visual que hoje percecionamos é o resultado de uma história feita de diferentes campanhas, devoções e formas de apropriação do espaço sagrado.

As capelas

É nas capelas que a riqueza artística e a dimensão social do templo melhor se revelam. Cada espaço está associado a uma devoção, a uma imagem, a uma campanha decorativa e, em alguns casos, à memória de quem financiou a sua construção ou escolheu ali o lugar da sua sepultura.

Capela do Bom Jesus

📸 @Pedro Veiga

A Capela do Bom Jesus apresenta um retábulo de características maneiristas, centrado na representação da Paixão de Cristo. A composição inclui o Crucificado e os quatro Evangelistas.

Conserva ainda uma imagem do Senhor Morto, atribuída ao século XVII, e uma representação do Sagrado Coração. Os azulejos e as pinturas completam o programa decorativo, com representações relacionadas com os Mártires de Marrocos, Santo António e São Francisco de Assis.

Flanqueando a cena central, dispostas em nichos sobrepostos e enquadradas por colunas coríntias estriadas, encontram-se as esculturas de vulto que representam os quatro evangelistas (São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João), um programa iconográfico típico do espírito da Contra-Reforma jesuíta.

Capela de Nossa Senhora de Fátima

📸 @Pedro Veiga

A atual Capela de Nossa Senhora de Fátima foi anteriormente dedicada a Nossa Senhora da Luz.

A imagem original de Nossa Senhora da Luz encontra-se hoje no Museu de Arte Sacra do Funchal, enquanto a capela acolhe atualmente as imagens de Nossa Senhora de Fátima e de São José.

Os azulejos de padrão seiscentista, a pequena abóbada de berço e o retábulo de talha dourada, associado à transição do maneirismo para o barroco, conservam a memória das fases mais antigas do espaço, apesar da alteração da sua invocação.

Capela do Senhor da Misericórdia

📸 @Pedro Veiga

Anteriormente dedicada a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, esta capela apresenta um retábulo de características maneiristas e um sacrário integrado na estrutura.

Duas imagens de santos completam o conjunto. Uma delas tem sido identificada como possível representação de São Francisco Xavier, embora esta atribuição deva permanecer prudente.

Capela de Santo António

📸 @Pedro Veiga

A Capela de Santo António está ligada à família de António Spínola Teixeira, identificado na inscrição tumular como fundador. A mesma inscrição recorda D. Francisca Coelha de Sampaio, sua mulher e benfeitora, e Manuel Spínola, seu filho, apresentando a data de 1719.

A talha dourada e os painéis pintados a óleo sobre madeira conferem à capela uma decoração particularmente rica.

As inscrições funerárias acrescentam ao valor artístico do espaço uma dimensão documental: permitem recuperar nomes, relações familiares e formas de patrocínio que fizeram parte da vida social e religiosa do templo.

Inscrição funerária de 1719, existente na Capela de Santo António, associada à memória dos seus fundadores. A epígrafe menciona, entre outros elementos, o nome de [António/Pedro?] e de Francisca Coelha, devendo a leitura integral da inscrição ser confrontada com documentação ou transcrição epigráfica especializada.
📸 @Pedro Veiga

Capela de São Francisco Xavier

📸 @Pedro Veiga

A devoção a São Francisco Xavier ocupa um lugar natural num templo da Companhia de Jesus.

A capela está associada à fundação de Bento de Matos, cuja memória funerária permanece ligada ao espaço. O retábulo, tradicionalmente datado de 1648, é uma importante peça de talha dourada do século XVII. Organizado em três panos, apresenta no centro a imagem de São Francisco Xavier, entre colunas de inspiração coríntia.

Merece atenção uma pequena porta de acesso ao transepto, em madeira de carvalho, que a tradição local relaciona com uma estrutura anterior à igreja atual. A possibilidade de a peça provir de uma antiga capela existente no local em 1578 é interessante, embora não possa ser tomada como facto estabelecido sem documentação que o confirme.

Lápide tumular plana (laje sepulcral) integrada no pavimento da Capela de São Francisco Xavier. O epitáfio documenta a inumação de três indivíduos principais e respetiva descendência: o Licenciado Bento de Matos Coutinho, a sua consorte Dona Filipa de Vasconcelos e o seu irmão, Lourenço de Matos Coutinho.
A documentação arquivística do século XVII contextualiza estes indivíduos na dinâmica da elite mercantil e jurídica da Madeira:
Estatuto Jurídico e Social: O título de Licenciado atribuído a Bento de Matos Coutinho atesta uma formação universitária (geralmente em Cânones ou Leis pela Universidade de Coimbra), posicionando a família na burocracia institucional ou na magistratura local.
Redes de Comércio Ultramarino: Os irmãos Matos Coutinho inseriam-se nos circuitos comerciais do Atlântico e do Norte da Europa. Registos de inventários e testamentos da época demonstram a sua ligação à exportação de açúcar madeirense e à importação de manufaturas através de agentes em praças francesas (como Ruão) e redes de comércio associadas ao Brasil colonial.
📸 @Pedro Veiga

Capela de Santa Úrsula e das suas companheiras mártires

📸 @Pedro Veiga

A capela tradicionalmente conhecida como das Onze Mil Virgens é dedicada a Santa Úrsula e às suas companheiras mártires.

