Do Noviciado da Cotovia ao MNHNC (Museus da Universidade de Lisboa): Cronologia

1597 – Fernão Teles de Menezes oferece de dote à Companhia de Jesus 20. 000 Cruzados (mais de 100.000 contos de hoje).

1598 – Celebra-se a dedicação da Casa a Nossa Senhora da Assunção (18 de Dezembro).

1603 – Lançamento da 1ª pedra para a construção do edifício (23 de Abril).

Excerto do Panorama de Lisboa
In  Academia Nacional de Belas Artes

1605 – Morte de Fernão Telles de Menezes (26 de Novembro).

1607 – O arquiteto real Baltazar Álvares passa a dirigir a construção da obra.

1613 – Lourenço Lombardo, flamengo natural de Anvers, 2º financiador da Casa do Noviciado, dota a Casa com 30.000 cruzados (mais de 150.000 mil contos).

1616 – Foi feita a primeira missa na Igreja do Noviciado (1 de Novembro).

Transladação dos ossos do fundador Fernão Telles de S. Roque para a igreja da Cotovia (9 de Novembro).

1619 – Inauguração do edifício do noviciado do Monte Olivete.

Segundo o Painel de Azulejos “Vista de Lisboa”.
Desenho à penna por J.de C.

1634 – Morre Lourenço Lombardo. Foi sepultado na Sacristia em campa rasa com epitáfio.

1694 – Incêndio na Casa do Noviciado da Cotovia

1705 – É criado o Noviciado de Arroios (Lisboa), para as missões da Índia, dedicado a S. Francisco Xavier, e do qual aceitou ser fundadora D. Catarina, rainha de Inglaterra.

1755 – Terramoto em Lisboa afeta parte do edifício do noviciado da Cotovia.

1758 – Os jesuítas são suspensos do exercício de confessar e pregar (Junho).

1759 – Sai o alvará de sequestro dos seus bens (Janeiro).

                  São reclusos e com guarda à porta (Fevereiro).

                  São proscritos e banidos do reino (3 de Setembro).

                  Noviciado da Cotovia foi confiscado para a Fazenda Real.

1773 – O Papa Clemente XIV, pressionado pelas cortes portuguesa e bourbónica, promulga a 21 de Julho, o breve “Dominus ac Redemptor”, que decretava a extinção da Companhia de Jesus no mundo inteiro.

Foram 143 anos de existência e de prestação de serviços na formação missionária dos Padres da Companhia neste edifício do Monte Olivete.

1761 – Decreto-lei de 7 de Março institui o Colégio dos Nobres

Real Colégio dos Nobres – Wikipédia, a enciclopédia livre
Jornal de Belas Artes, n.º 26, 1817

1832 – Decreto de 10 de Setembro, o rei D. Miguel mostra intenção de entregar o espaço novamente aos Jesuítas.

1837 – Decreto-lei de 4 de Janeiro abole o Colégio dos Nobres

Decreto-Lei de 21 de Janeiro é criada a Escola Politécnica

1843 – Novo incêndio na agora Escola Politécnica

Rua da Escola Politécnica num postal de 1906

1911 – Pólo da Universidade de Lisboa: Faculdade de Ciências

1978 – Novo incêndio no edifício do antigo Noviciado.

Atualmente – Alberga dois Museus de referência em Portugal e no estrangeiro, o Museu da Ciência e o Museu de História Natural, da Universidade de Lisboa.

File:MNHNC.jpg - Wikimedia Commons
Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC)

D. Maria II, Hasteada a bandeira de um catolicismo integrador dos cidadãos

Lisboa, Setembro de 1836 : D. Maria II
SENDIM, Maurício José do Carmo
BNP


Com o fim da monarquia absoluta miguelista teve início a monarquia Constitucional sob a orientação liberal. Doze ordinários diocesanos de nomeação absolutista que se encontravam ausentes, fugidos ou clandestinos, não foram reconhecidos pelo novo poder, mesmo tendo obtido as respetivas bulas de confirmação. O governo liberal, tal como já o tinha feito no Porto, nomeava governadores temporais e indicava aos cabidos a eleição de vigários capitulares da sua escolha .
Contudo, neste novo cenário político a religião católica será um importante elemento de integração dos cidadãos na pátria. Mas, para cumprir essa tarefa, era necessário que os religiosos não recebessem influência estrangeira, considerou-se uma ameaça à pátria todo o clero que se submetesse a líderes fora de Portugal. Esta oposição aos religiosos vinculados à Santa Sé pode também ser compreendida pelo reconhecimento destes ao miguelismo e pela oposição ao constitucionalismo. Generalizou-se pelas dioceses uma situação de “quase” cisma, em que clérigos e leigos ou acatavam as autoridades eclesiásticas, impostas pelos liberais ou mantinham a ligação aos seus bispos ausentes. Esta situação prejudicava gravemente os fins espirituais e pastorais da Igreja e a consolidação das instituições.
No dia 22 de agosto de 1834 o padre jesuíta Margottet refere que o próprio Papa se encontrava preocupado com «os negócios da religião» em Portugal mandando fazer «na Igreja de Santa Maria Maior huma Novena por esse caro pais» .
Nestas decisões nunca esteve em causa o valor social da religião, mas a determinação em pôr fim à presença da Igreja como um Estado dentro do próprio Estado. As Congregações religiosas foram, neste contexto, o alvo central da atuação dos liberais. O que se pretende é tornar a Igreja portuguesa independente de pressões externas. No art. 75 da Carta Constitucional, o governo liberal restringia-lhes o seu papel: “O Rei é o Chefe do Poder Executivo, e o exercita pelos seus Ministros de Estado. São suas principais Atribuições:[…] § 2.° – Nomear Bispos e prover os Benefícios Eclesiásticos; […] § 14.° – Conceder ou negar o Beneplácito aos Decretos dos Concílios e Letras Apostólicas e quaisquer outras Constituições Eclesiásticas, que se não opuserem à Constituição; e precedendo aprovação das Cortes, se contiverem disposição geral” .
A intenção dos liberais era reintegrar a igreja ao serviço do novo regime, colocando na hierarquia da igreja homens da sua confiança, cortando as relações diplomáticas com a Cúria Romana como retaliação contra o reconhecimento de D. Miguel como rei de Portugal e contra as nomeações feitas pelo Papa Gregório XIV de bispos apresentados por D. Miguel para as sedes diocesanas que se encontravam vagas em 1831.
Neste processo, a posição da Cúria Romana ao rejeitar o governo liberal, não facilitou o diálogo com o governo de Portugal, o que levou ao corte de relações diplomáticas entre Lisboa e Roma em 1833, e à destituição da hierarquia religiosa nomeada pelo Vaticano, nomeando novos Bispos e Prelados . Gregório XVI, numa alocução a 30 de setembro de 1833, protesta contra a expulsão do Núncio, contra os decretos e medidas tomadas por D. Pedro, considerando-as como crimes contra a Igreja e contra «os direitos invioláveis da Santa Sé» . Em dezembro, o Papa manda retirar da sua residência as armas de Portugal e retira ao representante de Portugal em Roma o poder de representar o país . Reforça a sua condenação e reprovação da política religiosa liberal portuguesa no Consistório Secreto do dia 1 de agosto de 1834, e de novo no Consistório Secreto do dia 2 de fevereiro de 1836, falando de um «funestro cisma» . O Sumo Pontífice vai considerar estes decretos «írritos e nulos», declarando o Relatório que precedeu o decreto de extinção das Ordens Religiosas repleto de «cousas falsas e criminosamente ditas».

