A Insígnia e a Banda da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (1818)

Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (Criada em 1818): Instituída formalmente por D. João VI em sinal de agradecimento à padroeira do Reino pela sobrevivência da monarquia frente às invasões napoleónicas e à posterior aclamação real.

Palavras-chave:
Século XIX; Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa; D. João VI; Monarquia Portuguesa; Invasões Napoleónicas; Padroeira de Portugal; História de Portugal; Ordens Honoríficas; Vila Viçosa

Retrato de D. João VI (1767-1826), “o Clemente” (1767-1826) com a insígnia da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
José Leandro de Carvalho.
Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, Brasil

A insígnia representada na fotografia é um testemunho particularmente expressivo da relação entre a monarquia portuguesa, a devoção mariana e a construção da legitimidade política no início do século XIX. Criada no Rio de Janeiro, em 1818, por iniciativa de D. João VI, esta Ordem nasceu num momento decisivo da história portuguesa: a corte encontrava-se ainda no Brasil, para onde se transferira em 1807, na sequência das invasões napoleónicas.

Mais do que uma distinção honorífica, a Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa traduzia uma conceção da realeza em que a autoridade do soberano, a tradição católica e a identidade histórica da monarquia se encontravam profundamente associadas.

1. O contexto histórico: a criação da Ordem em 1818

Real Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa – APAM
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A Ordem foi instituída por D. João VI a 6 de fevereiro de 1818, no Rio de Janeiro, precisamente no dia da sua aclamação como rei, após a morte de sua mãe, D. Maria I. O monarca quis assinalar essa ocasião e agradecer a proteção atribuída à Virgem da Conceição, invocada como padroeira do Reino. A criação da Ordem foi também uma forma de perpetuar a memória da sobrevivência da monarquia portuguesa às invasões francesas e às convulsões políticas que tinham abalado a Europa.

É importante compreender a singularidade deste momento.

Desde 1808, a corte portuguesa estava instalada no Rio de Janeiro. Em 1815, o Brasil fora elevado à condição de reino, passando a integrar o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Assim, em 1818, D. João VI foi aclamado rei num território americano, governando uma monarquia cuja sede política se encontrava fora da Europa.

A criação de uma Ordem com uma invocação mariana profundamente enraizada na história portuguesa permitia reafirmar a continuidade dinástica e religiosa da Coroa, mesmo à distância do território europeu.

Não se tratava, portanto, apenas de celebrar a aclamação de um monarca. Tratava-se também de afirmar a permanência de uma tradição histórica num período de profundas transformações políticas.

2. A ligação a D. João IV e à Padroeira do Reino

A escolha de Nossa Senhora da Conceição remete para um episódio fundamental da história religiosa e política portuguesa: o reinado de D. João IV e a Restauração da Independência, em 1640.

Em 1646, D. João IV declarou Nossa Senhora da Conceição padroeira do Reino, num gesto que associava a proteção da Virgem à independência recuperada e à legitimidade da nova dinastia de Bragança. O monarca determinou ainda que essa condição fosse perpetuada na memória coletiva do reino.

Mais de século e meio depois, D. João VI recuperava essa herança simbólica.

A invocação de Nossa Senhora da Conceição estabelecia, assim, uma continuidade entre dois momentos decisivos da monarquia portuguesa: a Restauração de 1640, que assegurou a independência face à Monarquia Hispânica, e a sobrevivência da Coroa durante as invasões napoleónicas, quando a transferência da corte para o Brasil permitiu preservar a instituição monárquica.

A Ordem de Vila Viçosa pode, por isso, ser entendida como uma expressão da memória histórica dos Bragança, na qual a devoção mariana assumia igualmente um significado político e dinástico.

3. A leitura da insígnia: símbolos e significados

A peça que fotografou apresenta uma composição de grande riqueza decorativa, na qual o ouro, o esmalte e a seda se conjugam para expressar a dignidade da Ordem.