A própria Igreja do Colégio admite que a designação tradicional poderá resultar de uma alteração na transmissão escrita da expressão original. Por isso, a designação de Santa Úrsula e suas companheiras mártires é historicamente mais prudente.

O retábulo, tradicionalmente datado de cerca de 1654, apresenta características maneiristas. A grande pintura que originalmente ocupava o centro do conjunto encontra-se atualmente no Museu de Arte Sacra do Funchal.

A capela conserva ainda um importante conjunto de relíquias, acompanhado por imagens policromadas e outros elementos de aparato devocional. Aqui, pintura, escultura, talha e culto das relíquias conjugam-se num programa particularmente expressivo da religiosidade da época moderna.

Esta imagem retrata a placa comemorativa em azulejo e o painel heráldico integrados na parede da Capela das Onze Mil Virgens, localizada na nave da Igreja.
Leitura atualizada:
“Esta capela das Onze Mil Virgens fundou o Capitão Simão Nunes Machado e sua mulher Dona Joana Tello Peras e seus herdeiros. 1654.”
O painel documenta a instituição de uma capela privada por parte do Capitão Simão Nunes Machado (importante figura militar e proprietário local na Madeira do século XVII) e da sua esposa, D. Joana Tello Peras.
A fundação de capelas colaterais sob a invocação de devoções específicas (neste caso, as Onze Mil Virgens) funcionava como um contrato de mecenato com a Companhia de Jesus. Os benfeitores financiavam a ornamentação do espaço e as missas por sufrágio das suas almas em troca do direito de sepultura e da exibição das suas armas heráldicas no espaço sagrado.
📸 @Pedro Veiga

Capela de Nossa Senhora da Conceição

📸 @Pedro Veiga

A imagem de Nossa Senhora da Conceição é executada em madeira dourada e policromada e apresenta a Virgem sobre um crescente lunar, acompanhada por anjos.

A própria Igreja admite que a postura da imagem poderá aproximá-la iconograficamente de uma representação da Assunção, questão que merece ser considerada na leitura da peça.

O retábulo pertence ao século XVII. A capela conserva ainda uma pintura de São Marcos Evangelista e painéis de azulejo cuja disposição parece ter sido pensada em relação com um coro alto que nunca chegou a ser construído.

São Marcos Evangelista. Óleo sobre tela, de caráter conventual,
na Capela de Nossa Senhora da Conceição da Igreja de
São João Evangelista (Igreja do Colégio), Funchal.
📸 @Pedro Veiga

Capela de São Miguel Arcanjo

📸 @Pedro Veiga

A Capela de São Miguel Arcanjo oferece um dos exemplos mais claros de uma cronologia apoiada numa inscrição funerária.

Foi fundada pelo reverendo Miguel Pereira de Almeida, cuja lápide informa que morreu em 14 de dezembro de 1671 e que os seus ossos foram trasladados para a capela em 16 de junho de 1682.

Estes dados permitem situar a construção da capela entre essas duas datas.

A imagem de São Miguel Arcanjo, em madeira dourada e policromada, pertence ao século XVII. A decoração da capela evidencia já uma linguagem mais próxima do barroco, acompanhando a evolução artística que se verifica no conjunto.

Capela de Santa Quitéria

A Capela de Santa Quitéria conserva uma imagem da santa em madeira estofada, dourada e policromada, com características associadas ao século XVIII.

Entre as pinturas existentes destaca-se uma representação da Mulher Adúltera, tradicionalmente datada de meados do século XVII.

As restantes obras têm sido objeto de atribuições menos seguras, nomeadamente quanto à sua autoria e eventual relação com oficinas de tradição franciscana.

A sacristia

A sacristia constitui outro dos espaços de maior interesse do conjunto.

Os armários com embutidos de mármore, os revestimentos de azulejo figurativo, o grande arcaz de características barrocas e as pinturas de temática religiosa revelam o cuidado colocado na decoração dos espaços destinados à vida litúrgica interna.

Tal como acontecia noutras casas da Companhia de Jesus, a sacristia não era apenas um espaço funcional. Participava da conceção global do templo e da criação de um ambiente adequado à celebração e à representação do culto.

A expulsão dos Jesuítas

A história do Colégio sofreu uma rutura em 1759, quando a Companhia de Jesus foi expulsa dos domínios portugueses.