A partir de 1834 o governo liberal, que concebia um catolicismo autonomizado de Roma, antiultramontano, corta relações diplomáticas com o Vaticano, só sendo reatadas a 30 de julho 1848 através de um Convénio entre ambas as partes.


Um longo e complexo processo de reaproximação entre o Estado português e a Santa Sé irá decorrer em dois períodos distintos. No primeiro período, estava em jogo algo de essencial para a estabilização do regime constitucional, como o reconhecimento do trono de D. Maria II pela Cúria e o acordo entre as duas partes sobre a legitimidade dos bispos eleitos por D. Miguel para as sedes diocesanas que se encontravam vagas. Num segundo período, o que estava em causa era essencialmente a retoma da tradição concordatária interrompida.


Deste modo, um acordo do Estado com a Santa Sé, parecia necessário ao restabelecimento da paz religiosa na sociedade e ao reforço e estabilidade do regime liberal e do trono de D. Maria II.

António da Silva (Geraldes) e as pinturas da Capela de Porto Salvo (Oeiras)

Anunciação (pormenor)

A proximidade de Lisboa levou a Oeiras muitos pintores da capital tendo, no séc. XVII e XVIII, a nível de produção pictórica sacra, um papel de grande relevo pois era uma zona onde existiam quintas de importantes figuras da nobreza ou de ricos proprietários, tal como o primeiro Conde de Oeiras, futuro Marquês de Pombal.

Pintores como Domingos Vieira Serrão (pintor régio, ativo entre 1570-1632), Jerónimo da Silva (1700-1753) e André Gonçalves (1685-1763) são chamados a trabalhar neste Concelho. Surgem artistas de “segundo plano” como António da Silva (ativo entre 1720-1743), autor das telas de que irei tratar.

Baseando-me na Collecção de memórias relativas às vidas dos pintores, e escultores, architetos, e gravadores portuguezes, e dos estrangeiros, que estiverão em Portugal, recolhidas e ordenadas por Cyrilo Volkmar Machado[1], António da Silva (Geraldes) era um pintor do séc. XVIII, de origem oriental. Filho do chim (chinês) Alexandre Geraldes, que o nosso embaixador na China, Alexandre Metelo, no reinado de D. João V, trouxera consigo para Lisboa, depois de o converter ao cristianismo. Aprendeu a pintar com um estrangeiro e depois foi Mestre dos seus filhos João, Ambrósio José e de Nicolau Tolentino Botelho (Nicolau Preto). Sabe-se que executou um painel para a Ermida do Resgate e que pintava lâminas de cobre com imagens religiosas.

António da Silva é o pintor dos painéis da capela-mor, na ermida de Porto Salvo. A sua riqueza pictórica e a sua profunda expressividade fazem deles, painéis de um grande mérito.
Esta obra de António Silva é um dos seus melhores trabalhos, e é uma prova do seu elevado mérito artístico de que Oeiras tem o privilégio de ter e onde estas pinturas se encontram tão bem estimadas e conservadas. As quatro pinturas de António da Silva, com um programa iconográfico alusivo à vida da Virgem, existentes na ermida da Senhora do Porto Salvo, são a maior e a melhor série conhecida deste conceituado pintor, datadas de 11 de Setembro de 1743.

Programa Iconográfico dos quatro painéis da capela-mor, da igreja de Nossa Senhora de Porto Salvo

. A Anunciação

Representa o anjo Gabriel no momento que anunciava a Maria que fora escolhida pelo Senhor para ser mãe de Jesus, seu filho, de acordo com o evangelho de Lucas 1:26.
Fotografia: Francisca Branco Veiga
  • O casamento de Maria e José
Neste conjunto pictórico destacam-se três personagens: Maria, o Sacerdote e José, que se encontram no centro da cena. Ladeados por figurantes num ambiente caloroso.
Fotografia: Francisca Branco Veiga
  • A Adoração dos Pastores
O Evangelho de S. Lucas (11, 1-12) fala sobre a adoração dos pastores ao menino Jesus, tema que vai ser associado ao da Virgem Maria, no séc. XVIII.
Fotografia: Francisca Branco Veiga
  • A Adoração dos Magos
S. Mateus é o único dos Evangelistas a mencionar os Magos vindos do Oriente para adorar o rei dos Judeus (Mateus, 2, 1-12), Magos esses transformados depois pelos diversos comentadores em Reis, para conferir uma maior dignidade ao acontecimento. Tratada com mais pormenor nos Evangelhos Apócrifos, esta é a primeira teofania de Cristo, a sua primeira manifestação aos homens como Verbo encarnado.

[1] CARVALHO, Joaquim Martins Teixeira de, Collecção de memórias relativas às vidas dos pintores, e escultores, architetos, e gravadores portuguezes, e dos estrangeiros, que estiverão em Portugal.