Real Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa – APAM

A coroa real

Colocada no topo da insígnia, a coroa identifica a autoridade régia e a ligação direta da Ordem à monarquia portuguesa. A sua presença sublinha o carácter real da distinção e a posição do soberano como seu grão-mestre.

O monograma AM

No centro, as letras entrelaçadas correspondem a Ave Maria, a saudação angélica à Virgem. O monograma constitui o núcleo devocional da insígnia, identificando a figura mariana que está na origem da Ordem.

Portugal – Military Order of the Immaculate Conception of Vila Viçosa | Militaria for sale

A estrela e a legenda «Padroeira do Reino»

A estrela branca de nove pontas, os raios dourados e as pequenas estrelas que a rodeiam formam uma composição radiante. A legenda inscrita no círculo azul explicita o significado religioso e político da condecoração: Nossa Senhora da Conceição como padroeira do Reino de Portugal.

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A banda de seda azul-clara, orlada de branco

A banda identifica o uso da insígnia no grau de grã-cruz. A combinação do azul-claro com as orlas brancas integra a identidade visual da Ordem e acompanha a linguagem religiosa e régia da peça. Nos termos regulamentares, a grã-cruz era usada suspensa de uma banda larga, traçada do ombro direito para o lado esquerdo.

O conjunto não deve ser lido apenas como um objeto de joalharia. Cada elemento participa numa linguagem simbólica que articula a devoção à Virgem, a autoridade do rei e a pertença a uma comunidade política e religiosa.

4. Uma Ordem honorífica, mas também um instrumento de poder

Apesar da designação de «Ordem Militar», a distinção não deve ser confundida com uma condecoração exclusivamente destinada a feitos de armas. A Ordem de Vila Viçosa tinha carácter honorífico e podia distinguir personalidades de diferentes condições e profissões. Entre os seus membros encontravam-se nobres, eclesiásticos, diplomatas, magistrados, escritores e outras figuras da vida pública.

A atribuição das insígnias permitia ao soberano reconhecer serviços, manifestar o seu favor e reforçar os laços de fidelidade à Coroa. Neste sentido, a Ordem desempenhava uma função que ultrapassava a esfera religiosa: integrava os mecanismos de representação e afirmação da autoridade régia.

A insígnia era, simultaneamente, um sinal de distinção social e uma declaração de pertença à esfera de influência do monarca.

Este aspeto torna-se particularmente relevante quando consideramos o contexto em que foi criada. A corte portuguesa encontrava-se no Rio de Janeiro, a Europa reorganizava-se depois das guerras napoleónicas e as relações entre os Estados e as instituições religiosas atravessavam profundas mudanças.

A Ordem traduzia, assim, uma conceção tradicional da monarquia, na qual a religião, a dinastia e o reconhecimento público dos serviços prestados se articulavam na legitimação do poder.

5. Legitimação Divina e Poder Político: O duplo papel de D. João VI na criação da Ordem

No plano político, o monarca utilizava a ordem militar e honorífica como um instrumento clássico de governação, recompensando a fidelidade da nobreza e dos servidores do Estado que o haviam apoiado durante a crise das Invasões Francesas e o exílio no Brasil. Tratava-se de reconstruir e consolidar o tecido político do Reino num momento de profunda instabilidade.

No plano religioso, a criação da ordem formalizava a total submissão do poder temporal à proteção divina, personificada em Nossa Senhora da Conceição — a padroeira a quem o próprio D. João IV já havia coroado e entregue o Reino em 1646. Ao instituir a ordem, o “rei político” não agia de forma isolada; ele legitimava as suas decisões governativas e a própria sobrevivência da sua dinastia ao apresentar-se como o “rei religioso”, o guardião e o executor de uma vontade sagrada que ligava o trono diretamente ao altar.

6. O desenho e a atribuição artística

A ficha que acompanha a peça identifica António Gomes da Silva como autor atribuído, com data e local de produção indicados como Rio de Janeiro, 1818, e materiais descritos como ouro, esmalte e seda.