Os últimos Jesuítas deixaram a Madeira em 16 de julho de 1760.

A partir desse momento, o conjunto perdeu a função para a qual havia sido concebido e entrou numa nova fase da sua história.

Em 1787, parte das instalações foi cedida para o Seminário. Durante o período das guerras napoleónicas e da presença britânica na Madeira, o antigo Colégio conheceu também utilizações militares.

O século XIX trouxe novas intervenções e preocupações de conservação. Durante o governo civil de José Silvestre Ribeiro foram promovidas obras de recuperação que contribuíram para a preservação do conjunto.

A igreja regressou depois ao uso religioso, mantendo-se ligada à vida diocesana do Funchal.

Do antigo Colégio ao património atual

A história do conjunto não terminou com as intervenções oitocentistas.

Em 1980, o antigo complexo do Colégio passou do Exército para o Governo Regional da Madeira, numa operação que marcou uma nova etapa da sua história patrimonial.

Em 1988, o edifício recebeu a Universidade da Madeira. A adaptação de um antigo complexo jesuíta a uma instituição universitária constituiu mais uma transformação significativa na longa história do edifício.

A Universidade viria posteriormente a transferir as suas instalações para a Penteada, permanecendo durante algum tempo a Reitoria no antigo Colégio.

A sucessão destas utilizações mostra a extraordinária capacidade de adaptação do conjunto, que atravessou diferentes regimes políticos, funções e formas de apropriação sem perder a sua importância histórica.

A Igreja do Colégio hoje

Atualmente, a Igreja de São João Evangelista continua aberta ao culto e integra o quadro pastoral da Diocese do Funchal.

A ligação à Companhia de Jesus permanece igualmente presente na vida contemporânea do templo, que tem atualmente como reitor o padre jesuíta Carlos Ismael Faria Almada.

Esta realidade pastoral não deve, contudo, ser confundida com a questão da propriedade jurídica do imóvel. A definição dessa propriedade exigiria documentação patrimonial e jurídica específica.

Mais importante, para a compreensão histórica do monumento, é reconhecer a continuidade entre o espaço atual e a longa história que o antecedeu.

Um monumento feito de várias épocas

A Igreja de São João Evangelista reúne, num único espaço, diferentes momentos da história da Madeira.

A fundação do Colégio remonta ao século XVI. A igreja atual começou a ser construída em 1629. A decoração foi enriquecida ao longo do século XVII e entrou progressivamente no universo artístico barroco. A fachada recebeu as suas esculturas numa campanha setecentista. As capelas foram sendo transformadas e enriquecidas por fundadores e benfeitores. A expulsão dos Jesuítas alterou profundamente o destino do conjunto. Nos séculos seguintes, o antigo Colégio recebeu novas funções, foi ocupado, adaptado e restaurado.

Cada uma dessas fases deixou vestígios.

A arquitetura conserva a memória da construção.

A talha e os azulejos testemunham a evolução artística.

As imagens revelam as devoções.

As inscrições funerárias preservam nomes e relações familiares.

As pinturas recordam programas iconográficos que atravessaram gerações.

E as próprias transformações do edifício contam a história das sociedades que dele se apropriaram.

É por isso que a Igreja do Colégio deve ser entendida não apenas como um monumento artístico, mas como uma verdadeira fonte histórica.

Percorrer a sua nave e as suas capelas é atravessar vários séculos de história madeirense: a história da Companhia de Jesus, da Igreja, das elites locais, das práticas de devoção, da arte sacra e da própria cidade do Funchal.

Talvez seja essa a sua maior riqueza.

A Igreja do Colégio não conserva apenas o passado.

Conserva vários passados, sobrepostos no mesmo espaço.

Fontes

SIPA — Sistema de Informação para o Património Arquitetónico / Monumentos, registo do antigo Colégio de São João Evangelista, Funchal.

Rui Carita, O Colégio dos Jesuítas do Funchal – Memória Histórica, vol. I.

Rui Carita, O Colégio dos Jesuítas do Funchal – Descrição e Inventários, vol. II.

Igreja do Colégio – Funchal, informação institucional sobre a história, arquitetura, capelas e património artístico.

Diocese do Funchal, informação institucional sobre a Igreja do Colégio.

Visit Madeira – Turismo Oficial da Madeira, informação patrimonial sobre a Igreja do Colégio.

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Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

VEIGA, Francisca Branco, A Igreja de São João Evangelista, ou Igreja do Colégio, no Funchal (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [05 de Setembro de 2026].

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📸 Fotografias: Pedro Branco Veiga

Agradeço ao meu filho Pedro Branco Veiga o cuidado e a atenção na realização das fotografias que acompanham esta publicação e que permitiram documentar visualmente este percurso pela Igreja do Colégio, no Funchal.