Fotografias: Francisca Branco Veiga

Oratória de Natal, BWV 248 (1), Johann Sebastian Bach

A Oratória de Natal de Bach constitui um monumento brilhante da herança musical barroca, sendo escrita para o Natal de 1734.

Johann Sebastian Bach at the organ, 1725. Private Collection;
Primeira página do manuscrito da partitura

Quando compôs a Oratória de Natal, entre Outubro e Dezembro de 1734, Bach decidiu empreender uma renovação global da música para o culto, servindo-se, para isso, dos infindáveis recursos que a sua imaginação musical lhe proporcionava.

Na composição de oratórias aliou a estrutura tradicional das cantatas de igreja, com árias recitativos e coros, a uma inovadora concepção narrativa da história religiosa, na qual se destaca a figura central do Evangelista, personificada pela voz de tenor narrador.

Uma parte essencial da eficácia catequética e expressiva na Oratória de Natal advém, com efeito, da forte coesão interna dos seus textos, de autoria provável do libretista Christian Friedrich Picander (1700-1764), mas amplamente apoiados nos Evangelhos segundo São Lucas e São João.

A obra é constituída por seis cantatas detentoras de diferentes dispositivos vocais e instrumentais, cada uma das quais foi destinada a ser executada num dia específico da quadra natalícia.

– Primeira Parte: Para o Primeiro Dia do Natal, descreve o Nascimento e a Nominação de Jesus;

– Segunda Parte: Para o Segundo Dia do Natal, a Anunciação aos Pastores;

– Terceira Parte: Para o Terceiro Dia do Natal, a Adoração dos Pastores;

– Quarta Parte: Para a Festa da Circuncisão de Cristo, a Circuncisão de Jesus;

– Quinta Parte: Para o primeiro Domingo do Ano Novo, a Jornada dos Reis Magos,

– Sexta Parte: Para a Festa da Epifania, a Adoração dos Reis Magos.

Como se pode verificar, esta criação de Bach, inundada de devoção e criatividade musical, narra os diferentes episódios relativos ao nascimento e primeiros dias da vida de Jesus Cristo, até ao início da fuga da sagrada família para o Egito.

Contudo, deve evitar-se perspectivar a Oratória de Natal como um ciclo de seis cantatas independentes, sob o risco de se perder de vista a interessante lógica de coesão global. A unificação da Oratória como um todo musical reside no encadeamento dos acontecimentos descritos, protagonizado pelo Evangelista, narrador.

O Oratório foi ouvido na Igreja de São Tomás e na Igreja de São Nicolau, em Leipzig.

Igreja de São Nicolau, Leipzig

Veja no YouTube

J.S. Bach – Christmas Oratorio BWV 248 I “Jauchzet, frohlocket” (J.S. Bach Foundation). From the protestant church Trogen in Switzerland Choir and Orchestra of the J. S. Bach Foundation Rudolf Lutz – conductor.

(1) BWV – Bach-Werke-Verzeichnis (Catálogo de Obras de Bach) é o sistema de numeração usado para identificar obras musicais de Johann Sebastian Bach, que estão agrupadas tematicamente, e não cronologicamente.

No dia 3 de dezembro de 1552, morre São Francisco Xavier (1506-1552)

Ficou conhecido como o “Apóstolo” do Oriente.

Os milagres de S. Francisco Xavier
|Peter Paul Rubens,1617-18
Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria

A convite de D. João III, a Companhia de Jesus estabeleceu-se em Portugal em 1540, logo a seguir à sua criação (a 27 de Setembro de 1540, o Papa Paulo III aprova a criação da Companhia de Jesus, pela bula ―Regimini Militantis Ecclesiae.

S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III
André Reinoso, cerca de 1619
Igreja de S. Roque, Lisboa, Portugal (3)


Francisco de Xavier na sua estadia em Portugal e antes de partir para o Oriente escreveu uma carta a Inácio de Loyola e a Coduri onde refere o seguinte: «D´acá os hago saber como el Rey, paresciéndole bien nuestro modo de proceder, así por la experiencia que tiene del fruto espiritual que se hace, como esperando mayor cuantos mas fueren, está deliberado de hacer un colegio y una casa de los nuestros, es a saber, de la Compañia de Jesus…».
Afirmava que:
«…Este verano en la Universidad de Coimbra edificará el colégio, y la casa pienso en la cidad de Ébora» (1).
Em pouco tempo constroem-se três importantes estabelecimentos em Lisboa, entre muitos outros espalhados pelo país de Norte a Sul.
Francisco Xavier, já missionário em Goa, alertava para a preparação de “soldados de Deus”. Não importava que fossem letrados, mas tinham que ser bem exercitados (2). Noviciados, colégios e universidades unidos num projecto comum onde a qualidade de acção, a preparação adequada e contínua e uma ocupação constante para o atendimento das almas eram requisitos obrigatórios para educar os futuros ―soldados de Deus.

S. Francisco Xavier Ressuscitando um Chefe de Casta no Ceilão
André Reinoso, cerca de 1619
Igreja de S. Roque (Sacristia)


Está sepultado na Basílica do Bom Jesus em Velha Goa (Índia) onde é venerado como homem santo.

O papa Paulo V beatificou-o a 21 de outubro de 1619 e Gregório XV declarou-o santo a 12 de março de 1622.

Túmulo de São Francisco Xavier na Basílica do Bom Jesus de Goa.

A capela de São Francisco Xavier foi concluída em 1659. É uma mistura de mármore, cobre e madeira em diversos níveis, cada um ricamente decorado. Encimando o altar, logo após os dois anjos ladeando o brasão, está o sarcófago de prata com seis módulos de vidros duplos onde repousa o seu corpo. Magnífica caixa de prata feita por artistas goeses, onde repousa o corpo do Apóstolo do Oriente, oferecida pelo grão-duque da Toscana, Cosimo III Medice, executada por Giovanni Battista Foggini, cerca de 1697.

