O aparecimento da imagem de Nossa Senhora da Rocha, em Carnaxide, em maio de 1822, deu origem a uma devoção que rapidamente ultrapassou a dimensão estritamente religiosa. A sua trasladação para a Sé Patriarcal de Lisboa, determinada por D. João VI, foi acompanhada por um complexo cerimonial público, no qual o Te Deum assumiu particular significado. Este artigo procura compreender a relação entre a devoção mariana, a intervenção da Coroa e a dimensão política e simbólica dos rituais religiosos no contexto conturbado de 1822.
Palavras-chave
Nossa Senhora da Rocha; Carnaxide; D. João VI; Te Deum; devoção mariana; religião e política; poder régio; ritual religioso; Sé Patriarcal de Lisboa; 1822; história religiosa; Portugal.
Te Deum é um hino litúrgico cristão de louvor e ação de graças, cujo nome em latim significa
«A Vós, ó Deus, louvamos» (Te Deum laudamus).
O que é o Te Deum
Te Deum num vitral na Capela do Santuário da Mãe Dolorosa (Bellevue, Ohio)
O Te Deum desempenhava um papel central de legitimação política e sacralização do poder real em Portugal, funcionando como o hino supremo de ação de graças para celebrar momentos fundamentais da história da monarquia.
Significado: A expressão vem das primeiras palavras do texto original em latim.
Origem: É um dos cânticos mais antigos da Igreja, tradicionalmente associado ao batismo de Santo Agostinho por Santo Ambrósio no século IV.
Estrutura: Possui um formato trinitário (Deus Pai, Filho e Espírito Santo) e foca-se na exaltação de Cristo e na história da salvação.
Quando é utilizado
Liturgia: Faz parte do Ofício de Leituras da Liturgia das Horas e de celebrações solenes.
Ação de Graças: É entoado em grandes festividades, datas comemorativas ou no encerramento do ano civil (31 de dezembro) para agradecer as bênçãos recebidas.
Cerimónia: Também designa o próprio ato litúrgico ou solenidade pública de agradecimento que acompanha o cântico.
Tradução Completa do Te Deum em Português
A Vós, ó Deus, louvamos, a Vós, Senhor, bendizemos. A Vós, Pai eterno, a Terra inteira venera. A Vós, todos os Anjos, os Céus e todas as Potestades; A Vós, os Querubins e os Serafins proclamam sem cessar: Santo, Santo, Santo é o Senhor, Deus do Universo! O Céu e a Terra estão cheios da vossa glória.
A Vós, o glorioso coro dos Apóstolos, A Vós, o louvável número dos Profetas, A Vós, o fulgurante exército dos Mártires glorifica. A Vós, a santa Igreja confessa por toda a Terra: Pai de imensa majestade; Ao vosso venerável, verdadeiro e único Filho; E também ao Espírito Santo, Paráclito.
Vós, ó Cristo, sois o Rei da glória. Vós sois o Filho eterno do Pai. Vós, para libertar o homem, não recusastes o seio da Virgem. Vós, vencido o aguilhão da morte, abristes aos crentes o Reino dos Céus. Vós estais sentado à direita de Deus, na glória do Pai. Acreditamos que haveis de vir como Juiz.
Pedimos-Vos, pois, que ajudeis os vossos servos, que remistes com o vosso precioso Sangue. Fazei que sejamos contados entre os vossos Santos, na glória eterna.
Salvai o vosso povo, Senhor, e abençoai a vossa herança. Sede o seu pastor e exaltai-o para sempre. Dia após dia Vos bendizemos E louvamos o vosso nome para sempre, e pelos séculos dos séculos.
Dignai-Vos, Senhor, no dia de hoje, guardar-nos do pecado. Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós. Que a vossa misericórdia, Senhor, venha sobre nós, como em Vós esperamos. Em Vós, Senhor, esperei, não serei confundido para sempre.
A História do Te Deum na Liturgia
O Te Deum ocupa um lugar único na tradição cristã ocidental. Embora a lenda popular atribua a sua autoria a Santo Ambrósio e Santo Agostinho — afirmando que o cantaram espontaneamente, em versos alternados, no momento do batismo de Agostinho em Milão (ano 387) —, os historiadores modernos apontam para o bispo São Nicetas de Remesiana (século V) como o autor mais provável do texto que conhecemos hoje.
