
A Igreja de São João Evangelista, conhecida como Igreja do Colégio, é um dos mais importantes testemunhos da presença da Companhia de Jesus no Funchal. Integrada no antigo complexo jesuíta, a sua história atravessa vários séculos, desde a fundação do Colégio no século XVI até às sucessivas campanhas de construção, decoração e transformação do conjunto. A igreja atual, iniciada em 1629, conserva um notável património artístico, com talha dourada, pintura, azulejo, escultura, capelas e inscrições funerárias. A expulsão dos Jesuítas, em 1759, marcou uma profunda mudança no destino do complexo, que posteriormente conheceu diferentes utilizações. Hoje, a Igreja do Colégio permanece como um importante espaço de culto e, simultaneamente, como uma verdadeira fonte para o estudo da história religiosa, artística e social da Madeira.
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No centro histórico do Funchal, junto à atual Praça do Município, ergue-se a Igreja de São João Evangelista, mais conhecida como Igreja do Colégio. Integrada no antigo complexo dos Jesuítas, constitui um dos mais importantes testemunhos da presença da Companhia de Jesus na Madeira e um dos conjuntos de maior riqueza artística da cidade.
A história do templo, porém, não começa com a sua construção no século XVII. A igreja que hoje vemos é o resultado de um processo muito mais longo, iniciado ainda no século XVI com a instalação dos Jesuítas no Funchal e prolongado por sucessivas campanhas de construção, decoração, transformação e conservação.
É precisamente essa sobreposição de tempos que torna o monumento particularmente interessante.
A fundação do Colégio e a chegada dos Jesuítas

A presença da Companhia de Jesus no Funchal remonta ao século XVI. Um alvará régio de 20 de setembro de 1566 esteve na origem da fundação do Colégio, num momento em que a Companhia desenvolvia uma intensa ação de evangelização e ensino nos territórios portugueses.
A instalação da comunidade não foi imediata. Durante os anos seguintes sucederam-se propostas para a escolha do local, plantas e alterações ao projeto. A documentação patrimonial regista a intervenção de Mateus Fernandes, mestre das obras reais, e o envio de plantas para aprovação.
Em 1574, os Jesuítas encontravam-se instalados nas casas de São Bartolomeu. Em 1578, fixaram-se no quarteirão onde viria a desenvolver-se o complexo colegial.
O projeto foi sendo sucessivamente reformulado. Em 1592 é registada uma nova planta de Mateus Fernandes, com alterações introduzidas pelo padre visitador Pedro da Fonseca. As obras da ala do Colégio sobre a Rua do Castanheiro começaram em 1599.
A igreja atual pertence a uma fase posterior. A sua construção teve início em 1629, já no século XVII, e foi dedicada a São João Evangelista.
A construção da igreja
A construção do templo prolongou-se ao longo do século XVII, acompanhada por sucessivas obras de acabamento e decoração.
A documentação patrimonial regista, entre outros acontecimentos, a chegada, em 1660, das colunas destinadas aos portais da igreja, provenientes das pedreiras de Câmara de Lobos. O dado é revelador da dimensão material da obra e da utilização de recursos provenientes da própria ilha.
A arquitetura do templo insere-se numa tradição maneirista, mas o seu programa decorativo foi sendo enriquecido numa época em que o barroco começava a afirmar-se com crescente intensidade.
É por isso que a Igreja do Colégio não deve ser entendida como um edifício exclusivamente maneirista ou barroco. A sua identidade resulta precisamente da coexistência dessas diferentes linguagens, construídas e acrescentadas ao longo do tempo.
A fachada

A fachada constitui um dos elementos mais marcantes do conjunto.
De composição equilibrada e monumental, estabelece uma relação estreita com os edifícios do antigo Colégio e afirma a presença do templo no espaço urbano.
O programa escultórico merece particular atenção. Entre as figuras representadas encontram-se santos ligados à Companhia de Jesus, como Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier, São Francisco de Borja e Santo Estanislau Kostka.