São Francisco de Xavier no Padrão dos Descobrimentos
Viagens de S.F.X. na Ásia

(1)Monumenta Historica Societatis Iesu, Cartas de San Ignacio, pp. 443-447;

LOPES, António, D. Pedro Mascarenhas: Introdutor da Companhia de Jesus em Portugal, 2003, p.168.

(2) GOMES, Manuel Pereira, Santo Inácio e a fundação de Colégios, p. 41.

(3) S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III antes da viagem para a Índia. O rei está ao centro, tomando as mãos do santo e, ao lado, encontra-se o Padre Simão Rodrigues, introdutor da Companhia de Jesus em Portugal. A receção decorre no Paço da Ribeira, vendo-se o Tejo ao fundo, e a corte é composta por membros do clero e da nobreza, incluindo membros das três ordens militares, identificadas pelas respetivas cruzes: Cristo, Santiago e Avis.

Veja-se, inclusive, Maria Cristina Osswald, S. Francisco Xavier no Oriente – aspectos de devoção e iconografia. In https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4322.pdf

Miguelismo e Jesuitismo: descontinuidade no processo político para o Liberalismo

A revolução de 1820 previa uma viragem na política portuguesa, mas o liberalismo constitucional foi interrompido pelo absolutismo miguelista em 1828, baseado na aliança entre o Trono e o Altar, onde os Jesuítas voltam a ter um papel de relevo no reforço do Legitimismo.

 Em 1828 D. Miguel regressa a Portugal e, contrariamente ao prometido a seu irmão, em 23 de junho de 1828 foi proclamado rei pelas Cortes Gerais do Reino, anulando a vigência da Carta Constitucional e repondo as Leis Constitucionais tradicionais, perante a passividade europeia e contando com a intolerância política do Sumo Pontífice para com os ideais liberais e maçónicos.

Para assegurar essa imagem unanimista de legitimidade dinástico-política foi necessário o apoio da Igreja Católica Romana e a restauração da Companhia de Jesus em Portugal. D. Miguel necessitava dos jesuítas como “bons formadores” e “educadores das mentes e das consciências” da juventude, baseados nos ideais que a tradicional monarquia ambicionava, isto é, uma sociedade legitimadora do status quo, com princípios sociopolíticos estáticos e que não contrariasse os princípios da fé que a Igreja Católica Romana estatuíra.

Os jesuítas vão atuar fundamentalmente em duas vertentes principais: nas missões junto da população (uma catequese adequada, tornava mais eficiente a ligação do povo à Igreja Católica (Altar) e ao próprio rei (Trono) e reforçava o ultramontanismo), e na atividade educativa da juventude. Para D. Miguel, tal como para os jesuítas, as missões, a catequese, o confessionário e a educação eram a base principal da manutenção da ordem social.

Contudo, a alteração da conjuntura na Europa dos anos trinta é marcada pela subida ao trono de um «rei burguês» na França, pela mudança do ministério inglês para tendências liberais, e pela subida ao trono da regente D. Maria Cristina, de Espanha.

A 3 de março de 1832, D. Pedro reassume a regência que se encontrava na ilha Terceira (Açores).  Com D. Pedro, a convicção de que a existência das ordens regulares era necessária à religião e útil ao Estado tinha terminado.

No dia 26 de maio de 1834, em Évora Monte, sucumbe o governo absolutista de D. Miguel. Um dia depois, D. Pedro, em nome de sua filha a rainha D. Maria II, punha fim à missão jesuíta em Portugal, pois estes encontravam-se alinhados com todo um passado miguelista, enquanto representantes do fixismo, do ultramontanismo, e, por conseguinte, também causadores da decadência do reino.  

Em 1834, D. Pedro, apoiado por uma elite liberal que se encontrava no exílio e pelo suporte externo da Quádrupla Aliança, retomava os ideais de 1820 e dava início a um Governo Constitucional e a um Estado liberal.

Palavras-chave: miguelismo-jesuitismo- absolutismo-liberalismo

(Resumo da comunicação proferida no dia 12 de outubro de 2021, no Congresso Internacional do Bicentenário da Revolução de 1820 (Fundação Calouste Gulbenkien)).

Link de acesso às comunicações deste dia,

ESTADO, IGREJA E RELIGIÃO

Coord. Ana Mouta Faria, Sérgio Ribeiro Pinto e Daniel Alves

https://youtu.be/uuE8IQQ9I3Q?t=2357

A quinta da Cotovia do Monte Olivete

Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus (1619 -1759).

Atual espaço ocupado pelo Museu Nacional de História Natural e da Ciência

Foi em 1540 com D. João III (1521-1557), que a Companhia de Jesus entrou em Portugal, sendo o nosso país a primeira Província jesuíta no mundo. Numa época de forte expansão territorial D. João III irá ser o primeiro rei na Europa a contactar Inácio de Loyola devido à necessidade de encontrar missionários, homens letrados, para evangelizar o Oriente, pregando e convertendo à Fé cristã os nativos. D. João concedeu privilégios aos jesuítas, nomeadamente casas gratuitas, liberdade de enviar missionários para todo o mundo e de fundar colégios.

A Companhia de Jesus instalou-se em Portugal continental e Ilhas Atlânticas, durante este período, fundando diversas Casas Professas, Colégios, Noviciados e quintas de recreio. Só em Lisboa, à data da extinção da Companhia havia sete instituições jesuítas: a Casa Professa de S. Roque, o Colégio de Santo Antão, o Seminário de S. Patrício dos irlandeses católicos, o Noviciado de Nossa Senhora da Assunção (da Cotovia), o Colégio de S. Francisco de Xavier em Alfama, o Hospício de S. Francisco de Borja e o Noviciado de Nossa Senhora da Nazaré em Arroios.

Começaram por se instalar em Lisboa no Colégio de Santo Antão, edifício sobre o terreno de uma antiga mesquita. Mais tarde, em 1553, estabelecem em Lisboa, na igreja de S. Roque, a sua Casa Professa e aí se inicia o Noviciado.