1. Inserção no Ofício Divino (Liturgia das Horas)
A partir do século VI, o hino foi formalmente integrado na oração diária da Igreja. São Bento incluiu-o na sua Regra monástica (c. 530), estipulando que o Te Deum deveria ser cantado aos domingos e nos dias de festa no final das Vigílias (o atual Ofício de Leituras). Esta tradição mantém-se viva no Breviário Romano: o hino conclui o Ofício de Leituras em todos os domingos (exceto no Advento e na Quaresma) e em todas as Solenidades e Festas do calendário litúrgico.
2. O Hino dos Grandes Acontecimentos
Com o passar dos séculos, o Te Deum extravasou o ambiente estritamente monástico e transformou-se no hino oficial de ação de graças do mundo cristão. Passou a ser cantado fora das horas canónicas para celebrar momentos de profunda importância histórica, tais como:
A eleição de um novo Papa.
A consagração de bispos e a coroação de reis.
A assinatura de tratados de paz ou o fim de epidemias.
A procissão e oração da noite de 31 de dezembro, onde os fiéis agradecem a Deus os benefícios recebidos ao longo de todo o ano que termina.
3. Evolução Teológica e Musical
O texto divide-se em três partes litúrgicas muito claras: a primeira é um louvor ao Pai com o cântico dos anjos; a segunda foca-se na redenção operada por Cristo; a terceira é uma compilação de versículos do Livro dos Salmos, acrescentada mais tarde, que funciona como uma prece por misericórdia.
Musicalmente, além do canto gregoriano tradicional, a sua enorme importância na liturgia solene inspirou grandes compositores da história da música ocidental (como Charpentier, Purcell, Handel, Haydn, Berlioz e Bruckner) a criarem versões orquestrais monumentais, destinadas a ecoar nas catedrais em momentos de triunfo e gratidão.
D. João VI e o hino Te Deum como propaganda política e da encenação do poder absolutista.
O reinado de D. João VI (tanto como Príncipe Regente quanto como Rei, entre Portugal e o Brasil) elevou o hino Te Deum ao patamar mais alto da propaganda política e da encenação do poder absolutista.
Nesta época, a música sacra funcionava como a banda sonora oficial do Estado. O auge deste ritual deu-se na sumptuosa Aclamação de D. João VI em 1818, no Rio de Janeiro, onde, após receber o juramento de fidelidade, o monarca se dirigiu à Capela Real expressamente para ouvir o Te Deum, acompanhado por salvas de canhão e sinos. Para esta ocasião específica, o compositor oficial da corte, Marcos Portugal, escreveu o monumental Te Deum laudamus para a Aclamação de S.M.F. D. João VI. Outros compositores da corte, como o Padre José Maurício Nunes Garcia, também compuseram Te Deum dedicados às festividades joaninas.
«Te Deum laudamus» Marcos Portugal Subtítulo: Para a aclamação de S. M. F. D. João VI Período: Classicismo e música na corte Género: Clássico Formação: Escrito para voz, coro e orquestra completa. Proveniência: Biblioteca Nacional de Portugal
O aparecimento de Nossa Senhora da Rocha e o Te Deum na sua trasladação para a Sé Patriarcal de Lisboa
Esta história real ilustra perfeitamente o papel histórico do Te Deum como o hino supremo de ação de graças para celebrar grandes acontecimentos políticos e religiosos nacionais.
Eis o desenrolar dos factos de 1822, realçando o momento em que o hino coroa este acontecimento:
A Descoberta e a Reação do Poder (Maio a Julho de 1822)
O Achado Propício: A 28 de maio de 1822, sete rapazes descobrem uma pequena imagem de barro da Virgem numa gruta junto ao rio Jamor, em Carnaxide. Num clima de forte tensão política, a Coroa e o clero absolutista veem nisto um sinal divino contra a maçonaria e os liberais.
A Apropriação Régia: Percebendo o impacto político da devoção popular, o rei determina, por portaria de 27 de julho, a transferência solene da imagem para a Sé Patriarcal de Lisboa.