A documentação patrimonial acrescenta um dado particularmente interessante: em 1750 chegaram de Lisboa as imagens destinadas à fachada. O conjunto escultórico que hoje observamos deve, portanto, ser relacionado com uma campanha posterior à construção seiscentista da igreja.
A fachada tornou-se, assim, também uma declaração visual da identidade jesuíta. As figuras dos fundadores, missionários e santos da Companhia apresentavam ao espaço urbano os principais protagonistas da ordem que durante quase dois séculos marcou profundamente a vida religiosa e cultural do Funchal.
O interior

No interior, a riqueza decorativa torna-se ainda mais evidente.
A nave, os altares e as capelas formam um conjunto em que se articulam talha dourada, pintura, azulejo, escultura e elementos de pedra. O resultado é uma composição visual característica da cultura religiosa da época moderna, na qual diferentes artes concorrem para a criação de um espaço de grande intensidade devocional.
Os retábulos de talha dourada do século XVII ocupam um lugar central neste conjunto. A eles juntam-se pinturas dos séculos XVII e XVIII, azulejos de padrão e figurativos e outros elementos decorativos que testemunham a continuidade das campanhas artísticas.
O interior permite acompanhar, de forma particularmente clara, a passagem do maneirismo para o barroco. A estrutura arquitetónica conserva a sobriedade e a organização características do primeiro, enquanto a talha, a pintura e parte da ornamentação introduzem progressivamente a maior exuberância do segundo.

As capelas
É nas capelas que a riqueza artística e a dimensão social do templo melhor se revelam. Cada espaço está associado a uma devoção, a uma imagem, a uma campanha decorativa e, em alguns casos, à memória de quem financiou a sua construção ou escolheu ali o lugar da sua sepultura.
Capela do Bom Jesus

A Capela do Bom Jesus apresenta um retábulo de características maneiristas, centrado na representação da Paixão de Cristo. A composição inclui o Crucificado e os quatro Evangelistas.
Conserva ainda uma imagem do Senhor Morto, atribuída ao século XVII, e uma representação do Sagrado Coração. Os azulejos e as pinturas completam o programa decorativo, com representações relacionadas com os Mártires de Marrocos, Santo António e São Francisco de Assis.
Flanqueando a cena central, dispostas em nichos sobrepostos e enquadradas por colunas coríntias estriadas, encontram-se as esculturas de vulto que representam os quatro evangelistas (São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João), um programa iconográfico típico do espírito da Contra-Reforma jesuíta.
Capela de Nossa Senhora de Fátima

A atual Capela de Nossa Senhora de Fátima foi anteriormente dedicada a Nossa Senhora da Luz.
A imagem original de Nossa Senhora da Luz encontra-se hoje no Museu de Arte Sacra do Funchal, enquanto a capela acolhe atualmente as imagens de Nossa Senhora de Fátima e de São José.
Os azulejos de padrão seiscentista, a pequena abóbada de berço e o retábulo de talha dourada, associado à transição do maneirismo para o barroco, conservam a memória das fases mais antigas do espaço, apesar da alteração da sua invocação.
Capela do Senhor da Misericórdia

Anteriormente dedicada a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, esta capela apresenta um retábulo de características maneiristas e um sacrário integrado na estrutura.
Duas imagens de santos completam o conjunto. Uma delas tem sido identificada como possível representação de São Francisco Xavier, embora esta atribuição deva permanecer prudente.
Capela de Santo António

A Capela de Santo António está ligada à família de António Spínola Teixeira, identificado na inscrição tumular como fundador. A mesma inscrição recorda D. Francisca Coelha de Sampaio, sua mulher e benfeitora, e Manuel Spínola, seu filho, apresentando a data de 1719.
A talha dourada e os painéis pintados a óleo sobre madeira conferem à capela uma decoração particularmente rica.
As inscrições funerárias acrescentam ao valor artístico do espaço uma dimensão documental: permitem recuperar nomes, relações familiares e formas de patrocínio que fizeram parte da vida social e religiosa do templo.

📸 @Pedro Veiga
Capela de São Francisco Xavier


A devoção a São Francisco Xavier ocupa um lugar natural num templo da Companhia de Jesus.
A capela está associada à fundação de Bento de Matos, cuja memória funerária permanece ligada ao espaço. O retábulo, tradicionalmente datado de 1648, é uma importante peça de talha dourada do século XVII. Organizado em três panos, apresenta no centro a imagem de São Francisco Xavier, entre colunas de inspiração coríntia.
Merece atenção uma pequena porta de acesso ao transepto, em madeira de carvalho, que a tradição local relaciona com uma estrutura anterior à igreja atual. A possibilidade de a peça provir de uma antiga capela existente no local em 1578 é interessante, embora não possa ser tomada como facto estabelecido sem documentação que o confirme.