A Assunção da Virgem no teto da nave do Santuário de Nossa Senhora da Rocha: pintura de Ernesto Condeixa (1857 – 1933)

Ernesto Condeixa, A Assunção da Virgem, composição pictórica do teto da nave do Santuário de Nossa Senhora da Rocha, em registo naturalista de formação académica, com a Virgem em glorificação celeste, rodeada por putti e coroada por simbologia cristológica.

@franciscabrancoveiga

No teto da nave, Ernesto Condeixa desenvolve uma composição de iconografia assuncionista de acento solene, estruturada por um eixo vertical muito marcado e por uma centralidade hierática da figura mariana. A Virgem é representada em ascensão, suspensa sobre nuvens, com túnica clara e amplo manto azul, solução que acentua a sua glorificação celeste e a sua distinção face ao mundo terreno.

Do ponto de vista iconológico, a imagem traduz a doutrina da Assunção como culminação da vida de Maria e afirmação da sua participação plena na glória divina. A postura recolhida, com as mãos unidas junto ao peito, remete para os valores de humildade, pureza e aceitação da vontade de Deus, enquanto a coroa floral reforça a leitura da Virgem como Regina Coeli, isto é, Rainha do Céu.

Em torno da figura central, o cortejo de putti e querubins funciona como mediação entre o plano humano e o plano celestial, intensificando o carácter sobrenatural da cena e conferindo-lhe dinamismo ascensional. A multiplicação destas figuras infantis, de forte valor ornamental e simbólico, reforça a dimensão de epifania gloriosa própria da pintura religiosa oitocentista.

No remate superior, a cruz atua como símbolo cristológico e como elemento de consagração do conjunto, remetendo para a Paixão, o sacrifício redentor e a Ressurreição de Cristo. Colocada acima da cena mariana, estabelece uma articulação teológica entre a glorificação de Maria e o mistério central da salvação, ao mesmo tempo que reforça a verticalidade e a orientação devocional da composição.

A moldura ornamental, de gosto revivalista e rigor simétrico, integra a pintura num programa decorativo pensado para a leitura a partir da nave. A clareza da composição, a idealização das formas e a hierarquia rigorosa dos elementos denunciam uma matriz académica, ao serviço de uma imagem litúrgica orientada para a contemplação e para a exaltação do mistério mariano.

O pintor Ernesto Condeixa (1857 – 1933)

Ernesto Condeixa foi um pintor português naturalista, nascido em Lisboa em 1857 e falecido em Lisboa em 1933. Formou-se na Academia de Belas-Artes de Lisboa, onde foi discípulo de Miguel Ângelo Lupi, e completou estudos em Paris, no atelier de Alexandre Cabanel, o que marcou a sua linguagem pictórica de matriz académica.

Distinguiu-se sobretudo na pintura histórica, com obras de grande aparato narrativo e solenidade, como D. João II perante o Cadáver do Filho e O Beija-Mão a D. Leonor Teles.

Foi também retratista e paisagista, e realizou decorações pictóricas em edifícios de prestígio, incluindo espaços do Museu Militar, do Palácio Real do Buçaco e do Palácio de Santana, nos Açores.

Em termos de carreira, foi uma figura relevante da pintura portuguesa de transição entre o naturalismo e um academismo tardio, com reconhecimento em exposições nacionais e internacionais.

Vindima
Coleção Particular
Vista de praia com pescador, 1896.
Coleção: Desconhecido

* Ser pintor português naturalista significa pertencer a uma corrente da pintura portuguesa do final do século XIX e inícios do século XX que procurou representar a realidade com observação directa, atenção ao visível e afastamento da idealização romântica.

Na prática, isso traduz-se em temas como paisagens, cenas rurais, costumes, trabalhos do quotidiano, retratos e, por vezes, motivos religiosos ou históricos tratados com um sentido de verosimilhança e de fidelidade ao real. Em Portugal, esta orientação consolidou-se sobretudo com artistas como Silva Porto e Marques de Oliveira, sendo depois prolongada por outros pintores da chamada escola naturalista.museusoaresdosreis.

Em termos de linguagem artística, o naturalismo privilegia a observação da natureza, a luz, a cor e a presença concreta das figuras e dos ambientes, frequentemente com influência da pintura ao ar livre e de modelos vindos de França. Portanto, chamar Ernesto Condeixa “pintor naturalista” é situá-lo dentro dessa cultura visual de fim de Oitocentos, embora a sua obra revele também uma forte matriz académica e historicista.

Lista de pinturas de Ernesto Condeixa em: wiki/Lista_de_pinturas_de_Ernesto_Condeixa

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VEIGA, Francisca Branco, A Assunção da Virgem no teto da nave do Santuário de Nossa Senhora da Rocha: pintura de Ernesto Condeixa (1857 – 1933) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [25 de junho de 2026].

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