A Rota de Triunfo e o Cume Litúrgico (Agosto de 1822)
A Viagem Fluvial: A imagem é retirada com escolta militar pesada e levada até à Cruz Quebrada, de onde viaja de barco pelo rio Tejo até ao Terreiro do Paço, chegando sob enorme aparato às nove da manhã de 5 de agosto.
O Clímax na Sé: Conduzida num relicário até ao altar-mor da Sé de Lisboa pelo clero solenemente vestido com pluviais e dalmáticas, o momento político e religioso atinge o seu ápice: entoa-se o Te Deum.
O Papel do Te Deum neste Acontecimento
Selo de Legitimação Divina: O canto do Te Deum servia para declarar publicamente que o acontecimento político (como a subida ao trono ou a salvação do reino) contava com a aprovação e o patrocínio de Deus.
Ação de Graças do Reino: Não era apenas uma prece individual, mas sim o agradecimento coletivo de toda a nação. A Sé de Lisboa transformava-se no palco onde o clero, a nobreza e o povo se uniam numa só voz para consolidar a identidade e a estabilidade do reino.
Espetáculo de Poder: A imponência do ritual, marcado por vestes solenes (pluviais e dalmáticas), incenso e música solene, pretendia impressionar os presentes e os observadores estrangeiros, demonstrando a força e a unidade do poder temporal e espiritual em Portugal.
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VEIGA, Francisca Branco, Nossa Senhora da Rocha e o «Te Deum»: devoção, poder régio e ritual na Lisboa de 1822 (blogue da autora (Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [01 de Outubro de 2026].
A Igreja de São João Evangelista, conhecida como Igreja do Colégio, é um dos mais importantes testemunhos da presença da Companhia de Jesus no Funchal. Integrada no antigo complexo jesuíta, a sua história atravessa vários séculos, desde a fundação do Colégio no século XVI até às sucessivas campanhas de construção, decoração e transformação do conjunto. A igreja atual, iniciada em 1629, conserva um notável património artístico, com talha dourada, pintura, azulejo, escultura, capelas e inscrições funerárias. A expulsão dos Jesuítas, em 1759, marcou uma profunda mudança no destino do complexo, que posteriormente conheceu diferentes utilizações. Hoje, a Igreja do Colégio permanece como um importante espaço de culto e, simultaneamente, como uma verdadeira fonte para o estudo da história religiosa, artística e social da Madeira.
Palavras-chave: Igreja do Colégio; Companhia de Jesus; Funchal; Jesuítas; património religioso; arte sacra; Madeira; história religiosa; arquitectura; devoção.
📸 @Pedro Veiga
No centro histórico do Funchal, junto à atual Praça do Município, ergue-se a Igreja de São João Evangelista, mais conhecida como Igreja do Colégio. Integrada no antigo complexo dos Jesuítas, constitui um dos mais importantes testemunhos da presença da Companhia de Jesus na Madeira e um dos conjuntos de maior riqueza artística da cidade.
A história do templo, porém, não começa com a sua construção no século XVII. A igreja que hoje vemos é o resultado de um processo muito mais longo, iniciado ainda no século XVI com a instalação dos Jesuítas no Funchal e prolongado por sucessivas campanhas de construção, decoração, transformação e conservação.
É precisamente essa sobreposição de tempos que torna o monumento particularmente interessante.
A fundação do Colégio e a chegada dos Jesuítas
A presença da Companhia de Jesus no Funchal remonta ao século XVI. Um alvará régio de 20 de setembro de 1566 esteve na origem da fundação do Colégio, num momento em que a Companhia desenvolvia uma intensa ação de evangelização e ensino nos territórios portugueses.
A instalação da comunidade não foi imediata. Durante os anos seguintes sucederam-se propostas para a escolha do local, plantas e alterações ao projeto. A documentação patrimonial regista a intervenção de Mateus Fernandes, mestre das obras reais, e o envio de plantas para aprovação.
Em 1574, os Jesuítas encontravam-se instalados nas casas de São Bartolomeu. Em 1578, fixaram-se no quarteirão onde viria a desenvolver-se o complexo colegial.