Na Congregação Geral de 1565 (dec.14), decretou-se que todas as províncias construíssem noviciados unidos ou separados de colégios. Na Congregação provincial de 1572, em Évora, discutiu-se pela primeira vez sobre a situação dos edifícios de Casa de Provação na Província Portuguesa, referindo a necessidade de nos colégios haver habitações e refeitórios separados para os noviços, para que estes se pudessem formar espiritualmente o melhor possível, tendo Roma aprovado a decisão[1]. Mas na Congregação Provincial de 1576, corrigindo a anterior, foi pedido ao padre Geral que se separassem os colégios das casas de noviciado[2]. Só na Congregação Geral de 1608 foi confirmada a separação dos jovens destinados à formação de jesuítas em casas próprias para assim se conservar melhor neles o fervor do noviciado e a sua formação específica.

Neste sentido, em Portugal, esta ideia de Casas de Provação tomou força, e em 1587 esse desejo de fundar um edifício separado como convinha para a boa disciplina dos noviços tornou-se realidade.

Foi Fernão Telles de Menezes (1530-1605), Governador da Índia em 1581 e mais tarde Capitão-General do Algarve, Presidente do Conselho da Índia, Geral da Armada e Conselheiro de Estado, casado com Maria de Noronha, o doador das terras do Noviciado da Cotovia, na quinta do Monte Olivete, (além de outros bens no valor total de 20 000 cruzados) para a concretização desse sonho.

A quinta ficava bem localizada porque se encontrava perto de S. Roque, Casa Professa da Companhia que, quando foi fundada ficava fora da muralha fernandina, local onde se concentrava o casario de Lisboa, provocando um desenvolvimento na malha da cidade para os lados da Cotovia. A quinta da Cotovia do Monte Olivete, tinha uma capelinha dedicada a Nossa Senhora da Assunção, sendo mais tarde adotado o mesmo orago na nova igreja. Situava-se esta quinta dos jesuítas segundo Matos Sequeira, «…à beira da estrada para Campolide, alongando-se, nessa direção, desde a esquina da Patriarcal Queimada até ao Rato e desde este ponto, pelo Salitre abaixo, até à Alegria.»[3]. O espaço total da quinta tinha forma triangular que foi ficando reduzido com a venda de terrenos para edificação de todo um casario circundante. Tinha água de nascente e um poço ao fundo da cerca além de duas cisternas no pátio principal do edifício. No terreno havia um olival, um pomar, cultivava-se trigo e plantavam-se produtos hortícolas[4]

Provavelmente terá ficado do período muçulmano o topónimo Cotovia (do árabe Kotoubia, minarete) que foi usado até ao século XVIII para designar a cumeada desde a Rua D. Pedro V até ao Largo do Rato onde está integrada a Quinta do Monte Olivete.

A primeira pedra do noviciado foi lançada em 26 de Abril de 1603, tendo ficado o Padre João Delgado a cargo da supervisão da obra. Dois anos depois, D. João Ribeiro Gaio, bispo de Malaca, lança a primeira pedra da igreja que, conforme o plano, se localizava no centro do edifício. A esta cerimónia já não assiste Fernão Teles de Meneses, que se encontrava doente. Em 1607, passou a dirigir a obra o famoso arquiteto real Baltazar Álvares (act. 1575 – m.1624). São dele a traça quer da igreja quer dos edifícios que compunham o Noviciado. A construção era complexa e tornou-se muito morosa e cara, provocando a escassez dos fundos.

Surge um novo financiador, Lourenço Lombardo ( ?  -1634), flamengo de Antuérpia, de 30 anos, homem de negócios e mercador que veio para Portugal com a intenção de fazer fortuna[5].

 Em 1613 entra para a Companhia de Jesus pela mão do seu confessor de S. Roque, o Padre Fernão Guerreiro e um ano mais tarde entra no Noviciado da Cotovia, dotando-o de 30 000 cruzados e cerca de vinte casas[6]. Quando Lourenço Lombardo assume a direção das obras do edifício este evoluiu muito rapidamente e as despesas diminuíram[7]. Em três anos e meio ficaram concluídas a igreja – incluindo a sacristia e o claustro anexo, – a portaria e as escadas, os corredores e os dormitórios do lado sul. A 1 de Novembro de 1616, transladaram-se os ossos do fundador Fernão Teles de Meneses, vindos da sacristia da igreja de S. Roque, para a nova igreja do Noviciado da Cotovia[8].

 Os ossos são depositados no túmulo, que a sua mulher mandou construir, na Capela-Mor, do lado do Evangelho[9].

Tumulo de Fernão Teles de Meneses e de sua esposa D. Maria de Noronha

Fotografia: Francisca Branco Veiga

Tumulo de Fernão Teles de Meneses e de sua esposa D. Maria de Noronha (vista superior).

Fotografia: Francisca Branco Veiga

A 13 de Junho de 1619, começaram a habitar o edifício os primeiros noviços estando nessa ocasião já concluídos o refeitório, a cozinha e despensa e os móveis necessários para a casa[10]. Lourenço Lombardo morre a «… 2 de Junho de 1634, depois de ter despendido o melhor da sua vida nas obras do Noviciado, rendeu a alma a Deus. Foi enterrado a meio da sacristia em uma campa raza com um simples epitáfio»[11].

Aos dois doadores atrás referenciados, temos que acrescentar o duque almirante de Castela, D. João Tomás Henriques de Cabrera, que deixou em testamento 80.000$000 réis em padrões de juro e a obrigação aos religiosos do noviciado de irem às missões da Índia e da China. Mas no seu testamento havia uma condição: no caso de suceder na coroa de Espanha D. Carlos, o Arquiduque de Áustria, todos os seus bens seriam aplicados num colégio em Madrid, se em vez disso subisse ao trono o Duque de Anjou, o colégio seria construído em Lisboa, com as mesmas condições. Verificou-se a segunda hipótese, e o Duque de Anjou sucedeu na coroa espanhola com a designação de Filipe V, ficando a herança com os jesuítas portugueses que investiram esse dinheiro no aumento do noviciado da Cotovia[12].

O edifício que Baltazar Alvares delineara inicialmente previa dois pisos, organizados em duas áreas bem distintas e hierarquizadas, com possibilidade de circulação entre elas por meio de corredores dispostos em quadra e abobadados. Este projeto nunca se chegou a executar na totalidade. Dos quatro lanços de corredores que devia ter o edifício apenas três se chegaram a concluir.