Royal Crown made in Brazil by
António Gomes da Silva in 1817.
Royal Treasure Museum, Lisbon, Portugal

Importa distinguir duas questões: a autoria do exemplar e a conceção do modelo da Ordem.

A documentação do Museu Nacional dos Coches atribui o desenho original da insígnia a Jean-Baptiste Debret, artista francês que trabalhou no Brasil e esteve ligado à representação da corte joanina. Esta atribuição refere-se ao modelo da condecoração e não contradiz, por si só, a atribuição a António Gomes da Silva da execução da peça fotografada.

Jean-Baptiste Debret: auto-retrato publicado em
Voyage pittoresque et historique au Brésil (1834).

A utilização do ouro e dos esmaltes revela a importância material e simbólica do objeto. A seda, por sua vez, permitia que a distinção fosse exibida publicamente através da banda, integrando a insígnia no vestuário cerimonial do agraciado.

A peça deve, portanto, ser apreciada tanto pela sua qualidade artística e técnica como pelo significado histórico que transporta.

7. O regresso a Portugal e o fim da monarquia

Quando D. João VI regressou a Portugal, em 1821, a Ordem continuou a integrar o universo honorífico da monarquia portuguesa. A sua importância manteve-se ao longo do século XIX, distinguindo personalidades de diferentes áreas da sociedade.

A implantação da República, em 1910, marcou uma rutura decisiva: a Ordem foi extinta enquanto distinção oficial da monarquia. A sua memória, contudo, sobreviveu nas insígnias conservadas em coleções públicas e privadas, bem como na história da Casa de Bragança.

A história da Ordem acompanha, deste modo, a própria transformação do Estado português: da monarquia de Antigo Regime à monarquia constitucional e, finalmente, à República.

Conclusão

A Insígnia e a Banda da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, datadas de 1818, constituem um testemunho material da estreita relação entre a fé, a dinastia e o poder régio na história portuguesa.

Criada por D. João VI no Rio de Janeiro, no dia da sua aclamação, a Ordem evocava a proteção de Nossa Senhora da Conceição e recuperava uma tradição estabelecida por D. João IV, em 1646, quando a Virgem foi declarada padroeira do Reino.

A coroa real, o monograma mariano, a estrela radiante e a banda azul-clara com orlas brancas compõem uma linguagem simbólica que associa a devoção religiosa à legitimidade da monarquia.

Há, neste objeto, uma particularidade histórica que merece ser sublinhada: uma Ordem profundamente portuguesa nasceu no Brasil, num momento em que a própria sobrevivência da monarquia dependia da sua capacidade de se adaptar a circunstâncias extraordinárias.

É precisamente essa conjugação entre tradição e circunstância histórica que confere à peça o seu verdadeiro interesse. Mais do que uma condecoração, ela é um testemunho da forma como a monarquia portuguesa procurou preservar a sua identidade, afirmar a sua continuidade e perpetuar a memória dos acontecimentos que marcaram o seu destino.

Retrato de D. Pedro I (IV de Portugal) em traje imperial
Pintura atribuída ou realizada por Simplício Rodrigues de Sá (c. 1826–1830)
Museu Imperial de Petrópolis (Brasil)

D. Miguel
João Baptista Ribeiro (1790-1868) (Pintor)
1828 – 1830
Palácio Nacional de Queluz
Ao peito, as placas das Três Ordens Militares (Cristo, Avis e Santiago), da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, da Ordem de Carlos III e da Ordem da Torre e Espada.
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Fontes para aprofundamento

Fontes Primárias e Arquivos Digitais

  • BRASIL. Arquivo Nacional. Fundo Mesa do Desembargo do Paço e Chancelaria-Mor. Rio de Janeiro. Disponível em: www.gov.br. [Consulta em: 19 out. 2026].
  • BRASIL. Arquivo Nacional. Dicionário de Administração Pública Brasileira do Período Colonial (MAPA). Rio de Janeiro. Disponível em: an.gov.br. [Consulta em: 19 out. 2026].
  • PORTUGAL. Arquivo Histórico Militar. Chancelaria das Antigas Ordens Militares (Período Joanino). Lisboa: Direção de História e Cultura Militar. Disponível em: defesa.gov.pt. [Consulta em: 19 out. 2026].