O projeto foi sendo sucessivamente reformulado. Em 1592 é registada uma nova planta de Mateus Fernandes, com alterações introduzidas pelo padre visitador Pedro da Fonseca. As obras da ala do Colégio sobre a Rua do Castanheiro começaram em 1599.
A igreja atual pertence a uma fase posterior. A sua construção teve início em 1629, já no século XVII, e foi dedicada a São João Evangelista.
A construção da igreja
A construção do templo prolongou-se ao longo do século XVII, acompanhada por sucessivas obras de acabamento e decoração.
A documentação patrimonial regista, entre outros acontecimentos, a chegada, em 1660, das colunas destinadas aos portais da igreja, provenientes das pedreiras de Câmara de Lobos. O dado é revelador da dimensão material da obra e da utilização de recursos provenientes da própria ilha.
A arquitetura do templo insere-se numa tradição maneirista, mas o seu programa decorativo foi sendo enriquecido numa época em que o barroco começava a afirmar-se com crescente intensidade.
É por isso que a Igreja do Colégio não deve ser entendida como um edifício exclusivamente maneirista ou barroco. A sua identidade resulta precisamente da coexistência dessas diferentes linguagens, construídas e acrescentadas ao longo do tempo.
A fachada
📸 @Pedro Veiga
A fachada constitui um dos elementos mais marcantes do conjunto.
De composição equilibrada e monumental, estabelece uma relação estreita com os edifícios do antigo Colégio e afirma a presença do templo no espaço urbano.
O programa escultórico merece particular atenção. Entre as figuras representadas encontram-se santos ligados à Companhia de Jesus, como Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier, São Francisco de Borja e Santo Estanislau Kostka.
📸 @Pedro Veiga
A documentação patrimonial acrescenta um dado particularmente interessante: em 1750 chegaram de Lisboa as imagens destinadas à fachada. O conjunto escultórico que hoje observamos deve, portanto, ser relacionado com uma campanha posterior à construção seiscentista da igreja.
A fachada tornou-se, assim, também uma declaração visual da identidade jesuíta. As figuras dos fundadores, missionários e santos da Companhia apresentavam ao espaço urbano os principais protagonistas da ordem que durante quase dois séculos marcou profundamente a vida religiosa e cultural do Funchal.
O interior
📸 @Pedro Veiga
No interior, a riqueza decorativa torna-se ainda mais evidente.
A nave, os altares e as capelas formam um conjunto em que se articulam talha dourada, pintura, azulejo, escultura e elementos de pedra. O resultado é uma composição visual característica da cultura religiosa da época moderna, na qual diferentes artes concorrem para a criação de um espaço de grande intensidade devocional.
Os retábulos de talha dourada do século XVII ocupam um lugar central neste conjunto. A eles juntam-se pinturas dos séculos XVII e XVIII, azulejos de padrão e figurativos e outros elementos decorativos que testemunham a continuidade das campanhas artísticas.
Arquitetura, imagem e devoção
📸 @Pedro Veiga
A riqueza do interior da Igreja de São João Evangelista não deve ser entendida apenas como uma acumulação de elementos decorativos. A arquitetura, a pintura, a talha, a escultura e a azulejaria articulam-se na construção de um espaço religioso destinado ao culto, à pregação e à devoção. Esta articulação insere-se na cultura visual e religiosa da época moderna, marcada pela renovação das práticas de culto e pela valorização da imagem no contexto posterior ao Concílio de Trento.
Nas igrejas da Companhia de Jesus, a organização do espaço estava estreitamente relacionada com a atividade pastoral. A pregação, a instrução religiosa e a celebração litúrgica exigiam espaços que favorecessem a atenção dos fiéis e a centralidade dos altares. A arquitetura não constituía, por isso, um simples enquadramento para o culto: contribuía para organizar a própria experiência religiosa.
Também a imagem assumia uma função que ultrapassava a dimensão ornamental. Pinturas, esculturas e retábulos tornavam visíveis personagens, episódios e temas fundamentais da doutrina cristã, permitindo associar a contemplação visual à devoção. No universo inaciano, esta valorização da imaginação e da representação encontra uma relação particularmente significativa com a espiritualidade dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, onde a chamada «composição de lugar» convida o exercitante a tornar presentes, através da imaginação, os acontecimentos da história sagrada.