A igreja do noviciado encontrava-se no meio da largura do edifício, voltada a sul. Era cruciforme e constituída por uma única nave. Segundo Matos Sequeira possuía nove capelas[13], incluindo a capela-mor consagrada a Nossa Senhora da Assunção, padroeira da Casa do Noviciado[14]. A igreja era frequentada pela nobreza da corte e as próprias rainhas D. Maria Francisca Isabel de Saboia e D. Maria Ana de Áustria tinham aí as suas capelas[15].

D. Maria Francisca Isabel de Sabóia (1646- 1683). Esposa de D. Afonso VI e 2ª Esposa de D. Pedro II, fundou  uma Capela  na igreja do Noviciado invocando-a a Nossa Senhora da Conceição.
A rainha D. Maria Ana de Áustria (1683-1754). Esposa de D. João V, consagrou mais tarde a Capela de Nossa Senhora da Conceição a  S. Francisco de Xavier

O noviciado tinha uma cerca e, no meio desta, havia uma capelinha que a rainha de Inglaterra, D. Catarina, viúva de Carlos II de Inglaterra e filha de D. João IV, mandou construir em 1695 com a ajuda do arquiteto João Antunes[16]. Já em 1672 havia outra capela na cerca do Noviciado vindo referenciada no Livro das Rendas da Casa do Noviciado[17]. A partir de 1684, a cerca do Noviciado encontrava-se dividida em duas partes: a parte de cima, próxima ao edifício, era cultivada pelos padres jesuítas e a parte de baixo foi arrendada.

A 21 de Março de 1694 um incêndio destruiu grande parte da casa do noviciado, sendo referido esse incêndio por Júlio de Castilho e por Diogo Barbosa Machado[18].

O edifício do noviciado foi também afetado pelo terramoto de 1755. A Carta de doação feita ao Colégio dos Nobres, datada de 13 de Outubro de 1765 descreve a destruição do noviciado pelo terramoto: «nas cercas adjacentes ao sobredito noviciado demolido» e, mais adiante, «na igreja que o terremoto do primeiro de Novembro havia arruinado e demolido»[19].

Em Janeiro de 1759, por alvará régio, foram sequestrados os bens da Companhia de Jesus e a 3 de Setembro do mesmo ano foi decretado o seu banimento, sendo todos os padres expulsos do reino ou encarcerados e os seus bens confiscados.

Durante cento e quarenta e três anos no edifício do Monte Olivete formaram-se letrados e missionários.


[1] Francisco Rodrigues, S.J., História da Companhia de Jesus na assistência de Por­tugal, t. II, vol. I, Porto, Apostolado da Imprensa, 1938, p. 193; Arq. S.J., Congr. 42, f. 90.

[2] Arq. S.J., Congr.42, f.317.

[3] Gustavo de Matos Sequeira, Depois do terramoto, Lisboa, Academia das Ciências, p. 212.

[4] José Lopes Ribeiro, O edifício da Faculdade de Ciên­cias. Quatro séculos de re­tratos institucionais, Lisboa: Edições 70, 1987, p. 18.

[5] O padre António Franco refere-o da seguinte maneira:

«… veyo a Lisboa, & dela navegou à Mina, ajuntou algũ cabedal. Czou em Lisboa com huma filha de hum Flamengo, & de huma Portugueza. Depis disto foy duas vezes à India. Por ser homem de grande meneo, & industria, tratando & negoceando, enriqueceo de maneyra, que era dos homens estrangeyros nhum dos mais ricos de Lisboa». António Franco, Imagem da Virtude em o noviciado da Companhia de Jesus na corte de Lisboa, Coimbra, Real Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1717, pp. 12-13.

[6] Durval Pires de Lima, História dos mosteiros, conventos e casas religiosas de Lisboa na qual se dá notícia da fundação e fun­dadores das instituições religiosas, igrejas, capelas e irmandades desta cidade, Lisboa: Câmara Municipal, 1950-1972, p. 49.

[7] António Franco, op. cit., p. 16.

[8] «Em menos de três annos, & meyo poz o edifício capaz de se habitar; acabou a Igreja, que he muyto ayroza. Dia de todos os Sanctos primeiro de Novembro de mil seis centos, & dezaseis se poz nella o Sanctissimo Sacramẽnto.

Da hi a oito dias se treladaraõ pera o tumulo os ossos do Fundador, que estavaõ na sacristia de São Roque…». António Franco, op. cit., p. 16.

[9] B.N.P., Cód. 145, “História de Lisboa”, Cap. XV, Da casa do Noviciado da Com­panhia de Jesus, 2.º, De como por um meyo nãoesperado se adiantou muyto a casa do Noviciado.

[10] António Franco, op. cit., pp. 6 ss.; Jorge Cardoso, Agiologio lusitano dos sanc­tos e varoens illustres em virtude do reino de Portugal e suas conquistas, T. III, Lis­boa, Officina Craesbeekia-na, 1652, pp. 196ss.

[11] Sequeira, op. cit., p. 224; António Franco, op. cit., p. 19.

[12] Anuário da Es­cola Politécnica, 1909, pp. 11-12. Veja-se em anexo – Testamento do Almirante de Castella D. João Thomaz Henriques.

[13] Gustavo de Matos Sequeira, Depois do terramoto, Lisboa, Academia das Ciências, p. 235.

[14] Id., Ibid., p. 208.

[15] Id., Ibid., p. 239. No dia 6 de janeiro de 1718, a Gazeta de Lisboa Occidental fazia referência a uma visita da Casa Real ao noviciado: “A Rainha nossa Senhora, com Sereníssimo Principe, e as Sereníssimas Senhoras Infantes D. Maria, e D. Francisca, visitou no prymeiro dia deste anno a Casa do Noviciado da Companhia de Jesus, onde estava o Lausperenne, e depois passarão a ver o presépio dos Noviços, e ouvirão os Coloquios que dous deles fizeram ao Menino Deos.  Os religiosos lhe tinhão prevenido huma colação com toda a magnificência”. In Gazeta de Lisboa Occidental, nº 1, 6 de janeiro de 1718.