Fontes Institucionais e Museológicas

  • PORTUGAL. Presidência da República. História das Ordens Honoríficas Portuguesas. Lisboa. Disponível em: presidencia.pt. [Consulta em: 19 out. 2026].
  • PORTUGAL. Museu da Presidência da República. Coleção de Falerística e Insígnias Históricas. Lisboa. Disponível em: presidencia.pt. [Consulta em: 19 out. 2026].

Livros e Artigos Especializados

  • BRAGANÇA, José Vicente de — “As Ordens Militares Portuguesas até ao Reinado de D. João VI”. In ESTRELA, Paulo (coord.) — Ordens e Condecorações Portuguesas. Lisboa: Tribuna da História, 2009. ISBN 978-989-8219-11-4.
  • ESTRELA, Paulo Jorge — Ordens e Condecorações Portuguesas (1793-1824). Lisboa: Tribuna da História, 2011. ISBN 978-989-8219-30-5.
  • MELO, Olímpio de — Ordens Militares Portuguesas e Outras Condecorações. Lisboa: Imprensa Nacional, 1922. (Reedição fac-similada disponível em repositórios digitais públicos).

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, A Insígnia e a Banda da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (1818) (blogue da autora (Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [19 de Outubro de 2026].

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Bicentenário da morte de D. João VI, em 10 de março de 1826 – D. João VI em oração: entre a Capela Real e o oratório privado

Em Queluz existem dois espaços que nos permitem aproximar-nos de duas dimensões da religiosidade de D. João VI: a Capela Real e o seu oratório privado.

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Retrato de Dom João VI, pintado no início do século XIX pelo artista luso-brasileiro José Leandro de Carvalho (Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, Brasil).
A presença da Coroa Real ao lado de D. João VI, em vez de estar colocada na sua cabeça, liga-se diretamente à consagração de Portugal a Nossa Senhora da Conceição (Voto de D. João IV (1646)).

O bicentenário da morte de D. João VI constitui uma oportunidade para revisitar uma dimensão fundamental da sua vida e do seu reinado: a relação com a religião.

No Palácio Nacional de Queluz, essa relação pode ser observada através de dois espaços distintos, mas complementares: a Capela Real, integrada no cerimonial da corte, e o oratório privado dos aposentos do monarca, destinado a uma prática religiosa mais reservada.

É precisamente esta proximidade entre o espaço público da devoção régia e o espaço privado da oração que permite compreender melhor a presença da religião na vida de D. João VI.

A religião no espaço da corte

A religião ocupava um lugar importante na vida da monarquia portuguesa. As celebrações litúrgicas, as festas religiosas e os diferentes momentos do cerimonial régio faziam parte do quotidiano da corte e contribuíam para tornar visível a relação entre a Coroa e a religião católica.

Em Queluz, a Capela Real constituía um dos espaços dessa vivência religiosa. A sua arquitectura, a decoração e a organização do espaço testemunham a importância atribuída ao culto no contexto da residência régia.

A participação do soberano nas cerimónias religiosas tinha, naturalmente, uma dimensão pública. O rei encontrava-se integrado num conjunto de práticas e rituais que davam expressão à própria ordem da corte.

Mas esta dimensão pública não esgota a relação de D. João VI com a religião.

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Capela Real (@Palácio Nacional de Queluz)

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Coro Alto da Capela do Palácio Nacional de Queluz.
Esta magnífica estrutura elevada de madeira dourada e policromada servia de lugar reservado à orquestra, aos músicos e aos cantores durante as celebrações litúrgicas da Família Real.

Um espaço diferente: o oratório privado

Nos aposentos de D. João VI existia um outro espaço destinado à oração: o seu oratório privado.