Na Igreja do Colégio, esta relação entre espaço e imagem é particularmente evidente. Os retábulos, as capelas, as pinturas, os revestimentos azulejares e a talha dourada não funcionam como elementos isolados. A sua disposição contribui para estruturar visualmente a nave e para conferir especial destaque aos diferentes núcleos de culto.
Um dos exemplos mais expressivos encontra-se na própria cobertura da nave. Executada em madeira e decorada com pintura perspetivada, apresenta arquiteturas fingidas, elementos ornamentais e composições que criam uma ilusão de profundidade, prolongando visualmente os limites da arquitetura real. A quadratura permite transformar a superfície do teto num espaço pictórico que parece abrir-se para além da estrutura física do edifício.
Esta solução aproxima-se da cultura visual barroca que, sobretudo a partir do final do século XVII e início do século XVIII, explorou de forma cada vez mais sofisticada a perspetiva e a arquitetura ilusionista. No caso da Igreja do Colégio, estudos sobre a pintura de tetos na Madeira têm relacionado a composição perspetivada com modelos difundidos pela tratadística europeia, nomeadamente com a obra de Andrea Pozzo e com a linguagem da quadratura. A execução do teto é geralmente situada nas primeiras décadas do século XVIII.
O efeito produzido não depende, contudo, apenas da pintura. A talha dourada, a pintura mural, os azulejos e a escultura participam igualmente na construção de uma experiência visual integrada. A relativa simplicidade da estrutura maneirista é, assim, progressivamente enriquecida por uma linguagem ornamental barroca, sem que isso signifique que todo o conjunto tenha sido concebido numa única campanha. Pelo contrário, a própria cronologia da igreja revela a sucessão de diferentes momentos de construção, decoração e transformação.
É neste sentido que podemos falar de uma articulação das artes no espaço religioso. Não se trata de atribuir a cada elemento uma função isolada, mas de compreender como arquitetura, imagem e ornamentação podiam convergir para tornar o espaço mais expressivo, orientar o olhar e reforçar os lugares de culto.
No caso da Igreja do Colégio, esta leitura deve ainda ter em conta a intervenção de diferentes agentes — a própria Companhia de Jesus, os artistas e artífices envolvidos nas sucessivas campanhas e os fundadores e benfeitores das capelas. A decoração do templo não resultou, portanto, de uma única iniciativa nem corresponde exclusivamente a uma conceção centralizada da Companhia. Foi sendo construída ao longo de décadas, à medida que diferentes devoções, recursos, encomendas e linguagens artísticas foram deixando a sua marca no edifício.
É precisamente essa sobreposição que torna o interior da Igreja de São João Evangelista tão significativo: a unidade visual que hoje percecionamos é o resultado de uma história feita de diferentes campanhas, devoções e formas de apropriação do espaço sagrado.
As capelas
É nas capelas que a riqueza artística e a dimensão social do templo melhor se revelam. Cada espaço está associado a uma devoção, a uma imagem, a uma campanha decorativa e, em alguns casos, à memória de quem financiou a sua construção ou escolheu ali o lugar da sua sepultura.
Capela do Bom Jesus
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A Capela do Bom Jesus apresenta um retábulo de características maneiristas, centrado na representação da Paixão de Cristo. A composição inclui o Crucificado e os quatro Evangelistas.
Conserva ainda uma imagem do Senhor Morto, atribuída ao século XVII, e uma representação do Sagrado Coração. Os azulejos e as pinturas completam o programa decorativo, com representações relacionadas com os Mártires de Marrocos, Santo António e São Francisco de Assis.
Flanqueando a cena central, dispostas em nichos sobrepostos e enquadradas por colunas coríntias estriadas, encontram-se as esculturas de vulto que representam os quatro evangelistas (São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João), um programa iconográfico típico do espírito da Contra-Reforma jesuíta.
Capela de Nossa Senhora de Fátima
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A atual Capela de Nossa Senhora de Fátima foi anteriormente dedicada a Nossa Senhora da Luz.
A imagem original de Nossa Senhora da Luz encontra-se hoje no Museu de Arte Sacra do Funchal, enquanto a capela acolhe atualmente as imagens de Nossa Senhora de Fátima e de São José.