[16] Archivo Pittoresco, Lis­boa, Typ. de Castro Irmão, 1857-1868, pp. 244 ss.

[17] ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO, Livro das Rendas da Casa do Noviciado, maço 10. Referenciado por G. de Matos Sequeira em “Depois do Terremoto”. Actualmente esta referência não existe.

[18] Júlio de Castilho, Lisboa antiga: o Bairro Alto, Lisboa, Antiga Casa Bertrand – José Bastos, p. 30; , Diogo Barbosa MACHADO, Bibliotheca Lusitana , Lisboa,[s.n.], 1935, T. IV, p.193.

[19] ARQUIVO HISTÓRICO DOS MUSEUS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA – MUHNAC. Carta de doação de bens ao Colégio dos Nobres por D. José. 7 de março de 1661.

IGREJA E COLÉGIO DA COMPANHIA DE JESUS, PONTA DELGADA, ILHA DE SÃO MIGUEL, AÇORES

Fotografia: Francisca Branco Veiga
Fotografia: Francisca Branco Veiga

Arquitectura religiosa educativa, maneirista e barroca. Este colégio da Companhia de Jesus, de planta rectangular regular, é composto por igreja no lado direito com zona conventual e colegial adossada.

O lançamento da primeira pedra ocorreu no dia 1 de Novembro de 1592, dia de Todos-os-Santos.

A igreja foi reconstruída na primeira metade do século XVII. Entre 1643 e 1646 foi instalado um novo retábulo na capela-mor e a nova fachada foi concluída em 1666.

Planta rectangular composta por igreja longitudinal com nave, para onde abrem três capelas à face, transepto inscrito e capela-mor mais estreita. Esta, encontra-se ornada por silhar de azulejos figurativos e retábulo-mor de talha dourada, de estilo barroco joanino, de planta côncava e três eixos, contendo trono expositivo e sacrário.

A fachada principal, com exuberantes elementos decorativos, de pedra vulcânica, encontra-se virada a Sul, simétrica, integrando o corpo e duas torres sineiras inacabadas à mesma altura. O corpo é tripartido, com três panos e igual número de andares de vãos. Com duas torres sineiras, sendo que a do lado esquerdo se encontra entaipada e formando janelas, e a do lado direito, mantendo as janelas em arco de volta perfeita, assentes em impostas salientes; a estrutura remata em cornija e platibanda.

Nesta igreja pregou o padre António Vieira, por ocasião da festa da Santa Teresa de Jesus, no dia 15 de Outubro de 1654.

Nesta Igreja dos Jesuítas fez um memorável sermão em louvor de Santa Teresa. Neste sermão ele comenta o naufrágio de que fora vítima, meses antes, na ilha das Flores. Em metáforas que apelam à emoção, Vieira inicia o sermão com a citação da passagem evangélica das dez virgens: “Quinque autem ex eis erant fatuae, et quinque prudentes”. Continuando, ele afirma: “Acaso, e bem acaso, aportei às praias desta ilha; acaso e bem acaso entrei pelas portas desta cidade; acaso e bem acaso me vejo hoje neste púlpito, que é verdadeiramente o poço de Sicar, onde se bebem as águas da verdadeira doutrina”.

O exílio de D. Miguel I: 1 de junho de 1834

No dia 1 de junho de 1834, D. Miguel embarcava em Sines para o exílio, no vapor inglês Stag, em direção a Génova, após a assinatura da Convenção de Évora Monte[1].

Retrato do Infante D. Miguel de Bragança
1 de janeiro de 1848
Charles Baugniet (1814-1886)

Saía de Portugal com uma enorme comitiva na qual faziam parte um grupo apreciável de eclesiásticos. Nas palavras de José de Castro:

“Acompanharam D. Miguel para o seu exílio, D. Frei Fortunato de São Boaventura, arcebispo de Évora, Três cónegos (um da patriarcal, um da capela real da Bemposta e um da sé de Évora), elementos do clero paroquial (um prior dos Mártires de Lisboa, um prior de Sintra e um pároco do Algarve), vários representantes das Ordens Religiosas (um oratoriano, um franciscano, um beneditino, um carmelita descalço, um frade da Ordem da Penitência e um crúzio) e até um freire de Avis”[2]

No dia 20 de junho de 1834 D. Miguel redigiu um protesto contra a renuncia que fora obrigado a fazer dos seus direitos à coroa de Portugal, e como pretexto contra este protesto o governo liberal cortou-lhe imediatamente a pensão que lhe atribuíra. In A Nação, 20 de junho de 1907.

D. Miguel parte de Génova para Roma e no dia 1 de janeiro de 1835 redige um novo protesto contra a renúncia dos seus direitos. No dia 14 de maio do mesmo ano redige outro contra a venda dos bens eclesiásticos. Em Albano, no dia 20 de novembro D. Miguel redige mais um protesto. Em 18 de junho de 1852, estando grávida pela primeira vez a esposa deste, redige em Laugenselbold um novo protesto para salvaguardar os direitos de seus filhos. Este documento teve como testemunhas o visconde de Queluz, José da Silva Tavares, e Augusto António da Matta e Silva.

D. Miguel, pela Carta de Lei de 19 de dezembro de 1834, foi proibido de regressar a Portugal[3]. Esta Lei de Banimento do ramo miguelista estipulava que «A linha colateral do ex-infante Dom Miguel e todos os seus descendentes estão perpetuamente excluídos da sucessão». Esta lei irá ser reforçada 4 anos mais tarde, com a promulgação da Constituição de 1838[4]. Contudo, em 1842 foi novamente restaurada a Carta Constitucional de 1826[5], deixando de haver qualquer cláusula de exclusão do ramo miguelista. Esta Lei de banimento veio de novo a existir com a proclamação da República e pelo decreto de 15 de outubro de 1910. A Lei da Proscrição da Família Bragança impedia os seus descendentes de voltarem ao país. Só em 27 de maio de 1950, a Assembleia Nacional revoga a Carta de Lei de 19 de dezembro de 1834 e o Decreto de 15 de outubro de 1910 sobre banimento e proscrição[6].