É aqui que a leitura da religiosidade do monarca ganha uma dimensão particularmente interessante.

Ao contrário da Capela Real, associada ao culto e ao cerimonial da família régia, o oratório encontrava-se integrado numa área mais reservada dos aposentos do rei. Segundo a investigação realizada pela Parques de Sintra, era o espaço onde D. João VI se recolhia quotidianamente em oração.

A recente reconstituição deste espaço, apresentada em 10 de março de 2026, permite-nos hoje aproximar-nos dessa dimensão menos visível da vida do monarca.

Não se trata apenas de reconstruir uma sala.

Trata-se de recuperar um espaço de devoção e, através dele, alguns dos objectos que fizeram parte da experiência religiosa de D. João VI.

📸 @franciscabrancoveiga

«São João Baptista com o Cordeiro»
Autor: Arnaud Pallière (1784–1862)
📸 @franciscabrancoveiga

As imagens da devoção do rei

A investigação realizada para a reconstituição do oratório partiu de diferentes tipos de documentação, entre os quais uma fotografia de 1905, inventários históricos e fontes iconográficas. A conjugação destas informações permitiu identificar peças que pertenciam ao espaço e compreender a sua disposição.

Entre elas destaca-se a pintura de São João Baptista com o Cordeiro, de Arnaud Pallière (1784–1862).

A escolha desta representação não é indiferente: São João Baptista era o santo onomástico de D. João VI.

A pintura apresenta ainda uma característica particularmente significativa. A pequena tela foi aumentada no Brasil, mas manteve-se destacável e portátil, permitindo que o monarca a levasse consigo nas suas deslocações. Após o regresso do Brasil, em 1821, D. João VI determinou que fosse colocada no seu oratório de Queluz. A obra permaneceu associada a esse espaço e encontra-se documentada nos inventários posteriores.

Temos, portanto, algo mais do que uma imagem religiosa colocada num espaço palaciano.

Temos um objecto concretamente associado à vontade do próprio monarca e ao espaço onde se recolhia para rezar.

É um pequeno vestígio material, mas permite-nos aproximar de uma dimensão da religiosidade de D. João VI que não é tão facilmente apreendida através do cerimonial público.

«São José com o Menino»
Autoria é atribuída à Infanta D. Maria Francisca Benedita
A infanta (1746–1829), que foi Princesa do Brasil e cunhada de D. João VI, era uma pintora amadora talentosa, tendo deixado várias obras de temática religiosa que hoje enriquecem o acervo histórico dos palácios nacionais portugueses.
📸 @franciscabrancoveiga

Um pequeno espaço, muitas histórias

«Nossa Senhora da Conceição», uma pintura a óleo sobre tela realizada pelo artista francês Jean-Baptiste Debret em 1818.
A pintura foi concebida no Rio de Janeiro (Brasil) e é profundamente evocativa da Real Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, instituída pelo rei D. João VI a 6 de fevereiro de 1818, precisamente no dia da sua aclamação. Debret, que integrava a Missão Artística Francesa no Brasil, foi também o responsável pelo desenho das insígnias e medalhas desta prestigiada ordem honorífica.
📸 @franciscabrancoveiga

A reconstituição do oratório permitiu igualmente recuperar outras obras relacionadas com a sua decoração.

Entre elas encontra-se Santa Maria Madalena, de Domingos Sequeira, realizada durante a permanência do artista em Roma, e Nossa Senhora da Conceição, de Jean-Baptiste Debret, pintada no Rio de Janeiro em 1816. Esta última acompanhou D. João VI no seu regresso a Portugal, em 1821.

“Santa Maria Madalena” de Domingos Sequeira (1768-1837), elaborada em Roma, quando o artista era pensionista do real bolsinho, ou seja, bolseiro de D. Maria I.
📸 in https://sintranoticias.pt/2026/03/12/queluz-reabre-ao-publico-o-oratorio-de-d-joao-vi-apos-restauro-historico/

Também a pintura de São José com o Menino, atribuída à Infanta D. Maria Francisca Benedita, está relacionada com o conjunto de obras associado ao oratório dos aposentos de D. João VI. A sua presença acrescenta outra dimensão à leitura do espaço e da cultura religiosa da família régia.