Os azulejos de padrão seiscentista, a pequena abóbada de berço e o retábulo de talha dourada, associado à transição do maneirismo para o barroco, conservam a memória das fases mais antigas do espaço, apesar da alteração da sua invocação.
Capela do Senhor da Misericórdia
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Anteriormente dedicada a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, esta capela apresenta um retábulo de características maneiristas e um sacrário integrado na estrutura.
Duas imagens de santos completam o conjunto. Uma delas tem sido identificada como possível representação de São Francisco Xavier, embora esta atribuição deva permanecer prudente.
Capela de Santo António
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A Capela de Santo António está ligada à família de António Spínola Teixeira, identificado na inscrição tumular como fundador. A mesma inscrição recorda D. Francisca Coelha de Sampaio, sua mulher e benfeitora, e Manuel Spínola, seu filho, apresentando a data de 1719.
A talha dourada e os painéis pintados a óleo sobre madeira conferem à capela uma decoração particularmente rica.
As inscrições funerárias acrescentam ao valor artístico do espaço uma dimensão documental: permitem recuperar nomes, relações familiares e formas de patrocínio que fizeram parte da vida social e religiosa do templo.
Inscrição funerária de 1719, existente na Capela de Santo António, associada à memória dos seus fundadores. A epígrafe menciona, entre outros elementos, o nome de [António/Pedro?] e de Francisca Coelha, devendo a leitura integral da inscrição ser confrontada com documentação ou transcrição epigráfica especializada. 📸 @Pedro Veiga
Capela de São Francisco Xavier
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A devoção a São Francisco Xavier ocupa um lugar natural num templo da Companhia de Jesus.
A capela está associada à fundação de Bento de Matos, cuja memória funerária permanece ligada ao espaço. O retábulo, tradicionalmente datado de 1648, é uma importante peça de talha dourada do século XVII. Organizado em três panos, apresenta no centro a imagem de São Francisco Xavier, entre colunas de inspiração coríntia.
Merece atenção uma pequena porta de acesso ao transepto, em madeira de carvalho, que a tradição local relaciona com uma estrutura anterior à igreja atual. A possibilidade de a peça provir de uma antiga capela existente no local em 1578 é interessante, embora não possa ser tomada como facto estabelecido sem documentação que o confirme.
Lápide tumular plana (laje sepulcral) integrada no pavimento da Capela de São Francisco Xavier. O epitáfio documenta a inumação de três indivíduos principais e respetiva descendência: o Licenciado Bento de Matos Coutinho, a sua consorte Dona Filipa de Vasconcelos e o seu irmão, Lourenço de Matos Coutinho. A documentação arquivística do século XVII contextualiza estes indivíduos na dinâmica da elite mercantil e jurídica da Madeira: Estatuto Jurídico e Social: O título de Licenciado atribuído a Bento de Matos Coutinho atesta uma formação universitária (geralmente em Cânones ou Leis pela Universidade de Coimbra), posicionando a família na burocracia institucional ou na magistratura local. Redes de Comércio Ultramarino: Os irmãos Matos Coutinho inseriam-se nos circuitos comerciais do Atlântico e do Norte da Europa. Registos de inventários e testamentos da época demonstram a sua ligação à exportação de açúcar madeirense e à importação de manufaturas através de agentes em praças francesas (como Ruão) e redes de comércio associadas ao Brasil colonial. 📸 @Pedro Veiga
Capela de Santa Úrsula e das suas companheiras mártires
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A capela tradicionalmente conhecida como das Onze Mil Virgens é dedicada a Santa Úrsula e às suas companheiras mártires.
A própria Igreja do Colégio admite que a designação tradicional poderá resultar de uma alteração na transmissão escrita da expressão original. Por isso, a designação de Santa Úrsula e suas companheiras mártires é historicamente mais prudente.
O retábulo, tradicionalmente datado de cerca de 1654, apresenta características maneiristas. A grande pintura que originalmente ocupava o centro do conjunto encontra-se atualmente no Museu de Arte Sacra do Funchal.
A capela conserva ainda um importante conjunto de relíquias, acompanhado por imagens policromadas e outros elementos de aparato devocional. Aqui, pintura, escultura, talha e culto das relíquias conjugam-se num programa particularmente expressivo da religiosidade da época moderna.