A documentação arquivística do século XVII contextualiza estes indivíduos na dinâmica da elite mercantil e jurídica da Madeira:
Estatuto Jurídico e Social: O título de Licenciado atribuído a Bento de Matos Coutinho atesta uma formação universitária (geralmente em Cânones ou Leis pela Universidade de Coimbra), posicionando a família na burocracia institucional ou na magistratura local.
Redes de Comércio Ultramarino: Os irmãos Matos Coutinho inseriam-se nos circuitos comerciais do Atlântico e do Norte da Europa. Registos de inventários e testamentos da época demonstram a sua ligação à exportação de açúcar madeirense e à importação de manufaturas através de agentes em praças francesas (como Ruão) e redes de comércio associadas ao Brasil colonial.
📸 @Pedro Veiga
Capela de Santa Úrsula e das suas companheiras mártires

A capela tradicionalmente conhecida como das Onze Mil Virgens é dedicada a Santa Úrsula e às suas companheiras mártires.
A própria Igreja do Colégio admite que a designação tradicional poderá resultar de uma alteração na transmissão escrita da expressão original. Por isso, a designação de Santa Úrsula e suas companheiras mártires é historicamente mais prudente.
O retábulo, tradicionalmente datado de cerca de 1654, apresenta características maneiristas. A grande pintura que originalmente ocupava o centro do conjunto encontra-se atualmente no Museu de Arte Sacra do Funchal.
A capela conserva ainda um importante conjunto de relíquias, acompanhado por imagens policromadas e outros elementos de aparato devocional. Aqui, pintura, escultura, talha e culto das relíquias conjugam-se num programa particularmente expressivo da religiosidade da época moderna.

Leitura atualizada:
“Esta capela das Onze Mil Virgens fundou o Capitão Simão Nunes Machado e sua mulher Dona Joana Tello Peras e seus herdeiros. 1654.”
O painel documenta a instituição de uma capela privada por parte do Capitão Simão Nunes Machado (importante figura militar e proprietário local na Madeira do século XVII) e da sua esposa, D. Joana Tello Peras.
A fundação de capelas colaterais sob a invocação de devoções específicas (neste caso, as Onze Mil Virgens) funcionava como um contrato de mecenato com a Companhia de Jesus. Os benfeitores financiavam a ornamentação do espaço e as missas por sufrágio das suas almas em troca do direito de sepultura e da exibição das suas armas heráldicas no espaço sagrado.
📸 @Pedro Veiga
Capela de Nossa Senhora da Conceição

A imagem de Nossa Senhora da Conceição é executada em madeira dourada e policromada e apresenta a Virgem sobre um crescente lunar, acompanhada por anjos.
A própria Igreja admite que a postura da imagem poderá aproximá-la iconograficamente de uma representação da Assunção, questão que merece ser considerada na leitura da peça.
O retábulo pertence ao século XVII. A capela conserva ainda uma pintura de São Marcos Evangelista e painéis de azulejo cuja disposição parece ter sido pensada em relação com um coro alto que nunca chegou a ser construído.

na Capela de Nossa Senhora da Conceição da Igreja de
São João Evangelista (Igreja do Colégio), Funchal.
📸 @Pedro Veiga
Capela de São Miguel Arcanjo