A importância destas obras não reside apenas no seu valor artístico.

A sua reunião num espaço de oração permite-nos perceber como as imagens religiosas participavam na construção de um ambiente devocional próprio do soberano.

Entre a devoção régia e a devoção pessoal

A existência, em Queluz, destes dois espaços de oração convida-nos a estabelecer uma distinção importante.

Na Capela Real, encontramos a religião integrada no espaço e no cerimonial da corte.

No oratório privado, aproximamo-nos de uma prática mais reservada, ligada ao quotidiano religioso do monarca.

Não devemos, contudo, transformar esta diferença numa oposição absoluta entre uma religião “pública” e outra exclusivamente “privada”. A religiosidade de um soberano do início do século XIX não pode ser separada facilmente da sua condição régia.

O que o oratório nos permite fazer é aproximar-nos de uma dimensão que o cerimonial, por si só, não consegue revelar.

É precisamente por isso que este pequeno espaço assume uma importância histórica tão grande.

Através dele, podemos observar não apenas o rei perante a corte, mas também o rei no espaço da oração.

Queluz e a transição de um mundo

D. João VI morreu em 1826, num momento de profunda transformação política.

A Revolução Liberal de 1820, a independência do Brasil e a crise sucessória portuguesa tinham alterado profundamente o quadro político em que a monarquia se movia.

A sua morte situa-se, assim, num período de transição entre uma cultura política profundamente marcada pelas estruturas do Antigo Regime e uma nova ordem constitucional.

A religião não desapareceu desse novo mundo. Pelo contrário, continuaria a desempenhar um papel importante na sociedade e na política portuguesa ao longo do século XIX, embora em contextos e sob formas diferentes.

É nesse quadro que a religiosidade de D. João VI deve ser entendida.

A sua devoção não era uma realidade separada da condição régia. Mas também não pode ser reduzida à simples representação pública do poder.

O oratório de Queluz mostra-nos precisamente essa zona de contacto: um espaço integrado na residência do rei, destinado ao culto, mas suficientemente reservado para nos aproximar de uma dimensão mais íntima da sua prática religiosa.

Conclusão

No bicentenário da morte de D. João VI, o oratório privado de Queluz oferece-nos uma oportunidade singular para olhar para o monarca através dos espaços e dos objectos que acompanharam a sua vivência religiosa.

Entre a Capela Real, onde a religião fazia parte do cerimonial da corte, e o oratório privado, onde D. João VI se recolhia para rezar, encontramos duas dimensões de uma mesma cultura religiosa.

A primeira era pública e cerimonial.

A segunda era mais reservada e pessoal.

Nenhuma delas, isoladamente, explica a religiosidade do monarca.

Mas, juntas, permitem-nos compreender melhor a presença da religião na vida de D. João VI e perceber como, dentro do próprio Palácio de Queluz, o rei e o homem de devoção partilhavam os mesmos espaços, embora em circunstâncias diferentes.

Talvez seja precisamente por isso que a reconstituição deste pequeno oratório seja tão importante.

Porque, por detrás do cerimonial da monarquia, também existia um homem que rezava.

E é nesse pequeno espaço de oração que hoje podemos aproximar-nos dele.

Palavras-chave

D. João VI; bicentenário da morte; Palácio Nacional de Queluz; oratório privado; Capela Real; religião; devoção régia; devoção privada; catolicismo; monarquia portuguesa; cultura religiosa; corte portuguesa; Arnaud Pallière; São João Baptista; Domingos Sequeira; Jean-Baptiste Debret; património histórico; Parques de Sintra.

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, Bicentenário da morte de D. João VI, em 10 de março de 1826 – D. João VI, a religião e o Palácio de Queluz (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [05 de Setembro de 2026].

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