Esta imagem retrata a placa comemorativa em azulejo e o painel heráldico integrados na parede da Capela das Onze Mil Virgens, localizada na nave da Igreja. Leitura atualizada: “Esta capela das Onze Mil Virgens fundou o Capitão Simão Nunes Machado e sua mulher Dona Joana Tello Peras e seus herdeiros. 1654.” O painel documenta a instituição de uma capela privada por parte do Capitão Simão Nunes Machado (importante figura militar e proprietário local na Madeira do século XVII) e da sua esposa, D. Joana Tello Peras. A fundação de capelas colaterais sob a invocação de devoções específicas (neste caso, as Onze Mil Virgens) funcionava como um contrato de mecenato com a Companhia de Jesus. Os benfeitores financiavam a ornamentação do espaço e as missas por sufrágio das suas almas em troca do direito de sepultura e da exibição das suas armas heráldicas no espaço sagrado. 📸 @Pedro Veiga
Capela de Nossa Senhora da Conceição
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A imagem de Nossa Senhora da Conceição é executada em madeira dourada e policromada e apresenta a Virgem sobre um crescente lunar, acompanhada por anjos.
A própria Igreja admite que a postura da imagem poderá aproximá-la iconograficamente de uma representação da Assunção, questão que merece ser considerada na leitura da peça.
O retábulo pertence ao século XVII. A capela conserva ainda uma pintura de São Marcos Evangelista e painéis de azulejo cuja disposição parece ter sido pensada em relação com um coro alto que nunca chegou a ser construído.
São Marcos Evangelista. Óleo sobre tela, de caráter conventual, na Capela de Nossa Senhora da Conceição da Igreja de São João Evangelista (Igreja do Colégio), Funchal. 📸 @Pedro Veiga
Capela de São Miguel Arcanjo
📸 @Pedro Veiga
A Capela de São Miguel Arcanjo oferece um dos exemplos mais claros de uma cronologia apoiada numa inscrição funerária.
Foi fundada pelo reverendo Miguel Pereira de Almeida, cuja lápide informa que morreu em 14 de dezembro de 1671 e que os seus ossos foram trasladados para a capela em 16 de junho de 1682.
Estes dados permitem situar a construção da capela entre essas duas datas.
A imagem de São Miguel Arcanjo, em madeira dourada e policromada, pertence ao século XVII. A decoração da capela evidencia já uma linguagem mais próxima do barroco, acompanhando a evolução artística que se verifica no conjunto.
Capela de Santa Quitéria
A Capela de Santa Quitéria conserva uma imagem da santa em madeira estofada, dourada e policromada, com características associadas ao século XVIII.
Entre as pinturas existentes destaca-se uma representação da Mulher Adúltera, tradicionalmente datada de meados do século XVII.
As restantes obras têm sido objeto de atribuições menos seguras, nomeadamente quanto à sua autoria e eventual relação com oficinas de tradição franciscana.
A sacristia
A sacristia constitui outro dos espaços de maior interesse do conjunto.
Os armários com embutidos de mármore, os revestimentos de azulejo figurativo, o grande arcaz de características barrocas e as pinturas de temática religiosa revelam o cuidado colocado na decoração dos espaços destinados à vida litúrgica interna.
Tal como acontecia noutras casas da Companhia de Jesus, a sacristia não era apenas um espaço funcional. Participava da conceção global do templo e da criação de um ambiente adequado à celebração e à representação do culto.
A expulsão dos Jesuítas
A história do Colégio sofreu uma rutura em 1759, quando a Companhia de Jesus foi expulsa dos domínios portugueses.
Os últimos Jesuítas deixaram a Madeira em 16 de julho de 1760.
A partir desse momento, o conjunto perdeu a função para a qual havia sido concebido e entrou numa nova fase da sua história.
Em 1787, parte das instalações foi cedida para o Seminário. Durante o período das guerras napoleónicas e da presença britânica na Madeira, o antigo Colégio conheceu também utilizações militares.
O século XIX trouxe novas intervenções e preocupações de conservação. Durante o governo civil de José Silvestre Ribeiro foram promovidas obras de recuperação que contribuíram para a preservação do conjunto.