A Capela de São Miguel Arcanjo oferece um dos exemplos mais claros de uma cronologia apoiada numa inscrição funerária.
Foi fundada pelo reverendo Miguel Pereira de Almeida, cuja lápide informa que morreu em 14 de dezembro de 1671 e que os seus ossos foram trasladados para a capela em 16 de junho de 1682.
Estes dados permitem situar a construção da capela entre essas duas datas.
A imagem de São Miguel Arcanjo, em madeira dourada e policromada, pertence ao século XVII. A decoração da capela evidencia já uma linguagem mais próxima do barroco, acompanhando a evolução artística que se verifica no conjunto.
Capela de Santa Quitéria
A Capela de Santa Quitéria conserva uma imagem da santa em madeira estofada, dourada e policromada, com características associadas ao século XVIII.
Entre as pinturas existentes destaca-se uma representação da Mulher Adúltera, tradicionalmente datada de meados do século XVII.
As restantes obras têm sido objeto de atribuições menos seguras, nomeadamente quanto à sua autoria e eventual relação com oficinas de tradição franciscana.
A sacristia
A sacristia constitui outro dos espaços de maior interesse do conjunto.
Os armários com embutidos de mármore, os revestimentos de azulejo figurativo, o grande arcaz de características barrocas e as pinturas de temática religiosa revelam o cuidado colocado na decoração dos espaços destinados à vida litúrgica interna.
Tal como acontecia noutras casas da Companhia de Jesus, a sacristia não era apenas um espaço funcional. Participava da conceção global do templo e da criação de um ambiente adequado à celebração e à representação do culto.
A expulsão dos Jesuítas
A história do Colégio sofreu uma rutura em 1759, quando a Companhia de Jesus foi expulsa dos domínios portugueses.
Os últimos Jesuítas deixaram a Madeira em 16 de julho de 1760.
A partir desse momento, o conjunto perdeu a função para a qual havia sido concebido e entrou numa nova fase da sua história.
Em 1787, parte das instalações foi cedida para o Seminário. Durante o período das guerras napoleónicas e da presença britânica na Madeira, o antigo Colégio conheceu também utilizações militares.
O século XIX trouxe novas intervenções e preocupações de conservação. Durante o governo civil de José Silvestre Ribeiro foram promovidas obras de recuperação que contribuíram para a preservação do conjunto.
A igreja regressou depois ao uso religioso, mantendo-se ligada à vida diocesana do Funchal.
Do antigo Colégio ao património atual
A história do conjunto não terminou com as intervenções oitocentistas.
Em 1980, o antigo complexo do Colégio passou do Exército para o Governo Regional da Madeira, numa operação que marcou uma nova etapa da sua história patrimonial.
Em 1988, o edifício recebeu a Universidade da Madeira. A adaptação de um antigo complexo jesuíta a uma instituição universitária constituiu mais uma transformação significativa na longa história do edifício.
A Universidade viria posteriormente a transferir as suas instalações para a Penteada, permanecendo durante algum tempo a Reitoria no antigo Colégio.
A sucessão destas utilizações mostra a extraordinária capacidade de adaptação do conjunto, que atravessou diferentes regimes políticos, funções e formas de apropriação sem perder a sua importância histórica.
A Igreja do Colégio hoje
Atualmente, a Igreja de São João Evangelista continua aberta ao culto e integra o quadro pastoral da Diocese do Funchal.
A ligação à Companhia de Jesus permanece igualmente presente na vida contemporânea do templo, que tem atualmente como reitor o padre jesuíta Carlos Ismael Faria Almada.
Esta realidade pastoral não deve, contudo, ser confundida com a questão da propriedade jurídica do imóvel. A definição dessa propriedade exigiria documentação patrimonial e jurídica específica.
Mais importante, para a compreensão histórica do monumento, é reconhecer a continuidade entre o espaço atual e a longa história que o antecedeu.
Um monumento feito de várias épocas
A Igreja de São João Evangelista reúne, num único espaço, diferentes momentos da história da Madeira.
A fundação do Colégio remonta ao século XVI. A igreja atual começou a ser construída em 1629. A decoração foi enriquecida ao longo do século XVII e entrou progressivamente no universo artístico barroco. A fachada recebeu as suas esculturas numa campanha setecentista. As capelas foram sendo transformadas e enriquecidas por fundadores e benfeitores. A expulsão dos Jesuítas alterou profundamente o destino do conjunto. Nos séculos seguintes, o antigo Colégio recebeu novas funções, foi ocupado, adaptado e restaurado.
Cada uma dessas fases deixou vestígios.
A arquitetura conserva a memória da construção.
A talha e os azulejos testemunham a evolução artística.
As imagens revelam as devoções.
As inscrições funerárias preservam nomes e relações familiares.
As pinturas recordam programas iconográficos que atravessaram gerações.
E as próprias transformações do edifício contam a história das sociedades que dele se apropriaram.
É por isso que a Igreja do Colégio deve ser entendida não apenas como um monumento artístico, mas como uma verdadeira fonte histórica.
Percorrer a sua nave e as suas capelas é atravessar vários séculos de história madeirense: a história da Companhia de Jesus, da Igreja, das elites locais, das práticas de devoção, da arte sacra e da própria cidade do Funchal.
Talvez seja essa a sua maior riqueza.
A Igreja do Colégio não conserva apenas o passado.
Conserva vários passados, sobrepostos no mesmo espaço.
Fontes
SIPA — Sistema de Informação para o Património Arquitetónico / Monumentos, registo do antigo Colégio de São João Evangelista, Funchal.
Rui Carita, O Colégio dos Jesuítas do Funchal – Memória Histórica, vol. I.
Rui Carita, O Colégio dos Jesuítas do Funchal – Descrição e Inventários, vol. II.
Igreja do Colégio – Funchal, informação institucional sobre a história, arquitetura, capelas e património artístico.
Diocese do Funchal, informação institucional sobre a Igreja do Colégio.
Visit Madeira – Turismo Oficial da Madeira, informação patrimonial sobre a Igreja do Colégio.
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Como referir este texto:
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VEIGA, Francisca Branco, A Igreja de São João Evangelista, ou Igreja do Colégio, no Funchal (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [05 de Setembro de 2026].
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📸 Fotografias: Pedro Branco Veiga
Agradeço ao meu filho Pedro Branco Veiga o cuidado e a atenção na realização das fotografias que acompanham esta publicação e que permitiram documentar visualmente este percurso pela Igreja do Colégio, no Funchal.