D. Miguel morre no exílio, em Bronnbach (Alemanha), no ano 1866, sem poder voltar a Portugal.

A Família Real Portuguesa Exilada
Litografia. SÁ; LOPES, Domingos Francisco – A familia real portugueza exilada [Visual gráfico]. [Lisboa?: s.n., ca. 1860] ( Lxa [i.é, Lisboa] ; R. N. dos M.es [i.é Rua Nova dos Mártires], n.os 12 a 14 : — Off. Lith. de D. F. Lopes).
Notas da BNP: Retrato de D. Miguel I (1802-1866), com a sua segunda esposa, D. Miguel Adelaide de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg (1831-1909) e os seus quatro primeiros filhos, o que aponta para que a gravura não possa ser anterior a 1860, dado que a 4.ª filha (Infanta Maria Josefa de Bragança) nasceu em 1857 e aparenta ter cerca de 3 anos na figura.

EM 1967 chegam a Portugal os restos mortais de D. Miguel e sua esposa D. Adelaide Sofia [9]

“SONO FINAL, NO SOLO PÁTRIO… BEM MERECIDO PELO HOMEM REI, COMO CRISTÃO E COMO PORTUGUÊS…”

A 5 de abril de 1967 chegaram a Lisboa em aviões da Força Aérea Portuguesa, os restos mortais do Rei D. Miguel I e sua mulher, a Rainha Adelaide Sofia.

CUNHA, José Correia da, (P.) – “Sono Final, No Solo Pátrio… Bem Merecido Pelo Homem Rei, Como Cristão E Como Português…”. [Consultado 10 janeiro 2017]. Disponível na internet em: <http://realbeiralitoral.blogspot.pt/2012/11/&gt;

A 5 de abril de 1967, chegam a Lisboa em aviões da Força Aérea Portuguesa, os restos mortais do rei D. Miguel I e de sua esposa, a Princesa Adelaide de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg. Os despojos reais foram acolhidos em São Vicente de Fora, no Panteão da Dinastia de Bragança[7].

Após a leitura do Evangelho, subiu ao púlpito o Padre jesuíta Domingos Maurício, que prestou uma sentida homenagem à memória de D. Miguel:

 “No desterro imposto pelas contingências políticas obscureceu-se a lembrança das vossas benemerências nacionais […]. Surgiu, enfim, o momento redentor, a hora da reparação sincera, que vos reintegra no lugar que vos compete na tessitura histórica de Portugal”[8]

Diário da Manhã, 6 de abril de 1967

Título do artigo:Chegaram a Terra Portuguesa os Restos Mortais de D. Miguel


[1] Retrato do ex-Infante D. Miguel de Bragança, datado de 1 de janeiro de 1848, e a Litografia referente à Família Real Portuguesa Exilada.

[2] CASTRO, José – Portugal em Roma, vol. II. Lisboa: União gráfica, 1939, pp. 387-391; na Chronica Constitucional de Lisboa, de 2 de junho de 1834 vem a relação dos indivíduos que acompanharam D. Miguel para fora do reino, depois da Convenção de Évora Monte.

[3] Carta de Lei, de 19 de dezembro de 1834 – «Dona Maria Segunda, por Graça de Deos, Rainha de Portugal, Algarves, e seus Dominios: Fazemos saber a todos os Nossos Subditos que as Cortes Geraes e Extraordinarias Decretaram, e Nós Queremos a Lei seguinte: Art.º 1.º O ex-Infante D. Miguel, e seus descendentes são excluídos para sempre do direito de suceder na Corôa dos Reinos de Portugal, Algarves, e seus Dominios. Art.º 2.º O mesmo ex-Infante D. Miguel, e seus descendentes são banidos do territorio Portuguez, para em nenhum tempo poderem entrar nelle, nem gosar de quaesquer direitos civis, ou políticos: a conservação, ou acquisição de quaesquer bens fica-lhes sendo vedada, seja qual for o título, e a natureza dos mesmos: os patrimoniaes, e particulares do ex-Infante D. Miguel, de qualquer especie que sejam, ficam sujeitos ás regras geraes das indemnizações». In CASA REAL PORTUGUESA, Ley de Banimento. [Consultado 24 agosto 2017]. Disponível na internet em: <http://www.casarealdeportugal.com/ley-de-prohibicion/&gt;

[4] O art. 98 estipulava que, “A linha colateral do ex-infante Dom Miguel e todos os seus descendentes estão perpetuamente excluídos da sucessão”.

[5] A Carta Constitucional teve três períodos de vigência: depois da morte de D. João VI, em abril de 1826 até maio de 1828, data em que D. Miguel convocou os três Estados do Reino que o aclamaram rei absoluto; de agosto de 1834, data da saída de D. Miguel do país até à revolução de setembro de 1836, que restaurou a Constituição de 1822 até à aprovação da Constituição de 1838, e de janeiro de 1842 até outubro de 1910.

[6] Diário do Governo, n.º 99, Série I, de 27 de maio de 1950.

[7] No ano de 1967, o periódico Diário da Manhã publicava um artigo, cujo título era Chegaram a Terra Portuguesa os Restos Mortais de D. Miguel, e que começava do seguinte modo:

“DIA histórico o de ontem, em que D. Miguel 1, o mais português dos nossos Reis, regressou à Pátria que o banira, entre o respeito do povo que o vtu passar, enternecido, a caminho da sua Jazida de S. Vicente, aquela que já agora será a sua última morada até ao dia da Ressurreição dos mortos”. In Diário da Manhã, 6 de abril de 1967, p. 1.

[8] CUNHA, José Correia da, (P.) – “Sono Final, No Solo Pátrio… Bem Merecido Pelo Homem Rei, Como Cristão E Como Português…”. [Consultado 10 janeiro 2017]. Disponível na internet em: <http://realbeiralitoral.blogspot.pt/2012/11/ > .

[9 ] CUNHA, José Correia da, (P.) – “Sono Final, No Solo Pátrio… Bem Merecido Pelo Homem Rei, Como Cristão E Como Português…”. [Consultado 10 janeiro 2017]. Disponível na internet em: <http://realbeiralitoral.blogspot.pt/2012/11/&gt;