A igreja regressou depois ao uso religioso, mantendo-se ligada à vida diocesana do Funchal.
Do antigo Colégio ao património atual
A história do conjunto não terminou com as intervenções oitocentistas.
Em 1980, o antigo complexo do Colégio passou do Exército para o Governo Regional da Madeira, numa operação que marcou uma nova etapa da sua história patrimonial.
Em 1988, o edifício recebeu a Universidade da Madeira. A adaptação de um antigo complexo jesuíta a uma instituição universitária constituiu mais uma transformação significativa na longa história do edifício.
A Universidade viria posteriormente a transferir as suas instalações para a Penteada, permanecendo durante algum tempo a Reitoria no antigo Colégio.
A sucessão destas utilizações mostra a extraordinária capacidade de adaptação do conjunto, que atravessou diferentes regimes políticos, funções e formas de apropriação sem perder a sua importância histórica.
A Igreja do Colégio hoje
Atualmente, a Igreja de São João Evangelista continua aberta ao culto e integra o quadro pastoral da Diocese do Funchal.
A ligação à Companhia de Jesus permanece igualmente presente na vida contemporânea do templo, que tem atualmente como reitor o padre jesuíta Carlos Ismael Faria Almada.
Esta realidade pastoral não deve, contudo, ser confundida com a questão da propriedade jurídica do imóvel. A definição dessa propriedade exigiria documentação patrimonial e jurídica específica.
Mais importante, para a compreensão histórica do monumento, é reconhecer a continuidade entre o espaço atual e a longa história que o antecedeu.
Um monumento feito de várias épocas
A Igreja de São João Evangelista reúne, num único espaço, diferentes momentos da história da Madeira.
A fundação do Colégio remonta ao século XVI. A igreja atual começou a ser construída em 1629. A decoração foi enriquecida ao longo do século XVII e entrou progressivamente no universo artístico barroco. A fachada recebeu as suas esculturas numa campanha setecentista. As capelas foram sendo transformadas e enriquecidas por fundadores e benfeitores. A expulsão dos Jesuítas alterou profundamente o destino do conjunto. Nos séculos seguintes, o antigo Colégio recebeu novas funções, foi ocupado, adaptado e restaurado.
Cada uma dessas fases deixou vestígios.
A arquitetura conserva a memória da construção.
A talha e os azulejos testemunham a evolução artística.
As imagens revelam as devoções.
As inscrições funerárias preservam nomes e relações familiares.
As pinturas recordam programas iconográficos que atravessaram gerações.
E as próprias transformações do edifício contam a história das sociedades que dele se apropriaram.
É por isso que a Igreja do Colégio deve ser entendida não apenas como um monumento artístico, mas como uma verdadeira fonte histórica.
Percorrer a sua nave e as suas capelas é atravessar vários séculos de história madeirense: a história da Companhia de Jesus, da Igreja, das elites locais, das práticas de devoção, da arte sacra e da própria cidade do Funchal.
Talvez seja essa a sua maior riqueza.
A Igreja do Colégio não conserva apenas o passado.
Conserva vários passados, sobrepostos no mesmo espaço.
Fontes
SIPA — Sistema de Informação para o Património Arquitetónico / Monumentos, registo do antigo Colégio de São João Evangelista, Funchal.
Rui Carita, O Colégio dos Jesuítas do Funchal – Memória Histórica, vol. I.
Rui Carita, O Colégio dos Jesuítas do Funchal – Descrição e Inventários, vol. II.
Igreja do Colégio – Funchal, informação institucional sobre a história, arquitetura, capelas e património artístico.
Diocese do Funchal, informação institucional sobre a Igreja do Colégio.
Visit Madeira – Turismo Oficial da Madeira, informação patrimonial sobre a Igreja do Colégio.
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Como referir este texto:
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VEIGA, Francisca Branco, A Igreja de São João Evangelista, ou Igreja do Colégio, no Funchal (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [05 de Setembro de 2026].
Agradeço ao meu filho Pedro Branco Veiga o cuidado e a atenção na realização das fotografias que acompanham esta publicação e que permitiram documentar visualmente este percurso pela Igreja do Colégio, no Funchal.